sábado, 7 de novembro de 2026

 

VINGANÇA (CONTO)

1

     Nunca o Morro da felicidade fora visto tão silencioso nos seus meandros de intrigas, confusões, festas e conflitos entre os moradores, sem falar nos tiroteios entre bandidos e policiais e até em algumas mortes de quando em quando. Mas aquele era um silêncio diferente, pesado, temeroso - e por que não dizer apavorante? -, porque muitos poderosos líderes do tráfico de diversas favelas não paravam de chegar, ou de carro, ou a pé, ou de moto, porém todos protegidos por seguranças fortemente armados e ostentando jóias caras e telefones celulares esquentando sem parar suas orelhas, assim como se fossem brincos.
     Também era fácil perceber que os chefões ali chegavam acompanhados de seus homens de confiança, e todos se iam encaminhando para a sede da associação de moradores. Contudo, não seria uma festa o que aconteceria naquele lugar, mas uma reunião comandada pelo mais importante cabeça do tráfico em todo o Grande Rio, um exemplar feroz e sombrio e conhecido por todos como Tora. E já se sabia que naquele dia nem mesmo a polícia teria coragem de fazer uma incursão na favela, porque, além do risco inútil a que seriam submetidos os favelados, as baixas entre eles próprios, os policiais, seriam inevitáveis. Demais, o capitalismo criminoso também já cuidara no sentido de evitar qualquer escaramuça policial, mesmo imperando naqueles dias um insuportável clima de hostilidade entre policiais e marginais. Mas com dinheiro, tudo se resolve... Portanto, e em sendo assim, a paz estava garantida.
     A reunião fora resultado de muitos contatos preliminares, tanto pessoalmente como por telefone, em conversas cifradas entre aqueles magnatas do tráfico, de modo que uma possível interceptação das ligações não redundasse em prejuízo ao importante encontro, cujo objetivo principal, entre muitos outros, seria a consolidação da estrutura de uma nova facção criminosa que se já vinha alinhavando há longo tempo: o Comando da Morte. Mas este assunto era somente para que aqueles magnatas não assumissem publicamente a inquietação maior que naquele momento lhes atordoava os espíritos: o medo de morrer...
     Tudo estava devidamente engendrado: estatutos, demarcações de áreas, esquemas de interação com os presídios, deveres de cada integrante da facção, cobrindo desde as mais simples às mais complexas tarefas das quadrilhas que ali se integravam como uma grande organização criminosa, a maior de todas que se poderia conceber naqueles tempos. E havia também uma decisão definitiva entre os bandidos: a nova facção seria comandada por Tora.
     - Olha aí, rapaziada, aqui quem manda sou eu. Todos chegaram juntos comigo a esta decisão. E também quero dizer aos irmãos que já dei um arrego pros vermes, pros polícias que tão enchendo o nosso saco e até matando a gente. Mas nós também matamo eles; então, tá tudo certo...
     Ninguém mais discutia a liderança de Tora. Ele conquistara na marra o topo do poder marginal, não só por sua ferocidade e lealdade aos amigos do mundo do crime, mas principalmente porque era quem fornecia a droga no atacado aos demais, e num preço tão melhor que nenhum concorrente o igualava. Era ele quem trazia diretamente da fonte fronteiriça a cocaína pura e com selo internacional de garantia, entregando-a aos demais malfeitores ao tempo e à hora e ainda eventualmente consignada em confiança, esta que, se quebrada, vinha ao faltoso a morte cruel. Era a regra de Tora, mas que muita vez dava lugar ao inusitado perdão e à renovação do prazo, nunca se sabendo, todavia, quando haveria o perdão, tudo dependia do momento e até do humor do traficante-mor.
     Havia, porém, mais um outro grande motivo para que aqueles bandidos buscassem uma nova união entre eles, mais depurada e cercada de graves cautelas: muitos estavam sendo estranhamente assassinados em suas comunidades, e não parecia ser coisa de policiais, ou melhor, de policial, porque se tratava de apenas um a matar muitos mediante variados e infalíveis métodos. Sim, morriam às pencas, os bandidos, e não conseguiam desvendar o autor para se chegar ao mandante. Por isso estava cada vez mais difícil descobrir quem estaria por trás de toda aquela trama assassina, e por que nunca apenas feria, sempre matava, sem mandar qualquer sinal dos seus motivos e sem exigir qualquer tipo de negociação, como era de praxe acontecer. Estava, com efeito, tudo muito estranho naqueles tempos...
     E sobrepujava uma característica apavorante em relação às mortes: toda vez que surgia um corpo ensangüentado, alguma testemunha sempre via uma Gralha voando próxima do local do crime ou pousada num ponto visível. E logo que era vista batia asas e desaparecia. E sempre se encontrava uma pena azul-marinho cravada na testa da vítima, um sinal de que aquele crime deveria ser colocado na conta de um mesmo assassino. Por isso, as mortes passaram a ser catalogadas como os crimes da Gralha, em alusão à estranha coincidência...
     Mas nada indicava quem matara o infeliz, sempre um de cada vez, fosse homem, fosse mulher, menos esta última, mais o primeiro, porque também no submundo do crime funcionava a discriminação do sexo oposto, que servia à quadrilha muito mais na cama do que em outras tarefas. Não poderiam nunca sonhar, os bandidos, que aquela alusão à Gralha era a que mais se aproximava da realidade...
     
2

     
     Muitos anos antes, começou a emergir na favela do Roncador uma seita religiosa de hábitos muito esquisitos e fechados. No princípio eram poucos os membros daquela seita, mas não demorou muito para que ela se fosse expandindo. E logo depois de um tempo já se via na favela uma grande área cercada por altos muros, como se fosse ali uma fortaleza. No início, os traficantes não se incomodaram. Afinal, já estavam acostumados a ver o surgimento de muitos movimentos religiosos na favela e não ligavam para o fenômeno, desde que não atrapalhasse os negócios do tráfico. Se houvesse alguma interferência, mesmo que mínima, influenciando contrariamente o comércio de entorpecentes, aí adeus, seita, pois ela era finda na marra da vontade do bandido, ou por bem ou por mal...
     Muito tempo se passou sem que houvesse qualquer cisma entre os bandidos e os membros da misteriosa seita. Conviviam no mesmo espaço territorial sem grandes problemas. E a seita continuou a se expandir sobremaneira, aglutinando cada vez mais adeptos, todos identificados pelas roupas extravagantes que usavam, como se tudo fosse a reedição de um movimento hippie tupiniquim. Não o era, mas muitos dos hábitos se lhe assemelhavam, porém outros procedimentos já se situavam no extremo quase oposto daquele movimento não-conformista que marcou época na história da humanidade por apregoar o rompimento definitivo de seus membros com a sociedade tradicional. Mas enquanto aquele antigo movimento buscava um ideal de paz, amor e liberdade predominando no Universo, este, da favela, tinha como base filosófica e pragmática o combate feroz à imoralidade das drogas e ao crime, pelo menos aparentemente...
     Contudo, e curiosamente, aqueles sectários contemporâneos estimulavam o sexo livre entre eles e sem a preocupação com fidelidade conjugal ou parcerias monogâmicas. Ao contrário, praticavam a poligamia como meio de ampliar a Tribo - como assim se autodenominavam -, através da procriação acelerada. Mas, ao mesmo tempo em que pregavam a proliferação dos seus membros, a Tribo defendia a eliminação dos pecados do mundo através do desaparecimento dos pecadores. E para tal desiderato é que apregoavam a proliferação dos puros, enquanto os pecadores, inclusive e principalmente os criminosos, envelhecessem e morressem. Não pensavam em matá-los, não se preocupavam com o tempo terreno, não tinham pressa de nada, a não ser de ampliar o número de seguidores purificados, enquanto os ruins fossem naturalmente desaparecendo.
     Tudo, porém, ainda se encontrava no nível filosófico. Havia um conjunto de táticas sendo alinhavado, sim, nas reuniões fechadas da seita, mas essas táticas apenas forjavam o conteúdo da grande estratégia futura de purificação da humanidade. Aí, decerto, os homens e as mulheres do mundo viveriam a paz e a harmonia tão enaltecidas pelos hippies do passado. Em outra dimensão do entendimento, e segundo os membros da seita, não poderia haver paz sem que antes houvesse a guerra. E eles também vinham se preparando para a guerra, só que a da procriação acelerada dos purificados. E a outra guerra, contra os pecadores, o passar do tempo resolveria...
     
