OPERAÇÃO ARABESCO
O TRÁFICO NO ASFALTO

EMIR LARANGEIRA
2000
Ao Cabo PM
Valério dos Santos Oliveira, da Polícia Militar de Minas Gerais, morto a tiro
em 24 de junho de 1997 (Dia Nacional de Luta dos Cabos e Soldados) na cidade de
Belo Horizonte, enquanto clamava, junto com outros companheiros, por melhores
condições de vida e de trabalho em favor de sua sofrida categoria.
“Recentemente, um jovem perguntou a seu pai, um famoso
toxicólogo inglês:
–
Papai, o que é uma droga?
–
Uma droga, meu filho, é uma substância, que
injetada em um cachorro, produz uma pesquisa.
Esta resposta é a melhor maneira de
ilustrar o que significa na atualidade a palavra droga. Sua presença se faz
sentir de uma forma ou de outra, porque não há dúvida de que é o negócio –
econômico e político – mais esplêndido dos últimos anos. Mas, exatamente por
isso, tem sua face oculta, que a transforma em mito.”
(Rosa
del Olmo, in “A Face Oculta da Droga”, Ed. Revan, Rio de Janeiro, 1990.)
CAPÍTULO
I - A INTRINCADA TEIA DO NARCOTRÁFICO
ANO 2000
31
DE MARÇO, SEXTA-FEIRA... São Paulo, capital. Sirenes rasgando o ar.
Edifícios, casas e lojas correndo velozes na passagem dos carros de polícia.
Chegada em Moema, na cruza das ruas. Ao pé do semáforo, um carro parado. Dentro
do carro, um corpo tombado no banco. É a cena do crime, o cadáver – ainda
quente e banhado em sangue e massa encefálica – traz a farda azul pintada em
rubro terror e tem os olhos esbugalhados de quem morrera em espanto. As
insígnias nos ombros e as medalhas no peito marcam a importância da vítima, um
coronel da FAB, que saía de sua
casa ao trabalho. Mas ali, naquele semáforo, a morte estúpida, covarde e
inesperada alcançara-o e cortara-lhe para sempre a rotineira trajetória.
No clamor que se forma, logo acorrem os vizinhos – ele
morava a cem metros do ponto fatal. Imediatamente reconhecido o corpo inerte da
vítima, a polícia perdida, sem qualquer pista. Testemunhas esclarecem a fria
execução: o militar estacara o carro no sinal, vermelho como o seu sangue;
repentinamente ao seu lado um carro pára; dentro dele há dois homens, dois
gélidos assassinos, duas venenosíssimas e traiçoeiras cobras, uma delas prestes
ao bote. E o carona, com a metralhadora no ponto e oculta no colo, para a
vítima meneia a cabeça e sorri. É um sorriso cínico, mas o distraído coronel
nada percebe, e ainda o retribui com um gesto discreto de aceno comum entre
estranhos nas ruas. De súbito, ele vê a boca do cano apontada na sua cara e
dilata as pupilas num relance de estupor. E lhe vem a rajada, abafada por
silenciador, cortando num átimo o espaço sem volta e alcançando-lhe o rosto e a
cabeça. O impacto é fatal, instantânea é a morte. O carro sai em disparada,
assassinos fugindo, especialistas, em típica execução a serviço de mandantes,
segundo as primeiras impressões dos policiais que comparecem ao local.
Imediatamente identificado o coronel: Paulo Reno, o seu nome
de guerra. Estava a caminho do aeroporto de Congonhas para mais um expediente
no Serviço Regional de Aviação Civil. Era o chefe. Dele, porém, sobrara apenas
o crânio estourado, a farda vermelha, uma cena terrível. E estava claro que não
fora assalto – os matadores nem se deram o trabalho de descer. Eram
pistoleiros. E ninguém sobreviveria ao impacto de oito balaços de 9 mm,
conforme posterior conclusão do legista.
O crime abala a cidade e torna o dia agitado na metrópole
paulistana. A imprensa especula sobre a brutal execução, especialmente devido à
significativa data em que acontecera o fato... Insinuam atentado político por
grupos radicais ainda ligados a cobranças passadas. Mais tarde, em Brasília, o
comando da FAB emite
seca e desinteressada nota oficial, argüindo que o crime comum seria apurado,
mas apenas para consignar se a morte do militar ocorrera ou não em serviço, uma
praxe da caserna. Segundo o pronunciamento oficializado, as investigações
permaneceriam a cargo dos policiais civis, com o alto chefe militar assegurando
confiar no trabalho daqueles profissionais estaduais. Tudo pura desconversa...
Também o Ministério da Defesa não se pronuncia. Apenas se
reporta à explicação já emitida pelo comando da FAB. Uma semana depois, ninguém mais se lembra do defunto, a
não ser os seus familiares e companheiros de farda. A morte, então, envolve-se
em inextricável mistério. No sepultamento, a família defende veementemente o
finado, afirmando ter sido ele uma pessoa pacata, sem inimigos, caseira,
afastando assim qualquer hipótese de crime passional. Por isso, nada
aparentemente explicava aquela execução à moda mafiosa; e o tempo, trapeiro e
indiferente, cuidou do esquecimento. Mas o fato nunca sairia da memória dos
agentes da SECINT (Secretaria de
Inteligência da Aeronáutica). Um dia, a desforra viria...
ABRIL.
RIO DE JANEIRO. CAIS DO PORTO. NOITE. Navio da Marinha de Guerra dos EUA descarrega diversas caixas lacradas,
que são imediatamente transferidas para caminhões do Exército Brasileiro numa
operação toda realizada por homens fardados. Alguns estivadores e funcionários
curiosos observam tudo de precavida distância, com a área de desembarque
totalmente isolada e somente ocupada por mal-encaradas sentinelas. Fuzis e
metralhadoras inibem qualquer curiosidade...
Logo depois os caminhões, em comboio fortemente escoltado,
rodam pneus nervosos nas estradas e só param em Brasília, Forte Apache,
quartel-general do Exército. Em chegando, o misterioso material, sem qualquer
identificação externa nas caixas que o conduzem, é levado a um amplo setor
totalmente isolado e com indicação de ultra-secreto. No quartel, ninguém
estranha.
Ainda durante esse mês chegam equipes de técnicos japoneses
e americanos. Confinam-se naquela área restrita e trabalham ininterruptamente.
Do aparato tecnológico contido nas caixas emerge montada, naquele ambiente
fechado, uma espetacular CENTRAL DE COMUNICAÇÕES E OPERAÇÕES DE INTELIGÊNCIA (CCOI), dotada de computadores de última
geração e de outros equipamentos eletrônicos altamente sofisticados, fazendo
interface com os sistemas de espionagem e contra-espionagem em todos os níveis
da maquinaria governamental brasileira, ainda interligados aos sistemas
congêneres das superpotências amigas.
Na parede é instalada imensa tela de cristal líquido,
projetando o mapa da América do Sul em minudentes detalhes, especialmente o
desenho do território brasileiro, reproduzindo-se com exatidão o verde das
matas, os rios e riachos, os lagos e lagoas, as cidades de grande porte, as
estradas, aeroportos e portos, além de muitos outros pontos estratégicos
existentes no território nacional, tudo em cores vivas, brilhantes e
legendadas. Outras telas menores também são dispostas e começam a imediatamente
receber imagens ao vivo de satélites norte-americanos e de outros de países
amigos.
Dispositivos de zum funcionam como verdadeiros microscópios,
capazes de trazer à vista normal uma pequeníssima rua ou qualquer outra mínima
particularidade contida na tela. O sistema é também acoplado a dispositivos de
comunicações informatizados, podendo ainda imprimir em papel especial e em
qualquer tamanho as áreas maiores ou menores que porventura sejam selecionadas.
Tudo coisa de Primeiro Mundo.
