segunda-feira, 15 de junho de 2026

 

 

 

 

 

OPERAÇÃO ARABESCO

 

 

 

O TRÁFICO NO ASFALTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     EMIR LARANGEIRA

                2000

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                          

Ao Cabo PM Valério dos Santos Oliveira, da Polícia Militar de Minas Gerais, morto a tiro em 24 de junho de 1997 (Dia Nacional de Luta dos Cabos e Soldados) na cidade de Belo Horizonte, enquanto clamava, junto com outros companheiros, por melhores condições de vida e de trabalho em favor de sua sofrida categoria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Recentemente, um jovem perguntou a seu pai, um famoso toxicólogo inglês:

           Papai, o que é uma droga?

           Uma droga, meu filho, é uma substância, que injetada em um cachorro, produz uma pesquisa.

Esta resposta é a melhor maneira de ilustrar o que significa na atualidade a palavra droga. Sua presença se faz sentir de uma forma ou de outra, porque não há dúvida de que é o negócio – econômico e político – mais esplêndido dos últimos anos. Mas, exatamente por isso, tem sua face oculta, que a transforma em mito.”

 

                                                        (Rosa del Olmo, in “A Face Oculta da Droga”, Ed. Revan, Rio de Janeiro, 1990.)


 

CAPÍTULO I - A INTRINCADA TEIA DO NARCOTRÁFICO

 

 

ANO 2000

 

 

31 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA... São Paulo, capital. Sirenes rasgando o ar. Edifícios, casas e lojas correndo velozes na passagem dos carros de polícia. Chegada em Moema, na cruza das ruas. Ao pé do semáforo, um carro parado. Dentro do carro, um corpo tombado no banco. É a cena do crime, o cadáver – ainda quente e banhado em sangue e massa encefálica – traz a farda azul pintada em rubro terror e tem os olhos esbugalhados de quem morrera em espanto. As insígnias nos ombros e as medalhas no peito marcam a importância da vítima, um coronel da FAB, que saía de sua casa ao trabalho. Mas ali, naquele semáforo, a morte estúpida, covarde e inesperada alcançara-o e cortara-lhe para sempre a rotineira trajetória.

No clamor que se forma, logo acorrem os vizinhos – ele morava a cem metros do ponto fatal. Imediatamente reconhecido o corpo inerte da vítima, a polícia perdida, sem qualquer pista. Testemunhas esclarecem a fria execução: o militar estacara o carro no sinal, vermelho como o seu sangue; repentinamente ao seu lado um carro pára; dentro dele há dois homens, dois gélidos assassinos, duas venenosíssimas e traiçoeiras cobras, uma delas prestes ao bote. E o carona, com a metralhadora no ponto e oculta no colo, para a vítima meneia a cabeça e sorri. É um sorriso cínico, mas o distraído coronel nada percebe, e ainda o retribui com um gesto discreto de aceno comum entre estranhos nas ruas. De súbito, ele vê a boca do cano apontada na sua cara e dilata as pupilas num relance de estupor. E lhe vem a rajada, abafada por silenciador, cortando num átimo o espaço sem volta e alcançando-lhe o rosto e a cabeça. O impacto é fatal, instantânea é a morte. O carro sai em disparada, assassinos fugindo, especialistas, em típica execução a serviço de mandantes, segundo as primeiras impressões dos policiais que comparecem ao local.

Imediatamente identificado o coronel: Paulo Reno, o seu nome de guerra. Estava a caminho do aeroporto de Congonhas para mais um expediente no Serviço Regional de Aviação Civil. Era o chefe. Dele, porém, sobrara apenas o crânio estourado, a farda vermelha, uma cena terrível. E estava claro que não fora assalto – os matadores nem se deram o trabalho de descer. Eram pistoleiros. E ninguém sobreviveria ao impacto de oito balaços de 9 mm, conforme posterior conclusão do legista.

O crime abala a cidade e torna o dia agitado na metrópole paulistana. A imprensa especula sobre a brutal execução, especialmente devido à significativa data em que acontecera o fato... Insinuam atentado político por grupos radicais ainda ligados a cobranças passadas. Mais tarde, em Brasília, o comando da FAB emite seca e desinteressada nota oficial, argüindo que o crime comum seria apurado, mas apenas para consignar se a morte do militar ocorrera ou não em serviço, uma praxe da caserna. Segundo o pronunciamento oficializado, as investigações permaneceriam a cargo dos policiais civis, com o alto chefe militar assegurando confiar no trabalho daqueles profissionais estaduais. Tudo pura desconversa...

Também o Ministério da Defesa não se pronuncia. Apenas se reporta à explicação já emitida pelo comando da FAB. Uma semana depois, ninguém mais se lembra do defunto, a não ser os seus familiares e companheiros de farda. A morte, então, envolve-se em inextricável mistério. No sepultamento, a família defende veementemente o finado, afirmando ter sido ele uma pessoa pacata, sem inimigos, caseira, afastando assim qualquer hipótese de crime passional. Por isso, nada aparentemente explicava aquela execução à moda mafiosa; e o tempo, trapeiro e indiferente, cuidou do esquecimento. Mas o fato nunca sairia da memória dos agentes da SECINT (Secretaria de Inteligência da Aeronáutica). Um dia, a desforra viria...

ABRIL. RIO DE JANEIRO. CAIS DO PORTO. NOITE. Navio da Marinha de Guerra dos EUA descarrega diversas caixas lacradas, que são imediatamente transferidas para caminhões do Exército Brasileiro numa operação toda realizada por homens fardados. Alguns estivadores e funcionários curiosos observam tudo de precavida distância, com a área de desembarque totalmente isolada e somente ocupada por mal-encaradas sentinelas. Fuzis e metralhadoras inibem qualquer curiosidade...

Logo depois os caminhões, em comboio fortemente escoltado, rodam pneus nervosos nas estradas e só param em Brasília, Forte Apache, quartel-general do Exército. Em chegando, o misterioso material, sem qualquer identificação externa nas caixas que o conduzem, é levado a um amplo setor totalmente isolado e com indicação de ultra-secreto. No quartel, ninguém estranha. 

Ainda durante esse mês chegam equipes de técnicos japoneses e americanos. Confinam-se naquela área restrita e trabalham ininterruptamente. Do aparato tecnológico contido nas caixas emerge montada, naquele ambiente fechado, uma espetacular CENTRAL DE COMUNICAÇÕES E OPERAÇÕES DE INTELIGÊNCIA (CCOI), dotada de computadores de última geração e de outros equipamentos eletrônicos altamente sofisticados, fazendo interface com os sistemas de espionagem e contra-espionagem em todos os níveis da maquinaria governamental brasileira, ainda interligados aos sistemas congêneres das superpotências amigas. 

Na parede é instalada imensa tela de cristal líquido, projetando o mapa da América do Sul em minudentes detalhes, especialmente o desenho do território brasileiro, reproduzindo-se com exatidão o verde das matas, os rios e riachos, os lagos e lagoas, as cidades de grande porte, as estradas, aeroportos e portos, além de muitos outros pontos estratégicos existentes no território nacional, tudo em cores vivas, brilhantes e legendadas. Outras telas menores também são dispostas e começam a imediatamente receber imagens ao vivo de satélites norte-americanos e de outros de países amigos. 

Dispositivos de zum funcionam como verdadeiros microscópios, capazes de trazer à vista normal uma pequeníssima rua ou qualquer outra mínima particularidade contida na tela. O sistema é também acoplado a dispositivos de comunicações informatizados, podendo ainda imprimir em papel especial e em qualquer tamanho as áreas maiores ou menores que porventura sejam selecionadas. Tudo coisa de Primeiro Mundo.

Da montagem também participam militares das três armas, todos altamente especializados e previamente designados em equipes interdisciplinares para trabalhar no local dia e noite. E são então instalados avançados programas de acompanhamento estatístico, entre outros formulários eletrônicos destinados à qualificação individual e ao controle meticuloso das atividades de criminosos em todo o território nacional. Em termos comparativos, estruturou-se uma central de coleta de dados e análise na anteguarda das existentes nos mais importantes centros de espionagem ou de polícia do planeta. 

Com toda a sofisticada parafernália já montada, iniciam-se, céleres, as inserções de informações nos possantes computadores. E começam a surgir na grande tela quadrantes vermelhos, delimitados em precisão milimétrica. E surge, iluminada, uma faixa rubra em toda a extensão fronteiriça do Brasil com os países sulamericanos, desde a Guiana Francesa até ao Uruguai. E brotam manchas e mais manchas escarlate e branca no mapa, todas interligadas por caminhos igualmente brancos e rubros e entremeadas por pontos em cor violeta, tudo como uma grave doença em metástase.

Designados em caráter ultra-secreto apresentam-se, no quartel-general de Forte Apache, dez procuradores de justiça federais, discretíssimos membros do Ministério Público da União, para atuar, em caráter permanente, naquele centro de coordenação e controle que mais parece a NSA (National Security Agency). Toda essa silenciosa movimentação ocorre longe do foco curioso da imprensa, que não percebe absolutamente nada... 

MAIO... São Paulo, capital. Barbaramente executado o Corregedor da Polícia Federal, que investigava um impressionante esquema de corrupção patrocinado por agentes daquela instituição. O episódio faz eclodir uma crise sem precedentes na mais poderosa organização policial brasileira, sempre disputada por políticos de diversos naipes. Pelo menos assim noticiava a imprensa, não se esclarecendo com maior profundidade o grave incidente. Mas, em Forte Apache, a tela de cristal líquido pinta-se com mais um ponto violáceo, entre muitos outros já marcados naquele sistema de controle visual: um delegado federal, depois do coronel da FAB. Todos tinham a certeza de que não eram mortes fortuitas...

Dias depois, no foco das suspeitas de mandar grampear telefones de altas autoridades, cai o delegado Superintendente da Polícia Federal, iniciando-se ardorosa disputa política pelo cargo, com o próprio Presidente da República pressionado pelos grandes partidos políticos, todos forçando indicações de seus apaniguados. A imprensa especula com estranheza. Não compreende aquela inexplicável ingerência política, em se tratando de órgão estritamente técnico, de natureza exclusivamente policial voltado para o contrabando, o descaminho e para ações contra o narcotráfico. “Que interesse mais teriam os políticos?...”, cogitam sem parar os jornalistas em seus noticiários.

JUNHO... Tanto quanto maio, o mês é marcado pelo aprofundamento da crise institucional, por turbulências políticas e por relevantes denúncias sobre o narcotráfico. A imprensa, antecipando-se aos organismos oficiais, inicia uma série de reportagens sobre a descontrolada proliferação do tráfico de drogas no território nacional. Veicula episódios quase que irreais, porém baseados em ocorrências concretas; nada de ficção ou de especulação sensacionalista. Os fatos, todavia, são abusivos e perigosos à segurança nacional, porquanto mostram a audácia e a impunidade de um sistema de submundo do crime nunca imaginado no país, conforme deduzem os jornalistas e assim o transmitem à opinião pública.

Alguns outros jornais, ainda mais informados, abrem matérias sucessivas e iluminando, em detalhes, as rotas internacionais de distribuição da droga a partir da Colômbia, da Bolívia, do Suriname, das Guianas, do Peru e do próprio Brasil, também já considerado um importante plantador de coca, de maconha e de papoula, esta última destinada à produção do ópio. 

O Nordeste entra no foco das inúmeras e diversificadas denúncias, confirmando-se a impune existência do denominado “Polígono da Maconha”, situando-se o tráfico de drogas como a principal base do crime organizado em toda aquela imensa região. O Conselho de Segurança do Nordeste (Consene) reage, assegurando que as providências estão sendo tomadas com a ajuda do Infoseg (Sistema de Integração Nacional de Informações de Justiça e Segurança). As autoridades locais, entretanto, não perdem a chance de reclamar  com veemência sobre a necessidade de uma política nacional de combate à macrocriminalidade. E não se há como negar as evidências publicadas. O problema não é mais local, porém nitidamente nacional. E fica claro que não se trata mais de questão política, mas de urgente necessidade de ação concreta muito além da capacidade governamental localizada.  

Para reforçar ainda mais a certeza de que o narcotráfico está perigosamente disseminado por toda a tessitura social do país, surgem irrefutáveis provas de que existe uma região onde o tráfico é tão intenso, mas tão descaradamente intenso que passou a ser insolitamente conhecida como “Trapézio da Cocaína”: um traçado no mapa da América do Sul englobando as cidades de Tabatinga, no Brasil, e Letícia, na Colômbia, abarcado esse traçado geométrico por extensa linha fronteiriça entre os dois países. Na tela de Forte Apache o encarnado e o violeta palpitam como um coração descompassado e sanguinolento nessa região.

Nesta linha de graves constatações, surge ainda o envolvimento de autoridades militares e civis dos poderes do Estado em escandalosas benesses a traficantes colombianos, especialmente na Amazônia e nas Regiões Centro-Oeste e Sul do país. Estarrece a confirmação de que aviões militares estão a transportar para a Europa grande quantidade de cocaína, associada a outro fato grave: o impressionante número de aeronaves civis sistematicamente roubadas, muitas delas encontradas em países vizinhos, particularmente na Venezuela e no Suriname, incluindo-se o desaparecimento dos pilotos, certamente eliminados por criminosos profissionais que nunca deixam rastos. Enquanto isso, escândalos surgem, uns após outros, no mercado financeiro e no meio político e empresarial. A imprensa divulga trechos de fitas contendo comprometedoras conversas telefônicas entre autoridades de alto escalão do governo central e personalidades do mundo financeiro. As denúncias são gravíssimas e envolvem banqueiros e empresários, além de políticos de grande expressividade. Fica no ar a suspeita da existência de um complexo esquema de lavagem de narcodólares envolvendo muitos figurões do asfalto.

Os políticos reagem à avalanche de acusações instalando diversas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), surpreendendo-se eles próprios com o surgimento e a comprovação do comprometimento de alguns de seus pares no esquema do narcotráfico e da lavagem de milhões de dólares, desviados aos paraísos fiscais, além de outras trapaçarias técnicas comuns ao mercado financeiro e amplamente denunciadas pela imprensa. Não era apenas suspeita...

A Abin (Agência Brasileira de Inteligência), sempre quietinha no seu canto de observadora privilegiada, acaba, porém, entrando no foco das denúncias de também grampear telefones particulares e públicos, em típica e exagerada fuxicaria política, com alguns assuntos vazados para a imprensa e divulgados com grande estardalhaço. Mais que isso, a Abin baila na desconfiança da mídia brasileira, esta que abertamente questiona a injustificável disputa de poder entre o Ministério da Justiça e a Casa Militar da Presidência da República. 

Ainda em junho, os jornais lançam a idéia de que a Abin estaria sendo aparelhada, – sem as necessárias explicações, – para manter um absoluto controle operacional de diversos organismos de inteligência do país, via Opcon (Controle Operacional), uma de suas principais estruturas internas. São textualmente referidos: o Serviço de Operações de Inteligência Policial (Soip) da Polícia Federal; o Centro de Pesquisa para Segurança das Comunicações (Cepesc); a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE); as segundas seções de estadosmaiores das Polícias Militares, mais conhecidas pela sigla PM.2; os centros de inteligência das Polícias Civis; os órgãos de inteligência do Exército, da Marinha e da Aeronáutica; o Itamaraty; a Receita Federal; a Previdência Social; o IBGE e outros na área de comércio exterior e tecnologia. Também focalizam os jornalistas a recém-criada Secretaria Nacional Antidroga (Senad), colocando-a como um outro motivo de altercações públicas entre o Ministério da Justiça e a Casa Militar da Presidência, à qual a Senad, ao lado da Abin, igualmente se subordina. Mesmo diante de um quadro de gravidade tão gritante, nem por isso é possível evitar as quedas-de-braço entre gulosos políticos interessados apenas no poder em si mesmo, e não em seus objetivos mais elevados. Ou então em razão de outros motivos decerto inconfessáveis...

A imprensa aperta o cerco e noticia os fatos, percebendo-se claramente a forte concentração do foco decisório da segurança nacional na Casa Militar da Presidência, ficando cada vez mais evidente que a Abin estava despontando como um poderoso organismo central de inteligência e contra-inteligência do país, com seus tentáculos alcançando até mesmo o exterior, tudo fundamentado na necessidade constitucional de salvaguarda e segurança da Sociedade e do Estado, algo inegavelmente indispensável e ao mesmo tempo misterioso em seus mais íntimos meandros, segundo insistentes especulações da imprensa.

Sim, porque os jornalistas, mesmo não escancarando a hipótese, vinculam tudo isso ao aspecto político, como se o poder federal estivesse centralizando em si decisões perigosas à democracia. Questionam se a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos) apenas ocultava, encapsulada em mistério sepulcral, a antiga estrutura do poderoso SNI (Serviço Nacional de Informações), órgão considerado como especificamente voltado à repressão política na ditadura. Insinuam um possível retorno ao passado... E ficam sem resposta, a não ser por um irônico comentário do porta-voz da presidência salientando que o mandatário do país também fora uma indiscutível vítima do autoritarismo. Mas interessa ao sistema que essas especulações permaneçam no ar fofoqueiro de Brasília, e, por via de conseqüência, repercutindo como um ameaçador tambor de guerra batucando impertinente no resto do país...

Sim, sim, porque se aprofunda e se agrava a crise institucional. Políticos brigam cada vez mais entre si; acirram-se as contendas entre os organismos de segurança pública, que se deixam levar ao sabor de inócuas discussões e incompreensíveis desarmonias, tendo como foco o poder e nada mais, como se a sociedade brasileira não existisse. E, por um momento, ninguém mais se entende, tornando-se tão acirrada a crise que o novo Superintendente da Polícia Federal, finalmente nomeado por suposta indicação da Casa Militar da Presidência, dura apenas três dias no cargo, como se fora tudo uma brisa passageira em meio àquela impertinente e redundante bulha política. 

Na verdade, o delegado federal demite-se do cargo ao ser focalizado como um possível torturador no período da ditadura. E sai denunciando que fora derrubado por forças ligadas ao narcotráfico e ao contrabando de Alagoas, em entrevista ao vivo concedida a um conceituado jornalista em programa de televisão em rede nacional. Em resumo, acusa, sem dar nomes, a classe política e setores da imprensa, deixando no ar uma possível verdade ou apenas uma estupenda mentira. Como saber?... Naqueles dias, se as paredes bisbilhoteiras de Brasília falassem, diriam sem medo que o caldeirão brasiliense estava fervendo ao ponto de voar longe a tampa. O caldeirão, porém, não era apenas Brasília, mas todo o território brasileiro. O assobio da válvula vinha célere, e avisando: “Vai explodir!...”

As esquerdas e até mesmo os partidos ligados ao governo vibram com a queda do Superintendente da Polícia Federal. Mas a Casa Militar da Presidência surge logo com a indicação de outro nome, com o fim de não permitir que o controle daquele importante organismo policial caia em mãos de políticos... Por derradeiro, depois de muitas delongas e de listas e mais listas de pretendentes, o mandatário máximo nomeia o novo Chefe da Polícia Federal, pondo termo às inexplicáveis disputas por tão importante cargo do segundo escalão da estrutura governamental. Vem de Minas Gerais a solução... 

No dia seguinte, como num aviso de satisfação pela escolha técnica, policiais federais estouram um laboratório de refino de cocaína no Sul do Pará, prendendo dez traficantes, entre os quais dois colombianos, após violento tiroteio. Dá um show de competência, provando que sabe fazer e que só falta querer. O jornal A VERDADE NACIONAL, importante veículo popular de grande circulação no território brasileiro, elogia a operação policial, porém não deixa passar em branco o detalhe: sugere que os policiais federais estariam agindo ou omitindo-se conforme seus interesses políticos, em vez de restringirem suas ações à legalidade e ao desempenho técnico. Ou que então estariam avisando aos políticos para deixá-los em paz.

Em alguns Estados, os rachas entre as polícias militares e civis aprofundam-se deveras. No âmbito federal, o mesmo fenômeno ocorre em relação a outros organismos estatais, tudo ainda agravado por crises políticas e institucionais que surgem sem quaisquer motivos que as justifiquem. E, em meio a toda essa bagunça generalizada, somente emerge um vencedor: o narcotráfico. Sim, porque despontam cada vez mais evidências de que as teias do tráfico de drogas já estão muito mais intrincadas do que se poderia supor. Tudo isso aflora claro como a luz rutilante de um dia ensolarado... claro demais, para ser atribuído ao mero acaso de conveniências apenas políticas...

No bojo da crise, a Presidência da República emite nota oficial informando um acordo com as grandes potências mundiais e a criação de um fundo financeiro destinado ao combate sistemático do narcotráfico. A decisão presidencial aflora-se após reunião de emergência na ONU, com a participação de representantes do governo brasileiro. O anúncio inclui a construção, em regime de urgência, de presídios federais em todo o território nacional, a serem entregues em tempo recorde. Discreto, muito discreto, o “gigante adormecido” sacode-se e começa a acordar ou a ser acordado pelo perigo iminente, eis que já está espetado por tudo quanto é lado por milhares de varas curtas...

Os políticos de oposição reagem protestando contra as medidas anunciadas, e argüindo que o povo precisa mesmo é de escolas, em vez de novos presídios e mais órgãos federais de repressão política. A imprensa noticia com destaque as críticas à construção dos estabelecimentos prisionais federais, gerando discussões em universidades e na sociedade em geral. Forma-se, em verdade, um verdadeiro rolo compressor contra a decisão presidencial. Mas o Presidente da República mantém-se irredutível, mesmo constatando violenta queda em sua popularidade. Ninguém entende sua postura resoluta. Ele sabe, porém, que a situação é mais grave do que se apresenta diante da opinião pública. Está bem informado.

Ainda nesse mês de junho, os jornais informam sobre um relatório enviado pela Polícia Militar do Estado Rio de Janeiro à Câmara Federal. O documento assegura que a organização criminosa conhecida como Comando Vermelho, CV, já funciona nos moldes da máfia italiana ou como os famigerados cartéis de Cali e Medellin. Salienta, ainda, o contundente relatório, que as quadrilhas no Rio de Janeiro “são chefiadas por pessoas acima de quaisquer suspeitas”, entre outras veementes acusações igualmente formalizadas. Em suma, denuncia com todas as letras o poderio impune do narcotráfico. Dá o recado a PM do Rio: um alerta ao Brasil de que o pior do tráfico de drogas não está nas favelas, e sim nos ambientes de luxo, no impenetrável asfalto e nos computadores de última geração.

No decorrer do mês também noticia-se que o governo brasileiro está para sugerir um pacto entre as nações participantes dum histórico congresso de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e da Europa, a ser realizado no Rio de Janeiro, nesse mesmo mês, com o escopo de promover mudanças na legislação e outras medidas de combate ao narcotráfico e ao contrabando de armas em âmbito internacional. Estranham alguns, sabedores de que os temas do tal encontro seriam outros e muito mais ligados a questões econômicas inerentes aos países participantes e aos seus interesses comuns nesse campo específico. Mudaram o rumo da discussão e ninguém, na verdade, deveria estranhar...

E nesse mês repleto de novidades, – motivadas pelo tal congresso, – a imprensa também publica que a Câmara Federal vem resistindo à aprovação de projeto do Poder Executivo visando ao controle da venda de armas no Brasil, deixando evidente que os dois Poderes do Estado (Legislativo e Executivo) comportavamse como se estivessem disputando um cabo-de-guerra, cada qual puxando a corda para o seu lado, em inexplicáveis melindres e intermináveis contendas. A imprensa esclarece que o mais poderoso lobby norteamericano sempre foi o dos fabricantes de armas, estes que também são os maiores promotores de guerras no mundo. Em meio à briga, o Executivo suspende a comercialização de armas no território nacional pela via da edição de Medida Provisória (MP). Mas entra em cena o terceiro poder (Judiciário) decidindo em favor dos poderosos fabricantes e comerciantes de armas de fogo: o artigo da MP, que especificamente proibia o registro de armas de fogo, é derrubado pela justiça, gerando tal decisão um acirramento da polêmica entre os três poderes, enquanto os importantes e únicos beneficiados comemoram a decisão.

Dois dias após, surge nos jornais um turbilhão de notícias sobre o achado de uma cartilha de guerrilha da LOC (Liga Operária Camponesa), além de informações concretas indicando a presença, em território brasileiro, do grupo guerrilheiro peruano Sendero Luminoso. No Congresso Nacional, um Senador da República apresenta uma cópia da cartilha, lendo-a para registro nos anais daquela Casa Legislativa. E, mal o Senador terminara a leitura, agentes da Abin, sem qualquer preocupação com discrição, comparecem ao gabinete do Senador e dele recebem cópia do rudimentar compêndio. São militares de alta patente das Forças Armadas. A cartilha, incitando o povo à luta armada, além de conter no seu texto as teorias marxistaleninista-maoístas, ainda trazia letras de músicas apregoando a revolução, conforme o trecho de uma delas divulgado no jornal A VERDADE NACIONAL: 

 

“O risco que corre o pau corre o machado

Não há o que temer

Aquele que manda matar também tem que morrer

Eu já tenho machado, falta só botar a cunha

E fazer à moda do gato, dar o tapa e esconder a unha

É a nossa proposta, pois a gente quer ganhar

Se matarem um daqui, dez de lá vamos matar.”

 

Nesse mesmo dia ainda surge outra significativa notícia dando conta de que o governo federal estaria ampliando sua competência no controle de insumos químicos usados no refino da cocaína, inclusive contando com ajuda internacional. É citada a presença, no Brasil, de um representante do Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional de Drogas (UNDCP), colocando-se, destarte, a própria ONU no circuito do combate às drogas no país. O somatório das matérias publicadas não permite mais dúvidas de que o Brasil ocupa o foco internacional de vigília ao narcotráfico.

E a partir desse dia explode no noticiário nacional, com fotos e matérias sensacionalistas, a notícia de que grupos camponeses estão com bases guerrilheiras já formadas nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste do país (especialmente em Minas Gerais). Surge, também, a constatação da existência de bandos treinando guerrilha em Porto Velho, com diversas siglas típicas, como: Movimento Camponês Corumbiara (MCC) e Liga Operária Camponesa (LOC). As notícias informam que esses grupos armados têm ligação com o MST (Movimento dos Sem-Terra), além de seguirem a ideologia marxista. O MST, como sempre, desmente, e muito veementemente, inclusive realçando as críticas feitas na tal cartilha guerrilheira aos movimentos da esquerda brasileira. Mas não convence... 

Também noticia a imprensa que os guerrilheiros usam máscaras como as dos zapatistas mexicanos, e têm ligações evidentes com o famigerado grupo terrorista Sendero Luminoso. Assim, o mapa do Brasil, na tela de cristal líquido de Forte Apache, mancha-se ainda mais de branco, vermelho e violeta (pó, sangue e assassinatos seletivos). Segundo as apreciações críticas de políticos e jornalistas, não há mais como negar que a situação é de sério risco à segurança nacional e à própria democracia, conforme já reiteradas vezes acentuara o jornal A VERDADE NACIONAL. E o Presidente da República, enfim, avisa com todas as  letras que será intransigente na repressão aos guerrilheiros infiltrados entre os sem-terra.

Ainda em junho, véspera do encontro de chefes de Estado, a imprensa continua a veicular dados sobre as brigas internas da Polícia Federal e sobre as reações desta contra a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas). O caldeirão das disputas esquenta de um lado, enquanto do outro os inimigos do país ampliam e fortalecem suas posições. Os repórteres tentam alguma declaração dos militares, diante do inegável quadro de ameaça à segurança nacional. Nada conseguem. Os militares não emitem qualquer declaração. Mas é certo que não estão passivos. Como sempre, agem em silêncio sepulcral...

Os dias permanecem quentes em matéria de denúncias de conflitos institucionais e políticos, até que, finalmente, inicia-se no Rio o encontro de dignitários, reunindo Chefes e Primeiros-Ministros de Estado latino-americanos e europeus. E, por mais que o foco principal fosse a miséria e a defesa de uma economia mundial mais eqüitativa, o narcotráfico internacional rouba a cena das discussões. 

Já na abertura, o Presidente da República do Peru assegura à mídia nacional e internacional, com todas as letras, pontos e vírgulas, que o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso está infiltrado no Brasil e apoiando o narcotráfico. Nos jornais brasileiros publica-se a notícia de que a Polícia Federal, através de seu serviço de inteligência, estaria investigando essa nefasta infiltração, especialmente em Rondônia, no Acre e em Mato Grosso. E o presidente peruano, em sua fala oficial, não só reitera o que antes declarara, como amplia a certeza de que os guerrilheiros do Sendero Luminoso cá estão. E também garante que outro grupo terrorista (Tupac Amaru) fez planos para matá-lo durante a sua permanência no Brasil. E, por fim, anuncia que o serviço de espionagem peruano tem informações sobre a presença de guerrilheiros alienígenas até mesmo na cidade do Rio de Janeiro, com o mesmo objetivo de atentar contra sua vida.

Nos debates internacionais fervilha o tema narcotráfico, fazendo coro ao presidente peruano os mandatários da Colômbia, da Venezuela e da Bolívia, através de duros discursos proferidos durante o congresso. E confirmam a ligação do narcotráfico à guerrilha, ambos de braços dados e infestando os territórios de seus países, além de instalados na Amazônia brasileira e demais nações sul-americanas. O encontro, enfim, rendeu-se em definitivo ao assunto tráfico internacional de drogas e aos movimentos guerrilheiros a ele conectados. Foi, com efeito, o que emergiu como a mais séria preocupação de todos os participantes. 

Não há mais dúvida em ninguém. Luzes vermelhas e violáceas piscam insistentemente em todo o território brasileiro. A lama branca escorre-se por todo o solo pátrio. Na tela de cristal líquido da CCOI, em Forte Apache, o verde exuberante da floresta amazônica e o brilho cristalino das águas de seus rios rutilam em branco, vermelho e violeta. Na região Nordeste, aquelas cores da desgraça também começam a predominar. As informações recebidas via satélite assinalam plantações de maconha, coca e papoula em todo o território nacional. Assassinatos ocorrem sem controle em tudo quanto é região. O caldeirão do perigo continua a ferver, com a água em ebulição frenética, como um vulcão prestes a explodir, sem controle. Já não mais assobia, porém apita ferozmente, avisando: “Vai arrebentar!” 

É um alarma, sem dúvida. E, se não bastasse, ainda surge a confirmação de que o tráfico de animais silvestres está a crescer junto com o próprio tráfico de drogas e de armas nas fronteiras do Brasil com diversos países sul-americanos. A denúncia parte do coordenador-geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), assegurando em todos os grandes jornais do país que a comercialização ilegal de aves e de pequenos mamíferos já alcança a média de 50 milhões de cabeças e movimenta a impressionante cifra de dois bilhões de dólares por ano. Enfim, é generalizada a baderna do contrabando e do descaminho nas fronteiras do Brasil com os seus vizinhos, tudo isso logicamente contando com a conivência do resto do mundo, sempre ávido por comprar seus bichinhos de estimação nativos das florestas brasileiras, e em consumir a droga produzida na América do Sul. É, na verdade, a lei da oferta e da procura, tudo funcionando da maneira mais elementar que se conhece: se há comprador de determinada coisa, há de haver sempre o vendedor desta coisa, seja lá o que for, – cocaína, arma, ou um simples passarinho, – tudo circulando nas fronteiras como água trespassando uma peneira...

