domingo, 10 de maio de 2026

  

DO GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

 (Ainda não editada)

 

Foto histórica: Caserna General Castrioto

 Sede do comando da Guarda da Província Fluminense

 

 

 

 

Niterói

2020

O GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

DEDICATÓRIA

 

Ao mestre, amigo e compadre, Coronel PM Jorge da Silva, que me encorajou a enveredar pelos caminhos da literatura e me aconselhou ao longo de minha carreira (in memorian).

À Família Pessanha Larangeira, que, vinda de Portugal, vem honrando seus antepassados e mantendo firme sua identidade de Pessanha com dois “SS” e Larangeira com “G”.

À família Paraquett, à família de Lédio Ribeiro, à família Soares (João Batista), sustentáculos de minha vida.

Aos veteranos da PMERJ, desdenhados pelo sistema político do RJ, porém aguerridos na defesa da Corporação contra tudo e todos.

 

Aos companheiros das PMERJ e PCERJ injustiçados pelo brizolismo e por governantes posteriores, sem distinção.

 

Aos PMS e BMS brasileiros, ativos e veteranos, combatente até a morte”

 

Aos insignes Magistrados e Promotores de Justiça que entendem o sacrifício da PMERJ, mantendo-se obedientes às leis, mesmo as contaminadas por ideologias.

 

Aos insignes Defensores Públicos, Advogados e Estudantes de Direito, dos quais a PMERJ muito necessita.

 

Aos insignes Policiais Civis, Policiais Penais, Policiais Federais e Policiais Rodoviários federais sempre solidários e valiosos.

 

Aos insignes Guardas Municipais em nova roupagem legal, que se somarão ao labor da segurança pública e serão bem-vindos à luta.

 

Aos insignes integrantes das Forças Armadas, ativos e inativos, dos quais precisamos da ajuda para combater a calamidade do banditismo urbano, expressão cunhada pelo Coronel da FAB Coriolano Luiz Tenan, especialista em Defesa Civil.

 

A todos os enlutados da família policial, em especial às pensionistas especiais cujos esposos morreram ou foram feridos em combate ou adquiriram doenças físicas e mentais por conta do exercício da perigosa profissão Policial Militar, esta, que os leva à morte precoce, porém sempre incompreendida.

 

A meus filhos e netos, a meus irmãos, a Evanir Larangeira, meu “irmão-filho”, in memorian.

 

Aos cidadãos e cidadãs brasileiros do BEM: do asfalto e da favela.



DO GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

APRESENTAÇÃO

 

Não sei como designo este texto, se romance, se documentário, se biografia, sei lá. Sei apenas que ele me veio bem mais da emoção, - a princesa dos azares, - do que da razão, - a rainha da premeditação. Seja como for, vou em frente, ora em atino, ora em desatino, não há como medir as coisas da vida nem da morte, tudo é muito veloz e aleatório, tal como na Física Quântica e suas partículas subatômicas que constituem o infinito Universo das Galáxias e das Estrelas que viajam em eternidade num vazio do antes e do depois do big bang. Posso dizer ao amigo leitor que passei mais de um ano para descrever a precoce morte do meu pai, e o que me viria após esse atroz sofrimento. Confesso, sim, que me foi quase impossível, e muitas vezes desisti de escrever esta minha biografia a partir deste ponto crucial.

Vencida esta emoção, todavia, a história em si se me apresentava com outro obstáculo: ou eu narrava etapas de minha vida, alternando emoção e razão, ou me deixava vencer pela emoção e me prenderia à família, indo de geração em geração, o que, ao fim e ao cabo, não passaria da construção de uma “árvore genealógica. Não era meu propósito.

Com essas dúvidas no espírito, determinei-me narrar uma coisa e outra (razão e emoção), tentando equilibrar o fiel da balança. Assim segui em frente até o desfecho, num processo de triagem de fatos e versões que tornaram o texto quase que pedra de Sísifo a ser carregada nos meus costados.

Como todos poderão verificar, eu não poupei críticas. Fi-las, porém, com sinceridade, para que o leitor saiba que nem tudo foram flores a partir da Fusão do RJ com a GB, em 1975. Os conflitos foram reais e intensos, por minha culpa ou por culpa dos meus detratores, não me caberá julgar, mas apenas registrar o que de fato aconteceu a partir do meu máximo exemplo de inconformismo, sendo certo que a maioria, de um lado e de outro, talvez tenha optado pelo conformismo ou pelo aproveitamento de oportunidades, ajustando-se a quem mandava mais no contexto corporativo, o que não poderia ser meu caso, meu espírito inconformado não me permitiria.

Enfim, entre trancos e barrancos, concluí o texto, ou quase, pois é certo que me lembrarei de outros assuntos de caminho até a publicação definitiva do livro, o que é normal. Afinal, a releitura me poderá permitir a sorte de algum relance literário, de alguma jogada de estilo, como nos recomenda Gladstone C. de Melo no seu “Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa”. Ler muitas vezes o texto até surgir o “estalo” é preciso. Haja esforço!

Muito bem, a sorte está lançada, fixei meu nome como título porque é o do pai, de quem herdei de pia o mesmo nome; é, enfim, a história dele misturada à minha, como consequência da dele, sem preciosismos ou pieguices. Afinal, prezado leitor, esta é apenas uma dentre bilhões de histórias de vida, que, “se escritas, dariam uma grande aventura”, como nos brindou Jean-Paul Sartre. Com efeito, poderia ser aqui, também, sua própria história.

 

Vamos então à aventura e seja o que Deus quiser!...


O GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

PREFÁCIO

Junto as minhas mãos em concha desesperançada. Tento segurar o tempo que me escorre entre meus dedos e me deixa de mãos vazias. Não há como fazê-lo, ele parece mágico, impalpável, implacável, o único dono do meu destino.

Conformo-me. Que fazer contra o tempo?... Nada. Não há como vencê-lo, ele finge não existir e segue sua finalidade eterna, enquanto eu me espanto ante a realidade do fim do meu caminho cada vez mais próximo. Fico imaginando o porquê de ter nascido. Tento ser individualista nesse pensamento e não consigo, pois logo me ponho a pensar nos meus filhos.

Vim ao mundo por meu pai e minha mãe; fiz o mesmo: postei no blog da vida a minha ninhada. Mas me indago sempre: “Para quê e por quê?” Não sei. Não encontro resposta a não ser no outro que a mim se assemelha e no mundo estranho que me rodeia, mundo de alegrias extremas e de infelicidades desastrosas.

Que mundo é este? Que universo tão incógnito é este no qual, aparentemente, estamos dentro dele como parte ínfima e íntima. Quem somos nós? Eis a pergunta que percorre o mundo e movimenta o pensamento humano. As respostas não me convencem, estou certo de que não me há o direito de saber. Então, como me vou situar em privilégio por viver a vida? Que paradigma posso adotar para me justificar a mim o meu existir? Não sei... Não sei.

Volto ao passado e às lembranças da infância. Lembra-me vagamente a casa dos primeiros anos e as imagens fragmentadas de mim mesmo e dos que me rodeavam: a família. Lembra-me São Gonçalo, a casa da frente e a meiágua dos fundos. Na frente, lembra-me a minha avó paterna, a minha mãe e o meu pai. No quintal, lembram-me os primos que atrás moravam.