Da montagem também participam militares das três armas,
todos altamente especializados e previamente designados em equipes
interdisciplinares para trabalhar no local dia e noite. E são então instalados
avançados programas de acompanhamento estatístico, entre outros formulários
eletrônicos destinados à qualificação individual e ao controle meticuloso das
atividades de criminosos em todo o território nacional. Em termos comparativos,
estruturou-se uma central de coleta de dados e análise na anteguarda das existentes
nos mais importantes centros de espionagem ou de polícia do planeta.
Com toda a sofisticada parafernália já montada, iniciam-se,
céleres, as inserções de informações nos possantes computadores. E começam a
surgir na grande tela quadrantes vermelhos, delimitados em precisão
milimétrica. E surge, iluminada, uma faixa rubra em toda a extensão fronteiriça
do Brasil com os países sulamericanos, desde a Guiana Francesa até ao Uruguai.
E brotam manchas e mais manchas escarlate e branca no mapa, todas interligadas
por caminhos igualmente brancos e rubros e entremeadas por pontos em cor
violeta, tudo como uma grave doença em metástase.
Designados em caráter ultra-secreto apresentam-se, no
quartel-general de Forte Apache, dez procuradores de justiça federais,
discretíssimos membros do Ministério Público da União, para atuar, em caráter
permanente, naquele centro de coordenação e controle que mais parece a NSA (National Security Agency). Toda essa
silenciosa movimentação ocorre longe do foco curioso da imprensa, que não
percebe absolutamente nada...
MAIO...
São Paulo, capital. Barbaramente executado o Corregedor da Polícia Federal, que
investigava um impressionante esquema de corrupção patrocinado por agentes
daquela instituição. O episódio faz eclodir uma crise sem precedentes na mais
poderosa organização policial brasileira, sempre disputada por políticos de
diversos naipes. Pelo menos assim noticiava a imprensa, não se esclarecendo com
maior profundidade o grave incidente. Mas, em Forte Apache, a tela de cristal
líquido pinta-se com mais um ponto violáceo, entre muitos outros já marcados
naquele sistema de controle visual: um delegado federal, depois do coronel da FAB. Todos tinham a certeza de que não eram
mortes fortuitas...
Dias depois, no foco das suspeitas de mandar grampear
telefones de altas autoridades, cai o delegado Superintendente da Polícia
Federal, iniciando-se ardorosa disputa política pelo cargo, com o próprio
Presidente da República pressionado pelos grandes partidos políticos, todos
forçando indicações de seus apaniguados. A imprensa especula com estranheza.
Não compreende aquela inexplicável ingerência política, em se tratando de órgão
estritamente técnico, de natureza exclusivamente policial voltado para o
contrabando, o descaminho e para ações contra o narcotráfico. “Que interesse
mais teriam os políticos?...”, cogitam sem parar os jornalistas em seus
noticiários.
JUNHO...
Tanto quanto maio, o mês é marcado pelo aprofundamento da crise institucional,
por turbulências políticas e por relevantes denúncias sobre o narcotráfico. A
imprensa, antecipando-se aos organismos oficiais, inicia uma série de
reportagens sobre a descontrolada proliferação do tráfico de drogas no
território nacional. Veicula episódios quase que irreais, porém baseados em
ocorrências concretas; nada de ficção ou de especulação sensacionalista. Os
fatos, todavia, são abusivos e perigosos à segurança nacional, porquanto
mostram a audácia e a impunidade de um sistema de submundo do crime nunca
imaginado no país, conforme deduzem os jornalistas e assim o transmitem à
opinião pública.
Alguns outros jornais, ainda mais informados, abrem matérias
sucessivas e iluminando, em detalhes, as rotas internacionais de distribuição
da droga a partir da Colômbia, da Bolívia, do Suriname, das Guianas, do Peru e
do próprio Brasil, também já considerado um importante plantador de coca, de
maconha e de papoula, esta última destinada à produção do ópio.
O Nordeste entra no foco das inúmeras e diversificadas
denúncias, confirmando-se a impune existência do denominado “Polígono da
Maconha”, situando-se o tráfico de drogas como a principal base do crime
organizado em toda aquela imensa região. O Conselho de Segurança do Nordeste (Consene) reage, assegurando que as
providências estão sendo tomadas com a ajuda do Infoseg (Sistema de Integração Nacional de Informações de Justiça e
Segurança). As autoridades locais, entretanto, não perdem a chance de
reclamar com veemência sobre a
necessidade de uma política nacional de combate à macrocriminalidade. E não se
há como negar as evidências publicadas. O problema não é mais local, porém
nitidamente nacional. E fica claro que não se trata mais de questão política,
mas de urgente necessidade de ação concreta muito além da capacidade
governamental localizada.
Para reforçar ainda mais a certeza de que o narcotráfico
está perigosamente disseminado por toda a tessitura social do país, surgem
irrefutáveis provas de que existe uma região onde o tráfico é tão intenso, mas
tão descaradamente intenso que passou a ser insolitamente conhecida como
“Trapézio da Cocaína”: um traçado no mapa da América do Sul englobando as
cidades de Tabatinga, no Brasil, e Letícia, na Colômbia, abarcado esse traçado
geométrico por extensa linha fronteiriça entre os dois países. Na tela de Forte
Apache o encarnado e o violeta palpitam como um coração descompassado e
sanguinolento nessa região.
Nesta linha de graves constatações, surge ainda o
envolvimento de autoridades militares e civis dos poderes do Estado em
escandalosas benesses a traficantes colombianos, especialmente na Amazônia e
nas Regiões Centro-Oeste e Sul do país. Estarrece a confirmação de que aviões
militares estão a transportar para a Europa grande quantidade de cocaína,
associada a outro fato grave: o impressionante número de aeronaves civis
sistematicamente roubadas, muitas delas encontradas em países vizinhos,
particularmente na Venezuela e no Suriname, incluindo-se o desaparecimento dos
pilotos, certamente eliminados por criminosos profissionais que nunca deixam
rastos. Enquanto isso, escândalos surgem, uns após outros, no mercado
financeiro e no meio político e empresarial. A imprensa divulga trechos de
fitas contendo comprometedoras conversas telefônicas entre autoridades de alto
escalão do governo central e personalidades do mundo financeiro. As denúncias
são gravíssimas e envolvem banqueiros e empresários, além de políticos de
grande expressividade. Fica no ar a suspeita da existência de um complexo
esquema de lavagem de narcodólares envolvendo muitos figurões do asfalto.
Os políticos reagem à avalanche de acusações instalando
diversas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), surpreendendo-se eles próprios com o surgimento e a
comprovação do comprometimento de alguns de seus pares no esquema do
narcotráfico e da lavagem de milhões de dólares, desviados aos paraísos
fiscais, além de outras trapaçarias técnicas comuns ao mercado financeiro e
amplamente denunciadas pela imprensa. Não era apenas suspeita...
A Abin (Agência
Brasileira de Inteligência), sempre quietinha no seu canto de observadora
privilegiada, acaba, porém, entrando no foco das denúncias de também grampear
telefones particulares e públicos, em típica e exagerada fuxicaria política,
com alguns assuntos vazados para a imprensa e divulgados com grande
estardalhaço. Mais que isso, a Abin
baila na desconfiança da mídia brasileira, esta que abertamente questiona a injustificável
disputa de poder entre o Ministério da Justiça e a Casa Militar da Presidência
da República.
