A
LÓGICA DO MILITARISMO NA POLICIA MILITAR - OU A FALTA DELA...
(Revisado por Emir Laranjeira
em dezembro de 2022)
Ao leitor:
Quando escrevo textos para
postagem em algum espaço, atenho-me ao assunto sempre com a intenção de que
seja útil. Não estou limitado por número de linhas ou palavras, como muitas
vezes me exigem em textos destinados à publicação em blogs, jornais e outros, o
que é natural. Aqui, o princípio é o da minha liberdade de comunicar algo que
possa servir como objeto de reflexão aos interessados por uma ordem pública
dependente da ação de pessoas que compõem uma complexa engrenagem. Quem são
essas pessoas, de ontem e de hoje?... No caso, exponho-me como um exemplo
dentre vários que podem ou não guardar entre si alguma similitude. Geralmente
guardam. Afinal, somos subsistemas de um só sistema...
SÍNTESE
DE UMA REALIDADE VIVENCIADA
Lembra-me a fraca memória das
obrigações e punições eclesiásticas e escolares de minha infância vivida em
bairros periféricos de Campos e de Niterói. Sobre as primeiras, dentre outras
chatices, o dever de comparecimento à missa aos domingos e às aulas de
catecismo. Demais disso, havia o indefectível carimbo na caderneta de presença
à missa, na porta da igreja, para apresentá-la ao colégio público na
segunda-feira, sob pena de eu não conseguir assistir às aulas, não sem antes a
minha mãe ser chamada às falas pela direção.
No colégio, o costume da
palmatoada era levado ao extremo por bedéis e professores. Na falta de
palmatória, como aconteceu certa vez comigo e minha “amada” professora, fui por
ela agredido a “sombrinhadas” e posto de castigo olhando para a parede de um
canto da sala. Como sempre, ela estava coberta de razão.
Passada a fase que me afastou
das religiões, permaneci sob pressão nos estágios seguintes do primeiro e
segundo graus (ginásio e científico). Incrível, mas até estudando à noite, e já
adulto, ainda enfrentei problemas com bedéis devido a minha intransigente
vontade de me sentir livre. Muitas vezes, fui posto ante a diretoria do colégio
a me explicar e jamais justificar coisa alguma. Como, porém, havia um diretor
meu parente distante, eu me salvava da expulsão pelo gongo do parentesco.
No trabalho, durante o dia, a
vigilância hierárquica e os maus-tratos eram piores ainda. A ameaça de perda do
emprego tornava os empregados submissos. Eu, sempre inconformado, não raramente
fui demitido por desferir palavras ofensivas a meus opressores (gerentes e
donos de lojas, nas quais pouco durei como empregado).
Se permaneci em alguns
lugares, não foi por outra razão se não o parentesco com o dono ou algum
diretor, pois eu era um ramo pobre duma árvore genealógica de família rica.
Azar o meu, pois se eu nascesse um pouquinho mais à direita ou à esquerda da
árvore, nem seria necessário trabalhar. Por outro lado, sorte minha, porque fui
amparado por parentes e venci o tempo e alguns gerentes e chefes que me
demitiam no meio das peças de carros que eu contava, depois de receberem a
minha recusa em varrer algum canto da loja (eu era controlador de estoque; não
era faxineiro). Tão logo subia a ordem de demissão do gerente-opressor, quem a
recebia era meu tio, o patrão, dono do negócio, meu parente rico e bondoso.
Assim, meu opressor quebrava a cara, às vezes até demitido ante minhas
exageradas futricas, para gáudio de muitos empregados oprimidos, sem a sorte do
pobre parente de rico.
Claro que minha recusa ante o
anúncio da demissão, que geralmente não se concretizava, acompanhava-se de
palavrões e ofensas diretas ao desavisado. Algumas vezes incluía até correria
atrás dele com um setor de direção de caminhão F-600 (Ford) muito parecido com
borduna de bugre. Bela cena! Era assistida por todos os empregados, que
vibravam vendo aquele “galinho garnisé” de “borduna de aço” na mão a tentar
alcançar o apavorado gerente e quebrar-lhe o coco. Foi assim que trabalhei e concluí
o curso secundário. Depois, convencido por meus tios, que foram policiais-militares
antes de mim, ingressei na PMRJ como soldado raso. Ótimo emprego, por sinal,
passei a ganhar o dobro do que percebia como comerciário, ou seja, dois
salários mínimos. Bons tempos! Era o ano de 1965...
Na vida militar (literal
naquela época, – e aquartelada, – aprendi a ser soldado na acepção mais
cristalina e substantiva da palavra. O policial era complemento quase que
adjetivo, mas era substantivo na essência. Por outro lado, embora houvesse o
império da hierarquia e disciplina militares, o cotidiano era saudável e de
camaradagem, salvo algumas exceções. Nesse período em que fui soldado raso,
lembra-me alguns superiores que se tentavam impor pelo terror dos regulamentos,
mas não logravam êxito. Havia um sistema de freios e contrapesos que garantia o
respeito mútuo nas relações entre superiores e subordinados.