3

     
     O líder da Tribo era um sujeito muitíssimo estranho, o único que se vestia de preto da cabeça aos pés e mantinha uma barba cultivada há muitos anos. Apresentava uma aparência sinistra, e por isso era tido como louco pela maioria dos favelados, que riam à sua passagem, algo porém muito raro: ele não costumava sair, ficava recolhido à fortaleza, que por sua vez aumentara sua área física em muitos metros, já se destacando como uma comunidade dentro da outra, como assim grosseiramente comparando se apresenta ao mundo o Vaticano dentro da Itália.
     E aquele líder, homem de muitas mulheres, era referido entre os sectários e os próprios favelados como Mestre Irvarum. E até de certo modo lembrava a figura mítica do cearense Antônio Conselheiro, pois havia nele, no Mestre Irvarum, um certo modo de copiar a legendária figura que liderou um movimento camponês e construiu sua fortaleza em Canudos, sertão da Bahia, a partir de 1893, e comandou a estupenda resistência armada lá pelos idos de 1896 e ano seguintes. Pois o Mestre Irvarum, mesmo que não contrariasse abertamente os políticos e nem aventasse as diferenças sociais e econômicas do presente como causas concorrentes para o aumento da criminalidade, pregava a "igualdade das massas" e defendia veementemente que para elas, as massas populares, haveria de haver "um só pastor e um só rebanho". Mas, pastor representando quem?... Deus ou o diabo?...
     No caso do Mestre Irvarum, tudo ocorria em outros tempos e dentro de uma favela urbana. Todavia, não se podia negar que aquela comunidade sectária e maniqueísta crescia assustadoramente e com características peculiares à outra seita ou movimento político e social do passado, porém tudo ainda muito embaciado... Mas isto não guardava em si muita importância, porque, como já dito, o foco filosófico que impulsionava hodiernamente a seita de Mestre Irvarum era a purificação da espécie humana, ou seja, a ausência de pecadores numa nova sociedade. Mas, afinal, quem seria o pecador?... Nada disso era muito bem entendido pelos traficantes e principalmente por Nego Pinduca, o manda-chuva daquela favela onde estava a Tribo plantada, e já com fortes raízes fincadas naquele chão favelado.
     Mas chegaria o dia em que Nego Pinduca teria o primeiro aviso de que a seita representava perigo para os seus negócios. Um dos membros tornara-se dissidente e informara detalhadamente ao traficante os planos "filosóficos" de Mestre Irvarum. Assim, e mesmo sem nada entender de "filosofia", o bandido se sentiu ameaçado. Daí mandou uma ordem direta ao líder sectário para que lhe viesse ao encontro num ponto qualquer da favela. E Mestre Irvarum, sem ainda saber que seus planos eram malvistos pelos marginais, veio como se estivesse em missão de paz, num domingo de manhã.
     O sol já dera os seus bons-dias a todos que pularam cedo da cama e ganharam o lado de fora dos barracos. A favela fervilhava de gente indo e vindo e parando e bebericando; mulheres lavavam roupas rotas e as dependuravam em varais que enfeitavam o espaço favelado; crianças empinavam suas pipas e furavam búricas no chão para jogar baleba, e outras rodavam pião, quando aquele ser estranho surgiu caminhado pesadamente pela favela. E logo despertou a curiosidade geral, com muita gente a olhar das portas, janelas e frestas dos barracos, além de logo se formar atrás dele um numeroso séquito de adultos e crianças, todos matando pela primeira vez a curiosidade que guardavam dentro de si sobre aquela misteriosa figura que agora lhes surgia inusitadamente. E a caminhada do Mestre Irvarum logo se tornou festiva, ele na frente e aquele poviléu lhe seguindo os passos.
     Em poucos minutos Mestre Irvarum já se colocava diante de Nego Pinduca e seus principais asseclas, que nenhum tempo perderam e, para surpresa dos que assistiam ao encontro, passaram a agredir violentamente o pobre-diabo. E depois de surrá-lo impiedosamente, os enraivecidos bandidos o prostraram desmaiado ao chão. E nele continuaram a bater, agora pontapeando-o sem dó e nem piedade, até que o sangue lhe ensopasse as vestes e o pó do chão se lhe grudasse ao sangue, formando no pano a massa tétrica, o resultado daquela covardia sem limites. E, se ainda não bastasse, os bandidos passaram a urinar sobre o pobre-diabo, todos ao mesmo tempo e às gargalhadas, levando ao delírio os assistentes, como se ali, de repente, se tivesse transformado numa arena romana com os leões devorando os cristãos. Mas algumas pessoas, silenciosas, e com um nítido temor, não gracejavam diante da terrificante cena; apenas olhavam Mestre Irvarum se contorcer de dor, porém sem soltar um só gemido. Queriam que ele suplicasse a clemência, mas ele não o fez. E esta fora a razão, talvez, que levara aqueles facínoras ao extremo da covarde surra e da humilhação a que submeteram o indefeso homem.
     Caído, desmaiado, ensangüentado, e todo mijado, Mestre Irvarum assim ficou durante mais de uma hora; e ninguém ousava dele se aproximar: os bandidos ainda tomavam conta do ambiente que cercava aquele cenário animalesco. Mas depois, já satisfeitos com a maldade que gratuitamente encetaram, se retiraram. E foi a partir deste momento que algumas pessoas da seita vieram e, improvisando a maca com dois caibros velhos, e neles enfiando os paletós de três dos sectários que ali estavam, puseram então o corpo desmaiado de Mestre Irvarum e o levaram embora, logo adentrando a fortaleza da Tribo.
     Aquele domingo transformara-se em dia de espanto e temor, e as pessoas se recolheram ao silêncio de seus barracos, todas apavoradas diante de tamanha covardia. Afinal, aqueles sectários ficavam abrigados dentro das muralhas da fortaleza e nunca incomodavam ninguém. Mas houvera a desmoralização do mais importante membro da seita, do seu fundador, do único líder, do misterioso Mestre Irvarum, e havia um certo presságio de vingança no ar, ar que se tornou pesado pelas nuvens pretas que desceram e escureceram o céu. E logo os riscos de metal se anteciparam ao ribombar dos trovões, tudo sem que caísse uma só gota d'água, parecendo que o diabo demonstrava sua zanga por ver Mestre Irvarum vítima daquela insólita e violenta agressão, ou então era coisa do Todo-Poderoso, que naquele exato momento lançava sua ira em solidariedade ao aviltado líder espiritual terreno, assim especulavam distintamente os favelados, que não sabiam se o fenômeno vinha vindo de decisão do primeiro ou do Segundo.
     Mas, na medida em que o céu despejava sua assombrosa descarga elétrica sobre a favela, o poviléu cada vez mais se enfiava nas profundezas do silêncio, enquanto os próprios meliantes, também apavorados, sumiam feito ratos em buracos cavados para ocultação de seus corpos e armas e drogas na chegada da polícia. E de repente, do mesmo modo que o tempo fechou, abriu, vindo de volta o sol brilhando no infinito agora azulado como antes. Coincidentemente, os raios solares tocaram o chão da favela no exato momento em que Mestre Irvarum reabria os seus olhos inchados. E o silêncio permaneceu até chegar o lusco-fusco do entardecer, e entrou pela noite e se estendeu ao dia seguinte. Fora o pior domingo já visto por aquela comunidade ordeira da favela do Roncador...
     
4

     
     Houve o passar de uma semana e se chegou novamente ao domingo. Mestre Irvarum rapidamente se recuperou, coisa que também ninguém entendeu lá na fortaleza. E muito menos entenderiam os moradores da favela, ao contrário, se horrorizaram, quando viram o incêndio lamber a fortaleza e todos os que lá estavam, enquanto cá fora o dissidente e delator amanhecera dependurado pelo pescoço, enforcado, ensangüentado e todo mijado. Morto. E lá dentro o fogo consumiu o prédio e matou na comoriência centenas de seguidores de Mestre Irvarum. E não que não viessem os bombeiros trabalhar arduamente para tentar apagar o fogaréu, que de tão forte parecia sair das profundezas infernais. Mas o fogo não pôde mesmo ser controlado, porque era o fogo que jorrava das cachoeiras do Leteu. Não dava para nenhum homem apagá-lo. E ali muita gente finalmente entendeu que o fenômeno anterior fora provocado pelo único príncipe espiritual daquela seita: o Satanás. Mas o que também ninguém viu foi que do meio do crepitar horrendo das brasas que sobraram, do meio do carvão incandescente que ainda insistia em vencer as águas dos bombeiros, daquele meio tenebroso alçou vôo uma ave predominantemente azul-marinho e de tamanho médio: uma Gralha...
     
