segunda-feira, 30 de abril de 2012

"VIVA O POVO BRASILEIRO!"


Sou um cidadão brasileiro envergonhado. Vivencio longo tempo de sucesso dos facínoras a me impingirem pecados até nas virtudes que suponho ter. Fazem comigo o que os Trinta Tiranos fizeram com o filósofo por “crer em deuses em vez de crer em deuses”. Mas, para meu gáudio, os tiranos de hoje, ladrões de casaca, finalmente ocupam como tais o noticiário, fato raríssimo num país em que tudo é “culpa do regime militar”. Sim, é como os finórios justificam e se justificam ante a flagrada roubalheira. A não ser que sejam eles, e elas, semideuses e deuses, e, portanto, impecáveis. Sim, para se sentirem semideuses ou deuses (não sentem; têm certeza) basta-lhes ostentar sobrenomes aristocráticos e prestar concurso público com a indefectível prova oral decidindo a sorte dos sortudos de pia e o azar dos azarados de berço; ou então vencer eleições a peso de ouro pirateado dos cofres públicos...



Esse pessoal nobilíssimo, em nome da lei e abusando dela, acusa quem bem entende e põe genuflexos os que lhes deveriam travar o ímpeto indecoroso, mas que igualmente se ocultam em covardes tecnicismos, como se a natureza humana lhes pertencesse de corpo e alma. São eles e elas travestidos em ternos, tailleurs e togas de injustiça. E é nesse caldo apodrecido que todos chafurdam à larga, sempre em locais discretos, até que o poderoso Destino descortine uma ponta do nojoso iceberg, como o de Brasília, ou de Paris, para a vergonha predominar em todo o país. Mas (que nada!), em vez de vergonha, o que prevalece é a sem-vergonhice do poder desmedido, este que só se desfará por milagre ou revolução, sendo esta última a única maneira de destruir tiranias, e a pior delas é a nossa, dissimulada em “justa democracia” – a das roubalheiras e festas faraônicas de autoridades públicas em países estrangeiros, com o nosso dinheiro transformado em vinhos finos e pratos sofisticados, sem falar em luxuosas hospedagens e especialíssimos transportes aéreos e terrestres, ou nos calçados de solado vermelho e roupas de grife: um luxo só. Que vidão!... Enquanto isso, o povo brasileiro sofre o peso das leis injustas a manterem incólumes “a ordem, a hierarquia e a disciplina”, deste modo garantindo um silêncio conformado ou o panis et circences (“Mas as pessoas da sala de jantar/ São ocupadas em nascer e morrer...”). Que contradição espantosa! Que vergonha!...


Tá certo! Tem de ser assim para compensar as feijoadas paupérrimas e os churrascos de chã de fora servidos nos currais eleitorais. E esses charmosos novos-ricos, de algibeiras lotadas do dinheiro surrupiado de cofres públicos, não estão nem aí para os togados que lhes deveriam punir, mas não o fazem. Afinal, esses poderosos burocratas é pelos ladrões nomeados em vitaliciedade que os coloca acima das leis e até de Deus, usurpando-Lhe a infalibilidade para uso espúrio no mundo dos vivaldinos. E assim o conceito de moral, decência, inocência, tranquilidade como valores conformadores da dignidade humana dá lugar à arrogância de quem manda e desmanda impunemente, claro que com amparo nas leis que eles próprios aprovam, interpretam e utilizam ao bel-prazer de suas conveniências; aliás, as leis escritas nem aprimoram as naturais no sentido de lhes eliminar as barbáries; na verdade, as formais superam em barbárie quaisquer leis de natureza.



E assim o mundo seguirá, até que haja a reação, como a da Líbia, país que muito em breve estará pior que antes, porque, morto o ditador infalível, outros como ele emergirão dos micropoderes em disputa e vencerá o mais forte. E novamente a tirania comandará o espetáculo, mesmo dissimulada em democracia ou algo que se lhe aparente. Eis como é o lugar onde passivamente assistimos o predomínio da tirania defensora de imoralidades e ilegalidades dissimuladas em direitos humanos. Sim, leis imorais e antiéticas, como soem ser as leis tiranas, piores ainda num falso regime democrático como o nosso, brasileiro, que põe os pés de chinelo no cárcere por meio de acusações bombásticas, enquanto os ladrões de casaca roubam milhões para gastar em festanças. E tudo culmina na conta do regime militar, que é passado e não roubou! Ah, a roubalheira é agora! Enquanto isso, o povo aposta nos larápios em troca de um quilo de feijão, que custa baratinho no armazém, mas, para os cofres públicos, que o distribui paternalisticamente, custa um “saco de dinheiro”.


domingo, 29 de abril de 2012

A Trapaça dos "Onze de Acari" (TOMO I)

“Existem objetos como as rochas e os abridores de latas, que simplesmente existem e podem ser completamente explicados por uma lista de suas propriedades. E existem coisas que somente podem ser explicadas contando uma história. Para as coisas do segundo tipo, uma simples descrição nunca é suficiente. Uma história é a única descrição adequada para elas, porque entidades como as pessoas e as culturas não são de fato coisas, mas sim processos que se desenvolvem no tempo.” (Smolin, Lee – Três Caminhos para a Gravidade Quântica)






Vou contar uma história... Do estranho compadrio de arapongas com sistemas formais e informais que explode como bomba atômica em Brasília destaca-se o “intercâmbio” do personagem de codinome “Dadá” com membros do MP, fedentina sabe-se lá de que extensão no panorama geral da podridão que jorra na mídia em espantoso torvelinho. E o miasma exala de um senador até então tido como vestal, quiçá por ser membro do MP brasiliense e elevado ao elevadíssimo cargo de Procurador-Geral de Justiça antes de enveredar-se pela vida parlamentar. O problema é gravíssimo, não se há de negar, a relação do senador com o bicheiro é antiga e os milhões são muitos... Mas a explosão brasiliense não é a primeira nem a única a fazer aflorar esse método escuso de intelligentia a unir em malignidade organismos ministeriais e arapongas. Já vi e protagonizei esse filme antes e ainda agora o protagonizo.
Não sei de outros Estados Federados. Posso, entretanto, falar do RJ e da intrincada rede engolfando no poder político diversos membros do MP a partir da gestão do Sr. Leonel Brizola – inclusive ocupando cargos no DETRAN, DESIPE, PALÁCIO GUANABARA etc. Lembrando o cancioneiro a dizer que o que é bom, “é ilegal, imoral ou engorda”, pior ainda foi no segundo período brizolista: a promiscuidade do MP com arapongas, que antes era imperceptível ou até nenhuma, como se fosse a “coisa” explicada pelo físico quântico, tornou-se escancarada – um “processo” a merecer se tornar “história”: muitos arapongas, até ex-chefes da PM.2 (Comunidade de Informações) atuaram e ainda atuam na estrutura de intelligentia do MP, e vice-versa (não sei hoje, mas no passado era corriqueira a presença de promotores de justiça fazendo não sei quê nos obscuros corredores e salas da PM.2), não se sabendo até que ponto essas maquinações foram e são inconfessáveis nem quem são atualmente seus alvos preferenciais. Exceto eu, sempre um alvo predileto dessa facção formada por alguns promotores de justiça plantados e proliferados no feraz terreno político-ideológico-pedetista-petista. E foram e são sobremodo ferozes contra mim desde a era Biscaia (Antonio Carlos Silva Biscaia), procurador de justiça, inegável militante pedetista e depois petista, primeiro a usar a arapongagem a serviço de sua causa político-ideológica desde quando exercia o cargo de Procurador-Geral de Justiça, claro que ostentando o mesmo ar de seriedade que caracterizava o seu desmoralizado colega de Brasília.
Não exagero e sei até que me arrisco ao me enfiar nesse vespeiro... Por isso não devo ao delicado tema acrescer uma linha, ou qualquer palavra, se não houver prova documental sobre o que infiro. Porém, uso a técnica de inferência como um direito, desde que ela traduza alguma verdade substancial. É como aqui tentarei reconstituir um fato que a mim se refere direta ou indiretamente, e que me vem produzindo imerecido mal. Sim, buscarei retratar a insídia que me atingiu e ainda me atinge, visando a desmascará-la pela junção de partes aparentemente soltas ao vento, mas que, na realidade, formam um todo sinérgico. Sim, sim, é como me interessa resgatar uma nesga de história do infelicitado RJ a partir do livro Comando Vermelho – A História Secreta do Crime Organizado, de autoria do jornalista Carlos Amorim, publicado em 1993 pela Editora Record. Porque o texto registra um incredível conluio do PDT com o CV em virtude duma doentia ânsia de vencer as eleições de 1982, conjunção imoral que tornou Brizola governador do RJ após seu retorno do exílio. E, dentre tantas situações comprometedoras, destaco o episódio ocorrido no Presídio da ilha Grande, ipsis litteris do supracitado livro:

“(...). Na Ilha Grande, diante de toda a imprensa, um acontecimento insólito: a autoridade pública é recebida por um dos 'vermelhos', um dos novos xerifes da prisão, Rogério Lengruber, o Bagulhão. O representante do Comando Vermelho veste bermudas, camisetas e sandálias havaianas. Mete o dedo na cara do secretário de Justiça e comunica a ele que os presos estão cansados de ouvir o blablablá do governo (...). No dia 30 de setembro, uma quinta-feira, os homens de confiança do governador Brizola se reúnem secretamente num anexo do Palácio Guanabara. O motivo do encontro é a incontrolável violência nas cadeias. A conversa a portas fechadas dura toda a noite e parte da madrugada. Estão presentes o secretário Vivaldo Barbosa e seu subsecretário Antônio Biscaia, o secretário de Polícia Arnaldo Campana, o comandante da PM, coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, o Diretor do DESIPE, Avelino Gomes...” (AMORIM, Carlos. COMANDO VERMELHO – A história secreta do crime organizado – Ed. Record, 1993, págs. 149-157). (Grifos meus nos membros do MP e no prócer do CV)

