segunda-feira, 18 de maio de 2026

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRIBUTO

A

OSWALDO MAZUR


(CONTO)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Emir Larangeira

Abril de 2001
UM

 

 

A densa neblina tocava suavemente o chão na madrugada friorenta que se mantinha acordada nas grimpas do Campo do Coelho, lindo lugar que num tempo mui remoto a mãe-natureza fez nascer nas serranias friburguenses. Mas naquela madrugada o céu parecia não existir, tudo estava envolto por um véu opaco que nem mesmo permitia a visibilidade de algum lume caseiro de casa a casa, e o frio fino e cortante fazia o próprio termômetro tremelicar por conta de uma temperatura indo ao negativo.

Nos humildes casebres espalhados pelo imenso vale de hortaliças as famílias de lavradores tentavam vencer a gelidez enrolando-se em trapos disponíveis, o que era ainda muito pouco. Por isso é que o fogo crepitava e fagulhava em trempes improvisadas nos cantos dos cômodos de chão batido. Cuidava-se, assim, do aquecimento interno para espantar o frio, enquanto a água fervia para coar o café madrugador. Mas havia lá no alto da colina uma pequena casa desde antes acordada e envolta numa neblina tão densa que mais parecia ter sido construída numa nuvem; e, nela, pessoas nervosas circulavam sem parar no espaço apertado, umas indo ao quintal respirar o ar gelado e rapidamente voltando, outras encolhidas sem ânimo diante da friagem; e, dentro da casa, um fogo mais intenso queimava ardentemente o enorme vasilhame cheio de água em ebulição, fazendo oscilar nas sombras dos rostos cansados a alumiação de seus perfis: imperava a ansiedade entre os presentes, ansiedade contagiante, que se instalara nos espíritos daquela gente humilde que se deixava ficar na pequena casa do Campo do Coelho; mas em João Capistrano, o chefe da família, o que se via era uma tensão incontrolável: logo ele seria pai pela primeira vez. Sim, era o que acontecia no seu quarto, onde, naquele momento, nem mesmo ele podia entrar, proibido por mulheres que amparavam sua esposa, Maria da Ajuda, já em trabalho de parto.

Os homens aguardavam o grande momento, todos espalhados por três outros cômodos do ranchinho feito em parede de barro batido no bambu e teto de sapê. Mas tudo muito bem-feito desde muito tempo por João Capistrano e seus diletos amigos. E eram os mesmos que ali com ele tagarelavam nervosamente, tomavam uma pinga atrás da outra e pitavam sem parar o fumo enrolado na palha do milho, enquanto do lado de fora alguns cachorros uivavam em reclamação friorenta. Era, porém, um nervosismo pra lá de saudável, porque todos acreditavam no sucesso do parto e na competência da velha aparadeira, Maria do Carmo, que sempre atendia com dedicação às parturientes naquelas distantes serranias friburguenses.

Tudo ia indo muito bem, pois a aparadeira, experimentada em incontáveis situações como aquela, vinha volta e meia dar esta garantia aos homens nervosos. Mas nem assim João Capistrano se acalmava: tremia, fumava, sentava, levantava, ia até o quintal, voltava, conversava e tentava ocultar sua excitação, algo, porém, impossível naquela altura dos acontecimentos. E veio, enfim, o primeiro som do bebê, o choro da vida, a explosão materializada de mais um espírito chegando ao mundo. E veio a futura comadre, Magnólia Cordeiro, anunciando: “É homem!” Primeiro João Capistrano ficou estatelado, para depois reagir: “Obrigado, meu Deus! É meu filho!... É meu filho! Será João, como eu! Será Joãozinho!”

Pronto, estava sacramentado pelo pai que o rebento teria de pia o seu nome, ou o do avô, que também era João, mas diferençado de ambos pelo diminutivo de primeira hora. Surgia, pois, a terceira geração de lavradores naquele recôndito vale do Campo do Coelho, lugarejo que se situa a 12 Km da cidade de Nova Friburgo, na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, isto para que fique bem localizado o recanto onde ocorreu a história que vamos contar.

DOIS

 

Joãozinho nasceu saudável. Desde as primeiras horas foi muito bem cuidado, apesar da pobreza de seus pais, que vinham vindo há anos plantando do modo como muitos ainda plantam hortaliças diversas, em rotatividade das áreas de cultivo, no vale do Campo do Coelho. Lá a vida corre sem a pressa da cidade, mas é ativa e saudável, pois o que conta é a experiência quase atávica dos lavradores, vinda de gerações passadas, além da solidariedade entre a gente simples, que nunca deixa ninguém sozinho a enfrentar problemas. É a típica comunidade rural estreitada por laços de um labor incessante, e sempre renovado, posto assim o plantio de hortaliças, plantas efêmeras, o exige. Por isso aquela gente laboriosa acorda antes do sol para hortar o chão, e dele, do indispensável sol que chega pujante, se despede o lusco-fusco de um alvorecer friorento. Mas o resultado da conjugação permanente entre a terra, o sol e a água sistematicamente espargida é o verde lindíssimo que cobre todo vale como um imenso tapete: tapete bordado em hortaliças pela mãe-natureza, com a ajuda de seus filhos plantadores.

Naquela manhã de 19 de junho de 1976 o sol jorrava seus raios sobre o vale, mas custava a espantar a teimosa bruma e o frio impertinente. E foi no adiantado da hora que os primeiros brilhos do poderoso rei dos astros finalmente bateram nas costas dos lavradores, que desde o alvorecer labutavam nos campos de hortaliças. E, cumprindo um majestoso determinismo, vieram os pássaros voejando e pipilando e dando bons-dias aos felizes lavradores (homens e mulheres) já aquecidos pelo esforço de seus próprios corpos. Muitos passarinhos adejavam, pousavam, corriam, pulavam e cantavam sem medo da presença humana, formando um quadro fantástico, lindo instante de integração entre humanos e bichos, coisa de Deus. E todos ali ouviam ao longe o choro sadio de Joãozinho, o bebê que no futuro marcaria com emoção intensa a vida simples dos viventes daquele lugar.

 

TRÊS

 

Oito anos se passaram com a lentidão de sempre. Já então Joãozinho acompanhava o pai na labuta de colher, cortar e amarrar os molhos de hortaliças. Mas ficava apenas vendo seu herói paterno laborar enquanto brincava entre a passarada cantante e com ela parolava alegremente com uma voz tão meiga que muitos passarinhos chegavam quase a tocá-lo. Quem visse a cena certamente se deslumbraria diante de tão estupenda beleza, pois lembrava a intimidade de São Francisco de Assis com seus esvoaçantes e coloridos amiguinhos. Sim, porque a imensidão verdejante dos descampados cultivados, – que recebiam a água do riacho cristalino espargida por potentes bombas d’água, formando cortinas de vapores ensolarados e multicolores, – a imensidão verdejante era o fundo da imediata paisagem humana e animal encaixilhada pelo horizonte distante como um quadro pintado pelos deuses. Tudo imensamente lindo!

Assim as imagens de uma natureza maravilhosa se associavam aos movimentos dos camponeses, da passarinhada e das borboletas que cortavam e coloriam ininterruptamente o ar. E toda essa beleza ia sendo gravada na mente infantil de Joãozinho, que, orgulhoso do pai, com ele já compartilhava do café cheiroso e quente, momento em que todos comiam o pão em torno da trempe improvisada em pedras lá mesmo na roça, de onde as caixas de hortaliças seguiam para a cidade. E, no café, surgiam as cavaqueadas dos adultos, em volta o alarido feliz das mulheres, estas que também participavam ativamente da vida no campo, pois nas casas elas ficavam apenas o tempo certo de confeccionar o alimento da família. Enfim, o menino ia gravando no seu pequenino espírito as imagens da mais inefável felicidade, enquanto a vida seguia seu rumo sereno no vale do Campo do Coelho.

 

QUATRO

 

O ano de 1984 marcou a mudança, eis que uma imponente obra surgiu na localidade, aguçando a curiosidade do povo camponês. Mas logo veio o esclarecimento, porque os responsáveis pela grande construção se iniciaram na busca de mão-de-obra destinada ao trabalho mais rústico. A especializada já até começara a montar o canteiro de serviços, e os materiais não paravam de chegar. Seria ali construído um Hotel Fazenda, grande novidade e, de certa maneira, motivo de apreensão, porque muitos camponeses chegaram a imaginar que teriam suas terras invadidas pelo progresso.

Contudo, logo tudo ficou claro, não haveria nada disso, o hotel estava destinado a ocupar uma área livre de qualquer plantio e respeitando a natureza, ou melhor, chegava também com o objetivo de se tornar uma fortaleza em defesa do meio ambiente. Daí então veio a descontração, mantendo-se apenas a curiosidade do povo, que via o hotel receber contornos estruturais bastante portentosos. Mas, na verdade, tratava-se de obra até certo ponto caracterizada pela rusticidade, porque os construtores primavam por sua integração perfeita ao viçoso verde que rodeava o prédio.

É bom que se diga, porém, que a infra-estrutura era primorosa e compatível com a magnitude da empreitada. Assim, depois de bom tempo, emergiu entre pinheiros e eucaliptos, gramados e jardins viçosos o Hotel Fazenda. E dele se podia, e ainda se pode até hoje, avistar os vales ocupados por hortaliças, além de alguns descampados em que poucos animais pastam, e mais ao longe se avistam os outeiros caminhando em direção às altas montanhas cujas silhuetas lá no horizonte infinito recortam o céu. É tudo muito belo, e exatamente neste lugar é que o Hotel Fazenda logo se iniciou a funcionar, até aproveitando muitas pessoas do lugarejo como empregadas. Foi, portanto, salutar a chegada de mais um núcleo de trabalho para aquela gente simples.

