sexta-feira, 24 de maio de 2013

A morte do facínora "Matemático"

Opinião de um especialista com a qual concordo em gênero, número e grau:

“A MORTE DO MATEMÁTICO”
 
Domingo, como é de costume, estava assistindo ao Fantástico e vi a chamada sobre a operação policial que resultou na morte do traficante Marcio José Sabino Pereira, o Matemático.
 
Talvez tal operação, da forma que todos viram na tv fosse uma novidade para a sociedade, mas não era para nenhum gestor de segurança pública no Rio de Janeiro, inclusive para mim, que sequer estava envolvido diretamente no planejamento e/ou execução da operação. Novidade pra mim foi ver a surpresa dos operadores de segurança, como se tivessem tido conhecimento da operação, da forma como se deu, somente após a reportagem do Fantástico.
 
Esperei algum tempo para escrever este texto apenas para que todos os “especialistas” em segurança tivessem a oportunidade de se manifestar e dizer, em público, o que foi dito.
 
Quero antes ressaltar que me manifesto em meu nome, mediante um posicionamento PESSOAL e não institucional. Portanto, falo por mim.
 
Ao ver as imagens, tão-somente, podemos tirar várias conclusões, mas estas vão ficar apenas na esfera das conjecturas (se acontecesse isso, aquilo, aquilo outro etc.), pois para se ter uma ideia do que realmente aconteceu naquele dia da operação, somente aqueles que trabalharam, se arriscaram para que o resultado fosse a captura de um marginal. A morte do Matemático se deu por uma escolha dele e de seu bando, ao atentarem contra a vida dos policiais que estavam no helicóptero.
 
As imagens são claras ao mostrar que os primeiros tiros foram dados no asfalto, bem à frente do veículo, depois na direção do seu capô e em seguida, após os disparos dos seus ocupantes, na direção destes, ou seja, a intenção era parar o veículo.
 
Muitos disseram: “mas foi muito tiro, foi desproporcional etc.”. A boa técnica nos ensina que a saturação é a melhor forma de se defender, seja para progredir (por terra) em um ambiente hostil, seja para evitar o abate da aeronave, no caso da operação. Atingir uma aeronave é matar de uma sós vez pelo menos seis policiais.
 
Como alguém pode criticar a operação se não tem conhecimento completo das razões que levaram o gestor de segurança a optar por aquele recurso para tentar prender o Matemático? Alguém já fez a conta de quantos inocentes, policiais e marginais morreram nas várias operações “convencionais” para tentar prender Matemático? Algum inocente foi baleado na operação que ora se discute? Alguém sabe como a polícia sabia que aquele veículo seria o utilizado por Matemático? A tomada de decisão não é fácil, mas no caso em tela foi a mais acertada,  ou seja, utilizar a aeronave para monitorar e abordar o veículo até que a equipe de terra fizesse a aproximação e consequente prisão do Matemático. A operação não saiu como planejado, mas nem por isso perdeu sua legitimidade.
 
Os fatos e circunstâncias da operação foram analisados e avaliados por Delegados, Promotores e Juiz e o resultado foi o reconhecimento da excludente de ilicitude que isentaria os policiais de qualquer punição. O resultado foi esse porque certamente as pessoas envolvidas diretamente na operação tinham conhecimento robusto sobre os fatos e provas que não deixaram dúvida que a ação foi legítima. Será que todos estão equivocados? Certos estão aqueles que agora criticam a ação e pedem providências, sem sequer terem tido a oportunidade de avaliar o que efetivamente motivou a decisão de arquivamento?
 
 
Utilizando o mesmo argumento dos que hoje, sem conhecimento, dão palpite de como a operação deveria ter sido executada, poderíamos argumentar:
 
1.    No caso do ônibus 174 o mais certo teria sido autorizar o atirador a neutralizar o Sandro Barbosa do Nascimento, tirando sua vida aos 21 anos (na época), salvando a vida da jovem Geísa Firmo Gonçalves, de 20 anos?
 
2.    Será que a mesma decisão deveria ter sido tomada em outubro de 2008, quando Lindemberg Fernandes Alves, de 22 anos fez refém a jovem Eloá Cristina Pimentel, de apenas 15 anos?
 
3.    Será que a operação das UPP’s criando um cinturão de segurança que protege primordialmente a Zona Sul está equivocada? Não é o que acham alguns? Alguém tem conhecimento do que levou o gestor de segurança a utilizar esta estratégia? Será que é por isso que não haveria uma operação na zona sul, como a que houve na Coréia? Só quem tem conhecimento pleno pode avaliar e quiçá julgar.
 
Poderíamos citar aqui vários outros casos, mas preferimos esses mais emblemáticos. Erraram os gestores de segurança pública? O Bope ou GATE não tinham profissionais habilitados para efetuar o disparo de comprometimento e neutralizar os agressores? Claro que havia. Mas a decisão tomada foi equivocada? Claro que não. A decisão foi aquela avaliada e medida de acordo com as circunstâncias do momento (conveniência e oportunidade). Nos casos acima os profissionais responsáveis, sérios e competentes, que tomaram a decisão na ocasião, carregam o peso da responsabilidade das consequências até hoje. Naquele momento tomaram suas decisões sem emoção? Como exigir que uma tripulação, em um voo noturno, posicionando uma aeronave abaixo dos 100 metros do solo, mediante fogo do inimigo, pode ter a tranquilidade para decidir e comandar uma ação sem emoção? Só se fosse um psicopata. 
 