Ainda em junho, os jornais lançam a idéia de que a Abin estaria sendo aparelhada, – sem as
necessárias explicações, – para manter um absoluto controle operacional de
diversos organismos de inteligência do país, via Opcon (Controle Operacional), uma de suas principais estruturas
internas. São textualmente referidos: o Serviço de Operações de Inteligência
Policial (Soip) da Polícia Federal;
o Centro de Pesquisa para Segurança das Comunicações (Cepesc); a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE); as segundas seções de estadosmaiores
das Polícias Militares, mais conhecidas pela sigla PM.2; os centros de inteligência das Polícias Civis; os órgãos
de inteligência do Exército, da Marinha e da Aeronáutica; o Itamaraty; a
Receita Federal; a Previdência Social; o IBGE
e outros na área de comércio exterior e tecnologia. Também focalizam os
jornalistas a recém-criada Secretaria Nacional Antidroga (Senad), colocando-a como um outro motivo de altercações públicas
entre o Ministério da Justiça e a Casa Militar da Presidência, à qual a Senad, ao lado da Abin, igualmente se subordina. Mesmo diante de um quadro de
gravidade tão gritante, nem por isso é possível evitar as quedas-de-braço entre
gulosos políticos interessados apenas no poder em si mesmo, e não em seus
objetivos mais elevados. Ou então em razão de outros motivos decerto
inconfessáveis...
A imprensa aperta o cerco e noticia os fatos, percebendo-se
claramente a forte concentração do foco decisório da segurança nacional na Casa
Militar da Presidência, ficando cada vez mais evidente que a Abin estava despontando como um
poderoso organismo central de inteligência e contra-inteligência do país, com
seus tentáculos alcançando até mesmo o exterior, tudo fundamentado na
necessidade constitucional de salvaguarda e segurança da Sociedade e do Estado,
algo inegavelmente indispensável e ao mesmo tempo misterioso em seus mais
íntimos meandros, segundo insistentes especulações da imprensa.
Sim, porque os jornalistas, mesmo não escancarando a
hipótese, vinculam tudo isso ao aspecto político, como se o poder federal
estivesse centralizando em si decisões perigosas à democracia. Questionam se a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos)
apenas ocultava, encapsulada em mistério sepulcral, a antiga estrutura do
poderoso SNI (Serviço Nacional de
Informações), órgão considerado como especificamente voltado à repressão
política na ditadura. Insinuam um possível retorno ao passado... E ficam sem
resposta, a não ser por um irônico comentário do porta-voz da presidência
salientando que o mandatário do país também fora uma indiscutível vítima do
autoritarismo. Mas interessa ao sistema que essas especulações permaneçam no ar
fofoqueiro de Brasília, e, por via de conseqüência, repercutindo como um
ameaçador tambor de guerra batucando impertinente no resto do país...
Sim, sim, porque se aprofunda e se agrava a crise
institucional. Políticos brigam cada vez mais entre si; acirram-se as contendas
entre os organismos de segurança pública, que se deixam levar ao sabor de
inócuas discussões e incompreensíveis desarmonias, tendo como foco o poder e
nada mais, como se a sociedade brasileira não existisse. E, por um momento,
ninguém mais se entende, tornando-se tão acirrada a crise que o novo
Superintendente da Polícia Federal, finalmente nomeado por suposta indicação da
Casa Militar da Presidência, dura apenas três dias no cargo, como se fora tudo
uma brisa passageira em meio àquela impertinente e redundante bulha
política.
Na verdade, o delegado federal demite-se do cargo ao ser
focalizado como um possível torturador no período da ditadura. E sai
denunciando que fora derrubado por forças ligadas ao narcotráfico e ao
contrabando de Alagoas, em entrevista ao vivo concedida a um conceituado
jornalista em programa de televisão em rede nacional. Em resumo, acusa, sem dar
nomes, a classe política e setores da imprensa, deixando no ar uma possível
verdade ou apenas uma estupenda mentira. Como saber?... Naqueles dias, se as
paredes bisbilhoteiras de Brasília falassem, diriam sem medo que o caldeirão
brasiliense estava fervendo ao ponto de voar longe a tampa. O caldeirão, porém,
não era apenas Brasília, mas todo o território brasileiro. O assobio da válvula
vinha célere, e avisando: “Vai explodir!...”
As esquerdas e até mesmo os partidos ligados ao governo
vibram com a queda do Superintendente da Polícia Federal. Mas a Casa Militar da
Presidência surge logo com a indicação de outro nome, com o fim de não permitir
que o controle daquele importante organismo policial caia em mãos de
políticos... Por derradeiro, depois de muitas delongas e de listas e mais
listas de pretendentes, o mandatário máximo nomeia o novo Chefe da Polícia
Federal, pondo termo às inexplicáveis disputas por tão importante cargo do
segundo escalão da estrutura governamental. Vem de Minas Gerais a
solução...
No dia seguinte, como num aviso de satisfação pela escolha
técnica, policiais federais estouram um laboratório de refino de cocaína no Sul
do Pará, prendendo dez traficantes, entre os quais dois colombianos, após
violento tiroteio. Dá um show de competência, provando que sabe fazer e que só
falta querer. O jornal A
VERDADE NACIONAL, importante veículo popular de grande circulação no
território brasileiro, elogia a operação policial, porém não deixa passar em
branco o detalhe: sugere que os policiais federais estariam agindo ou
omitindo-se conforme seus interesses políticos, em vez de restringirem suas
ações à legalidade e ao desempenho técnico. Ou que então estariam avisando aos
políticos para deixá-los em paz.
Em alguns Estados, os rachas entre as polícias militares e
civis aprofundam-se deveras. No âmbito federal, o mesmo fenômeno ocorre em
relação a outros organismos estatais, tudo ainda agravado por crises políticas
e institucionais que surgem sem quaisquer motivos que as justifiquem. E, em
meio a toda essa bagunça generalizada, somente emerge um vencedor: o
narcotráfico. Sim, porque despontam cada vez mais evidências de que as teias do
tráfico de drogas já estão muito mais intrincadas do que se poderia supor. Tudo
isso aflora claro como a luz rutilante de um dia ensolarado... claro demais,
para ser atribuído ao mero acaso de conveniências apenas políticas...
No bojo da crise, a Presidência da República emite nota
oficial informando um acordo com as grandes potências mundiais e a criação de
um fundo financeiro destinado ao combate sistemático do narcotráfico. A decisão
presidencial aflora-se após reunião de emergência na ONU, com a participação
de representantes do governo brasileiro. O anúncio inclui a construção, em
regime de urgência, de presídios federais em todo o território nacional, a
serem entregues em tempo recorde. Discreto, muito discreto, o “gigante
adormecido” sacode-se e começa a acordar ou a ser acordado pelo perigo
iminente, eis que já está espetado por tudo quanto é lado por milhares de varas
curtas...
Os políticos de oposição reagem protestando contra as
medidas anunciadas, e argüindo que o povo precisa mesmo é de escolas, em vez de
novos presídios e mais órgãos federais de repressão política. A imprensa
noticia com destaque as críticas à construção dos estabelecimentos prisionais
federais, gerando discussões em universidades e na sociedade em geral.
Forma-se, em verdade, um verdadeiro rolo compressor contra a decisão
presidencial. Mas o Presidente da República mantém-se irredutível, mesmo
constatando violenta queda em sua popularidade. Ninguém entende sua postura
resoluta. Ele sabe, porém, que a situação é mais grave do que se apresenta
diante da opinião pública. Está bem informado.
Ainda nesse mês de junho, os jornais informam sobre um
relatório enviado pela Polícia Militar do Estado Rio de Janeiro à Câmara
Federal. O documento assegura que a organização criminosa conhecida como
Comando Vermelho, CV,
já funciona nos moldes da máfia italiana ou como os famigerados cartéis de Cali
e Medellin. Salienta, ainda, o contundente relatório, que as quadrilhas no Rio
de Janeiro “são chefiadas por pessoas acima de quaisquer suspeitas”, entre
outras veementes acusações igualmente formalizadas. Em suma, denuncia com todas
as letras o poderio impune do narcotráfico. Dá o recado a PM do Rio: um alerta ao Brasil de que o pior do tráfico
de drogas não está nas favelas, e sim nos ambientes de luxo, no impenetrável
asfalto e nos computadores de última geração.