Ainda durante a construção, Joãozinho, já indo para nove anos de idade, assistia a tudo maravilhado. Muita vez se embrenhava no mato e ficava horas e horas apreciando os trabalhadores assentando tijolos, misturando a massa, cortando tábuas, cavando buracos, construindo telhados, pintando paredes e envernizando o madeiramento para, finalmente, aflorar a imponente construção. E rebrilhava ao sol aquele prédio, deslumbrando os camponeses não acostumados à nova paisagem. Joãozinho simplesmente vibrava com o acontecimento.

Na escola, situada na pequena zona comercial do Campo do Coelho, que cresceu naturalmente nos dois lados da estrada que liga Nova Friburgo a Teresópolis, a conversa entre a petizada não era outra, de tal modo que as professoras tiveram até mesmo de organizar visitas ao Hotel Fazenda para aplacar a crescente curiosidade infantil. Assim se foi instituindo um inevitável interesse à contemplação da novidade, até que ela se integrasse à rotina do lugar.

Já funcionando, o Hotel Fazenda começou a acolher seus hóspedes, brasileiros e estrangeiros, que para lá acorriam em busca principalmente de paz. E essa gente diferente passou a ser alvo de curiosidade durante um bom tempo, até que o povo local se acostumasse com a invasão. Era, sem dúvida, uma agradável presença, eis que trazia divisas e melhorava a vida de todos. Enquanto isso, na roça, nada mudara: a rotina dos camponeses e da passarada era a mesma; preservara-se a natureza, particularmente porque viera a melhor das indústrias para o Campo do Coelho: o turismo. Não haveria ali chaminés poluentes...

 

CINCO

 

Em meio a toda aquela movimentação crescia Joãozinho, que na escola deslumbrava os mestres em sua volúpia de aprender. Além da dedicação ao estudo das matérias obrigatórias, o menino ainda encontrava tempo para devorar os livros da pequena biblioteca escolar. Lia tudo de tudo, até não haver mais nada para ler, o que o fazia repetir suas leituras à exaustão. E como era uma biblioteca que se formava por doações, via-se nas estantes desde romances clássicos a livros de biofísica. Porém, nada escapava das vistas e da atenção do prodigioso estudante, que muita vez surpreendia as professoras ao demonstrar conhecimentos que deveriam estar ao largo de sua algibeira cultural.

Muita coisa Joãozinho não entendia, é verdade, mas nem por isso deixava de ler e reler os livros, começando logo a se encantar pelos que versavam sobre pintores famosos, além de também se deleitar com as lindas histórias da Tradição Sufi, às quais dava mais importância porque passaram a povoar seu mundo infantil, a estimular sua imaginação fértil e a forjar inspirações futuras. E não demorou muito para que Joãozinho se transformasse em atração no Hotel Fazenda, tudo começando a partir das abordagens que ele fazia aos hóspedes que caminhavam pela estradinha de chão batido bem em frente da casa dele: Joãozinho não perdia a oportunidade de os cumprimentar e lhes pedir livros usados. Todos se encantavam com o menino, e era certo que no dia seguinte os livros choviam no seu colo tal qual a água que se espargia sobre as hortaliças: em grande quantidade. E assim, depois de um tempo, a biblioteca particular de Joãozinho era maior que a do colégio, onde ele já cursava o primeiro grau.

É lógico que, sem perceber, Joãozinho começou a maravilhar os que com ele conversavam, não somente no colégio, onde muita vez demonstrava mais conhecimento sobre determinados assuntos do que a própria professora. Mas eram principalmente os hóspedes do Hotel Fazenda que gostavam de ouvir as histórias do lugar contadas por Joãozinho, bem como com ele trocar impressões sobre literatura e arte em geral, assuntos que passaram a se integrar à sua cultura particular. E isto se explicava facilmente, posto a maioria dos hóspedes preferir durante o descanso e o lazer a leitura de livros deste quilate, cujas mensagens culminavam definitivamente enfiadas no espírito arguto do menino.

Algum tempo passou, até que, de repente, o Hotel Fazenda começou a sofrer pequenas modificações, adaptando-se para funcionar ali um SPA*. E correu um diz-que-diz-que na localidade, eis que chegava comandando o espetáculo uma famosa atriz e intérprete: Tânia Alves. E, junto dela, o empresário Tadeu Viscardi, seu marido e sócio no empreendimento.

Tânia Alves chegou dispensando apresentações, e muito menos necessitou ser apresentada à natureza, eis que no seu espírito já há muito se instalara a férrea vontade de levar as pessoas ao conhecimento do mundo natural, para assim reencontrarem a saúde física e mental. E, se não mudou a fachada do Hotel Fazenda, mudou radicalmente seu miolo, todo agora voltado à reciclagem de pessoas de todos os naipes que vinham em busca de paz e saúde do corpo e do espírito. E logo haveria o reflexo do lado de fora, devido às animadas andanças dos spazianos* por todos os caminhos livres entre as hortaliças plantadas nos descampados do vale do Campo do Coelho. E o que era lindo e animado ficou ainda mais lindo e animado, especialmente aos olhos atentos de Joãozinho.

 

 

 

SEIS

 

O menino continuou a interagir com os novos hóspedes, que sempre voltavam ao SPA. Assim se foi tornando amigo de muitos e ganhando seus livros, até que o fato se transformasse em problema familiar, porque não havia mais paredes para o orgulhoso pai e a enfeitiçada mãe arrumarem as obras acumuladas pelo filho. Mas, bastou Joãozinho externar sua aflição, para a administração do SPA mandar construir no terreno que acolhia sua casa simples um cômodo amplo com o fim de acomodar organizadamente aquela biblioteca, agora com mais de três mil livros. Foi exatamente nessa época que chegou ao SPA um casal que um dia revolucionaria a vida do prodigioso menino: Oswaldo Mazur e Mariana Fernandez.

Vieram da Argentina para tentar a vida e desenvolver suas habilidades no Brasil. Escolheram viver nas serranias friburguenses e descobriram o SPA como um dos locais ideais ao que pretendiam fazer: ele pintando retratos e quadros e ilustrando contos infantis, ela contando histórias. Dois artistas, almas gêmeas maravilhosas naquilo que faziam. E logo conheceram o menino mais badalado por todos quanto freqüentavam ou trabalhavam no SPA, pasmando-se ambos com a cultura dele e, principalmente, com seu talento literário e sua habilidade em reproduzir em papéis improvisados as paisagens do Campo do Coelho, é bem verdade que apenas pinturiladas a lápis de cor. E não levaria muito tempo para que se forjasse uma profunda amizade entre o jovem pintor argentino e o menino Joãozinho. E dela, da amizade, se iniciaria a troca entre os espíritos daqueles dois, pois é certo que, enquanto Oswaldo Mazur ensinava suas técnicas ao menino, este, por sua vez, lhe repassava as idéias de paisagens que depois emergiam como belas obras de arte nas telas do virtuoso argentino.

Era tão impressionante o grau de fidelidade dos cenários descritos pelo menino, que muita vez Oswaldo Mazur os gravava em tela para depois se espantar com a capacidade de Joãozinho em descrever a natureza. Depois, o próprio Joãozinho começaria a produzir lindas obras, porém sempre orientado por seu mestre argentino. Já com Mariana Fernandez ele ouvia, aprendia e memorizava as lindas histórias por ela contadas, e que ele depois reproduzia talentosamente para as crianças no colégio e no salão paroquial da igreja católica que fica numa imponente colina lá no Campo do Coelho. Tornara-se, Joãozinho, uma espécie de irmão caçula do casal argentino, dada a profunda amizade que os unia...

Veio a fase em que Oswaldo Mazur decidira retratar os pássaros da região, que eram muitíssimos e variados, além de lindos. E o maravilhoso pintor, captando as descrições que lhe fazia Joãozinho, foi aprisionando em suas telas, – em meio às paisagens de flores, árvores, gramados e casarios, tendo o céu, as nuvens, o sol ou a lua como complementos, – foi aprisionando em suas telas os sabiás, os gaturamos-reis, os tico-ticos, os canários-da-terra, os beija-flores, os papa-capins, os periquitos, os papagaios e muitos outros espécimes, formando com cada um suas obras-primas imediatamente arrematadas pelos spazianos. Mas depois de um tempo os quadros de Joãozinho eram tão semelhantes aos do mestre argentino que logo se viam arrematados. Com isso, Joãozinho pôde melhorar a moradia da família e aprimorar sua biblioteca, agora transformada em ateliê, por sinal bastante diversificado, eis que, munido de um computador, Joãozinho se iniciou a escrever histórias infantis para Mariana Fernandez narrá-las nas noites de sextas-feiras no SPA. E os spazianos, independentemente de idade, se maravilhavam com as belíssimas encenações de Mariana Fernandez, sempre atentamente acompanhadas por Joãozinho. Na verdade, o quase adolescente simplesmente vibrava com as lindas interpretações da mestra castelhana contadora de histórias e vocacionada divulgadora das maravilhas do mundo do faz-de-conta.