Tudo simples, chão batido, casa de pobre, decente. Lembra-me, entre uma casa e outra, um quarto; nele, um homem definhando numa cama: meu tio Acyr, ex-sargento da PM e depois comissário da policial civil, que logo sairia do mundo levado pela tuberculose, dando-me tempo de ver seus pés amarrados um ao outro indo embora para sempre. Não me lembra choro de ninguém, eu não entendia o que ocorria, mas me dava certo alívio por saber que aquele homem não mais me provocaria temor. Motivo para temor? Não havia. Mas ele, o temor, me tomava a alma toda vez que eu cortava o quintal entre a casa da frente e a meiágua de trás.

Depois, parece que o tempo se esqueceu de mim, ou me esqueci do tempo, não sei. A memória me retorna vivendo em Campos dos Goytacazes. Agora estou numa casa enorme, perto da estação do meu trem; uma chácara apinhada de árvores frutíferas. A estação ainda existe em processo entrópico; não mais existe a casa, somente a estação envelhecida. Fase boa, porém estranha, meu pai vivendo nos roçados de Santo Antônio do Imbé, mata virgem situada em Conceição de Macabu, município próximo de Campos. Fase boa, tempo bom, sim, meu pai e eu, juntos, na roça, ele sendo chamado pelos camponeses de “Seu Luís”. O nome dele era Emir. Nada de “Luís”.

Eu não entenderia aquilo até alcançar a fase adulta; achava os camponeses burros ao errarem sempre o nome do meu pai, e menos entendia vê-lo atendendo ao chamado. Só desvelei o mistério muitos anos depois daquela mudança abrupta de São Gonçalo para Campos e a clandestinidade do meu pai. Contudo, muito novo, talvez com oito anos, minhas preocupações eram menos essas e mais a de aprender a andar de bicicleta. Vivia também minha rotina semanal, até o fim de semana em que, invariavelmente, eu fazia companhia ao pai indo ao roçado num velho caminhão. Nem lembro se ele dirigia ou se era o irmão dele, Urany, ou outro a pilotar aquele “queixo-duro” pelas estradas poeirentas ou enlameadas, dependendo do tempo. Ah, tempo! Sempre ele, o tempo!

Minha rotina: parte da manhã, Colégio José do Patrocínio, canto do hino em sua homenagem e aulas esquecidas. De tarde, fugas para aprender a rodar a bicicleta alugada com moedas que eu furtava do bolso do paletó do pai. Ele nunca dava falta ou fingia não dar. Decerto sabia o destino delas ao observar meus joelhos ralados e tratados a mercurocromo. Mas, ai de mim se eu me assanhasse a pedir moedas de algum tio ou primo mais velho! Esse comportamento terminava sempre em merecida surra. Não pense que reclamo, a vida era boa: comida farta, galinhas ciscando no quintal, galos de briga trancafiados como joias raras; havia canários de briga igualmente criados em impressionante zelo por meu pai. Sim, cada ovo de poderosas galinhas caipiras recebia marcação a lápis e era reservado como se fosse pérola. Afinal, ali dentro poderia estar um futuro campeão.

Assim a vida seguia seu curso, o tempo lerdo fazia as coisas se tornarem imutáveis naquela pacata cidade campista, até que meu pai adoeceu. Em princípio, no início da doença do pai, permanecemos no casarão. Depois fomos amontoados na meiágua de vovó Neném, mãe do pai, com ele acamado e piorando a cada dia. Fase ruim, muito ruim... A doença não mais o deixou e a morte o alcançou aos 39 anos, muito novo. Assisti em espanto ao seu último suspiro, meu tio Urany (já falecido) segurando a cabeça do pai no seu colo, sentado na cama com as pernas na posição da ioga. Ali, no regaço do irmão mais novo, o pai nos deixou: eu e mais quatro irmãos (duas irmãs e dois irmãos) e minha mãe. Uma heroína ela foi: a mãe!

Da mesma forma abrupta com que fomos parar em Campos, foi o nosso retorno a Niterói na semana seguinte à morte do pai. A mãe decidiu romper as amarras campistas e embarcou num trem com seus cinco filhos e mais nada além de trouxas contendo poucas roupas. Enfim, reduzida materialmente a nada, a família instalou-se numa pequena casa da irmã de minha mãe, tia Gilda. Viviam na casinha dela, tia Gilda, vovó Mocinha, tio Pery e um filho pequeno, Augusto, meu primo-irmão. A casa, que mal dava para quatro, acolheu mais seis. Não me lembro como isso se arrumou, mas a vida foi reiniciada do zero num ambiente social hostil. Era assim o bairro da Engenhoca naqueles tempos (década de cinquenta).

Em Campos não havia a cultura da violência nas ruas. As crianças se davam bem, raramente brigavam. Não havia disputas de território nem valentias gratuitas. Mas em Niterói, especialmente na Engenhoca, era o contrário, cada rua possuía um “dono”: um garoto supostamente mais valente e bom de briga. Seja qual fosse a razão, assim funcionava a convivência entre as crianças: a medo do aparentemente mais forte. Claro que não fugi à regra da ameaça imediata quando apontei meu nariz curioso para a rua em que entrei a morar, ainda em espanto pela morte do pai. Conto depois...

Mas vamos à síntese deste prefácio que lembra a locomotiva do trem da minha vida... Torno à Travessa Ribeiro, 62 – Porto da Madama – São Gonçalo/RJ. Curioso... Agora sou tocado por um detalhe: escrevo isto como antevisão de minha história de vida, aos 62 anos de idade... Ah, mas hoje há uma casa nova no lugar da outra, em que eu e meus irmãos (Enilda, Édio, Elma). Evanir (falecido) nasceu em Campos dos Goytacazes. Na travessa Ribeiro, também vieram ao mundo meus primos José Onayr e Sônia Regina (ambos falecidos), filhos de tio Itassy e tia Gloria (falecidos). Uma grande ninhada familiar, que foi crescendo com a vinda dos filhos de tio Urany (Margot, Wagner, Rosângela (falecida), Solange e Ubiratan Levi).

Antes dessa turminha, porém, surgiu pelas mãos de tio Acyr o bebê Carlos Alberto, que cresceu irmão deles; mas desconfio até hoje que ele é filho de tio Acyr com alguma mulata bonita, sua descarada preferência. O nariz de Carlinhos, meu “tio” e padrinho (ou primo?), é idêntico ao de tio Acyr. Não há de se negar, não se há como manter o mistério: Carlinhos foi gerado a partir de tio Acyr, pelo menos eu assim o deduzo; mas foi registrado como filho legítimo por vovó Neném e seu marido, vovô Rossini, embora este já estivesse debaixo da terra, quietinho, sem mais condições de fazer filho algum. Mas não se revirou na sepultura por ganhar um neto enviesado. Hehehe.

Tio Acyr dava medo! Era o mais velho dos irmãos do pai. Destemido policial civil, todos o respeitavam, embora seus irmãos, dentre eles o pai, fossem geniosos e valentões. Eram policiais-militares, exceto o pai, que seguiu rumo oposto: líder sindical da VIDROBRAS, grande fábrica estatal de vidros situada no bairro de Neves, São Gonçalo.

Na onda dessa fornada de crianças havia ainda a mais antiga de todas: os filhos e filhas de tia Iracy, única irmã do pai, casada com tio José Brás Soares, oficial da Polícia Militar, depois empresário bem-sucedido. Dele e de tia Iracy saíram Elcy, Jocy e Lecy (os dois últimos falecidos). Muito depois surgiria a precoce princesinha loira: Márcia Valéria.