No decorrer do mês também noticia-se que o governo
brasileiro está para sugerir um pacto entre as nações participantes dum
histórico congresso de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e da
Europa, a ser realizado no Rio de Janeiro, nesse mesmo mês, com o escopo de
promover mudanças na legislação e outras medidas de combate ao narcotráfico e
ao contrabando de armas em âmbito internacional. Estranham alguns, sabedores de
que os temas do tal encontro seriam outros e muito mais ligados a questões
econômicas inerentes aos países participantes e aos seus interesses comuns
nesse campo específico. Mudaram o rumo da discussão e ninguém, na verdade,
deveria estranhar...
E nesse mês repleto de novidades, – motivadas pelo tal
congresso, – a imprensa também publica que a Câmara Federal vem resistindo à
aprovação de projeto do Poder Executivo visando ao controle da venda de armas
no Brasil, deixando evidente que os dois Poderes do Estado (Legislativo e
Executivo) comportavamse como se estivessem disputando um cabo-de-guerra, cada
qual puxando a corda para o seu lado, em inexplicáveis melindres e
intermináveis contendas. A imprensa esclarece que o mais poderoso lobby
norteamericano sempre foi o dos fabricantes de armas, estes que também são os
maiores promotores de guerras no mundo. Em meio à briga, o Executivo suspende a
comercialização de armas no território nacional pela via da edição de Medida
Provisória (MP). Mas entra em cena o
terceiro poder (Judiciário) decidindo em favor dos poderosos fabricantes e
comerciantes de armas de fogo: o artigo da MP,
que especificamente proibia o registro de armas de fogo, é derrubado pela
justiça, gerando tal decisão um acirramento da polêmica entre os três poderes,
enquanto os importantes e únicos beneficiados comemoram a decisão.
Dois dias após, surge nos jornais um turbilhão de notícias
sobre o achado de uma cartilha de guerrilha da LOC (Liga Operária Camponesa), além de informações concretas
indicando a presença, em território brasileiro, do grupo guerrilheiro peruano
Sendero Luminoso. No Congresso Nacional, um Senador da República apresenta uma
cópia da cartilha, lendo-a para registro nos anais daquela Casa Legislativa. E,
mal o Senador terminara a leitura, agentes da Abin, sem qualquer preocupação com discrição, comparecem ao
gabinete do Senador e dele recebem cópia do rudimentar compêndio. São militares
de alta patente das Forças Armadas. A cartilha, incitando o povo à luta armada,
além de conter no seu texto as teorias marxistaleninista-maoístas, ainda trazia
letras de músicas apregoando a revolução, conforme o trecho de uma delas
divulgado no jornal A
VERDADE NACIONAL:
“O risco que corre o pau corre o
machado
Não há o que temer
Aquele que manda matar também tem que
morrer
Eu já tenho machado, falta só botar a
cunha
E fazer à moda do gato, dar o tapa e
esconder a unha
É a nossa proposta, pois a gente quer
ganhar
Se matarem um daqui, dez de lá vamos
matar.”
Nesse mesmo dia ainda surge outra significativa notícia
dando conta de que o governo federal estaria ampliando sua competência no
controle de insumos químicos usados no refino da cocaína, inclusive contando
com ajuda internacional. É citada a presença, no Brasil, de um representante do
Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional de Drogas (UNDCP), colocando-se, destarte, a própria ONU no circuito do combate às drogas no
país. O somatório das matérias publicadas não permite mais dúvidas de que o
Brasil ocupa o foco internacional de vigília ao narcotráfico.
E a partir desse dia explode no noticiário nacional, com
fotos e matérias sensacionalistas, a notícia de que grupos camponeses estão com
bases guerrilheiras já formadas nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste do país
(especialmente em Minas Gerais). Surge, também, a constatação da existência de
bandos treinando guerrilha em Porto Velho, com diversas siglas típicas, como:
Movimento Camponês Corumbiara (MCC)
e Liga Operária Camponesa (LOC).
As notícias informam que esses grupos armados têm ligação com o MST (Movimento dos Sem-Terra), além de
seguirem a ideologia marxista. O MST, como
sempre, desmente, e muito veementemente, inclusive realçando as críticas
feitas na tal cartilha guerrilheira aos movimentos da esquerda brasileira. Mas
não convence...
Também noticia a imprensa que os guerrilheiros usam máscaras
como as dos zapatistas mexicanos, e têm ligações evidentes com o famigerado
grupo terrorista Sendero Luminoso. Assim, o mapa do Brasil, na tela de cristal
líquido de Forte Apache, mancha-se ainda mais de branco, vermelho e violeta
(pó, sangue e assassinatos seletivos). Segundo as apreciações críticas de
políticos e jornalistas, não há mais como negar que a situação é de sério risco
à segurança nacional e à própria democracia, conforme já reiteradas vezes
acentuara o jornal A
VERDADE NACIONAL. E o Presidente da República, enfim, avisa com todas
as letras que será intransigente na
repressão aos guerrilheiros infiltrados entre os sem-terra.
Ainda em junho, véspera do encontro de chefes de Estado, a
imprensa continua a veicular dados sobre as brigas internas da Polícia Federal
e sobre as reações desta contra a Senad
(Secretaria Nacional Antidrogas). O caldeirão das disputas esquenta de um lado,
enquanto do outro os inimigos do país ampliam e fortalecem suas posições. Os
repórteres tentam alguma declaração dos militares, diante do inegável quadro de
ameaça à segurança nacional. Nada conseguem. Os militares não emitem qualquer
declaração. Mas é certo que não estão passivos. Como sempre, agem em silêncio
sepulcral...
Os dias permanecem quentes em matéria de denúncias de
conflitos institucionais e políticos, até que, finalmente, inicia-se no Rio o
encontro de dignitários, reunindo Chefes e Primeiros-Ministros de Estado
latino-americanos e europeus. E, por mais que o foco principal fosse a miséria
e a defesa de uma economia mundial mais eqüitativa, o narcotráfico
internacional rouba a cena das discussões.
Já na abertura, o Presidente da República do Peru assegura à
mídia nacional e internacional, com todas as letras, pontos e vírgulas, que o
grupo guerrilheiro Sendero Luminoso está infiltrado no Brasil e apoiando o
narcotráfico. Nos jornais brasileiros publica-se a notícia de que a Polícia
Federal, através de seu serviço de inteligência, estaria investigando essa
nefasta infiltração, especialmente em Rondônia, no Acre e em Mato Grosso. E o
presidente peruano, em sua fala oficial, não só reitera o que antes declarara,
como amplia a certeza de que os guerrilheiros do Sendero Luminoso cá estão. E
também garante que outro grupo terrorista (Tupac Amaru) fez planos para matá-lo
durante a sua permanência no Brasil. E, por fim, anuncia que o serviço de
espionagem peruano tem informações sobre a presença de guerrilheiros
alienígenas até mesmo na cidade do Rio de Janeiro, com o mesmo objetivo de
atentar contra sua vida.
Nos debates internacionais fervilha o tema narcotráfico,
fazendo coro ao presidente peruano os mandatários da Colômbia, da Venezuela e
da Bolívia, através de duros discursos proferidos durante o congresso. E
confirmam a ligação do narcotráfico à guerrilha, ambos de braços dados e
infestando os territórios de seus países, além de instalados na Amazônia
brasileira e demais nações sul-americanas. O encontro, enfim, rendeu-se em
definitivo ao assunto tráfico internacional de drogas e aos movimentos
guerrilheiros a ele conectados. Foi, com efeito, o que emergiu como a mais
séria preocupação de todos os participantes.
Não há mais dúvida em ninguém. Luzes vermelhas e violáceas
piscam insistentemente em todo o território brasileiro. A lama branca
escorre-se por todo o solo pátrio. Na tela de cristal líquido da CCOI, em Forte Apache, o verde exuberante
da floresta amazônica e o brilho cristalino das águas de seus rios rutilam em
branco, vermelho e violeta. Na região Nordeste, aquelas cores da desgraça
também começam a predominar. As informações recebidas via satélite assinalam
plantações de maconha, coca e papoula em todo o território nacional.