Porém, foi no retorno de Brizola ao poder (1991-1994) que Biscaia, com sua trupe de iguais em função, assumiu a PGJ com poderes ilimitados. E incorporou a Comunidade de Informações da PMERJ como seu braço de força logo no início desse período, por conta do episódio conhecido como “Onze de Acari”, em alusão ao desaparecimento de onze jovens (rapazes e namoradas) da Favela de Acari, no mês de julho de 1990. O entrosamento secreto da turma de Biscaia com Brum e equipes da CI (Corregedoria Interna), da DPJM (Delegacia de Polícia Judiciária Militar) e da PM.2 (Comunidade de Informações) pode ser constatado pela leitura do livreto do jornalista Carlos Nobre, intitulado Mães de Acari – Uma história de luta contra a impunidade, publicado pela Editora Relume Dumará. Neste livro, publicado sob os auspícios do CEAP (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas), presidido pelo notório petista Ivanir dos Santos, há significativas referências a membros do MP e da arapongagem da PMERJ e a alguns políticos de esquerda, em especial do PT:

“Em perfeita sintonia com esse tempo intolerante, o jornalista Carlos Nobre talvez tenha escrito um dos retratos mais contundentes sobre a morte institucionalizada no Rio de Janeiro.” (Benedita da Silva – Deputada Federal)

“Em nome de quê, em nome de quem? Onde estará a razão de que a humanidade é dotada? Eis o que este livro exprime. É para mim, é para a France-Libertés uma honra associar-se a este canto de dor.” (Danielle Mitterrand – Presidente da Fundação France-Libertés)

“Estamos ameaçados de morte, e uma das Mães de Acari, dona Edméia da Silva Eusébio, foi assassinada. Não temos como recuar. Este livro é uma das expressões da nossa luta, da nossa crença.” (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas – CEAP)

“Pierre Fatumbi Verger, em Os libertos, relaciona-nos a história de Ajayi, um jovem africano, nascido em Oxogum e trazido para o Brasil como escravo. Foi ele capturado em 1821 por mercadores mulçumanos, juntamente com sua mãe, duas irmãs e um primo. Levado para Iseyin, no dia seguinte foi separado de sua mãe e seus parentes, e vendido como escravo aos 13 anos de idade. (...) A edição do presente livro é de suma importância, perpetua todos os dados nele contidos e leva-os ao conhecimento do grande público. Isso é necessário, no momento político por nós vivido. Após, não será possível dizer ‘eu não sabia’. Saibam: é assim mesmo que as coisas acontecem. (...) Mas, um dia, mudará!” (Tania Maria Salles Moreira – Promotora de Justiça da 4ª vara Criminal de Duque de Caxias – Baixada Fluminense. Texto extraído da quarta capa e da orelha de capa do livro de Carlos Nobre). (Grifo meu)

Não vou aqui reeditar a íntegra do livreto, mas não posso deixar de chegar ao ponto principal do que entendo por conluio-político-institucional-ideológico gravado por Carlos Nobre num misto de ficção e realidade a se confundirem mutuamente em sugestões ilícitas para atingir desafetos e elogiar aliados. E, sobre os aliados, ressalte-se, ipsis litteris:

“Entidades e pessoas foram fundamentais para a produção deste livro. Agradeço o incentivo da Fundação Frances-Libertés, do Comitê de Solidariedade França-Brasil e da primeira dama francesa Danielle Mitterrand. Agradeço também aos militantes e funcionários do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (...). Sem a clarividência de Tania Maria Salles Moreira muitas passagens deste livro estariam nubladas. Obrigado também aos militantes do Movimento Negro (...). O procurador-geral de justiça Antonio Carlos Biscaia foi simpático em relação ao livro, assim como os promotores da Assessoria de Direitos Humanos; o coronel Brum foi uma luz nas partes obscuras desta história; as Mães de Acari e toda a comunidade nos deram lições de vida. Ivanir dos Santos foi um importante autor intelectual desta obra: agradeço muito pelo convite.” (Agradecimentos extraídos do livreto em comento. Grifos meus)

Chumbo grosso!... Como não creio em coincidência, e lido aqui com realidade, não me será difícil reconstituir a trapaça havida em 1993, mas que se reporta aos idos de 1991 e ao fato mais específico duma tentativa de “reconhecimento”, em sede da PCERJ, tendo de um lado as “mães de Acari”, o então Capitão PM Odilon e um conhecido advogado de traficantes, Dr. Salvador Meneses Couto, e do outro lado PMs selecionado pela PM.2 de Brum como supostos autores e culpados de extorsão e do sequestro dos “Onze de Acari” (o fato teria ocorrido em julho de 1990, sendo certo que eu não mais comandava o nono batalhão; entreguei o comando a outro tenente-coronel em 10 de abril de 1990). Com efeito, até hoje não se sabe de que “critérios investigativos” Brum fez uso para listar os PMs, supondo-se até a possibilidade de o referido “investigador” ter-se escorado em mensagens vindas do além, como ele mesmo admite no livreto e confirma em juízo do II Tribunal do Júri (Processo sobre a chacina de Vigário Geral) ser verossímil tudo o que disse e foi publicado por Carlos Nobre:

“(...) O coronel achou interessante o relato de Marilene. Não descartava nada nas investigações, nem mesmo mensagens vindas do além. Afinal, ele devia a própria carreira militar às ligações de sua família com o espiritismo. – Um tio, sempre que nos visitava, incorporava uma entidade da umbanda chamada Pai Joaquim de nagô. Era um preto-velho africano. Um dia ele disse que eu seria o único ‘canela-preta’ da família – conta o coronel. (...) Sou um investigador que tem um leque muito grande para abrir. Sou intuitivo, um homem ligado ao mundo espiritual. Utilizo a investigação espírita para chegar a fatos concretos. Não vejo nada demais nisso. Nada que me possa ridicularizar como policial.” (NOBRE, Carlos – Mães de Acari - Uma história de luta contra a impunidade – Editora Relume-Dumará, Rio de janeiro, 1994, págs.55-57)

Nem é preciso mais registro nem devo grifar nada, este resumo é o que basta para entender a “metodologia investigativa” de Brum ao selecionar seus alvos a serem “reconhecidos” pelo advogado de traficantes, para, em seguida, as “mães de Acari” confirmarem a escolha dele, tudo criteriosamente orquestrado pelo capitão Odilon, subordinado de Brum. Só não contavam com um obstáculo de última hora: pediu-me socorro um dos listados, ex-PM já falecido, Paulo Roberto Borges da Silva, que estranhara a desenvolta presença dum advogado de bandidos de Acari (Dr. Salvador Meneses Couto); levei então um advogado criminalista, ilustre e digno presidente da OAB de São Gonçalo, Dr. Jorge Antônio da Silva, para patrocinar o solicitante caso fosse necessário. E lá na SSP, depois de avistar o capitão PM Odilon (que fingiu não me reconhecer na maior caradura) junto com o Dr. Salvador Menezes Couto, em sugestivo conluio, deixei o Dr. Jorge Antônio da Silva e fui ao gabinete do Dr. Nilo Batista para denunciar a trama que se verificava debaixo de seus pés. Depois de fazê-lo, obtendo dele a garantia de que não aprovaria nada que fosse ilegal, retirei-me sem tornar ao andar da tramoia e sem avistar as “mães de Acari”.
Sobre a trapaça que ocorreria, basta ler a entrevista de Edméia da Silva Eusébio, uma das “mães de Acari”, publicada no livreto de Carlos Nobre. As perguntas são da mente dele, algumas bastante sugestivas, mas as respostas dela deixam evidente a farsa que caiu por terra ante a OAB representada pelo presidente da seccional de São Gonçalo. Ponho antes o relatório produzido na PM.2 pelo capitão PM Odilon (por sinal, só rubricado para lhe ocultar a autoria, típica de araponga) e apenas parte da entrevista da “mãe de Acari”, esta que sugere claramente a trapaça orquestrada por arapongas com o Dr. Salvador Meneses Couto. Enfim, não estou dizendo nada, quem diz é a própria Edméia da Silva Eusébio, frustrada com inesperado desfecho contrário à sua vontade, com ressalva, porém, quando as indagações do jornalista a mim se referem e praticamente sugerem respostas esperadas para ajustá-las ao meu conceito de “vilão” traçado no livreco.
Vale também o relatório do capitão Odilon a deixar evidente não ter eu permanecido no local do reconhecimento como insinua a entrevistada. A discrepância, decerto, resulta da falta de sintonia do jornalista com o capitão Odilon. Se houvesse, o relatório estaria diferente ou a entrevista teria tomado outro rumo para ajustar uma mentira à outra. Mas como o fato é muito anterior ao livro, e à entrevista, e por talvez o jornalista desconhecer a verdade contida no relato do capitão, houve a discrepância de a Edméia afirmar ter eu permanecido no andar do reconhecimento fazendo “cara feia” (“ameaçadora”) para ela, o que efetivamente não aconteceu, não avistei nenhuma “mãe de Acari” no recinto onde rapidamente circulei até me retirar, lá deixando o Dr. Jorge Antônio da Silva e mais ninguém.
Mas o que importa, para encerrar a esta parte, é demonstrar que o entrosamento do Ministério Público com a PM.2 começa no episódio das “mães de Acari” e se acirra definitivamente em três fatos posteriores: as chacinas da Candelária e de Vigário Geral e a apreensão da “lista do bicho”, fato que gerou muita polêmica e cuja verdade nele embutida jamais será descortinada por esses dois organismos estatais que agiram em inconfessável concurso de vontades nos porões do serviço secreto da PMERJ.