JULHO... Brasília. Em meio a toda essa insustentável turbulência, o Presidente da República encaminha ao Congresso Nacional a mais polêmica lei até então já sugerida pelo Poder Executivo ao Legislativo: a nova Lei de Tóxicos; muito dura, duríssima no seu texto, dando atribuições especiais ao Poder Judiciário e ao Ministério Público de processarem em absoluto segredo, além de irrestrita competência para a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico de brasileiros e estrangeiros residentes no país, desde que fundadas as suspeitas de envolvimento deles com o narcotráfico. E também prevê, como grande novidade institucional, o acionamento direto das Forças Armadas pelo Ministério Público e pela Justiça para a erradicação do tráfico em grande escala, até com a possível decretação do Estado de Defesa, porém em áreas delimitadas e em comprovadas situações de grave instabilidade institucional.

Há tremedeira política. Os Ministros da Justiça e da Defesa, em coro com os chefes militares, aplaudem a decisão presidencial. A abstração começa a emergir como realidade concreta e irreversível. Não dá mais para não ouvir o apito do perigo: a fumaça começa a surgir, indicando a explosão que virá. Com a drástica medida da Lei de Tóxicos, somando-se às demais já anunciadas, começa a se formar uma estrutura de guerra ao narcotráfico jamais cogitada no Brasil. Não há mais o que discutir sobre o aproveitamento de todas as riquezas provenientes do crime organizado como receitas do fundo financeiro destinado ao seu combate, previsto no mesmo texto legal, incluindo-se automática autorização ao recebimento de ajuda internacional. 

Prevê ainda a Lei de Tóxicos o treinamento de policiais civis e militares em quartéis das Forças Armadas, especialmente em operações especiais. Ao mesmo tempo, insere autorização para o treinamento de grupos militares em investigação criminal, nas academias policiais civis e policiais-militares, estabelecendo-se, assim, o máximo de integração entre militares e policiais. E autoriza a União a colocar em funcionamento, a médio prazo, um CENTRO INTEGRADO DE TREINAMENTO DE SEGURANÇA PÚBLICA (CITSP), subordinado ao Ministério da Justiça. O projeto corre em regime de urgência; funciona o rolo compressor do governo, e, ao cabo de vinte e cinco dias, a Lei de Tóxicos já está sancionada na íntegra, apesar de algumas estranhas resistências... 

Em meio a essa crise política e institucional já instalada, as especulações alcançam as raias do sensacionalismo, até com ameaças de queda do mandatário máximo ou de alguns de seus Ministros de Estado. Nenhuma nota oficial, porém, é emitida, o que faz ampliar ainda mais as especulações entre jornalistas e parlamentares, que soltam o porrete no governo e divulgam pesquisas negativas. Mas o presidente permanece sereno; não responde aos movimentos articulados no sentido do seu afastamento, em especial às insistentes manifestações da oposição, em horário de partidos políticos na tevê, apregoando o impeachment presidencial. O poder central não tem tempo para perder com brincadeiras e respostas aos fogosos e incendiários prosélitos tupiniquins. O assunto é sério demais.

A reação presidencial definitiva não se faz esperar. Como já se especulava, o mandatário máximo reformula o seu ministério, colocando na pasta da justiça um reconhecido advogado, defensor dos direitos humanos, e que enfrentou a ditadura como advogado de presos políticos, entre os quais um jornalista que teria sido torturado e morto nas dependências do Doi-Codi. Além dessa relevante função que desempenhara em momentos difíceis, o novo ministro traz em sua algibeira profissional o fato de ter sido presidente da Comissão de Justiça e Paz, na década de 70, e depois, já no período de abertura política, secretário de justiça de São Paulo.

Mas o novo ministro, em polêmico pronunciamento, toca forte numa das principais feridas institucionais brasileiras quando anuncia ser favorável à unificação das polícias civis e militares dos Estados, algo sempre rebatido com veemência por ambas as corporações, geralmente conflitantes. Esse anúncio tem outro aspecto de profundidade política, posto que, com a unificação, desapareceria da Carta Magna a tradicional condição das Polícias Militares de forças auxiliares reservas do Exército, segundo comentários nos meios políticos. O chefes militares não se manifestam. Suas preocupações são muito diversas e mais sérias, eis que não são as esquerdas que ameaçam a democracia, mas o narcotráfico. Contudo, não demora muito e o ministro desaba como um saco vazio de prestígio político, numa dança de cadeiras que parece não ter fim naquele importante ministério.

Dança de cadeiras à parte, outra medida presidencial concreta, que calou a oposição, foi a indicação de um ex-guerrilheiro da Aliança Libertadora Nacional (ALN) para secretário-geral da presidência. De acordo com as notícias veiculadas, o nomeado participara até mesmo de empreitadas armadas, juntamente com um notório líder da guerrilha urbana, morto em São Paulo em entrechoque com as forças de segurança na época da ditadura. Nada disso, porém, interessa aos militares. Os cargos estratégicos e táticos voltados para as atividades de inteligência não são atingidos por essas mudanças. É somente isso que a eles interessa... Assim, as tensões políticas arrefecem. Até parecia não haver mais clima para taxar o mandatário máximo de ditador. Segundo comentários jornalísticos, o presidente adotara a tática inglesa do shadow cabinet (expressão que identifica um modelo de gabinete ministerial semelhante ao almejado pela oposição), com o objetivo de neutralizar os discursos mais acirrados. Mesmo assim, a popularidade presidencial continua a cair, como se fosse um pára-quedas que se não abriu e que se desloca, em irreversível velocidade, em direção do impacto fatal contra o chão.

AGOSTO... A impopularidade presidencial, já arrastada a percentuais maiores do que a de um presidente que fora anteriormente afastado por denúncias de corrupção, continua em inexorável queda. E, para complicar ainda mais, os sem-terra recebem fragorosa derrota na justiça do Pará, com a absolvição dos oficiais da Polícia Militar que lideraram o massacre de camponeses naquele Estado. O fato repercute em cheio no mandato presidencial, de nada adiantando ao mandatário externar sua providencial indignação com a absolvição dos acusados. Os ânimos dos sem-terra entram em completa ebulição, um fato preocupante e de certo modo fora de controle por parte do poder central. 

Nesse clima de transtorno político, ainda acirrado por posições radicais, em Minas Gerais, contra o governo federal, em vista de uma possível e programada privatização da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais), vem ao Brasil o general-chefe do Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas dos EUA, com sede na Casa Branca. Junto com o anúncio de que ele veio para se reunir com o general-chefe da Casa Militar da Presidência, o jornal A VERDADE NACIONAL estoura em manchete noticiando que a Polícia Federal iria desencadear uma ação nos rios Amazonas e seus afluentes, de modo a neutralizar as rotas de abastecimento de alimentos e armas destinados às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs), cujo ponto de partida seria a cidade de Manaus. 

Essa notícia surge como reação a uma anterior, que dava conta de que a guerrilha colombiana estaria sobrevivendo de impostos cobrados ao narcotráfico naquele país. E já se fala, na referida matéria, de intervenção internacional na Colômbia. Mas a pressão dos EUA, agora escancarada com a vinda ao Brasil da maior autoridade norte-americana no combate ao narcotráfico, tem origem lá mesmo, onde uma pesquisa de opinião, feita pelo Washington Post, detectara que 78% dos cidadãos norte-americanos consideram que a política de combate às drogas daquele país é um fracasso. E, se existe alguma coisa que incomoda os políticos norte-americanos é pesquisa de opinião desfavorável...

Num domingo de agosto, o mesmo jornal Washington Post ainda abre extensa matéria anunciando que os EUA vão aumentar em cinco vezes a verba destinada ao Brasil para o combate ao narcotráfico. E informa sobre a vinda de mais um general alienígena, no mês seguinte (setembro). Tratava-se, segundo a notícia, do Chefe do Comando Sul das Forças Armadas daquele poderoso país, que aqui viria para se encontrar com o Ministro da Defesa e com os comandantes das três armas das Forças Armadas brasileiras. Antes, porém, esse mesmo general já declarara para toda a grande imprensa internacional que os traficantes colombianos tenderiam a se esconder no Brasil, caso fosse desencadeada uma ofensiva internacional na Colômbia, uma conseqüência que o general assegurara que adviria, e sistematicamente, a partir do desencadeamento, em solo colombiano, de operações militares conjuntas, estas que estariam dependendo apenas da liberação de vultosa verba pelo congresso norte-americano, decerto a parte mais fácil para aquele ricaço país capitalista.

A entrevista do general ostentava, ainda, alguns dados estatísticos referentes a janeiro/maio de 1998, com um detalhado mapa demonstrativo do cultivo e do processamento da cocaína pura, da heroína e da maconha em território colombiano, ficando nítido o envolvimento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs) com o narcotráfico, especialmente com o cartel de Medellin.

Só para se ter uma idéia da dimensão do problema, o quadro divulgado no jornal A VERDADE NACIONAL apontou que foram processadas 584 toneladas de cocaína, 8.2 toneladas de heroína e 7.5 toneladas de maconha na Colômbia no período delimitado (janeiro a maio de 98), ainda demonstrando, num mapa, as áreas daquele país em que são realizados os plantios: 78.500 hectares de coca, 6.600 hectares de papoula e 5.000 hectares de maconha. E, por fim, ainda assegurou o jornal que todas as áreas de plantio e de processamento estão enquadradas em territórios do Exército de Libertação Nacional (ELN) colombiano, que atuaria nessas áreas com seis frentes de 490 homens e mais seis bandos armados e interligados, de 350 homens cada. E ainda acrescentou que outras áreas idênticas estariam controladas pelas FARCs, estas em vinte e três frentes e com 2.315 homens empenhados no apoio aos narcotraficantes.

Os americanos, por questões estratégicas, divulgaram somente dados pretéritos, deixando em mistério os detalhes sobre o crescimento do tráfico desde aquele período até o tempo presente, porém admitindo que o maior problema a ser enfrentado dizia respeito ao cartel de Medellin, em vista do enfraquecimento do cartel de Cali com as prisões dos irmãos Rodríguez Orejuela. E ainda acrescentaram que há hoje 190 mil hectares de plantio de coca na América do Sul: na Colômbia (42%), no Peru (37%) e na Bolívia (21%), além de garantir que a Colômbia responde por 80% da cocaína colocada no mercado mundial. 

E, no vácuo dessas constatações, arrebenta como um trovão a notícia de que a máfia russa tomou conta de Moscou e do resto daquele país, dominando setores governamentais e empresariais em todo o seu território. E, muito pior, surgem provas incontestes de que os mafiosos russos mantêm estreito contato com os cartéis colombianos, entre outros congêneres de países sul-americanos, a tal ponto que as autoridades governamentais colombianas até apreendem, num estaleiro clandestino, em plena Bogotá, um submarino que estava sendo construído com tecnologia russa e com capacidade para transportar duzentas toneladas de cocaína mundo afora. O fato, inédito, espantou o mundo, ainda mais porque não ficou apurado se o submarino apreendido fora o primeiro a ser fabricado pelos criminosos. E espanta também a constatação de que a mesma máfia russa já vinha contrabandeando fuzis AK-47 para as FARCs, em aviões IL-76, que passavam pelo aeroporto de Amã, na Jordânia, e aterravam na Colômbia, retornando com o pagamento em toneladas e mais toneladas de cocaína a serem consumidas na Europa. Em resumo, fica sobejamente claro que a barra do narcotráfico está cada vez mais pesada, e funcionando tudo isso como um pesado alforje nas costas do Brasil. Afinal, tudo vem ocorrendo muito próximo do território brasileiro...

E aqui afloram escândalos e mais escândalos, dando conta do envolvimento de políticos aliados ao crime organizado do narcotráfico, algo público e notório, de tão insistentemente divulgado pela mídia nacional. E, no contexto das desmedidas pressões dos EUA sobre o Brasil e demais países sul-americanos, surge a notícia do fechamento da fronteira brasileira com a Colômbia, com a polícia federal garantindo a inevitabilidade dos combates entre policiais civis e militares brasileiros contra narcotraficantes e guerrilheiros colombianos, confirmando-se a presença deles em território nacional. Assim, vai ficando claro como a luz do dia que o comando das operações contra o narcotráfico ficará mesmo no gabinete presidencial, através da Casa Militar e de seus organismos de inteligência e de controle de drogas (Abin e Senad), tanto quanto se torna nítido que as ações de combate ao narcotráfico já estão diretamente comandadas pelas Forças Armadas brasileiras, por mais que estas neguem. Porém, não há mais como negar, por exemplo, o curso inexorável da “Operação Cobra”, esta que, sem dúvida, é apenas um arremedo do que virá adiante...

Há, com efeito, um gravíssimo quadro de insegurança em todo o Cone Sul, que está sob ameaça de derrota diante do impressionante crescimento do tráfico de drogas no mundo, que, segundo dados divulgados, alcança a cifra de 50 bilhões de dólares/ano. Mas a imprensa acaba por confundir esses valores, que se foram ampliando em notícias sucessivas de jornais e revistas, até que, em alguns casos, ocorresse o anúncio de que aquela cifra anual até poderia ultrapassar a espantosa casa do trilhão de dólares/ano. 

Junto com essa exagerada especulação surge outra, muito óbvia, de que a Colômbia perdeu definitivamente a guerra para o narcotráfico em seu território. O perigo emergente é a expansão da narcoguerrilha, que caminha inexoravelmente em direção ao território brasileiro. Melhor dizendo, os narcoguerrilheiros já chegaram aqui! É questão de segurança nacional... E para quem ainda duvida, mais uma vez a imprensa se antecipa aos órgãos oficiais e denuncia que as FARCs vêm de há muito recrutando jovens brasileiros para a guerrilha, com uma promessa de salário em torno de R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais, aproveitando-se da miséria reinante na região de Tabatinga e outras localidades rurais do território nacional. E Tabatinga, cada vez mais no foco das atenções das autoridades civis e militares, resurge no cenário pátrio com a denúncia, oriunda da Abin, acrescendo que lá vem florescendo um inusitado foco de seitas religiosas formadas especialmente por peruanos, porém muitas apenas como fachadas de impressionante tráfico de armas para a guerrilha colombiana, confundindo-se fanatismo com banditismo, e somando-se a tudo isto a miséria de muitas famílias levadas à orfandade em conseqüência da morte ou prisão de seus cabeças, que, sem melhor alternativa de vida, acabam se envolvendo no comércio de drogas e de armas.

Em meio a essas alarmantes constatações vem mais uma outra, tão inusitada quanto preocupante: o jornal A VERDADE NACIONAL estampa em página inteira a notícia de que a esposa de um coronel americano, chefe do pessoal designado para treinar os colombianos na luta antidrogas, simplesmente traficara cocaína para os EUA através da mala diplomática de sua embaixada na Colômbia. A notícia bombardeou o prestígio norte-americano, ficando as autoridades daquele país em posição ambígua diante do mundo. Segundo o jornal, sempre se antecipando aos acontecimentos, o episódio foi batizado como de “dupla moral gringa”, sendo alvo de chacotas e estupendas críticas por parte dos acuados colombianos. A mulher do coronel chegou a ser presa, mas foi libertada após pagar fiança de US$ 150 mil.

Mas o desconforto dos norte-americanos não parou por aí. Nessa mesma época em que o jornal A VERDADE NACIONAL descortinara suas novidades, a imprensa em geral acrescentou outros importantes condimentos a esse molho já tão apimentado. Um outro jornal, por exemplo, trouxe a público que 44,34% dos insumos destinados ao refino da cocaína e da heroína consumidas pelos norte-americanos saem de lá mesmo. Ou seja, eles próprios estão a sustentar o processamento daquilo que pretendem combater em território alheio. E, como sempre, na base de pressões diplomáticas, e mesmo militares, e da oferta de dinheiro alto aos governos dos países agora duplamente afetados em sua soberania: pelo narcotráfico e pelos ianques...

No caso da Colômbia, o foco das maiores preocupações é a inegável ligação entre o narcotráfico e os guerrilheiros, fazendo aflorar daí os narcoguerrilheiros. E a imprensa denuncia que os EUA determinaram um prazo para que os colombianos apresentem um plano concreto de combate à guerrilha e ao narcotráfico em troca de muitos milhões de dólares... Não poderia ser diferente, já que partira dos EUA a denúncia de que somente a guerrilha colombiana gastava anualmente a impressionante quantia de US$ 500.000.000,00 (quinhentos milhões de dólares), recebidos dos cartéis criminosos daquele país, segundo levantamentos feitos pelo DEA (Drug Enforcement Administration) e pela CIA, tudo referendado pelo Conselho de Segurança Nacional norte-americano. Começa a emergir das entranhas da espionagem os primeiros resquícios do Plano Colômbia...

De caminho nessas notícias, ocorre uma verdadeira gritaria de setores progressistas brasileiros, baseada em dados sobre a lei da oferta e da procura. Reclamam que os EUA são os maiores consumidores de substâncias entorpecentes, e também são os que mais contribuem com insumos para o seu refino na origem (países produtores), além de fornecerem as sofisticadas armas utilizadas por narcotraficantes e narcoguerrilheiros. E sugerem os progressistas que é nefasta a política norte-americana de combate ao narcotráfico, somente considerando a oferta como o foco do problema a ser por eles enfrentado, e, com isso, deslocando para os países produtores da droga toda a culpa, e estabelecendo, deste modo, que estes são os únicos alvos do combate a ser travado. Em resumo, em se considerando a lei da oferta (sempre menor que a procura), para os maiores especialistas neste assunto não interessa inserir como verdadeira causa do crescimento do narcotráfico esta última (procura), porque resultaria na necessidade de eles, os norteamericanos, correrem atrás de seus próprios rabos...

Essa postura unívoca, segundo as barulhentas correntes contrárias, é a que vem permitindo aos governantes dos EUA, ao longo dos tempos, legitimar até mesmo o emprego de tropa militar em países sulamericanos, projetando para o povo norte-americano a falsa idéia de que eles são apenas “vítimas”, e de que seus militares são os “heróis” que vão a pontos distantes combater os “inimigos” que estão a “destruir”, com a oferta de drogas, os jovens ianques, enquanto todos os demais são os “vilões” que precisam ser erradicados. E muitos países, em troca de um punhado de dólares, vêm permitindo a atuação direta de tropas alienígenas em seus territórios, assumindo para si a culpa de tudo, – e com o foco apenas na oferta, – algo severamente criticado por aquelas correntes progressistas.

Contudo, eclodem tantas notícias sobre o crescimento acelerado do narcotráfico no Cone Sul, – e são tantas as pressões internacionais e nacionais apontando para esse grave problema, – que não há mais como fingir não vê-lo. Também são tão evidentes os indícios de que o território brasileiro é o espaço natural de proliferação da narcoguerrilha, que o Brasil não mais pode deixar de considerar o assunto como de segurança nacional. 

E não param de surgir na imprensa novidades sobre as rotas de condução de insumos à Colômbia, figurando inclusive Trinidad e Tobago, um dos menores países da América Central, como um forte canalizador desses insumos, geralmente oriundos dos EUA. E a notícia mais surpreendente: os colombianos passaram a utilizar cimento, gasolina e fertilizantes para a extração dos alcalóides da cocaína. Sem dúvida, um quadro de grave emergência tão aberrante, que não mais é possível empurrá-lo para baixo dos tapetes governamentais de Brasília...

Entre muitas outras novidades trazidas ao conhecimento do público a partir da presença, no Brasil, do general americano comandante do Cone Sul, que inclusive é fotografado em entrevista com o mandatário máximo brasileiro e com o chefe da Casa Militar, surge a notícia de que a Senad e a Embaixada dos EUA vão trabalhar integradas no combate às drogas. Enfim, emerge das entranhas do mistério, que vinha caracterizando os contatos anteriores entre os dois países, a intensificação dos trabalhos de forças-tarefas antidrogas, compostas por agentes da Polícia Federal, da Receita Federal, do Ministério Público e das Forças Armadas, tendo a Abin como órgão de coordenação desses trabalhos, que, segundo o divulgado, teriam como alvo inicial as áreas de entrada de drogas em território brasileiro.

Com essas últimas informações veiculadas, fica claro que a Casa Militar da Presidência da República, através da Abin e da Senad, está no comando das ações a serem desencadeadas. Contudo, observa-se que as peças deste complexo quebra-cabeça ainda não surgem se encaixando com precisão no campo prático. Por isso, fica no ar a conclusão de que essas visitas do mais alto escalão militar dos EUA no Cone Sul, – e o anúncio concreto sobre a imperiosa necessidade de uma empreitada militar e policial, de caráter internacional, contra o narcotráfico, incluindo até mesmo a invasão do território colombiano a partir do Brasil, – tem como objetivo legitimar o que efetivamente poderá ocorrer num futuro próximo: um novo Vietnã... E tudo leva a crer que a manobra funciona a contento, eis que o meio político – especialmente a oposição – silencia totalmente, como se nada de estranho estivesse acontecendo no país. Não há mais como tergiversar, em se tratando de assunto tão sério...

 

“Esses eventos oficiais, na verdade, trazem no seu bojo a constatação de que os norte-americanos vêm no máximo vapor de suas turbinas, em direção ao Cone Sul; mas também aflora uma outra realidade: os EUA é que estão sustentando a podridão instalada na América do Sul, mandando para as mãos dos narcotraficantes e guerrilheiros a maior parte das sofisticadas armas por eles utilizadas, além dos insumos indispensáveis ao refino das drogas, que acabam retornando e destruindo a eles próprios. Na verdade, tudo está posto como se o Cone Sul fosse uma imensa região que eles – os norte-americanos – entupiram de lixo fétido, mas que um insistente vento, que sopra do Pólo Sul para o Pólo Norte, devolve-lhes o miasma aos próprios narizes; porém, com um preço também muito oneroso aos países sul-americanos, que, na realidade, funcionam como lixeiras do capitalismo desmedido que caracteriza aquela superpotência.”

 

Assim analisou o jornal A VERDADE NACIONAL, num grave editorial comentando as visitas oficiais de autoridades antidrogas dos EUA ao Brasil, e as visíveis pressões daquele país no sentido de uma ação mais eficaz contra o crescente perigo. Mesmo assim, o referido jornal defendeu a ação governamental, com ou sem ajuda americana, pois o que importa é salvar o Brasil de um mal que já alcançou o tamanho de um monstro que está a devorar tudo o que lhe vem surgindo à frente: o narcotráfico.

O mês de agosto é ainda marcado por diversos encontros entre o Presidente da República e os Ministros da Justiça, da Defesa e da Casa Militar, além dos chefes militares das três armas. Uma dessas reuniões dá-se em pleno feriado do Dia do Soldado, o que despertou deveras a atenção da imprensa. Na saída, o silêncio de sempre; contudo, assuntos não faltaram nessas discussões de natureza ultra-secreta... Enquanto isso, o mapa de cristal líquido da CCOI, em Forte Apache, mostra-se cada vez mais branco, rubro e violáceo, indicando com clareza o iminente e gravíssimo perigo que ronda o Brasil. Na verdade, o mapa mostra também um país ruborizado na vergonha de sua passividade...

SETEMBRO. BRASÍLIA... O Ministério da Justiça promove importante seminário, com duração de três dias. Além do ministro, participam todos os desembargadores presidentes de Tribunais de Justiça e procuradores-gerais do Ministério Público, tanto federal quanto estaduais. Segundo informações extraoficiais, o tema principal do encontro é a extinção da Justiça Militar e a criação de uma Justiça Especial de Combate ao Narcotráfico. 

A imprensa, porém, não tem acesso às discussões, todas levadas a portas fechadas e com pequenos focos vermelhos luzindo sobre elas em advertência proibitiva. Os seguranças, agentes especiais da Polícia Federal, não permitem a entrada de nenhuma pessoa sem credencial. E nem poderiam: não houvera prévio credenciamento e muito menos aviso sobre o seminário...

No segundo dia comparece o Ministro da Defesa, acompanhado dos três chefes militares (Exército, Marinha e Aeronáutica), reforçando a certeza de que a Justiça Militar estava correndo o risco de ser extinta. A expectativa dos repórteres aumenta. No terceiro dia, os desembargadores e procuradores-gerais vão almoçar em Forte Apache, onde permanecem por toda a tarde, sem que a imprensa possa cobrir o evento.

As altas autoridades judiciárias e do Ministério Público finalmente conhecem, in loco, a CCOI, e recebem informações concretas sobre a extensão e a profundidade da macrocriminalidade no território nacional. Saem silentes, com semblantes fechados. Internamente, em suas mentes, ainda rutilam o branco, o vermelho e o violeta que fitaram na tela de cristal líquido. E nada declaram à imprensa do lado de fora. Mas os repórteres percebem que algo muito importante ocorrera lá dentro. Somente isso, mais nada.

O segredo continua incitando a curiosidade de todos. A participação dos chefes militares no seminário e a visita dos desembargadores e procuradores de justiça ao quartel-general do Exército soaram como pressão contrária à proposição que estaria sendo discutida. E chovem reações, especialmente focalizando a extinção da Justiça Militar. É matéria da semana no noticiário nacional, até com alguma repercussão no exterior. E a criação da Justiça Especial de Combate ao Narcotráfico nem mesmo foi considerada nas especulações... Muito menos poderia sê-lo o verdadeiro motivo do seminário, não divulgado, um segredo de Estado, que não constava na pauta daquelas conversações. O assunto estava classificado como ultra-secreto.

Ainda em setembro, mais uma novidade emerge do contexto das significativas mudanças estruturais que já vinham ocorrendo na inteligência brasileira: surpreendentemente, o Presidente da República extingue a Casa Militar, um organismo instituído na era Vargas, nos idos de 1938, e sobrecarregado de preconceitos devido ao seu aspecto de estrutura ditatorial. E, em lugar do órgão militar extinto, o mandatário máximo cria o Gabinete de Segurança Institucional, com nomenclatura eminentemente civilista, mas que não foi esvaziado: na realidade, tudo não passara de arguta troca de meia dúzia por seis, porque a nova estrutura não só se fortaleceu como se legitimou ainda mais democrática, além de não mudar de mãos o seu comando. Em síntese, só mudou de nome, continuando “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.

Porém, da maneira como foi anunciada a mudança, tudo pareceu simples medida isolada, quando, em verdade, o fato talvez tenha sido a mais intensa cortina de fumaça a dissimular os passos seguintes de um novo e poderoso sistema de inteligência que se vinha formando no Brasil, de modo tal que a oposição não mais pudesse desvirtuar a iniciativa como mais um ato tirano do mandatário máximo do país. E tudo surge num momento em que o foco das atenções da mídia estava voltado para o Congresso Nacional e para a cassação e a prisão de um deputado federal do Acre, acusado de envolvimento com o narcotráfico e de participação em inúmeros assassinatos. 

Igualmente intensa é a repercussão do assassinato de um juiz de direito que acusara diversos desembargadores acrianos de conluio com o tráfico de drogas colombiano. E, se não bastasse, três promotores de justiça do Rio de Janeiro – mais especificamente de Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense –  e seus parentes quase que são vítimas de atentado a bomba mandado executar por traficantes poderosos. Quis a providência, entretanto, que o DEA descobrisse a tempo a monstruosa trama, que incluía até mesmo a contratação de mercenários estrangeiros para tal desiderato criminoso. E na semana em que a orquestração do atentado é descoberta, a polícia federal apreende, na mesma cidade de Duque de Caxias, nada mais nada menos que dez toneladas de maconha e mais de cem pistolas e fuzis AR-15, 762 e M-16, acrescidos ainda de granadas e fartíssima munição. Tudo isso permitiu a certeza de que os promotores de justiça estavam cutucando um perigoso ninho de áspides com as pontas dos dedos, nem mesmo de vara curta, o que seria, talvez, um pouco menos perigoso. E, deixando de lado o insólito fato de um agente norteamericano ter-se antecipado aos policiais brasileiros, inclusive grampeando telefones por sua conta (em típica atividade de espionagem), esses gravíssimos episódios serviram como luva para mascarar aquela medida presidencial mudando de nome a Casa Militar, um dos últimos passos estruturais que faltavam para enfeixar o complexo sistema de inteligência e contra-inteligência brasileiro. Estava claro, como um dia ensolarado, que nada disso ocorria por acaso...

E, no quartel-general do Exército, em Forte Apache, Brasília, ocorre uma reunião ultra-secreta dos chefes militares com os comandantes regionais das três Armas (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte, Nordeste). Ainda presentes os comandantes de todas as polícias militares estaduais, o superintendente da polícia federal e os secretários estaduais de segurança pública, além de outras altas patentes militares. O deslocamento das autoridades para a capital federal ocorrera tão discreto que a imprensa somente soube do encontro após o seu encerramento. Pressionado, o Exército emite curta nota oficial, à moda militar, assegurando que a reunião ocorrera em caráter confidencial, esvaziando-se qualquer possibilidade de sua divulgação. E desabam críticas à falta de informação. Contudo, o que a imprensa nem em sonho poderia saber era o que realmente ocorria nos bastidores dos serviços de inteligência brasileiros, bem como no âmbito mais elevado e secreto de decisão das Forças Armadas...

Na esteira de inúmeras reuniões aparentemente com outros objetivos, e que passaram despercebidas pela imprensa, finalmente surge a notícia da realização de um encontro entre vinte e seis Ministros de Defesa dos países das Américas do Sul, Central e do Norte. O encontro, denominado por IV Conferência Ministerial de Defesa das Américas, tem sede em Manaus, e como assunto a discussão do Plano Colômbia, um tema que há muito já se tornara domínio público. E fica claro que a preocupação dos EUA, que manda seu Ministro da Defesa até mesmo antes para um encontro isolado com o Presidente da República, é conquistar pelo menos o apoio político dos países participantes. Mas, antecedendo-se até mesmo ao resultado do encontro, circula em Brasília a notícia de que o governo brasileiro já estaria deslocando tropas para aquelas regiões da Amazônia mais vulneráveis ao narcotráfico, certamente imaginando um acréscimo de problemas com a deflagração do badalado Plano Colômbia. Mesmo assim, permanece no ar um mistério, porque as movimentações de tropas em território nacional indicam que o Brasil está caminhando em direção a algo mais complexo e ainda incompreensível aos olhos astutos dos jornalistas.

Logo na abertura do importante encontro, o Presidente da República se depara com uma pressão vinda diretamente do comando da Aeronáutica, que reclama não ser possível combater aeronaves de narcotraficantes, até derrubando-as, sem que haja uma lei que ampare os militares da FAB. Assim, logo na abertura da conferência, o mandatário máximo do país é obrigado a vestir uma inesperada saia justa. Porém, e com habilidade, consegue empurrar a pressão com a barriga, mesmo com o brigadeiro comandante da Aeronáutica alegando que tal impedimento era frustrante. Venceu, entretanto, a argúcia do político, que logo atrai a mídia para uma simulação de operação de selva realizada na Base de Instrução 4, da Escola de Treinamento do Exército, com o nítido objetivo de atacar bases guerrilheiras (ou narcoguerrilheiras) na selva amazônica. É um recado claro aos traficantes e guerrilheiros colombianos. E é certo que a reação do comandante da Aeronáutica se reporta ao companheiro assassinado em São Paulo: o coronel Paulo Reno...