Assassinatos ocorrem sem controle em tudo quanto é região. O caldeirão do
perigo continua a ferver, com a água em ebulição frenética, como um vulcão
prestes a explodir, sem controle. Já não mais assobia, porém apita ferozmente,
avisando: “Vai arrebentar!”
É um alarma, sem dúvida. E, se não bastasse, ainda surge a
confirmação de que o tráfico de animais silvestres está a crescer junto com o
próprio tráfico de drogas e de armas nas fronteiras do Brasil com diversos
países sul-americanos. A denúncia parte do coordenador-geral da Rede Nacional
de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), assegurando em todos os grandes jornais do país que a
comercialização ilegal de aves e de pequenos mamíferos já alcança a média de 50
milhões de cabeças e movimenta a impressionante cifra de dois bilhões de
dólares por ano. Enfim, é generalizada a baderna do contrabando e do descaminho
nas fronteiras do Brasil com os seus vizinhos, tudo isso logicamente contando
com a conivência do resto do mundo, sempre ávido por comprar seus bichinhos de
estimação nativos das florestas brasileiras, e em consumir a droga produzida na
América do Sul. É, na verdade, a lei da oferta e da procura, tudo funcionando
da maneira mais elementar que se conhece: se há comprador de determinada coisa,
há de haver sempre o vendedor desta coisa, seja lá o que for, – cocaína, arma,
ou um simples passarinho, – tudo circulando nas fronteiras como água
trespassando uma peneira...
JULHO...
Brasília. Em meio a toda essa insustentável turbulência, o Presidente da
República encaminha ao Congresso Nacional a mais polêmica lei até então já
sugerida pelo Poder Executivo ao Legislativo: a nova Lei de Tóxicos; muito
dura, duríssima no seu texto, dando atribuições especiais ao Poder Judiciário e
ao Ministério Público de processarem em absoluto segredo, além de irrestrita
competência para a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico de
brasileiros e estrangeiros residentes no país, desde que fundadas as suspeitas
de envolvimento deles com o narcotráfico. E também prevê, como grande novidade
institucional, o acionamento direto das Forças Armadas pelo Ministério Público
e pela Justiça para a erradicação do tráfico em grande escala, até com a
possível decretação do Estado de Defesa, porém em áreas delimitadas e em
comprovadas situações de grave instabilidade institucional.
Há tremedeira política. Os Ministros da Justiça e da Defesa,
em coro com os chefes militares, aplaudem a decisão presidencial. A abstração
começa a emergir como realidade concreta e irreversível. Não dá mais para não
ouvir o apito do perigo: a fumaça começa a surgir, indicando a explosão que
virá. Com a drástica medida da Lei de Tóxicos, somando-se às demais já
anunciadas, começa a se formar uma estrutura de guerra ao narcotráfico jamais
cogitada no Brasil. Não há mais o que discutir sobre o aproveitamento de todas
as riquezas provenientes do crime organizado como receitas do fundo financeiro
destinado ao seu combate, previsto no mesmo texto legal, incluindo-se
automática autorização ao recebimento de ajuda internacional.
Prevê ainda a Lei de Tóxicos o treinamento de policiais
civis e militares em quartéis das Forças Armadas, especialmente em operações
especiais. Ao mesmo tempo, insere autorização para o treinamento de grupos
militares em investigação criminal, nas academias policiais civis e
policiais-militares, estabelecendo-se, assim, o máximo de integração entre
militares e policiais. E autoriza a União a colocar em funcionamento, a médio
prazo, um CENTRO INTEGRADO DE TREINAMENTO DE SEGURANÇA PÚBLICA (CITSP),
subordinado ao Ministério da Justiça. O projeto corre em regime de urgência;
funciona o rolo compressor do governo, e, ao cabo de vinte e cinco dias, a Lei
de Tóxicos já está sancionada na íntegra, apesar de algumas estranhas
resistências...
Em meio a essa crise política e institucional já instalada,
as especulações alcançam as raias do sensacionalismo, até com ameaças de queda
do mandatário máximo ou de alguns de seus Ministros de Estado. Nenhuma nota
oficial, porém, é emitida, o que faz ampliar ainda mais as especulações entre
jornalistas e parlamentares, que soltam o porrete no governo e divulgam
pesquisas negativas. Mas o presidente permanece sereno; não responde aos
movimentos articulados no sentido do seu afastamento, em especial às
insistentes manifestações da oposição, em horário de partidos políticos na
tevê, apregoando o impeachment presidencial. O poder central não tem tempo para
perder com brincadeiras e respostas aos fogosos e incendiários prosélitos
tupiniquins. O assunto é sério demais.
A reação presidencial definitiva não se faz esperar. Como já
se especulava, o mandatário máximo reformula o seu ministério, colocando na
pasta da justiça um reconhecido advogado, defensor dos direitos humanos, e que
enfrentou a ditadura como advogado de presos políticos, entre os quais um
jornalista que teria sido torturado e morto nas dependências do Doi-Codi. Além dessa relevante função
que desempenhara em momentos difíceis, o novo ministro traz em sua algibeira
profissional o fato de ter sido presidente da Comissão de Justiça e Paz, na
década de 70, e depois, já no período de abertura política, secretário de
justiça de São Paulo.
Mas o novo ministro, em polêmico pronunciamento, toca forte
numa das principais feridas institucionais brasileiras quando anuncia ser
favorável à unificação das polícias civis e militares dos Estados, algo sempre
rebatido com veemência por ambas as corporações, geralmente conflitantes. Esse
anúncio tem outro aspecto de profundidade política, posto que, com a
unificação, desapareceria da Carta Magna a tradicional condição das Polícias
Militares de forças auxiliares reservas do Exército, segundo comentários nos
meios políticos. O chefes militares não se manifestam. Suas preocupações são
muito diversas e mais sérias, eis que não são as esquerdas que ameaçam a
democracia, mas o narcotráfico. Contudo, não demora muito e o ministro desaba
como um saco vazio de prestígio político, numa dança de cadeiras que parece não
ter fim naquele importante ministério.
Dança de cadeiras à parte, outra medida presidencial
concreta, que calou a oposição, foi a indicação de um ex-guerrilheiro da
Aliança Libertadora Nacional (ALN)
para secretário-geral da presidência. De acordo com as notícias veiculadas, o
nomeado participara até mesmo de empreitadas armadas, juntamente com um notório
líder da guerrilha urbana, morto em São Paulo em entrechoque com as forças de
segurança na época da ditadura. Nada disso, porém, interessa aos militares. Os
cargos estratégicos e táticos voltados para as atividades de inteligência não
são atingidos por essas mudanças. É somente isso que a eles interessa... Assim,
as tensões políticas arrefecem. Até parecia não haver mais clima para taxar o
mandatário máximo de ditador. Segundo comentários jornalísticos, o presidente
adotara a tática inglesa do shadow cabinet (expressão que identifica um modelo
de gabinete ministerial semelhante ao almejado pela oposição), com o objetivo
de neutralizar os discursos mais acirrados. Mesmo assim, a popularidade
presidencial continua a cair, como se fosse um pára-quedas que se não abriu e
que se desloca, em irreversível velocidade, em direção do impacto fatal contra
o chão.
AGOSTO...
A impopularidade presidencial, já arrastada a percentuais maiores do que a de
um presidente que fora anteriormente afastado por denúncias de corrupção,
continua em inexorável queda. E, para complicar ainda mais, os sem-terra
recebem fragorosa derrota na justiça do Pará, com a absolvição dos oficiais da
Polícia Militar que lideraram o massacre de camponeses naquele Estado. O fato
repercute em cheio no mandato presidencial, de nada adiantando ao mandatário
externar sua providencial indignação com a absolvição dos acusados. Os ânimos
dos sem-terra entram em completa ebulição, um fato preocupante e de certo modo
fora de controle por parte do poder central.