Claro que eu, – com minha
índole questionadora, – tive alguns problemas. Nem tantos que me indispusessem
com o sistema militarizado. Nele não havia a figura do patrão, agora
substituída pelo Estado. Como afirmei, as normas valiam indistintamente para
superiores e subordinados e as relações internas não eram tão estressantes.
Havia, sim, de quando em quando, algum problema disciplinar e punições. Havia
também desvios de conduta graves e punições que iam das penas brandas às
exclusões ou expulsões daqueles que desmereciam a corporação. Confesso, porém,
que as opressões e injustiças intramuros do quartel me pareciam menos intensas:
as agruras que enfrentei no mundo civil foram piores.
A verdade é que gostei da vida
militar e de ser PM. Animado, ingressei na Escola de Formação de Oficiais, um
regime de internato bem mais rigoroso que nos meus tempos de recruta e de soldado
raso, e em alguns momentos, e situações, extremamente injusto. A preocupação
dos superiores e instrutores em zelar pela boa formação do futuro oficial
ultrapassava o rigor excessivo. O ritmo do curso e o sistema de vigilância e
punição transformavam os cadetes em máquinas. O controle do tempo e dos
movimentos dos alunos alcançava as raias da loucura. O único direito do cadete,
ou aluno-oficial, ou simplesmente aluno, era o de não ter direito algum. O
único direito, para ser sincero, era o de cumprir com exaustivos deveres desde
a alvorada, às 05:00hs, ao toque de silêncio, às 22:00hs. Na sexta-feira, os
que não estavam escalados de serviço eram dispensados ao final da tarde, não
sem antes ouvirem a leitura do boletim, surpreendendo-se alguns com o “licenciamento
sustado” (fim de semana aquartelado), por mínimas faltas ocorridas durante a
semana, muitas delas nem percebidas. Essa cultura de sustação da dispensa
tornava a semana um ambiente de temor e apreensão.
Nesse clima de tormento, a
disposição dos cadetes resumia-se a cumprir rotina e decorar polígrafos, que
incluíam a obrigatoriedade de saber o tamanho do degrau da escada de incêndio
ou em quantas partes se divide o cavalo ou o fuzil ordinário (FO). Não havia
tempo para filosofar, isto seria crime naquele contexto. Pensar?... Nem
pensar!... E às horas de “decoreba” somavam-se aquelas igualmente decoradas
pelos instrutores: os exercícios físicos e a ordem-unida, que, no seu conjunto,
transformavam os cadetes nos “corpos dóceis” relatados por Foucault. E
finalmente férias... Ó doces férias!... Descompressão, abraço ao mundo exterior
e... pânico: se o mundo intramuros espantava-me, o extramuros me parecia
estranho depois de tanta “lavagem cerebral”. O somatório desse exercício de
loucura, ao fim e ao cabo de três anos, resultava no festejo do aspirante-a-oficial,
que, depois do período de seis meses de estágio probatório em quartéis
operacionais, era promovido a segundo-tenente, aí sim, emergia o oficial pronto
e acabado. Para quê?...
Muito bem, voltemos um pouco
aos meus tempos de soldado para sublinhar dois fatos que mudaram minha maneira
de pensar sobre o militarismo: fui duas vezes trancafiado em xadrez sem motivo,
além de execrado por meus algozes: dois tenentes saídos dos livros de história,
filhotes de Vidigal. Não entrarei em detalhes, a não ser para afirmar que
passei a odiar pelo resto da vida o “compartimento fechado denominado xadrez”.
Já tenente, quase capitão,
servi na Companhia Escola de Recrutas. Lá não havia xadrez e não fez falta
alguma. A disciplina dos cursos era rigorosíssima, mas a cultura disseminada
era a da disciplina consciente. Formávamos na época um grupo de tenentes
dispostos a não confundir treinamento com “lavagem cerebral”. A instrução era
duríssima, sim, mas cada instrutor explicava suas razões, de modo a evitar a
transformação de jovens recrutas em máquinas. Participei desse processo de
mudança de ensino e instrução durante anos a fio, e quem por lá passou, pelos
idos de 1970 em diante, sabe que foi assim a Cia Escola, como nós a chamávamos
no dia-a-dia. Bons tempos, mas que pouco duraram, as Polícias Militares
brasileiras passaram a substituir as Polícias Civis no policiamento ostensivo
em todo o país. E se iniciou um período de ambivalência profissional resumida
na dúvida (ou dilema?): ser ou não ser militar ou policial?... Eis a questão...
É desse momento em diante que
o “militarismo policial” perdeu a lógica; e vem perdendo a batalha contra a
criminalidade em processo de autodestruição talvez irreversível: a vivência passou
a ser outra; o treinamento objetivava o militarismo de força auxiliar reserva
do Exército Brasileiro; a manutenção da ordem pública resumia-se aos grandes
policiamentos e ao emprego de efetivos comandados ao modo de “tropa”; o homem
não atuava isolado nem em dupla, salvo poucas exceções para justificar a
existência e a utilidade das Polícias Militares no contexto do ambiente social.