Reforçando ainda mais a idéia de que o Brasil se prepara para escorar os foragidos do território da Colômbia, ao ser deflagrado o tal Plano Colômbia concebido pelos EUA, o presidente diz na abertura do encontro que o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) e o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) estariam à disposição de todos os países participantes, e que a estes sistemas se quisessem integrar, bastando para tanto assinar os respectivos convênios com o Brasil. E a conferência termina num impasse, diante da desastrada intervenção do subsecretário de Defesa dos EUA, que se poderia resumir em sua arrogante declaração: “O plano será executado com ou sem a solidariedade internacional”, conforme assim noticiou toda a imprensa. Isto permitiu mais ainda que o presidente ficasse a dar pancadas ora no prego, ora na ferradura, mantendo-se numa dubiedade de fazer gosto, ou seja, nem afirmando nem negando apoio ao tal plano. Mas, mesmo assim, não deixa de observar exercícios militares nitidamente comprovadores de que as tropas brasileiras estão com o pavio aceso e já bem próximo da bomba, indicando: “Vai explodir!” E logo se percebe que dificilmente o Brasil ficará de fora dessa festa, porque o general comandante das Forças Armadas da Colômbia faz, ao final do encontro, um apelo desesperado, e avisa com todas as letras que: “Se o Plano Colômbia falhar, prejudicará Brasil, Venezuela, Peru e Equador” E corroborando as apreensões do general colombiano, na mesma semana ocorre um ataque das FARCs derrubando um helicóptero de combate colombiano, matando cinqüenta e quatro militares, a maior baixa governamental havida naquele país até então. É... não há mesmo jeito de o Brasil deixar o corpo fora desta perigosa situação, que mistura assuntos policiais e militares em tal nível de complexidade, que somente uma ação global poderá contê-la. E a ação sem dúvida virá, mesmo que os fatos estejam ainda obscurecidos pela vontade presidencial...

Lógico! lógico!... No fim de contas, falar mais claramente para a imprensa significaria abortar o que está para vir, pois é mais do que óbvio que o arabesco criminoso em breve enfrentará um outro, este porém governamental, tão complexo quanto aquele. Sem dúvida, e na hora certa, o pau vai comer, só não se sabe quando. Mas, desconfia-se, porque, queira ou não, o Plano Colômbia passa a ter prioridade, e o Brasil tem de, pelo menos, correr junto com os EUA. Porque é certo que a pressão contra os narcotraficantes e guerrilheiros colombianos terá naturalmente que desembocar na imensa fronteira e nas regiões selváticas brasileiras, que lhes poderão servir de abrigo contra os ataques americanos. Por isso o Brasil não pode mais adiar a sua própria ação. E não há momento melhor para estendê-la a todo o território nacional. Contra o arabesco criminoso haverá de eclodir o arabesco governamental. Ou seja, de um lado a enorme aranha a tecer sua teia; do outro, o inseticida governamental.

OUTUBRO. Brasília. O novo superintendente da polícia federal, que veio de Minas Gerais, convoca seus subordinados estaduais para uma reunião na capital. E deixa vazar a possibilidade de troca de algumas chefias, tema que supostamente estaria sendo tratado. Em declaração à imprensa, o superintendente reforça a tese de que não há nenhuma insatisfação sua e de sua categoria com os militares. E defende as recentes criações da Abin e da Senad. Mas deixa no ar algumas especulações de briga pelo poder. 

A entidade representativa dos policiais federais entra em choque com o superintendente, discordando de suas declarações e criticando-lhe o estilo. Tudo isso ajuda no desvio da atenção. E, novamente, a imprensa engole a isca... como se os jornalistas estivessem arriscando apostas num jogo de pôquer: percebiam em mãos adversárias o royal street flush, mas só até a quarta carta do baralho, em naipes de ouro: o dez, o valete, a dama e o rei. Não viam a última...

NOVEMBRO, PRIMEIRA SEMANA. No prazo previsto, o Ministro da Justiça inaugura cinqüenta presídios de segurança máxima em todo o território nacional, cada um com capacidade para acolher 1500 presos, em celas isoladas, com alta tecnologia de controle dos presidiários. Os protestos atingem o clímax, com a oposição insinuando ser o Presidente da República um ditador. E novamente promovem um verdadeiro estardalhaço no sentido de aprovar seu afastamento do cargo. Mais uma vez o mandatário máximo do país, perlongando o alambrado, não se pronuncia a respeito. Mantém-se em silêncio... sabe o que faz...

O que ninguém até então alcançara é que nos bastidores dos serviços de inteligência os contatos, secretamente acelerados no final de 1998, se haviam ampliado deveras nos anos de 1999 e 2000. Documentos classificados como ultra-secretos continuavam circulando, nervosos, entre os diversos organismos da inteligência brasileira, em malas conduzidas por agentes. Nada de correio. E as trocas de dados eletrônicos, em código, também corriam velozes, envolvendo a Abin, a Senad, as Forças Armadas, a Polícia Federal, as Polícias Militares e Civis, e demais organismos de inteligência nacionais e internacionais, além do Ministério Público e da Justiça. E todas as informações entrecruzando-se e se desembocando na CCOI, em Forte Apache. 

Nada disso fora percebido pela imprensa durante os meses que se antecederam às reuniões, e nem o seria nos seguintes. E muito menos os repórteres notavam que todas as informações recolhidas e processadas no quartel-general do Exército estavam sendo imediatamente repassadas à CIA, via satélite, apesar das inúmeras reportagens criticando a presença de agentes estrangeiros em território nacional, sempre desmentidas pelos órgãos oficiais. A imprensa vigiava o chão, mas não fitava o céu. Estava boiando nas nuvens...

Nesse mês de novembro, os órgãos de inteligência trocam cada vez mais céleres as informações, reunindo provas, cadastrando suspeitos, levantando identidades falsas, investigando ONGs, entre outros inúmeros trabalhos voltados ao deslinde do intrincado sistema do tráfico de drogas fora de favelas. Enfim, traça-se no mapa do Brasil e da América do Sul, – na tela de cristal líquido da CCOI, – um arabesco de crimes conexos ao tráfico de drogas nunca antes detectados, e nunca formalmente interligados, uma teia de gigantesco tamanho, tudo até então guardado nas profundezas abissais da aparente passividade governamental. Alerta vermelho em muitos pontos do Brasil! O “gigante” não estava “adormecido”. Chegara a época de dar o troco...

NOVEMBRO, 15... Em razão das comemorações pela Proclamação da República, os jornais amanhecem estampando longas matérias a respeito desse importante momento do passado. Um deles, o A VERDADE NACIONAL, situado entre os mais lidos no país, e caracterizado por absoluta isenção jornalística, abre editorial com o sugestivo título “A BARRA ESTÁ PESADA!”, que aqui merece transcrição em sua íntegra:

 

“Os povos do mundo, ao longo dos tempos, sempre festejaram e festejam a liberdade como uma de suas maiores conquistas. Ninguém nunca esquecerá a Revolução Francesa e o sacrifício do povo da França na conquista de sua liberdade. Por isso é que as resistências aos regimes autoritários, mesmo aquelas mais extremadas, são vistas com simpatia. 

Com efeito, a liberdade não tem preço, assim como a democracia é o centro das discussões pacíficas na busca do bem-estar social. Sem ela, não se pode defender a justiça social e outros valores imprescindíveis à felicidade plena do ser humano. Mas a evolução dos tempos fez surgir um mal, cujo efeito nas sociedades mundiais tem sido nefasto. Chama-se, este mal, narcotráfico. 

Nos tempos de hoje, nota-se que as instituições democráticas inibem-se diante do crescimento vertiginoso do narcotráfico. À margem das leis vigentes leis sabidamente inadaptadas ao enfrentamento desse fenômeno internacional , o tráfico de drogas cresce e prolifera-se a um extremo inimaginável e inconcebível. 

Ele, o maldito narcotráfico, já ultrapassou os limites estruturais e conjunturais dos países mais avançados; venceu fronteiras; penetrou insidiosamente na tessitura social desses poderosos povos, sem que eles pudessem perceber e reagir a tempo; minou-lhes as bases como o câncer em muitos casos o faz, sem remédio. E chegou aqui...

O narcotráfico não tem ideologias, princípios ou regras que não sejam o estímulo ao vício das pessoas e ao lucro de criminosos. Lucros astronômicos, assustadores, que têm propiciado aos traficantes internacionais e nacionais um poder incomensurável. 

Para os narcotraficantes internacionais não há fronteiras, diga-se melhor. E não há soberania a respeitar. Eles têm os seus próprios conceitos de uma desmedida impunidade, que não se trava nos limites de suas nacionalidades. O narcotráfico é problema global, é mal que assola a sociedade mundial contemporânea, submetendo-a ao jugo despótico de seus interesses. É assim no mundo, é assim no Brasil, aqui ainda pior, porque as mudanças conjunturais e estruturais trazem sempre no seu bojo a falsa idéia de que têm fins políticos, contrários à democracia. Estamos, pois, perigosamente inermes.

Por conta de injustificados temores com a volta da ditadura, o Brasil vem adiando a busca de soluções pragmáticas contra o narcotráfico. Demora em promover medidas mais concretas para travar um mal que hoje ameaça a própria democracia, essa tênue democracia, que depende de muita paz para prosperar em direção ao futuro. E mais ainda, vem buscando solucionar o problema com operações puramente reativas a acontecimentos isolados e imediatos, como a tal “operação cobra” e outras do gênero, não menos mirabolantes, e que mais se parecem com uma inútil tentativa de se curar fratura exposta com  esparadrapo.

Sim, não dá mais para ocultar o sol com a peneira. O tráfico de drogas no território brasileiro atingiu patamares insuportáveis e altamente danosos. Os jornais vêm denunciando isso com eficiência. E pior: hoje já se fala em narcoguerrilheiros, uma nova modalidade tão nova que nem mesmo consta em dicionários de infiltração do mal em movimentos supostamente políticos e de hipotética legitimidade. Ou, pelo menos, que gozam de alguma simpatia popular. Misturou-se uma coisa noutra, em razão da sobra de recursos no narcotráfico, e de uma suposta falta de meios a sustentar movimentos revolucionários, não interessando aqui avaliar se justos ou injustos. Não há como saber o que é um e o que é outro. E vale a ressalva de que o Brasil não precisa hoje lutar com armas pela democracia, mas senão atentar para a sua evolução ao nível ideal.

Os aparelhos policiais estagnaram-se no tempo, certamente em razão dos temores da sociedade em aprimorá-los. Quem vem ganhando com isso é o crime. As Forças Armadas não podem movimentar-se além dos limites impostos pelo novo momento, porque está fadada ao preconceito e às críticas ferozes, especialmente daqueles que fingem não enxergar a dimensão e a profundidade do mal que nos assola, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. 

Chama-se narcotráfico, este mal, nefasto em todos os sentidos, inclusive à evolução do processo democrático brasileiro. E não podemos deixar de insinuar que muitos, por motivos inconfessáveis, resistem a uma ação mais arrojada das Forças Armadas contra algo que está sobejamente além da real capacidade policial. E que fique bem claro: não se está sugerindo a militarização das ações policiais, mas a sua submissão à Justiça, às Leis e à Carta Magna. Que venham as Forças Armadas no auxílio à justiça e no combate à macrocriminalidade. Que venham elas sob a égide das leis democráticas. Mas que venham logo, logo, logo!

Cidadãos brasileiros! Não há mais o que esperar! O mal está em suas portas, nos apartamentos ao lado, nos condomínios de luxo, nos iates e nas fazendas, nas ruas e em todos os lugares. O mal está no seio de suas famílias. E temos de combatê-lo com o que possuímos, com as estruturas que sustentamos com os nossos esforços e tributos. Se a polícia não pode sozinha, que venham as Forças Armadas! Que venham todos os brasileiros, fardados ou não! Que venha a sociedade, em reação imediata! Não há mais o que esperar, sob o risco de o narcotráfico exterminar a democracia no Brasil!.”

 

A repercussão do editorial agitou todos os meios de comunicação brasileiros e dos países vizinhos, indo repercutir até nos EUA e na Europa e provocando uma reação em cadeia. A partir desse claro posicionamento da imprensa nacional, as autoridades governamentais passam a ser cobradas por todos os segmentos da sociedade. Entrevistas e mais entrevistas trazem à luz a questão do tráfico e suas graves conseqüências ao país. A Senad aproveita o momento e lança uma campanha de orientação contra o uso de drogas, expondo suas conseqüências. 

Apesar de todo esse esforço educacional, sabe-se que o problema não diminuirá a curto prazo. E continua no foco da mídia a constatação de novos perigos contra a democracia, diante da evidente arrogância dos impunes traficantes em agir. A polícia consegue alguns resultados concretos, porém em casos isolados. Não se observa nenhuma ação global, nada mesmo, que transmita ao povo brasileiro uma concreta esperança de vitória contra o narcotráfico. Os comentários colhidos nas ruas e divulgados pela imprensa conduzem a essa triste conclusão. Todos manifestam desilusão em relação ao aparelho policial e começam a exigir providências mais drásticas.

Em razão das assertivas cobranças, as autoridades governamentais e os políticos favoráveis às mudanças, – e ao investimento maciço na segurança pública, – ampliam seus espaços na discussão. E vão reforçando na sociedade a idéia de alterações radicais no carcomido sistema policial brasileiro, assim como se vêem impelidos a defender a ação direta das Forças Armadas contra a macrocriminalidade do narcotráfico, com o fim de assegurar a tranqüilidade pública, já seriamente abalada e colocando em risco o próprio regime. 

Diante do volumoso clamor público, os políticos contrários às mudanças, e avessos ao emprego imediato de militares em atividades policiais, vão ficando cada vez mais sem argumentos, não localizando nenhum eco de seus empolgados discursos anteriores. Por isso, muitos preferem o silêncio a andar na contramão de uma realidade tão incontornável quanto inadiável. Está chegando a hora. Aproxima-se o momento propício ao anúncio de algumas medidas governamentais, o que é feito pelo próprio Presidente da República, oportunidade em que informa à nação a realização de um estudo profundo no sentido da reestruturação do sistema de segurança pública no Brasil.

Ao fazer o pronunciamento, mesmo sem clarificar detalhes do polêmico assunto, o mandatário máximo avisa que, entre outras medidas concretas, finalmente criará a Guarda Nacional, como um braço armado do Exército Brasileiro, e com missões precípuas de segurança pública, mas igualmente agindo nas fronteiras terrestres e nas zonas rurais, em atividades de segurança pública e de segurança interna. Também anuncia que essa força intermediária será dotada de meios para atuar na terra, no ar e no mar.

Outra grande novidade anunciada é a da mudança da Constituição Federal e da Legislação Penal, de modo que o Ministério Público, tanto federal quanto estadual, passem a fiscalizar e a acionar diretamente as Forças Armadas e o aparato policial, – incluindo-se a Guarda Nacional, – alterando-se, assim, o sistema de convivência formal da polícia com a Justiça. No dia seguinte, desabam críticas de entidades representativas de policiais contra a idéia presidencial. Emergem ferozes os corporativismos, que, no entanto, ficam sem resposta. O porta-voz da presidência limita-se a informar que todos conheceriam o novo modelo de justiça criminal a ser proposto pelo Poder Executivo, no momento em que chegasse ao Congresso Nacional, o que seria feito em regime de urgência. A imprensa apóia o anúncio presidencial. Afinal, fora ela mesma quem iniciara o questionamento, e em boa hora, segundo os comentários gerais de diversos segmentos representativos da sociedade em jornais, revistas, rádios, televisão, e em muitos outros locais de debate público. 

Ganhou a legitimidade de que precisava a fala presidencial. Tomou força nas ruas. Os políticos não se renderam às pressões corporativistas. A inegável gravidade do problema não mais permitia adiamentos. A imprensa ainda tenta extrair as impressões dos militares a respeito das mudanças propostas. Como sempre, apenas declaram os chefes militares que cumpririam a Carta Magna e as leis vigentes no país. Não faltava mais nada. Estava muito próxima a hora da reação... Esta reação, porém, já se antecipara por uma inesperada via: a CPI do narcotráfico, formada por destemidos e experimentados deputados federais, que começaram a provocar uma verdadeira devassa no crime organizado, ganhando o imediato apoio da imprensa e da sociedade brasileira, esta já cansada de assistir a tanta impunidade. 

As iniciativas da CPI do narcotráfico serviram como verdadeiras molas propulsoras de outras comissões parlamentares de inquérito estaduais, com muitos políticos locais também atrás de um pequeno espaço na mídia, eis que o combate ao tráfico de drogas passou a ocupar as primeiras páginas de todos os jornais e revistas, além de preencher os horários nobres da tevê e do rádio. 

Segundo outro editorial publicado no A VERDADE NACIONAL, excluídos os exageros e as correrias de políticos com vistas à promoção pessoal, a verdade é que a nação brasileira acordou para a necessidade de reagir ao marasmo que predominava até então, partindo-se, assim, para a exigência de uma ação efetiva contra o narcotráfico. Porém, esse mérito, segundo o editorialista, pertenceria sempre ao Poder Legislativo e aos deputados federais integrantes da CPI do narcotráfico, conforme passou depois a defender toda a imprensa e demais setores expressivos da sociedade.  

Fazia-se evidente, contudo, que apenas a estrutura da CPI era insuficiente para combater o gigantesco criminoso. As estruturas governamentais dos demais poderes (Executivo e Judiciário) não podiam ficar a reboque de meia dúzia de deputados, já merecidamente consagrados como heróis nacionais. Não mais estava apenas próxima a hora de agir, mas chegara a hora, o que ficou patente em todo o Brasil após a publicação de matéria no A VERDADE NACIONAL com o título: “Narcotráfico derrota EUA e Colômbia”, na qual houve a afirmação, partida do General Accouting Office (GAO), – agência de pesquisa do Congresso americano, – de que o cultivo de coca na Colômbia havia crescido 50% em dois anos, mesmo com um exaustivo esforço governamental em contrário. Também caíram por terra as notícias de que os cartéis de Cali e de Medellin estavam enfraquecidos, eis que ambos apenas se descentralizaram em núcleos menores e de mais difícil erradicação. 

Outro ponto que pasmou a opinião pública foi a constatação de que o aparato mundial de combate às drogas estava perdendo a guerra para os narcotraficantes, que inventaram novas técnicas de camuflagem da pasta de cocaína, – agora misturada ao carvão e a outros produtos insólitos, – neutralizando assim sua principal maneira de detecção em portos e aeroportos: o farejamento por cães com treinamento específico para a localização de drogas.

Outra afirmação feita pelo correspondente do A VERDADE NACIONAL, em Washington, captada no GAO do Congresso americano, dizia que os narcotraficantes estavam se utilizando de barcos especiais, de tal modo velozes e com capacidade de transportar até duas toneladas de cocaína, que as autoridades daquele país não conseguiam evitar os descarregamentos da droga na costa norte-americana, caracterizando-se publicamente o fracasso da estratégia nacional de repressão às drogas daquela superpotência, que é a maior consumidora de cocaína do planeta...

Essas notícias bateram como bomba atômica no solo do Brasil, que até então estava vivenciando a euforia de acabar com o narcotráfico valendo-se apenas de um punhado de parlamentares duma quixotesca CPI. A ducha foi tão gelada, mas tão gelada, que a própria CPI recolheu-se em silêncio, prometendo novas investidas alguns meses à frente, sob a alegação de que precisava estudar e organizar os dados recolhidos na primeira fase de sua ação... Só num lugar não havia euforia nenhuma; havia, sim, muita frieza dos especialistas em analisar cada passo da evolução do problema, e em catalogar cada movimento dos milhares de criminosos ligados ao narcotráfico em território nacional: no misterioso Forte Apache...

Sim, porque a tela de cristal líquido já apresentava um tal emaranhado de pontos, manchas e linhas em branco, vermelho e violeta, que o mapa da América do Sul parecia coberto por uma grande teia, um arabesco tão complexo, que sugeria serem os países sul-americanos apenas moscas à disposição duma gigantesca aranha chamada narcotráfico. Só que os potentes computadores de Forte Apache, atentos, já continham em sua memória cada detalhe deslindado, cada criminoso singularizado, e todas as provas necessárias ao enquadramento penal dos envolvidos com o narcotráfico e crimes conexos; e em todo o território nacional. Se o aracnídio era voraz, mais ainda o seria a tecnologia que passaria a persegui-lo tenazmente. Desta feita, não haveria improvisações...

 

 

 


 

CAPÍTULO II - A REPRESSÃO

 

 

ANO 2001

 

 

JANEIRO, PRIMEIRA SEMANA... Brasília. Ainda sob os efeitos dos festejos de fim de ano, que arrefeceram sobremaneira as tensões acumuladas nos meses anteriores, logo no primeiro dia útil os Ministérios da Justiça e da Defesa promovem, na sede do primeiro, um importante seminário, que se estende até o dia doze, com a participação de juízes e promotores de justiça de todos os Estados brasileiros. Também presentes magistrados federais e membros do Ministério Público da União. O porta-voz ministerial, cercado pela imprensa, singelamente anuncia que se trata da retomada dos debates sobre a extinção da Justiça Militar, entre outros relevantes temas, todos colimando a melhor eficiência do Poder Judiciário e do Ministério Público no Brasil. 

Já a partir da manhã do dia dois as comitivas desembarcam, dirigindo-se diretamente à sede do Ministério da Justiça. No aeroporto, ninguém dá entrevistas. Todos simplesmente ignoram o assédio nervoso dos repórteres. À tarde, já estão reunidos; à noite os jornalistas, sentindo-se engrupidos por uma nítida campanha de desinformação, especulam sobre uma possível crise institucional no país, crendo principalmente que os militares estão sendo insistentemente incomodados por pressões no sentido da extinção da Justiça Militar. E a partir deste primeiro dia, ensimesmados representantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica chegam ao local do seminário com caixas e mais caixas de documentos, permanecendo trancados com as autoridades civis até o final de cada bateria de reuniões. A imprensa percebe-os, apesar de vestirem ternos em vez de farda. Mas, se não falaram antes os civis, tampouco destravam a taramela da boca os militares.

Enquanto isso, opiniões correm soltas e desencontradas. Políticos reclamam por não serem ouvidos sobre um tema de inexorável deságüe no Congresso Nacional. E deitam discursos e mais discursos em tumultuadas sessões na Câmara e no Senado, como sempre disputando as luzes da promoção pessoal. Mas, em vez de atrapalhar, essas chiadeiras ajudam bastante, pois, alheias a tudo isso, as autoridades civis calmamente estudam a vasta documentação que lhes fora entregue pelos militares. E a imprensa, rodopiando tontamente à cata de novidades, mais uma vez engole a fumaça de um impenetrável fogo. Na verdade, começa a surgir a ponta da carta que faltava no hipotético jogo de poker, porém a misteriosa carta é somente visível ao mais importante jogador da grande mesa em forma de mapa do Brasil: o Presidente da República...

Enquanto fervilham as polêmicas, com os desatentos focos dos holofotes concentrados apenas no Ministério da Justiça, agentes da Abin visitam embaixadas e consulados dos Estados Unidos, Inglaterra, Israel, Espanha, Portugal, França, Argentina, Alemanha, Rússia e países da América Latina, além de outros sediados em território pátrio. Mas não vão cuidar de política internacional. O assunto é tão específico quanto ultra-secreto e apenas tratado com agentes dos serviços de inteligência daqueles países. Está sendo deflagrada a maior operação de combate ao tráfico internacional de drogas já ocorrida no Brasil. Alvos principais: os cartéis de Medellin, de Cali, do Suriname, bem como as “firmas” peruanas (equivalentes aos cartéis) e a máfia russa. E, além deles, os focos de guerrilha rural também instalados no território brasileiro, e mais ainda, é óbvio, o tráfico local, quase que já se podendo designá-lo por “cartel brasileiro”.

Muitos já são os processos criminais em todo o território nacional. Tramitam no mais absoluto segredo de justiça. As provas colhidas e entregues ao Ministério Público e à Justiça Federal, bem como aos seus congêneres estaduais, são consideradas mais que suficientes. Através delas, inúmeras pessoas importantes entram na mira da justiça, além das que já estavam anteriormente focadas por meticulosas investigações. É um momento ruim para os traficantes do asfalto. E, lento, o arrastão começa a fechar suas pontas, envolvendo na rede muitos peixes grandes que nunca fisgaram anzol. Começa-se a apontar o inseticida em direção da grande aranha que há anos envenena o país, porém tudo ainda a conveniente distância, num cerco invisível... 

12 DE JANEIRO, SEXTA-FEIRA... No dia do encerramento do seminário, o Presidente assina a tão esperada ordem operacional, em classificação ultra-secreta. Está deflagrada, ainda no mundo invisível da inteligência nacional, a OPERAÇÃO ARABESCO. A nova Lei de Tóxicos estrearia em grande estilo...

21 DE JANEIRO, SÁBADO, MADRUGADA... Inicia-se um secreto deslocamento de tropas do Exército e de Fuzileiros Navais, por ar e mar, para os quartéis situados nas fronteiras com a Colômbia, a Venezuela, o

Peru, a Bolívia, a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa. Todos os homens foram antes adestrados no CIGS (Centro de Instrução e Guerra na Selva). Também em muitos pontos da Amazônia são estabelecidas verdadeiras zonas de combate e montados vários acampamentos de Forças Especiais. Tudo prenúncio de ferozes escaramuças naquela selvática região. E os homens da selva, treinados na densa floresta e no combate difícil, retornam ao hábitat das feras. Falassem ali as árvores e as feras do mato, elas diriam que estremeciam na presença daquelas bestas humanas, comandos fardados, sem medo de nada, muito menos dos perigos das brenhas ferozes. 

Nela, na traiçoeira selva, as feras humanas deslizam seguros, como se no asfalto estivessem. Dela, da selva, tiram o alimento, fazem o fogo sem fósforos e espantam cobras e mosquitos gigantes. Já deram provas de que venceram a floresta no curso do CIGS. Nos rios, nadam como peixes, vestidos na farda e sem água nas armas. São treinados na sobrevivência, no indianismo, no pára-quedismo, no alpinismo, no tiro certeiro e na faca de corte afiado, a faca de comando, forjada no aço da guerra. São todos Forças Especiais, lavas no sangue, gelo no cérebro e aço nos músculos. Frios, gelados, sem famílias, sem nomes, esperam o combate. Sem combate, nada são. É o sangue do guerreiro incontido nas veias intumescidas do alerta máximo. Esperam a hora. E ela chegará, eles sabem, sentem o cheiro, o cheiro do sangue e da morte no bafo pesado e quente da selva amazônica.

21 DE JANEIRO, SÁBADO, LUSCO-FUSCO DO ALVORECER... Rio, Vila Militar, Brigada Pára-quedista. No campo de futebol, sargento comanda recrutas na montagem de barracas. Em cada prolongamento lateral, dez abrigos de vinte homens. Quatro dias e só pancadas persistentes de marretas nas estacas. Montam então vinte barracas nas laterais, todas voltadas para o interior do campo, com os banheiros de campanha enfileirados entre as bandeiras de córner e as balizas – são as barracas da tropa. No dia seguinte, mais quatro barracas são plantadas no centro do campo, em roda, entradas voltadas para o interior, banheiros entre elas. Lonas bem esticadas e simetria das fileiras comprovam habilidade – são as barracas de comando. 

Em outro campo de futebol, na Base dos Afonsos, bem perto da Brigada Pára-quedista, vinte helicópteros de transporte de tropa estão estacionados, com os pilotos a postos na sala de espera e instrução, todos aguardando o momento da ordem de pegar o céu. Não têm idéia da missão. Recebem-na na hora. Estão acostumados. Vontade de ferro, não são de pergunta. São como se assim fossem os campos e os helicópteros: não falam. Falassem os campos e os helicópteros, e eles diriam que o combate era certo, uma questão só de tempo.

O pessoal de comunicações instala complexo sistema de telefonia e de rádio nas barracas de comando. Trabalho encerrado, ninguém estranha. Na Brigada Pára-quedista, curiosidade não é da tropa. É tropa treinada para agir. Os pára-quedistas nunca especulam sobre a missão. Não querem saber por que recebem uma ordem, apenas cumprem-na, sem medo nas caras, sem medo da morte, sem medo de nada. Eles têm o combate no sangue, lavrado no ar dos saltos de aviões e no treinamento de macho que recebem em terra, ar e mar. Nem todos conseguem ser pára-quedistas. Os fracos nunca conseguiram, somente os fortes alcançaram o brevê. É tropa de macho!

Mesma data, todo o Brasil, em algum quartel, ou do Exército, ou da Marinha, ou da Aeronáutica, repetese a mesma operação, especialmente na Amazônia e nas fronteiras com os países vizinhos. E no Batalhão de Selva, em Manaus, helicópteros da FAB estão prontos para o transporte daquela tropa especial. Também a Marinha já reforçara sua frota de navios no rio Amazonas, tudo articulado em seqüência discreta, para não indicar o objetivo daqueles militares. A cada movimento percebido, justifica-se logo com boa desculpa. Dúvidas, porém, pairam no ar, reforçando na imprensa a idéia de que alguma séria crise está prestes a eclodir no país...

25 DE JANEIRO, QUINTA-FEIRA, MADRUGADA... Avenida Brasil, Rio de Janeiro. Pneus rodam no asfalto, ruído nervoso, cinco caminhões lonados, velocidade de comboio, destino Zona Norte. É o Batalhão de Operações Especiais da PM, o temido BOPE. Homens com fisionomia fechada mantêm silêncio de túmulo. Um major comanda o grupo; é um grupo treinado para missões de altíssimo risco. Só o comandante sabe o destino e a missão. São comandos, também não são de pergunta. Apenas agem.

O comboio adentra a Brigada Pára-quedista. Na pista, ao lado do campo de futebol, o comboio pára. Homens descem rápido. Caminham para uma das quatro quinas. Acomodam-se, 05 subgrupos, 20 homens em cada barraca. Isolamento absoluto. Total: 100 PMs forjados no aço do treinamento de guerra e no combate ao banditismo. Querem, pedem sem falar, clamam em esquisito silêncio pelo confronto. Sem peleja, morrem de tédio, descontrolam-se, enervam-se, bufam como feras. Muitos deles já passaram por aquele quartel antes de ingressar na PM. Por isso têm no sangue a lava fervente do guerreiro verde-oliva. Mas agora vestem o preto do BOPE, e são tanto de guerra como os pára-quedistas que ali ainda estão. Têm, sim, duplo treinamento: no militarismo do combate em qualquer terreno e em qualquer lugar, e na ação policial de risco extremo. Repete-se o procedimento nas principais cidades brasileiras. Todos aguardam, feras enjauladas nos peitos, mantêm a pressão nas veias, querem explodir na ação. 

Nas outras três quinas do campo, grupos iguais de 100 homens – Forças Especiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Barulho, nenhum. A farda, também preta como a do BOPE, é a farda de comando e do combate em meio à alvenaria da cidade. Nenhuma insígnia identificando patente ou posto. Nem tarjeta de nome. Total de combatentes alojados no campo: 400 homens, tinta preta nas caras, toucas pretas na cabeça. Cada um portando metralhadora e pistola 9 mm dotadas de silenciadores. Faca de comando e carregadores na cinta. Todos com coletes à prova de balas. Não são homens, são feras. Não se conhecem, nem precisam. São de guerra. Repete-se a cena nas metrópoles de todo o país.

Amanhece o dia, pára-quedistas chegando à rotina. Ordem: alojamento direto, controle total, prontidão rigorosa. Não especulam. Em outro ponto da Avenida Brasil, num batalhão do Corpo de Fuzileiros Navais, estão alojados cinqüenta agentes e dez delegados da Polícia Federal escolhidos a dedo. Receberam antes a ordem secreta: deslocamento e confinamento, um a um, naquele quartel. Em idêntico esquema, cinco delegados e trinta detetives da Polícia Civil do Rio de Janeiro apresentam-se naquele batalhão, para “treinamento”. Apenas fachada. Reúnem-se aos federais. Estão na missão. Detalhes em momento oportuno. Aguardam. Repete-se a mesma rotina em todo o território nacional.