Se havia um lugar chamado Felicidade, esse lugar era ali, era o SPA Maria Bonita, nome dado em homenagem à estupenda atriz Tânia Alves, sua proprietária, famosa por interpretar a figura nordestina mais marcante na vida real e personagem ímpar do cinema nacional. E não somente por isso Tânia Alves se destacou, mas também por defender e divulgar uma importante filosofia de vida, o Naturalismo, doutrina que estimula a volta à vida natural e à simplicidade primitiva, quer nas instituições sociais, quer na maneira de viver das pessoas. Enfim, uma aproximação com o Ser Supremo através do respeito à natureza.

Sim, ali havia a felicidade, até ocorrer o inesperado revés, a tragédia que ceifou de súbito a vida de Oswaldo Mazur. Entendera o Criador que o maravilhoso pintor deveria viver entre as paisagens que ele mesmo retratara, um admirável mundo que ganhava vida através de suas pinceladas mágicas. Na verdade, e sem que ninguém o soubesse, Oswaldo Mazur era um Anjo que acabara de cumprir sua missão terrena. Por isso partira, porém deixando, entre aqueles que o amavam, a saudade.

No início, houve um sentimento de perda extremamente forte, especialmente para Mariana Fernandez, sua mulher, que se viu desamparada tão longe de casa e da família, e desesperada pelo desaparecimento brusco do amado. Foi terrível também para Joãozinho, que se sentiu como se tivesse perdido um pedaço de si, como se uma luz que brilhava dentro de sua alma se houvesse apagado. Foi tanta a sua dor que até afetou o coração do seu coração, o ponto mais profundo de sua alma. Afinal, ele aprendera com o mestre Oswaldo Mazur que todo artista tem um coração do coração, onde se esconde a alma. E a alma de Joãozinho estava irremediavelmente ferida.

Houve, sim, a tristeza da mãe-natureza, o desalento dos camponeses, o silêncio da passarada; houve, sim, na primeira hora, o espanto absoluto, a consternação geral, ainda ampliada porque todos sabiam que a perda seria dupla, eis que Mariana Fernandez, desconsolada, tornara à sua terra natal. E isso foi mais um corte profundo no coração do jovem Joãozinho, que se viu perdido em sua emoção. Não fosse o carinho dos pais, que sofriam, mas lhe procuravam minorar a dor, nem se sabe o que lhe teria acontecido.

Foi João Capistrano, o pai, emocionado e rememorando a madrugada mágica em que seu filho veio ao mundo, foi ele quem alertou Joãozinho para a necessidade de perpetuar a obra do mestre argentino que partira aos Céus. Cabia, sim, a Joãozinho, instituir um meio de manter viva a memória do mestre; era ele quem devia se inspirar e apresentar uma saída para que o nome de Oswaldo Mazur se eternizasse além de sua maravilhosa obra, representada por muitas pinturas, ilustrações e retratos de spazianos que ele riscara em vida. Porque nesses trabalhos estava a imagem eterna do mestre da pintura; nesses retratos, o mestre fixara não somente sua própria emoção, mas os sentimentos das pessoas que para ele posaram. Ele buscava os corações dos corações dessas pessoas através de seus olhares, e captava a máxima beleza daqueles seres humanos. E também gravava a passarinhada com tanta precisão que parecia até que seus maviosos cantos emergiriam a qualquer momento daquelas telas maravilhosas. Era, sem dúvida, um mister orientado por Deus, obra de Anjo-mensageiro...

 

SETE

 

Enquanto Joãozinho sofria em razão da dupla ausência de seus mais importantes amigos, ao mesmo tempo pensava em como cumprir a idéia do seu pai. Mas o sofrimento dele era tão intenso que precisou passar muito tempo antes de lhe brotar a inspiração. Ajudou um pouco a minorar sua dor o ingresso no segundo grau e o estudo à noite. Já se encaminhando à adolescência, ajudava o pai no plantio e na manutenção do roçado de hortaliças, e ainda arranjava tempo para a leitura e a pintura de novos quadros. Mas se afastara do SPA; não suportava a tristeza da lembrança de Oswaldo e Mariana Fernandez, esta que partira para a Argentina para nunca mais voltar. Apesar da tristeza que o abatia, aos domingos, depois da missa, Joãozinho nunca deixava de contar suas histórias para as crianças do lugarejo, que também se reuniam no quintal de sua casa e ficavam horas e horas se deleitando com as maravilhas da Tradição Sufi antes carinhosamente repassadas por Mariana Fernandez. E ele nunca deixava de contar as histórias dele próprio com o seu mestre Oswaldo Mazur. Mantinha-o vivo nas almas de todas as crianças.

Mas eis que, num domingo, estando Joãozinho rodeado de crianças em sua casa, surgiu nada mais nada menos que Tânia Alves. Joãozinho vira-a ainda ao longe, e ela vinha com um sorriso delicado iluminando seu rosto suave e belo, rosto de quem sabe o que é o mundo, o verdadeiro mundo, o mundo natural, a grande obra do Criador dos Céus e da Terra. Na verdade, quando Joãozinho fisgou Tânia Alves com seus olhos viu um Anjo-mensageiro, tal qual Oswaldo Mazur, e concluiu que aquela visita não lhe seria em vão. Haveria, sim, um objetivo muito importante nela, e lembrou o mestre e Mariana Fernandez...

Tânia Alves, depois de pedir a Joãozinho para continuar sua tarefa de distrair a petizada, ficou ouvindo-o atentamente e se entristecendo ao perceber que ele contava histórias tristes. Joãozinho estava triste, sim, mas no coração do seu coração, a casa de sua alma, surgiu sem querer uma pontinha de esperança junto com a natural exclamação: “Oh, tia Tânia! Que prazer!” Ela então esclareceu a razão da inesperada visita:

– Joãozinho, primeiro lhe desejo parabenizar pela bela iniciativa em favor das crianças e da arte. Estou impressionada. Mas acho que é hora de fazermos mais por essas crianças, e eu vim aqui para lhe propor uma parceria...

Na realidade, Tânia Alves e Tadeu Viscardi já haviam decidido iniciar uma obra social de grande vulto destinada às crianças pobres do Campo do Coelho. Pensavam em construir na área do SPA um prédio polivalente destinado ao complemento educacional das centenas de meninos e meninas que habitavam as cercanias do SPA. E partiram para a concretização da idéia de fundar uma instituição com a finalidade de incrementar as artes e os esportes, além de proporcionar às crianças um atendimento básico de saúde. Seria, sem embargo, uma obra monumental, mas Tânia Alves esperava contar com a colaboração dos próprios spazianos. Era uma causa justa, Tânia Alves e Tadeu Viscardi resolveram apostar na idéia. Mas dependiam muito da participação de Joãozinho, que sozinho concentrava a atenção da petizada. Por isso foi a casa dele convidá-lo a participar, surpreendendo-se, porém, com o que viu: um abnegado jovem dedicando-se de corpo e alma à preservação da Tradição Sufi e repassando aos seus pequeninos ouvintes as histórias aprendidas com Mariana Fernandez.

Tânia Alves ficou deveras emocionada, e mais ainda se emocionou Joãozinho quando, depois de sugerir à artista dar à instituição o nome do saudoso mestre, recebeu dela a aquiescência imediata. Na verdade, também ela guardava no coração do seu coração uma profunda saudade daquele casal argentino que viera para o Brasil trazendo na bagagem a arte e a alegria de viver. Seria, pois, uma justa homenagem.

Tânia Alves e Tadeu Viscardi puseram então mãos à obra, e em poucos meses surgiu num largo espaço do terreno do SPA o majestoso prédio. E, para surpresa da atriz, os spazianos, todos, sem exceção, colaboraram na construção, e ainda se propuseram a ajudar a fundação por meio de contribuições mensais. Mas havia algo de comum, havia a mola propulsora, a essência daquela motivação, e ela se chamava Oswaldo Mazur. Sim, porque quase todos estavam ligados ao artista, ou por terem em suas casas seus maravilhosos quadros, ou por guardarem em belíssimas molduras seus retratos por ele pintados, ou possuírem enfileirados nas estantes os livros infantis por ele magnificamente ilustrados. Sim, sim, Oswaldo Mazur estava dentro do coração do coração de centenas de pessoas que o admiravam sobremaneira, ele fazia parte da alma daquelas pessoas; por isso, tudo foi ficando mais fácil...

 

OITO

 

Com efeito, houve a entusiástica participação dos spazianos, que se ligaram espontaneamente ao projeto movidos pelo amor ao casal argentino que tantas lições de vida deixaram gravadas no SPA Maria Bonita. E logo os espaços da fundação foram ocupados pelas crianças do Campo do Coelho, que tanto recebiam tratamento médico e dentário como o apoio em suas necessidades culturais, através de intensas atividades desportivas e artísticas, com aulas de música instrumental, balé, teatro, canto orfeônico e, principalmente, com o desenvolvimento da arte de contar histórias, a arte de Mariana Fernandez, que nunca jamais seria esquecida.

Mas faltava ela, Mariana Fernandez, nem que fosse para conhecer a homenagem que seu amado recebera. Daí é que os spazianos, juntamente com Tânia Alves e Tadeu Viscardi, decidiram também lhe providenciar um preito de reconhecimento. Coube então a Tania Alves partir para a Argentina no encalço dela, enquanto aqui se organizava a grande festa. Seria, sem dúvida, uma grata surpresa para ela, embora também se soubesse que não seria fácil localizá-la. Mas Tânia Alves possuía o principal para atingir tal desiderato: o prestígio internacional...