Nesse clima de transtorno político, ainda acirrado por
posições radicais, em Minas Gerais, contra o governo federal, em vista de uma
possível e programada privatização da Cemig
(Companhia Energética de Minas Gerais), vem ao Brasil o general-chefe do
Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas dos EUA, com sede na Casa Branca. Junto com o anúncio de que ele
veio para se reunir com o general-chefe da Casa Militar da Presidência, o
jornal A VERDADE
NACIONAL estoura em manchete noticiando que a Polícia Federal iria
desencadear uma ação nos rios Amazonas e seus afluentes, de modo a neutralizar
as rotas de abastecimento de alimentos e armas destinados às Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (FARCs),
cujo ponto de partida seria a cidade de Manaus.
Essa notícia surge como reação a uma anterior, que dava
conta de que a guerrilha colombiana estaria sobrevivendo de impostos cobrados
ao narcotráfico naquele país. E já se fala, na referida matéria, de intervenção
internacional na Colômbia. Mas a pressão dos EUA, agora escancarada com a vinda ao Brasil da maior
autoridade norte-americana no combate ao narcotráfico, tem origem lá mesmo,
onde uma pesquisa de opinião, feita pelo Washington Post, detectara que 78% dos
cidadãos norte-americanos consideram que a política de combate às drogas
daquele país é um fracasso. E, se existe alguma coisa que incomoda os políticos
norte-americanos é pesquisa de opinião desfavorável...
Num domingo de agosto, o mesmo jornal Washington Post ainda
abre extensa matéria anunciando que os EUA vão
aumentar em cinco vezes a verba destinada ao Brasil para o combate ao
narcotráfico. E informa sobre a vinda de mais um general alienígena, no mês
seguinte (setembro). Tratava-se, segundo a notícia, do Chefe do Comando Sul das
Forças Armadas daquele poderoso país, que aqui viria para se encontrar com o
Ministro da Defesa e com os comandantes das três armas das Forças Armadas
brasileiras. Antes, porém, esse mesmo general já declarara para toda a grande
imprensa internacional que os traficantes colombianos tenderiam a se esconder
no Brasil, caso fosse desencadeada uma ofensiva internacional na Colômbia, uma
conseqüência que o general assegurara que adviria, e sistematicamente, a partir
do desencadeamento, em solo colombiano, de operações militares conjuntas, estas
que estariam dependendo apenas da liberação de vultosa verba pelo congresso
norte-americano, decerto a parte mais fácil para aquele ricaço país
capitalista.
A entrevista do general ostentava, ainda, alguns dados
estatísticos referentes a janeiro/maio de 1998, com um detalhado mapa
demonstrativo do cultivo e do processamento da cocaína pura, da heroína e da
maconha em território colombiano, ficando nítido o envolvimento das Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs)
com o narcotráfico, especialmente com o cartel de Medellin.
Só para se ter uma idéia da dimensão do problema, o quadro
divulgado no jornal A
VERDADE NACIONAL apontou que foram processadas 584 toneladas de cocaína,
8.2 toneladas de heroína e 7.5 toneladas de maconha na Colômbia no período
delimitado (janeiro a maio de 98), ainda demonstrando, num mapa, as áreas
daquele país em que são realizados os plantios: 78.500 hectares de coca, 6.600
hectares de papoula e 5.000 hectares de maconha. E, por fim, ainda assegurou o
jornal que todas as áreas de plantio e de processamento estão enquadradas em
territórios do Exército de Libertação Nacional (ELN) colombiano, que atuaria nessas áreas com seis frentes de
490 homens e mais seis bandos armados e interligados, de 350 homens cada. E
ainda acrescentou que outras áreas idênticas estariam controladas pelas FARCs, estas em vinte e três frentes e com
2.315 homens empenhados no apoio aos narcotraficantes.
Os americanos, por questões estratégicas, divulgaram somente
dados pretéritos, deixando em mistério os detalhes sobre o crescimento do
tráfico desde aquele período até o tempo presente, porém admitindo que o maior
problema a ser enfrentado dizia respeito ao cartel de Medellin, em vista do
enfraquecimento do cartel de Cali com as prisões dos irmãos Rodríguez Orejuela.
E ainda acrescentaram que há hoje 190 mil hectares de plantio de coca na
América do Sul: na Colômbia (42%), no Peru (37%) e na Bolívia (21%), além de
garantir que a Colômbia responde por 80% da cocaína colocada no mercado
mundial.
E, no vácuo dessas constatações, arrebenta como um trovão a
notícia de que a máfia russa tomou conta de Moscou e do resto daquele país,
dominando setores governamentais e empresariais em todo o seu território. E,
muito pior, surgem provas incontestes de que os mafiosos russos mantêm estreito
contato com os cartéis colombianos, entre outros congêneres de países
sul-americanos, a tal ponto que as autoridades governamentais colombianas até
apreendem, num estaleiro clandestino, em plena Bogotá, um submarino que estava
sendo construído com tecnologia russa e com capacidade para transportar
duzentas toneladas de cocaína mundo afora. O fato, inédito, espantou o mundo,
ainda mais porque não ficou apurado se o submarino apreendido fora o primeiro a
ser fabricado pelos criminosos. E espanta também a constatação de que a mesma
máfia russa já vinha contrabandeando fuzis AK-47
para as FARCs, em aviões IL-76, que passavam pelo aeroporto de Amã,
na Jordânia, e aterravam na Colômbia, retornando com o pagamento em toneladas e
mais toneladas de cocaína a serem consumidas na Europa. Em resumo, fica
sobejamente claro que a barra do narcotráfico está cada vez mais pesada, e
funcionando tudo isso como um pesado alforje nas costas do Brasil. Afinal, tudo
vem ocorrendo muito próximo do território brasileiro...
E aqui afloram escândalos e mais escândalos, dando conta do
envolvimento de políticos aliados ao crime organizado do narcotráfico, algo
público e notório, de tão insistentemente divulgado pela mídia nacional. E, no
contexto das desmedidas pressões dos EUA
sobre o Brasil e demais países sul-americanos, surge a notícia do fechamento da
fronteira brasileira com a Colômbia, com a polícia federal garantindo a
inevitabilidade dos combates entre policiais civis e militares brasileiros
contra narcotraficantes e guerrilheiros colombianos, confirmando-se a presença
deles em território nacional. Assim, vai ficando claro como a luz do dia que o
comando das operações contra o narcotráfico ficará mesmo no gabinete
presidencial, através da Casa Militar e de seus organismos de inteligência e de
controle de drogas (Abin e Senad), tanto quanto se torna nítido
que as ações de combate ao narcotráfico já estão diretamente comandadas pelas
Forças Armadas brasileiras, por mais que estas neguem. Porém, não há mais como
negar, por exemplo, o curso inexorável da “Operação Cobra”, esta que, sem
dúvida, é apenas um arremedo do que virá adiante...
Há, com efeito, um gravíssimo quadro de insegurança em todo
o Cone Sul, que está sob ameaça de derrota diante do impressionante crescimento
do tráfico de drogas no mundo, que, segundo dados divulgados, alcança a cifra
de 50 bilhões de dólares/ano. Mas a imprensa acaba por confundir esses valores,
que se foram ampliando em notícias sucessivas de jornais e revistas, até que,
em alguns casos, ocorresse o anúncio de que aquela cifra anual até poderia
ultrapassar a espantosa casa do trilhão de dólares/ano.