26        DE JANEIRO, SEXTA-FEIRA, MANHÃ... São Paulo. Aterra um Boeing em Guarulhos; origem: Paris. Dois discretos cavalheiros, Jean Louvain e Marcel Bordeaux, são recebidos na área VIP por agentes da Abin. Cumprimentam-se e vão direto à pista, sem alfândega. São do serviço secreto francês. Novamente embarcam, num jato da FAB, vôo imediato, Rio de Janeiro. Em quarenta e cinco minutos descem na pista da

Base Aérea, Zona Norte da cidade. São alojados. Entrada guardada por impassíveis sentinelas, com ordem direta do brigadeiro: ali só teria acesso quem ele autorizasse. Aquelas sentinelas, porém, não são comuns: são praças forjadas no aço da guerra. E o comandante é um Força Especial, coronel da Aeronáutica, formação idêntica à de todos os seus comandados: são bichos-do-mato, são feras também no asfalto. São comandos, são de combate. O medo, não o conhecem. Porém, sobra-lhes a coragem no sangue e a gelidez no cérebro e os músculos bem fortes. 

27        DE JANEIRO, SÁBADO, MANHÃ... Rio. Aeroporto Internacional. Dois cavalheiros desembarcam. Têm o mesmo tratamento: pista direto, helicóptero, Base Aérea da FAB. Robert Gray e Jonh Secus, agentes da CIA, reúnem-se aos seus colegas franceses. Durante o dia, discretamente, ainda são recebidos os agentes de inteligência da Inglaterra, de Israel, da Espanha, de Portugal, da Argentina, da Alemanha, da Rússia e de outros países da Europa e da América Latina. 

Todos são alojados no mesmo lugar, aguardando, como observadores privilegiados, o desenrolar dos acontecimentos. Em inglês e espanhol, comunicam-se sem dificuldades. Conhecem a missão. Aguardam a hora na frieza de suas têmperas forjadas no risco, na linha tênue entre a vida e a morte longe da terra natal. São espiões, sim, que não conhecem nenhuma lei, nem em seus países, nem em qualquer outro lugar. Nada mais lhes interessa, só sabem da missão que recebem; e por ela, pela missão, matam e morrem na surdina do submundo da espionagem. 

O alojamento dos alienígenas fora adaptado dois meses antes, bem como dotado de impressionante parafernália eletrônica destinada à imediata transmissão de mensagens para qualquer lugar do mundo; e tudo ainda acoplado à CCOI de Forte Apache. Sem dúvida, algo muito grave estava ocorrendo no Brasil. As Forças Armadas mantinham-se em alerta máximo!... E também a imprensa, que vinha percebendo apenas superficialmente aquelas estranhas movimentações sem nada entender. Em Brasília, jornalistas agitados insistem na busca de pronunciamentos oficiais, inclusive junto à Presidência da República. São descaradamente enrolados. Não há outro jeito. Perdidos, especulam até sobre a possibilidade de golpe militar e o fim da democracia. É... não dá mais para segurar. Está chegando a hora da deflagração da maior operação contra o narcotráfico já vista no mundo. A ultra-secreta ordem presidencial logo tornar-se-á domínio público. Sim, mas na hora certa. Até então, à vista dos incautos jornalistas, só as quatro cartas do royal street flush; falta uma... a quinta carta do fecho do jogo que eles ainda não vêem. Qual será?...

28        DE JANEIRO, DOMINGO, MANHÃ... Rio. Carros pretos, com homens de terno e pastas nas mãos, – escoltados por agentes fortemente armados, – adentram a Brigada Pára-quedista. Os homens são recebidos pelo comandante e vão direto às barracas de comando, no centro do campo. Seguranças permanecem na pista. São juízes e promotores de justiça federais e estaduais. Acompanhando a comitiva vêm dois carrosfortes trazendo muitos volumes: centenas de mandados de busca e apreensão em residências de luxo e outros tantos mandados de prisão expedidos contra os criminos do asfalto, todos com seus respectivos processos bem fundamentados com vasta prova. E as autoridades permanecem aguardando o dia seguinte... No mesmo momento, em todas as capitais e cidades de grande porte do país, repete-se a cena. Sim, o Poder Judiciário e o Ministério Público finalmente entram em ação, comandando o espetáculo nacional. Era o que faltava... é a carta que começa a surgir, lentamente; a pontinha é vermelha; porém, nada de naipe... E lá fora a imprensa torce, nervosa: será ouro ou copas? Que carta será?...

29        DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA... Rio. Cinco da manhã. Campo de futebol. Brigada Pára-quedista. Grupo de 400 homens de guerra, vinte subgrupos de operações especiais, 20 homens cada, ocupam helicópteros que chegam a um só tempo da Base Aérea de Campo dos Afonsos. Cada comando com ordem escrita: ocupar, simultaneamente, vinte endereços de luxo. Desta vez os alvos não são favelas. Missão: bloquear os locais e prender traficantes e pessoas envolvidas, apreender drogas, armas, documentos e outras provas comprometedoras. 

Agem rápido. As máquinas aterram nas praias da Zona Sul do Rio e de Niterói. Comandos fardados ocupam portas de edifícios de luxo e simultaneamente cercam condomínios horizontais. Ninguém entra! ninguém sai! Chegam, ao mesmo tempo, policiais federais e estaduais com os mandados judiciais nas mãos. Ninguém escapa. Surpreendem-se os espantados alvos, inesperadamente defrontados com aqueles guerreiros hostis e forjados no aço da guerra feroz. Entregam-se, os criminosos, na maioria dos casos. Quando reagem, morrem! 

Ao mesmo tempo, no resto do país, a mesma operação de Forças Especiais e da polícia é desencadeada. Sucesso total!... E muitas surpresas: saem algemadas muitas personalidades e autoridades notórias em suas incumbências oficiais e figuras permanentes nas colunas sociais. São presos sem resistência, famílias nervosas, em muitos casos sem nada entender.

Rio de Janeiro. Dez da manhã. O argentino Luiz Henriquez arruma apressadamente suas malas. Está com reserva para Buenos Aires ao meio-dia, vôo 961 da VASP. Seu exagerado nervosismo, porém, sugere ter ele percebido ou recebido informação sobre algo muito grave. E ele se dirige à varanda de sua espetacular cobertura tríplex, frente ao mar, na Barra da Tijuca. Olha para baixo, tudo normal, nenhum movimento diferente: não tem visão da rua transversal à praia, onde homens discretos, – em roupas esportivas e ocupando um Santana azul escuro, – aguardam ordens de um distraído cidadão, de sunga, na praia, com um rádio de mão oculto entre os pertences.

Luiz Henriquez faz ligação para a Colômbia. Fala em código, como se estivesse comunicando-se com alguma inocente namorada. Na sede da Polícia Federal, Praça Mauá, a fita roda e registra cada detalhe. Depois de desligar, o argentino retorna à tarefa de organizar a bagagem: a valise de mão e a mala de tamanho médio, comportamento padrão de empresários que retornam rápido... ou que não voltam nunca... 

Na valise, arruma criteriosamente seus documentos de cidadão argentino, de “empresário ligado ao Mercosul”, além de outros objetos pessoais. Na mala, acondiciona pacotes e mais pacotes de dólares, um milhão ao todo, envoltos de modo disforme em papel laminado, uma inócua tentativa para não ser notado pela fiscalização do aeroporto. Sabe, porém, que não terá problemas: viaja sempre no dia em que seus amigos da aduana e da Polícia Federal estão de serviço. Mesmo assim, não abdica de se precaver e dissimular seus passos. Só não sabe é que todos os seus amiguinhos já estão a ferros, trancafiados na dura da lei que já os alcançou...

Onze e trinta da manhã. Depois do banho, Luiz Henriquez arruma-se, bebe um gole de café, pega a bagagem e sai, indo direto à garagem de seu prédio de luxo. Olha os carros, – um BMW 750ia vermelho e um Audi, A8, Tiptronic cinza, – ambos recentemente adquiridos. Opta pelo Audi. Abre o porta-malas e deposita a bagagem. Liga o motor e... é travado na porta por quatro agentes policiais, que lhe enfiam na cara as pistolas de calibre 9 mm e bradam: “Perez!... Polícia Federal! Você está preso!” Finalmente a ferros o colombiano Alonso Perez, alvo principal da histórica OPERAÇÃO ARABESCO; trata-se do mais importante traficante do cartel de Medellin em atividade no território brasileiro. Não era argentino coisíssima nenhuma.

Rio de Janeiro: Barra, Ipanema, Jacarepaguá, Leblon, Flamengo, Copacabana e outros bairros de luxo: presos pela Polícia Federal quarenta traficantes de asfalto portando identidades falsas de outros países. Todos ligados aos cartéis colombiano, boliviano, surinamês, e às firmas peruanas, e à máfia russa. Em seus domicílios são recolhidos documentos comprometedores, milhões de dólares e rotas de distribuição, no atacado, cortando todo o território nacional, além de outros caminhos internacionais de distribuição da droga, tendo o Brasil como base operacional.

Em todo o país ainda são presos magistrados, promotores de justiça, delegados federais e estaduais, detetives e agentes policiais, oficiais da Polícia Militar, do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, além de outros menos graduados, todos alcançados por seus próprios serviços de inteligência ou pela Polícia Federal. 

O Ministério Público Federal e os seus congêneres estaduais requisitam novos mandados de prisão e de busca e apreensão, logo expedidos por centenas de juízes federais e estaduais, de plantão permanente nos quartéis das Forças Armadas. E, a cada busca, mais documentos e novos esquemas de funcionamento do narcotráfico nacional e internacional vêm à tona. E novas prisões... Os seminários em Brasília fizeram o maior sucesso da temporada...

Operação cinematográfica em alto mar: a Força Aérea e o Corpo de Fuzileiros Navais tomam de assalto um navio mercante pronto para partir. Lanchas velozes, lotadas de ferozes comandos, cercam-no rapidamente; máquinas com asas girando no ar entornam fieiras de cordas sobre aquela embarcação. Feras deslizam no tombadilho, na proa, na popa e em todo lugar. A tripulação estaca no terror e não reage. Espantados, comandante e marinheiros são detidos. Recebem triagem, muitos são imediatamente conduzidos ao local de concentração de aprisionados: a Vila Militar. O navio carregava cinco toneladas de pasta de cocaína com destino à Europa. Ação simultânea de operações especiais em todo o Brasil: dezenas de mortos e feridos. Guerrilheiros presos e mortos em combates ferozes. Em Manaus, operação idêntica flagra navios carregados de madeira recheada de cocaína, tudo destinado à Europa. São todos presos e a carga confiscada.

Rio de Janeiro, Zona Sul. Ao cair da tarde, grupos de operações especiais da PM e da Polícia Civil cercam rápido e invadem mansão de traficante responsável pela distribuição, no atacado, de pasta de cocaína para todo o Sudeste. É homem ligado a Alonso Perez (o falso argentino Luiz Henriquez) e conhecido como João Árabe. Reação! dez mortos!... Três toneladas de cocaína e dez milhões de dólares apreendidos. Documentos e listas de propinas recolhidos, muitos nomes conhecidos, principalmente de autoridades encarregadas de combater o tráfico de drogas.

São Paulo, Morumbi, noite. Mansão de um chefe de quadrilha especializada em roubo de aeronaves civis. Vinte e cinco seguranças, espalhados em pontos estratégicos, cobrem a área interna constituída de muitos bem-conformados jardins e espaços de lazer. Outros dez cuidam da segurança no interior da deslumbrante residência. Circuito de tevê projeta imagens de todo o quarteirão e dos jardins, além de focar as dependências internas da mansão. Controle absoluto de cada pessoa ou veículo naquela área restrita, como se assim fosse uma área militar inexpugnável. Todos os bandidos estão armados até os dentes e prontos para impor reação a quaisquer ataques. Impossível a surpresa, segundo pensavam... 

Num local distante, agentes da SECINT (Secretaria de Inteligência da Aeronáutica) providenciam o corte da energia elétrica do bairro. Na mansão, os bandidos recebem repelões nos nervos e entram em alerta. Soltam cães ferozes, que se ficam esgueirando como cobras entre os canteiros e sedentos de sangue estranho. Rosnam e não latem, são treinados para atacar inimigos. Mas caem, uns após outros, atingidos por setas tão silentes quanto venenosíssimas, disparadas por bestas modernas e infalíveis. Mais ferozes que os cães são os comandos da Força Aérea, que deslizam como a sombra da morte na penumbra do quintal da mansão. São invisíveis, como se fantasmas fossem. Um dos facínoras desloca-se rápido ao prédio do gerador, pensando em ligá-lo. E dá de cara com aquele vulto de preto, mais rápido que ele, um gato no escuro. No espanto, tenta reagir. A faca de comando corta o ar, silvando como cobra, e penetra-lhe a carne, atravessando-lhe o coração. Ele morre na hora, sem ver nem sentir. E de repente ocorre o confronto na escuridão total. Estrondos e línguas de fogo vomitam nos caminhos entre os contendores. Corpos caem em tenebrosa seqüência. Comandos possessos entram na casa, por todos os lados. Mais reação e embate fatal. O sangue derrama-se pelos corredores da mansão e espirra nas paredes formando desenhos tenebrosos; porém, desta vez, é sangue podre de bandido. Saldo final: dez mortos entre os quadrilheiros, inclusive o chefão. Os demais são presos. Não sabiam que lidavam com homens de guerra, dispostos a tudo. Lidavam com feras...

Mas um Força Especial culmina ferido. No peito, recebera a rajada, porém escorada no colete à prova de balas. Entre os facínoras mortos, logo identificados os dois matadores do coronel Paulo Reno. A autoria e o motivo de seu assassinato há muito já estavam deslindados pelos agentes do SECINT: o coronel descobrira o modus faciendi da rede de roubo de aeronaves civis para transporte de drogas e não aceitara suborno. Por isso, fora sumariamente eliminado. Os seus companheiros de farda souberam esperar. Não se esqueceram, e finalmente chegara a hora do coronel Paulo Reno receber as devidas honras militares, desfazendo-se assim as dúvidas surgidas quando de sua covarde execução. Dentro da lei, cobrou-se o sangue com sangue. Seria um tenente-brigadeiro post-mortem, na bravura de seu silêncio.

Angra dos Reis. Estourada mansão de traficantes colombianos por Forças Especiais da Marinha. Muitas lanchas, iates e toneladas de cocaína são apreendidos, além de armas e três milhões de dólares. O mesmo ocorre em Armação dos Búzios e Cabo Frio, também regiões praianas do Estado do Rio de Janeiro. Repetese a cena em toda a orla marítima brasileira. Presos inúmeros traficantes de diversas nacionalidades.

Região Centro-Oeste e Amazônia. Batalhão de Selva do Exército, homens forjados para todos os perigos das brenhas amazônicas, sangue misto, de soldado e de índio, rigidez de tora milenar, dominam a floresta em silêncio. Deslizam como cobras nas águas dos rios. São onças no mato; são homens treinados no CIGS (Centro de Instrução e Guerra na Selva); são comedores de tapuru e de frutos do mato. Da selva, tudo tiram para sobreviver. Lesmas, até lesmas eles avidamente devoram. E sobem em árvores rápidos como os macacos, na peconha presa aos pés. São ferozes como cinco milhões de diabos na hora do grito de guerra: “Selva! selva! selva!”. 

Esta é a hora do sangue jorrar e manchar o verde do mato – o sangue do inimigo. É hora de morrer ou matar. São assim, como feras, que os comandos do CIGS invadem quinze aeroportos clandestinos e recuperam quarenta aviões civis de pequeno porte. Ao mesmo tempo, – e em muitos lugares, – tomam de assalto cinqüenta e quatro grandes laboratórios de refino da cocaína e da papoula, tanto na selva como em fazendas da região. Muitos colombianos, bolivianos, surinameses, peruanos, russos e brasileiros são colocados a ferros, entre eles diversos índios. Traficantes reagem e são mortos. Os locais, depois de concluída a perícia, são destruídos. Vencem as feras do Batalhão de Selva, feras humanas, capazes de conversar com a floresta, mais até que os animais e as aves, estas que nem param os pios na cruza com eles, com os sensacionais guerreiros da selva amazônica. Eles são únicos, como é única no mundo aquela selva feroz.

Ações militares diversificadas nas Regiões Nordeste e Norte localizam e devastam, simultaneamente, milhares de hectares de plantios da coca, da papoula e da maconha. Realizadas muitas prisões de lavradores e índios. Durante o dia, e parte da noite, são muitas as ações isoladas, – da polícia federal e das polícias civis e militares estaduais, – resultando em prisões diversas e na apreensão de muitos carros importados, armas, drogas e dólares. 

Em Foz do Iguaçu, a Polícia Federal desbarata uma quadrilha especializada em atravessar a fronteira como “mulas”, transportando milhões de dólares para lavagem no Paraguai. Nas fronteiras com a Argentina e o Uruguai, operações semelhantes logram o mesmo êxito. Ainda nesse esquema especial, muitos proprietários e empregados de casa de câmbio, além de banqueiros, são presos por todo o Brasil.

Ações militares são simultaneamente desfechadas contra os guerrilheiros colombianos, peruanos, bolivianos e brasileiros em todo o território nacional, especialmente na selva amazônica e nas fronteiras com a Colômbia, o Peru, a Bolívia, a Venezuela, a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa. Violentas escaramuças militares resultam em muitas mortes, milhares de prisões e impressionante aparato bélico recolhido. Desta vez não funcionou aquela musiquinha dos guerrilheiros, especialmente o último verso do soneto: “Se matarem um daqui, dez de lá vamos matar.” Não mataram os “dez de lá”... e foram presos, e morreram às pencas, e sem cantar...

Noite. Resultado parcial do primeiro dia de ação, encerrando-se o ciclo inicial da OPERAÇÃO ARABESCO: traficantes e narcoguerrilheiros colocados a grilhões em praticamente todos os Estados da federação, num total de 21.450 marginais. Entre os presos, o traficante internacional Luiz Henriquez, – poderoso chefão do cartel de Medellin no Brasil, – que de argentino não tinha nada além de seus documentos falsos: era o colombiano Alonso Perez, do alto escalão daquele cartel.

Entre os 21.450 meliantes que foram pescados pela rede governamental, lá estavam 3.500 “peixões” do tráfico de asfalto, tanto do cartel de Medellin como dos cartéis de Cali e do Suriname, além das firmas peruanas e da máfia russa. Centenas de colombianos, bolivianos, russos e surinameses entre os traficantes tupiniquins, prova incontestável de que os quatro cartéis já haviam transferido suas bases para o território nacional. Milhares de brasileiros trancafiados, especialmente figurões, todos estreando os novos presídios federais. E houve a apreensão de 30.350 fuzis, 28.040 metralhadoras e milhares de revólveres e pistolas, muitos de procedência estrangeira. Recuperadas 123 aeronaves civis. Recolhidos trezentos cinqüenta e quatro milhões de dólares e muitas toneladas de ouro em barras, além de indicações de contas bancárias no estrangeiro, – a serem resgatadas para o fundo financeiro de combate às drogas, – alcançando a impressionante cifra de quase cento e quarenta bilhões de dólares americanos, uma inacreditável fortuna.

Total de cocaína, ópio e maconha apreendidos: 234 toneladas. Baixas entre os bandidos: 285 mortos e 150 feridos. Entre as forças governamentais: 15 mortos e 70 feridos, do Exército; 8 mortos e 34 feridos, da Marinha; 12 mortos e 35 feridos, da Aeronáutica; 44 mortos e 120 feridos, das Polícias Militares; 8 mortos e 27 feridos, da Polícia Federal; e 40 mortos e 17 feridos, das Polícias Civis estaduais. Foi operação de guerra. Saldo considerado normal, diante da envergadura da OPERAÇÃO ARABESCO. Contadas as baixas, valeu o empenho das forças governamentais.

30 DE JANEIRO, TERÇA-FEIRA... O país acorda na batida do tambor de guerra. Estado de Defesa havia sido decretado nas Regiões Norte, Centro-Oeste e parte do Nordeste desde a madrugada anterior. A imprensa corre para todos os lados, baratinada, sem saber como e onde documentar primeiro, num vaivém agitadíssimo, com alguns repórteres ainda imaginando algum golpe militar em andamento. 

Mas o Presidente da República finalmente fala, em cadeia nacional, esclarecendo à nação as razões do impressionante aparato militar e policial nas principais cidades brasileiras: vitória contra o tráfico internacional instalado há anos no Brasil. Não havia golpe militar coisíssima nenhuma, ou qualquer necessidade de extinção da Justiça Militar. Era tudo fachada, para garantir o grande sucesso da OPERAÇÃO ARABESCO. Finalmente apareceu a última carta do imaginário Royal Street Flush: não era o ás de ouro. Era o sete de copas... Um tremendo e premeditado blefe.

O Ministro da Justiça concentra em si a responsabilidade de dar entrevistas. Além dele, ninguém mais se pronuncia. E informa sobre os resultados, porém não divulga tudo. Haveria desdobramentos. Muitos ainda seriam apanhados, em fuga, nos dias seguintes.

Os agentes secretos dos países participantes transmitem, céleres, as informações para as suas agências, provocando imediatos desdobramentos em operações distantes, muitas prisões e apreensões de cocaína e de documentos comprometedores, além de dados para investigações posteriores. Foram dias movimentados e sangrentos no submundo internacional do narcotráfico e da espionagem, um prejuízo aos criminosos nunca antes ocorrido. 

O fim da OPERAÇÃO ARABESCO marcou o seu início: durariam meses as apurações complementares, os processos criminais e outras prisões. E muitos escândalos... E, enquanto essa mais expressiva operação nacional contra o narcotráfico acontecia, um elegante casal de “italianos”, alheio aos acontecimentos, embarcava tranqüilamente, em primeira classe, via VASP, no Galeão, com destino a Paris: viagem de núpcias. Mas não eram italianos... e nunca mais retornariam ao Brasil... 

Na semana seguinte, as pesquisas dão ao Presidente da República o seu maior índice de popularidade (86%), calando a boca dos adversários, todos com as suas saias justíssimas. Chegam cumprimentos oficiais de muitas nações amigas. Valeu o sacrifício presidencial, que finalmente livrou o Brasil da impressionante teia do narcotráfico internacional. Pelo menos por um tempo, porque o governante também sabia que a droga é como o câncer maligno: este destrói o corpo humano, tanto quanto aquele corrói inexoravelmente a tessitura social. Mas o mandatário máximo não se ilude; sabe que popularidade de político é tão efêmera quanto as nuvens que enfeitam o céu azul, e, de súbito, são levadas ao vento aleatório dos novos acontecimentos. Ou tornam-se negras e medonhas, anunciando tempestade...

CAPÍTULO III - TUDO TEM UM INÍCIO...

 

 

 

 

21 DE JANEIRO DE 2000, SEXTA-FEIRA. MEIA-NOITE... Carlos foi o último a sair das termas Orly. O calor do lado de fora contrastava com o conforto do ar condicionado daquele agradável ambiente. O manobreiro encostou seu Mercedes-Benz C-280, comprado há uma semana. E ele agraciou o antigo funcionário com boa gorjeta, e sobretudo discretamente, uma característica marcante em seu comportamento. Depois, entrou no carro e partiu, sem qualquer pressa, relembrando a primeira vez em que se enfiou, curioso, naquele lugar, dois anos antes, também no verão. Isso em fevereiro de 1998, época em que ainda não tinha dinheiro para dar a si o luxo de desfrutar mais amiúde das delícias daquele afrodisíaco lugar. Agora, porém, sentia-se à vontade com as mordomias que o dinheiro lhe proporcionava, e se animava com sua vida atual, um objetivo que sempre almejara desde que, pela primeira vez, pisara os seus pés mineiros na Cidade Maravilhosa.

Ao volante do Mercedes-Benz, Carlos deslocou-se com destino a Ipanema. Passou pela Glória e divertiuse com os travestis em habitual trotoir, todos mostrando seus corpos seminus e enfiados em sumárias roupas femininas. Ao observar a cena, ia imaginando que vida teriam eles (ou elas?) durante o dia: “Quais seriam as suas realidades?”, pensava. Não tinha, contudo, a resposta certa. Por outro lado, sobrava-lhe a certeza de que muitos daqueles travestidos escondiam suas identidades originais de empresários, homens casados, militares e outros adeptos daquela “arte”. Também não lhe causaria estranheza se muitos ali consumissem droga, para ele sempre uma alvissareira notícia, posto que há dois anos integrara-se ao alto escalão do narcotráfico colombiano. Ingressara no cartel de Medellin pela porta da frente, ou melhor, diretamente no andar mais alto da hierarquia do tráfico internacional de drogas instalado no Brasil. O Rio de Janeiro era a sua base operacional, em missões muito especiais na área financeira, oportunidade que lhe surgira em razão de seu antigo e único emprego numa casa de câmbio, no centro da cidade.

Quando ingressou no complexo e mágico mundo das finanças e do câmbio, Carlos não cogitava nada além da possibilidade de construir uma vida de classe média, sem grandes sonhos de consumo. Mas os relacionamentos com os abastados clientes lhe foram despertando no íntimo a vontade de romper barreiras mais ousadas, principalmente porque percebera, logo cedo, que muitos daqueles clientes que negociavam na casa de câmbio traziam volumosas quantias de procedências geralmente pouco recomendáveis. Vinham sempre, em verdade, para “lavar” dinheiro, nunca para investir em procedimentos oficiais e controlados. Em resumo, eram, em sua maioria, uns refinados pilantras. E não fora difícil a Carlos separar, entre a expressiva clientela, honestos de desonestos, por mais discretos e dissimulados que fossem estes últimos.

Ainda completamente perdido em seus pensamentos, e depois de deslizar com o automóvel, tranqüilo, pelo aterro do Flamengo e por Botafogo e Copacabana, Carlos finalmente chega a sua casa, em Ipanema, onde continua devaneando sem atropelo. Curte aquele momento com inelutável prazer. Podia curtir aquele luxo, não havia problema, o sábado já começara, dia em que sua loja de câmbio não funcionava. Antes de se recolher para dormir, dirige-se à varanda e ainda relembra sua vida apertada, um ciclo encerrado não fazia tanto tempo, desde que houvera um almoço no Le Bec Fin, tendo como comensais ele próprio e um facínora de alto nível do cartel colombiano de Medellin. Tivera a competência e a sorte de ser escolhido a dedo e aceitara ingressar no crime.

Apenas dois anos se haviam passado, e ele já residia naquele belo apartamento frente ao mar e com uma vista maravilhosa da praia de Ipanema. Estava satisfeito com a vida que levava. Valera a pena aceitar as benesses do cartel de Medellin em troca de seus serviços especializados. E, perdido em seus devaneios, culminou pensando em Vivian Melbo: “Como seria bom se ela, em vez de me esperar nas termas, me estivesse esperando aqui...” Pensava em sua garota predileta, com quem mais uma vez passara um final de tarde e parte da noite nas termas Orly, algo constante desde que a conhecera. Acostumara-se com as atenções de Vivian Melbo, uma loura espetacular, de cabelos compridos e encaracolados, olhos verdes e pele clara, com matiz ligeiramente bronzeado pelo sol das praias cariocas. Vinte e seis anos de idade, 1,74 m de altura, ela formava um harmonioso conjunto de beleza, ainda acentuado por um andar de modelo. Era, com efeito, uma belíssima mulher.

Desde a primeira vez em que fitara Vivian Melbo, Carlos se entregou àquele novo fascínio. Não resistiu ao encanto da prostituta e elegeu-se seu “pirulove” (assim as garotas eram referidas por seus pares constantes naquele local de deleite sexual remunerado). O aprazível encontro ocorrera no primeiro dia de ambos nas termas Orly, cada qual com sua história e sendo por ela empurrados ao mesmo endereço. Depois de tanto tempo, aprofundaram uma grande amizade, além do prazer que gozavam juntos, pelos menos três vezes por semana.

 

 Vivian Melbo não possuía aparência tupiniquim. Filha de norte-americana com brasileiro, seus pais conheceram-se em Boston, enquanto cursavam sociologia em Harvard. Casaram-se e resolveram residir no Brasil, optando pelo Rio de Janeiro. Ela foi o único fruto de uma história de amor abruptamente encerrada por tragédia. Aos dezesseis anos de idade, a bela adolescente perdeu os pais num acidente de automóvel, na Lagoa Rodrigo de Freitas, após derrapagem e choque frontal numa árvore, no retorno de um programa noturno. A súbita morte dos pais desesperou-a. Sem saber o que fazer, ela mudou-se para os Estados Unidos, indo também morar em Boston, com os avós maternos. Decisão infeliz, pois um tio solteiro, e residente no mesmo endereço, olhava-a com indisfarçável cobiça...

Mal Vivian Melbo completara 21 anos, um dia o tio invadiu o quarto dela e a estuprou violentamente. Seus gritos não despertaram os avós, que dormiam (?) no quarto ao lado. Com as entranhas rasgadas, ela não mais duvidou de que era uma estranha no ninho. Não obstante o seu parentesco sangüíneo, o fato de ser mestiça transformou-a em vítima de preconceito e de violência sexual no seio da própria família.

Traumatizada, Vivian Melbo retornou ao Brasil e ao Rio de Janeiro. Não quis procurar os parentes do pai brasileiro; ficara tomada de muito medo, e achava que poderia enfrentar rejeição, porque antes desdenhara a família do pai ao preferir partir. E também sentia-se envergonhada. Optou, então, por ficar só no mundo; mas, apesar do empenho em buscar emprego, não o encontrava. E investira suas poucas reservas na compra de um quarto-e-sala, em Copacabana, ficando impossibilitada de se sustentar por muito tempo com as sobras daquela pequena poupança. Mesmo assim, dois anos levou esticando o dinheiro, que se foi naturalmente minguando até acabar. Havia dias de fome e de desespero. A partir daí, sem saída, Vivian Melbo procedeu como inúmeras moças em situações semelhantes e perdidas nas cidades grandes: inseriu o seu nome nos classificados da prostituição: 

 

“Vivian, loura bonita e sensual, 1, 74 m, 23 anos, atende a cavalheiros distintos no seu endereço. Tel.: 567-981...” 

 

Sim, tornou-se garota de programa, nem mesmo se preocupando em dar nome ou endereço falsos. E, vendendo o corpo, em menos de três anos saiu do sufoco financeiro. Assim, vislumbrou um futuro sem maiores dificuldades, pelo menos enquanto fosse nova e bonita. Transformara-se, na verdade, numa pessoa aparentemente fria e ambiciosa, fruto de seu desencanto com a vida. Mas, no seu íntimo, ainda era movida por sentimentos que não coadunavam com a prostituição, esta que adotara como única saída financeira, mesmo contra sua vontade.

Já calejada na mais antiga das profissões, e perto de completar 26 anos, a linda moça decidiu-se por fazer a vida nas termas Orly. Horário bom, ela chegava às doze horas e se retirava à meia-noite, momento a partir do qual retomava sua liberdade. Desse modo, permitia-se dormir bem, fazer ginástica e ir à praia pela manhã, uma garantia de saúde e beleza por mais tempo. Nas termas Orly, o ambiente agradável, os clientes selecionados, o uso sistemático de camisinhas e os exames médicos regulares traduziam para si menor preocupação com as doenças do sexo. E foi quando conheceu Carlos, e o seu modo delicado agradou-a deveras. Ali as garotas não se sentiam prostitutas; preferiam sublimar o exercício dessa milenar profissão fingindo-se apaixonadas por determinados clientes, algo comum naquele meio luxurioso. E, como Carlos tornara-se um habitué do lugar, ela transava quase que somente com ele. Com outros, apenas esporadicamente.