Enquanto tudo isso ocorria, Joãozinho tomava-se de emoção. Só pela possibilidade de rever a querida contadora de histórias da Tradição Sufi, seu coração batia mais forte; e o coração do seu coração, ou seja, a sua alma, se rejubilava com a idéia. Ele visitava cada casa, cada criança, em tudo quanto era lugar do Campo do Coelho, preparando-as para o grande dia. E, na fundação, comandava os ensaios da petizada, sendo ainda ajudado por muitos artistas amigos de Tânia Alves, todos spazianos, que vieram também colaborar. A festa prometia...

Na Argentina, Tânia Alves buscou os canais de tevê e a imprensa local, além de pedir ajuda às autoridades no sentido de localizar Mariana Fernandez. E o que lhe parecia difícil tornou-se simples, eis que ao primeiro anúncio de que ela estava em solo argentino somente para contatar Mariana Fernandez, esta, ao assistir a entrevista da querida amiga, veio diretamente ao seu encontro e ambas se desmancharam em lágrimas ao se abraçarem. Tânia Alves então convidou Mariana Fernandez a vir ao Brasil e ao SPA, porém lhe ocultando a existência da instituição. Mariana Fernandez ficou deveras emocionada ao receber o convite. E ficou a par de todas as novidades havidas durante a sua ausência, especialmente a mais importante: o seu pupilo Joãozinho era já um calouro de Medicina. Mariana Fernandez não podia nem sonhar com o que a esperava no Brasil e nas serranias friburguenses...

 

NOVE

 

Um mês depois, Mariana Fernandez embarcou no avião com destino ao Brasil. Sentia-se nostálgica, infeliz, pois as lembranças da morte trágica do seu amado jamais lhe saíram da mente. Na verdade, ela ainda se recusava a viver uma existência normal, até certo ponto indignada e cética diante da vida e do mundo. Estava, com efeito, experimentando um terrível baixo-astral.

Com esses pensamentos pessimistas, Mariana Fernandez se manteve silente durante toda a viagem, até que o avião aterrou no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Lá, esperava-a Tânia Alves, que a hospedou em sua casa. No dia seguinte, domingo, ambas seguiram viagem para o Campo do Coelho. Mariana Fernandez, porém, fez questão de passar pelo lugar onde ela e Oswaldo Mazur construíram o seu lar: o recanto de São Pedro da Serra, bem perto de Nova Friburgo. Foi muito forte a emoção de Mariana Fernandez ao rever a casinha onde ela e o amado curtiram uma indescritível felicidade durante treze anos. E ali desatou um pranto de saudade, sendo amparada pela amiga Tânia Alves.

Vencido aquele instante de desalento, elas seguiram viagem percorrendo cada pedaço de chão, o coração aos pulos, com Mariana Fernandez ansiosa ao ver surgir ao longe o Campo do Coelho. Se já não estava fácil para ela segurar as lágrimas, ainda mais difícil ficou quando do carro ela avistou a igrejinha no alto da colina, uma imagem que lhe era tão familiar. Desatou novamente a chorar de emoção. Afinal, era sempre para aquele local que ela conduzia seus amigos spazianos nas caminhadas dominicais. E mais emoção a contagiou quando o carro saiu do asfalto e pegou a estradinha de acesso ao SPA. Ela aproximava sua alma de um passado que abandonara em indescritível sofrimento.

Avistou então, ao longe, o portal de entrada do SPA Maria Bonita, e imediatamente notou que algo muito especial a aguardava, pois se iniciou o foguetório e a Banda de Música da Polícia Militar, postada na entrada, do lado de fora, fê-la ouvir belos acordes de músicas folclóricas argentinas. Ela estremeceu, porque, com a sua sensibilidade, já percebia que algo muito especial a esperava.

O carro parou antes da entrada, distante uns trinta metros da Banda de Música. E Mariana Fernandez viu os dois lados da pista de acesso ao SPA apinhados daquela gente que lhe era tão familiar: os spazianos. Mas, antes, a Banda de Música entoou o Hino Nacional Argentino. Admirável!... Viu-se, além das lágrimas de Tânia Alves e de Mariana Fernandez, que todos naquela fila de espera pranteavam em emoção. E quando ela adentrou o SPA, após o término do hino, viu centenas de spazianos formando um festivo corredor e a aplaudindo ao ouvirem o alto-falante anunciando sem parar o seu nome e o de Oswaldo Mazur.

Mariana Fernandez não acreditava no que via. Não se sentia merecedora de tanto carinho, de tanta homenagem. Na verdade, não sabia o quanto fora importante para aquelas pessoas nas sextas-feiras à noite, quando singelamente interpretava suas histórias infantis e lhes despertava nos corações os tempos da meninice. Muitos ali, naquele momento mágico proporcionado pela maravilhosa contadora de histórias, se lembravam dos pais e avós num clima de emoção inolvidável. Sim, Mariana Fernandez as tornava novamente crianças, e eram essas pessoas que a aclamavam na passagem pelo corredor humano formado em sua homenagem. E, finalmente, ela vislumbrou o majestoso prédio ostentando o nome do inesquecível pintor, retratista e ilustrador de histórias infantis, que deixara sua marca eternamente registrada na alma de toda a gente spaziana e da criançada do Campo do Coelho:

 

Fundação Oswaldo Mazur

 

Ali estava a surpresa, a maior de todas as homenagens: seu inesquecível companheiro eternizado como o patrono de uma obra destinada a cuidar de crianças carentes. E, já envolvida naquele clima emocionante, ela avistou na porta de entrada aquela figura tão amada, seu querido Joãozinho, logo emitindo um comovente “oh!”, enquanto apressava o passo para finalmente abraçar seu grande amigo, o irmão caçula que ela e seu amado Oswaldo Mazur conquistaram no Campo do Coelho.

As homenagens não mais pararam. Houve encenações de peças teatrais, demonstrações de ginástica e, finalmente, a formatura dos novos contadores de histórias da Tradição Sufi, meninos e meninas da primeira turma da Fundação Oswaldo Mazur. Era a Turma Mariana Fernandez. E, neste momento, Joãozinho subiu no palco e declamou um poema especialmente escrito por Cacá, o mais querido dentre os funcionários do SPA, mais uma sincera manifestação de carinho de todos os presentes endereçada a Mariana Fernandez e Oswaldo.

Mariana Fernandez não continha as lágrimas, e recebia muitos abraços e beijos enquanto se encaminhava ao salão para descerrar a placa comemorativa do seu retorno. E eis que lhe veio outra insuperável honraria: ali estava funcionando o Museu Oswaldo Mazur, com as paredes enfeitadas pelos quadros, retratos e livros infantis por ele ilustrados ao longo de sua vida no Brasil. Todos os spazianos haviam doado as obras de arte de Oswaldo Mazur criadas no tempo em que ele atuara no SPA Maria Bonita. Neste momento, Mariana Fernandez caiu em si e percebeu, lá no fundo de sua alma, no coração do seu coração, que seu amado estaria vivo para sempre, nunca jamais seria esquecido, tanto por suas obras como pelas histórias criadas por Joãozinho para eternizá-lo como um Anjo-mensageiro.

Sim, porque Oswaldo Mazur estava ali, presente, entre pássaros, animais, casarios e paisagens verdejantes que retratara em vida. E, no meio daquela gente toda que o amava e ainda o ama, Mariana Fernandez lembrou que o artista nunca morre, apenas se torna Anjo por vontade de Deus. E, percebendo que também era Anjo, finalmente sorriu, e sorriu, e sorriu, porque reencontrou sua alma naquele lugar do vale do Campo do Coelho, um lugar chamado Felicidade. E para lá um dia ela voltará e permanecerá contando suas belíssimas histórias para as crianças pequenas e grandes, para os spazianos antigos e novos, assim novamente participando da mais importante de todas as terapias já havidas no SPA Maria Bonita: o apoio às crianças carentes acolhidas pela Fundação Oswaldo Mazur e o reencontro dos spazianos com o mais nobre de todos os sentimentos: o amor ao próximo.

 

Em tempo: Esta história homenageia Mariana e Oswaldo. Não soube mais dela por muito tempo. Recentemente, porém, algumas pessoas do SPA Maria Bonita garantiram-me que ela conseguiu superar o trauma da perda do marido. Reconstituiu sua vida e atualmente curte um novo amor, já tendo inclusive gerado um rebento, não sei se do sexo masculino ou feminino. Mas isto não importa. O que nos deixa contente é saber que Mariana recobrou a alegria de viver, e certamente está contando suas lindas histórias da Tradição Sufi para muitos adultos e crianças, transmitindo assim a felicidade e levando as pessoas a refletirem sobre a vantagem do Bem sobre o Mal. Mariana, sem dúvida, e mesmo que não saiba, é Anjo-mensageiro. Que seja feliz!

 

 

* SPA – Aurelião – [Do top. Spa, estância hidromineral, na Bélgica.] S. m.  1. Estabelecimento que reúne serviços de hotelaria e outros, terapêuticos ou de cuidados corporais (banhos medicinais, dieta alimentar, exercícios, etc.). 