     
5

     
     Correu o tempo de mais uma semana e veio o domingo seguinte, e qual não foi a surpresa dos favelados quando se depararam com um corpo de traficante em cada poste, todos dependurados em laços de enforcamento de corda trançada em vermelho e preto. E os corpos ensangüentados e mijados, tal e qual fizeram com Mestre Irvarum. E no poste mais alto da parte mais elevada da favela estava o cadáver de Nego Pinduca, este ainda retalhado e igualmente banhado em seu próprio sangue e no mijo de seu misterioso matador. Mas nele havia algo mais: uma pena azul-marinho enfiada em sua testa, brotando dali como se fosse nascida de dentro dele.
     Ninguém entendia como aquela pena de tubo córneo tão fino fora cravada na testa do manda-chuva, como se fosse um unicórnio, nem mesmo os apavorados peritos, que nunca haviam visto cena tão terrificante, mais ainda que a do domingo anterior, na fortaleza, na qual se sabia que muitos sectários sucumbiram, porém deles somente sobraram as cinzas humanas misturadas às outras, variadas, tornando-se impossível separar o joio do trigo, e muito menos identificar quem quer que fosse. Por isso, nem sepultamento dos sectários houvera, mas apenas um simbólico enterrar de cinzas de defuntos desconhecidos misturadas às de madeira e demais materiais juntamente incinerados. Na verdade, tudo ao pó voltara, não fazendo ali muita diferença, se carne humana ou não.
     E assim, mortos todos os asseclas de Nego Pinduca, e ele próprio, na favela do Roncador, não muito tempo se passou e outros bandidos ocuparam a comunidade. E logo o cenário tornou ao de sempre e comum às demais favelas, ou seja, traficantes para todos os lados, armados até os dentes e vendendo cocaína para milhares de viciados. Mas logo também a favela foi assistindo à morte estranha de cada um deles, em dias diferentes, porém todos sempre com a marca da Gralha: uma pena azul-marinho cravada na testa de cada defunto. E o corpo ensangüentado, furado por faca e enforcado, além de mijado...
     E as mortes naquele estilo foram virando moda sem que conseguissem desvendar a autoria delas, e nem poderiam fazê-lo, posto que vinham vindo da ave azul-marinho que se materializava na forma humana diante da vítima, sangrava-a, cravava-lhe a pena na testa, se desmaterializava e tornava à forma animal: a da Gralha. Mas quem via a ave? Ninguém, ou melhor, os alcançados pela ira da Gralha viam-na, sim, mas nunca poderiam dizer que a viam, porque logo morriam levando para as trevas a imagem daquela Gralha virando gente e matando-os sem qualquer contemplação. E o homem que surgia da Gralha era nada mais nada menos que Mestre Irvarum...
     
     
6

     
     Meses se passaram, e a polícia e os bandidos perdidos e sem saber quem estava matando quem naquela sucessão de matanças. E os bandidos acusavam a polícia, e a polícia dizia que eram os bandidos disputando os rendosos pontos de venda de drogas, e a imprensa aperreava os políticos, e estes acusavam supostos grupos de extermínio, e acusavam a polícia para fazer média com os bandidos e se manterem como os prediletos deles na hora do voto; enfim, todo mundo se acusava mutuamente, e nem por isso a matança de traficantes e demais facínoras diminuía. Ao contrário, aumentava, porque das acusações mútuas dos bandidos emergiam as vinditas entre eles, e mais corpos caíam ensangüentados nas favelas; porém, esses defuntos vinham desprovidos da marca registrada da Gralha: a pena azul-marinho cravada na testa.
     A confusão estava formada, e nem mesmo a pena azul-marinho incomodava mais ninguém; de tanto que morria bandido, a criminalidade na cidade ia diminuindo, diminuindo, diminuindo, com as pessoas já podendo circular sem o temor de serem assaltadas, e até já gostando de assistir de camarote às intermináveis contendas entre marginais, como se fossem dois escorpiões em luta mortal. Era coisa sobrenatural, assim diziam, e sem saber acertavam, posto que era de fato a vingança vinda das profundezas e de alguém que fora cerceado, por mãos humanas, em sua missão de recolher almas penadas e espíritos imundos para o príncipe das trevas. Sim, pois não era outra a missão de Mestre Irvarum, apenas um demônio encarnado e a serviço do seu verdadeiro senhor: o Lúcifer. E os facínoras humilharam e desdenharam o seu poder sobrenatural. Estavam pagando caro por isso...
     
7

     
     Esta era a razão de tanto bandido estar reunido naquela favela sob a égide eventual do mais poderoso deles: Tora. E liderado por esse terrível marginal, os demais discutiam e se acusavam entre si num clima difícil de se controlar. Mas aos poucos Tora foi dominando a situação e fazendo suas avaliações sobre aquela sucessão de mortes, todos buscando entendê-las, porém sem conseguir. Contudo, depois de muito discutirem e confessarem entre eles que protagonizaram muitas daquelas mortes, e de concluírem, ao final, que se mataram gratuitamente, posto que ninguém ali tomara a iniciativa de matar ninguém por interesses pecuniários ou de poder, conseguiram provar para si próprios que aquelas mortes da pena azul-marinho eram de origem desconhecida. E como venceram as desconfianças entre eles, passaram a culpabilizar a polícia e juraram vingança, todos ao mesmo tempo matando policiais durante um mês, até que de novo se reuniriam para deliberar sobre o mesmo tema que os preocupavam. Não perceberam, porém, que lá no alto da laje do prédio, oculta nas sombras, uma Gralha crocitava surdamente...
     Foi um mês de muitas matanças, com os assassinatos de policiais batendo recordes jamais imagináveis. Eles eram emboscados e covardemente mortos em blitze promovidas por bandos fortemente armados. E sempre os bandidos os pegavam de folga e com suas famílias nos carros, e não perdoavam ninguém: eliminavam sumariamente todos os que eram apanhados.
     As mortes de policiais e familiares, inclusive de crianças, passaram então a ocupar as páginas dos jornais, enquanto bandidos e mais bandidos apareciam mortos e dependurados em postes. E ninguém se lembrava ou nada associava àquele líder espiritual da favela do Roncador que fora surrado e tivera o seu corpo dilacerado e mijado por traficantes. Mas, quem poderia lembrar, se todos aqueles que o viram morreram na hora e já estavam nas trevas e em companhia do Belzebu?...
     Um mês depois, os marginais novamente se reuniram e concluíram que em todos os casos de comparsas assassinados havia a pena azul-marinho cravada em suas testas; e seus corpos, além de ensangüentados, estavam todos mijados; enfim, tudo indicava que o autor dos assassinatos era o mesmo. Mas a população, apesar de lamentar as mortes dos policiais, não se sabendo se hipocritamente ou não, vibrava com as mortes dos bandidos, estas em quantidades muito maiores. E as pessoas, satisfeitas por não correrem tanto perigo nas ruas e em suas casas, declaravam aos trezentos e tantos ventos que o ideal seria a continuidade daquelas mortes, mesmo que de ambos os lados, e mesmo com inocentes atingidos, assim igualando policiais e seus familiares a bandidos, para gáudio de muitos políticos, que se arvoravam de contestadores das diferenças sociais e econômicas, e que diziam sempre que era aquilo mesmo, que eram policiais matando bandidos e bandidos matando policiais, e com isso a população só saía ganhando. E eram aplaudidos por bandidos e por favelados, estes que, entre obedecer ao bandido ou defender uma polícia que não os respeitava, preferiam a primeira hipótese, pois, "se correr o bicho pega, se parar o bicho come"... Sim, porque ninguém poderia em sã consciência imaginar que um anjo do mal encarnado numa Gralha, e que se materializava num homem matador provido de poderes diabólicos, era esse anjo do mal o verdadeiro assassino serial...
     Mas a segunda reunião dos bandidos estava determinada a ser o mais tétrico espetáculo jamais imaginado pela mente humana acontecer em plena cidade e numa favela. E se naquela noite da reunião, e antes do seu início, se alguém tivesse ido à favela do Roncador, se depararia com o Mestre Irvarum circulando pelas vielas, cumprimentando as pessoas, afagando as crianças, distribuindo doces e moedas e levando os favelados ao delírio. E ninguém ali se preocupava em saber como o Mestre Irvarum escapara do grande incêndio em sua fortaleza, e muitos já se comportavam como seus novos seguidores, prometendo-lhe lealdade e lhe pedindo a "salvação"... E para aquelas pessoas ele apenas disse que formaria outras seitas, porém agora dissimuladas em lugares e pessoas santas, cabendo a cada um identificar dentre elas os seus verdadeiros porta-vozes...
     Quem e quantos seriam eles?... O Mestre Irvarum deixava esse ponto em dubiedade, pois dizia que seus porta-vozes estariam sempre enaltecendo o seu maior Inimigo, estariam pregando o inverso da Verdade... Mas, o que seria o inverso da Verdade, se não se sabia qual era a Verdade?... E deveria ser assim por quê?... Ora, ora, é lógico que para levar os seus seguidores ao fanatismo e à cegueira comunitária, societária e espiritual, através da arguta exploração da boa-fé daquela gente simples, que poderia estar caminhando tranqüila e fervorosamente para o diabo, mas pensando o contrário, ou vice-versa... como na dúvida que sempre se tem se se é comunitário ou societário, ou vice-versa, sendo difícil entender que possa haver qualquer concomitância, como em religião é sempre difícil saber quem é o legítimo representante da Palavra de Deus e quem é o preposto do diabo que se oculta na roupagem do primeiro...
     E de repente, como se todos estivessem entorpecidos diante de tantas dúvidas, Mestre Irvarum desapareceu. Mas a sua mensagem ficou martelando os espíritos daqueles favelados, pois o Mestre Irvarum não lhes deixara uma pista clara no sentido de identificar, entre tantas seitas que existem, quais seriam as que o representariam e onde estavam instaladas. Pelo visto, esse recado viria depois... pois na verdade ninguém ali desconfiava de que o Mestre Irvarum era o próprio Lúcifer encarnado em corpo de gente e de uma Gralha...
     