Mas a experiência vivida por Vivian Melbo, ao longo daqueles anos como prostituta, era simplesmente aterradora. Ela geralmente atendia aos clientes situados nas camadas mais altas da sociedade, alguns com taras indescritíveis. Também entre as suas colegas de trabalho surgiam as histórias mais rocambolescas que se possa imaginar, e que elas não tinham qualquer pejo em divulgá-las entre si e até para outros clientes. Sim, porque tanto na época em que Vivian Melbo militava como garota de programa, ou como garota de termas, muitas pessoas importantes deixavam nela suas marcas de taras incríveis, comportamentos sexuais que lhes eram certamente inviáveis nos lares e com as esposas. Mas entre si, e até por vingança, as prostitutas se deliciavam com os comentários que faziam sobre essas insólitas perversões sexuais. 

Certa vez, uma das colegas de Vivian Melbo narrou que uma alta autoridade pública, ao ocupar a cabina do prazer (local onde supostamente ocorria uma simples massagem), pediu-lhe para vestir suas roupas e calçar seus sapatos; e depois passou a exigir-lhe que o chamasse de veado. Ela cumpriu a vontade da importante e imponente figura pública, que ficou rebolando e meneando o corpo como se fosse dançarina prostituída. Quem o visse depois em função, de toga, onde ele trabalhava, nunca acreditaria... Uma outra também comentara que um determinado cliente pagava-lhe mais caro por uma calcinha do que todas as demais despesas. Algumas biscas, quando se recusavam a vender-lhe as calcinhas, levavam-no à loucura. Ele era capaz de pagar qualquer preço por aquela pequenina peça do vestuário da “massagista”, depois de com ela transar. 

Vivian Melbo também passara por experiências semelhantes, mas não gostava de falar sobre o assunto. E também costumava recusar muitas transas, especialmente nas termas, porque, nesta fase, ela contava com a preferência exclusiva de Carlos, e não mais enfrentava problemas financeiros. Guardava em si, porém, uma inegável aversão pela vida que levava. E sempre pensava em abandonar a prostituição, como uma colega sua o fizera depois de conhecer um empresário italiano e partir com ele para Roma, inclusive contraindo matrimônio. Isso era comum ocorrer; afinal, as meninas que trabalhavam nas termas Orly eram geralmente lindas. E entre elas estava a belíssima Vivian Melbo, que ali não era somente prostituta. Ela ainda precisava completar uma importante missão...

 

 

S

 

Naqueles dois anos, Carlos já instituíra sua rotina particular nas termas Orly. Primeiro, deliciava-se com boa sauna. Às vezes cortava o cabelo e se barbeava, utilizando-se dos excelentes serviços da casa. Em seguida, ocultava-se com a sua preferida Vivian Melbo para mais uma sessão de “massagem”. Ele sempre se encantava com a delicadeza daquela moça bonita que com ele se desdobrava em atenções e lhe dispensava um sincero carinho. Sentia isso no seu íntimo e não a trocava por nenhuma outra. Era a sua melhor transa. 

Desde os 23 anos na casa de câmbio, Carlos resumia o seu trabalho às transações com moedas estrangeiras. Passados alguns anos, ele angariou em definitivo a confiança de João Sharif, o patrão. E começou a ingressar com desenvoltura na prática da lavagem de dinheiro sujo, obtido por meios ilegais. Boa parte destinava-se ao exterior, tudo feito na surdina. Impressionava-se com os expressivos valores das transações, vendo desfilar diante de seus olhos cobiçosos milhões e milhões de dólares, todos gerados no submundo do tráfico e da corrupção, e tudo muito bem dissimulado em fachadas de negócios sérios. 

Carlos distinguia claramente cada operação e seus titulares. Executava-as, porém, de modo sempre muito discreto. Não fazia perguntas; restringia-se, insatisfeito e silente, ao seu habitual salário. E assim, friamente, foi ampliando e aprofundando o conhecimento com as pessoas ligadas às transações ilegais, aprendendo seus caminhos e conquistando-lhes a confiança. E não lhe custou muito abrir seu próprio espaço entre os abastados. Aquela gente, sempre assídua nas colunas sociais, prezava-o e exigia-lhe constantemente os serviços. Deste modo, ele foi penetrando discretamente num mundo que não lhe pertencia. Como atendia a todos com absoluto zelo, agindo como profissional especializado, construiu rápido um caminho sem pedras para a fortuna. 

No início, Carlos recebia somente pequenos agrados financeiros e esporádicos convites para festas particulares, mas tudo em razão de reconhecimento por sua presteza em tratar dos interesses da exigente clientela, sempre propiciando-lhe bons lucros. E esses beneficiados por sua habilidade de cambista gostavam de ostentar, gastando verdadeiras fortunas em festas faraônicas; mas, na hora de valorizar o seu trabalho geralmente eram sovinas, uma incoerência, em se tratando de dinheiro fácil e sempre aumentado em razão de sua competência técnica. Carlos, no fim de contas, ficava mesmo a ver navios, restrito às migalhas que recebia. O dinheiro era sujo, mas não era dele...

Nas festas, regadas com bebidas finas, em algumas ocasiões surgia o indispensável complemento: a cocaína. Carlos impressionava-se com o cartaz da branquinha, avidamente consumida nas orgias em coberturas de luxo da Zona Sul. Deslumbrava-se com tudo o que via, especialmente com a liberalidade dos convivas. Era comum observar-se naquelas festas as trocas de casais, algo que Carlos não engolia muito bem no seu conservadorismo mineiro. Mas, com o tempo, – e por astuta conveniência, – foi-se amoldando aos novos conceitos. Na verdade, seus valores individuais e sociais se foram sucumbindo aos encantos dos ricos, com os quais lidava no seu dia-a-dia da casa de câmbio e dos ambientes socialites que passara a freqüentar assiduamente.

Certa vez, e já contando com razoável situação financeira, Carlos recebeu e acolheu um convite para uma “noite baiana” numa belíssima cobertura situada no Leblon. Foi pessoalmente recepcionado por Sílvia, cliente especial da casa de câmbio e bela mulher, de seus 31 anos, e muito rica. Ele a atendia em ocasiões de suas inúmeras viagens ao exterior. Sílvia não tratava de negócios escusos; tinha fortuna de fato, proveniente das rendosas atividades empresariais de seu pai. Filha única, gozava a vida gastando o dinheiro que lhe vinha sem qualquer suor. 

O ambiente na cobertura de Sílvia era todo fantasia. Garçons e garçonetes, com elegantes roupas típicas, serviam bebidas e iguarias finas. Casais bem-arrumados não paravam de chegar. Carlos, extasiado, deliciavase em observar o brilho fantástico das lindas mulheres, todas com roupas de griffe e ornamentadas com jóias valiosíssimas. Havia, porém, por detrás daquela aparente descontração, uma descarada disputa pela maior ostentação. 

Faziam-se presentes na festa muitos empresários, políticos, autoridades, artistas, colunistas sociais, jornalistas, escritores, jogadores de futebol e muitas outras personalidades somente vistas pelo atônito e deslumbrado Carlos em programas de tevê. Algumas, de tão famosas, afiguravam-se-lhe míticas. E ele não acreditava estar diante delas, em  carne e osso, vendo-as conversar, sorrir e beber como seres normais. 

Participavam também muitos outros tão desconhecidos quanto ele, sem a marca da fama ou do sucesso, avaliação que obviamente não inseria especulação sobre fortunas individuais. Nem sempre a fama significava riqueza naquele meio milionário e também freqüentado por pilantras refinados, tanto homens quanto mulheres, todos atrás de um bom golpe do baú e tendo como trunfo a cara-de-pau e uma boa aparência.

Da varanda, Carlos observava o desenrolar da noite festiva. E percebeu ao seu lado uma linda mulher, iniciando com ela uma descontraída conversa. Ela logo se apresentou, sem rodeios: “Chamo-me Hortênsia; sou embaixatriz argentina e separada; resido no Flamengo...” Ele nem abriu a boca, só apurou os ouvidos. E a mulher desfiou-lhe um rosário de vantagens, em comentários comuns às ricaças. Ele ouvia atentamente a faladeira, impressionado com a sua fluência e com o traje em couro argentino que ela ostentava, verdadeira obra de arte. Também já observara Sílvia vestida em couro, igualmente espetacular. 

Carlos já estava visivelmente encabulado com o assédio, quando foi imprensado com a clássica indagação: “E você, faz o quê?” Ele falou, singelamente, que era um mero empregado de casa de câmbio, e foi o bastante para a embaixatriz dele fugir na velocidade do raio, comportamento claro de quem não quer, numa festa, gastar tempo com um provável pobretão. Carlos ficou ligeiramente mal-humorado, porém logo esqueceu o episódio. Afinal, que se danasse a portenha, pois não lhe faltavam cenas atraentes para apreciar. E se assustar...

A festa rolava em descontração. Até demais, pois uma pessoa famosa, figura constante nas colunas sociais, apareceu servindo lenços de linho numa bandeja de prata. E no centro da bandeja rutilava um dourado lança-perfume, como nos velhos tempos em que seu uso não infringia a lei: “Proibido tinha gosto melhor”, pensou Carlos. E não titubeou em rememorar os carnavais de outrora, pegando um dos lenços, embebendo-o com um forte jato e aspirando aquele líquido gelado e perfumado que saía sob pressão do invólucro de metal. Foi às nuvens...

Aquele mundo novo contagiava o espírito de Carlos. E há muito ele não se contentava em amesquinhar pequenas sobras financeiras, que, mesmo substanciais, ainda não lhe permitiam manter-se como figura permanente naquele cenário cintilante dos ricaços. Contudo, novos amigos lhe surgiam na vida, abrindo-lhe as portas das facilidades de consumo. Um deles, Luiz Henriquez, de origem argentina, e pouco mais velho que ele, descortinou-lhe o brilho da alegria e do esbanjamento: o submundo do crime. O primeiro contato com Luiz Henriquez ocorrera meses antes, na casa de câmbio. E para a finalidade de sempre: a lavagem de milhões de dólares, que pelo argentino eram regularmente enviados a diversos países da Europa, aos Estados Unidos, à Argentina e... à Colômbia. 

Luiz Henriquez costumava lidar com João Sharif, porém há muito já percebera a desenvoltura daquele especialista em câmbio e apreciava o seu modo discreto e impessoal de tratar das transações, nunca discriminando os clientes. Na verdade, para Carlos tornara-se indiferente se o dinheiro provinha ou não de fonte suja. Cuidava dos refinados clientes como se fossem todos “honestos”, e assim enchia os bolsos de seu patrão... Sim, porque Carlos recebia apenas as partículas dos muitos milhões de dólares que lhe passavam pelas mãos. E fingia não se incomodar: “Melhor algum do que nada”, pensava, até que houve o assédio: Luiz Henriquez convidou-o a almoçar e o levou ao luxuoso restaurante francês Le Bec Fin, em Copacabana. Ocuparam uma discreta mesa, ficando claro para Carlos ser o argentino um habitual comensal naquele lugar. O maître desdobrava-se em cortesia. O garçom, exclusivo, dirigia-se ao argentino pelo nome, sempre antecedido do indefectível “Dr.”, confirmando o seu prestígio. 

Feitos os pedidos, Luiz Henriquez clarificou sem rodeios sua intenção, oferecendo a Carlos uma chance de ganhar muito dinheiro. As tarefas seriam restritas ao seu conhecimento profissional e endereçadas às suas incontáveis amizades no meio empresarial, político, militar, policial e judiciário, entre outros contatos fechados que possuía. Carlos aceitou a proposta, porém manifestou seu temor com a reação de João Sharif, sendo logo tranqüilizado por Luiz Henriquez. E este esclareceu que a participação do cambista consistiria apenas em aproximá-lo de determinadas pessoas no âmbito de suas atividades normais. Somente cuidaria de apresentá-lo como um “grande amigo do ramo de negócios ligados ao Mercosul”, ficando por conta de Luiz Henriquez o estreitamento dos contatos dali para diante. “Tudo muito fácil, mas nem tanto”, raciocinava Carlos. Por isso, indagou ao argentino: 

           Henriquez, tudo bem, acho que dá para fazer o que você me propõe. Mas, vamos supor que alguém não goste do assunto...

           Fique tranqüilo, Carlos. Sei como lidar com isso. Você vai custar a perceber o tamanho do nosso poder. Nós fazemos negócios pesados, muita grana mesmo!...

E continuou na explicação: 

           Pode ter a certeza de que nenhum deles irá reclamar com você, mesmo que não aceitem o jogo. Mas é difícil não aceitar. Nossas garantias são totais e o dinheiro ilimitado. O problema é só chegar a eles, para estreitar uma amizade, entendeu?

           Tudo bem, Henriquez! Não lhe posso negar uma coisa: não agüento mais aperto financeiro. Fico danado da vida quando recebo convite para uma festa chique e tenho de atentar para não repetir o mesmo traje. É muito chato. Muitas vezes recuso – reclamou Carlos.

           Tem razão. Acho que a primeira coisa é providenciar-lhe um banho de loja. Quando a gente sair daqui, vamos passar numa loja de griffe. Só compro lá. O dono é amigo. Você vai ter de comprar um armário maior – gracejou Luiz Henriquez.

           Puxa, Henriquez! Você está brincando comigo?

           Não, Carlos. No nosso negócio não existe tempo a perder. É tudo muito profissional e rápido, e dinheiro não é problema. Estou falando sério!...

           Desculpe-me, Henriquez. É que tudo me parece brincadeira. Estou meio confuso com tudo isso. É para acreditar mesmo?

           Claro que sim, amigo! Vamos fazer o seguinte: daqui, vamos direto à loja. Você não precisa voltar ao trabalho. João Sharif é dos nossos. Mas você é o especialista de que precisamos. Mas, primeiro, tem que estar em condições de freqüentar a sociedade em igualdade com os ricaços. Está decidido. E já que você aceitou, vamos montar uma fachada e tanta com você. Prepare-se para entrar no mundo dos ricos, mas sendo um deles...

Dali, partiram para Ipanema, adentrando a loja mais cara dum shopping. Veio o próprio dono recepcionar o refinado cliente “argentino”, cujos gastos garantiam-lhe lucros astronômicos.

           Boa tarde, Dr. Henriquez! Que prazer! Do que estamos precisando hoje?

           Martins, desejo um especial favor; quero que você capriche um guarda-roupa completo para o amigo aqui, no mínimo dez peças de cada. Aquele atendimento de sempre...

           Claro, doutor! Providenciarei o melhor que tiver. Estou com umas novidades chegadas da Europa. Há umas coleções espetaculares de sapatos e gravatas. E uns lançamentos italianos sensacionais. Pode deixar seu amigo aos meus cuidados.

           Muito bom, Martins. Anote tudo em minha conta – disse. – Carlos, volto daqui a três horas. Hoje seu dia será diferente. Vamos a um lugar especial. Você vai gostar – concluiu Luiz Henriquez.  – Legal, Henriquez! Estarei esperando; obrigado mesmo!

           Está certo, amigo, mas atente logo para a primeira recomendação que lhe faço: mantenha sempre discrição absoluta! Nunca fale nada do nosso relacionamento com ninguém, nunca pergunte nada. Este é o nosso maior trunfo. Não se esqueça de que os mais espertos são os aparentemente mais beócios. No nosso meio, ninguém é confiável, até certeza em contrário. Guarde este conselho como se fosse um tesouro...

           Ora, Henriquez! Você sabe como eu sou discreto ao extremo. O meu ramo já me ensinou... Fique tranqüilo!

           Eu sei amigo, eu sei... mas nunca é demais avisar, especialmente agora. O jogo é outro.

           Tudo bem, Henriquez. Pode ir, calmo. Estarei aqui esperando – respondeu Carlos, já um pouco chateado, mas entendendo a preocupação de seu interlocutor.

Carlos se decidiu, resoluto: “Entrarei de corpo e alma nesse negócio!” Não tinha dúvida de que aquela vida, apesar de arriscada, atendia aos seus anseios materiais. Ansiava conhecer as primeiras tarefas, tendo como mentor o argentino Luiz Henriquez. Ou melhor, colombiano: Alonso Perez, seu verdadeiro nome, chegado ao Brasil com documentos falsificados em precisão, tão perfeitos que, se conferidos naquele seu país de fachada, seria ele um “próspero e respeitável exportador de alimentos do Mercosul”.

Alonso Perez representava os interesses do cartel de Medellin, sendo no Brasil o responsável por contatos objetivando a abertura de canais de venda da cocaína em pasta, no padrão colombiano de distribuição mundial. A pasta vinha prensada em tabletes de um quilo, formando um paralelepípedo de aproximadamente trinta centímetros de comprimento, quinze de largura e cinco centímetros de altura. Cada tablete custava no Brasil cinco mil dólares, única moeda aceita. Vendida em frações, desdobrava-se em vinte e cinco mil dólares, proporcionando um lucro fantástico aos traficantes, isto sem considerar as misturas com outras substâncias, para aumentar a quantidade da cocaína a ser vendida no varejo (“batismo”).

O tráfico direto da droga não faria parte das tarefas de Carlos. Sua participação seria exclusivamente como especialista em transações cambiais. O conúbio de Perez com o brasileiro apresentava-se atraente em todos os sentidos: nas operações de câmbio negro e nas articulações com pessoas importantes, incluindo-se alguns clientes traficantes do asfalto, intermediários que faziam a droga chegar às favelas. 

 

Carlos nascera em Minas Gerais, numa cidade do interior. Membro de uma família de classe média, ainda muito jovem, – e contando com boa mesada, – veio para o Rio de Janeiro estudar Economia, tarefa que não lhe fora difícil cumprir. Inteligente e dedicado, lograra sucesso. Morava numa pensão, em Botafogo, bairro apropriado ao deslocamento rápido e barato para o centro da cidade e para os bairros nobres: Copacabana, Leblon e Ipanema, locais prediletos para suas investidas noturnas atrás de mulheres bonitas e sem compromisso fixo. Durante muitos anos ele permaneceu naquele endereço.

Em vez de seguir o rumo de muitos conterrâneos seus, que saíam de Natividade de Carangola para Belo Horizonte com o fim de completar seus estudos e tentar alguma profissão mais próximo de casa, Carlos optou por se deslocar e se radicar no Rio de Janeiro, onde já estivera antes, passando um verão em casa de amigos. Encantou-se com a vida dos cariocas, com a diversidade de pessoas e com a variedade de cultura, tanto brasileira como estrangeira. Era o ambiente com que sonhava desde a adolescência. Por isso, não pensou duas vezes, recebendo o apoio de sua família quando decidiu partir para a Cidade Maravilhosa.

Fez Economia, e, com o diploma debaixo do braço, não teve grandes problemas para arranjar emprego. Suas excelentes recomendações universitárias ajudaram-no a abrir caminhos profissionais. Depois de um teste, foi contratado pela casa de câmbio para não mais sair. Dava conta de suas atividades com presteza, garantindo bom lucro a João Sharif. Também inseriu fácil em sua cultura moral as transações de “caixa dois”. Frio e calculista, mantinha uma expressiva lista de clientes importantes, que astutamente controlava e atualizava sem o conhecimento de João Sharif. Assim se começou a despertar para uma desmedida ambição...

 Imbuído da vontade de vencer, Carlos foi tocando a vida e aprendendo cada detalhe das transações legais e ilegais que ocorriam rotineiramente na casa de câmbio, até surgir-lhe o convite de Perez para almoçar. Ganhou roupas novas e foi, pela vez primeira, às termas Orly. Adorou aquele ambiente de lindas e solícitas mulheres em trajes insinuantes. No seu caso, nunca teria coragem de enfiar a mão no bolso para se deliciar daquele lugar. Com Perez convidando e pagando tudo, dali em diante não iria querer outra vida. Se dependesse de sua vontade, e de coragem, sentia-se suficientemente preparado para aventurar-se a vôos mais altos e partir em busca da fortuna e do consumo fáceis. Tudo estava propício e caminhando nesse sentido...

 

Carlos e Luiz Henriquez se reencontraram no shopping e rumaram às termas Orly, onde aprofundaram o diálogo iniciado no almoço:

           Companheiro, acho que fizemos uma boa amizade a partir de hoje.

           Sem dúvida, amigo. Hoje você me proporcionou coisas que eu nunca tive. Essas mulheres são demais! Que lugar! Daqui não dá vontade de ir embora! – exclamou o deslumbrado iniciante.

           É mesmo! Isso é que é vida boa! Aqui nós desfrutamos de boas mulheres, e sem compromisso. É só ter dinheiro, mas isso não é problema.

           Não é pra você, amigo. Se dependesse do meu ganho, eu nunca entraria aqui.

           Veja bem, Carlos, você é uma pessoa legal. Gostei mesmo de você, e estou disposto a lhe ajudar. Mas não sei se você está pronto. É um jogo de riscos!...

           Ora, Henriquez! Eu já me arrisco demais, e por quase nada. Faço aquelas transações de rotina e só recebo ninharia do Sharif. Por mim, toco o barco com você! Estou cansado de viver apertado, sem poder usar uma roupa de griffe, sem poder comprar um carro mais decente. A partir de hoje, se você quiser, pode me experimentar. Você não se irá arrepender...

           Boa, amigo! Gostei da firmeza! Na semana que vem, orientarei você para executar uma tarefa simples.

           Puxa, amigo! Terei de esperar ainda uma semana? Está faltando confiança?

           Nada disso, Carlos! É que eu preciso fechar uns contatos... E logo você começa; fique tranqüilo. Só por sua disposição, você receberá mais um prêmio ainda hoje. É de graça!

Na saída, com ambos no BMW 750ia de Perez, este colocou no bolso de Carlos uma expressiva maçaroca de dólares. Desconcertado, ele nem contou. Saltou em Botafogo e pegou no porta-malas do carro o seu banho de loja: dezenas de bolsas com roupas, sapatos e outras peças de vestuário. Despediu-se rápido e correu para a pensão. Entrou no quarto, enfiou a mão no bolso, puxou e contou a bolada: “Vinte mil dólares? Não dá pra acreditar! Pagarei tudo quanto é dívida numa tacada só!”

Naquela noite, a ansiedade não deixou o cambista dormir, ficando ele a apreciar aquela dinheirama. Não conseguia largar a inusitada bolada, mas, depois de saciar suas cobiçosas vistas, guardou tudo debaixo do travesseiro. Afinal, muitos dólares passavam por suas mãos todos os dias, sempre como um rio correndo invariavelmente ao mar, e nunca paravam no caminho. “Desta vez foi diferente!”, pensava consigo, enquanto rememorava a figura misteriosa de Luiz Henriquez. Na verdade o colombiano Perez...

 

Alonso Perez, nascido em Bogotá e filho de favelado, logo cedo se iniciou no crime. Ainda adolescente, aos 17 anos, matou um jovem adversário de sua gangue. Conseguiu fugir para Medellin, ingressando no cartel apenas como mais um empregado na produção em larga escala da cocaína. Como muitos outros, viveu primeiramente na selva, em laboratórios clandestinos, executando a tarefa de transformar as folhas da coca no mais venenoso tóxico que assola a humanidade nos tempos atuais. Mas o colombiano não se importava com isso; não se incomodava com o fato de ser a cocaína um agente destruidor da vida de milhões de pessoas. Na realidade, pensava apenas em sobreviver e em não ser preso pelo crime que havia praticado.

Aos 21 anos, ele já se enfileirava com prestígio entre os homens de confiança de Carlos Castebar, o narcotraficante mais conhecido do mundo. Ainda na Colômbia, realizou algumas execuções por ordem do chefão, angariando sua total confiança. 

O cartel passou, então, a investir em Perez. Colocou-o recebendo aulas de português e treinando o modo de falar argentino. Ao cabo de seis meses, foi mandado para Buenos Aires, aonde os contatos de Carlos Castebar, já orientados, providenciaram-lhe uma verdadeira sabatina de aulas e de conhecimento sobre o Mercosul. Dotado de vivaz inteligência, Perez não demorou muito em se apresentar como um legítimo portenho, além de dominar com fluência o português. Contava 23 anos quando desembarcou no Rio, já como “Luiz Henriquez”, a fachada montada na Argentina.

Passou dois anos somente conhecendo o país. Estava pessoalmente orientado por Carlos Castebar para contatar com todos os seus agentes no Brasil. Suas referências eram respeitáveis: vinham do próprio chefão internacional. Depois, radicou-se no Rio de Janeiro. Instalou-se num apartamento previamente montado pelos antigos contatos do cartel na cidade. Não teve trabalho algum. Recebeu tudo pronto, além de uma milionária conta bancária. Comprou carros novos e começou a circular em ambientes elegantes, buscando assim estreitar contatos importantes. Conversava muito, freqüentava a noite e fazia amigos. E escolheu o melhor lugar para isso: as termas Orly.

Não havia pressa em suas ações. Não dava um passo sem consultar Medellin, o que geralmente fazia através de telefones públicos. Recebia os pagamentos efetuados pelos traficantes atacadistas locais, comunicando-lhes quando e onde a droga comprada chegaria. Somente relações de alto nível, em restaurantes de luxo e outros pontos tão chiques que nem a polícia ousava se aproximar. Ou nas termas Orly, uma de suas bases prediletas.

Já próximo dos 32 anos, – e acumulada experiência, – Perez percebeu em Carlos um excelente investimento. Depois de consultar Medellin, passou a travar relações mais freqüentes com o especialista em câmbio. Parecia-lhe a pessoa ideal, um importante elo de ligação entre as suas criminosas atividades e o mundo oficial. Não lhe fora difícil perceber a ambição no sentimento do cambista, que contava uma idade aproximada da sua, o que ele considerava bom. Competência, ele já a reconhecera no futuro parceiro. Faltava-lhe somente saber se ele morderia a isca. Foi mais fácil do que imaginara...

 S

 

Tempo e fortuna correram velozes. Em meados de 1999, Carlos mantinha-se na rotina da casa de câmbio, porém agora com uma grande diferença: fora promovido a gerente por João Sharif, que certamente recebera em troca, do cartel de Medellin, um alto prêmio.

Assim, o dinheiro passou a entrar a rodo no bolso de Carlos, que até já comprara um apartamento em Ipanema, num local que lhe fora determinado por Luiz Henriquez. Também trocara o seu carro nacional por um Mercedes-Benz C-280, o modelo que mais apreciava. Aprendeu a elegância dos ricos, freqüentando regularmente suas festas. Por sinal, não festejavam particularmente nada. Qualquer motivo era bom: subiu o dólar, caiu o dólar, a seleção vai jogar, ou outra razão não menos fútil. Carlos não queria saber; convidou, estava lá. E foi numa dessas festas que reencontrou Hortênsia, a embaixatriz argentina. De olho em suas roupas de griffe, a esperta portenha aproximou-se dele com uma calculada intimidade: 

      Olá! Como vai? Vi você chegando. Aí, hein!... de carro novo!...

      É... os negócios melhoraram.

      Estou vendo, estou vendo... Você está um pão! – insinuou-se a portenha, jogando todo o seu charme em cima de Carlos.

      E você, o que tem feito? – provocou Carlos.

      Tenho viajado bastante pelo mundo. Você sabe, sou uma pobre divorciada, e tenho de preencher o meu tempo, ver as modas mundo afora... sabe como é, não sabe?...

      Isto é bom. Infelizmente, não posso fazer o mesmo. Os negócios me absorvem muito.

      É assim mesmo, queridinho! Quando tiver um tempo, liga pra mim. Que tal nós sairmos para almoçar um dia desses?

      Hum!... é uma idéia... Depois você me passa o telefone – respondeu Carlos, até gostando do convite, quando viu Sílvia se aproximar.

      Como vai, meu amigo? – cumprimentou-o Sílvia, sempre uma simpatia.

      Estou muito bem. Você não tem aparecido lá na casa de câmbio... O que houve?... Está aborrecida?

      Que nada, bobinho! Você sabe que só me contento quando atendida por você – respondeu Sílvia, com Hortênsia saindo de fininho, já se sentindo um estorvo na conversa.

      Muito bonita a embaixatriz, não acha? – elogiou Carlos a portenha, que se retirava.

      Quê?!... embaixatriz de quê?! – assustou-se Sílvia com a afirmação de Carlos.

      Ué, Sílvia!? Desde aquela festa baiana, aqui em sua casa, que ela assim se apresentou a mim. Estava inclusive com uma bela roupa de couro, você e ela, ambas com modelos muito lindos.

      Ora, Carlos! Essa Hortênsia não tem jeito mesmo! Ela é minha costureira! É ela quem faz essas roupas de couro...

      Quê?!  – espantou-se Carlos, fitando o semblante igualmente espantado de Sílvia. – E caíram ambos na gargalhada...

CAPÍTULO IV - NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE...

 

 

 

Os dias transcorriam serenos, com os ventos soprando favoráveis aos parceiros criminosos, Carlos e Perez, que continuavam firmes nos negócios; contudo, mantinham entre si uma certa dose de desconfiança. Carlos era o mais cabreiro, porque desconhecia quase tudo a respeito de Perez: nunca o achava, nunca sabia onde ele estava. Mas, ao contrário, era facilmente localizado pelo outro, a qualquer hora do dia ou da noite.

Na verdade, havia ainda um inextricável mistério bailando na mente preocupada de Carlos, que já concluíra não passar de mero instrumento nas mãos do colombiano, que ele continuava pensando ser o argentino Luiz Henriquez. Sim, não passava de um inexpressivo intermediário, apesar de se saber importante dentro daquele contexto em que atuava. O cambista sentia-se incomodado com o desprestígio, e, de certa maneira, temeroso, porém não o demonstrava. Aprendera também a ser frio e calculista, e muito antes de conhecer o narcotraficante.

Mas, ainda insatisfeito, Carlos cumpria a sua parte com presteza. Já havia apresentado muitas pessoas importantes a Perez. Somente isto, pois da boca do colombiano ele nunca conseguira saber nada sobre os desdobramentos dos contatos que providenciava. Funcionava sempre a máxima do narcotraficante, dita na primeira hora do relacionamento entre ambos: “O segredo é a alma do negócio!” Contudo, o colombiano não podia evitar que Carlos controlasse os clientes da casa de câmbio e miudamente conhecesse todas as operações financeiras por eles encetadas. Por isso era fácil ao arguto cambista deduzir quais os contatos que se firmavam positivamente entre Perez e aquelas pessoas que lhe eram por si apresentadas: bastava acompanhar os sugestivos aumentos das transações dessas pessoas no dia-a-dia da casa de câmbio. O dinheiro aumentado logo denunciava os acertos entre Perez e alguns dos apresentados...