Vou agora lembrar o pai antes de casar. Era da pá virada! Elegante, fumante desbragado, bonito, e amigo íntimo de Lédio de Sá Ribeiro, jogador do Botafogo em tempos de amadorismo e mais tarde formado em medicina. A dupla dava que falar. Eles andavam como irmãos para tudo que era festa e armavam o diabo. Certa vez, foram a um baile num local de chão batido. O calor e a poeira pareciam não incomodar as pessoas que ressumavam suores na dança, enquanto a poeira subia a se misturar ao rosto e ao corpo, como ainda o é no Nordeste. Lá pelas tantas, os dois espalharam pó-de-mico no chão e pularam fora. Esconderam-se na escuridão e se deliciaram vendo os dançarinos saindo do lugar se coçando como macacos nervosos. Como eu disse, eles eram da pá virada, mas depois de casados foram dois exemplares maridos.

Vim a conhecer Dr. Lédio depois da morte do pai, eí pude constatar o valor de uma amizade eterna. Pois, aos onze anos, eu já estava enfiado no Laboratório de Análises Clínicas de Dr. Lédio de Sá Ribeiro e no seio da família dele como espécie de reedição do pai. Dele, ouvi muitas histórias semelhantes à que resumi, deliciando-me por conhecer o pai depois de morto. Com Dr. Lédio o pai foi revivido dentro de mim em ressurreição de lembranças emocionantes. Mas não significa que fiquei na moleza. No laboratório, fiz muita coisa. Era tratador de sapos, na época utilizados em testes de gravidez (Galli Mainini). Se o nome do inventor estiver errado, peço desculpas. Nem os profissionais de hoje conhecem o teste, está superado por tecnologias que não vêm ao caso explicar.

Demais de cuidar de sapos, eu também esterilizava lâminas e lamínulas de vidro utilizadas em exames de urina, fezes e sangue. Dava uma trabalheira danada, era tudo feito manualmente, o risco de contrair moléstia era enorme. Foi meu caso: conheci quase todos os parasitos: áscaris lumbricoide, trichuris trichiura, necator americanus, giárdia lamblia e ameba, dentre outros.

Eu gostava de futebol, mas me inibia quando Dr. Lédio, sentado no chão, controlava a bola com a facilidade de um craque como Nilton Santos. Fazia com a bola o que bem entendia e me zoava por eu errar nas embaixadas; muito nervoso, logo eu, que fazia de tudo com a bola nos jogos do Esporte Clube Peixoto, no bairro do Engenho Pequeno, onde fui morar, numa casa da vovó Neném. Eu era titular do time e não fazia feio, de tal modo que cheguei a jogar por dinheiro no Juvenil do Costeira, Estaleiro rico, que pagava bem aos jogadores na disputa do campeonato da Liga Niteroiense de Futebol. Mas, diante dele, que jogou com Heleno de Freitas, eu ficava tenso e não conseguia fazer nada (risos),

Como alegria de pobre dura pouco, uma peritonite aguda quase me eliminou do mundo dos vivos. Operado com urgência no Hospital Antonio Pedro, passei seis meses convalescendo e o futebol já era! Eu só viria a jogar de novo na PMRJ, como soldado, e depois como cadete, com rígida orientação de não jogar nada do lado de fora, só no quartel e nas aulas de Educação Física. Qualquer acidente que me deixasse fora de combate por uma semana era desligamento certo. Futebol, só como torcedor, o que me era terrível.

Do Costeira, depois de um clássico contra o Canto do Rio Futebol Clube, no qual me destaquei, fui convidado a assinar contrato no juvenil do Vasco da Gama. Em São Januário, perguntei timidamente ao Tim, grande craque do Vasco, monstro sagrado, e me bateu uma ducha fria:  o salário do juvenil era zero, nada, dinheiro nenhum, somente alimentação e estadia em São Januário, se eu morasse longe. Fui para casa cabisbaixo, não podia nem pensar em sair da Ford, onde trabalhava duro com salário mínimo para ajudar em casa.

Desanimado, depois de ficar uns oito meses sem jogar convalescendo da cirurgia, capitulei, ingressei na PMRJ como soldado raso e disse adeus ao futebol profissional. Mas me alentava saber que fui convidado a jogar por um diretor da agremiação que possuía uma loja de atacado no Mercado de São Cristóvão, e me assistira a jogar pelo Costeira contra o Canto do Rio, time inicial do mestre amigo Gerson Nunes, o “Canhotinha de Ouro”, niteroiense, magnífico campeão do mundo pela Seleção Brasileira de 1970, um craque sem tirar nem pôr, mais velho que eu. Gerson jogou profissionalmente no Botafogo, no Flamengo e no São Paulo, se a memória não me falha. Tal como o monumental Tim, Gerson foi monstro sagrado do futebol-arte.

O jogo contra o Canto do Rio foi eletrizante. Vencemos de um a zero, com minha participação decisiva no lance do gol. Enfim, joguei bem e fui convidado a jogar no juvenil do Vasco encaminhado por Seu Tião, meu técnico e “olheiro” do Vasco na região. Tudo ilusão, a peritonite me derrubara e o futebol ficara para trás em minha fase de adulto-jovem.

Bem, eis uma pitada de minha história. Agora vou pegar o trem para alcançar o fim da linha, sempre a lembrar minhas idas e vindas de Campos a Niterói e vice-versa. Eram novos tempos, cheios de emoção. Mas vou começar como se não tivesse escrito nada até agora. Depois começarei como se nada ainda tivesse escrito neste mundo de momentos acumulados que chamamos vida.

Eis então a minha existência. Não reparem se o assunto ficar por vezes repetitivo, a emoção me envolve de tal modo que tenho de parar para enxugar as lágrimas. Pois se trata de minha história de vida, contada no estádio dos meus 76 anos e revisada aos 80. Tenho agora de dar um tempo a extravasar minha emoção de velhote...

A minha vida é ainda hoje um manancial de acontecimentos. Vamos a eles, como a partida de um trem com muitos vagões cheios e outros vazios, alguns descarrilados, outros cambaleantes, até chegar ao ponto final, que é o fim de todos, inclusive o meu, sem que eu saiba se esse fim é algum início de vida espiritual, embora eu pense como alguns filósofos do passado anteriores a Sócrates; diziam que nascer era pecado e a morte, punição por ter nascido. Ora bem, que assim seja! Mas que a história fique no livro e vença o tempo, este, que me escoa pelas mãos em conchas desesperançada e me escorre entre meus dedos... Devo então registrar a minha vida antes que minhas mãos se esvaziem e não mais me sobre tempo!...