8

     
     O traficante Tora custou a acalmar os ânimos dos presentes. Mas, depois de muito esforço, e até mediante ameaças, conseguiu o seu intento. E aquela reunião finalmente começou, com os bandidos em acaloradas discussões e já concluindo que as matanças entre eles não mais pareciam obra de policiais, mas de gente de fora, de outros municípios, e até talvez de outros estados. Na verdade, já percebiam que matando policiais, como o fizeram, não resolveram o problema e apenas arranjaram uma sarna a mais para administrar. E cheios de dúvidas se enfiaram naquela polêmica sem início, meio ou fim, e assim não perceberam que a Gralha mais uma vez lhes observava os movimentos de lá de cima, do canto escuro de uma pilastra que a ocultava das vistas daqueles facínoras, estes que se perdiam em suas próprias e desencontradas conclusões.
     Sim, todos os bandidos e seus lugar-tenentes e comparsas se foram ajuntando e se espremendo no ambiente para ouvir a palavra final do líder Tora. E o bandido, do alto de sua autoridade sobre os demais, entrou a orientar os passos seguintes que dariam. E, distraídos, os bandoleiros não perceberam que as portas da associação de moradores se foram fechando sem que mãos as tivessem movimentando. Era um discreto vento que fazia o trabalho, mas aquele vento não era um vento comum, eram os anjos do inferno que agiam...
     Enquanto as portas silenciosamente trancavam os bandidos lá dentro, as nuvens pretas cobriam o céu da favela e desciam quase ao chão do lado de fora. Mas não havia nenhum barulho, tudo ocorria no mais absoluto silêncio, até que aconteceu o primeiro estrondo, assustador estrondo, que fez os favelados se escafederem para dentro de seus barracos e casas simples. E fez estremecer a bandidagem, que imediatamente tentou alcançar o lado de fora, porém dando de cara com as portas trancadas. E foi neste momento que houve o segundo ribombar do trovão, e a ave sobrevoou o ambiente amplo da associação de moradores, sendo vista pelos atônitos marginais. E depois de sobrevoar o ambiente, pousou no pequeno palco onde estava o famigerado Tora, que ainda a tentou pontapear. Mas tanto ele, que falhou em seu intento, como os demais, de súbito associaram a ave diabólica às penas azuis-marinhos cravadas nas testas de seus parceiros no crime. E ainda pensando assim assistiram ao mais impressionante espetáculo que nunca um dia sonhariam ver: a Gralha transformar-se em homem diante deles, metamorfosear-se em Mestre Irvarum, que abriu os braços e lhes falou numa linguagem ininteligível: a fala do demônio... E veio então outro estrondo dos céus, o mais violento de todos, antecedido, porém, de uma faísca elétrica que bateu em cheio no telhado do prédio. Neste momento, Mestre Irvarum tornou à forma de Gralha e grasnou num som terrivelmente assustador. E alguns bandidos, de armas nas mãos, tentaram nela atirar, enquanto ela sobrevoava em círculos satânicos o espaço fechado e via o prédio ser lambido pelo fogaréu. E enquanto a Gralha rompia por um pequeno buraco para o lado de fora, o fogo fez o seu trabalho trapeiro, não deixando nenhum bandido para contar nenhuma história posterior. Todos ali viraram cinzas...
     
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     No dia seguinte, o Morro da Felicidade amanheceu seco como de véspera, porque dos trovões nenhuma chuva resultou. E somente se via aquele local restrito totalmente incinerado, a exemplo do que ocorrera com a fortaleza na favela do Roncador, onde se abrigava a seita do Mestre Irvarum. Mas, e daí? Onde estava aquele misterioso personagem? Onde se escondia, afinal? E como crer que uma Gralha se transformasse em homem e vice-versa? Ora, não havia como acreditar em tamanha bobagem!... Por isso, a conclusão era mais uma vez muito simples: os policiais finalmente se vingaram das mortes de seus companheiros... Souberam da reunião, fecharam o local por fora e o incendiaram... Era esta a versão oficial, logo absorvida e estrondosamente estimulada pela imprensa, com algumas autoridades prometendo rigorosa apuração, outras já trancafiando administrativamente diversos policiais e apresentando-os como os responsáveis por aquela chacina, enquanto aqueles políticos defensores das causas sociais festejavam o espaço na mídia para cobrar responsabilidades de todo mundo e afirmando que tudo não passava de resquícios da ditadura finda, que era preciso prender mais policiais, expulsá-los de suas corporações, condená-los na Justiça, etecétera, etecétera, etecétera, e as atônitas autoridades, sem mais saber o que fazer, danando a prender seus suspeitos e a apresentá-los como os responsáveis por todas as matanças e dizendo que eles mataram daquela maneira para desestabilizar o governo, etecétera, etecétera, etecétera. E até criaram para os inocentes já presos à moda manu militari e política a antonomásia de Gralhas Voadoras. E a imprensa adorando as manchetes, indo nas águas fétidas do sistema e publicando suas mentiras sem se preocupar com verdade nenhuma, como sempre, aliás... Típica mídia terceiro-mundista...
     Depois de alguns dias voltou a calmaria a reinar na cidade, com o assunto já atropelado por outros mais urgentes. E na manhã ensolarada de um domingo qualquer, surgiu mais uma vez Mestre Irvarum na favela do Roncador, agora com o semblante feliz de quem cumpriu muito bem a missão. E após circular festivamente pela favela cumprimentando os moradores e recomendando aos mesmos que soubessem escolher com acerto os seus candidatos nas próximas eleições, inclusive sugerindo alguns nomes de políticos defensores das causas sociais, depois disso ele se despediu e pegou uma viela que levava a um matagal delimitador da favela, à beira dum riacho assoreado por muito lixo favelado, lixo de pobre, o lixo do lixo do lixo, o pior de todos os lixos porque é o que representa a sobra do nada que os miseráveis favelados não usam. E, em chegando à beira do matagal, acenou para muitos dos seus novos seguidores e se virou de costas... e foi aí que todos puderam ver aquele rabo tenebroso que lhe brotava por baixo das vestes, o rabo do demônio. E em seguida ao balanço que fez daquele rabo de dragão, Mestre Irvarum se transformou novamente numa Gralha e num fade lento e enevoado desapareceu no ar vazio...
     
      Emir Larangeira

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

 

 

 VIDA CÓSMICA

 

 

Espanta-me ver a ciência demonstrando nossa ínfima importância em relação ao Universo e seus 14 bilhões de anos de existência: Cosmo que se expande velozmente em direção ao seu (dele) e nosso desconhecido destino. Quando ouço falar de big bang, big rip, big crunch etc., sinto-me como um verdadeiro nada neste contexto cósmico.

 Imaginar a existência tão maravilhosa quanto incompreensível do Universo a partir da explosão de um simples ponto concentrador de energias, ou concebê-lo dentro da ideia de que sempre existiu, é mergulhar no absurdo. Pensar num Universo se expandindo até se tornar átomos soltos na escuridão do espaço cósmico é não menos absurdo; também a teoria que nos informa sobre a possibilidade de o Universo encolher-se até desaparecer dentro dele mesmo (num Buraco Negro, por exemplo) é exponencialmente absurda.

 Que fazer em meio a tanto absurdo?... Ignorar que estamos enfiados neste contexto monumental apenas como átomos a nos formar como as demais matérias existentes? Qual será a “essência” disso tudo? Que será “essência”?... Será um campo virtual ou um holograma a nos acalentar ante o desalento de que nada especial representamos como matéria? Afinal, seguindo a lógica do átomo “pensante”, a ciência não descarta que a pedra, também por ele formada, “pensa”.

 Essência, portanto, seria ter ideia da existência? Como avaliar tão complexa questão e acomodá-la dentro de nós? Seria, talvez, reduzindo tudo à crença na Revelação, na hipótese de que tudo que existe partiu da vontade de um ente superior a que chamamos Deus? E antes de Deus, que havia?...

 Nesta minha elucubração, não consigo crer na Revelação nem nas possibilidades evolutivas apontadas pela Ciência Cósmica. A Mecânica Quântica esbarra em incertezas; a Astrofísica avança em direção ao desconhecido. Explicam, mas não justificam. As religiões nos aprisionam a dogmas decorados. Penso então que o caminho é integrar-me à natureza das coisas e ao seu funcionamento essencial, sem desmerecer a história passada, porém sempre a questionando. Não me adianta existir sem razão concreta. Preciso enxergar concretude nesta absurda existência na qual me insiro momentaneamente, sabedor de que a matéria pensante que represento em breve se tornará pó, voltará à forma original e livre: a forma do átomo. Ah, que sobrará de mim?...

 Neste ponto, devo admitir que entre tantos contrastes e absurdos com os quais deparamos no nosso existir, ressalva-se um que considero base do meu pensamento: amor versus ódio. E faço minha opção pelo amor, sem, entretanto, excluir seu contraste nesta luta eterna do positivo contra o negativo, que, paradoxalmente, se completam em vez de se afastarem. Por conseguinte, não consigo estabelecer a necessária fronteira a isolar um do outro. Não teríamos a noção do amor se não houvesse o ódio, ou da treva se não houvesse a luz. Então, neste viver absurdo a esperar a morte, penso cultivar o amor. E logo me indago: “Como?”