Eis na mesa os documentos geradores da celeuma (lista dos que deveriam ser reconhecidos na trapaça montada nos bastidores da PCERJ pela PM.2 e o relatório do capitão PM Odilon). Ressalte-se que o tumulto havido no local não foi pela presença do Advogado, Dr. Jorge Antônio da Silva, presidente da OAB/SG e assessor do então deputado Emir Larangeira. Como se pode inferir da leitura do relatório, o clima de tumulto aduzido pelo capitão PM Odilon em seu relatório somente rubricado ficou por conta de policiais civis. Neste ponto é fácil perceber, pela fala da “mãe de Acari” Edméia da Silva Eusébio, como o assunto foi deturpado pelo entrevistador Carlos Nobre, destacando-se do inteiro teor da entrevista dela as seguintes indagações e respostas acompanhadas de alguns comentários em caixa-alta (...)

CARLOS NOBRE – Quem era o doutor Salvador? Era advogado dos PMs?:

EDMÉIA – Não, ela andava por aí (FAVELA DE ACARI, ONDE PROVAVELMENTE OCORREU A ENTREVISTA). Como a menina conhecia ele... ele marcou dar os 150 mil que restavam no outro dia. O doutor Salvador veio buscar o dinheiro que faltava. Na segunda-feira, veio um dos PMs que eu não lembro o nome... e falou que ia matar o Moi e o Edinho, porque eles estavam devendo dinheiro a ele. Houve esse problema todo e começou a caça (...)

CARLOS NOBRE – E a participação do coronel Emir Larangeira nisso tudo? Na época ela comandava o 9º BPM?

EDMÉIA – É, o pessoal dele extorquia para bancar o Larangeira. Era tudo a mando dele. Ele também manda matar.

(OBS.: EU NÃO MAIS COMANDAVA O NONO BATALHÃO EM JULHO DE 1990, COMO JÁ ESCLARECI)

CARLOS NOBRE – Tem um grupo de extermínio?

EDMÉIA – Foi esse grupo que veio aqui em casa. O coronel criou esse grupo para matar. Ele também mandou matar om irmão do dono do tráfico de Acari. O nome do rapaz era Paulinho. Foi o Larangeira e o Peninha.



(DESCARADA INDUÇÃO DO JORNALISTA)

CARLOS NOBRE – O Peninha estava nisso tudo? O Peninha de Magé?

EDMÉIA – O Peninha estava nesse trabalho, sim. Ele servia o Larangeira. Os policiais do Larangeira estavam junto, e ele, na área dele, na? Ele é exterminador. Como é que eu sou exterminador, você vai estar nom seu grupo aqui dentro e eu não vou estar participando?

CARLOS NOBRE – E então?

EDMÉIA – Então o Ivanir (IVANIR DOS SANTOS, do CEAP), da Comissão Especial, mandou investigar. Aí o Bira (PESSOA DA FAVELA) começou a dizer que ia matar eu, a S., a Penha e a Neném. Com medo disso, o Ivanir pediu pra botar segurança pra gente: ‘ Vão acabar matando uma mulher dessas, e vai ficar pior. ‘O Bira vinha pulando pelos muros, lá da frente pra trás, com o revólver. Mas via a barreira, e entrava na casa da mãe dele. De repente, quando o Ivanir já estava no cafofo, como diz na gíria, tiraram ele da Comissão especial. O Larangeira tirou o Ivanir.

CARLOS NOBRE – A senhora acha que o Larangeira interferiu para ele (IVANIR DOS SANTOS) sair?

EDMÉIA – Deve ter interferido, porque no reconhecimento dos PMs me botou em pânico.

(DESCARADA INDUÇÃO DO JORNALISTA)

CARLOS NOBRE – A senhora reconheceu algum dos PMs que fizeram a extorsão?

EDMÉIA – Não. Eu não estava em condições, mas a menina reconheceu. Um ano depois, a Rosângela reconheceu todos eles.

CARLOS NOBRE – Quem mais participou do reconhecimento?

EDMÉIA – O advogado, o Salvador. Estava também o advogado do Larangeira e o capitão Odilon, que investigava o caso com o coronel Brum. Em não reconheci nenhum. Quem eu conhecia não apareceu. Então, enquanto a menina reconhecia, o salvador falou: ‘Eu vou reconhecer porque quero ajudar vocês. Isso é muita bagunça, é muita sacanagem. Onde estão os polícia? Isto é o Salvador falando. Mas tava de truta com eles, né? Aí, o filho da puta, esse veado desse advogado, me botou em pânico. Eu tremia tanto que o prédio termia. Parecia que as paredes iam cair em cima de mim. E me deu febre, eu fiquei ruim, não podia andar. Ele, o advogado, falou: ‘Eu vou reconhecer primeiro. Depois você reconhece.’ Quando chegou a hora, os PMs passavam todos na frente... E ele dizendo: ‘Não. Não.’ Aí, eu falei, na hora: ‘Ele tem participação com os polícias. Ele tem de ser cobrado.’ Tanto que ele sumiu daqui também.

CARLOS NOBRE – Qual era o papel do salvador aqui (NA FAVELA)?

EDMÉIA – Eu acho que ele andava assaltando até os marginais. Arrumava dinheiro fácil. Vinha aqui, a polícia tava ali na esquina, ele levava para a polícia: ‘Quero meus honorários.’

CARLOS NOBRE – Então, os policiais pegavam dinheiro do pessoal daqui e o advogado tirava dinheiro dos policiais?

EDMÉIA – Não, acho que o acorde dele era comer junto com os policiais. Acho que quando ele apanhou o nosso, ele comeu. E os policiais alegam que ele não pagou a segunda parte da extorsão. Falaram na minha cara.

CARLOS NOBRE – Esse doutor Salvador, como foi que ele apareceu? Ele tem alguma ligação com a Larangeira?

(DESCARADA INDUÇÃO DO JORNALISTA)

EDMÉIA – Eu não sei de onde ele apareceu, porque nunca tinha visto ele aqui antes. Mas a ligação dele com o Larangeira está na cara. Pra ele não querer fazer o reconhecimento... Ele abandonou a gente. Passava PM e ele, nada. O Larangeira olhava para mim com uma cara de ‘eu vou te matar’ e dizia: ‘Não adianta, que vai melar.’ Até há pouco tempo, ele dizia que ia melar. Eu recebi um recado de gente alta, igual a ele, de lá de dentro, que eles estavam armando. Corri pra botar na reportagem... mas a gente sempre tem medo dele, porque é um safado, ele é exterminador. Do mesmo modo como ele matou o Paulinho, irmão do traficante Cy, ele pode matar a gente. Quando o menino começou a depor para o juiz, ele deu um jeito e matou o garoto. Olha, que ele também vai me matar... mas eu não tenho medo deles, não. Esse é o problema do nosso país. (...)

A longa entrevista, embora maculada por sugestões de respostas a partir de perguntas induzidas, deixa evidente que o tal “reconhecimento” não passava de farsa. Quanto ao Dr. Salvador Meneses Couto, até eu já o conhecia por conta de processo no qual ele próprio me arrolara como testemunha em ação penal deflagrada contra dois traficantes da favela de Acari (clientes dele), cuja reportagem adiante se destaca. A operação policial destinava-se a demonstrar à imprensa que a quantidade de viciados frequentadores da favela de Acari era impressionante, o que garantia um faturamento absurdo, alguns milhões de dólares/mês. Foram presos em flagrante dois bandidos após trocarem tiros com as guarnições. Prestei depoimento no referido processo e os bandidos foram condenados a 16 anos de reclusão, sentença confirmada em segunda instância, prova cabal de que o referido advogado não estava lá na SSP para defender PMs e muito menos para atender a algum interesse meu. Aliás, foi a estranha presença dele a única motivação de o ex-PM Paulo Roberto Borges da Silva ter-me solicitado o patrocínio de advogado, no caso o Dr. Jorge Antônio da Silva, que efetivamente lá permaneceu, mas não foi necessária sua intervenção: o PM não foi reconhecido por ninguém. Eis a matéria, muito expressiva, por sinal; é só conferir o inquérito pela data para se chegar ao processo e confirmar ter sido o Dr. Salvador Meneses Couto defensor dos réus. Resta saber por que ele estava lá, no local do “reconhecimento”, em compadrio com o capitão Odilon... Quanto à afirmação deste capitão de que eu permaneci na SSP, ele mente, pois não sabe por quanto tempo o Dr. Nilo Batista gentilmente me recebeu, retribuindo minha manifestação de respeito pela autoridade dele ao visitar as dependências que ele comandava na condição de vice-governador e secretário de Segurança Pública.


