 


segunda-feira, 3 de maio de 2021

A MELHOR SOLUÇÃO PARA A CRISE FLUMINENSE É ACABAR LOGO COM O ESTADO DO RIO

Por Christian Edward Cyril Lynch, professor do Iesp-Uerj e da Fundação Casa de Rui Barbosa. Por ser valiosa demais para ficar nas mãos (incompetentes) de seus governantes, a cidade do Rio de Janeiro precisa ser o quanto antes retomada pela nação Em artigo anterior, publicado quando da decretação da intervenção federal no estado do Rio, expliquei que a crise fluminense não é pontual nem idêntica à de outros estados; que se trata de crise longa e cada vez mais grave, cuja causa remonta à gerência da região durante 150 anos por parte da União federal, seguida pela atabalhoada transferência da capital do Brasil para o Centro-Oeste e, 15 anos depois, pela artificial fusão entre o antigo Distrito Federal e o antigo estado do Rio, imposta pela ditadura em 1975 a pretexto de criar um “poderoso estado” capaz de enfrentar o colosso paulista. A incapacidade gerencial do novo estado, entregue às elites cariocas e fluminenses acostumadas à tutela federal e incapazes de se orientarem conforme uma lógica “estadualista”, comprovou-se de modo evidente ao longo das décadas de 1970 e 1980. Em primeiro lugar, com a rápida perda da antiga centralidade política e econômica da “Velhacap” para Brasília e São Paulo, respectivamente: era o famoso “esvaziamento do Rio”. Em segundo lugar, pela gradual deterioração dos serviços urbanos antes sustentados pelo governo federal: educação, saúde e segurança pública. Foi devido a esse fracasso que, há cerca de 20 anos, a União começou a voltar ao município para promover intervenções “brancas” na saúde e na segurança do Rio, principalmente em época da eleição. A recente decretação de uma intervenção federal formal – a primeira desde 1966 – representa apenas o ponto mais baixo e crítico desse longo processo de degradação, iniciado pelo abandono da antiga capital sem qualquer plano ou indenização que lhe permitisse andar pelas próprias pernas e depois aprofundado com a criação, pela fusão com o antigo estado do Rio, de um estado artificial e anômalo, que nunca conseguiu forjar elites políticas entrosadas capazes de governá-lo de modo eficiente. O problema, porém, exige solução duradoura, que não é nem pode ser uma intervenção federal que, por sua própria natureza, é necessariamente excepcional. E a atual intervenção se limitará a promover uma melhoria momentânea, que cessará quando ela terminar, como das outras vezes. O Rio tem mais servidores federais que estaduais. Tem mais servidores federais que a própria Brasília As esperanças de recuperação do estado do Rio são escassas porque, conforme já explicado detalhadamente no artigo anterior, não se trata de um estado natural. Ele é anômalo. Nasceu imposto de cima para baixo no único caso da história brasileira de extinção de um ente federativo por fusão obrigada com outro. Sua capital estadual não é percebida, nem por seus habitantes, nem pelos demais brasileiros, como símbolo local, mas nacional. É a única vitrine do país. Tudo o que nela acontece repercute imediatamente (e exageradamente) na imagem do país, de forma positiva (como os Jogos Olímpicos) ou negativa (os arrastões, as balas perdidas, a favelização). Além de “nacional” simbolicamente, a capital do estado também destoa das demais por sua dimensão claramente “federal”: o Rio tem mais servidores federais que estaduais. Tem mais servidores federais que a própria Brasília, capital oficial. Cinquenta órgãos federais continuam na Velhacap, como a Casa da Moeda, o Arquivo Nacional, a Fiocruz, a Petrobras, a Funarte, a Biblioteca Nacional e o BNDES. A União continua sendo a maior proprietária de imóveis do município: são mais de 1,2 mil. Para se ter uma ideia aproximada do que é o estado do Rio, é preciso imaginar um estado de porte médio, como o Espírito Santo, que tivesse por capital não Vitória, mas uma metrópole grande como São Paulo, cuja região metropolitana abrigasse 75% de sua população e na qual, paradoxalmente, a União estivesse tão presente quanto está em Brasília. Diante desse quadro, que solução seria possível para resolver a situação do Rio, que há pelo menos três décadas se tornou uma dor de cabeça ao país? Ora, analisando friamente todos os componentes desse complexo quadro, não é difícil concluir que o único remédio lógico para a crise fluminense é, por incrível que pareça, de grande simplicidade: acabar com o atual estado do Rio. Em outras palavras, aceitar o fracasso do experimento institucional. Isto feito, deveriam ser tomadas duas providências. A primeira delas passaria por voltar a separar aquilo que a ditadura juntou: o antigo estado do Rio de Janeiro da cidade do Rio de Janeiro, restabelecendo a sede do governo estadual em Niterói. A segunda providência seria devolver a antiga capital da República ao controle do governo federal. Essa devolução poderia ser feita, hipoteticamente, de duas formas. A primeira seria pela restituição, ao atual município do Rio de Janeiro, de seu antigo estatuto de distrito federal, de que gozou desde 1889 até 1960. Nesse caso, o Brasil passaria a ter dois distritos federais, o de Brasília e o do Rio, regidos juridicamente de forma análoga, cabendo à União gerenciar sua segurança pública, sua saúde e sua educação. Na medida em que o governo federal até hoje divide sua administração entre as duas cidades, dar-lhes tratamento semelhante não seria nenhuma aberração. A segunda forma de devolver a cidade do Rio ao controle federal, por sua vez, passaria pela criação de um ente federativo sui generis, o da Cidade Federal do Rio de Janeiro, dotado de um estatuto específico, por meio do qual a União se limitaria a assumir a gerência da segurança pública, tornando permanente o que hoje está provisório por conta da intervenção federal. Aqui também não há novidade: é o modelo que foi adotado para reger as antigas capitais da Alemanha Ocidental (Bonn) e da Rússia (São Petersburgo). Como antiga capital, o Rio bem mereceria estatuto semelhante. Em qualquer dos dois casos, a cidade do Rio de Janeiro ficaria muito mais bem equipada para promover políticas essenciais à reversão da decadência desencadeada pela mudança da capital para Brasília – a primeira delas, a criação de um ambiente de segurança minimamente favorável à vida pública e aos negócios. Do ponto de vista tributário, o novo distrito ou cidade federal passaria a recolher não só os atuais impostos municipais, como o IPTU, o ISS e o ITBI, mas também os estaduais, no perímetro de seu território, como o ICMS e o IPVA. Além do patrimônio do atual município do Rio de Janeiro, o futuro “segundo DF” ou Cidade Federal passaria a administrar o patrimônio do hoje estado do Rio situado dentro dos seus limites, incluindo as escolas públicas, as atuais universidades estaduais e todos os equipamentos culturais e esportivos. Por sua vez, o governo federal poderia transferir para suas centenas de imóveis vazios no Rio inúmeras autarquias e fundações instaladas em edifícios alugados em Brasília, como medida de economia. A situação da antiga capital da República não interessa apenas aos cariocas e fluminenses, mas a todo o Brasil A reconversão da cidade do Rio de Janeiro em área federal também beneficiaria o estado do Rio. Novamente assentado em Niterói, seu novo governo estadual poderia voltar suas atenções para o interior (especialmente para São Gonçalo, na região metropolitana de Niterói), pondo fim à drenagem do contingente policial fluminense pela atual capital. Em termos tributários, o estado pouco sofreria, porque hoje há uma equivalência entre a riqueza produzida entre a capital e o interior. Além disso, na medida em que a maioria esmagadora dos servidores federais ficaria fora de sua jurisdição territorial, do outro lado da Baía de Guanabara, o estado do Rio ficaria, porque mais homogêneo, mais assemelhado aos outros estados da Federação. A probabilidade de voltar a ser um estado governável aumentaria, assim, com o fim da confusão entre cariocas e fluminenses. É verdade que a atual área da cidade do Rio excede os limites do município homônimo. Nesse caso, bastaria incorporar ao novo distrito ou cidade federal os municípios limítrofes da Baixada Fluminense, o que poderia ser feito por plebiscito. No mais, o Estatuto das Cidades e o das Metrópoles já oferecem mecanismos de colaboração em matéria de saúde e transporte que poderiam ser aproveitados pelos novos governos estabelecidos nas cidades do Rio e de Niterói, de modo análogo ao que existe hoje entre Brasília e Goiânia. Tudo pesado, a proposta de conversão da cidade do Rio em um segundo distrito ou cidade federal, cuja segurança pública voltasse a ser gerida pela União, seria a melhor solução para o desgoverno que se apossou da região faz mais de 30 anos. A medida estancaria a deterioração urbana e aproveitaria a posição sui generis ocupada pela cidade no conjunto da federação, dando-lhe um estatuto condizente com sua condição de símbolo do país e sede secundária da administração federal. Por sua vez, livre do fardo da ciclópica capital, o estado do Rio voltaria a ficar mais homogêneo (como era, de fato, até a fusão, em 1975) e recuperaria sua capacidade de operar de modo similar aos demais estados da Federação. Goste-se ou não, é preciso reconhecer que, por tudo que representa, do ponto de vista histórico, cultural e simbólico, a situação da antiga capital da República não interessa apenas aos cariocas e fluminenses, mas a todo o Brasil. Por ser valiosa demais para ficar nas mãos (incompetentes) de seus governantes, a cidade do Rio de Janeiro precisa ser o quanto antes retomada pela nação, que assim teria de volta, a custo globalmente muito baixo, sua principal sala de visitas e seu principal cartão postal. E o Rio deixaria, de uma vez por todas, de ser o que se tornou: matéria de preocupação, raiva ou piedade, tanto dos brasileiros dos demais estados quanto da mídia internacional. Valeria a pena tentar.