* Spaziano – palavra incorporada à rotina da comunicação verbal e escrita entre os funcionários e as centenas de pessoas que desfrutaram e desfrutam do SPA Maria Bonita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRIBUTO

A

OSWALDO MAZUR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Emir Larangeira

Abril de 2001
UM

 

 

A densa neblina tocava suavemente o chão na madrugada friorenta que se mantinha acordada nas grimpas do Campo do Coelho, lindo lugar que num tempo mui remoto a mãe-natureza fez nascer nas serranias friburguenses. Mas naquela madrugada o céu parecia não existir, tudo estava envolto por um véu opaco que nem mesmo permitia a visibilidade de algum lume caseiro de casa a casa, e o frio fino e cortante fazia o próprio termômetro tremelicar por conta de uma temperatura indo ao negativo.

Nos humildes casebres espalhados pelo imenso vale de hortaliças as famílias de lavradores tentavam vencer a gelidez enrolando-se em trapos disponíveis, o que era ainda muito pouco. Por isso é que o fogo crepitava e fagulhava em trempes improvisadas nos cantos dos cômodos de chão batido. Cuidava-se, assim, do aquecimento interno para espantar o frio, enquanto a água fervia para coar o café madrugador. Mas havia lá no alto da colina uma pequena casa desde antes acordada e envolta numa neblina tão densa que mais parecia ter sido construída numa nuvem; e, nela, pessoas nervosas circulavam sem parar no espaço apertado, umas indo ao quintal respirar o ar gelado e rapidamente voltando, outras encolhidas sem ânimo diante da friagem; e, dentro da casa, um fogo mais intenso queimava ardentemente o enorme vasilhame cheio de água em ebulição, fazendo oscilar nas sombras dos rostos cansados a alumiação de seus perfis: imperava a ansiedade entre os presentes, ansiedade contagiante, que se instalara nos espíritos daquela gente humilde que se deixava ficar na pequena casa do Campo do Coelho; mas em João Capistrano, o chefe da família, o que se via era uma tensão incontrolável: logo ele seria pai pela primeira vez. Sim, era o que acontecia no seu quarto, onde, naquele momento, nem mesmo ele podia entrar, proibido por mulheres que amparavam sua esposa, Maria da Ajuda, já em trabalho de parto.

Os homens aguardavam o grande momento, todos espalhados por três outros cômodos do ranchinho feito em parede de barro batido no bambu e teto de sapê. Mas tudo muito bem-feito desde muito tempo por João Capistrano e seus diletos amigos. E eram os mesmos que ali com ele tagarelavam nervosamente, tomavam uma pinga atrás da outra e pitavam sem parar o fumo enrolado na palha do milho, enquanto do lado de fora alguns cachorros uivavam em reclamação friorenta. Era, porém, um nervosismo pra lá de saudável, porque todos acreditavam no sucesso do parto e na competência da velha aparadeira, Maria do Carmo, que sempre atendia com dedicação às parturientes naquelas distantes serranias friburguenses.

Tudo ia indo muito bem, pois a aparadeira, experimentada em incontáveis situações como aquela, vinha volta e meia dar esta garantia aos homens nervosos. Mas nem assim João Capistrano se acalmava: tremia, fumava, sentava, levantava, ia até o quintal, voltava, conversava e tentava ocultar sua excitação, algo, porém, impossível naquela altura dos acontecimentos. E veio, enfim, o primeiro som do bebê, o choro da vida, a explosão materializada de mais um espírito chegando ao mundo. E veio a futura comadre, Magnólia Cordeiro, anunciando: “É homem!” Primeiro João Capistrano ficou estatelado, para depois reagir: “Obrigado, meu Deus! É meu filho!... É meu filho! Será João, como eu! Será Joãozinho!”

Pronto, estava sacramentado pelo pai que o rebento teria de pia o seu nome, ou o do avô, que também era João, mas diferençado de ambos pelo diminutivo de primeira hora. Surgia, pois, a terceira geração de lavradores naquele recôndito vale do Campo do Coelho, lugarejo que se situa a 12 Km da cidade de Nova Friburgo, na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, isto para que fique bem localizado o recanto onde ocorreu a história que vamos contar.

DOIS

 

Joãozinho nasceu saudável. Desde as primeiras horas foi muito bem cuidado, apesar da pobreza de seus pais, que vinham vindo há anos plantando do modo como muitos ainda plantam hortaliças diversas, em rotatividade das áreas de cultivo, no vale do Campo do Coelho. Lá a vida corre sem a pressa da cidade, mas é ativa e saudável, pois o que conta é a experiência quase atávica dos lavradores, vinda de gerações passadas, além da solidariedade entre a gente simples, que nunca deixa ninguém sozinho a enfrentar problemas. É a típica comunidade rural estreitada por laços de um labor incessante, e sempre renovado, posto assim o plantio de hortaliças, plantas efêmeras, o exige. Por isso aquela gente laboriosa acorda antes do sol para hortar o chão, e dele, do indispensável sol que chega pujante, se despede o lusco-fusco de um alvorecer friorento. Mas o resultado da conjugação permanente entre a terra, o sol e a água sistematicamente espargida é o verde lindíssimo que cobre todo vale como um imenso tapete: tapete bordado em hortaliças pela mãe-natureza, com a ajuda de seus filhos plantadores.

Naquela manhã de 19 de junho de 1976 o sol jorrava seus raios sobre o vale, mas custava a espantar a teimosa bruma e o frio impertinente. E foi no adiantado da hora que os primeiros brilhos do poderoso rei dos astros finalmente bateram nas costas dos lavradores, que desde o alvorecer labutavam nos campos de hortaliças. E, cumprindo um majestoso determinismo, vieram os pássaros voejando e pipilando e dando bons-dias aos felizes lavradores (homens e mulheres) já aquecidos pelo esforço de seus próprios corpos. Muitos passarinhos adejavam, pousavam, corriam, pulavam e cantavam sem medo da presença humana, formando um quadro fantástico, lindo instante de integração entre humanos e bichos, coisa de Deus. E todos ali ouviam ao longe o choro sadio de Joãozinho, o bebê que no futuro marcaria com emoção intensa a vida simples dos viventes daquele lugar.

 

TRÊS

 

Oito anos se passaram com a lentidão de sempre. Já então Joãozinho acompanhava o pai na labuta de colher, cortar e amarrar os molhos de hortaliças. Mas ficava apenas vendo seu herói paterno laborar enquanto brincava entre a passarada cantante e com ela parolava alegremente com uma voz tão meiga que muitos passarinhos chegavam quase a tocá-lo. Quem visse a cena certamente se deslumbraria diante de tão estupenda beleza, pois lembrava a intimidade de São Francisco de Assis com seus esvoaçantes e coloridos amiguinhos. Sim, porque a imensidão verdejante dos descampados cultivados, – que recebiam a água do riacho cristalino espargida por potentes bombas d’água, formando cortinas de vapores ensolarados e multicolores, – a imensidão verdejante era o fundo da imediata paisagem humana e animal encaixilhada pelo horizonte distante como um quadro pintado pelos deuses. Tudo imensamente lindo!

Assim as imagens de uma natureza maravilhosa se associavam aos movimentos dos camponeses, da passarinhada e das borboletas que cortavam e coloriam ininterruptamente o ar. E toda essa beleza ia sendo gravada na mente infantil de Joãozinho, que, orgulhoso do pai, com ele já compartilhava do café cheiroso e quente, momento em que todos comiam o pão em torno da trempe improvisada em pedras lá mesmo na roça, de onde as caixas de hortaliças seguiam para a cidade. E, no café, surgiam as cavaqueadas dos adultos, em volta o alarido feliz das mulheres, estas que também participavam ativamente da vida no campo, pois nas casas elas ficavam apenas o tempo certo de confeccionar o alimento da família. Enfim, o menino ia gravando no seu pequenino espírito as imagens da mais inefável felicidade, enquanto a vida seguia seu rumo sereno no vale do Campo do Coelho.

 

QUATRO

 

O ano de 1984 marcou a mudança, eis que uma imponente obra surgiu na localidade, aguçando a curiosidade do povo camponês. Mas logo veio o esclarecimento, porque os responsáveis pela grande construção se iniciaram na busca de mão-de-obra destinada ao trabalho mais rústico. A especializada já até começara a montar o canteiro de serviços, e os materiais não paravam de chegar. Seria ali construído um Hotel Fazenda, grande novidade e, de certa maneira, motivo de apreensão, porque muitos camponeses chegaram a imaginar que teriam suas terras invadidas pelo progresso.

Contudo, logo tudo ficou claro, não haveria nada disso, o hotel estava destinado a ocupar uma área livre de qualquer plantio e respeitando a natureza, ou melhor, chegava também com o objetivo de se tornar uma fortaleza em defesa do meio ambiente. Daí então veio a descontração, mantendo-se apenas a curiosidade do povo, que via o hotel receber contornos estruturais bastante portentosos. Mas, na verdade, tratava-se de obra até certo ponto caracterizada pela rusticidade, porque os construtores primavam por sua integração perfeita ao viçoso verde que rodeava o prédio.

É bom que se diga, porém, que a infra-estrutura era primorosa e compatível com a magnitude da empreitada. Assim, depois de bom tempo, emergiu entre pinheiros e eucaliptos, gramados e jardins viçosos o Hotel Fazenda. E dele se podia, e ainda se pode até hoje, avistar os vales ocupados por hortaliças, além de alguns descampados em que poucos animais pastam, e mais ao longe se avistam os outeiros caminhando em direção às altas montanhas cujas silhuetas lá no horizonte infinito recortam o céu. É tudo muito belo, e exatamente neste lugar é que o Hotel Fazenda logo se iniciou a funcionar, até aproveitando muitas pessoas do lugarejo como empregadas. Foi, portanto, salutar a chegada de mais um núcleo de trabalho para aquela gente simples.