Muitos por esta hora indagarão: “Por que o tema? Assunto morto, mais de 20 anos, por que ressuscitá-lo?” Ora, não estranhem, prezados leitores, o retorno ao tema procede, e em bom momento o escândalo brasiliense me inspira a relembrar as atrocidades que ocorreram a ainda ocorrem aqui no RJ por conta do entrosamento espúrio entre membros do MP e arapongas da PMERJ, embora abundem sentenças judiciais condenando essa prática detetivesca. Mas a verdade é que ela está viva e permanece transtornando a vida de muita gente inocente apenas para aplacar iras refreadas durante algum tempo e em virtude de decisões judiciais reprovadoras dessas condutas cujos personagens, pasmem, são os mesmos! Há, porém, novos xerimbabos que se vendem em vez de representarem condignamente suas nobres funções policiais e ministeriais. Em vez disso, porém, atacam em tocaia nojosa os alvos de sempre, inconformados por não lograrem êxito em suas trapaças e violências passadas. “Nada de novo sob o sol”, diria o filósofo, os fins políticos no Brasil se resumem ao que outro dia disse um ministro do STF: “O Poder Executivo no Brasil é imperial, não é republicano.” Eu diria mais: “Não é imperial nem republicano: é tirano!”.
A esse caldo de vergonhosa trapaça devemos ainda acrescer a malsinada apuração da chacina da Candelária, que, por conta do mesmo “investigador espiritual”, Brum, transformou inocentes em monstros. O procedimento, para variar, foi o mesmo – um “reconhecimento” – que ao final encarcerou um PM negro por existir um suposto “Pelé” como chacinador, um tenente PM e um serralheiro que, paradoxalmente, socorreram uma das vítimas depois instada a apontar os dois últimos como seus carrascos. Não bastasse, a trama repetiu-se no episódio conhecido como chacina de Vigário Geral, outro “reconhecimento” treinado e perpetrado por um bandido do Comando Vermelho cuja folha penal é de arrepiar. Claro que, conforme a história nos demonstra, o bandido teria de ser do CV e possuir liame material com Rogério Lengruber (o “Bagulhão”), aquele mesmo citado lá no início (dois assaltos a banco com parceiros do líder do CV em outros assaltos enquadrados na Lei de Segurança Nacional). Vejam os leitores o perfil-síntese do marginal Ivan Custódio Barbosa de Lima, usado para “reconhecer” inocentes injustamente acusados pelo bárbaro crime, sendo forte a possibilidade de ser ele, sim, um dos reais chacinadores que jamais acusaria seus verdadeiros parceiros no horrendo crime.












Desse emaranhado de trapaças que se ligam de algum modo, emerge o principal araponga, coronel PM Valmir Alves Brum, que no episódio conhecido como “Lista do Bicho” destacou-se pelo vedetismo a ponto de ser afastado do poder pelo comando da PMERJ (sem macular seu prestígio junto ao MP, com o qual atuou intensamente). A Nota Oficial da PMERJ, encerrando este tomo falará por mim:



É o que, por enquanto, basta!




segunda-feira, 23 de abril de 2012

“UPP em Niterói já!”



O cartaz é bom exemplo da desatenção do niteroiense com a segurança pública. É nada mais que efeito de manipulação midiática, tudo agora é UPP! De modo que essas manifestações emocionais, como Niterói é cidade praiana, “morrerão na praia”... Porque, mesmo sendo justa a reclamação, a insegurança pública de Niterói não difere da de São Gonçalo, Maricá, Itaboraí e algures. Na realidade, prende-se ao aberrante esvaziamento do antigo RJ desde a fusão (1975). Portanto, reduzir tão tamanhão problema à instalação de UPP em Niterói sugere nada mais que inútil chiadeira. Até põe em dúvida o fato de Niterói ser uma das cidades mais escolarizadas do país. Que o seja, mas não se comporta como tal ao questionar a segurança pública com o reducionismo que se vê nessas manifestações de poucas gentes. Ora, elas são inócuas e receberão respostas não mais que imediatistas, até que a onda de protesto se desfaça na areia de nossas poluídas praias ofertadas ao banho em placas otimistas, desde que os banhistas se desviem do cocô...
A verdade é que enquanto Niterói reclamar do que desconhece e seus políticos jactarem-se de muito terem feito pela cidade, sem, aliás, comentarem o quanto gastaram de polpudas verbas públicas, pondo seus atos quase que como favor ou milagre, o niteroiense sofrerá a mais e mais. E não apenas eles, mas os gonçalenses, os maricaenses, os itaboraienses, enfim, os fluminenses de um modo geral. Cá entre nós, estamos todos conformados durante décadas com o descaso de governantes e gestores da maquinaria estatal que só pensam na Capital, e acomodados com a inércia dos políticos fluminenses, que, quando muito, cuidam de seus currais interioranos sem preocupação com o todo. Só não vê quem não quer, somando ainda ao absurdo a caradura dos políticos cariocas que atravessam a baía em campanha eleitoral e depois tornam ao seu nicho em deslembrança formidável.
Tudo, afinal, é interesse local, que existe lá e cá, e os interessados de lá e de cá são imutáveis, e assim o serão até o fim dos tempos, com o lado mais fraco a puxar sem força o cabo de guerra da fusão. Pior ainda, o lado fraco vai ao chão devido à corda ardilosamente solta das mãos daqueles que fingem puxá-la do lado de lá esperando o esforço ingênuo do lado de cá fazer a corda atingir seu ponto de máxima tensão. E deste modo todos caem de quatro grotescamente, e sofrem o tombo previsível, porém simploriamente ignorado. Tem sido assim, e o atual clamor por UPP bem demonstra como os fluminenses são ignaros em segurança pública, embora famosos pela competência em outros campos do conhecimento científico: eis como o sistema estatal carioca seguirá na sua meta de policiar o lado de lá fingindo dar atenção ao lado de cá... Sim, promete saídas mirabolantes enquanto anuncia a formação de milhares de PMs com vistas à implantação de UPPs do lado de lá, pois o capitalismo está voltado para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e é só o que interessa aos grandes mentores e executores da manipulação midiática.
Que sofra então o lado de cá, porque o povo tem a polícia e o político que merece. Em sendo ambos, policiais e políticos, ineficientes ou insuficientes, azar de quem mora do lado de cá, havendo, todavia, a possibilidade de o povo daqui se mudar para o outro lado, que, por sinal, continua com milhares de favelas dominadas pelo tráfico e sofre também os dissabores diários de uma violência criminal que apenas está fora de foco: não é interesse do capitalismo selvagem mostrar a floresta destruída pelo descaso geral do Brasil com a segurança pública. Mostra então algumas árvores frondosas em propaganda que no meio militar é chamada de “generalização brilhante”: se milhões de pessoas veem a árvore (UPP), eu também devo dizer que a vejo, mesmo não a vendo. Assim, fico “na moda”, sem qualquer preocupação com a visão da floresta destruída (o gritante e talvez irrecuperável esvaziamento da segurança pública no antigo RJ desde a fusão de 1975).

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A árvore e o bosque



“Uma única árvore não faz uma floresta.” (provérbio chinês)