Junto com essa exagerada especulação surge outra, muito
óbvia, de que a Colômbia perdeu definitivamente a guerra para o narcotráfico em
seu território. O perigo emergente é a expansão da narcoguerrilha, que caminha
inexoravelmente em direção ao território brasileiro. Melhor dizendo, os
narcoguerrilheiros já chegaram aqui! É questão de segurança nacional... E para
quem ainda duvida, mais uma vez a imprensa se antecipa aos órgãos oficiais e
denuncia que as FARCs vêm
de há muito recrutando jovens brasileiros para a guerrilha, com uma promessa de
salário em torno de R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais, aproveitando-se da
miséria reinante na região de Tabatinga e outras localidades rurais do
território nacional. E Tabatinga, cada vez mais no foco das atenções das autoridades
civis e militares, resurge no cenário pátrio com a denúncia, oriunda da Abin, acrescendo que lá vem florescendo
um inusitado foco de seitas religiosas formadas especialmente por peruanos,
porém muitas apenas como fachadas de impressionante tráfico de armas para a
guerrilha colombiana, confundindo-se fanatismo com banditismo, e somando-se a
tudo isto a miséria de muitas famílias levadas à orfandade em conseqüência da
morte ou prisão de seus cabeças, que, sem melhor alternativa de vida, acabam se
envolvendo no comércio de drogas e de armas.
Em meio a essas alarmantes constatações vem mais uma outra,
tão inusitada quanto preocupante: o jornal A VERDADE NACIONAL estampa em página
inteira a notícia de que a esposa de um coronel americano, chefe do pessoal
designado para treinar os colombianos na luta antidrogas, simplesmente
traficara cocaína para os EUA
através da mala diplomática de sua embaixada na Colômbia. A notícia bombardeou
o prestígio norte-americano, ficando as autoridades daquele país em posição
ambígua diante do mundo. Segundo o jornal, sempre se antecipando aos
acontecimentos, o episódio foi batizado como de “dupla moral gringa”, sendo
alvo de chacotas e estupendas críticas por parte dos acuados colombianos. A
mulher do coronel chegou a ser presa, mas foi libertada após pagar fiança de
US$ 150 mil.
Mas o desconforto dos norte-americanos não parou por aí.
Nessa mesma época em que o jornal A VERDADE NACIONAL descortinara suas novidades, a imprensa em
geral acrescentou outros importantes condimentos a esse molho já tão
apimentado. Um outro jornal, por exemplo, trouxe a público que 44,34% dos
insumos destinados ao refino da cocaína e da heroína consumidas pelos
norte-americanos saem de lá mesmo. Ou seja, eles próprios estão a sustentar o
processamento daquilo que pretendem combater em território alheio. E, como
sempre, na base de pressões diplomáticas, e mesmo militares, e da oferta de
dinheiro alto aos governos dos países agora duplamente afetados em sua
soberania: pelo narcotráfico e pelos ianques...
No caso da Colômbia, o foco das maiores preocupações é a
inegável ligação entre o narcotráfico e os guerrilheiros, fazendo aflorar daí
os narcoguerrilheiros. E a imprensa denuncia que os EUA determinaram um prazo para que os colombianos
apresentem um plano concreto de combate à guerrilha e ao narcotráfico em troca
de muitos milhões de dólares... Não poderia ser diferente, já que partira dos EUA a denúncia de que somente a guerrilha
colombiana gastava anualmente a impressionante quantia de US$ 500.000.000,00
(quinhentos milhões de dólares), recebidos dos cartéis criminosos daquele país,
segundo levantamentos feitos pelo DEA (Drug
Enforcement Administration) e pela CIA,
tudo referendado pelo Conselho de Segurança Nacional norte-americano. Começa a
emergir das entranhas da espionagem os primeiros resquícios do Plano
Colômbia...
De caminho nessas notícias, ocorre uma verdadeira gritaria
de setores progressistas brasileiros, baseada em dados sobre a lei da oferta e
da procura. Reclamam que os EUA
são os maiores consumidores de substâncias entorpecentes, e também são os que
mais contribuem com insumos para o seu refino na origem (países produtores),
além de fornecerem as sofisticadas armas utilizadas por narcotraficantes e
narcoguerrilheiros. E sugerem os progressistas que é nefasta a política
norte-americana de combate ao narcotráfico, somente considerando a oferta como
o foco do problema a ser por eles enfrentado, e, com isso, deslocando para os
países produtores da droga toda a culpa, e estabelecendo, deste modo, que estes
são os únicos alvos do combate a ser travado. Em resumo, em se considerando a
lei da oferta (sempre menor que a procura), para os maiores especialistas neste
assunto não interessa inserir como verdadeira causa do crescimento do narcotráfico
esta última (procura), porque resultaria na necessidade de eles, os
norteamericanos, correrem atrás de seus próprios rabos...
Essa postura unívoca, segundo as barulhentas correntes
contrárias, é a que vem permitindo aos governantes dos EUA, ao longo dos tempos, legitimar até mesmo o emprego de
tropa militar em países sulamericanos, projetando para o povo norte-americano a
falsa idéia de que eles são apenas “vítimas”, e de que seus militares são os
“heróis” que vão a pontos distantes combater os “inimigos” que estão a
“destruir”, com a oferta de drogas, os jovens ianques, enquanto todos os demais
são os “vilões” que precisam ser erradicados. E muitos países, em troca de um
punhado de dólares, vêm permitindo a atuação direta de tropas alienígenas em
seus territórios, assumindo para si a culpa de tudo, – e com o foco apenas na
oferta, – algo severamente criticado por aquelas correntes progressistas.
Contudo, eclodem tantas notícias sobre o crescimento
acelerado do narcotráfico no Cone Sul, – e são tantas as pressões
internacionais e nacionais apontando para esse grave problema, – que não há
mais como fingir não vê-lo. Também são tão evidentes os indícios de que o
território brasileiro é o espaço natural de proliferação da narcoguerrilha, que
o Brasil não mais pode deixar de considerar o assunto como de segurança
nacional.
E não param de surgir na imprensa novidades sobre as rotas
de condução de insumos à Colômbia, figurando inclusive Trinidad e Tobago, um
dos menores países da América Central, como um forte canalizador desses
insumos, geralmente oriundos dos EUA.
E a notícia mais surpreendente: os colombianos passaram a utilizar cimento,
gasolina e fertilizantes para a extração dos alcalóides da cocaína. Sem dúvida,
um quadro de grave emergência tão aberrante, que não mais é possível empurrá-lo
para baixo dos tapetes governamentais de Brasília...
Entre muitas outras novidades trazidas ao conhecimento do
público a partir da presença, no Brasil, do general americano comandante do
Cone Sul, que inclusive é fotografado em entrevista com o mandatário máximo
brasileiro e com o chefe da Casa Militar, surge a notícia de que a Senad e a Embaixada dos EUA vão trabalhar integradas no combate às
drogas. Enfim, emerge das entranhas do mistério, que vinha caracterizando os
contatos anteriores entre os dois países, a intensificação dos trabalhos de
forças-tarefas antidrogas, compostas por agentes da Polícia Federal, da Receita
Federal, do Ministério Público e das Forças Armadas, tendo a Abin como órgão de coordenação desses
trabalhos, que, segundo o divulgado, teriam como alvo inicial as áreas de
entrada de drogas em território brasileiro.
Com essas últimas informações veiculadas, fica claro que a
Casa Militar da Presidência da República, através da Abin e da Senad, está no
comando das ações a serem desencadeadas. Contudo, observa-se que as peças deste
complexo quebra-cabeça ainda não surgem se encaixando com precisão no campo
prático. Por isso, fica no ar a conclusão de que essas visitas do mais alto
escalão militar dos EUA no
Cone Sul, – e o anúncio concreto sobre a imperiosa necessidade de uma
empreitada militar e policial, de caráter internacional, contra o narcotráfico,
incluindo até mesmo a invasão do território colombiano a partir do Brasil, –
tem como objetivo legitimar o que efetivamente poderá ocorrer num futuro
próximo: um novo Vietnã... E tudo leva a crer que a manobra funciona a
contento, eis que o meio político – especialmente a oposição – silencia
totalmente, como se nada de estranho estivesse acontecendo no país. Não há mais
como tergiversar, em se tratando de assunto tão sério...