Com o passar do tempo, pouco tempo, aliás, Carlos já se transformara num homem rico. Com a sua experiência em lavar dinheiro sujo, não lhe foi difícil legalizar seu próprio patrimônio. E indo em ritmo acelerado no acúmulo de sua fortuna, em meados de 1999 o cambista deu um outro grande e inesperado passo: tornou-se o proprietário da casa de câmbio, comprando-a de João Sharif, que tomara a iniciativa de lhe oferecer o negócio. Teve, porém, a cautela de ouvir primeiro a opinião de Perez, que lhe esclareceu ter sido o mentor da idéia, ainda garantindo-lhe o dinheiro necessário à transação. Somente então Carlos aceitou a proposta, cujo preço oficial foi situado em termos compatíveis com a sua renda legalmente acumulada. Mas, no “caixa dois”, foram pagos mais cinco milhões de dólares a Sharif, quantia exorbitante, porém razoável em termos de custo/benefício, como dizem os economistas. Afinal, os mais volumosos negócios corriam sempre à revelia do fisco e das autoridades em geral. E o cambista nem precisara desembolsar nada: já estava tudo ajustado por Perez; ou melhor, pelo cartel colombiano.

Nessa nova condição de titular da casa de câmbio, Carlos passou a lidar com todos os clientes e a controlar todas as suas manobras financeiras. Também se obrigou, por isso, a distribuir propinas a muitos deles. Recebera do antigo proprietário a lista atualizada, e ainda ampliara-a sobremaneira. Muitas das propinas eram-lhe repassadas por Perez para entrega aos contatos. Foi assim que o cambista passou a ingressar em searas que lhe eram até então desconhecidas, ao lidar agora com um surpreendente número de pessoas importantes e poderosas. E, naturalmente, passou a saber demais...

Desde há muito Carlos não precisava mais de Luiz Henriquez como companhia nas termas Orly. E continuava fiel à sua “pirulove”, a linda Vivian Melbo. Ele também já abdicara das festas socialites, mantendo-se mais reservado. Sua empolgação, fazia tempo, dera lugar ao comportamento isolado, não só por questão de segurança, mas também para não se ficar desgastando com explicações sobre a velocíssima fortuna que acumulara. E igualmente já se havia dado o prazer de adquirir uma bela mansão em Angra dos Reis, com cais particular e um belo saveiro. Nos fins de semana, mesmo com o clima já esfriando, deliciavase com todo aquele conforto oriundo do crime. 

Desde adolescente, ainda lá em Minas Gerais, o cambista acalentava o sonho de um dia conquistar a riqueza material. Conseguira, e não se arrependia de ter trocado a relativa honestidade pela vida criminosa, mas nunca permitira à família conhecer o anverso de sua moeda. Para os familiares, ele apenas se tornara um hábil ganhador na Bolsa de Valores.Todos o imaginavam um especialista em compra e venda de ações...

Pelo menos uma vez, de dois em dois meses, Carlos deslocava-se até sua terra natal para visitar os parentes. Com tanto dinheiro acumulado, ele já garantira um alto padrão de vida à mãe e aos dois irmãos, ambos mais novos que ele. O pai havia morrido quando ele completara 30 anos. Não se preocupou muito, eis que mantinha com o pai um relacionamento esfriado pela distância e vencido pelo tempo, o mesmo tempo que o envelhecera e levara-o à demência, aos quase oitenta anos. Com os demais parentes, ao contrário, preservara a típica união familiar. E, com argúcia, propiciara-lhes as melhores condições de permanência no torrão original. Não desejava parente por perto. Por isso comprara casas, lojas comerciais e uma bela fazenda na região, registrando tudo em nome dos irmãos. Também por precaução, nunca comentara com ninguém no Rio de Janeiro sobre sua família, nem mesmo com Perez. Quando indagado, ou desconversava ou simplesmente mentia.

A vida continuava boa e descontraída, e Carlos mantinha-se fiel à rotina das termas Orly, sempre agarrado com a sua predileta Vivian Melbo. E ela sentia-se otimamente bem com ele, a única pessoa com quem conversava mais intimamente, além de transar, é claro. No fim de contas, fora com Carlos a sua primeira “massagem”, encantando-se ela com a delicadeza dele. Desde os seus tempos como garota de programa, Vivian Melbo estava acostumada a acoitar em sua alcova homens de todos os naipes; alguns bons, outros péssimos. Ali nas termas, porém, as prostitutas não se obrigavam a aceitar qualquer um. Os abusados podiam ser dispensados. Era a regra do lugar; as biscas faturavam menos, mas não se submetiam a maustratos. E Vivian Melbo evitava outros atendimentos. Não precisava de dinheiro. Além disso, estava igualmente afeiçoada a Carlos, agora o seu parceiro constante.

A intimidade de Carlos com Vivian Melbo aumentava com o passar do tempo, a tal ponto que ele começou a encontrá-la aos domingos, em sua folga. Saíam para almoçar e passeavam como verdadeiros namorados. No fundo, já estavam apaixonados, porém não assumiam a realidade. Cada um vivia suas estranhas vidas, e, nelas, não cabiam companhias permanentes. Contudo, não puderam estancar o ímpeto de seus corações. O cupido vencera mais uma vez. E a relação de ambos se fortaleceu em mútua confiança. 

Carlos pensava conhecer quase todo o drama de Vivian Melbo. E, aos poucos, ela também ia extraindo praticamente tudo da vida de crimes do amante, e até de suas preocupações em se sentir isolado naquele mundo cruel e realizando tarefas complicadas, porém sempre mantido a conveniente distância por Luiz Henriquez. O cambista não reclamava do tratamento que recebia, apenas estranhava-o. Tudo era-lhe ótimo, exceto o fato de não conhecer nada além do seu mister de apoio aos interesses de Luiz Henriquez, aqueles de sempre: ora lavando dinheiro, que enviava para contas no exterior, ora apresentando ao falso portenho as pessoas que o procuravam com os mesmos objetivos escusos, ora distribuindo propinas. O resto, Carlos ignorava, não sabia nada mesmo, e muito menos o que Vivian Melbo extraordinariamente fazia nas suas manhãs de folga, durante a semana...

Como Vivian Melbo possuía dupla nacionalidade e falava fluentemente o inglês, reforçava-se ainda mais sua relação com Carlos, que, por sua vez, dominava relativamente bem aquele idioma. Os negócios exigiamlhe contatos internacionais, o que realizava com desenvoltura. Nas termas, ambos se distraíam praticando demoradas conversações, algo sempre muito agradável. 

Durante todo aquele tempo de contato de Carlos com Luiz Henriquez, a bela loura fazia-lhes companhia. Ela se dava bem com o traficante, que a tratava com distinção, decerto por causa de Carlos. Mas a prostituta não conseguia extrair nada da vida daquele que se fingia argentino, a não ser a história de sempre: “Os negócios do Mercosul.” Vivian Melbo, porém, cansava-se de saber que Luiz Henriquez não tinha nada de portenho. Já chegara ali, desde o primeiro dia, com a missão de observar Alonso Perez: ela era agente secreta, classe “C”, do mais poderoso serviço de inteligência do mundo: a Central Intelligence Agency, conhecida por sua temida sigla: CIA. 

 

Tudo teve início quando Vivian Melbo colocou o anúncio de prostituição nos classificados, ainda muito nova, aos 23 anos. No consulado americano, um assessor especial do cônsul, Geoffrey Foster, lia detalhadamente a resenha dos jornais brasileiros. Era, na verdade, um agente de primeira categoria da poderosa CIA. Ele notou o anúncio e foi o primeiro a ligar. Vivian Melbo, ainda inexperiente, contou-lhe sobre sua dupla nacionalidade. O encontro foi marcado naquele mesmo dia. 

Foster contava 30 anos. Sua trajetória na inteligência norte-americana iniciara-se ao final de seu serviço no Corpo de Fuzileiros Navais. Era um boina-verde, com experiência em ações de combate, além de razoável cultura. Já naquela época, interessava-se por assuntos brasileiros. Ele servira na guarda especial do consulado, sediado na cidade do Rio de Janeiro, quando ainda era fuzileiro naval, durante um ano. Depois retornara ao seu país; mas, por diversas vezes visitara o Brasil, em férias. Encantara-se com o Rio. 

Quando foi sondado para ser um espião, Foster aceitou de imediato. Gostava de aventuras e confirmara falar e escrever razoavelmente bem o português. Fora aprovado nos árduos treinamentos em Langley (centro de treinamento de agentes da CIA, situado na Virgínia) e convidado a retornar ao Brasil, agora com outra finalidade: a observação permanente da evolução do narcotráfico no país. Vivian Melbo caíra-lhe do céu...

Os contatos de Foster estendiam-se aos demais agentes estrangeiros espalhados pelo Brasil, alguns até de países pouco amigáveis nas relações com os EUA. Mas os serviços de inteligência têm seu próprio mundo e sua impenetrável cultura. Quando o assunto interessa, todos se tornam “amigos”. Era o caso do narcotráfico, pois o Brasil vinha há muito tempo servindo de rota para a distribuição de drogas, em larga escala, tanto para os Estados Unidos como para a Europa. E também se inserira nas preocupações da CIA o forte indício de que já se produzia no Brasil a matéria prima da cocaína e do ópio – a coca e a papoula, respectivamente. 

Também os serviços de inteligência e de combate às drogas brasileiros mantinham-se estreitados com Foster: a Abin; a Senad; o poderoso Serviço de Inteligência do Exército, dissimulado em suas siglas simples (E-2), comuns a inúmeras estruturas menores e inseridas nos estados-maiores de suas organizações militares espalhadas por todo o Brasil; o SIM e o SECINT, respectivamente poderosos serviços de inteligência da Marinha e da Aeronáutica. E, complementando, os serviços de inteligência das Polícias Militares brasileiras, todas integradas ao que eles designavam por “comunidade de informações”, além da Polícia Federal e de outros organismos estatais. E, além de todos esses tentáculos tupiniquins, é claro que Foster também se mantinha estreitado com outros organismos governamentais americanos oficialmente instalados em território brasileiro.

A estrutura de espionagem brasileira gozava da particular preferência de Foster. Em tempos anteriores, os seus sistemas de observação e de coleta de informações foram organizados com orientação dos EUA, um dado que Foster já trouxera na algibeira quando chegou ao Brasil como agente da CIA. E ele já estava bem recomendado, através dos canais abertos entre as cúpulas da inteligência brasileira e norte-americana. A CIA, todavia, tinha vida própria no seu campo de ação. Com recursos à vontade, não abdicava de também conferir tudo por seus próprios meios. Daí a importância de Vivian Melbo, entre muitas outras pessoas com as quais Foster trocava, naquela época, contatos estreitos, e com informações sempre bem remuneradas pelo ricaço país capitalista.

A conversa de Foster com Vivian Melbo soara como um milagre. Ele não fora até ela para transar. Ou melhor, fora sim, mas para transar outros assuntos mais importantes. O trabalho dela seria simples: como garota de programa, deveria freqüentar determinados ambientes e estreitar relacionamento com algumas pessoas, que lhe eram previamente indicadas, e delas tentar extrair informações preciosas. A lista era grande. Vivian Melbo não teria descanso. Em compensação, sua fome foi saciada logo naquele primeiro encontro: dez mil dólares, a quantia deixada por Foster, como garantia do pagamento mensal de igual valor.

Durante todo o tempo em que atuou como garota de programa, a bela loura deu mostras de sua competência. Muitas informações preciosas ela conseguira com a sua habilidade na cama e no diálogo. Ninguém desconfiava de nada, e ela seguiu em frente, até se decidir ingressar numa casa de massagem. Isso decorreu de vontade própria, porém antes autorizada por Foster, com uma condição: ela teria de optar pelas termas Orly. O seu alvo: Alonso Perez, o colombiano que ali se apresentava como o argentino Luiz Henriquez. A CIA já sabia de tudo... e Vivian Melbo também...

 

 

 S

 

 

Numa de suas idas às termas Orly, Carlos sugerira a Vivian Melbo a idéia de viajarem juntos. Era maio de 1999, um pouco antes de ele se tornar o titular da casa de câmbio. Ele reservara o mês de julho para gozar merecidas férias. Ela gostou da idéia, mas se preocupou em pedir uns dias de folga ao seu patrão... Completamente alheio às circunstâncias que a deixavam ficar ali nas termas, Carlos tranqüilizou-a, afirmando já ter resolvido tudo com o proprietário, ao qual assegurou uma boa soma em dinheiro. Não disse quanto, mas ela gostou daquele interesse pessoal manifestado por seu “pirulove”. Também apreciava a companhia dele. E de receber todas as informações que ele inadvertidamente lhe repassava. Afinal, era Carlos o par constante de Perez nas termas... E, na verdade, não era bem ali que ela precisava de pedir dispensa, mas lá no consulado norte-americano...

Vivian Melbo sentia-se uma traidora em relação a Carlos. Mas não podia interromper sua tarefa de espionagem. No fim de contas, seu alvo preferencial era o colombiano Perez. Carlos era apenas a linha de mira a lhe apontar o traficante. Por isso, mesmo constrangida, ela seguia em frente em sua missão secreta. E nunca a CIA fora tão bem informada sobre as operações do narcotráfico no Brasil. Recebia o principal: os nomes das pessoas assediadas por Perez, além de outras informações complementares. Sim, nunca os serviços de inteligência se desdobraram e trabalharam tanto em todo o território brasileiro... 

No início de julho, o improvisado casal partiu para os Estados Unidos. O vôo 888, da VASP, aterrou suavemente em Nova Iorque. Eles não enfrentaram maiores problemas na liberação da entrada em território norte-americano. Aliás, até parecia que eram esperados, pois os funcionários aduaneiros desmancharam-se em gentilezas, algo incomum com estrangeiros, em especial com os povos latinos, usualmente recebidos com muita desconfiança. Mas Vivian Melbo não era uma estranha no ninho. O seu nome e o de Carlos já constavam na discreta lista consultada pelos geralmente duros controladores da chegada de estrangeiros...

Liberados sem atropelos pela aduana, foram então para o Saint Moritz on the Park Hotel, em frente do aprazível Central Park. Naquela noite, deleitaram-se freneticamente com os prazeres do sexo, como perfeitos amantes em lua-de-mel. Estavam ambos efetivamente enamorados. No dia seguinte de manhã visitaram os Museus Whitney, Metropolitan Museum of Art, Guggenheim Museum e Cooper Hewitt. Passearam de carruagem e fizeram compras. Depois se deixaram ficar num restaurante com serviços tipicamente brasileiros, na rua 46. Em seguida ao almoço, tornaram ao hotel, onde se recolheram em descanso.

À noite, em limusine colocada à disposição pelo hoteleiro, dirigiram-se ao Village, o bairro mais badalado de Nova Iorque. E, por sorte, numa das casas de diversão se apresentava o cantor Gilberto Gil. Não perderam o show, espetacular, do famoso cancioneiro e compositor brasileiro. De caminho, foram jantar num chique restaurante, o Little Italy, retornando para mais uma noite de amor, que se aprofundava, irreversível e sem se conter, nos corações de ambos.

Vivian Melbo, apesar de tudo, não perdia a chance de repassar para Foster as novas informações que escapuliam de Carlos em suas inconfidências sobre o narcotráfico. Ela arranjava um pretexto qualquer, – típico da inteligência feminina, – e corria ao telefone. Sentia-se mal fazendo aquilo, é bem verdade. O que antes soava-lhe como simples conduta profissional, agora começava a ter contornos de traição, de deslealdade para com Carlos. Comentava isso com Foster, usando de toda a sua sinceridade. O amigo, entretanto, tranqüilizava-a e motivava-a a seguir em frente. E garantia que ela não se arrependeria do que estava fazendo, no fim de tudo. E ela aprendera a confiar em Foster, e era o que a mantinha firme no mister da espionagem; por isso, não abria o seu jogo nem mesmo para Carlos. Ao inverso dele, cuidava sempre para que não lhe escapasse da boca nenhuma inconfidência.

           Oh, amor! Como estou feliz! Há muito tempo não desfruto de momentos tão maravilhosos como agora! – declarou-se Vivian Melbo, demonstrando-se sinceramente extasiada com o passeio e com a companhia de Carlos.

           Eu também, querida! Sair para outro ambiente, como fizemos, foi a melhor coisa do mundo. E lhe confesso: se não fosse a sua companhia, tanto cá quanto lá, não sei como eu sobreviveria. Sou um ente isolado, não converso com ninguém além de você. Só você conhece a minha vida. Você e Luiz Henriquez...

           Eu sei, querido, eu sei. É uma vida perigosa, sem dúvida. Mas você um dia poderá sair dela, mudar de vida.

           Não sei como, Vivian. Como me livrarei do assédio do Luiz Henriquez? Já fui longe demais. Não dá mais pra recuar. Hoje sei de todos os contatos que ele mantém no Rio e em muitos outros pontos do Brasil. Às vezes não consigo identificar quem é quem, o que fazem, mas sei que estão com ele em algum esquema. Só os identifico facilmente quando é alguma autoridade, alguma pessoa conhecida, e de cujas atividades eu também tenha conhecimento. Afora isso, nada sei.

           Olha, querido. Eu acho que você tem de procurar saber sempre mais. Pode ser o seu grande trunfo no futuro...

           Ou o meu fim, amor! Nunca soube de nenhuma violência, mas sei que é impossível não existir.

           Decerto, querido! É tudo muito profissional. Há o crime, porém não há o vínculo com nada palpável. Fica tudo parecendo fortuito. Os criminosos desse meio são exímios profissionais, agem como verdadeiros espiões. Mas, não vamos falar mais nisso. Vem cá... me dá um abraço gostoso, me dá um beijo. Como é bom estar com você aqui! – melou-se, toda, a apaixonada amante.

           Oh, querida! Você me faz um homem muito feliz. Amanhã, vamos zarpar para Las Vegas. Estou ansioso para ver as luzes daquela cidade. E vamos visitar os cassinos. Você sempre me deu sorte no amor. E quero ter com você muita sorte no jogo – brincou Carlos, abraçando-se a sua amada.

           Oh, amor! Eu sei que lhe darei sorte, no amor e na vida. E você foi a minha melhor sorte até hoje. Amo você!...

Cada vez mais enlevados por aquele sentimento que neles se fortalecia, Carlos e Vivian Melbo partiram de Nova Iorque para Las Vegas. Luzes, eventos artísticos maravilhosos, jogos nos cassinos, lá iam eles, curtindo uma felicidade até então para ambos desconhecida. Hospedaram-se no Hotel-Cassino Bellagio, na zona do agrião, a Strip, toda tomada de hotéis e lojas deslumbrantes. Fizeram compras no Caesars Forum Shops. À noite se deleitaram com o espetáculo do Mystere do Cirque du Soleil, e depois foram às máquinas da sorte, que efetivamente os estava acompanhando: ganharam duzentos mil dólares. 

A viagem estava paga... E quinze dias se passaram com eles vibrando em alegria e muita troca de carinhos. E muito sexo, pois o clima em Las Vegas, mítico em todos os sentidos, animava-os deveras a sair da realidade e a ingressar inteiros na fantasia.

Resolveram, então, partir para a Europa. Num Concorde, é lógico. Desceram em Londres, às sete da noite, no aeroporto de Heathrow. Novamente não tiveram qualquer problema com a aduana. Parecia até que eram esperados, tamanha a cortesia com que foram recepcionados. Dali, hospedaram-se no RitzCarlton. Descansaram e fizeram amor até o auge do frenesi. Estavam realmente enfeitiçados. Só não tinham assumido, definitivamente, o amor que já sentiam um pelo outro.

No dia seguinte, de mãos dadas, passearam na West End, fazendo compras na Oxford Street. E gastaram à vontade. Contavam com um bom lucro para usar e abusar. Aliás, nem precisavam de tanta sorte. Talvez o ganho no jogo tenha sido o dinheiro mais honesto até então conquistado pelo casal... À noite, curtiram o ritmo louco do Piccadilly, como dois alegres adolescentes. Retornaram ao hotel, e, pela primeira vez, muito cansados, dormiram a sono solto.

Logo cedo deslocaram-se com destino a Paris. Dispensaram o Eurotunel, preferindo atravessar de Ferry apreciando as belezas do Canal da Mancha. E, finalmente, puseram os pés na cidade mais apreciada da Europa: Paris. Hospedaram-se no George V, um lindo cartão de visitas da capital francesa. 

Como um casal em turismo, tomaram café num dos inúmeros bares típicos, dispensando o restaurante do hotel. Estavam ansiosos por conhecer as ruas e o cotidiano dos franceses. E passearam por toda a Cidade-Luz: Torre Eifeel, Champs-Élysées, etc., rompendo abraçados o Arco do Triunfo. Selaram, naquele histórico local, juras e juras e mais juras de amor eterno. 

           Querida, acho que é hora de eu lhe dizer, de todo o coração, que não posso mais viver longe de você. Como você sabe, sou uma pessoa rica. Nada mais me falta para ser completamente feliz, exceto você.

           Oh, amor! Eu também não sei mais ficar sem você. E não quero mais saber de voltar à vida antiga. Buscarei outra coisa para fazer. Quando voltar, tentarei me desvencilhar do passado, só para curtir o nosso amor. Não sei ainda como farei isso, mas farei.

           Daremos um jeito, amor. Nada neste mundo é impossível. E temos tempo de imaginar meios e modos de mudar nossas vidas. Mas agora não quero pensar nisso! Quero amar você ainda mais, muito mais...

           Oh, querido! Você me pegou pelo pé, pelo coração, por tudo quanto é lugar. Não irá mais livrar-se de mim! – animou-se a apaixonada Vivian Melbo.

Por vontade de Vivian Melbo, viajaram de trem até Rouen, hospedando-se no Hôtel de la Marine, na Place des Carmes, onde almoçaram um delicioso prato típico. Retornaram a Paris, circulando em museus, restaurantes e cafés, deliciando-se com o romantismo parisiense. Três dias de total felicidade, e partiram de trem, num inesquecível passeio, por diversos países, – Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda, Suécia, Finlândia, Bélgica e Portugal, – dispensando os demais. 

Retornaram à Itália, onde decidiram passar mais tempo. Foi um mês inteiro de felicidade esfuziante, inesquecível. Não tinham mais dúvidas. Estavam perdidamente apaixonados. Casaram-se em Veneza, contagiados por todo aquele delicioso romantismo. Retornaram a Roma e embarcaram de volta ao Brasil, com uma certeza: Vivian Melbo não mais pisaria nas termas Orly. Tudo faria parte de um passado, do qual, entretanto, não se envergonhariam, porque ali se despertaram para o amor. Para ambos, porém, havia uma séria dificuldade: romper as barreiras que eles voluntariamente impuseram às suas vidas. 

           Minha querida, quero-a vivendo comigo, quando chegarmos. Não pretendo ver você mais nas termas, nem mesmo a passeio, está bem?

           Tudo bem, amor! Mas você irá até lá conversar? Depois de tantos anos, não posso sair deixando má impressão.

           Isto é comigo! Eu resolvo tudo. Tem alguma coisa sua lá?

           Quase nada. Mas você peça para olhar dentro do meu armário. Tome a chave e devolva-a ao patrão, está bem?

           Lógico que está! Estou muito feliz, casado com você. Na verdade, nunca tive uma namorada depois que a conheci.

           Olha, amor, você pode não acreditar, mas há muito tempo que meu único homem é você. Nos dias em que você não ia às termas, eu ficava distante, não encostava em ninguém. Você sabe como é aquilo lá. Se se atrasar um pouquinho, a colega segura o cliente. A maioria delas só pensa em dinheiro. Nunca foi o meu caso. Um dia você saberá.

           Então, eu não sei disso?

           Imagino!... Mas tenho ainda muito o que lhe contar...

           É, mas você lá chegou também no meu primeiro dia. E eu fui o mais fiel “pirulove” daquela casa  – comentou Carlos, gracejando e abraçando-se à amada.

           Oh, Carlos! Nunca pensei que me fosse apaixonar. Tornei-me uma pessoa gelada, por causa da difícil vida que venho levando. Mas você me trouxe de volta a felicidade. E pode ter certeza de uma coisa: por mais que você se assuste, um dia, com alguns segredos meus, quero que saiba que eu o amo verdadeiramente.

           Ah, Vivian, deixa de bobagem! Eu também amo você!

           Não, Carlos, não é bobagem! Quando chegarmos, terei de arrumar algumas coisas em minha vida. Quero sepultar definitivamente o meu complicado passado, para viver uma nova vida com você. Eu amo você! Não posso mais existir sem o seu amor.

           Eu também, amor. Nada irá atrapalhar a nossa felicidade, pode também acreditar!

Carlos relembrava daquelas festas socialites que freqüentara, ambientes bem menos confiáveis que as termas. Ali, nas termas, pelo menos as pessoas agiam com sinceridade: os homens compareciam com finalidades claras, assumindo seus gostos; as prostitutas os fingiam amar, com eles igualmente fingindo crer nas mentiras delas, porém deliciando-se com as transas. Tudo realmente muito claro. Ali, as mulheres trocavam de homens por puro “desejo financeiro”. Lá fora, as mulheres se vangloriavam de plantar belos pares de chifres nos maridos, enquanto eles escapuliam atrás de outras, formando-se uma verdadeira algaravia conjugal...

 

 S

 

 

A aterragem no Galeão deu-se tranqüila e ainda pela manhã. De lá, o casal se dirigiu, em táxi, para os seus respectivos endereços. Combinaram o reencontro no apartamento de Carlos na tarde do dia seguinte, quando Vivian Melbo já traria alguns de seus pertences para ali permanecer definitivamente. Depois providenciariam o restante da mudança, ajustando ambos os seus gostos, ou mudando-se para outro apartamento. Nem precisavam, posto o apartamento de Carlos ser bastante amplo e bem localizado. Mas a bela loura, antes mesmo de desarrumar suas malas, partiu para o consulado norte-americano. Por telefone, já havia marcado com Foster um encontro em caráter de emergência, para com ele poder conversar miudamente. Foster tornara-se um grande amigo, mas ela não conseguia afastar da mente suas preocupações. Como ele reagiria à notícia do casamento? E logo com quem... 

Não obstante, no seu íntimo ela alimentava a esperança de salvar o amado. Afinal, sempre deixara claro para Foster o seu sentimento por Carlos, não de amor, no início, mas de sincera amizade. Agora, Carlos significava muito mais para ela. Na verdade, tudo.

           Olá, Vivian! Muito bem, menina, sempre pontual...

           Ah, meu amigo! Desta vez o assunto é mais sério do que você possa imaginar...

           Será? Vamos ver o que você tem a dizer. Pelo visto, vem notícia boa por aí...

           Não, meu amigo! Desta vez, o assunto é pessoal.

           Carlos?...

           Puxa! A sua bola de cristal não falha mesmo.

           Decerto, Vivian. Mas, deixe-me ver se adivinho o que você me irá contar. Depois você começa, está bem? – gracejou Foster, olhando com carinho para aquela bela mulher, de quem aprendera a gostar como se fosse uma irmã mais nova.

           Duvido que você adivinhe – descontraiu-se Vivian Melbo.

           Vamos lá, então. Eu acho que você vai me dizer que se apaixonou por Carlos. Isto não me é novo há muito tempo.

           Não é só isso – retorquiu Vivian Melbo, já encabulada.

           Eu sei, eu sei. Então, você me dirá que curtiu com ele uma feliz lua-de-mel, antes mesmo de se casarem em Veneza. É isto? – acrescentou o experimentado e bem informado agente da CIA, sem perder o tom carinhoso com a sua espantada interlocutora.

           Ai, meu Deus! Como pude ser tão tola! Como pude imaginar ser possível fazer algo sem a CIA saber?

           É verdade, amiga. Mas agora lhe darei uma boa notícia. Primeiro, quero que você saiba que não há um só minuto de sua viagem de que eu não tenha conhecimento. Vocês ficaram protegidos pela CIA durante todo o tempo. Sei até qual foi a igreja escolhida por vocês.

           Não tenho mais dúvidas! Aliás, não deveria ter nenhuma mesmo! – exclamou Vivian Melbo, um pouco atordoada.

           Bem, vamos à boa notícia. Desde o início, eu protegi o Carlos. Percebi a sinceridade dele para com você. Percebi, também, que você por ele se afeiçoara. Na realidade, você se fascinou por ele desde o primeiro dia. Para mim, sem que vocês notassem, foi amor à primeira vista. Você acha que a CIA deixaria de lado tão importante fator? E se você estivesse apaixonada por Perez? Como seria? Para nós, o amor é uma fraqueza profissional, um tendão de Aquiles...

           Deus me livre! Puxa, Foster! Não lhe posso negar que estou surpresa! Acho que a CIA descobriu antes de mim a minha paixão! – exclamou, atônita, a bela loura.

           E Carlos? Você sabia que ele nunca traiu você? Que nunca teve qualquer namorada depois que conheceu você?

           Não imaginava... e não lhe posso dizer o mesmo! – gracejou Vivian Melbo, apertando as sobrancelhas e deixando um certo ar de travessura em seu belo semblante.

           Olha só, cara amiga; há muito tempo que nós trabalhamos juntos. A CIA está muito grata por seu trabalho. Você nem pode imaginar a importância dele. E Carlos, se não lhe confidenciasse o que confidenciou a respeito de Perez e de outros, nós estaríamos talvez engatinhando, sem nada de importante evoluindo. Por isso, tive a cautela de preservar o Carlos. Para nós não importa se ele praticou algum crime, isto é problema policial, e não de espionagem, que é sempre muito prática. Para a CIA, e para os serviços de inteligência brasileiros, ele também é “nosso agente”. O que você acha da notícia?

           Oh, Foster! Não sei o que lhe dizer! – respondeu Vivian Melbo, desmanchando-se em lágrimas, como uma criança, e emocionada diante da excelente notícia.

           Tudo bem, minha amiga, não precisa chorar. Mas eu terei de orientar você muito bem, para que tudo dê certo. Ouça-me, com atenção...

 

 

S

 

 

E ficaram horas e horas conversando; ou melhor, com Vivian Melbo recebendo meticulosas orientações do agente da CIA, até que ela se retirou. Decidiu-se, porém, almoçar sozinha num restaurante tranqüilo, para poder raciocinar um meio de abordar o assunto com Carlos. Estava otimista, – e também preocupada, – quando adentrou o restaurante Porcão-Rio’s, no Aterro do Flamengo. Precisava saber como entabularia a conversa para convencer o seu amado a cumprir uma perigosa tarefa, sua única salvação... 

Não foram poucos os olhares masculinos instintivamente voltados para aquela bela loura, andar de modelo, pernas torneadas e busto empinado como o de uma garota de 18 anos. Estava no esplendor de seus quase 29 anos. E não deixou de se envaidecer deveras com os gulosos olhares que a espetavam em derredor. Sentia-se bonita: “Meu amado Carlos, mesmo com 32 anos, não perde para esses afoitos. Só preciso usar minha intuição feminina para tudo dar certo”, imaginava, feliz da vida...

Carlos retornara ao trabalho, logo verificando com o gerente as operações realizadas em sua ausência. Enquanto isso, após chegar em seu pequeno apartamento, Vivian Melbo cuidou de arrumar suas coisas para a mudança. Na casa de câmbio não havia muita novidade. Tudo transcorrera normalmente, com Carlos orientando, de longe, e por telefone, o seu gerente. Apenas alguns assuntos ficaram pendentes durante a viagem, porque ele teve o cuidado de adiantar as propinas antes de partir. Afinal, dinheiro não lhe faltava para isso. E ele não queria ter problemas durante as férias. Sobraram, então, os assuntos corriqueiros, tendo o gerente se incumbido de todos com eficiência.