E as Polícias Militares, – acostumadas ao ocioso aquartelamento, ao romantismo
do “cosme-e-damião” e ao treinamento baseado em cenários fictícios, – foram às
ruas enfrentar a desordem pública que explodira no planeta com a proliferação
do tráfico de drogas e de armas, surpreendendo o sistema viciado em “defesa
interna” e “defesa territorial”.
O foco agora era a segurança
pública e sua equivalente “defesa pública”; o quartel tornou-se quarteirão; a
ficção tornou-se realidade; o militar deu lugar ao policial; a tropa tornou-se
indivíduos fardados ocupando as ruas e logradouros; e as pressões desancaram o
equilíbrio representado por um militarismo cuja hierarquia fundava-se na
camaradagem entre superiores e subordinados, e numa disciplina consciente. A
confiança cedeu lugar à desconfiança; os interesses típicos do micropoder
policial começaram a predominar na cultura da tropa, que deixou de ser
aquartelada para se tornar “forma e tipo de policiamento ostensivo”. O restrito
quartel fragmentou-se no exigente ambiente social subdividido em “áreas,
subáreas, setores, subsetores e roteiros de patrulhamento”.
Com efeito, o anterior “sentir-se
militar” naturalmente predominando sobre o “ser policial” desequilibrou-se
deveras; a calmaria dos quartéis rendeu-se à turbulência ambiental; as
cobranças regulamentares perderam seus limites, antes salutares, e se tornaram
doentias; a tropa, antes musculosa, engordou; a beleza da farda deu lugar ao
temor de usá-la; a medo dos bandidos, os militares das Forças Armadas e das
Polícias Militares sumiram das ruas; suas identidades foram parar na sola dos pés,
dentro dos sapatos; nunca mais se viu farda de PM pendurada nos quintais
secando ao sol aberto.
É o que vivenciei ou assisti
desde que fui às ruas sem qualquer preparo, como se a “tropa” não ultrapassasse
a ideia dos bonequinhos de chumbo de nossas ficções estratégicas, táticas e
operacionais em “teatros de operações” e “cenários” projetando ações como num
“set de filmagem”. Tornamo-nos, nós, policiais militares, seres de carne e osso
e alma a enfrentar isoladamente os perigos reais; os tiros de festim dos nossos
treinamentos hoje se reduzem às honras fúnebres nos cemitérios que nos acolhem
diariamente.
Hoje, os tiros são reais; a
nossa imagem é ruim, apesar do sacrifício extremo a que somos submetidos; o
militarismo, antes vocacionado e saudável, transformou-se em arma contra a
tropa individualizada ao modo policial. Não somos mais militares, apenas
fingimos ser para efeito de cobranças regulamentares típicas do militarismo em
tempos de guerra ou em tempo algum. A culpa é sempre do subordinado. O militarismo
PM incorporou ao seu dia a dia a lógica cruel da punição banalizada e a alegria
anterior rendeu-se por inteiro à tristeza.
Ah, se houvesse mercado de
trabalho disponível ao jovem brasileiro!... Poucos aceitariam ser policiais-militares.
Mas, como a miséria é grandiosa, e é melhor morrer de tiro que de fome, a fila
de ingresso na PM, – tal como boiada que aumenta no pasto enquanto as florestas
desaparecem do mapa brasileiro, – a fila de ingresso na PM é tão tamanhona
quanto a fila de policiais-militares sepultando companheiros descartados da
vida na tenra idade. Ontem, a lógica era a de que o bandido morria cedo; hoje,
a lógica é a de que o policial-militar morre antes do cedo. É o que vivenciei
na juventude dos bons tempos e na maturidade dos maus tempos hodiernos. E sofro
as mesmas dores ao perceber que tudo piora e tende à caótica desordem pública.
Ora bem... Fosse eu agora o
jovem de outrora, não me arriscaria a começar a vida na condição de soldado PM.
Nem de oficial. Preferiria me submeter aos irascíveis gerentes e patrões civis,
ou tentaria concurso em outras profissões estatutárias. Pois, quando vejo,
hoje, um jovem ingressar na PMERJ (infelizmente não pude evitar que parentes
meus assim o fizessem), sinto uma profunda angústia.
Não consigo projetar sua
imagem à velhice; espelho-a em exemplos reais de jovens entregues aos cuidados
médicos de nossos e de outros hospitais: paraplégicos, tetraplégicos,
desmembrados por tiros de fuzil ou acometidos de graves doenças psiquiátricas e
psicológicas; ou, pior que tudo: vejo-os facilmente descartados da corporação
como lixos inservíveis. Mas nada disso é problema dentro da lógica do
“militarismo policial” de agora. A fila de “vocacionados ao abate” aumenta na
proporção do crescimento populacional e da miséria do povo. Árvores são
cortadas, florestas diminuem, a manada multiplica-se nos pastos tristes, as
nascentes secam, a vida e a morte continuam, enquanto o planeta Terra viaja
pelo Universo, ambos indiferentes ao desastre social que nos assola por nossa
culpa exclusiva...