Ainda durante a construção, Joãozinho, já indo para nove anos de idade, assistia a tudo maravilhado. Muita vez se embrenhava no mato e ficava horas e horas apreciando os trabalhadores assentando tijolos, misturando a massa, cortando tábuas, cavando buracos, construindo telhados, pintando paredes e envernizando o madeiramento para, finalmente, aflorar a imponente construção. E rebrilhava ao sol aquele prédio, deslumbrando os camponeses não acostumados à nova paisagem. Joãozinho simplesmente vibrava com o acontecimento.

Na escola, situada na pequena zona comercial do Campo do Coelho, que cresceu naturalmente nos dois lados da estrada que liga Nova Friburgo a Teresópolis, a conversa entre a petizada não era outra, de tal modo que as professoras tiveram até mesmo de organizar visitas ao Hotel Fazenda para aplacar a crescente curiosidade infantil. Assim se foi instituindo um inevitável interesse à contemplação da novidade, até que ela se integrasse à rotina do lugar.

Já funcionando, o Hotel Fazenda começou a acolher seus hóspedes, brasileiros e estrangeiros, que para lá acorriam em busca principalmente de paz. E essa gente diferente passou a ser alvo de curiosidade durante um bom tempo, até que o povo local se acostumasse com a invasão. Era, sem dúvida, uma agradável presença, eis que trazia divisas e melhorava a vida de todos. Enquanto isso, na roça, nada mudara: a rotina dos camponeses e da passarada era a mesma; preservara-se a natureza, particularmente porque viera a melhor das indústrias para o Campo do Coelho: o turismo. Não haveria ali chaminés poluentes...

 

CINCO

 

Em meio a toda aquela movimentação crescia Joãozinho, que na escola deslumbrava os mestres em sua volúpia de aprender. Além da dedicação ao estudo das matérias obrigatórias, o menino ainda encontrava tempo para devorar os livros da pequena biblioteca escolar. Lia tudo de tudo, até não haver mais nada para ler, o que o fazia repetir suas leituras à exaustão. E como era uma biblioteca que se formava por doações, via-se nas estantes desde romances clássicos a livros de biofísica. Porém, nada escapava das vistas e da atenção do prodigioso estudante, que muita vez surpreendia as professoras ao demonstrar conhecimentos que deveriam estar ao largo de sua algibeira cultural.

Muita coisa Joãozinho não entendia, é verdade, mas nem por isso deixava de ler e reler os livros, começando logo a se encantar pelos que versavam sobre pintores famosos, além de também se deleitar com as lindas histórias da Tradição Sufi, às quais dava mais importância porque passaram a povoar seu mundo infantil, a estimular sua imaginação fértil e a forjar inspirações futuras. E não demorou muito para que Joãozinho se transformasse em atração no Hotel Fazenda, tudo começando a partir das abordagens que ele fazia aos hóspedes que caminhavam pela estradinha de chão batido bem em frente da casa dele: Joãozinho não perdia a oportunidade de os cumprimentar e lhes pedir livros usados. Todos se encantavam com o menino, e era certo que no dia seguinte os livros choviam no seu colo tal qual a água que se espargia sobre as hortaliças: em grande quantidade. E assim, depois de um tempo, a biblioteca particular de Joãozinho era maior que a do colégio, onde ele já cursava o primeiro grau.

É lógico que, sem perceber, Joãozinho começou a maravilhar os que com ele conversavam, não somente no colégio, onde muita vez demonstrava mais conhecimento sobre determinados assuntos do que a própria professora. Mas eram principalmente os hóspedes do Hotel Fazenda que gostavam de ouvir as histórias do lugar contadas por Joãozinho, bem como com ele trocar impressões sobre literatura e arte em geral, assuntos que passaram a se integrar à sua cultura particular. E isto se explicava facilmente, posto a maioria dos hóspedes preferir durante o descanso e o lazer a leitura de livros deste quilate, cujas mensagens culminavam definitivamente enfiadas no espírito arguto do menino.

Algum tempo passou, até que, de repente, o Hotel Fazenda começou a sofrer pequenas modificações, adaptando-se para funcionar ali um SPA*. E correu um diz-que-diz-que na localidade, eis que chegava comandando o espetáculo uma famosa atriz e intérprete: Tânia Alves. E, junto dela, o empresário Tadeu Viscardi, seu marido e sócio no empreendimento.

Tânia Alves chegou dispensando apresentações, e muito menos necessitou ser apresentada à natureza, eis que no seu espírito já há muito se instalara a férrea vontade de levar as pessoas ao conhecimento do mundo natural, para assim reencontrarem a saúde física e mental. E, se não mudou a fachada do Hotel Fazenda, mudou radicalmente seu miolo, todo agora voltado à reciclagem de pessoas de todos os naipes que vinham em busca de paz e saúde do corpo e do espírito. E logo haveria o reflexo do lado de fora, devido às animadas andanças dos spazianos* por todos os caminhos livres entre as hortaliças plantadas nos descampados do vale do Campo do Coelho. E o que era lindo e animado ficou ainda mais lindo e animado, especialmente aos olhos atentos de Joãozinho.

 

 

 

SEIS

 

O menino continuou a interagir com os novos hóspedes, que sempre voltavam ao SPA. Assim se foi tornando amigo de muitos e ganhando seus livros, até que o fato se transformasse em problema familiar, porque não havia mais paredes para o orgulhoso pai e a enfeitiçada mãe arrumarem as obras acumuladas pelo filho. Mas, bastou Joãozinho externar sua aflição, para a administração do SPA mandar construir no terreno que acolhia sua casa simples um cômodo amplo com o fim de acomodar organizadamente aquela biblioteca, agora com mais de três mil livros. Foi exatamente nessa época que chegou ao SPA um casal que um dia revolucionaria a vida do prodigioso menino: Oswaldo Mazur e Mariana Fernandez.

Vieram da Argentina para tentar a vida e desenvolver suas habilidades no Brasil. Escolheram viver nas serranias friburguenses e descobriram o SPA como um dos locais ideais ao que pretendiam fazer: ele pintando retratos e quadros e ilustrando contos infantis, ela contando histórias. Dois artistas, almas gêmeas maravilhosas naquilo que faziam. E logo conheceram o menino mais badalado por todos quanto freqüentavam ou trabalhavam no SPA, pasmando-se ambos com a cultura dele e, principalmente, com seu talento literário e sua habilidade em reproduzir em papéis improvisados as paisagens do Campo do Coelho, é bem verdade que apenas pinturiladas a lápis de cor. E não levaria muito tempo para que se forjasse uma profunda amizade entre o jovem pintor argentino e o menino Joãozinho. E dela, da amizade, se iniciaria a troca entre os espíritos daqueles dois, pois é certo que, enquanto Oswaldo Mazur ensinava suas técnicas ao menino, este, por sua vez, lhe repassava as idéias de paisagens que depois emergiam como belas obras de arte nas telas do virtuoso argentino.

Era tão impressionante o grau de fidelidade dos cenários descritos pelo menino, que muita vez Oswaldo Mazur os gravava em tela para depois se espantar com a capacidade de Joãozinho em descrever a natureza. Depois, o próprio Joãozinho começaria a produzir lindas obras, porém sempre orientado por seu mestre argentino. Já com Mariana Fernandez ele ouvia, aprendia e memorizava as lindas histórias por ela contadas, e que ele depois reproduzia talentosamente para as crianças no colégio e no salão paroquial da igreja católica que fica numa imponente colina lá no Campo do Coelho. Tornara-se, Joãozinho, uma espécie de irmão caçula do casal argentino, dada a profunda amizade que os unia...

Veio a fase em que Oswaldo Mazur decidira retratar os pássaros da região, que eram muitíssimos e variados, além de lindos. E o maravilhoso pintor, captando as descrições que lhe fazia Joãozinho, foi aprisionando em suas telas, – em meio às paisagens de flores, árvores, gramados e casarios, tendo o céu, as nuvens, o sol ou a lua como complementos, – foi aprisionando em suas telas os sabiás, os gaturamos-reis, os tico-ticos, os canários-da-terra, os beija-flores, os papa-capins, os periquitos, os papagaios e muitos outros espécimes, formando com cada um suas obras-primas imediatamente arrematadas pelos spazianos. Mas depois de um tempo os quadros de Joãozinho eram tão semelhantes aos do mestre argentino que logo se viam arrematados. Com isso, Joãozinho pôde melhorar a moradia da família e aprimorar sua biblioteca, agora transformada em ateliê, por sinal bastante diversificado, eis que, munido de um computador, Joãozinho se iniciou a escrever histórias infantis para Mariana Fernandez narrá-las nas noites de sextas-feiras no SPA. E os spazianos, independentemente de idade, se maravilhavam com as belíssimas encenações de Mariana Fernandez, sempre atentamente acompanhadas por Joãozinho. Na verdade, o quase adolescente simplesmente vibrava com as lindas interpretações da mestra castelhana contadora de histórias e vocacionada divulgadora das maravilhas do mundo do faz-de-conta.