As duas matérias sugerem que a “árvore” não oculta o “bosque”. De um lado, Niterói com seus quase 500.000 habitantes (Censo IBGE de 2010 – Fonte Wikipédia) distribuídos em quase 130.000 Km2; do outro, o Complexo do Alemão, com seus quase 70.000 habitantes (Censo IBGE de 2010 – Fonte Wikipédia) distribuídos em 300 hectares, ou seja, quase 3 Km2. E aqui entra a questão da distribuição do efetivo. Vemos duas UPPs inauguradas no Complexo do Alemão com um efetivo concentrado de 660 PMs. Há previsão da instalação de mais seis (serão oito, conforme anunciado). Mas as duas bastam para comparar com Niterói, que conta com um efetivo de 700 PMs a ser reforçado pelo acréscimo de 366 PMs (1066 PMs), segundo nos informa a matéria. Há de se considerar, na hipótese de Niterói, que dispõe de batalhão, uma retaguarda de pelo menos 15% do efetivo a ser descontada do serviço de rua, diminuindo-se ainda o contingente destinado a Maricá (área: 362,477 km²; população: 127.519 habitantes – Censo IBGE 2010). Se de 1066 PMs diminuirmos os 15%, teremos um efetivo livre e desimpedido de mais ou menos 900 PMs. Mas, como visto, nem tanto livre e desimpedido: deve haver no mínimo uns 100 PMs em Maricá, para azar de quem mora lá, e é meu caso... Sobram então, talvez, 800 PMs para suprir Niterói, larga vantagem para as UPPs do Complexo do Alemão, que, além do gordo efetivo (ou Niterói e Maricá estão magérrimas?), o modelo independe de retaguarda nos moldes do batalhão, supondo-se, porém, que as UPPs estejam apoiadas pelo batalhão da área (16º BPM), pois não há como ignorar a necessidade de logística para garantir a eficiência e a eficácia da linha de frente. Eis um “buraco negro” resumido na indagação: “Quem desempenha o papel de retaguarda logística das UPPs do Complexo do Alemão e nas demais já instaladas?” A lógica nos remete para os BPMs da região onde elas estão funcionando, salvo outras medidas de apoio administrativo significando apenas a troca de meia dúzia por seis, sete, oito, sei lá...
Tornemos, porém, a Niterói e seu efetivo mais ou menos enxugado de 800 PMs. E, sem mais comparar a “árvore” com o “bosque”, para não me desanimar ainda mais, vamos agora considerar a velha e detestada escala de 24x48hs para facilitar o raciocínio. Tomemos uma guarnição de RP (dois PMs) como parâmetro, valendo o mesmo para a PATAMO ou outras guarnições compostas por cinco PMs. Como ninguém é de ferro, existe o “picadinho” (descanso de 8hs) em meio às 24hs, o que significa dizer que para cada RP ou PATAMO há de haver o dobro do efetivo para as viaturas permanecerem nas ruas durante as 24hs. Temos então a conta de quatro PMs por RP e dez PMs por PATAMO. Se se considerar somente RP, teríamos nas ruas 800:4 = 200 PMs, o que propiciaria 50 RPs num terreno de 130.000 Km2. Se o cálculo fosse por PATAMO, teríamos 80 PMs ou oito PATAMOS circulando pela cidade. Mas isto é muito otimismo, a realidade não deve ser esta, a distribuição do contingente pronto é bem mais complexa: há o policiamento a pé e tantos outros atendimentos em expediente ou fora dele (policiamento bancário, preservação de local de crime ou de acidente, escoltas, convocações para depoimento em juízo, estacionamento em delegacias policiais etc.); aí conta embola, e somente tendo acesso à realidade do BPM é que poderíamos concluir com maior precisão, e mesmo assim um dia será diferente do outro. Portanto, procede a dificuldade de os repórteres visualizarem PMs nas ruas de Niterói ou em outras ruas fluminenses...
Voltemos ao Complexo do Alemão. Nas UPPs, as quais defendo, e seguindo a lógica da mesma escala, e com todo o efetivo empregado nas favelas, geralmente circulando a pé, poderíamos subdividi-lo levando em conta sempre o “picadinho” de 8hs. Se fosse dupla, teríamos 660:4 = 165 duplas ininterruptas, diariamente, a pé ou em viaturas. Mas, como a área não está completamente controlada, presume-se temerária essa distribuição, sendo mais prudente considerar uma guarnição maior circulando naquele espaço restrito de população concentrada. Para facilitar, suponhamos que seja como da PATAMO, de cinco PMs, que se duplicariam em função do “picadinho”. Teríamos então 660:10 = 66 guarnições diárias distribuídas no terreno de 3000 Km2. Claro que nessas situações de concentração de efetivo as guarnições tendem a ser mais vistas pela imprensa e pela população favelada, o que é bom.
Agora devemos acrescentar mais óbices, alguns por demais contraditórios. Tornemos então às inevitáveis ocorrências que retiram as guarnições das ruas, eis que, como sublinhei, ficam obrigatoriamente estacionadas em Delegacias Policiais pelo tempo que lhes for exigido. Isto é incontornável, e o óbice é ainda ampliado pela impossibilidade de as guarnições lavrarem Termos Circunstanciados em ocorrências de menor poder ofensivo, obrigando-se, portanto, a conduzir “abobrinhas” paras os balcões da PCERJ. E a este poderoso óbice acrescentam-se ainda os administrativos: férias, licenças médicas, licenças-prêmio, restrições médicas ao exercício de serviço nas ruas, prisões disciplinares e outros afastamentos eventuais que independem da vontade de superiores e subordinados. Enfim, a “árvore” vista por todos nunca será o “bosque” idealizado. Daí ser impossível se repetir no dia a dia a imagem da tropa formada generalizando brilhantemente a aparência do “bosque”, não mais que um flash efêmero, para arquivo, que só se repete em solenidades.
Tal situação, tão complexa que até me confundo com os números, e peço desculpas, não me permite concluir onde nem com quem está a razão. Não culpo governos e autoridades, isto é reducionismo barato, o problema é antigo. No caso de Niterói, reclamo do esvaziamento crônico que se reporta à Fusão (1975), esta que, decerto, não foi planejada considerando consequências futuras na segurança pública. Lembra-me aqui o Cel PMEG Maldonado, primeiro Chefe do EM da nova PMERJ. Dizia ele, em outras palavras: “A Fusão mais fácil era a da PMEG com a PMRJ, pois bastava pôr ambas em forma obedecendo à hierarquia militar e fim de conversa.” E não se tratava de ironia dele, ele cria nisso por conta da cultura do militarismo, embora, e curiosamente, ele fosse mais moderno que alguns coronéis da extinta PMRJ, que, por sinal, eram mais jovens em idade que seus equivalentes coronéis da extinta PMEG. Eis a primeira contradição de natureza conjuntural atropelando o discurso estruturalista do então todo-poderoso Chefe do EM, apenas mais idoso...
Tudo bem, não é caso de discutirmos se antiguidade é posto nem estrutura versus conjuntura, embora ambas se situem no cerne do problemático continuum enfrentado pela atual conjuntura política, que se vê pressionada por um crescente aumento da criminalidade cujas causas estão amplamente expostas neste blog com o foco no mestre da criminologia Manuel López-Rey. Destaco então a afirmação do governante Sérgio Cabral na inauguração das primeiras UPPs do Complexo do Alemão, conforme está na matéria em comento:





Cabral afirmou ainda que o governo já tem um planejamento traçado para combater a violência em Niterói, com a criação das companhias independentes da PM no município – nos morros do Cavalão, em Icaraí, e do Estado, no Centro. De acordo com o governador, a cidade, que tem enfrentado uma onda de violência, só ganhará uma UPP caso o reforço no policiamento adotado não surta efeito.





Claro que estamos diante de insólita resposta conjuntural ante uma realidade que está além do poder político do governante: ele não pode mudar a estrutura da PMERJ em vista da Carta Magna. Deve então flexionar a arcaica estrutura respeitando as restrições da Lei Maior, e é o que a PMERJ se desdobra em esforços para fazê-lo. Não cabe, portanto, culpar A ou B, nem exigir além do que o Estado-membro atrelado a um Governo Central detentor de poder e de dinheiro pode oferecer. Tal comportamento de cobrança focado exclusivamente na PMERJ (a “árvore”) nos faz esquecer o “dever” dos demais organismos estatais e da “responsabilidade” de todos com a segurança pública (o “bosque”): Art. 144 da CRFB:





Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.





Obs.: serã bem-vindas as correções quanto às escalas de serviço e a real distribuição do contingente de PMs nas ruas, dentre outras concernentes a esta discussão.




sexta-feira, 13 de abril de 2012

Niterói no foco da segurança pública




Vou pouco comentar sobre UPPs; e reitero não crer na migração de bandidos do Rio de Janeiro como principal causa do acirramento do crime em Niterói, como também não sei se apenas está havendo mais divulgação, pela mídia carioca, de fatos criminosos que ocorriam, ocorrem e ainda ocorrerão na “cidade-tristeza”, bem como nos demais municípios do antigo RJ. Para mim, a mídia visa a tranquilizar os turistas alienígenas e tupiniquins que têm na Cidade Maravilhosa a principal referência de hospedagem, diversão e descanso. As demais cidades, quando muito, recebem visitas rápidas e poucas permanências, com ressalva dos grandes feriados em que os cariocas avançam em massa para as Regiões Serrana e dos Lagos e para a Costa Verde. Enfim, o fechamento do comércio em locais com UPP é pura ilusão, que venham os turistas, os bandidos "não estão na Cidade Maravilhosa"!...
Relevo aqui a capacidade de mobilização e de rápida resposta da SSP às pressões por mais policiamento em Niterói, somada a algumas incursões policiais civis e militares em locais nevrálgicos de São Gonçalo. Claro que a velocidade de reação da polícia é fator preponderante para suprir o “cobertor curto” das polícias civil e militar, que trabalham em escala, deste modo diluindo o efetivo em quatro partes (escala 24hx72h ou 12hx48h ou algo que o valha), salvo algum erro superficial nesta minha avaliação. Nas duas instituições (mais na PMERJ e menos na PCERJ), há um indispensável efetivo de retaguarda nos quartéis e nas delegacias. Demais disso, devem ser consideradas as naturais baixas por férias, licenças-prêmio, afastamentos por doenças, restrições médicas ao serviço de rua, policiais sub judice impedidos de atuar, detenções e prisões disciplinares etc. Daí ser possível concluir que não é fácil fazer polícia sem recursos materiais e humanos suficientes. Também não é fácil determinar o efetivo ideal de policiais em vista da turbulência ambiental, que não mais permite o estacionamento perene de grandes efetivos, exceto nas UPPs, que vejo como espécie de policiamento complementar ou extraordinário tornado rotineiro.
Esses policiamentos complementares ou extraordinários são deveras úteis no policiamento de grandes eventos artísticos, religiosos e desportivos, dentre outros que ocorrem no cotidiano das sociedades cujos segmentos se manifestam nas ruas sem uma frequência de data-hora-local, o que obriga à polícia, em especial à PMERJ, agir rapidamente, para tanto possuindo planos emergenciais em vista de experiências anteriores. Deste modo, não é exagero afirmar que a pronta resposta em Niterói, como veiculada, atende ao princípio da rápida mobilização e do redirecionamento da tropa com o elemento de força nitidamente superior ao poderio dos bandidos. Também a escolha dos locais de Niterói para a ação (reação) foi perfeita sob o aspecto da demonstração de força onde sabidamente os traficantes-mores se concentram – suas fortalezas do tráfico citadas na matéria em destaque.
Tal como a UPP, que para mim é um DPO (Destacamento de Policiamento Ostensivo) em rótulo mais enfeitado, a ação concentrada de duas companhias somadas a outras frações de tropa especiais é modelo conhecido e pouco usado fora da capital. Pode ser, – depois dessa experiência, que, claro, depende bastante da atuação da coirmã na investigação criminal, assim como da inteligência policial de ambas as instituições integradas num só corpo de atuação, trocando informações, – pode ser que o modelo seja deslocado para qualquer município em ações semelhantes. Para tanto, é mais que óbvia a necessidade de bem diagnosticar o ambiente, de modo que as ações ostensivas e veladas tenham endereço certo: bandidos identificados e com prisões temporárias e/ou preventivas decretadas. Pois não há muita lógica numa ação aparatosa, como esta que ora assistimos, dependente apenas de eventuais e aleatórios flagrantes em homizios onde não é difícil ocultar armas e drogas antes da chegada da polícia. Ficam os marginais com “cara de paisagem”, enquanto a polícia rodopia sem saber quem é quem no tráfico da localidade aparatosamente ocupada.
Tudo bem. O importante é responder com demonstração de força e bastante mobilidade no terreno. No fim de contas, sabemos que nenhuma tropa regular, por mais poderosa que tenha sido, logrou vencer alguma guerra de guerrilha urbana ou rural mundo afora; e é assim que os ilustrados marginais se organizam e agem no terreno urbano: como guerrilheiros. Eles possuem todos os ingredientes da guerrilha urbana: ideologia do lucro, sigla conhecida e temida, tecnologia de ponta, carros velozes (furtados, roubados ou comprados), material bélico de alto poder destrutivo, dinheiro à vontade e capacidade de mobilização de novos membros para as quadrilhas nas próprias comunidades, com preferência para adolescentes e adultos jovens treinados pelas Forças Armadas. Somam-se a este aparato marginal os ex-policiais que ingressaram nas instituições estatais já bandidos formados ou que inverteram o rumo e se associaram ao crime. E um destaque especial à maldita corrupção policial que embola o Bem com o Mal...
Enfim, engana-se quem pensa vencer só com polícia uma criminalidade complexa como a que sentimos na carne. A questão é complicada e depende da participação de muitos organismos públicos, como dever, e de toda a sociedade, como responsabilidade. É como está na Carta Magna, e, portanto, ao cidadão não cabe apenas reclamar do caos sem sair de sua confortável poltrona a ver tudo pela tevê. Pois chegará o dia em que ele será dominado por facínoras armados dentro do seu lar, experiência que não almejo para ninguém, porquanto as que eu vivenciei enquanto no serviço ativo foram terríveis para as famílias atingidas. Daí não adiantarem muito essas manifestações de rua pedindo paz, com os participantes ávidos pelo almoço, sentindo-se dignos de aplauso pela “missão cumprida”, até o próximo assalto e a morte de alguns entrevistados antes felizes pelo minuto de fama na telinha da tevê, para alegria da família, que decerto gravará sua aparição para o repeteco festivo sem pensar na tristeza futura...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sobre as UPPs e o acirramento da criminalidade em Niterói