 Começo a aceitar o amor como moeda de troca, aceitando-o como capaz de me fazer receber em dobro ou triplo o amor que se me expande em direção ao outro. Mas sei de antemão que o amor se expandirá somente até se pulverizar em átomos soltos e sem direção ao fim da existência material, ao fim da vida. E o amor se tornará saudade; resumir-se-á a lembranças daqueles aos quais dediquei o meu amor. Depois que se forem, depois que desaparecerem todas as existências a mim ligadas pelo amor, este fenecerá como “essência”, como “éter”... E nada restará, seja sob a forma de big rip ou de big crunch.

 Meu alento, então, se reduz à certeza de que nenhuma lembrança da minha existência haverá, assim como não mais me há a lembrança de existências passadas, mas apenas tentativas de sua reconstrução teórica por meio da História e de outras ciências retrospectivas. E me conformo ante a ideia de que não vencerei meu desalento. Fujo disso e torno ao amor... Torno, sim, ao amor! E não são poucas suas manifestações. Por meio delas, sinto-me sujeito; sem elas, sinto-me objeto a viajar com o Cosmo como sua parte ínfima.

 Sei que o amor é energia positiva. Os físicos quânticos garantem ser o amor uma energia subatômica positiva, e dizem que isto é bom. Tomara! Se eu devo crer em algo como essência a sustentar minha matéria efêmera, que seja então o amor! Não aquele sugerido pelas religiões, sempre dependentes de condições prévias e de ritos obrigatórios, muitos deles meramente materiais e supérfluos, tais como os dízimos...

 Não! Não!... Falo de um amor quase animal, o que assistimos entre bichos em surpreendente interação ou agressividade mútua. Falo de um amor que nos permite sentir bem-estar e felicidade sem preocupação com o futuro nem com a morte. Falo de um amor desprendido, superior, puro, sem desprezar o amor restrito ao homem e à mulher eternizando lembranças ao gerar novos seres. Estes nos proporcionarão a certeza da lembrança, desde que recebam amor. Ou não significam certeza alguma nem lembrança nenhuma. Não sabemos e jamais saberemos.

 Talvez seja egoísmo meu restringir o amor à relação entre o homem e a mulher; mas não há outro meio de procriar, e o ato sexual gera um prazer amoroso indescritível, desde que fruto de amor mútuo. O sexo deve ser consequente do amor. Não o sendo, é mera necessidade fisiológica. Pensando bem, o êxtase sexual entre dois seres que se amam lembra o big bang liberando energia cósmica.

 Vamos, portanto, nos amar a nós intensamente; assim será fácil distribuir amor sem o imperativo mandamental, sem a tábua negativa, impositiva, proibitiva, esta que não levará a nenhuma salvação. O amor é aceitação e salvação. O ódio é negação e perdição. Ora, tudo é vida, embora tão absurda que nem o suicídio a soluciona neste mundo absurdo de Kierkegaard e Camus! O jeito então é viver a vida como ela é, ou seja, efêmera depositária de uma incompreensível eternidade cósmica!...

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

A LÓGICA DO MILITARISMO NA POLICIA MILITAR - OU A FALTA DELA...

 

(Revisado por Emir Laranjeira em dezembro de 2022)

 

Ao leitor:

Quando escrevo textos para postagem em algum espaço, atenho-me ao assunto sempre com a intenção de que seja útil. Não estou limitado por número de linhas ou palavras, como muitas vezes me exigem em textos destinados à publicação em blogs, jornais e outros, o que é natural. Aqui, o princípio é o da minha liberdade de comunicar algo que possa servir como objeto de reflexão aos interessados por uma ordem pública dependente da ação de pessoas que compõem uma complexa engrenagem. Quem são essas pessoas, de ontem e de hoje?... No caso, exponho-me como um exemplo dentre vários que podem ou não guardar entre si alguma similitude. Geralmente guardam. Afinal, somos subsistemas de um só sistema...

 

SÍNTESE DE UMA REALIDADE VIVENCIADA

 

Lembra-me a fraca memória das obrigações e punições eclesiásticas e escolares de minha infância vivida em bairros periféricos de Campos e de Niterói. Sobre as primeiras, dentre outras chatices, o dever de comparecimento à missa aos domingos e às aulas de catecismo. Demais disso, havia o indefectível carimbo na caderneta de presença à missa, na porta da igreja, para apresentá-la ao colégio público na segunda-feira, sob pena de eu não conseguir assistir às aulas, não sem antes a minha mãe ser chamada às falas pela direção.

No colégio, o costume da palmatoada era levado ao extremo por bedéis e professores. Na falta de palmatória, como aconteceu certa vez comigo e minha “amada” professora, fui por ela agredido a “sombrinhadas” e posto de castigo olhando para a parede de um canto da sala. Como sempre, ela estava coberta de razão.

Passada a fase que me afastou das religiões, permaneci sob pressão nos estágios seguintes do primeiro e segundo graus (ginásio e científico). Incrível, mas até estudando à noite, e já adulto, ainda enfrentei problemas com bedéis devido a minha intransigente vontade de me sentir livre. Muitas vezes, fui posto ante a diretoria do colégio a me explicar e jamais justificar coisa alguma. Como, porém, havia um diretor meu parente distante, eu me salvava da expulsão pelo gongo do parentesco.

No trabalho, durante o dia, a vigilância hierárquica e os maus-tratos eram piores ainda. A ameaça de perda do emprego tornava os empregados submissos. Eu, sempre inconformado, não raramente fui demitido por desferir palavras ofensivas a meus opressores (gerentes e donos de lojas, nas quais pouco durei como empregado).

Se permaneci em alguns lugares, não foi por outra razão se não o parentesco com o dono ou algum diretor, pois eu era um ramo pobre duma árvore genealógica de família rica. Azar o meu, pois se eu nascesse um pouquinho mais à direita ou à esquerda da árvore, nem seria necessário trabalhar. Por outro lado, sorte minha, porque fui amparado por parentes e venci o tempo e alguns gerentes e chefes que me demitiam no meio das peças de carros que eu contava, depois de receberem a minha recusa em varrer algum canto da loja (eu era controlador de estoque; não era faxineiro). Tão logo subia a ordem de demissão do gerente-opressor, quem a recebia era meu tio, o patrão, dono do negócio, meu parente rico e bondoso. Assim, meu opressor quebrava a cara, às vezes até demitido ante minhas exageradas futricas, para gáudio de muitos empregados oprimidos, sem a sorte do pobre parente de rico.

Claro que minha recusa ante o anúncio da demissão, que geralmente não se concretizava, acompanhava-se de palavrões e ofensas diretas ao desavisado. Algumas vezes incluía até correria atrás dele com um setor de direção de caminhão F-600 (Ford) muito parecido com borduna de bugre. Bela cena! Era assistida por todos os empregados, que vibravam vendo aquele “galinho garnisé” de “borduna de aço” na mão a tentar alcançar o apavorado gerente e quebrar-lhe o coco. Foi assim que trabalhei e concluí o curso secundário. Depois, convencido por meus tios, que foram policiais-militares antes de mim, ingressei na PMRJ como soldado raso. Ótimo emprego, por sinal, passei a ganhar o dobro do que percebia como comerciário, ou seja, dois salários mínimos. Bons tempos! Era o ano de 1965...

Na vida militar (literal naquela época, – e aquartelada, – aprendi a ser soldado na acepção mais cristalina e substantiva da palavra. O policial era complemento quase que adjetivo, mas era substantivo na essência. Por outro lado, embora houvesse o império da hierarquia e disciplina militares, o cotidiano era saudável e de camaradagem, salvo algumas exceções. Nesse período em que fui soldado raso, lembra-me alguns superiores que se tentavam impor pelo terror dos regulamentos, mas não logravam êxito. Havia um sistema de freios e contrapesos que garantia o respeito mútuo nas relações entre superiores e subordinados.

Claro que eu, – com minha índole questionadora, – tive alguns problemas. Nem tantos que me indispusessem com o sistema militarizado. Nele não havia a figura do patrão, agora substituída pelo Estado. Como afirmei, as normas valiam indistintamente para superiores e subordinados e as relações internas não eram tão estressantes. Havia, sim, de quando em quando, algum problema disciplinar e punições. Havia também desvios de conduta graves e punições que iam das penas brandas às exclusões ou expulsões daqueles que desmereciam a corporação. Confesso, porém, que as opressões e injustiças intramuros do quartel me pareciam menos intensas: as agruras que enfrentei no mundo civil foram piores.

A verdade é que gostei da vida militar e de ser PM. Animado, ingressei na Escola de Formação de Oficiais, um regime de internato bem mais rigoroso que nos meus tempos de recruta e de soldado raso, e em alguns momentos, e situações, extremamente injusto. A preocupação dos superiores e instrutores em zelar pela boa formação do futuro oficial ultrapassava o rigor excessivo. O ritmo do curso e o sistema de vigilância e punição transformavam os cadetes em máquinas. O controle do tempo e dos movimentos dos alunos alcançava as raias da loucura. O único direito do cadete, ou aluno-oficial, ou simplesmente aluno, era o de não ter direito algum. O único direito, para ser sincero, era o de cumprir com exaustivos deveres desde a alvorada, às 05:00hs, ao toque de silêncio, às 22:00hs. Na sexta-feira, os que não estavam escalados de serviço eram dispensados ao final da tarde, não sem antes ouvirem a leitura do boletim, surpreendendo-se alguns com o “licenciamento sustado” (fim de semana aquartelado), por mínimas faltas ocorridas durante a semana, muitas delas nem percebidas. Essa cultura de sustação da dispensa tornava a semana um ambiente de temor e apreensão.