domingo, 3 de março de 2019

A VOLTA AO MEU MUNDO REAL II


POR MAIS QUE VIVA, O SER HUMANO NÃO CONSEGUE SABER COM QUEM VIVEU A VERDADE E COM QUEM VIVENCIOU O ENGODO. A TRAIÇÃO É UM FORTE COMPONENTE DO SENTIMENTO HUMANO. VEM ACOMPANHADA DA COVARDIA, DO IMEDIATISMO E DO APEGO ÀS COISAS MATERIAIS.

JÁ VIVENCIEI MUITAS TRAIÇÕES, FUI VÍTIMA DE MUITAS TRAPAÇAS IMEDIATISTAS, EM ESPECIAL DEPOIS QUE RESOLVI ASSUMIR POSIÇÕES POLÍTICAS NUM PAÍS IDEOLOGICAMENTE DOENTE E ACULTURADO DESDE MUITAS DÉCADAS ANTES DE EU VER A LUZ.

LEMBRO DE TER DITO AO MEU FILHO MAIS VELHO, CERTA VEZ, QUE ERA MELHOR VIVENCIAR A BOA-FÉ, MESMO QUE A MÁ-FÉ PREDOMINASSE ENTRE AS PESSOAS QUE NOS RODEIAM E NOS DECEPCIONASSE. INCLUO NISSO, TAMBÉM, O NÚCLEO FAMILIAR, QUE NÃO GARANTE FIDELIDADE MÚTUA EM NENHUM LUGAR DO MUNDO. PORQUE O SER HUMANO É UM ANIMAL MAIS IRRACIONAL QUE QUAISQUER ANIMAIS, ATÉ DO QUE OS MAIS FEROZES. PORQUE, ENQUANTO O ANIMAL DITO IRRACIONAL USA A VIOLÊNCIA NO LIMITE DE SUA NECESSIDADE DE SOBREVIVÊNCIA, O SER HUMANO ULTRAPASSA ESSE LIMITE E VAI FACILMENTE À CRUELDADE.

ASSIM APRENDI SER QUASE IMPOSSÍVEL CONFIAR NO SER HUMANO. DIGO “QUASE” PORQUE ME RECUSO A CRER QUE A MÁ-FÉ SEMPRE SE SAGRE VENCEDORA, QUE O MAL TRIUNFE DO BEM. POR ISSO LUTO CONTRA O MAL LOGO QUE O IDENTIFICO; POR ISSO NÃO POUPO OS TRAIDORES; POR ISSO COMBATO OS VIS E ABJETOS E REPUDIO OS QUE SUGAM O VALOR ALHEIO, FINGINDO GUARDAR EM SI ALGUM VALOR.

SEI QUE AS PESSOAS INFELIZMENTE SÃO ASSIM, AGEM ASSIM, INFIELMENTE. SIM, SEI DISSO, POIS JÁ ATÉ AJUDEI MUITA GENTE DE MEMÓRIA CURTA, GENTE QUE NA PRIMEIRA OPORTUNIDADE PULA DUM GALHO A OUTRO E LOGO TROCA DE ÁRVORE PARA SUGAR A SEIVA QUE NÃO PRODUZ. ESSAS PESSOAS SÃO TÃO PERIGOSAS QUE CHEGAM AO CÚMULO DE EXPLORAR A DESGRAÇA ATÉ DE UM ENTE QUERIDO PARA SE PROJETAR COMO “ESPECIAIS” E CAPAZES DE MUDAR O MUNDO. MAS, SE BEM OBSERVADAS, MUDAM APENAS DE ENDEREÇO, DE CARRO, DE GRIFE, DE CONTA BANCÁRIA, PASSANDO DE CLIENTE COMUM PARA ESPECIAL. ENFIM, MUDAM DE VIDA À CUSTA DA INGENUIDADE ALHEIA. PIOR É QUE SÃO MAIORIA A NOSSA VOLTA, SÃO AS PESSOAS PSICOPATAS.

ATÉ ESTE PONTO TERGIVERSEI PARA LEMBRAR ÀS PESSOAS DE BOA-FÉ COMO AGEM OS PSICOPATAS, NÃO POR CONCLUSÃO MINHA, MAS DE UMA PSICÓLOGA NORTE-AMERICANA QUE EM POUCAS PALAVRAS NOS DESVELA O MISTÉRIO E NOS ALERTA SOBRE ESSE MAL QUE TORNA O SER HUMANO O QUE HÁ DE PIOR NA FACE DA TERRA.



sábado, 9 de fevereiro de 2019

A REFORMA DA PREVIDÊNCIA E AS PPMM

Quando eu comandava o 9º BPM da PMERJ, na Zona Norte do Rio, em 1989/1990, tive a oportunidade de ir a Campos para me somar a um contingente do 8º BPM e localizar uma ilha fluvial pertencente ao traficante Antonio Carlos Coutinho (TUNICÃO), da favela de Acari, morto em confronto com guarnições que eu comandava durante operação repressiva na supracitada favela.

Em lá chegando, e vendo a tropa de apoio em formatura antes de seguir ao local onde logramos identificar a ilha, no rio Muriaé, com 10.000m2, que estava em nome da viúva do traficante, chamou-me à atenção o aspecto individual da tropa formada, todos homens de idade semelhante aos meus comandados, porém com uma importante diferença; tinham seus cabelos ainda normais, sem o branco do envelhecimento precoce que caracterizava os homens que compunham a minha guarnição. E tive ainda a chance de observar bastante a tropa do batalhão de Campos, indagando de muitos a idade, além de observar a pele lisa da juventude de cada um ainda preservada.