Com a palavra o leitor...

Em vista da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o olho do planeta está focado no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro. Supondo que esses eventos sejam cruciais à sobrevivência do país enquanto nação, e sejam exponencialmente benéficos ao povo brasileiro, claro que algo necessitava ser feito para mudar a cara de um Rio de Janeiro onde as favelas proliferaram e os traficantes as transformaram em cidadelas inexpugnáveis, pelo menos aparentemente...
Ora bem, as UPPs surgiram como salvação da terrível aparência dos tiroteios nas zonas mais nobres da Cidade Maravilhosa. As imagens de bandidos portando fuzis sem qualquer preocupação com polícia ou imprensa eram desmoralizantes no que sabemos ser o “tambor do Brasil”: o Rio de Janeiro e mais especificamente a Zona Sul, espaço elegante no qual, e neste aspecto, se inclui a Barra da Tijuca. Demais desses locais, aflorava como problema imediato o entorno do maior estádio do mundo: o Maracanã.
Eis o cinturão de segurança traçado e executado por meio das UPPs, que mudaram a feiíssima aparência anterior, cuidando a mídia interessada nos grandes eventos de fazer a apologia do modelo, generalizando-o brilhantemente como única solução policial, tal como fez com o BOPE, “tropa de elite” que hoje é contraponto da tropa comum pejorativamente considerada “corrupta”, “tropa de celulite”, “barriga azul” etc. Mais que isso, a tropa antiga passou a representar um “mal sem solução” e os novos PMs, “com cultura profissional inovadora”, foram às UPPs como “salvadores da pátria”. Essa distinção só fez abalar o moral de uma tropa hoje dividida por causa de preconceitos midiáticos abanados inclusive por políticos e autoridades públicas.
Do outro lado estão os bandidos, formando um bloco subdividido em duas grandes facções (há outras que nem merecem a citação se comparadas com o CV e o TC), cujos homizios-sede são, respectivamente, o Complexo do Alemão e a Rocinha. Nesses dois lugares, a conquista e a ocupação ainda não se consolidaram nem mesmo com a ajuda das Forças Armadas. Paira no ar a aparência de que os traficantes recuaram em sua ostentação de poder armado, mas mantêm o controle da população a medo de um dia retornarem ou saírem das tocas onde se ocultam dentro das próprias comunidades. Tal se vê nesta semana com o “toque de recolher” na Mangueira ocupada por UPP, e dias atrás com a morte de um PM na Rocinha já conquistada e ocupada. Retorna assim, ao olho do mundo, a velha aparência de dominação velada das localidades “pacificadas”.
Não digo que não estejam. As UPPs aparentam ainda a libertação das comunidades agraciadas, porém não as transformaram na “ilha Utopia” do santo Thomaz Morus. Vale insistir, porém, e para tornar a atual aparência uma realidade insofismável, para que todos assumam que o tráfico rola no asfalto e continuará a rolar nas favelas com UPPs enquanto houver demanda maior que oferta, e é o que ocorre no mundo e não apenas aqui. A verdade é que o modelo repressivo jamais acabou ou acabará com o tráfico no mundo nem no Brasil. Apenas faz aumentar o preço da droga, o que também não diminui a demanda, eis por que nenhum modelo de intervenção estatal e/ou societária logrou sucesso contra o tráfico multinacional de drogas. Claro que, num contexto assim, nenhuma UPP logrará sucesso absoluto contra o tráfico, mas apenas controlará seus abusos armados, o que é em si muito bom. Mas restrito aos núcleos comunitários agraciados e quiçá em sua periferia asfaltada...
Muito bem, pior ainda seria a inação ou a transferência dos eventos desportivos para outro país por falta de segurança. O reflexo desse desastre seria mortal à indústria do turismo, esta que no Rio de Janeiro se concentra na Zona Sul. Enfim, o Brasil (TODO) depende do sucesso do Rio de Janeiro e das UPPs, nem que seja somente na aparência. Desta parte a mídia vem cuidando com zelo, porém agora adotando uma posição perigosa ao reduzir o problema da criminalidade aparentemente crescente em Niterói à migração de bandidos do Rio em virturde das UPPs.
Ora, isto não procede, e basta acordar para o fato de que são apenas duas dezenas de UPP instaladas num universo carioca de mais de 600 favelas, para onde, sem dúvida, muitos traficantes igualmente migraram. E aqui, por derradeiro, ponho uma indagação que mais aparenta ser mordida de cobra coral (será ela falsa ou verdadeira?): “Não estaria a grande mídia carioca tentando instituir a falsa aparência de que no Rio de Janeiro está tudo bem, pois os bandidos estão em Niterói e algures, e, portanto, não há riscos para os turistas, exceto quanto aos que se arriscarem a atravessar a baía de Guanabara?”
Com a palavra o leitor...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Niterói: bandidos continuam vencendo