Ninguém na loja conhecia as transações de Carlos. Diferente de seu antecessor, ele sempre preferira guardar para si os segredos da profissão. Não se podia esquecer de que João Sharif fora de certa maneira “aconselhado” a lhe vender a casa de câmbio. E, apesar de ter ganhado muito dinheiro na saída, não exteriorizara qualquer contentamento. Uma certeza, porém, havia em Carlos: Sharif nunca abriria a boca, ou por estar comprometido até o último fio de seus cabelos, ou por medo de represálias. Parecia que ele estava adivinhando, porque, ao final da tarde, veio-lhe a notícia, dada por um parente do antigo patrão através do telefone: “João Sharif acaba de ser assassinado!” Carlos pensou rápido: “Luiz Henriquez!”

O cambista foi para casa preocupado. Não sabia detalhes do inesperado assassinato. Apenas que Sharif parara o carro num sinal luminoso, no Leblon, quando dois homens, numa motocicleta, e com as caras cobertas por capacetes com visores fechados, estacaram ao seu lado e o mataram a tiros de pistola 45 mm; um crime rápido e preciso. Buscaria clarificar as notícias quando chegasse. Tentaria um contato com Luiz Henriquez para saber de alguma coisa. Mas seguiu com uma certeza: o antigo patrão sabia demais. E ele também...

Logo após ingressar em seu confortável domicílio, chegou Vivian Melbo, de surpresa, já trazendo sua bagagem; apenas o imprescindível. Ansiosa, nem mesmo esperara o dia seguinte, como estava combinado entre ambos. “Depois traria o restante”, assim a bela loura alegou ao chegar. Levara apenas o necessário ao primeiro momento de se concubinar com o amado. Foi o bastante para Carlos se descontrair um pouco, ajudando-a nos afazeres de arrumar as poucas roupas e outros objetos que ela selecionara. Mas logo retomou a realidade e chamou-a à sala para conversar, relatando-lhe, então, a inesperada notícia que recebera. Vivian Melbo assustou-se. Não soubera ainda do assassinato de João Sharif, absorta que estava com seus próprios problemas e com a mudança.

           Amor, tenho uma notícia não muito boa para lhe dar. Acabaram de assassinar o João Sharif. Acho que não foi acaso, não. Estou preocupado...

           Nossa, Carlos! Será que foi o Perez?

           Perez?! Que Perez?! – espantou-se Carlos.

           Oh, amor! Tenho muito que lhe contar. Você não tem idéia do quanto é grave o que lhe direi a partir de agora.

           Que é isso, Vivian?... Não estou entendendo patavina do que você está falando!

           Você irá entender, amor! Espero que você se mantenha calmo, porque a situação é muito grave. Ouça-me, por favor!...

           Claro! Sou eu mesmo que lhe preciso ouvir, porque de mim você sabe quase tudo. E eu sei muito pouco de você, a não ser a sua vida nas termas. Pode falar, amor. Sou todo ouvidos.

A bela loura começou então a relatar toda a sua história, desde o início, e sem nada ocultar. A cada relato, Carlos aumentava o espanto. Nunca poderia supor que pudesse escutar o que Vivian Melbo lhe estava a narrar. E ela foi incisiva, assim como manifestou muita preocupação com o destino de seu amado. Carlos efetivamente não estava em condições de reclamar. E também sabia que, diante da realidade com que se iria defrontar, Vivian Melbo representava sua única esperança, sua tábua de salvação. E chegou a ficar de pé, num rasgo de espanto, quando ela lhe anunciou ser agente da CIA. 

           Olha, amor, você, para todos os efeitos, é também um aliado dos órgãos de segurança, um “agente da CIA. Todos pensam que você é um infiltrado no sistema organizado do narcotráfico. E Perez é o centro de todo o esquema, o principal elo de ligação do Brasil com a Colômbia. Há muitos anos que ele está sendo vigiado pela inteligência brasileira e pela CIA; na verdade, desde que chegou ao Brasil, ainda jovem. Tudo o que ele diz ser, como argentino, é absolutamente falso, exceto com relação ao narcotráfico, o que você já sabe. Mas ele não é peixe pequeno. É o maior de todos, é o tubarão do narcotráfico em águas brasileiras.

           Puxa, amor! Por isso é que eu nunca consegui saber onde ele mora. Nem mesmo sei o seu telefone particular. Os contatos comigo sempre partiram dele, e na hora em que ele determinava. Agora entendo melhor as coisas. E acho que ele deve ter matado o João Sharif...

           Ele, diretamente, não. Mas alguém mandado por ele, com certeza – completou Vivian Melbo.

           Bem Vivian, e agora? Que devo fazer? Estou perdido! Totalmente perdido!...

           Não vai ser fácil, amor. O fato de nos apaixonarmos também me poderá custar um alto preço. A CIA não costuma perdoar isso, não. O certo era eu já ter sido até assassinada, como fizeram ao João Sharif. A regra é a mesma, de ambos os lados. Sou também um arquivo. Só que tenho um amigo, e as informações que lhe passei, ao longo desses últimos anos, vêm-nos ajudando muito. Por isso, deram-nos uma chance de ouro. Vamos executar uma arriscada missão. É tudo ou nada!

E explicou a Carlos, em detalhes, cada passo que ele daria dali em diante. Primeiro, deveria ir ao velório de João Sharif, para apresentar suas condolências à família. E ali já começaria a observar as pessoas presentes e a ouvir os comentários sobre o assassinato. Por outro lado, aguardaria tranqüilamente o chamado de Perez, não demonstrando nada além de surpresa com a morte de João Sharif. De preferência, até especulando sobre alguma possibilidade de ele ter dado algum golpe em cliente da casa de câmbio, em épocas passadas, mas sem exagerar nas conclusões.

Deveria ouvir muito e falar pouco. Dali em diante pisaria em ovos... O local de encontro com Perez seria, como de hábito, as termas Orly. Curioso, o destino: sua mulher tornara-se uma estranha naquele ninho de prazer. Ele não, pois teria de manter as aparências e atuar como um verdadeiro agente secreto. Sua vida estava em jogo. Passou de cambista a serviço do narcotráfico, a espião a serviço da CIA. E a andar na corda bamba...

 

 S

 

 

O enterro de João Sharif não rendeu qualquer novidade que pesasse no contexto. Havia pouca gente e muitos herdeiros, e todos somente interessados no dinheiro do defunto. E Carlos, no mesmo pé em que chegou saiu, retornando ao seu apartamento. E o novo encontro com Perez não tardou. Naquela mesma noite Carlos recebeu o telefonema dele, marcando ambos um encontro nas termas. Seria na tarde seguinte. Este compromisso atrapalhou os planos imediatos do apavorado cambista, que imaginara trazer para sua casa, naquela mesma tarde, os documentos que mantinha em cofre no local de trabalho. Muitos ele já os guardara em sua algibeira doméstica, mas boa parte deixara lá mesmo na casa de câmbio, tanto para consulta como para demonstrar aos clientes as intrincadas transações das contas CC5, uma das artimanhas que Carlos utilizava para lavar dinheiro sujo, remetendo-o ao exterior. Era um arquivo e tanto...

Durante o dia, ele recolheu tudo quanto possuía: documentos altamente comprometedores de incontáveis personalidades e autoridades espalhadas pelo Brasil afora. Muitos deles se reportavam ainda aos tempos de João Sharif como titular da casa de câmbio. O cambista também guardara consigo outras anotações geradas de inconfidências de terceiros, todas certamente de interesse da CIA. Suas informações produziriam uma incomparável devassa na vida de muitos figurões. O que estava em jogo, porém, era a sua pele... E ele já estava cônscio de que não se iria encontrar com nenhum Luiz Henriquez, mas com o colombiano Alonso Perez, que, decerto, mandara assassinar João Sharif. Carlos esfriou como o gelo; começara a pisar em terreno minado, sabia disso; dali em diante, era tudo ou nada. E pensou em Vivian Melbo...

Ao cabo daquele dia de tensão, o cambista se preparou para outro momento de muita pressão psicológica. Não poderia de maneira nenhuma deixar transparecer preocupação em presença de Perez. Chegou antes dele nas termas Orly, sendo festivamente recepcionado. As meninas fizeram questão de lhe proporcionar o máximo de carinho e atenção. Perguntavam por Vivian Melbo com tal naturalidade que ele ficou deveras emocionado. Não imaginava que entre aquelas biscas houvesse tanta solidariedade e respeito. E não foram poucas as que disputaram o privilégio de trocar-lhe as roupas pelo roupão tradicional. De início, estranhou, posto que sua amada deixara-o mal acostumado. Mas ao final sentiu-se feliz, até se olvidando daquilo que enfrentaria a seguir...

Perez não demorou muito a pôr os pés no lugar. E foi logo ter com Carlos, que se recolhera à sauna a vapor, para descontrair. Perez chegou sério, porém amistoso, assim convidando o seu interlocutor a postarse num local mais discreto. Sentaram-se ambos, em divãs afastados dos demais, quando então o colombiano tomou a iniciativa do diálogo:

           E aí, caro amigo, como foi de viagem?

           Tudo bem, amigo. Aliás... tudo ótimo! – devolveu Carlos, demonstrando um sorriso de satisfação com a pergunta inicial.

           É, caro amigo, mas não está tudo bem por aqui, não. Durante sua ausência, muita coisa estranha ocorreu; e eu estou vendo a necessidade de lhe orientar em relação a alguns detalhes...

           Mas, que há de errado? – indagou Carlos, já imaginando que o assunto iria esquentar.

           Veja só, Carlos. Têm saído muitas notícias na imprensa. Você esteve fora, mas precisa se manter informado. Vou até mandar pra você alguns jornais das últimas semanas, pra você se atualizar. No nosso negócio interessa-nos saber até a cor da mosca, quanto mais o seu vôo... – falou sério o colombiano, deixando Carlos intrigado, e ao mesmo tempo animado; tudo indicava que ele conseguiria arrancar alguma boa informação do preocupado colombiano.

           Mas, meu amigo, fale-me um pouco mais claro. Você está me deixando nervoso; eu acabo de chegar de um passeio maravilhoso, com a Vivian; estou curtindo um especial momento em minha vida; mas você me está preocupando – respondeu Carlos, esticando o assunto.

           Nada disso, caro amigo. Não é para você ficar nervoso. É que eu estou um pouco tenso. Você sabe que sou muito bem informado, não sabe?

           Mas é lógico. Só lamento não poder compartilhar um pouco mais de sua vida. Você nunca me deu uma verdadeira chance de aproximação. Só tratamos de negócios e mais nada. Eu gostaria de gozar um pouco mais da sua confiança; afinal, são quase dois anos de convivência...

           Sem dúvida, Carlos! Você tem sido perfeito nos trabalhos. Por isso é que preciso alertá-lo sobre algumas coisas. Você certamente soube do João Sharif... Viu o que aconteceu com ele?...

           Puxa, Henriquez! Que morte estúpida! Não tenho idéia do que houve, mas acho que boa coisa ele não fez... — respondeu Carlos, em palavras medidas, como se estivesse em alerta máximo.

           Carlos, você se lembra daquele conselho que eu lhe dei sobre o silêncio? – indagou, com ar enigmático, o colombiano.

           Claro que me lembro! Não vai me dizer que o Sharif andou falando demais!?... Foi isso?

           Claro que foi! Ele passou informações sobre a organização a um agente da polícia federal. Acho que, no fundo, ele não gostou de ser afastado da casa de câmbio. Por isso é que estou preocupado. É preciso que você deixe ficar tudo muito bem arrumado, sem rastos de nada, está certo?

           Certíssimo, Henriquez! Não darei uma bobeada dessa, não. Eu sempre achei o Sharif muito boca aberta. Não é o meu caso. Tenho a boca trancada com chave e taramela. Comigo nunca ocorrerá um deslize que lhe deixe mal, pode ter certeza.

           Eu tenho, Carlos. Mas pode estar certo de que virão em cima de você; e você não pode deixar no caminho nada que comprometa as nossas transações. Eu me vou afastar por uns tempos. Na volta, faço logo contato com você.

           Tudo bem. Mas, por quanto tempo?

           Pouco tempo. Tenho de buscar umas instruções... Não pode ser por telefone. Quem sabe, não retorno com alguma promoção para você? – descontraiu-se Perez, deixando Carlos ainda mais ansioso.

           Meu amigo, como fico nessa história? Você é meu único contato. Aliás, nem sei como fazer para lhe falar numa emergência; e vai aqui uma reclamação de amigo: você nunca me deu o seu telefone, e muito menos visitou-me ou me permitiu alguma visita em sua casa. Não me leve a mal, mas acho que mereço do amigo um pouco mais de confiança. Aliás, quero-lhe comunicar que me casei com a Vivian Melbo durante a viagem...

           Oh! que beleza! Por que não falou logo?... Apesar de que, para mim, isso nunca foi novidade. Você está apaixonado por ela há muito tempo...Você tem razão, Carlos, não tenho sido um bom amigo. Mas consertarei isso hoje mesmo. Eu tenho algumas coisas para lhe mostrar; tenho também um extra para você; afinal, não lhe dei ainda o meu presente de casamento... Que loucura, casar em plena viagem! – exclamou Perez.

           Olha, Henriquez, vou dizer-lhe uma coisa: foi a melhor solução para mim. Eu só transava com ela mesmo; também, ela ficava aqui somente me esperando; só nos faltava decidir e decidimos. Estamos felizes, e mais agora, que você finalmente se abre um pouco mais comigo. Eu sempre me senti meio estorvo em sua vida!

           Não é nada disso, amigo. Eu cumpro fielmente as orientações que recebo. Mas agora, como terei de me ausentar, vou passar-lhe algumas tarefas extras. Estou autorizado a isso. Vamos fazer uma coisa: vamos sair logo daqui e continuar a conversa lá em casa.

           Tudo bem, amigo. Finalmente entrarei na casca do ovo. Eta parto difícil! — brincou Carlos, imaginando que sua vida de espião da CIA estava saindo melhor que a encomenda...

Dali seguiram com destino à Barra da Tijuca, direto ao apartamento de Perez. Foram em um só carro, deixando Carlos o seu para buscar mais tarde, não sem antes providenciar uma bela gorjeta ao guardador, ainda reforçada, como prêmio, pela lembrança que ele teve de indagar por Vivian Melbo... E chegaram naquele prédio luxuosíssimo, frente ao mar, uma cobertura tríplex maravilhosa, com decoração cinematográfica. Carlos, que se achava um ricaço, viu-se diante de sua insignificância financeira. Perez estava muitos anos-luz à sua frente. Também não era para menos: ele era o grande chefão do cartel de Medellin no Brasil. Disso Carlos agora já sabia...

           Carlos, a questão é a seguinte: estamos recebendo um revés violento. Há muitas operações da polícia federal em curso, e só acertando na mosca. Em alguns casos, não temos dúvida de que as informações saíram do Sharif; em outros, são provenientes de algum outro traidor, que está soltando a língua, em segredo, numa CPI em Brasília. E também está passando preciosas informações sobre a ponta da linha de produção e distribuição. Mas ainda não conseguimos descobrir quem está mudando de lado. Só sabemos que tem um filho da puta que passava informações para o Sharif, e ele as repassava aos seus contatos na área governamental. O Sharif fez um acordo qualquer com o governo, não sabemos com quem; mas esse não informa mais nada – completou um Perez agitado e ainda desconhecido de Carlos, que se fez de desentendido para recolher mais dados.

           Mas, Henriquez, como pode ser o Sharif? Ele só cuidava de transação financeira e de propina paga aos nomes que você determinava. É o que faço hoje. Agora, quem está preocupado sou eu...

           Que nada, Carlos! Você não sabe de nada! Tem alguém fazendo jogo duplo, e deve ter conseguido de Sharif alguns outros nomes. Você não duvide de que trabalhamos compartimentados. Ninguém conhece nada de ninguém, ninguém se conhece, esse é o jogo. O Sharif furou todo o esquema. Não podíamos perder tempo com ele. Agora, entra você. Precisamos que descubra quem é o espião. Por isso é que vou viajar, e tenho como certo que o nosso traidor tentará algum assédio sobre você, tentará extrair-lhe alguma informação preciosa. Quando isso ocorrer, você ligará pra mim, direto à Colômbia...

           Colômbia?... Não entendi essa Henriquez... Como Colômbia?... Você não vai para a Argentina?  –indagou Carlos, ele mesmo impressionado com a sua cara-de-pau.

           Não, Carlos! Vou abrir um segredo pra você: sou colombiano!... Não sou nenhum Luiz Henriquez e nem argentino. Meu nome é Alonso Perez, o resto é pura fachada, desde que cheguei ao Brasil! – completou o colombiano, demonstrando plena confiança em Carlos.

           Puxa! Nem sei o que digo... Como eu chamo você, daqui em diante?

           Luiz Henriquez. Em público, serei sempre Luiz Henriquez. Não se esqueça disso, está bem? – acrescentou o colombiano.

           Tudo bem, Pe... Luiz... Henr...

           Não Carlos! Aqui, na intimidade, você pode até me chamar de Perez; afinal, gosto do meu nome, e sinto falta de alguém dirigir-se a mim como existo no mundo; e aqui são poucas as pessoas, a não ser na Colômbia. Mas, publicamente, nem sonhar...

           Tudo certo, Henriquez. Fique tranqüilo. Só preciso saber com detalhes que devo fazer...

           Simples. Tome este número de telefone. Quando o traidor mostrar-lhe a cara, avise-me! Aliás, qualquer suspeita, qualquer situação diferente, avise-me imediatamente, está certo?

           Sem qualquer dúvida! Mas, você acha mesmo que a tal figura irá tentar comigo?

           Com certeza, irá. A pressão do outro lado é forte. O jogo é pesado! Se ele não informar o que querem, é defunto certo. Tanto faz o lado... o jogo é sujo mesmo – acrescentou Perez com uma convicção assustadora, deixando Carlos espantado. – Só agora ele percebia com clareza o buraco em que se metera...

           Amigo, estou assustado! O meu negócio sempre foi transação financeira; agora... estou entrando em outra seara, mais perigosa... Eu não contava com isso! – atalhou Carlos, realmente atemorizado.

           Ora, meu amigo, o negócio é bola de neve; depois que rola, não pára mais. Mas fique tranqüilo, que seu prêmio será mais alto do que você possa supor. Aliás, espere-me aí, que vou pegar seu presente... com uma condição: abra em casa, está bem? – completou Perez, sinalizando o fim da conversa. – E que conversa!...

Dito, saiu em direção ao interior da ampla cobertura, não demorando a retornar. Na mão, trazia uma valise de bom tamanho. Entregou-a a Carlos, insinuando, sorridente: “Aí está, meu amigo. Na volta, garanto-lhe que terá o dobro!” Carlos pegou a valise, pensando com os seus botões: “Será uma bomba?...” Pareceu que Perez adivinhara o seu pensamento: “Amigo, pode ir tranqüilo. Aí dentro não tem nenhuma bomba, não. Ou melhor, tem sim, mas uma que você irá simplesmente adorar!”, encerrou, deixando Carlos com um semblante de bestunto. Mas ele se recompôs rapidamente, devolvendo a brincadeira: “Que é isso, amigo! Bomba foi a que você deixou na minha cabeça!...”

Despediu-se e partiu como um tufão. Pegou um táxi e se dirigiu às termas, com o fim de apanhar o seu carro. Depois, foi para casa, ainda com os nervos em repelões. Nunca cogitara viver tantas emoções e tantos perigos em sua vida. E pensava seriamente na morte. Ela estava bem perto, rondando seus passos. E a salvação era Vivian Melbo, porque ele, em sã consciência, não conseguia mais raciocinar coisíssima nenhuma. Chegou ao apartamento ainda sobressaltado. Vivian Melbo imediatamente notou e correu a indagar:

           Que houve, amor? Você está uma pilha!

           Puxa, amor, nunca imaginei tanto risco! Vou contar tudo em detalhes. Acho que seu chefe vai ter que dar uma ajuda. Se não, estou frito!...

           Que mala é essa? – perguntou Vivian Melbo, com Carlos tão agitado que até se esquecera do presente.

           É presente do Perez; agora sei quem ele é, e dito por ele mesmo; não sei do que se trata, mas vamos ver logo.

E abriu a valise, deparando-se com muitas notas, todas arrumadas em maços iguais: um milhão de dólares!

      Nossa! Que presente! – exclamou Vivian Melbo, diante da fortuna que rutilava em suas lindas pupilas.

      Cruzes!... Acho que a tarefa que recebi é realmente valiosa – completou Carlos, pedindo à mulher para se deixar ficar na poltrona a ouvi-lo com calma. – E contou-lhe cada detalhe do impressionante diálogo que mantivera com Perez...

      Carlos, e os documentos? – indagou Vivian Melbo, repentinamente.

      Ih, é mesmo! Esqueci-os na mala do carro! Vou até lá buscá-los...

E ficaram planejando o próximo passo, já sabendo que nada mais fariam sem a orientação segura de Geoffrey Foster, o amigo da CIA...

No dia seguinte, enquanto Carlos providenciava a remessa de seu presente ao exterior, – tarefa simples, – Vivian Melbo dirigia-se ao consulado norte-americano. Sua condição de dupla nacionalidade permitia-lhe a presença naquele lugar sem despertar suspeitas. E ela foi logo repassar a Foster a farta documentação criteriosamente organizada pelo cambista, além de informar ao agente da CIA sobre os últimos e inusitados acontecimentos. Só não falou sobre o presente...

           Meu amigo, e agora? Como o Carlos sairá dessa enrascada? – indagou, de pronto, a nervosa agente classe C.

           Fique tranqüila, querida. Isto é bem mais fácil do que você imagina. Temos um problema, e lhe darei uma bela solução – intrigou o experimentado agente da CIA.

           Como assim, Foster? Não entendi ainda nada – retrucou Vivian .

           Vou explicar, mas primeiro tome um café. Você está muito tensa. Não há necessidade disso... Ou você não confia no amigo?

           É lógico que confio! E como confio! Se não fosse você em minha vida, eu ainda estaria por aí como garota de programa. Talvez até morta, de doença ou outra praga qualquer desta vida miserável! – exclamou, emocionada.

           Tudo bem, querida. O material que você trouxe, eu o vejo depois. Agora explicarei o que o Carlos terá de fazer; mas ele deve esperar uma semana para valorizar o trabalho. Veja bem, o homem que o Alonso Perez quer é Libernato Garcez. É um colombiano. Por isso é que Perez está sem destino. Nunca desconfiaria primeiro de um patrício. Esse colombiano é segundo escalão em relação a Perez. Está no Brasil como um pacato comerciante espanhol, com o nome falso de Andrés Luiz. É ele quem passa informações à polícia federal, a um delegado cujo nome não lhe interessa saber. Mantém-se solto por isso...

           Tudo bem, Foster. Mas como Carlos poderá passar os dados para o colombiano? Assim, direto, ele não tem condições...

           Calma, minha querida! Deixe-me concluir: tenho aqui para você um documento precioso. São duas faturas de um hotel na Argentina, uma do João Sharif e outra do Andrés Luiz... ou Libernato Garcez. Lá é que eles iniciaram suas transações. O Perez ficará uma besta quando olhar esse documento. Carlos não precisará falar nada. Apenas lhe irá entregar as faturas, dizendo que as encontrou numa gaveta do João Sharif, na casa de câmbio... entendeu agora? – completou Foster, já com um ar brincalhão.

           Puxa, Foster! E eu aqui imaginando bobagens, achando que você não teria nenhuma solução; é que eu esqueço quem você é; sou uma boba!...

           Veja só, Vivian; Carlos deve telefonar ao Perez e dizer-lhe que somente poderá esclarecer tudo aqui, à vista das faturas. Ele não poderá adiantar nenhuma conclusão ao colombiano, senão ele desconfiará. Entendeu bem isto? – completou, sério, o agente da CIA.  – Sim! sim! Entendi! Pode deixar.

           Outra coisa, Vivian; estou preparando uma fachada, – passaportes e outros documentos, – para você e Carlos. Não demorará o dia em que vocês terão de deixar o Brasil para sempre. Serão dois “italianos” saindo para nunca mais voltar. Receberão as passagens e as orientações em hora certa. A partir daí, minha amiga, você terá completado sua missão com as duas pátrias. Você merece! – encerrou Foster, novamente explicando cada detalhe da orientação a ser repassada a Carlos.

Vivian saiu como se estivesse pisando em nuvens. Entendera o recado, e muito claramente: teria de vender tudo no Brasil e transferir o resultado ao exterior. E, chegada a hora, viajaria com Carlos, ambos apenas com a roupa do corpo. Isso não seria problema para o amado. Afinal, estava no contexto de sua especialidade. “Graças! graças!”, exclamava Vivian Melbo, ansiosa para se encontrar com Carlos. Partiu para o apartamento dele, e, de caminho, digitou o número da casa de câmbio no seu celular e apertou a tecla verde. Carlos chegou junto com ela, rápido como um trovão. E a ouviu atentamente... Duas semanas depois:

           Alô!

           De onde fala! É o Perez?

           Quem deseja?

           Um amigo, Carlos!

           Um momento!

           Olá, meu amigo, como vai? – cumprimentou Perez.

           Tudo bem. Tenho um assunto para quando você retornar; mas não lhe posso comentar por telefone, e não sei se é importante...

           Tem certeza? Estou pensando voltar na semana que vem; mas, se for importante, parto de volta agora mesmo! – completou Perez, já demonstrando ansiedade.

           Não sei... não sei... é um documento que eu achei, com um nome estranho; não sei se devo falar por telefone...

           Não, não fale! Amanhã estarei aí.. Falo com você pessoalmente; um abraço!

           Outro! Estarei esperando!

Assunto encerrado. Cabia somente aguardar a chegada do colombiano. Enquanto isso, Carlos foi ultimar a tarefa que iniciara logo no dia da visita de Vivian Melbo ao consulado: desfazer-se de todos os seus bens sem deixar rastos. “Isso me será absolutamente fácil! Também não preciso me preocupar com a minha família, pois sempre guardei segredo desse meu lado pessoal”, pensava o cambista, até um pouco constrangido, posto que nem para Vivian Melbo comentara sobre seus parentes. “Também, não tive tempo para tal alvitre”, especulava.

Dois dias depois, o cambista recebeu o telefonema de Perez, já chegado ao Brasil e em incontida curiosidade. Marcaram nas termas Orly, onde se encontraram no fim da tarde. Perez nunca alterava sua cautelosa rotina, por medida de segurança. Em lá chegando, pela primeira vez Carlos se surpreendeu em verificar que o colombiano já se deixava estar aguardando-o. E foi direto ao assunto:

           Meu caro amigo, estou ansioso para ver o que você conseguiu...

           Sim, amigo. É que encontrei umas faturas de hotel numa gaveta do Sharif. Eu ainda não as havia observado. Achei curioso, porque ele fez uma viajem à Argentina sem que eu soubesse...

           Ué?... eu também não soube, completou Perez.

           Exato! E, junto com a fatura, em seu nome, há uma outra, em nome de Andrés Luiz. Você o conhece?

           Quê?! Deixa eu ver! – assustou-se Perez.

           Aqui está. Eu não entendi nada, mas foi a única coisa que aconteceu de diferente até então.

           Você é que pensa, meu amigo. Aconteceu tudo; tudo que eu precisava. Olha só, Carlos, eu até lhe proporcionarei um presente em dobro daquele que lhe dei pelo casamento. E pode tocar de modo normal a sua vida. Esqueça-se de tudo por um tempo, está bem? — colocou gravemente o colombiano.

           Está certo, Perez. Se você não me quer falar sobre o tema não há problema. Prefiro também não saber. Estou satisfeito em lhe proporcionar algo de bom...

           De bom, não! De ótimo! – respondeu Perez, com um sorriso nada interessante no canto da boca: um sorriso assassino...

Mais dois dias, apenas dois dias se transcorreram, para que Carlos lesse nos jornais: “Executado a tiros um comerciante espanhol no sinal luminoso, tudo indicando assalto...” É... o calor dos acontecimentos estava chegando ao ponto de efervescência, como se assim fosse uma rajada de balas cuspidas de armas assassinas... E, lá no consulado norte-americano, o agente da CIA sorria de orelha a orelha: há muito o espanhol Andrés Luiz, – ou o colombiano Libernato Garcez, – deixara de interessar à CIA. “Já morreu tarde!”, exclamou Foster, em pensamento.

O agente da CIA já analisara os documentos produzidos por Carlos. E simplesmente se impressionara com a qualidade e a quantidade de informações. Chegou a ficar ansioso, apesar de toda a sua experiência. Tinha em mãos uma verdadeira bomba a repassar cópia aos serviços de inteligência brasileiros. Pelo que sabia das informações acumuladas, agora acrescidas de novos dados providenciados por Carlos, nada mais seria necessário para, finalmente, ser desencadeada a ação que vinha há meses sendo minuciosamente planejada pelo governo brasileiro e países amigos. Tudo, é óbvio, gerenciado pela poderosa CIA... 

Foster chamou a secretária e determinou-lhe que ligasse para a Abin, em Brasília... No dia seguinte, três “médicos”, vestidos em estilo, compareceram ao consulado, com o fim de realizar uns exames de rotina num alto funcionário daquele inacessível lugar. Eram especialistas... mas em outra área bem diferente: dois coronéis, – um do Exército, outro da Aeronáutica, – e um Capitão-de-Mar-e-Guerra, – todos agentes de altíssimo nível da Abin. E passaram o dia no consulado “examinando o doente”; depois saíram, com os documentos, direto ao Aeroporto do Galeão, onde um jato da FAB os aguardava. Uma hora e meia de viagem e desceram em Brasília, indo direto à Casa Militar da Presidência, cientes de que no dia seguinte haveria muito trabalho. Dali, foram então ao Forte Apache... Não faltava mais nada para complementar o complexo planejamento de uma operação que abalaria sobremaneira o tráfico de drogas no Brasil e no mundo: a OPERAÇÃO ARABESCO.

 


 

CAPÍTULOV - O PLANEJAMENTO

 

 

 INÍCIO DO ANO 2000...

 

 

As Forças Armadas desde há muito já traçara a fase estratégica de sua participação no combate frontal ao narcotráfico. Em caráter ultra-secreto, o assunto fora colocado à apreciação presidencial como um sério óbice à segurança nacional e à democracia. A ineficiência dos organismos de segurança pública (federais e estaduais) já tornara evidente a esmagadora vitória do narcotráfico em todo o território brasileiro. Na verdade, tudo estava uma bagunça generalizada, necessitando, pois, de uma ação integrada e comandada a partir do próprio Presidente da República. 

As pressões externas se haviam ampliado deveras, especialmente em razão de reiteradas matérias jornalísticas publicadas no país, todas demonstrando concretamente que a imprensa e meia dúzia de deputados federais investigavam melhor que todos os organismos oficiais juntos: uma vergonha nacional. Diante da grave situação, o mandatário tomou as primeiras medidas políticas, ampliando as ações da Abin e da Senad, ambas subordinadas à Casa Militar da Presidência. 

Desta maneira, o Presidente da República foi avocando para si a responsabilidade de comandar a virada, autorizando, em nível ainda ultra-secreto, a deflagração da fase tática do plano, a partir da promulgação da duríssima Lei de Tóxicos e da construção de presídios federais, além da criação do fundo especial contra o narcotráfico. Determinou, então, aos Ministros da Defesa, da Justiça e da Casa Militar, as demais articulações institucionais. Iniciou-se, assim, a parte mais visível da fase tática. Nesta, montou-se no quartelgeneral do Exército, em Forte Apache, Brasília, o mais moderno CENTRO DE COMUNICAÇÕES E OPERAÇÕES DE INTELIGÊNCIA já concebido pelo sistema governamental, com o apoio financeiro e operacional da CIA. Com essa importante medida, iniciaram-se as ações de inteligência e de contra-inteligência, num perfeito sincronismo entre todos os organismos de informações, de todos os níveis governamentais, tanto nacionais quanto internacionais, e em intercâmbio permanente. O cruzamento dos dados permitiram o que faltava até então: a homeóstase do sistema, e sua evolução rumo aos objetivos traçados, algo impossível sem aqueles meios tecnológicos avançados.