Tornei ao Rio e ao 9º BPM, fazendo uma comparação grosseira do cabelo e da pele dos meus comandados em idade aproximada daqueles que vi em Campos. Não fiz nenhuma pesquisa, apenas constatei aleatoriamente a diferença entre um grupo e outro, mas suficiente para perceber, sem dúvida, que meus comandados estavam bem mais avelhantados do que seus colegas campistas. 

Claro que não me foi difícil concluir que o estresse que afetava os PMs do 9º BPM era sobremodo aberrante, se comparado com as tensões enfrentadas pela tropa interiorana. E pude firmar a certeza de que as situações diárias de risco e o excesso de pressão envelheciam os PMs do 9º BPM bem mais que seus iguais em idade lá do 8º BPM. Mas não tive tempo de pesquisar isto e deixo aqui a ideia para algum oficial ainda em tempo de aperfeiçoamento no CAO (Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, para capitães) ou no CSP (Curso Superior de Polícia, para majores e tenente-coronéis).

Creio que o momento exige que se faça essa pesquisa, de modo que se possa comparar o quanto são diferentes os ambientes sociais no RJ e como isto influencia o estresse da tropa, tornando-a diversa em relação ao estado de saúde em geral e ao estresse individualizado. 

Ponho aqui o assunto para que os companheiros de quaisquer PPMM brasileiras façam o mesmo, de modo a provar que nem precisa comparar a tropa de PMs com a das Forças Armadas, bastando resumir a pesquisa num só Estado Federado, sublinhado o RJ como excelente amostragem. 

Mais ainda: essa pesquisa poderia anotar, também, a incidência de doenças psicológicas e psiquiátricas e a quantidade de feridos com perda de membros e órgãos, além de mortos, durante um período que poderia ser de pelo menos trinta anos. 

Ponho trinta anos de propósito, porque, se hoje se reclama que morrem mais de cem PMs por ano no RJ, na década de 90, em especial durante o desgoverno Brizola, o número de mortos por anos ultrapassava a casa dos 200 PMs, número, aliás, difundido recentemente pelo Jornal EXTRA.

Importante estudar o assunto neste momento em que se fala de mudança das regras de aposentadoria num país que não respeita o policial, e que desconhece o fato de que a média de aposentadoria por anos de serviço policial em muitos países civilizados é de 25 anos, variando os métodos de pagamento dos inativos, mas respeitando o fato de que se trata de profissão exercida quase que em tempo permanente de guerra. 

E não é difícil pesquisar isto, é só querer e ser autorizado pelo sistema situacional predominante, talvez o maior óbice, pois a tendência do poder interno é a de ocultar esta dura realidade para agradar a governantes insanos, que não querem assumir nenhum fracasso administrativo, cultura que se transporta naturalmente para intramuros dos quartéis.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A VOLTA AO MEU MUNDO REAL

Cá estou de volta ao Blog depois de longa ausência, por conta de mais uma vez não resistir e participar de campanha política. Sem dúvida, não nego minha teimosia, por mais que haja motivos para eu não me enfiar em política, lugar apropriado a deslealdades e traições, de tão apodrecido que estão os valores reais do ser humano depois que a esquerda aparelhou até chiqueiros, não deixando nada de fora de sua maldita cobiça por poder e dinheiro, tudo travestido em "boas intenções".

E, como de praxe, ao entrar de olhos fechados na política eleitoral, não pude perceber o quanto algumas instituições se aproveitaram da "cegueira deliberada" para proclamar higidez, enquanto roubavam e ampliavam seus poderes de retaliação e de proteção corporativa aos seus ilustres membros, agora inalcançáveis, bem mais até que nos tempos do regime militar, período em que o poder fardado se postou acima de tudo e todos. Sim, acima de tudo e todos, mas não conseguiu vencer o "Quarto Poder" e sucumbiu ao seu glamour...

Eu poderia aqui elencar um rol de frustrações e exemplos do que falo, mas creio que o silêncio e a inércia foram os maiores destaques naquele período de regime militar, que foi necessário no início, mas pecou pela demora em sanear o país, o que não o fez, eis que cuidou apenas de afastar o mal para baixo do tapete, permitindo que ele saísse de sua forma cística e tornasse à vida, ocupando com mais furor o poder geral e irrestrito, que, sem embargo, será difícil vencer.

Mas como a esperança é a última que morre, assim como a vida só se apaga quando a mente se recusa a manter o corpo vivo, alenta-me saber que continuo pensando e com capacidade de escrever o que penso sem dó nem piedade de ninguém. Por isso me mantenho liberto de tudo e não pretendo me ajustar a nada e ninguém, mas apenas ao que penso. E o que penso, infelizmente, não me permite praticar o otimismo como base do pensamento. Sigo então pelas estradas da exceção, abandonando a regra geral do servilismo e da confiança no poder, este que, por sua própria natureza, encanta e corrompe.

Não creio ser preciso enumerar exemplo de como as máscaras caem à vista do ouro, pois, no fim de contas, é assim o ser humano ("Vide os pequenos tiranos,/ Que mandam mais do que o rei, / Onde a fonte de ouro corre, /Apodrece a flor da lei."). 

Sim, o ser humano é um pobre de espírito, como tão bem resumiu Cecília Meireles no seu poema eterno. Porque o Brasil formou gerações deformadas, autênticas teratogenias a serviço de egoísmos e idiossincrasias que se tornaram invencíveis no atual estágio do "politicamente correto" a serviço ou desserviço da sociedade.

"Ah, mas o mundo é assim!", diriam alguns conformados. 

Verdade! O mundo é assim, tanto que ainda há a escravidão na crosta terrestre, além de guerras insanas e muita fome ao lado de incríveis abastanças de castas. E por isso há os que se ferem ou morrem nas guerras de todo tipo, incluindo as "guerras ao crime", em que rotos e esfarrapados se matam num cenário de permanente terror; e há barragens que se rompem por desídia humana protegida por decretos presidenciais que determinam ser "obra da natureza" esses rompimentos assassinos, para que os desidiosos restem absolvidos de culpa e suas corporações não paguem o preço justo por esses desastres artificiais tornados "naturais" por força de leis e decretos, reitero de propósito; e há muito mais no coletivo das sociedades, enquanto seus indivíduos políticos fingem modéstia e idealismo ao sorverem o primeiro uísque em terras dominadas pelo que combateram em campanha, sob o mote de "tudo mudar", quando, na verdade, apenas reforçam a lógica de Giusepe Tomaso de Lampedusa ("É preciso que tudo mude para que tudo se mantenha.").



Talvez eu esteja errado, precipitado etc. Sim, talvez, mas meu instinto é superior à minha razão, ou talvez eu seja rápido em perceber o quanto é apodrecido o ser humano e o quanto eu fui e continuo sendo idiota. E não entendo como não resisto ao fato de que sempre sou enganado ou me engano com facilidade. 

Ora bem, pelo menos sei me postar humildemente diante de mim para me certificar de que sou realmente idiota, mas com a vantagem de saber, também, que espertos e idiotas se ombrearão em túmulos inermes e inertes ante o mundo de antes, mundo ilusório, mundo quântico, em que uma só partícula subatômica positiva, a mais, dentre bilhões delas, vence os bilhões de partículas negativas, o que demonstra o quão insignificantes somos neste Universo. Mas eu pelo menos sei que sou insignificante e me alento com isso. E até me alegro, pois sei, pelo menos, que morrerei tão idiota quanto o filósofo, este, que admitiu saber que nada sabia e morreu feliz tomando a cicuta.