Nesse clima de tormento, a disposição dos cadetes resumia-se a cumprir rotina e decorar polígrafos, que incluíam a obrigatoriedade de saber o tamanho do degrau da escada de incêndio ou em quantas partes se divide o cavalo ou o fuzil ordinário (FO). Não havia tempo para filosofar, isto seria crime naquele contexto. Pensar?... Nem pensar!... E às horas de “decoreba” somavam-se aquelas igualmente decoradas pelos instrutores: os exercícios físicos e a ordem-unida, que, no seu conjunto, transformavam os cadetes nos “corpos dóceis” relatados por Foucault. E finalmente férias... Ó doces férias!... Descompressão, abraço ao mundo exterior e... pânico: se o mundo intramuros espantava-me, o extramuros me parecia estranho depois de tanta “lavagem cerebral”. O somatório desse exercício de loucura, ao fim e ao cabo de três anos, resultava no festejo do aspirante-a-oficial, que, depois do período de seis meses de estágio probatório em quartéis operacionais, era promovido a segundo-tenente, aí sim, emergia o oficial pronto e acabado. Para quê?...

Muito bem, voltemos um pouco aos meus tempos de soldado para sublinhar dois fatos que mudaram minha maneira de pensar sobre o militarismo: fui duas vezes trancafiado em xadrez sem motivo, além de execrado por meus algozes: dois tenentes saídos dos livros de história, filhotes de Vidigal. Não entrarei em detalhes, a não ser para afirmar que passei a odiar pelo resto da vida o “compartimento fechado denominado xadrez”.

Já tenente, quase capitão, servi na Companhia Escola de Recrutas. Lá não havia xadrez e não fez falta alguma. A disciplina dos cursos era rigorosíssima, mas a cultura disseminada era a da disciplina consciente. Formávamos na época um grupo de tenentes dispostos a não confundir treinamento com “lavagem cerebral”. A instrução era duríssima, sim, mas cada instrutor explicava suas razões, de modo a evitar a transformação de jovens recrutas em máquinas. Participei desse processo de mudança de ensino e instrução durante anos a fio, e quem por lá passou, pelos idos de 1970 em diante, sabe que foi assim a Cia Escola, como nós a chamávamos no dia-a-dia. Bons tempos, mas que pouco duraram, as Polícias Militares brasileiras passaram a substituir as Polícias Civis no policiamento ostensivo em todo o país. E se iniciou um período de ambivalência profissional resumida na dúvida (ou dilema?): ser ou não ser militar ou policial?... Eis a questão...

É desse momento em diante que o “militarismo policial” perdeu a lógica; e vem perdendo a batalha contra a criminalidade em processo de autodestruição talvez irreversível: a vivência passou a ser outra; o treinamento objetivava o militarismo de força auxiliar reserva do Exército Brasileiro; a manutenção da ordem pública resumia-se aos grandes policiamentos e ao emprego de efetivos comandados ao modo de “tropa”; o homem não atuava isolado nem em dupla, salvo poucas exceções para justificar a existência e a utilidade das Polícias Militares no contexto do ambiente social. E as Polícias Militares, – acostumadas ao ocioso aquartelamento, ao romantismo do “cosme-e-damião” e ao treinamento baseado em cenários fictícios, – foram às ruas enfrentar a desordem pública que explodira no planeta com a proliferação do tráfico de drogas e de armas, surpreendendo o sistema viciado em “defesa interna” e “defesa territorial”.

O foco agora era a segurança pública e sua equivalente “defesa pública”; o quartel tornou-se quarteirão; a ficção tornou-se realidade; o militar deu lugar ao policial; a tropa tornou-se indivíduos fardados ocupando as ruas e logradouros; e as pressões desancaram o equilíbrio representado por um militarismo cuja hierarquia fundava-se na camaradagem entre superiores e subordinados, e numa disciplina consciente. A confiança cedeu lugar à desconfiança; os interesses típicos do micropoder policial começaram a predominar na cultura da tropa, que deixou de ser aquartelada para se tornar “forma e tipo de policiamento ostensivo”. O restrito quartel fragmentou-se no exigente ambiente social subdividido em “áreas, subáreas, setores, subsetores e roteiros de patrulhamento”.

Com efeito, o anterior “sentir-se militar” naturalmente predominando sobre o “ser policial” desequilibrou-se deveras; a calmaria dos quartéis rendeu-se à turbulência ambiental; as cobranças regulamentares perderam seus limites, antes salutares, e se tornaram doentias; a tropa, antes musculosa, engordou; a beleza da farda deu lugar ao temor de usá-la; a medo dos bandidos, os militares das Forças Armadas e das Polícias Militares sumiram das ruas; suas identidades foram parar na sola dos pés, dentro dos sapatos; nunca mais se viu farda de PM pendurada nos quintais secando ao sol aberto.

É o que vivenciei ou assisti desde que fui às ruas sem qualquer preparo, como se a “tropa” não ultrapassasse a ideia dos bonequinhos de chumbo de nossas ficções estratégicas, táticas e operacionais em “teatros de operações” e “cenários” projetando ações como num “set de filmagem”. Tornamo-nos, nós, policiais militares, seres de carne e osso e alma a enfrentar isoladamente os perigos reais; os tiros de festim dos nossos treinamentos hoje se reduzem às honras fúnebres nos cemitérios que nos acolhem diariamente.

Hoje, os tiros são reais; a nossa imagem é ruim, apesar do sacrifício extremo a que somos submetidos; o militarismo, antes vocacionado e saudável, transformou-se em arma contra a tropa individualizada ao modo policial. Não somos mais militares, apenas fingimos ser para efeito de cobranças regulamentares típicas do militarismo em tempos de guerra ou em tempo algum. A culpa é sempre do subordinado. O militarismo PM incorporou ao seu dia a dia a lógica cruel da punição banalizada e a alegria anterior rendeu-se por inteiro à tristeza.

Ah, se houvesse mercado de trabalho disponível ao jovem brasileiro!... Poucos aceitariam ser policiais-militares. Mas, como a miséria é grandiosa, e é melhor morrer de tiro que de fome, a fila de ingresso na PM, – tal como boiada que aumenta no pasto enquanto as florestas desaparecem do mapa brasileiro, – a fila de ingresso na PM é tão tamanhona quanto a fila de policiais-militares sepultando companheiros descartados da vida na tenra idade. Ontem, a lógica era a de que o bandido morria cedo; hoje, a lógica é a de que o policial-militar morre antes do cedo. É o que vivenciei na juventude dos bons tempos e na maturidade dos maus tempos hodiernos. E sofro as mesmas dores ao perceber que tudo piora e tende à caótica desordem pública.

Ora bem... Fosse eu agora o jovem de outrora, não me arriscaria a começar a vida na condição de soldado PM. Nem de oficial. Preferiria me submeter aos irascíveis gerentes e patrões civis, ou tentaria concurso em outras profissões estatutárias. Pois, quando vejo, hoje, um jovem ingressar na PMERJ (infelizmente não pude evitar que parentes meus assim o fizessem), sinto uma profunda angústia.

Não consigo projetar sua imagem à velhice; espelho-a em exemplos reais de jovens entregues aos cuidados médicos de nossos e de outros hospitais: paraplégicos, tetraplégicos, desmembrados por tiros de fuzil ou acometidos de graves doenças psiquiátricas e psicológicas; ou, pior que tudo: vejo-os facilmente descartados da corporação como lixos inservíveis. Mas nada disso é problema dentro da lógica do “militarismo policial” de agora. A fila de “vocacionados ao abate” aumenta na proporção do crescimento populacional e da miséria do povo. Árvores são cortadas, florestas diminuem, a manada multiplica-se nos pastos tristes, as nascentes secam, a vida e a morte continuam, enquanto o planeta Terra viaja pelo Universo, ambos indiferentes ao desastre social que nos assola por nossa culpa exclusiva...

 

 

A LÓGICA DA DISCIPLINA NA PMERJ

 

(Por Emir)

 

 

 

Eivado de contradições, antiquado, cópia de diplomas legais destinados ao Exército Brasileiro (EB) em épocas remotíssimas, ou adaptações malfeitas desses mesmos diplomas, a legislação disciplinar da PMERJ bate sobre a tropa em tal intensidade de imediatismo e injustiça que não seria demais afirmar que chega às raias da violência de superiores contra subordinados.

Ressalvadas as exceções, trata-se, com efeito, de modelo centrado em torno de “coisas” e não de pessoas; ou melhor, modela-as, as pessoas, como se fossem “coisas”. A começar pelo Estatuto, que se assemelha ao do EB em tempo de II Grande Guerra. Mas, enquanto o da força federal se aprimorou com o passar dos anos, a PMERJ mantém-se fiel ao carcomido modelo para evitar que convocados para a guerra se escusassem de suas responsabilidades inventando doenças, por exemplo.