O que vemos hoje é uma atitude corajosa, não falo somente do piloto e sua tripulação, pois sua ação foi pautada por uma longa e exaustiva investigação com a participação de várias instituições, ser retribuída por ingratidão, covardia e injustiça. Pensem que tirar a legitimidade da ação é enfraquecer todas as instituições que trabalharam ombreadas, engajadas no propósito de tirar das ruas e do convívio da sociedade um marginal tão sanguinário e covarde como o Matemático.
 
Será que se tivesse havido lesão a direito de alguém da comunidade da Coréia isso não teria repercussão imediata? Passados quase um ano e ninguém da comunidade reclamou? Nenhuma bala perdida?
 
Sinceramente, sobre tudo que ouvi nesta semana chego as seguintes conclusões:
 
                         I.        Não há qualquer ilegalidade na operação e ela foi legítima. Que se apure, mas garanto que o resultado será o mesmo, ou seja, o arquivamento do inquérito, reconhecendo a excludente de ilicitude;
 
                       II.        Não devemos criticar os “especialistas” em segurança pelos seus posicionamentos, pois é livre a manifestação da palavra, mesmo que seja o direito de falar besteira;
 
 
                      III.        Não devemos criticar a emissora que divulgou as imagens, pois se não fosse ela, seria outra. Particularmente, assisti e a todos os envolvidos foi dado o direito de falar e o que apareceu foi o que realmente aconteceu.
 
                     IV.        A única pessoa, a meu ver, que deveria ter seu ato apurado e se for o caso, ser responsabilizada, penal e administrativamente, foi aquela que cedeu as imagens para a emissora. Esta pessoa sim, expôs uma ferramenta importante na atuação policial, expôs o método de investigação e principalmente expôs as pessoas, os policiais que participaram efetivamente da operação, mas notadamente o piloto. Quem garantirá, após esta exposição, a segurança dos policiais e de suas famílias ?
 
Ser honesto, competente e vocacionado para a atividade policial é o ideal, mas o que nos faz diferente é ter CORAGEM. Isso distingue os meninos dos Homens. Política é para políticos, segurança é para técnicos.
 
Rio de Janeiro, 08 de maio de 2013
 
Victor Cesar Carvalho do Santos
Delegado de Polícia Federal
Classe Especial – Mat. 8081

4 comentários:

Paulo Xavier disse...

Cel Larangeira.
Qualquer cidadão comum e de bem, não precisa ser tão inteligente assim, tampouco precisa entender de segurança pública; com certeza apoiou aquela operação policial em que o bandido matemático foi posto fora de combate.
Digo isso com a clareza e a sensibilidade de que convive com os múltiplos setores de uma sociedade diversificada, desde o mais humilde "peão de trecho" ao mais graduado profissional de nível superior onde a opinião no seio da sociedade é quase unânime na defesa dos policiais. Estão subestimando a inteligência do povo que clama por segurança.
Também concordo com as palavras do Dr Victor Cesar, e a pergunta que mais ouço por aí é: Por que estão defendendo tanto esse bandido? Qual interesse há por trás disso?
Creio que esse assunto vai render e a verdade ainda
virá à tona. Um abraço. Paulo Xavier

Anônimo disse...

Simplesmente espetacular.Também concordo em gênero,número e grau!!!!!.

Eliana Gerânio Honório disse...


Assisti, foi desagradável.
Senti um certo acanhamento...
Acompanhei nos jornais anos a fio
os crimes do bandido.

Anônimo disse...

Emir disse

Cara Eliana

É sempre muito desagradável uma cena dessa. Mas seria bom lembrar da cena do helicóptero da polícia se espatifando no chão não faz muito tempo, quando todos os tripulantes (policiais) morreram dilacerados e incinerados. A cena foi terrível. Aliás, qualquer cena de morte, mesmo as mais singelas (se é que existe singeleza na morte), não são boas de se ver. A profissão policial é terrível, pois o policial é obrigado a lidar com a morte dos seus semelhantes sempre de maneira trágica, assim como os bombeiros e mais ainda os médicos em emergências. Nada disso é agradável, como também lidar com corpos mortos (necropsia) é brutal. Enfim, a morte faz parte da existência humana, porém não é bem-vinda em nenhuma situação, mesmo que seja a morte de um bandido. Fique certa de que a sua reação não difere das dos demais seres humanos, incluindo os policiais que atiraram contra o facínora, lembrando que antes o helicóptero já fora atingido por tiros. Não caiu porque o calibre foi insuficiente. E se a carcaça metálica não fosse capaz de suportar os balaços disparados pelos bandidos? Não é o caso de avaliar se o bandido matou muita gente de tiro ou servindo drogas. Ali a situação era de risco enorme, mesmo que o bandido fosse um principiante.
Obrigado pela sincera opinião, que me permitiu estender um pensamento a respeito.