Eis então como volto ao meu amado espaço, ao meu Blog, que é o receptáculo do meu mais profundo e honesto pensamento, mesmo que para muitos ele soe desonesto e superficial ante suas oportunas conveniências. Mas isto não importa, um dia estaremos todos num ou noutro túmulo, servindo de repasto aos "trabalhadores da morte": os vermes.



domingo, 16 de dezembro de 2018

O LIVRO DO CORONEL PM FREDERICO CALDAS - BREVE COMENTÁRIO



Neste exato momento, às 16:34H do dia 16/12/2018, concluí a leitura da obra do Coronel PMERJ Frederico Caldas (O FIM DA UPP – 500 DIAS NO FRONT DA PACIFICAÇÃO). O livro prova que Frederico Caldas é um profissional além do seu tempo e da cultura do PM, demais de sublinhar a sua verve de professor universitário nesses “dois mundos” (PM e SOCIEDADE) que continuam sem interação. E, sem muito me ater ao seu currículo, por desnecessário, prendo-me, porém, aos “dois mundos” para dizer, em proposital maniqueísmo, que eles são antagônicos.

A impressionante narrativa de Caldas, como vou amistosamente tratá-lo para dar leveza ao comentário, descortina uma dura realidade que não se esgota no sucesso ou no fracasso das UPPs, mas avança num poderoso diagnóstico que deveria ser objeto de estudo por aqueles que pretendem conhecer a insegurança pública brasileira a partir de um momento, de um local, e de um modelo inovador que rompeu com anos de ostracismo, de desvios de finalidade e de irresponsabilidade, mas não os venceu...

Sim, o autor consegue em sua densa narrativa levar o leitor à perplexidade. Não sei, portanto, dizer aqui qual parte da narrativa é mais importante para uma indiferente sociedade, que, faz tempo, vive em “cegueira deliberada”, e que por isso é tangida como gado por manchetes de uma imprensa sensacionalista, mercenária e ideológica, salvo raras exceções.

Na verdade, termino a leitura com um misto de euforia e tristeza. Euforia por ver confirmadas minhas apreensões antes manifestadas no meu Blog ao longo desses anos de vivência das UPPs, desde quando surgiu ao acaso de uma incursão do 2º BPM, então comandado pelo Cel PM Albuquerque, para instituir um momento de paz e permitir a inauguração de uma creche no Morro Dona Marta, em Botafogo. Esse momento de paz, que poderia ser em outro lugar, tornou-se símbolo de um monumental programa de intervenção policial restrito à PMERJ, mas sem qualquer planejamento (estratégico, tático ou operacional). Enfim, apenas mais uma ação pontual típica de qualquer Unidade Operacional da PMERJ, porém tornada panaceia a remediar todos os males da segurança pública por espertos políticos e vaidosos burocratas de fora da PMERJ.

Assim nasceu a primeira UPP, que não mais precisa ser explicada, muitas vezes eu o fiz no meu Blog e muito me exaltei ao perceber que a bola de neve rolara montanha abaixo e um dia se tornaria esta avalanche tão bem retratada por Caldas neste seu texto histórico. Impressionante texto, sim, que poderia ser diagnóstico duma segurança pública a ser implementada no país, pois é certo que a VIVÊNCIA de Caldas é única, não há similares em tempo ou lugar algum.

Não pretendo me estender na análise do texto, tão primoroso e claro, tão preciso e conciso, que seria “chover no molhado”. Sim, deixo de fazê-lo por reconhecer que minhas observações ao longo dos anos sobre as UPPs agora comprovam, pela pena de Caldas. Valeu a minha visão prospectiva, fundamentada em observações extraídas de jornais desde os tempos da bonança até os dias de hoje, em que a grande mídia, já satisfeita com os resultados financeiros da Copa do Mundo e das Olimpíadas, execra as UPPs como mais um exemplo de fracasso institucional da PMERJ. Não reconhece que a briosa foi a única a levar a sério a sua ação, como sempre o faz, aliás, e ao custo de muitas vidas humanas ceifadas. Ah, mas era de se esperar que tudo terminasse assim!... Como sempre!...

Insisto aqui, por indispensável, na VIVÊNCIA de Caldas, trazendo à lide uma observação de Manuel Garcia Morente, professor de Filosofia (1886-1942). Ele cita Bergson em sua obra FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA, traduzida por Guilhermo de la Cruz Coronado, Catedrático da Universidade do Paraná, lá pelos idos de 1930:

“[...] Uma pessoa pode estudar minuciosamente o mapa de Paris; estudar muito bem; observar, um por um, os diferentes nomes das ruas; estudar suas direções; depois, pode estudar os monumentos que há em cada rua; pode estudar os planos desses monumentos; pode revistar as séries de fotografias do Museu de Louvre, uma por uma. Depois de ter estudado o mapa e os monumentos, pode este homem procurar para si uma visão das perspectivas de Paris mediante uma série de fotografias tomadas de múltiplos pontos. Pode chegar, dessa maneira, a ter uma ideia bastante clara, muito clara, claríssima, pormenorizadíssima, de Paris. Semelhante ideia poderá ir aperfeiçoando-se cada vez mais, à medida que os estudos deste homem forem cada vez mais minuciosos; mas sempre será uma simples ideia. Ao contrário, vinte minutos de passeio a pé por Paris serão uma vivência. Entre vinte minutos de passeio a pé por uma rua de Paris e a mais vasta e minuciosa coleção de fotografias, há um abismo. Isto é, uma simples ideia, uma representação, um conceito, uma elaboração intelectual; enquanto aquilo é colocar-se realmente em presença do objeto, isto é, vivê-lo, viver com ele [...]”

Transcrevo a observação de Bergson para me render à VIVÊNCIA de Caldas, repito, que põe sua narrativa no pódio das coisas insubstituíveis, e não apenas pelo fato de ele ter vivenciado tanto as UPPs, todas elas, mas por ter a sensibilidade do pesquisador que não se limita ao “como fazer as coisas?”, mas se alonga numa reflexão que vai à indagação fundamental do “por que fazer as coisas?”. Isto num ambiente incerto, turbulento e perigoso, com a morte rondando e ceifando vidas humanas, dentre as quais a do Capitão UANDERSON MANOEL DA SILVA, de 34 anos, casado com a Capitã PM Bianca Neves Ferreira da Silva, deixando órfã uma menina até hoje assombrada com a perda abrupta do pai. Também sublinho a morte do Soldado PM RODRIGO DE SOUZA PAES LEME, de 33 anos, e anoto sua comovente frase, dita ao PM que o socorria antes de deixar este mundo cruel:  “Manda um beijo para a minha esposa e pede pra ela tomar conta da nossa filhinha, que não vai dar mais não, parceiro.” Meu Deus!...

Creio que a narrativa de Caldas desses dois episódios, com forte traço de emoção, torna-a única, pois retrata todos os riscos pelos quais passaram e ainda passam os PMs submetidos a um regime de riscos além do que se espera no cotidiano exercício de uma profissão que se tornou “frente de combate” numa “guerra” cuja ideologia é o crime e seus astronômicos lucros, que se poderiam resumir numa palavra: NARCOTRÁFICO.