Na verdade, e sem exagero, a legislação da PMERJ é igual à do EB até nos pontos e vírgulas, “cópia xérox” da outra, que, como dito, adaptou-se aos novos tempos, enquanto a da PMERJ permanece no mesmo porto de embarque dos tempos da guerra. Inclui-se também no exemplo de legislação anacrônica o Regulamento Disciplinar (RDPM), que, para variar, em nada difere daquele modelo antigo destinado ao EB, este, porém, também aprimorado ao longo dos anos. Acrescem-se a esse modo preguiçoso de copiar o que já está feito os textos referentes aos Conselhos de Disciplina (CD), de Justificação (CJ) e de Revisão Disciplinar (CRD), demais do Conselho Escolar Disciplinar (CED), este último destinado a avaliar cadetes, porém todos aberrantemente inconstitucionais e inadequados aos novos tempos.

De forma draconiana, a legislação disciplinar da PMERJ se volta contra a tropa como se fora borduna de bugre. Cobra deveres exagerados e pune com rigor excessivo em regime onde prevalece a desconfiança de cima para baixo. Em contrapartida, há a insatisfação e a revolta de baixo para cima. Pior que tudo isso: a Justiça (Varas de fazenda Pública) costuma privilegiar as péssimas soluções disciplinares adotadas pela PMERJ, ressalvadas algumas importantes decisões que, aos poucos, estão predominando em favor dos prejudicados. Porém, ainda não se formulou uma jurisprudência segura e extensiva aos injustiçados em geral. Mais fácil seria a PMERJ mudar o modelo; porém, não parece que isso incomode a nenhum dirigente, nem de ontem, nem de hoje, e quiçá nem de amanhã.

A impressão que fica é a do desleixo, ou pior, da incompetência daqueles que deveriam primar por um melhor futuro institucional. Contrário a isso, porém, o modelo enraíza-se no que Erich Fromm designa em seu livro (Ter ou Ser?) como “modo ter” (“sou mais, na medida em que tenho mais”), com predomínio do egoísmo, da indiferença pelos valores pessoais em vez do respeito à dignidade da pessoa humana.

 

A questão crucial é a de que o egoísmo, como igualmente ensina o importante estudioso, “refere-se não só ao nosso comportamento, mas também ao nosso caráter”. Maior exemplo do caráter dos dirigentes, em sua maioria, resume-se numa frase muito ouvida internamente: “Tenho a tropa na mão!” Isto, em resumo, o supracitado autor designa como “autoridade irracional”, típica autoridade hierárquica baseada no “ter”. E, neste caso, o desfecho seriam as “relações sociais autoritárias”, que se reduzem à ideia seguinte: “a autoridade hierárquica está estreitamente relacionada com a marginalização e o enfraquecimento dos que não têm autoridade.” (Erich Fromm).

Enfim, vê-se a ênfase no “modo ter”, em detrimento do “modo ser”, embora o primeiro esteja sempre dissimulado no “parece ser”, na “persona”, embotando o “ter” por meio da falsa projeção do “ser”.

Neste ponto, deve-se esclarecer que Erich Fromm generaliza a dimensão de seu estudo justificando-o como situação inerente a toda a humanidade, o que explica o modelo PMERJ não como aberração única, mas apenas vagão acoplado à locomotiva do “modo ter”. Só que, na prática, as atividades policiais deixam de ser produtivas e geradoras de motivação, dando lugar ao pessimismo e à desesperança. Por isso, é comum verificar que o maior prazer do PM é a folga longe dos olhos desconfiados e punitivos dos superiores. Mas esse prazer não faz bem à saúde psíquica e física da pessoa humana representada pelo PM, mormente o de menor graduação ou patente.

Na verdade, o “caráter” voltado para o “modo ter”, por ser generalizado e cruel, provoca situações ambíguas e até estapafúrdias nas relações internas: o PM que sofre pressões de cima transfere-as para baixo até alcançar o soldado, este que, por sua vez, desconta tudo no destinatário dos seus serviços; o cidadão a quem deveria proteger. E espera “ter” o máximo que possa conseguir materialmente, para logo arribar de tão odiosa profissão. Com efeito, é esse homem que vai às ruas para proteger o cidadão...

Ora bem, talvez valha a pena discutir seriamente a questão da legislação disciplinar alterando o seu foco, que adrede rotula o ser humano como fundamentalmente mau, para outro, mais salutar, que situa o homem como basicamente bom, capaz de executar atividades produtivas e ser feliz.

O inverso, porém, é o que prevalece: a execução sistemática de tarefas restritas ao “cumprimento do dever” e à fuga das ameaçadoras punições por motivos comezinhos. E, ao final das tarefas, surge invariavelmente a tristeza e a revolta de subordinados contra superiores, bagunçando a hierarquia e a disciplina, que devem ser respeitadas sempre e de modo salutar.

Com efeito, a crítica não justifica a quebra da hierarquia e da disciplina nem justifica a desídia em relação aos sinais de respeito que caracterizam a vida castrense. Mas isto já acontece, e muito, por causa da revolta acumulada, pior é que muitas vezes acobertada por “bondades”, num sistema em que a impessoalidade é imperativa, mas se fixa na pessoalidade da maldade...

 

É assim a disciplina na PMERJ: a imposição pelo temor da punição, em vez de um sistema de motivação que primariamente dignifique o ser humano em sua condição de servidor público policial-militar. Cá entre nós, não é difícil mudar, basta coragem e crença na qualidade a ser aprimorada, e não na quantidade a ser descartada como lixo inservível.

 

 

A DISCIPLINA NA PMERJ – UMA BREVE IDEIA DE MUDANÇA

(Por Emir)

 

 

No sistema jurídico pátrio, além das instâncias superiores de recurso há a prevalência de decisões colegiadas em contrapartida de decisões individuais. Na primeira instância, excetuando-se os crimes decididos pelo Tribunal do Júri (colegiado popular), as sentenças são prolatadas por juízes isolados, delas cabendo recurso a instâncias superiores formadas por colegiados. Nestas, o relator do processo e o revisor apresentam seus votos, e os demais membros do colegiado decidem se concordam ou não com eles. Enfim, nesse processo democrático, as decisões colegiadas são sempre prevalentes em cotejo com as decisões individuais.

Na PMERJ é o contrário, ou seja, os colegiados investigam faltas disciplinares e votam contra ou a favor dos acusados. Mas os comandantes de OPM, que determinaram a abertura de procedimentos administrativos, podem discordar da decisão colegiada e modificá-la, assim como o comandante-geral, em decisão final intramuros, pode mudar tudo, como se a apuração na menor esfera hierárquica, embora plural, não valesse absolutamente nada. Enfim, como se todos fossem capciosos ou estultos. Enfim, a verdade e a razão pertencem a quem manda mais, sistema que lembra os tempos inquisitoriais e absolutistas em que todas as cartas eram adrede marcadas pelas autoridades determinadoras de apurações. Tal comportamento absurdo de quem manda mais lembra, na verdade, os métodos de um Tomás de Torquemada...

A polêmica em torno do assunto vem ganhando espaço público. A Comissão de Segurança Pública da ALERJ começa a questionar o modelo disciplinar da PMERJ, que se resume a um processo decisório injusto, eis que desmoralizante para os colegiados disciplinares. Todavia, ninguém mexe uma palha para modificar esse sistema concebido num passado tão distante que se poderia dizê-lo remoto.

Seria tão difícil estabelecer critérios mais justos e transparentes, respeitando os direitos humanos dos militares estaduais (é idêntica a situação no CBMERJ)?... Porque, em possuindo estruturas semelhantes, ou seja, ambas as instituições são organizadas, basicamente, em comando-geral, estado-maior, comandos intermediários e comando de unidades (regimentos, batalhões, companhias ou equivalentes OPM ou OBM), não seria possível estabelecer numa só lei os critérios norteadores de um novo sistema disciplinar, com o privilégio das decisões colegiadas?...

Ressalve-se, porém, por amor à verdade, que atualmente uma instância de decisão foi engolfada pela política e os antigos comandantes-gerais são hoje secretários de estado, acumulando em si as decisões dos comandantes-gerais e as de secretário de estado, não havendo mais essa instância de recurso. Como reedição do carcomido e tenebroso tempo do major Vidigal...

Apenas como sugestão, o sistema poderia funcionar por meio de Tribunais Disciplinares (TDs), composto por cinco ou sete membros, funcionando nos comandos de área, para julgar transgressões que se configurem passíveis de desligamento do acusado dos quadros da PMERJ e do CBMERJ.

Deste modo, em vez de o comandante de OPM e o comandante-geral decidirem sobre o destino do militar estadual submetido a Conselho Disciplinar, como nos moldes atuais, ele encaminharia o processo administrativo (que seria Sindicância ou IPM) para confirmação ou mudança da decisão colegiada pelos TDPI (Tribunais Disciplinares de Primeira Instância).

No TDPI, em se mantendo os superados PADs (CRD, CD, CED e CJ), eles passariam por reavaliação a partir de um relator e de um revisor, com espaço para apresentação de alegações de defesa e de acusação, para depois, aí sim, ser publicamente julgado por todos os membros dos TDPI, com total independência, podendo-se admitir a presença dos públicos interno e externo em sua fase final. Já nos casos de averiguação, sindicância e inquéritos policiais militares, as decisões seriam conforme o rito atual, exceto quanto a algum desdobramento disciplinar, quando então seriam igualmente encaminhados para o TDPI deliberar com independência e isenção.