Se havia um lugar chamado Felicidade, esse lugar era ali, era o SPA Maria Bonita, nome dado em homenagem à estupenda atriz Tânia Alves, sua proprietária, famosa por interpretar a figura nordestina mais marcante na vida real e personagem ímpar do cinema nacional. E não somente por isso Tânia Alves se destacou, mas também por defender e divulgar uma importante filosofia de vida, o Naturalismo, doutrina que estimula a volta à vida natural e à simplicidade primitiva, quer nas instituições sociais, quer na maneira de viver das pessoas. Enfim, uma aproximação com o Ser Supremo através do respeito à natureza.

Sim, ali havia a felicidade, até ocorrer o inesperado revés, a tragédia que ceifou de súbito a vida de Oswaldo Mazur. Entendera o Criador que o maravilhoso pintor deveria viver entre as paisagens que ele mesmo retratara, um admirável mundo que ganhava vida através de suas pinceladas mágicas. Na verdade, e sem que ninguém o soubesse, Oswaldo Mazur era um Anjo que acabara de cumprir sua missão terrena. Por isso partira, porém deixando, entre aqueles que o amavam, a saudade.

No início, houve um sentimento de perda extremamente forte, especialmente para Mariana Fernandez, sua mulher, que se viu desamparada tão longe de casa e da família, e desesperada pelo desaparecimento brusco do amado. Foi terrível também para Joãozinho, que se sentiu como se tivesse perdido um pedaço de si, como se uma luz que brilhava dentro de sua alma se houvesse apagado. Foi tanta a sua dor que até afetou o coração do seu coração, o ponto mais profundo de sua alma. Afinal, ele aprendera com o mestre Oswaldo Mazur que todo artista tem um coração do coração, onde se esconde a alma. E a alma de Joãozinho estava irremediavelmente ferida.

Houve, sim, a tristeza da mãe-natureza, o desalento dos camponeses, o silêncio da passarada; houve, sim, na primeira hora, o espanto absoluto, a consternação geral, ainda ampliada porque todos sabiam que a perda seria dupla, eis que Mariana Fernandez, desconsolada, tornara à sua terra natal. E isso foi mais um corte profundo no coração do jovem Joãozinho, que se viu perdido em sua emoção. Não fosse o carinho dos pais, que sofriam, mas lhe procuravam minorar a dor, nem se sabe o que lhe teria acontecido.

Foi João Capistrano, o pai, emocionado e rememorando a madrugada mágica em que seu filho veio ao mundo, foi ele quem alertou Joãozinho para a necessidade de perpetuar a obra do mestre argentino que partira aos Céus. Cabia, sim, a Joãozinho, instituir um meio de manter viva a memória do mestre; era ele quem devia se inspirar e apresentar uma saída para que o nome de Oswaldo Mazur se eternizasse além de sua maravilhosa obra, representada por muitas pinturas, ilustrações e retratos de spazianos que ele riscara em vida. Porque nesses trabalhos estava a imagem eterna do mestre da pintura; nesses retratos, o mestre fixara não somente sua própria emoção, mas os sentimentos das pessoas que para ele posaram. Ele buscava os corações dos corações dessas pessoas através de seus olhares, e captava a máxima beleza daqueles seres humanos. E também gravava a passarinhada com tanta precisão que parecia até que seus maviosos cantos emergiriam a qualquer momento daquelas telas maravilhosas. Era, sem dúvida, um mister orientado por Deus, obra de Anjo-mensageiro...

 

SETE

 

Enquanto Joãozinho sofria em razão da dupla ausência de seus mais importantes amigos, ao mesmo tempo pensava em como cumprir a idéia do seu pai. Mas o sofrimento dele era tão intenso que precisou passar muito tempo antes de lhe brotar a inspiração. Ajudou um pouco a minorar sua dor o ingresso no segundo grau e o estudo à noite. Já se encaminhando à adolescência, ajudava o pai no plantio e na manutenção do roçado de hortaliças, e ainda arranjava tempo para a leitura e a pintura de novos quadros. Mas se afastara do SPA; não suportava a tristeza da lembrança de Oswaldo e Mariana Fernandez, esta que partira para a Argentina para nunca mais voltar. Apesar da tristeza que o abatia, aos domingos, depois da missa, Joãozinho nunca deixava de contar suas histórias para as crianças do lugarejo, que também se reuniam no quintal de sua casa e ficavam horas e horas se deleitando com as maravilhas da Tradição Sufi antes carinhosamente repassadas por Mariana Fernandez. E ele nunca deixava de contar as histórias dele próprio com o seu mestre Oswaldo Mazur. Mantinha-o vivo nas almas de todas as crianças.

Mas eis que, num domingo, estando Joãozinho rodeado de crianças em sua casa, surgiu nada mais nada menos que Tânia Alves. Joãozinho vira-a ainda ao longe, e ela vinha com um sorriso delicado iluminando seu rosto suave e belo, rosto de quem sabe o que é o mundo, o verdadeiro mundo, o mundo natural, a grande obra do Criador dos Céus e da Terra. Na verdade, quando Joãozinho fisgou Tânia Alves com seus olhos viu um Anjo-mensageiro, tal qual Oswaldo Mazur, e concluiu que aquela visita não lhe seria em vão. Haveria, sim, um objetivo muito importante nela, e lembrou o mestre e Mariana Fernandez...

Tânia Alves, depois de pedir a Joãozinho para continuar sua tarefa de distrair a petizada, ficou ouvindo-o atentamente e se entristecendo ao perceber que ele contava histórias tristes. Joãozinho estava triste, sim, mas no coração do seu coração, a casa de sua alma, surgiu sem querer uma pontinha de esperança junto com a natural exclamação: “Oh, tia Tânia! Que prazer!” Ela então esclareceu a razão da inesperada visita:

– Joãozinho, primeiro lhe desejo parabenizar pela bela iniciativa em favor das crianças e da arte. Estou impressionada. Mas acho que é hora de fazermos mais por essas crianças, e eu vim aqui para lhe propor uma parceria...

Na realidade, Tânia Alves e Tadeu Viscardi já haviam decidido iniciar uma obra social de grande vulto destinada às crianças pobres do Campo do Coelho. Pensavam em construir na área do SPA um prédio polivalente destinado ao complemento educacional das centenas de meninos e meninas que habitavam as cercanias do SPA. E partiram para a concretização da idéia de fundar uma instituição com a finalidade de incrementar as artes e os esportes, além de proporcionar às crianças um atendimento básico de saúde. Seria, sem embargo, uma obra monumental, mas Tânia Alves esperava contar com a colaboração dos próprios spazianos. Era uma causa justa, Tânia Alves e Tadeu Viscardi resolveram apostar na idéia. Mas dependiam muito da participação de Joãozinho, que sozinho concentrava a atenção da petizada. Por isso foi a casa dele convidá-lo a participar, surpreendendo-se, porém, com o que viu: um abnegado jovem dedicando-se de corpo e alma à preservação da Tradição Sufi e repassando aos seus pequeninos ouvintes as histórias aprendidas com Mariana Fernandez.

Tânia Alves ficou deveras emocionada, e mais ainda se emocionou Joãozinho quando, depois de sugerir à artista dar à instituição o nome do saudoso mestre, recebeu dela a aquiescência imediata. Na verdade, também ela guardava no coração do seu coração uma profunda saudade daquele casal argentino que viera para o Brasil trazendo na bagagem a arte e a alegria de viver. Seria, pois, uma justa homenagem.

Tânia Alves e Tadeu Viscardi puseram então mãos à obra, e em poucos meses surgiu num largo espaço do terreno do SPA o majestoso prédio. E, para surpresa da atriz, os spazianos, todos, sem exceção, colaboraram na construção, e ainda se propuseram a ajudar a fundação por meio de contribuições mensais. Mas havia algo de comum, havia a mola propulsora, a essência daquela motivação, e ela se chamava Oswaldo Mazur. Sim, porque quase todos estavam ligados ao artista, ou por terem em suas casas seus maravilhosos quadros, ou por guardarem em belíssimas molduras seus retratos por ele pintados, ou possuírem enfileirados nas estantes os livros infantis por ele magnificamente ilustrados. Sim, sim, Oswaldo Mazur estava dentro do coração do coração de centenas de pessoas que o admiravam sobremaneira, ele fazia parte da alma daquelas pessoas; por isso, tudo foi ficando mais fácil...

 

OITO

 

Com efeito, houve a entusiástica participação dos spazianos, que se ligaram espontaneamente ao projeto movidos pelo amor ao casal argentino que tantas lições de vida deixaram gravadas no SPA Maria Bonita. E logo os espaços da fundação foram ocupados pelas crianças do Campo do Coelho, que tanto recebiam tratamento médico e dentário como o apoio em suas necessidades culturais, através de intensas atividades desportivas e artísticas, com aulas de música instrumental, balé, teatro, canto orfeônico e, principalmente, com o desenvolvimento da arte de contar histórias, a arte de Mariana Fernandez, que nunca jamais seria esquecida.

Mas faltava ela, Mariana Fernandez, nem que fosse para conhecer a homenagem que seu amado recebera. Daí é que os spazianos, juntamente com Tânia Alves e Tadeu Viscardi, decidiram também lhe providenciar um preito de reconhecimento. Coube então a Tania Alves partir para a Argentina no encalço dela, enquanto aqui se organizava a grande festa. Seria, sem dúvida, uma grata surpresa para ela, embora também se soubesse que não seria fácil localizá-la. Mas Tânia Alves possuía o principal para atingir tal desiderato: o prestígio internacional...