Em meio à tristeza, finalmente o assunto criminalidade em Niterói parece tomar o rumo certo, saindo do reducionismo inicial (culpando somente UPPs) e consagrando o contexto (bem mais complexo) em que a discussão deve se situar. Em outras palavras, Niterói, São Gonçalo e Maricá precisam juntas tomar posição como cidades merecedoras dum respeito mínimo por parte do Estado-membro, este que se dedica à Capital ignorando o antigo RJ como se este fosse mero penduricalho, filho bastardo da Fusão. Não é, muito em contrário, representa todo o corpo de um organismo social que não existiria somente com a cabeça, sendo que boa parte dela pertence ao antigo corpo que se tornou acéfalo com a Fusão.
Independentemente das verdadeiras causas da Fusão (de$confio que já $abiam do petróleo e do pré-$al naquele$ tempo$ ido$...), inegável é que o lado de cá foi relegado à última importância, de tal modo que Niterói, por exemplo, vive só de aparência, e a cruel realidade da cidade ainda não se reflete com clareza na grande mídia. Agora, porém, parece que o assunto desperta e encontra o seu norte: é preciso reverter o esvaziamento, isto no mínimo, ou buscar um novo modelo estrutural para a segurança pública na cidade como um todo, talvez uma “Unidade de Polícia Pacificadora Niteroiense” (UPPN), moldando-se o mesmo em São Gonçalo e Maricá. Para tanto, porém, é necessário rever o modelo tradicional de distribuição do policiamento nas ruas e logradouros, que mais parece um relógio de parede usado no pulso. E o máximo que podem fazer com a estranha peça é girar seus ponteiros em torno do dos mesmos números fixos, adiantando-os ou atrasando-os nos seus limites invencíveis.
Enfim, é hora de quebrar o relógio e de lhe dar novo formato para atender a uma nova função exigida pelo ambiente, e não sei, sinceramente, se vale a pena aumentar o efetivo ou se se deve buscar uma ousada inovação em vista do ambiente incerto e turbulento e, principalmente, contando com o avanço tecnológico que hoje permite uma “visão geral” * (panoptismo) de dentro de alguma sala capaz de acionar patrulhas diretamente ao problema visualizado. Assim, por exemplo, é no Japão desde antanho. Vi o modelo em 1989 na cidade de Tokio. Havia apenas alguns policiais isolados nas ruas, desarmados (não sugiro isto aqui) e portando um pequeno rádio na lapela (tal como o Nextel de hoje). E diante de qualquer alteração no ambiente coberto por suas vistas, o policial acionava o radinho e surgiam do nada muitas patrulhas. Tudo isto visualizado em tempo real numa Central de Operações Policiais contendo um mapa virtual de Tokio. Repito que vi isto funcionando em 1989...
Significa dizer que a Prefeitura, em vez de acionar seus malditos pardais para multar indiscriminadamente os niteroienses, poderia reacionar as câmeras desativada e cobrir Niterói com a tecnologia panóptica, bairro por bairro, num sistema pronto para despachar a patrulha mais próxima e concomitantemente acionar a delegacia de polícia judiciária responsável pela região onde ocorrer algum evento criminoso. Dentre as muitas vantagens, as câmeras identificarão de imediato os protagonistas do crime, dando à polícia a condição de antecipação, o que por aí chamam de polícia “pró-ativa”, quando deveria ser “proativa”. Mas neste caso até poderia se ajustar o comportamento operacional ao anseio “pró-ativo” (a favor da ação), pressupondo que a proatividade estaria no contexto dum PLANO DE SEGURANÇA PÚBLICA a ser elaborado em conjunto pela maquinaria estatal (União, Estado-membro, Município) e segmentos sociais direta ou indiretamente interessados na segurança pública, que, como assinalei em artigo anterior, é constitucionalmente “responsabilidade de todos”.
Este é o aspecto otimista da mudança. Mas, infelizmente, a canseira dos políticos niteroienses e a abastança deles não sugerem nada mais que pessimismo. Desde muitos anos não se pode separar o Poder Legislativo Municipal do Poder Executivo: ambos são uma só máquina a garantir a (in) governabilidade. Daí, somente uma reação societária veemente poderá acordar esse Leviatã que ronca de barriga cheia e não parece mais interessado nem em comer para não explodir e sujar ainda mais a “praia de Cocoraí”. Como fazer, então?... Bem, a iniciativa privada, que enriquece em Niterói por conta da maquinaria governamental, poderia ser questionada e cobrada no sentido de investir no panoptismo aqui sugerido, sem essa de invasão de privacidade ou críticas semelhantes, pois a “visão geral” já ocorre em tudo que é shopping e até em pequenas lojas, demais dos malditos pardais que nos vigiam (os cidadãos de bem) só para nos punir sem qualquer pejo com a privacidade. Por que não quebrar a “privacidade” dos meliantes?...
Infelizmente, devo acrescentar mais uma tragédia em Niterói: o assassinato do sargento PM Celso de Jesus, ontem à noite, reagindo a assalto no Fonseca*. Um dos assaltantes, menor de 15 anos, que só pode ser “apreendido”, foi alcançado pela polícia, constatando-se que a quadrilha armada homizia-se no Complexo da Coruja, em São Gonçalo. Outro membro do bando foi identificado, também menor de idade (17 anos), e só poderá ser “apreendido”. Um terceiro meliante identificado conta 18 anos e poderá ser preso. O quarto assaltante ainda não se sabe quem. Com o deslinde do crime, aflorou que a conhecida “gangue da Hilux” praticou diversos assaltos nas ruas e residências. Eis um tipo de ocorrência que demonstra como a sucessão de crimes perpetrados por um só grupo é capaz de generalizar a falsa ideia de crescente aumento da criminalidade, como se os delitos envolvessem muitos bandidos. Desta feita a PCERJ agiu rápido e decerto retirará de circulação os assaltantes; mas logo, logo a justiça libertará os “menores de idade”, embora se trate de latrocínio (roubo seguido de morte). E tão logo estejam em liberdade, outras vítimas farão e assim a impunidade vai animando o crime e o crime animando a impunidade. Só falta o aplauso da sociedade, sempre conformada, circunflexa, genuflectida, resignada, só faltando persignar-se e pedir perdão pela culpa da existência de marginais no mundo...

*Wikipédia: Originalmente criado pelo filósofo e jurista Jeremy Bentham, o panoptismo seria uma forma privilegiada de olhar, uma vigilância que gera controle, ou seja, um olhar vigilante e controlador sobre os corpos no espaço, através desta perspectiva, Bentham criou o panóptico, o conceito de um projeto arquitetônico que tem por fim vigiar e observar todos os prisioneiros dentro de um centro penitenciário; seria uma forma mais econômica de vigilância, pois se utilizaria apenas de um guarda, que observaria os detentos dentro de um lugar estrategicamente localizada (...).

*http://extra.globo.com/casos-de-policia/apreendido-menor-de-15-anos-suspeito-de-envolvimento-na-morte-de-pm-em-niteroi-4607974.html#ixzz1rfNfAQw3

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Se correr o bicho pega... Se parar o bicho come...























Eis como está a segurança pública em Niterói desde muitos anos; e, como antes, a PMERJ insiste em ser a única polícia da cidade a se virar em duas para atender às pressões niteroienses por mais proteção contra o banditismo; para tanto, porém, apresenta como solução da fratura exposta apenas um band-aid, eis que não conta com os meios necessários a um bom esquema de policiamento preventivo e repressivo de polícia administrativa, apenas uma fatia de um grande bolo chamado segurança pública cuja receita não é apenas dela:



Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.

Assim se comportando, ou seja, assumindo uma responsabilidade global que não é sua, a PMERJ contribui para a sociedade esquecer-se da PCERJ – fatia de polícia judiciária obrigada a investigar delitos e instruir processos criminais contra delinquentes por ela devidamente singularizados; está a PCERJ, todavia, restrita aos seus balcões a receber guarnições da PMERJ levando ocorrências graves, e também a registrar abobrinhas que poderiam ser encerradas nas ruas pela lavratura de Termos Circunstanciados (Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995). Mas estes, – embora lavrados por muitas Polícias Militares Brasil afora mediante decisões políticas e judiciais locais, demais de haver explícita manifestação do STF favorável à sua lavratura pelas Polícias Militares, – aqui no RJ estão proibidos.
Sim, a lavratura de TCs pela PMERJ foi vedada em ato político-administrativo consagrando um dos maiores absurdos já vistos na história das polícias estaduais. É, com efeito, incompreensível a disputa encabeçada por uma PCERJ que só pensa em poder e não assume plenamente seus deveres, como é o caso de Niterói, onde, diga-se de passagem, ela também não é cobrada. Daí não haver nenhum pronunciamento local das autoridades de polícia judiciária sobre a onda de violência que assola a cidade, pairando no ar a quase certeza de que a violência é antiga, mas só agora ganha espaço na grande mídia.
Que houvesse pelo menos o pronunciamento das autoridades de polícia judiciária sobre os fatos graves ocorridos em suas áreas de atuação, vá! Mas o silêncio é tanto que projeta a ideia de que os assassinatos não são problema da PCERJ; e a PMERJ, em ingenuidade marcante, arrecada para si uma responsabilidade institucional que não é somente sua; põe-se assim em saia ainda mais justa a aumentar sua vergonha diante do apavorado contribuinte. Que me desculpem os incomodados, mas esta é a impressão que se tem ante as notícias veiculadas!
Voeja então no ar niteroiense a sensação de que a PMERJ não cumpre com presteza suas obrigações para com o povo, ignorando-se o fato principal do esvaziamento dos meios materiais e humanos desde a Fusão, grave problema político-institucional que não pode ser assumido pelo comandante do 12º BPM, pois, se assim o fizer, ele tomba no dia seguinte. Fica então o esforçado comandante dando respostas singelas a um problema bem maior que as pernas do batalhão que ele eficientemente comanda – eficiência que não pode ser transformada em milagre. Enquanto isso, a população segue o rumo de sempre: vestirá camiseta branca pedindo “paz”, quando a real necessidade é a de guerra contra uma criminalidade crescente e matadora de cidadãos socialmente ordeiros e produtivos.
Ora, que “paz” é essa?... Que diabo de recado é esse?... Ora, ora, nada mais que cumprimento dum ritual covarde ajustado ao momento ideológico dos direitos humanos tão difusos que põem os assassinos, estupradores, ladrões e quejandos no mesmo saco de cidadãos conformados e distantes da sugestão rousseauniana que abaixo transcrevo como lembrança a quem quiser lê-la com atenção, e é o que me basta:



(...). De resto, todo malfeitor, ao atacar o direito social, torna-se, por seus delitos, rebelde e traidor da pátria; cessa de ser um de seus membros ao violar suas leis, e chega mesmo a declarar-lhe guerra. A conservação do Estado passa a ser então incompatível com a sua; faz-se preciso que um dos dois pereça, e quando se condena à morte o culpado, se o faz menos na qualidade de cidadão que de inimigo. Os processos e a sentença constituem as provas da declaração de que o criminoso rompeu o tratado social, e, por conseguinte, deixou de ser considerado membro do Estado. Ora, como ele se reconheceu como tal, ao menos pela residência, deve ser segregado pelo exílio, como infrator do pacto, ou pela morte, como inimigo público, pois o inimigo dessa espécie não é uma pessoa moral; é um homem, e manda o direito da guerra matar o vencido. (...). (Do Contrato Social – Jean-Jacques Rousseau)