Nesta fase, todos os levantamentos e investigações correram em caráter confidencial, reservado, secreto ou ultra-secreto, dependendo do grau de importância e do sigilo exigido às ações de inteligência e de contrainteligência. Tudo feito a contento, fechou-se o ano de 2000 com um tempo necessário ao desencadeamento da fase operacional, o esperado confronto com a base e a cúpula do tráfico nacional e internacional de drogas. Iniciou-se esta última fase a partir de agosto de 2000, com todos os serviços de inteligência e contrainteligência voltados contra a mais poderosa modalidade de crime já vista na humanidade: o narcotráfico.

Tudo previsto, inclusive as reações políticas daqueles que passaram a protestar contra a “ingerência” das Forças Armadas em assuntos civis, alguns inocentemente, outros não. Não obstante as pressões, a ordem presidencial foi clara. Ele se dispôs a agüentar o tranco. O Brasil em primeiro lugar!

10 DE AGOSTO, QUINTA-FEIRA... Reunião ultra-secreta, no QG do Exército, contando com a presença dos Ministros da Defesa, da Justiça e da Casa Militar, além dos titulares da Abin e da Senad. Igualmente presentes os chefes militares das três armas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Começa a exposição do plano operacional por equipe mista dos órgãos de inteligência, passo a passo, a partir de diagnóstico dos principais focos criminosos a serem combatidos.

25 DE AGOSTO, DIA DO SOLDADO... O planejamento é apresentado ao mandatário máximo do país, que o assina sem titubear. O próximo passo seria a ordem presidencial, a ser assinada dias antes da deflagração da OPERAÇÃO ARABESCO. Fechava-se, destarte, o ciclo tático do planejamento. Daí em diante as ações somente possuiriam um objetivo: cumprir a ordem operacional presidencial a qualquer preço.

 

PLANO OPERACIONAL CONTRA O NARCOTRÁFICO

 

 

CLASSIFICAÇÃO : ULTRA-SECRETO

 

 

Data: 25 de agosto de 2000.

 

 

Autorizo______________________________________

                                 Presidente da República

 

 

 

A – Objetivos:

 

1.  Global:

 

Erradicação do narcotráfico e dos focos de guerrilha em todo o território brasileiro, em operação simultânea das forças governamentais da União e dos Estados-membros.

 

2.  Específicos:

 

a)  Desencadeamento de operações militares (ações de comandos especiais) contra alvos criminosos,

cujo poder de reação estão a exigir o emprego de aparato militar;

 

b)  Articulação de operações conjuntas e simultâneas, – de natureza policial e mista (policial e militar), – contra alvos que determinem ações tipicamente policiais, e outros cujo poder de fogo exijam aparato bélico mais apropriado.

 

B – Situação:

 

Informações confirmadas por vasta prova dão conta de que o país está à beira de uma instabilidade institucional muito além da capacidade instrumental das polícias estaduais (civis e militares) e da polícia federal. Relevam-se as Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, especialmente a Amazônia e as fronteiras com a Colômbia, o Peru e a Bolívia. Em diversos locais restritos verifica-se a presença de guerrilheiros e traficantes atuando em comum acordo, ambos ligados ao plantio da coca, da maconha e da papoula, além do processamento delas todas e mais da heroína. Há regiões perigosamente próximas de um colapso institucional, indicando a necessidade de medidas extremas para a retomada da normalidade legal. Entre alguns dos muitos fatos já confirmados, salientam-se:

 1. Índios da Amazônia utilizados no transporte de insumos fabricados no país (ácido clorídrico, ácido sulfúrico e permanganato de potássio) para os laboratórios de refino de cocaína na Colômbia. Através dos rios Javari e Japurá, os índios brasileiros estão conduzindo toneladas de insumos, transformando os rios em verdadeiras narcovias fluviais. Os traficantes colombianos estão usando os indígenas para transportar insumos ainda pelo rio Solimões, até entrar na Colômbia pelo rio Caquetá, além de outras rotas alternativas (Rio Içá, que no país vizinho se denomina Putomayo). Nas margens dos rios Solimões, Javari, Japurá, Içá, Caquetá e Putomayo, muitas fotos aéreas do serviço de inteligência da Aeronáutica comprovam a existência de diversos laboratórios de refino na fronteira, do lado da Colômbia, em ligação com outros, em funcionamento no próprio território brasileiro. Há muitos traficantes armados e militarmente organizados, podendo também ser guerrilheiros da FARC.

 

2.      Grave comprometimento da polícia e do judiciário com o narcotráfico, na Amazônia e nas Regiões Centro-Oeste e Sul, promovendo a libertação de inúmeros traficantes brasileiros e colombianos mediante corrupção. Todos já identificados e com provas suficientes.

 

3.      Rede organizada de aviação clandestina controlada por um casal de traficantes já presos. O levantamento da fortuna acumulada por ambos, – dentro e fora do Brasil, – é de valor assustador. Tudo já investigado e com provas contundentes de que ambos são integrantes de perigosa quadrilha de ladrões de aeronaves civis, com fortes ramificações no resto do país, especialmente em São Paulo. Inúmeros aeroportos clandestinos já identificados, com fotos aéreas e outras provas necessárias contra muitos criminosos da quadrilha, igualmente singularizados.

 

4.      Impressionante esquema de desvio de armas, carregadores e munição das Forças Armadas, milhares já em mãos de traficantes de favelas nas principais cidades brasileiras. Contrabando volumoso de material bélico estrangeiro, via aeroportos e portos clandestinos e oficiais, com o comprovado envolvimento de muitos agentes da polícia federal e da alfândega. Todos já identificados em todo o território nacional; e com provas suficientes.

 

5.      Constatação de remessa ilegal de bilhões de dólares para o exterior, via Paraguai, através de “laranjas” e mediante o uso ilegal das famosas contas “CC5”, tudo com a conivência de banqueiros, gerentes de instituições financeiras, além de inúmeras casas de câmbio espalhadas pelo país. Os criminosos já estão identificados e muitas provas colhidas. Os números são assustadores. Dão notícia de que nos últimos três anos saíram ilegalmente do país mais de 250 bilhões de dólares, em “contas laranjas”, somente a partir das contas “CC5”, criadas pelo Banco Central para remessa de dólares ao exterior. 

 

6.      Confirmadas, com provas, as informações repassadas por um dos maiores traficantes brasileiros preso: esquema de tráfico nas fronteiras brasileiras com o Suriname, a Guiana e a Venezuela, com centenas de traficantes já identificados e com provas de serem ligados aos cartéis de Cali, de Medellin e do Suriname, além de outros vinculados às “firmas” peruanas. Também confirmada a presença de mafiosos russos em território nacional, e em permanente conluio com os narcotraficantes colombianos.

 7. Produção, em larga escala, de identidades e passaportes falsos. Fantástico arabesco de criminosos com falsas identidades, muitos deles mantendo fachadas de prósperos comerciantes. Já identificados milhares desses bandidos em todo o território brasileiro.

 

8.      Envolvimento de agentes do DEA no tráfico internacional de drogas, via Brasil, ligando-se inclusive suas ações ao transporte de grande quantidade de cocaína para a Europa, por aviões militares daqui e de outros países. 

 

9.      Tráfico de drogas em larga escala por navios, muitos já identificados, assim como os esquemas de datas e horários de embarque e desembarque. Carregamentos de madeira têm sido utilizados para ocultar cocaína no interior das toras.

 

10.   Uso de lanchas de luxo no transporte marítimo de drogas na costa brasileira. Criminosos já identificados e reunidas provas suficientes.

 

11.   Sistema de distribuição de propinas, por traficantes, para inúmeras autoridades públicas em todo o Brasil, todas já identificadas, assim como suas contas no exterior já estão apuradas.

 

12.   Grande esquema de roubo de carros de luxo, especialmente importados, para troca por drogas nas fronteiras transitáveis. Inúmeros criminosos já identificados, e com provas suficientes para incriminá-los.

 

13.   Plantação em larga escala de coca, maconha e papoula no denominado “Polígono da Maconha”, e ainda na Amazônia e em outras regiões do país, tudo comprovado por fotos aéreas e terrestres, além da identificação de milhares de plantadores e de traficantes.

 

14.   Circulando e atuando no território brasileiro muitos laboratórios de refino montados por traficantes estrangeiros (colombianos, peruanos e bolivianos) em carroçarias de caminhões, de modo a atender à demanda de consumo local e impedir sua localização por autoridades policiais. Em quase todos, porém, a inteligência brasileira já instalou dispositivos que permitem rastreamento por satélite.

 

15.   Detectado, na mesma rota internacional do narcotráfico, um intenso e crescente comércio ilegal de aves e de outros pequenos mamíferos, especialmente nas fronteiras do Brasil com o Paraguai e a Bolívia, alcançando este descaminho mais de 50 milhões de animais silvestres e movimentando cerca de dois bilhões de dólares por ano.

 

C – Forças Amigas:

 

1.  Governamentais:

 

1.1  Exército, Marinha e Aeronáutica;

 

1.2  Justiça e Ministério Público federais;  

1.3  Polícia federal;

 

1.4  Receita Federal;  

1.5  Justiça e Ministério Público estaduais;

1.6  Polícias Militares estaduais; 

 

1.7  Polícias Civis estaduais;  

1.8  FUNAI;

 

1.9  IBAMA;

 

1.10               Demais organismos governamentais (União, Estados e Municípios).

 

2.  Não-governamentais:

 

2.1  Instituições Religiosas

 

2.2  Outras instituições envolvidas em campanhas contra drogas.

 

3.  Forças Amigas internacionais:

 

3.1  países aliados...

 

D  – Forças inimigas: 

 

Representadas por criminosos e colaboradores de atividades ilegais.

 

E  – Meios materiais e humanos:

 

1.      Todo o efetivo disponível e necessário das forças amigas, alcançando cada recanto do território nacional.

 

2.      Todos os recursos materiais e tecnológicos disponíveis.

 

3.      Ajuda financeira internacional, a ser acrescida ao fundo especial de combate ao narcotráfico, conforme entendimentos governamentais já mantidos, no valor de U$ 850.000.000,00 (oitocentos e cinqüenta milhões de dólares).  

F   – Suporte legal e recolhimento de aprisionados:

 

Constituição da República Federativa do Brasil, Lei de Tóxicos e demais Leis Penais. Recolhimento de aprisionados, de acordo com a legislação vigente no país, nos novos presídios a serem inaugurados em novembro do corrente, em vista do cronograma previamente fixado na fase estratégica.

 

 

 

 

G  – Desenvolvimento das ações:

 

Diante do quadro de gravidade, e da possibilidade concreta de sua ampliação no espaço territorial brasileiro, o desenvolvimento das ações será simultâneo e em todo o território nacional. Em regiões restritas, dependendo do tipo de ação a ser desencadeada, poderá ser sugerido ao Ex.mo Sr. Presidente da República a decretação do Estado de Defesa, nos termos do Art. 136 da Constituição Federal.

 

1.  Ações policiais civis, policiais-militares e militares: 

 

1.1            Em cada grande cidade brasileira haverá a concentração de aparato militar e policial pronto para ações imediatas e fiscalizadas pelo Ministério Público e pela Justiça. Cumprir-se-ão Mandados de Busca e Apreensão e de Prisão, num total aproximado de 12.000 (doze mil), todos podendo ser previamente expedidos com base em provas ou indícios veementes, conforme decisão judicial. Esse número poderá ser ampliado até a data do desencadeamento das operações e também posteriormente.

 

1.2            Dossiês individuais, com fotos, documentos e outras provas minuciosas, estão sendo aprontados, para entrega prévia aos promotores de justiça e aos juízes federais e estaduais.

 

1.3            A partir da véspera do desencadeamento das ações, haverá a manutenção de juízes e promotores de justiça, em plantão permanente, nas zonas de concentração dos efetivos operacionais, com o fim de entregar os mandados previamente elaborados e outros, conforme o desenrolar das primeiras prisões e seus conseqüentes desdobramentos.

 

2.  Ações militares (contraguerrilha):

 

Ação conjunta e sistemática das Forças Armadas no combate aos focos guerrilheiros, em regiões já localizadas e a serem determinadas como zonas militares de combate (zonas vermelhas), a partir de ordem judicial requisitada pelo Ministério Público da União. Áreas em Estado de Defesa. Possibilidade de confrontos mortais.  

H – Esquema de mobilização das forças amigas:

 

1.      Serão organizados seminários e reuniões em Brasília, desenvolvendo-se a abertura das informações, gradativamente, da cúpula para a base, ainda em nível ultra-secreto. Sugestão de data e assuntos a serem discutidos como “fachada”, de modo a instituir um blefe em relação ao inevitável assédio da imprensa:

 

1.1 – Seminário de três dias, em setembro, com a presença de todos os desembargadores presidentes de Tribunais de Justiça e Procuradores Gerais dos Ministérios Públicos federal e estaduais. Local: Auditório do Ministério da Justiça.

 

a)               Temas de fachada: “extinção da Justiça Militar” e criação de “Justiça Especial de Combate ao Narcotráfico”;

 

b)              Caráter secreto do seminário, com abertura feita pelos Ministros da Justiça e da Defesa, precedendo-

se às informações a serem repassadas por agentes especializados da Abin e da Senad. Exposição detalhada do plano operacional a ser desencadeado;

 

c)               Indicação, por cada autoridade máxima, de cinco juízes e cinco promotores de justiça, com vistas à

criação dos grupos de decisão indispensáveis ao desencadeamento das operações;

 

d)              Visita dos desembargadores ao Forte Apache, seguida de almoço e permanência por toda a tarde do

terceiro dia.

 

1.2  Reunião secreta, no QG do Exército, em setembro, com a presença de todos os comandantes militares regionais das três armas, do superintendente da polícia federal, além de todos os secretários de segurança pública e comandantes das polícias militares estaduais. Exposição detalhada do planejamento e do “modus operandi” de cada órgão militar e civil participante.

 

1.3  Reunião, em outubro, do superintendente da polícia federal com as chefias regionais, para exposição do planejamento e a especificação das ações a serem desencadeadas. Caráter secreto indispensável.

 

1.4  Seminário secreto, de duas semanas, no Auditório do Ministério da Justiça, em janeiro de 2001, de 9 às 18h, com os grupos de juízes, promotores e procuradores de justiça federais e estaduais. Detalhamento do plano operacional e orientação sobre os procedimentos seguintes, com vistas à eclosão simultânea das operações em todo o território nacional.

 

a) Temas de fachada: “Extinção da Justiça Militar” e criação de “Justiça Especial de Combate ao Narcotráfico”.

 

I    – Contrapropaganda:

 

É fundamental que a imprensa esteja absolutamente desinformada. Ninguém poderá dar entrevistas, devendo ser considerada falta grave no âmbito de cada instituição participante o descumprimento desta ordem. Todos os documentos serão distribuídos com a tarja de ultra-secreto, com os devidos esclarecimentos sobre a Lei de Salvaguarda de Assuntos Sigilosos. Interessa que a imprensa especule uma crise política. Quanto menos informações tiver a imprensa, mais boatos surgirão, distraindo a atenção da opinião pública e dos políticos para assuntos diversos. Há entre os políticos forças amigas, porém suas características não condizem com segredo. É importante que eles permaneçam desavisados e ocupando os espaços da mídia. Muitos boatos serão lançados com o fim de reforçar as especulações de uma crise entre o poder civil e o poder militar.

 

J  – A singularização dos criminosos e a distribuição das provas:

 

1.      Em complemento ao já explicitado, os juízes e promotores designados receberão, em tempo hábil, todo o material probatório contra os envolvidos no narcotráfico. Para cada um será elaborado um detalhado dossiê, formando pacotes individualizados, e que lhes serão entregues por agentes de inteligência nos próprios Estados, sem chamar a atenção. Daí, tomarão as medidas legais.

2.      Em data a ser confirmada, após a autorização presidencial, os juízes e promotores receberão instruções ultra-secretas indicando os locais e a data/hora em que se deverão apresentar, todos já munidos dos respectivos Mandados de Busca e Apreensão e de Prisão. Para garantir segredo absoluto, esses locais serão restritos aos quartéis do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em cada localidade considerada. 

 

3.      As autoridades da Justiça e do Ministério Público permanecerão de plantão nas primeiras quarenta e oito horas, com a finalidade de emitir ordens legais contra novos suspeitos ou criminosos eventualmente não cadastrados. O prazo de permanência poderá ser estendido, caso a situação exija.

 

L   – Tratamento diferenciado aos índios:

 

Em princípio, serão todos recolhidos, todavia em locais separados, de modo que cada caso seja avaliado pela Justiça, com o apoio da FUNAI, admitindo-se a tentativa de reintegração dos índios às respectivas tribos, através de pessoal especializado. Todas as informações sobre plantio de matéria prima, aeroportos clandestinos e rotas fluviais na Amazônia serão levantadas mediante interrogatórios por parte da Justiça, respeitados os direitos constitucionais dos indígenas.

 

M  – Indústrias de Produtos Químicos:

 

Muitas já identificadas como fornecedoras dos insumos destinados ao refino da cocaína, com fortes indícios de conivência criminosa de vendedores atacadistas e industriais. A respeito desta ação específica, após as primeiras horas da operação será acionada a receita federal para uma devassa fiscal nas empresas, em complemento às medidas policiais.

 

N  – A autorização da operação:

 

Competirá ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República emitir a ordem final, constando sua assinatura e a determinação do dia da ação operacional, seguindo sugestão dos Excelentíssimos Senhores Ministros da Justiça e da Defesa, os quais levarão ao mandatário máximo do país o correspondente documento dessa histórica decisão governamental. Isto ocorrerá no mínimo uma semana antes do desencadeamento da ação, depois de tramitados todos os dossiês até seus destinos predeterminados, e de acordo com este plano. 

 

O  – O Estado de Defesa:

 

Em sendo indispensável, poderá ser decretado na véspera do dia exato da ação, delimitados os seus efeitos a locais restritos, de modo que se cumpra, sem prejuízo do segredo, os ditames constitucionais, entre os quais a comunicação ao Congresso Nacional. Durará, em princípio, apenas 48 horas.

 

P   – Divulgação dos resultados:

 

1.      Após vinte e quatro horas haverá um pronunciamento do Senhor Presidente da República à nação, em cadeia nacional, esclarecendo, finalmente, sobre a operação.

 

2.      Somente o Senhor Ministro da Justiça fornecerá informações à imprensa, para evitar transtornos e vazamentos de algum dado ainda considerado secreto.

 

Q – Denominação da operação:  

 

 

 

 

 

 

                                                               OPERAÇÃO ARABESCO

ORDEM PRESIDENCIAL

 

 

 

 

 

 

 

 

CLASSIFICAÇÃO : ULTRA-SECRETO

 

 

 

 

 

 

OPERAÇÃO ARABESCO

 

 

 

 

 

DEFLAGRO, em todo o território nacional, o presente plano operacional de combate ao narcotráfico, nos termos já autorizados em 25 de agosto de 2000.

 

 

 

 

 

Palácio da Alvorada, 12 de janeiro do ano 2001.

 

 

 

 

 

_______________________________________

 Presidente da República

 


 

CAPÍTULO VI - A CIA NUNCA ABANDONA SEUS FILHOS...

 

 

 

Carlos e Vivian Melbo, ambos já com as novas identidades de “italianos”, desembarcam em Paris, no aeroporto internacional Charles De Gaulle. Desembaraçam-se sem dificuldades na aduana e se encaminham à saída. São polidamente interpelados por um elegante cidadão, em perfeito inglês, que vai traduzido:

           Com licença, cavalheiro; desculpe-me, senhora. Sou amigo de Geoffrey Foster, e trago um envelope endereçado ao casal, a seu pedido.

Carlos e Vivian Melbo fingem-se pasmados por alguns segundos e finalmente recebem o volumoso  envelope, em tamanho de ofício, agradecendo ao distinto cavalheiro, sem qualquer intenção de lhe perguntar coisa nenhuma. Não precisavam: sabiam que o que fosse estaria muito bem explicado por Foster. Também não havia qualquer necessidade de inferir que aquele cavalheiro era um agente da CIA...

           Muito obrigado pela gentileza, prezado amigo! – respondeu Carlos, mantendo um sorriso simpático, no que foi acompanhado por um divertido sorriso de sua acompanhante, até ver desaparecer o portador.

Ansiosos, ambos procuraram um canto reservado, no hall do aeroporto; sentaram-se e foram direto ao envelope; abriram-no rapidamente e constataram o conteúdo: um meticuloso relatório orientando alguns procedimentos futuros: códigos de contatos a serem utilizados de quando em quando, e recomendação sobre os seus passos seguintes, a partir da chegada a Paris. 

Tudo estava acertado: um carro de luxo aguardava-os no estacionamento do aeroporto; as chaves e os documentos em nome do “italiano” Carlos compunham aquela algibeira de surpresas; também o endereço de uma bela residência nos arredores de Paris, tudo já em nome do casal. E mais uma gorda conta bancária (vinte milhões de dólares) na principal Agência do Citibank daquela cidade. 

Acrescido tudo isso da recomendação para que Carlos concentrasse todas as suas receitas bancárias naquela mesma conta do Citibank. E se surpreenderam em notar que todas as contas já estavam listadas pela CIA, uma a uma, inclusive aquele “presente de casamento” de US$ 1.000.000,00 (um milhão de dólares) e mais o dobro desta quantia (pela informação sobre Andrés Luiz), ambos doados por Perez. E a explicação: a partir daí, nada mais lhes existiria em relação ao passado. Seria apenas uma casal de milionários “italianos”. Só tiveram certeza de uma coisa: estavam perdoados, tudo ficara para trás, menos a CIA, que deu linha em suas vidas, mas segurou uma das pontas...

É possível que neste ponto o leitor estranhe que o casal de criminosos tenha recebido o prêmio da impunidade e o aval da CIA para gozar a vida e os milhões de dólares que receberam do narcotráfico. Mas não é para se estranhar coisíssima nenhuma, pois, no mundo da espionagem, a noção de crime perde totalmente o seu valor, ficando apenas a idéia de que os fins justificam todos os meios, inclusive os que sejam formalmente considerados crimes. Não importa à espionagem tal situação, que se traduz num mero detalhe operacional. Daí o prêmio ao casal, que poderia descumprir todas as leis do mundo, menos afrontar os interesses da CIA. E isto eles não fizeram...

 

 S

 

JUNHO DE 2001. O Presidente da República inaugura, nos arredores de Goiânia, o CENTRO INTEGRADO DE

TREINAMENTO DE SEGURANÇA PÚBLICA (CITSP) em área considerada militar e altamente secreta. Subordina-o diretamente à Abin. Assume sua direção um general-de-exército, em meio a protestos da oposição. Mas o povo brasileiro aprova inteiramente a medida presidencial, calando a boca dos mais açodados contrários. E, no bojo da aprovação popular, o mandatário máximo do país anuncia a reformulação estrutural do sistema de segurança pública, a partir da efetiva criação da Guarda Nacional, como um braço armado do Exército Brasileiro. E informa, em superficiais palavras, que esta força intermediária de segurança, com atividades completas de polícia administrativa e judiciária, cuidaria das entradas e saídas de todo o território nacional, cobrindo portos, aeroportos e fronteiras terrestres, além de cuidar de populações atingidas por calamidades e distúrbios civis. 

Anunciou, também, que em breve encaminharia ao Congresso Nacional, para discussão e aprovação, um novo modelo sistêmico de segurança pública, mudando-se completamente o ineficiente modelo existente. Segundo suas palavras, o novo modelo teria a segurança individual como o maior objetivo, para depois se chegar à segurança comunitária. Era o que faltava: definir uma moderna estrutura de combate permanente e diuturno ao crime do narcotráfico e a outros que lhe são diretamente consequentes, incluindo-se o resgate socioeconômico das populações fronteiriças através de audacioso plano governamental, de modo a definitivamente erradicar a pobreza, a indigência e a miséria em toda aquela imensa região fronteiriça com os países produtores de coca.

O Presidente da República falava com a legitimidade de quem acreditou e arriscou. Não havia hora melhor para promover as necessárias mudanças, rechaçando-se definitivamente os corporativismos do passado. Afinal, o território brasileiro agora aparecia na tela de cristal líquido, em Forte Apache, quartelgeneral do Exército, Brasília, completamente límpido, tal qual o firmamento em dia de sol brilhante. O vermelho, o branco e o violeta deram lugar às cores vivas da natureza sadia.

A normalidade legal estava restaurada; a democracia vencera a batalha contra os preconceitos e temores; os brasileiros estavam unidos na paz e na harmonia. Todas essas declarações produziram um forte e positivo impacto na sociedade, assim retratada em manchete editorial pelo prestigiado jornal A VERDADE NACIONAL,

com o título: A BARRA NÃO ESTÁ MAIS PESADA:

 

“O povo brasileiro assistiu, nos últimos meses, a algo que lhe parecia impossível. O perigo de antes foi transformado na felicidade de hoje. O Brasil está livre de narcotraficantes internacionais e nacionais por um bom tempo. Os resultados alcançados demonstram, de modo cristalino, que o tráfico no asfalto se nos afigurava muito mais violento e intenso do que o praticado nas favelas, na verdade apenas a ponta da linha de toda uma estrutura milionária e ilegal. Resta-nos agora manter a vigilância. Não somente a maquinaria governamental, mas toda a sociedade. 

Um país verdadeiramente participativo tem na sociedade a primeira barreira contra a criminalidade. Ficar a exigir que o Estado tudo resolva é exemplo ultrapassado de Estado hipertrofiado e demasiadamente interventivo, onde a sociedade é apenas cliente. Não há mais como ser assim. Somos nós, todos os brasileiros, quem sustentamos o Estado. A nós, tão-somente a nós, cabe definir o Estado que almejamos. Não o contrário. Não podemos mais delegar ao Estado todas as soluções de nossos problemas, sejam quais forem. E não podemos viver sobressaltados com criminosos. 

As pessoas honestas e produtivas têm o direito à tranqüilidade, à harmonia e à paz. Segurança, antes de tudo, é um inalienável direito dos cidadãos. E não há sociedade capaz de evoluir, em todos os sentidos, se não houver a plena garantia de sua integridade física e psicológica. 

Daqui para diante, deve a sociedade brasileira demonstrar sua aversão ao crime com mais veemência. Não mais deve se contentar com o falso ufanismo de uma polícia anunciando que prendeu meia dúzia de

“pés-inchados” em favelas. Favelas não produzem armas e drogas, tudo vem de fora. Portanto, é fácil concluir que, se fecharmos os registros dos mananciais externos, a partir de nossas fronteiras, os traficantes favelados terão de buscar outras maneiras de viver. Terão de sair de seus “santuários”, colocar suas caras de fora. E serão singularizados e presos. Não como hoje, em que muitos favelados são presos, e não sabemos se efetivamente são criminosos. Se o forem, que sejam punidos. Mas o que a sociedade não mais pode admitir é a falácia de que o tráfico está localizado apenas nas favelas brasileiras. Está provado que não. E como está! Por isso, cidadãos brasileiros, vamos vigiar, atuar, participar, discutir, pressionar... Mas não nos deixemos mais enganar por aparências. Sim, cidadãos! Por aparências!... Posto que muitos daqueles que discursavam exigindo mais segurança para os cidadãos, e criticando as ações governamentais diante do perigo, estão agora trancafiados. Muitos dos que criticaram a construção de novos presídios foram os primeiros a ocupá-los. Suas máscaras desabaram e foram ao chão. Os criminosos são eles!

Contudo, encerrada a bem-sucedida operação jurídico-militar-policial, que acarretou um estupendo prejuízo ao narcotráfico em território nacional, com reflexos até no exterior, deve a sociedade brasileira avaliar as causas deste fenômeno mundial, e partir para a busca de soluções fora da esfera da simples repressão. Por menor ou maior que seja, a repressão nunca representará sozinha uma boa solução, porque atua apenas sobre os efeitos e não sobre as causas. Sim, porque só houve a repressão porque falhou a prevenção. 

Que a repressão produziu excelentes frutos imediatos, não se discute; mas agora é hora de a sociedade aprofundar a reflexão, de saber, afinal, qual a magnitude do uso e do tráfico, o que é causa e o que é efeito, inserindo-se neste raciocínio o peso de cada droga individualmente consumida na saúde geral da população, na sua produtividade, e, por via de conseqüência, na economia brasileira. Pois é certo que o álcool e o fumo, que são drogas malevolentíssimas à saúde coletiva do povo, têm consumo lícito no Brasil, e não são menos nocivas do que as drogas pesadas e ilícitas. Porém, há exemplos no mundo que indicam ser melhor a licitude do uso de drogas do que o contrário, ou seja, do que criminalizá-las, como sói ser aqui, e como tentaram no passado os norte-americanos com a famosa Lei Seca, que só fez crescer o consumo clandestino de bebidas alcoólicas e fortalecer a máfia naquele país. E vai aqui uma indagação: que mal é percentualmente maior à população brasileira nos dias de hoje: o álcool, o fumo, a cocaína, a heroína, o LSD, a maconha ou o que mais exista?...

Os EUA insistem em destruir os plantios de coca em territórios de países produtores, especialmente da Colômbia, que, segundo informações seguras, produz 90% da cocaína consumida pelos filhos daquela superpotência. E aqui está o ponto crucial da questão, pois enquanto os norte-americanos insistem em situar como causa a produção da cocaína ao natural, há cada vez mais a convicção de importantes correntes de estudiosos de muitos países que consideram o consumo a causa primordial do tráfico, o que implicaria em os EUA investirem seus bilhões lá mesmo, na terra deles, e em programas preventivos de grande envergadura, de modo a atacar o gravíssimo mal pela verdadeira raiz, que está lá mesmo, no uso sistemático da droga por milhões de norte-americanos. Portanto, não adianta muito investir em aparatos bélicos para destruir plantios, somente, como se a solução do narcotráfico fosse apenas esta; pois é certo que, enquanto houver procura, haverá oferta, e plantios de coca em outros lugares...

Que fiquem as respostas a estas questões por conta dos estudiosos, que não devem ter o pejo de fazer emergir suas teses com maior vigor, de modo que a problemática do tráfico passe primeiramente pelo uso da droga como causa, e pela educação do povo no sentido de não usá-la, ou ainda pela necessidade de curar aqueles que a usam, através de um controle eficiente e eficaz dos usuários. Sim, porque não se pode combater o que não se conhece com exatidão, e não se pode admitir que a solução deste gravíssimo problema permaneça restrita apenas à repressão de um mal que nunca foi muito bem dimensionado, gerando assim um descontrole total e inviabilizando a prevenção. Em resumo, passada a bem-sucedida repressão – palmas para ela! –, é hora de se atuar firmemente na prevenção, tendo principalmente como foco a saúde e a educação. Que a sociedade não deixe este grave problema em mãos apenas de organismos estatais. Que haja repressão, sim, mas que a ela se anteceda a prevenção e o conhecimento profundo do que necessita ser reprimido. É o que este jornal finalmente sugere ao povo brasileiro.”