Enquanto tudo isso ocorria, Joãozinho tomava-se de emoção. Só pela possibilidade de rever a querida contadora de histórias da Tradição Sufi, seu coração batia mais forte; e o coração do seu coração, ou seja, a sua alma, se rejubilava com a idéia. Ele visitava cada casa, cada criança, em tudo quanto era lugar do Campo do Coelho, preparando-as para o grande dia. E, na fundação, comandava os ensaios da petizada, sendo ainda ajudado por muitos artistas amigos de Tânia Alves, todos spazianos, que vieram também colaborar. A festa prometia...

Na Argentina, Tânia Alves buscou os canais de tevê e a imprensa local, além de pedir ajuda às autoridades no sentido de localizar Mariana Fernandez. E o que lhe parecia difícil tornou-se simples, eis que ao primeiro anúncio de que ela estava em solo argentino somente para contatar Mariana Fernandez, esta, ao assistir a entrevista da querida amiga, veio diretamente ao seu encontro e ambas se desmancharam em lágrimas ao se abraçarem. Tânia Alves então convidou Mariana Fernandez a vir ao Brasil e ao SPA, porém lhe ocultando a existência da instituição. Mariana Fernandez ficou deveras emocionada ao receber o convite. E ficou a par de todas as novidades havidas durante a sua ausência, especialmente a mais importante: o seu pupilo Joãozinho era já um calouro de Medicina. Mariana Fernandez não podia nem sonhar com o que a esperava no Brasil e nas serranias friburguenses...

 

NOVE

 

Um mês depois, Mariana Fernandez embarcou no avião com destino ao Brasil. Sentia-se nostálgica, infeliz, pois as lembranças da morte trágica do seu amado jamais lhe saíram da mente. Na verdade, ela ainda se recusava a viver uma existência normal, até certo ponto indignada e cética diante da vida e do mundo. Estava, com efeito, experimentando um terrível baixo-astral.

Com esses pensamentos pessimistas, Mariana Fernandez se manteve silente durante toda a viagem, até que o avião aterrou no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Lá, esperava-a Tânia Alves, que a hospedou em sua casa. No dia seguinte, domingo, ambas seguiram viagem para o Campo do Coelho. Mariana Fernandez, porém, fez questão de passar pelo lugar onde ela e Oswaldo Mazur construíram o seu lar: o recanto de São Pedro da Serra, bem perto de Nova Friburgo. Foi muito forte a emoção de Mariana Fernandez ao rever a casinha onde ela e o amado curtiram uma indescritível felicidade durante treze anos. E ali desatou um pranto de saudade, sendo amparada pela amiga Tânia Alves.

Vencido aquele instante de desalento, elas seguiram viagem percorrendo cada pedaço de chão, o coração aos pulos, com Mariana Fernandez ansiosa ao ver surgir ao longe o Campo do Coelho. Se já não estava fácil para ela segurar as lágrimas, ainda mais difícil ficou quando do carro ela avistou a igrejinha no alto da colina, uma imagem que lhe era tão familiar. Desatou novamente a chorar de emoção. Afinal, era sempre para aquele local que ela conduzia seus amigos spazianos nas caminhadas dominicais. E mais emoção a contagiou quando o carro saiu do asfalto e pegou a estradinha de acesso ao SPA. Ela aproximava sua alma de um passado que abandonara em indescritível sofrimento.

Avistou então, ao longe, o portal de entrada do SPA Maria Bonita, e imediatamente notou que algo muito especial a aguardava, pois se iniciou o foguetório e a Banda de Música da Polícia Militar, postada na entrada, do lado de fora, fê-la ouvir belos acordes de músicas folclóricas argentinas. Ela estremeceu, porque, com a sua sensibilidade, já percebia que algo muito especial a esperava.

O carro parou antes da entrada, distante uns trinta metros da Banda de Música. E Mariana Fernandez viu os dois lados da pista de acesso ao SPA apinhados daquela gente que lhe era tão familiar: os spazianos. Mas, antes, a Banda de Música entoou o Hino Nacional Argentino. Admirável!... Viu-se, além das lágrimas de Tânia Alves e de Mariana Fernandez, que todos naquela fila de espera pranteavam em emoção. E quando ela adentrou o SPA, após o término do hino, viu centenas de spazianos formando um festivo corredor e a aplaudindo ao ouvirem o alto-falante anunciando sem parar o seu nome e o de Oswaldo Mazur.

Mariana Fernandez não acreditava no que via. Não se sentia merecedora de tanto carinho, de tanta homenagem. Na verdade, não sabia o quanto fora importante para aquelas pessoas nas sextas-feiras à noite, quando singelamente interpretava suas histórias infantis e lhes despertava nos corações os tempos da meninice. Muitos ali, naquele momento mágico proporcionado pela maravilhosa contadora de histórias, se lembravam dos pais e avós num clima de emoção inolvidável. Sim, Mariana Fernandez as tornava novamente crianças, e eram essas pessoas que a aclamavam na passagem pelo corredor humano formado em sua homenagem. E, finalmente, ela vislumbrou o majestoso prédio ostentando o nome do inesquecível pintor, retratista e ilustrador de histórias infantis, que deixara sua marca eternamente registrada na alma de toda a gente spaziana e da criançada do Campo do Coelho:

 

Fundação Oswaldo Mazur

 

Ali estava a surpresa, a maior de todas as homenagens: seu inesquecível companheiro eternizado como o patrono de uma obra destinada a cuidar de crianças carentes. E, já envolvida naquele clima emocionante, ela avistou na porta de entrada aquela figura tão amada, seu querido Joãozinho, logo emitindo um comovente “oh!”, enquanto apressava o passo para finalmente abraçar seu grande amigo, o irmão caçula que ela e seu amado Oswaldo Mazur conquistaram no Campo do Coelho.

As homenagens não mais pararam. Houve encenações de peças teatrais, demonstrações de ginástica e, finalmente, a formatura dos novos contadores de histórias da Tradição Sufi, meninos e meninas da primeira turma da Fundação Oswaldo Mazur. Era a Turma Mariana Fernandez. E, neste momento, Joãozinho subiu no palco e declamou um poema especialmente escrito por Cacá, o mais querido dentre os funcionários do SPA, mais uma sincera manifestação de carinho de todos os presentes endereçada a Mariana Fernandez e Oswaldo.

Mariana Fernandez não continha as lágrimas, e recebia muitos abraços e beijos enquanto se encaminhava ao salão para descerrar a placa comemorativa do seu retorno. E eis que lhe veio outra insuperável honraria: ali estava funcionando o Museu Oswaldo Mazur, com as paredes enfeitadas pelos quadros, retratos e livros infantis por ele ilustrados ao longo de sua vida no Brasil. Todos os spazianos haviam doado as obras de arte de Oswaldo Mazur criadas no tempo em que ele atuara no SPA Maria Bonita. Neste momento, Mariana Fernandez caiu em si e percebeu, lá no fundo de sua alma, no coração do seu coração, que seu amado estaria vivo para sempre, nunca jamais seria esquecido, tanto por suas obras como pelas histórias criadas por Joãozinho para eternizá-lo como um Anjo-mensageiro.

Sim, porque Oswaldo Mazur estava ali, presente, entre pássaros, animais, casarios e paisagens verdejantes que retratara em vida. E, no meio daquela gente toda que o amava e ainda o ama, Mariana Fernandez lembrou que o artista nunca morre, apenas se torna Anjo por vontade de Deus. E, percebendo que também era Anjo, finalmente sorriu, e sorriu, e sorriu, porque reencontrou sua alma naquele lugar do vale do Campo do Coelho, um lugar chamado Felicidade. E para lá um dia ela voltará e permanecerá contando suas belíssimas histórias para as crianças pequenas e grandes, para os spazianos antigos e novos, assim novamente participando da mais importante de todas as terapias já havidas no SPA Maria Bonita: o apoio às crianças carentes acolhidas pela Fundação Oswaldo Mazur e o reencontro dos spazianos com o mais nobre de todos os sentimentos: o amor ao próximo.

 

Em tempo: Esta história homenageia Mariana e Oswaldo. Não soube mais dela por muito tempo. Recentemente, porém, algumas pessoas do SPA Maria Bonita garantiram-me que ela conseguiu superar o trauma da perda do marido. Reconstituiu sua vida e atualmente curte um novo amor, já tendo inclusive gerado um rebento, não sei se do sexo masculino ou feminino. Mas isto não importa. O que nos deixa contente é saber que Mariana recobrou a alegria de viver, e certamente está contando suas lindas histórias da Tradição Sufi para muitos adultos e crianças, transmitindo assim a felicidade e levando as pessoas a refletirem sobre a vantagem do Bem sobre o Mal. Mariana, sem dúvida, e mesmo que não saiba, é Anjo-mensageiro. Que seja feliz!



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 * SPA – Aurelião – [Do top. Spa, estância hidromineral, na Bélgica.] S. m.  1. Estabelecimento que reúne serviços de hotelaria e outros, terapêuticos ou de cuidados corporais (banhos medicinais, dieta alimentar, exercícios, etc.). 

* Spaziano – palavra incorporada à rotina da comunicação verbal e escrita entre os funcionários e as centenas de pessoas que desfrutaram e desfrutam do SPA Maria Bonita.