Não! Não é o que me basta!... Na verdade, o povo de Niterói vive anestesiado por propagandas enganosas e permitindo há anos um nefasto continuísmo político que tende a se manter, já que os principais candidatos anunciados pertencem à mesma panelinha de antanho. Prova desse impressionante comodismo, ou conformismo, ou modismo esquerdista, ou (...) vê-se na “praia de Cocoraí” e outras que lhe são contíguas, onde boiam os dejetos e os banhistas se esbaldam na sujeira crendo na placa governamental recomendando o banho como se as águas estivessem “límpidas”, “cristalinas”, “puríssimas”... A placa nem sugere que em tal dia a praia esteja em condições de uso. É permanente como a estaca que a sustenta, sempre recomendando o banho em meio ao cocô que boia entre os banhistas, que nadam, nadam, nadam, mas nada veem ou sentem...
Enfim, o povo crê na mentira das eternizadas placas e ignora o que está diante de seus olhos e roçando seus corpos: a merda fedorenta!... Ah, tem sido assim em Niterói!... E a contrapartida não poderia ser outra: caos na segurança pública, calamidades destroçando vidas e lares construídos sobre o lixo do morro do Bumba (in) devidamente coberto com barro e gramado, tudo a garantir ótima aparência e a demonstrar que tudo está bem.
Ora bolas!... Não está nada bem, tudo está muito mal e assim permanecerá, pois o “selo de garantia” é o próximo prefeito que, de algum modo, direto ou indireto, integra-se à “corte” (no sentido de “curral” e “paço”) do atual governante municipal que desativa suas câmeras destinadas a vigiar o ambiente em apoio à polícia, exceto suas emboscadas multadoras de motoristas. E quanto a esses e outros dissabores o povo niteroiense não reage em protestos públicos. Que sofra então o povo, que tem os políticos que merece e a polícia que merece!... Como dizia Erich Fromm: “A calamidade é ruim para o povo, mas boa para a sociedade.” Quem sabe assim, em desespero extremo, o povo acorde e peça guerra aos políticos incompetentes e corruptos e aos facínoras, não necessariamente nesta ordem, pois eles se equivalem...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sobre a qualidade do tiro policial



Eu fui, durante anos, instrutor de armamento e tiro na antiga PMRJ. Enquanto na ativa mantive-me treinado e ensinando sistematicamente a muitos PMs. E posso afirmar ter sido ótimo atirador. Hoje, encaminhando-me para os 70 anos, sinto-me ainda capaz de acertar um ônibus parado a dez metros de distância, embora, e por amor à verdade, eu admita poder errar o alvo... Mangações à parte, muitas vezes me espantei em estandes de tiro ao constatar companheiros meus (“operacionais”), oficiais e praças, atirando contra o alvo com os dois olhos fechados ou proporcionando deploráveis espetáculos de quase acertarem os próprios pés ou os céus, de tão ruins que eram na prática do tiro. Nem devo dizer do tiro com o corpo e/ou o alvo em movimento, situações predominantes nos confrontos reais...
O resultado dessa instrução desastrosa, – aliado à falta de treinamento mínimo de proteção do corpo em escaramuças contra bandos armados e protegidos pelo conhecimento do terreno e pela intimidade com cada coberta ou abrigo preexistente, – o resultado dessa instrução desastrosa costuma desembocar no cemitério: ou se enterra um companheiro atingido por bala de bandido, ou se enterra um inocente atingido por bala que não se lhe destinava, não importando qual arma a disparou. Esta é a primeira senão única especulação da mídia, como se o atingido fosse apenas um alvo errado e não um ser humano vitimado pela desordem urbana cujas causas são bem mais profundas que a simples ação policial.
Não creio tanto no imprevisto nem no azar. Creio na ausência ou na insuficiência do treinamento. Faz pouco tempo li um artigo exaltando o BOPE por seu insignificante número de baixas (ferimentos e mortes), tudo atribuído ao excelente treinamento daquela tropa de elite. Claro que isto se encaixa na minha especulação, que, decerto, será vista como falácia. Pode, sim, especialmente em vista do interesse dos gestores em garantir ser o treinamento de tiro fator corriqueiro na formação e no aperfeiçoamento de todo o efetivo. O planejamento do curso até faz supor que o treinamento é pra lá de eficiente e eficaz. Na prática, porém... Bem, basta ao espectador atento olhar as imagens televisivas para perceber que os homens não se protegem em cobertas ou abrigos, ressalvadas as exceções, especialmente a dos homens e mulheres do BOPE, que sabem progredir no terreno e dele tiram proveito, demais atirarem com a precisão requerida.
A morte do cabo PM na Rocinha pode ter sido azar... Por outro lado, sabemos que o Batalhão de Choque recebe treinamento diferenciado e, curiosamente, o uso de munição letal não é recomendável a uma tropa de contenção de manifestações públicas geralmente envolvendo trabalhadores em protesto, grupos ideológicos, torcidas clubistas organizadas (ou desorganizadas) etc. São manifestações que não justificam o tiro letal, a não ser em situações extremas e raras de grave perturbação da ordem pública encetada por manifestantes armados. Enfim, o Batalhão de Choque não recebe treinamento como o BOPE para agir em favelas, assim como a tropa comum não é treinada a contento; e muito menos reciclada de quando em quando, nem de longe em longe, de modo a garantir qualidade dos atiradores em situações de risco. No fim de contas, a rotina os impede de “perder tempo” em estandes de tiro e a economia exige parcimônia no gasto da munição, que é cara.
Sim, a munição no Brasil é poupada por uma polícia sem dinheiro, enquanto em países do Primeiro Mundo o gasto de munição em treinamento é despesa irrisória em vista da sua importância. Pior é que nos países que ainda disputam guerras étnicas ou religiosas os exércitos regulares e seus improvisados oponentes gastam bala à vontade e seguem matando indefesos homens, mulheres e crianças. Aqui no RJ, até onde eu pude constatar em estandes, lado a lado com oficiais e praças, a prática de tiro mais parece piada; aliás, literal, mesmo, pois assistir ao espetáculo de companheiros fecharem os dois olhos para atirar é deveras cômico... se não fosse trágico. Ah, é trágico!... Especialmente porque ninguém jamais assumirá ser mau atirador e nenhum gestor do andar de cima concordará comigo ser isto um problema...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O desfecho da história














Toda história costuma ter um desfecho que se amarra à primeira linha escrita. Assim é o Livro do Destino que nos comanda a vida; nós não podemos comandá-la, embora pensemos ser capazes de ditar regras para nossas existências futuras como se fôssemos deuses – infalíveis e inalcançáveis pela Foice da Morte. Mas nada levamos deste mundo em que vivemos como donos dele. Não somos donos de nada, tudo pertence ao Acaso ou à Divindade, que independem de nós, embora haja atualmente uma forte corrente de estudiosos garantindo que a força do pensamento positivo pode alterar isto.
Somos efêmeros; somos nada pensando ser tudo; não sabemos exatamente o que temos ou quem somos neste mundo de Deus, e Deus parece que se esqueceu de tudo e todos aqui. Este mundo é um nada, e a humanidade segue na ilusão de que um dia haverá um mundo melhor. Como haverá mundo melhor se as pessoas que o habitam são intrinsecamente ruins?... Eis uma indagação que deveria ser feita por todos nós ao acordarmos e nos sentarmos no vaso sanitário para jogar fora nossa ruindade acumulada. Sim, joga-se fora o dejeto, mas não se elimina o que vai dentro da cabeça: nossa maldade atávica, o desejo de sobrepujar nosso igual, de ter o que o outro tem, de viver a vida dele, de arrotar grandiosidade embora representemos apenas a voluptuosidade do nada.
Às vezes me preocupo com a limitação das pessoas, com a aceitação passiva, – da parte delas, – de falas alheias como verdades perenes: forma preguiçosa de viver... Não creio ser isto razoável. Sou questionador incorrigível, não aceito verdades de outrem, não sem antes analisá-las à luz do meu conhecimento ou da minha ignorância. Mas não aceito de antemão nada que me venha pronto e acabado. Rendo-me, porém, a comentários que não se encaminhem para a solução fechada e definitiva das coisas avaliadas. Quem somos nós para entender completa e definitivamente este mundo?
Vivemos numa sociedade que um dia emprestou seu poder a uma entidade chamada Estado, mas essa entidade nos devorou e hoje perdemos tempo a criticá-la sem substituí-la por outra entidade. Falta-nos imaginação e coragem.
Enquanto criticamos a entidade que criamos para nos organizar em “civilização”, ela nos devora com a avidez da faminta ave de rapina. E ainda conseguimos a proeza de culpar o Estado por nossos infortúnios. Mas ele segue indiferente aos nossos gritos, indiferente à nossa perplexidade, indiferente a nós, tal como o Universo.
O Estado é pura abstração na essência e realidade na sua existência cruel; sociedade é igualmente abstração. Temos como real uma individualidade abandonada e uma coletividade deturpada por conceitos e imposições do outro, pelo poder do outro acumulado em gerações sucessivas. Não somos mais micro-poderes de nada, não decidimos nada, distanciamo-nos definitivamente da Ágora de Péricles.
Continuamos reféns de uma falsa liberdade; a verdadeira liberdade não vence a barreira do sonho. Vivenciamos a derrota individual e coletiva para o micro-poder de alguns, aquele micro-poder que emprestamos um dia aos burocratas do Estado quando nos reunimos em sociedade. Não somos coletividade, não somos comunidade, não somos orgânicos, somos formais contra nós mesmos. Somos asnos; damos, sem pensar, armas a alguns poucos para nos dominar, somos asnos vestidos em pele de leões escapelados – pele morta. Somos uns derrotados pelo sistema que instituímos e insistimos em manter em nome de uma convivência coletiva que a mais e mais se deteriora.
Justificamos os males e os maldosos que contra nós se voltam cotidianamente; amamos os bandidos que nos assolam em vez de destruí-los em nome do nosso direito de viver em paz; quebramos o “Contrato Social” rousseauniano tanto como o quebram os malfeitores; eles agem, nós nos omitimos ou agimos em benefício deles. Somos efêmeros metidos a eternos. Não somos leões nem cães pastores. Somos ovelhas. Somos pó que voltará ao pó. Não somos nada mais que nada ante a tragédia cotidiana do banditismo que nos destrói – eis o desfecho da história.