Nenhuma novidade, seria como funciona o colegiado da AJMERJ. Os TDPIs contariam com um presidente designado por período de um ano, assim como os demais membros (quatro ou maIs), tendo em cada processo um relator e um revisor. A estrutura dos TDPIs contaria com uma secretaria para garantir formalidades e prazos. Quanto às formalidades, nada impediria que fossem as mesmas que se aplicam aos atuais conselhos disciplinares (que devem ser extintos), às averiguações, às sindicâncias e aos inquéritos policiais militares – o rito formal.

Como esses Conselhos Disciplinares são para processar administrativamente graduados, praças, e praças especiais, eles poderiam seguir o mesmo rito, exceto quanto às decisões isoladas de comandantes, chefes e diretores, limitados ao encaminhamento dos resultados dos conselhos aos TDPIs respectivos para avaliação, relato, revisão e julgamento, cabendo às partes apresentar alegações finais escritas e acusação e defesa orais em ato público. Eis como se eliminaria a decisão isolada de quem manda mais e se garantiria a mais absoluta transparência, com ressalva de que não mais haveria de haver decisões de “Conselhos Disciplinares” e outros PADs com premeditada homologação, ou não, da autoridade que os determinou.

Quanto ao procedimento administrativo destinado a oficiais, o Conselho de Justificação (CJ) permaneceria como está, mas a decisão interna sobre o destino do oficial seria igualmente tomada por TDSI (Tribunal Disciplinar de Segunda Instância), este, formado por coronéis sempre mais antigos que o de igual posto que esteja sendo avaliado por CJ, ou por TDSI designado pelo comandante-geral também por prazo de um ano e sorteio entre a oficialidade superior, de modo que os TDs possam funcionar com majores (para julgamento de capitães e tenentes), tenentes-coronéis (para julgamento de majores) e coronéis antigos (para julgamento de tenentes-coronéis e coronéis). O resultado desse julgamento na esfera administrativa seria então encaminhado aos comandantes-gerais da PMERJ e do CBMERJ e/ou secretários de Polícia Militar ou de Defesa civil, aos quais caberia apenas encaminhar o desfecho ao Tribunal de Justiça para decisão final, como reza a Carta Estadual. Enfim, às autoridades maiores (comandante-geral, corregedor unificado e secretário de Segurança Pública) caberia apenas encaminhar o feito sem interferir no resultado do julgamento pelos TD de Primeira ou de Segunda Instâncias.

Por outro lado, à autoridade maior (Governador do Estado) caberia alterar o resultado desde que para beneficiar os acusados por meio de decisões humanitárias, a critério da própria autoridade máxima no âmbito disciplinar. Nesses casos, os processos de revisão das decisões ainda no âmbito administrativo contariam com o direito de perdão por parte do governante, desde que, claro, as transgressões disciplinares não tenham resultado em crimes capitulados em códigos e leis referentes.

Como se vê, trata-se de sistema legal que visa a proteger os comandos, chefias e direções do incômodo de se tornarem “vilões da história” ao mudarem decisões de colegiados, o que muitas vezes ocorre sem que isto represente nenhuma vantagem à hierarquia e à disciplina. Com a mudança dos critérios, não haveria mais especulações sobre injustiças endereçadas a essas ou aquelas autoridades, que, todavia, continuariam a punir faltas leves e a determinarem abertura de procedimentos administrativos (Sindicância e IPM), liberando-se apenas de referendar decisões contrárias às dos colegiados, o que hoje acontece é um absurdo.

O respeito à decisão colegiada é o que falta ao sistema disciplinar, hoje desmoralizado em vista de abruptas decisões individuais retaliando oficiais e praças depois de absolvidos de suas faltas pela justiça, de modo que essas decisões, que se tornam inúteis, são mantidas por quem manda mais no escalão hierárquico/disciplinar/piramidal. Um absurdo!

Daí a necessidade de alteração do sistema punitivo dos militares estaduais, eis que distante dos preceitos constitucionais que informam os direitos humanos e a cidadania. Porque a violência disciplinar hoje funciona como uma carreta sem freios descendo ladeira abaixo, ao sabor de idiossincrasias que não servem mais que para desancar o prestígio da PMERJ e do CBMERJ junto à sociedade.

Manter tal sistema é permanecer numa escuridão secular, que só traz prejuízos ao moral da tropa e à legitimidade da corporação perante os públicos interno e externo. Pois cada anúncio de exclusão coletiva contrariando decisões colegiadas cria no espírito da tropa um sentimento de terror que não interessa ao cidadão destinatário dos serviços desses militares estaduais hoje tratados a ferros como nos tempos remotos dos “castigos-espetáculos”.

0Claro que se trata de opinião sucinta. É necessário aprofundar a ideia até torná-la realidade, o que deveria ser por iniciativa do governante. Como ele vem de quando em quando atropelando a PMERJ e o CBMERJ, eis uma boa hora de ele se redimir com um ato de enorme efeito positivo na tropa, sem que, no entanto, se torne benevolente em relação à hierarquia e à disciplina castrenses.

 

Se ele e outros governantes tanto proclamam que pretendem mudar o sistema disciplinar, que então se iniciem por essa mudança no modelo punitivo. Afinal, é a pirâmide de poder que dá a apenas um a excessiva condição de retaliar, em detrimento de um colegiado disciplinar sem mais espaço para desmoralizações coletivas da tropa; pois esta sabe, adrede, que as decisões colegiadas de hoje são como esparadrapo em fratura exposta: sempre inofensivas ante o poder maior de quem manda de fato no quartel, e que produz, no fim de contas, a fratura, para expô-las como troféus de “disciplinador”; tal como fazia o Major Vidigal:

 

“[...] O Major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo da administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas. Exercia enfim uma espécie de inquisição policial [...]” (Manuel Antônio de Almeida in Memórias de um Sargento de Milícias – Editorial Sol90, Espanha, Barcelona – 2004)

 

 

"A ÁRVORE IMPEDE DE VER A FLORESTA"

(Provérbio alemão)

 

 

São necessárias as medidas adotadas pela PMERJ para combater desvios de conduta, mas pecam pelo exagero e por vezes generalizar o discurso e tornar suspeita uma coletividade inteira, em contraposição à exaltação de alguns poucos que se apresentam na mídia como "salvadores da pátria", os chamados “disciplinadores”.

 

Boa providência seria verificar profundamente as reais condições de vida dos PMs, modo de começar a separar o joio do trigo, embora não se possa descartar que num sistema capitalista haja policiais paupérrimos e outros lucrando honestamente em empreitadas comerciais, industriais, artesanais, de segurança etc. Há ainda os que organizam festas, num faz-tudo familiar que lhes exige metamorfose do tipo fritar bolinhos de avental, e, em seguida, se enfiarem em roupa de garçom para atender aos comensais. Depois, limpam o salão na solidão do fim da festa. Já outros pintam paredes, e quantos exemplos mais de probidade poderiam ser sublinhados!...


     Sim, é bom que se saiba que o PM tem o direito de não passar fome, de não morar em favela, de melhor educar seus filhos; enfim, de viver com dignidade, o que seu salário não supre. Por outro lado, é inadmissível que PMs façam trato com bandidos, embora haja exemplos gritantes de conluio entre políticos e facções criminosas, tudo acontecendo debaixo dos narizes dos esfarrapados PMs, que de tolos não têm nada e estão a observar os tubarões do serviço público enriquecendo por conta do narcotráfico, da pirataria e da corrupção a surrupiarem milhões de dólares do contribuinte. Ora, reduzir tudo isto à falácia do rigor contra o mau policial (“corrupto”) é mostrar a árvore para ocultar a floresta!...

     

É muito grave o envolvimento de PMs com o crime, sem dúvida. Afinal, o que a sociedade espera é eles prendam ou matem os bandidos, ou até morram em contendas insanas, especialmente contra traficantes favelados. Isto desloca o problema para o crescente número de viciados, com o tráfico atendendo a demandas cada vez maiores. Eis, talvez, o foco primeiro do problema, pois tende o viciado a se submeter ao poder do traficante. E considerando que a sociedade é o somatório de sadios e viciados, é claro que ambos estão naturalmente enfiados em instituições públicas e particulares.

 

Na polícia não é diferente. Um policial viciado (esclareça-se que o vício não é apenas na base da pirâmide) é também refém de traficantes. Mas se pergunta: "Qual será o número de viciados entre os agentes públicos em geral? E no seio da sociedade"?... Que fique no ar outra pergunta: "Por que não desafiar os policiais a enfrentarem voluntariamente o teste, autorizando inclusive exames de surpresa?"

 

Cá entre nós, que os dirigentes políticos e as altas autoridades deem o exemplo e sejam os primeiros a se submeterem ao teste para provar que não se integram a esse contingente de dependentes químicos que entregam suas vidas aos traficantes por um punhado de coca, ou se corrompem por um punhado de reais! Ou abdicam de sua honra por um punhado de votos...