Sim, eis o mal a ser combatido pelo Brasil como um todo, Sociedade e Estado, não nos fracos termos constitucionais que eximem a União e os Municípios de maiores responsabilidades e agrilhoam os Estados-membros num sistema de desconfiança que aflora como peste no Inciso XXI do Art. 22 da CRFB, dentre outros, específicos, que impedem a formulação ou a reformulação de uma estrutura situacional estatal que efetivamente possa exercitar sua função de modo globalístico e sem a sombra da desconfiança das forças militares federais, resíduo ditatorial que não mais se justifica.

Mais nada a dizer do livro do Coronel PM Frederico Caldas, que merece a minha especial continência e a de todos os seus companheiros, oficiais e praças, porque não há como não lhe agradecer por seu esforço intelectual nem como não exaltá-lo por sua maestria em riscar o papel com invulgar VIVÊNCIA, esta, que incluiu a sua quase morte em combate. Mas como Deus é bom e justo, ele sobreviveu para nos brindar com uma obra que deve ocupar as prateleiras da PMERJ e demais prateleiras de livrarias, universidades e instituições públicas e privadas, como diagnóstico único e invencível.

Parabéns, companheiro!


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O FIM DA UPP - POR FREDERICO CALDAS





Ainda não li o livro do estimado Coronel PM Frederico Caldas, mas o farei com prazer tão logo a ele tenha acesso (já encomendei). Porém, como escrevi bastante no meu blog sobre o tema UPP, sempre, claro, com minha visão crítica, porque estou geralmente a buscar contrastes e exceções como maneira de tentar melhorar o mundo, sei ele trará um toque especial de esperança, o que o torna ímpar. Digo assim porque o otimismo é da índole do Coronel PM Frederico Caldas. Também imagino, ainda sem ler o livro, que Frederico Caldas dever ter traçado o PM atuante em UPP como espécie de herói; e, se o fez, fê-lo muito bem, pois eles, apesar de tudo e dos pesares, conseguiram e ainda conseguem fazer a diferença por lá; já outros morreram tentando, e a imensa maioria não desistiu nem desiste da espinhosa missão de servir em UPPs dentro de favelas infestadas de malfeitores.

Não digo que a favela seja feita somente de pântanos; há por lá uma e outra flor de alegria em meio ao pânico dos tiroteios e das mortes de muitas crianças e adolescentes, de um lado, e de adultos e idosos, de outro, sem que nenhuma dessas pessoas tenha praticado na vida algum crime. Também não digo que na favela impera a indiferença entre os moradores, porque, contrariamente, é lugar da solidariedade orgânica, distante do que caracteriza a sociedade formal. Sim, a favela é marcante exemplo do que o saudoso Paulo Bonavides defende em obra dele: é “comunidade orgânica”, com todos os seus traços característicos de pobreza, indigência e miséria, a eles atualmente acrescidos os ultrajantes riscos de morte, além dos decorrentes do descaso público e das roubalheiras de brasileiros formais que se fingem solidários e se vestem de favelados em época de eleições.

Talvez lembrando Thomas Morus pudéssemos conceber uma “favela-utopia” a acolher pessoas aprofundadas em solidariedade e atendidas nos seus direitos básicos à saúde, à educação e à segurança, dentre outros indispensáveis à vida humana com qualidade. Mas hoje, em virtude do maldito tráfico de drogas e de armas de guerra sofisticadas, e principalmente devido à ganância humana, a vida favelada é um pesadelo que só cessa com a morte. Sim, a vida favelada, com ou sem PM, é corda bamba em razão da infestação do crime; e, quando entra em cena a PM, ela não consegue, como jamais conseguiu, tornar o ambiente favelado “uma ilha chamada Utopia”. Em contrário, acaba ampliando muitas vezes os riscos de quem não tem como se defender de nada, nem de traficantes e milicianos ou de PMs com eles guerreando para tentar pacificar o ambiente favelado.

Eis o quadro em que vejo a favela num contexto que bem conheço: um infeliz morador, adulto ou criança, sem saber para onde corre nem como se proteger dos inesperados tiroteios: do mal contra o mal ou do bem contra o mal, não importa, o efeito é o mesmo: sangue no chão das vielas maltratadas por um poder público corrupto que só pensa em favela apinhada de polícia, especialmente de PMs, como se estes fossem os “salvadores da pátria”; melhor dizendo, e as dignas autoridades sabem: PMs não passam de “buchas de canhão”...

Será que exagero?... Creio que não, o que não desmerece o esforço de milhares de oficiais e praças da PMERJ, homens e mulheres, que, lotados em UPPs, vêm se dedicando a “enxugar gelo”, expressão que “roubo” do ilustre mestre Coronel PM, Professor Universitário e Escritor Jorge da Silva para sintetizar meu raciocínio. Também creio, por último, e por outro lado, que o companheiro Frederico Caldas defenderá seu contraponto, porque é também real e não se trata de “enxugar gelo” no sentido particular do seu significado, tanto que não permitiu até agora que a PMERJ virasse as costas para muitos favelados que sonham, também, com aquela “ilha” de Thomas Morus, e sabem que se o PM repentinamente lhes virar as costas, como se a favela fosse espécie de “território inimigo”, a situação de paz e tranquilidade tão sonhada jamais será alcançada. Eta dilema!...

Sim, há todo um dilema a ser enfrentado por uma PMERJ que já morreu defendendo o solo pátrio contra o inimigo estrangeiro, que já enfrentou núcleos de comoção intestina ao longo dos seus mais de 200 anos. Sim, sim, há todo um dilema dentre muitos que se desdobrariam aqui como um círculo infelizmente vicioso, porque a permanência de PMs em UPPs, assim como a sua retirada, ambos significam morte de inocentes, em última análise. Que fazer então com esse programa, que, malgrado o excesso de mentiras quanto aos seus “planejamentos operacionais”, nasceu por acaso no Morro Dona Marta, como já confessou Beltrame?...

Quem sabe, talvez, o seu erro tenha sido o avanço apoteótico, tal como fizeram os exércitos napoleônicos em solo russo, e que terminaram derrotados pelo frio, pela fome e por doenças?.... Por tudo isso, creio, sim, e me arrisco a dizer que o livro do Coronel PM Frederico Caldas, que ainda não folheei, de algum modo trará o tema à discussão. E em boa hora. Pois, afinal, o dilema persiste, traduzido numa equação simples: se a PM se retirar das favelas em correria é demonstração de covardia de uma instituição que existe para demonstrar força e propiciar sensação de segurança ao cidadão em qualquer coletividade, rica ou pobre; se, por outro lado, permanecer nos atuais moldes, a demonstração de força dependerá de um fator primordial na seletividade do uso dela: superioridade numérica e bélica em relação ao inimigo. Hum...

Ah, sei que muitos não gostarão do vocábulo “inimigo” referindo-se a traficantes e milicianos! Mas como definir homens armados de fuzis andando em patrulhas nas favelas e impondo suas próprias leis?... Ora bem, é como Rousseau define "malfeitores" no seu Contrato Social... 

Agora irei ao livro do Coronel PM Frederico Caldas; e, mesmo sem conhecer seu conteúdo, sei que nele estará contida a verdade sob a ótica de um ser humano sabidamente otimista em seu exercício profissional, importante contraponto a pessoas, como eu, que não veem saída para as UPPs por razões nem tanto humanas, mas doutrinárias e pragmáticas, que têm na máxima frequência do patrulhamento no ambiente social como único formato democrático de ação da polícia administrativa, e que se resume na proteção igual do cidadão, seja favelado, seja aquinhoado (prevenção pela presença constante  e repressão como exceção). Agora sim, vamos ao livro!


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