“Esses eventos
oficiais, na verdade, trazem no seu bojo a constatação de que os
norte-americanos vêm no máximo vapor de suas turbinas, em direção ao Cone Sul;
mas também aflora uma outra realidade: os EUA é que estão sustentando a
podridão instalada na América do Sul, mandando para as mãos dos
narcotraficantes e guerrilheiros a maior parte das sofisticadas armas por eles
utilizadas, além dos insumos indispensáveis ao refino das drogas, que acabam
retornando e destruindo a eles próprios. Na verdade, tudo está posto como se o
Cone Sul fosse uma imensa região que eles – os norte-americanos – entupiram de
lixo fétido, mas que um insistente vento, que sopra do Pólo Sul para o Pólo
Norte, devolve-lhes o miasma aos próprios narizes; porém, com um preço também
muito oneroso aos países sul-americanos, que, na realidade, funcionam como
lixeiras do capitalismo desmedido que caracteriza aquela superpotência.”
Assim analisou o jornal A VERDADE NACIONAL, num grave editorial
comentando as visitas oficiais de autoridades antidrogas dos EUA ao Brasil, e as visíveis pressões
daquele país no sentido de uma ação mais eficaz contra o crescente perigo.
Mesmo assim, o referido jornal defendeu a ação governamental, com ou sem ajuda
americana, pois o que importa é salvar o Brasil de um mal que já alcançou o
tamanho de um monstro que está a devorar tudo o que lhe vem surgindo à frente:
o narcotráfico.
O mês de agosto é ainda marcado por diversos encontros entre
o Presidente da República e os Ministros da Justiça, da Defesa e da Casa
Militar, além dos chefes militares das três armas. Uma dessas reuniões dá-se em
pleno feriado do Dia do Soldado, o que despertou deveras a atenção da imprensa.
Na saída, o silêncio de sempre; contudo, assuntos não faltaram nessas
discussões de natureza ultra-secreta... Enquanto isso, o mapa de cristal
líquido da CCOI, em Forte Apache,
mostra-se cada vez mais branco, rubro e violáceo, indicando com clareza o
iminente e gravíssimo perigo que ronda o Brasil. Na verdade, o mapa mostra
também um país ruborizado na vergonha de sua passividade...
SETEMBRO.
BRASÍLIA... O Ministério da Justiça promove importante seminário, com
duração de três dias. Além do ministro, participam todos os desembargadores
presidentes de Tribunais de Justiça e procuradores-gerais do Ministério
Público, tanto federal quanto estaduais. Segundo informações extraoficiais, o
tema principal do encontro é a extinção da Justiça Militar e a criação de uma
Justiça Especial de Combate ao Narcotráfico.
A imprensa, porém, não tem acesso às discussões, todas
levadas a portas fechadas e com pequenos focos vermelhos luzindo sobre elas em
advertência proibitiva. Os seguranças, agentes especiais da Polícia Federal,
não permitem a entrada de nenhuma pessoa sem credencial. E nem poderiam: não
houvera prévio credenciamento e muito menos aviso sobre o seminário...
No segundo dia comparece o Ministro da Defesa, acompanhado
dos três chefes militares (Exército, Marinha e Aeronáutica), reforçando a
certeza de que a Justiça Militar estava correndo o risco de ser extinta. A
expectativa dos repórteres aumenta. No terceiro dia, os desembargadores e
procuradores-gerais vão almoçar em Forte Apache, onde permanecem por toda a
tarde, sem que a imprensa possa cobrir o evento.
As altas autoridades judiciárias e do Ministério Público
finalmente conhecem, in loco, a CCOI,
e recebem informações concretas sobre a extensão e a profundidade da
macrocriminalidade no território nacional. Saem silentes, com semblantes
fechados. Internamente, em suas mentes, ainda rutilam o branco, o vermelho e o
violeta que fitaram na tela de cristal líquido. E nada declaram à imprensa do
lado de fora. Mas os repórteres percebem que algo muito importante ocorrera lá
dentro. Somente isso, mais nada.
O segredo continua incitando a curiosidade de todos. A
participação dos chefes militares no seminário e a visita dos desembargadores e
procuradores de justiça ao quartel-general do Exército soaram como pressão
contrária à proposição que estaria sendo discutida. E chovem reações,
especialmente focalizando a extinção da Justiça Militar. É matéria da semana no
noticiário nacional, até com alguma repercussão no exterior. E a criação da
Justiça Especial de Combate ao Narcotráfico nem mesmo foi considerada nas
especulações... Muito menos poderia sê-lo o verdadeiro motivo do seminário, não
divulgado, um segredo de Estado, que não constava na pauta daquelas
conversações. O assunto estava classificado como ultra-secreto.
Ainda em setembro, mais uma novidade emerge do contexto das
significativas mudanças estruturais que já vinham ocorrendo na inteligência
brasileira: surpreendentemente, o Presidente da República extingue a Casa
Militar, um organismo instituído na era Vargas, nos idos de 1938, e
sobrecarregado de preconceitos devido ao seu aspecto de estrutura ditatorial.
E, em lugar do órgão militar extinto, o mandatário máximo cria o Gabinete de
Segurança Institucional, com nomenclatura eminentemente civilista, mas que não foi
esvaziado: na realidade, tudo não passara de arguta troca de meia dúzia por
seis, porque a nova estrutura não só se fortaleceu como se legitimou ainda mais
democrática, além de não mudar de mãos o seu comando. Em síntese, só mudou de
nome, continuando “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.
Porém, da maneira como foi anunciada a mudança, tudo pareceu
simples medida isolada, quando, em verdade, o fato talvez tenha sido a mais
intensa cortina de fumaça a dissimular os passos seguintes de um novo e poderoso
sistema de inteligência que se vinha formando no Brasil, de modo tal que a
oposição não mais pudesse desvirtuar a iniciativa como mais um ato tirano do
mandatário máximo do país. E tudo surge num momento em que o foco das atenções
da mídia estava voltado para o Congresso Nacional e para a cassação e a prisão
de um deputado federal do Acre, acusado de envolvimento com o narcotráfico e de
participação em inúmeros assassinatos.
Igualmente intensa é a repercussão do assassinato de um juiz
de direito que acusara diversos desembargadores acrianos de conluio com o
tráfico de drogas colombiano. E, se não bastasse, três promotores de justiça do
Rio de Janeiro – mais especificamente de Duque de Caxias, cidade da Baixada
Fluminense – e seus parentes quase que são
vítimas de atentado a bomba mandado executar por traficantes poderosos. Quis a
providência, entretanto, que o DEA
descobrisse a tempo a monstruosa trama, que incluía até mesmo a contratação de
mercenários estrangeiros para tal desiderato criminoso. E na semana em que a
orquestração do atentado é descoberta, a polícia federal apreende, na mesma
cidade de Duque de Caxias, nada mais nada menos que dez toneladas de maconha e
mais de cem pistolas e fuzis AR-15,
762 e M-16, acrescidos ainda de granadas e fartíssima
munição. Tudo isso permitiu a certeza de que os promotores de justiça estavam
cutucando um perigoso ninho de áspides com as pontas dos dedos, nem mesmo de
vara curta, o que seria, talvez, um pouco menos perigoso. E, deixando de lado o
insólito fato de um agente norteamericano ter-se antecipado aos policiais
brasileiros, inclusive grampeando telefones por sua conta (em típica atividade
de espionagem), esses gravíssimos episódios serviram como luva para mascarar
aquela medida presidencial mudando de nome a Casa Militar, um dos últimos
passos estruturais que faltavam para enfeixar o complexo sistema de
inteligência e contra-inteligência brasileiro. Estava claro, como um dia
ensolarado, que nada disso ocorria por acaso...
E, no quartel-general do Exército, em Forte Apache,
Brasília, ocorre uma reunião ultra-secreta dos chefes militares com os
comandantes regionais das três Armas (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte,
Nordeste). Ainda presentes os comandantes de todas as polícias militares
estaduais, o superintendente da polícia federal e os secretários estaduais de
segurança pública, além de outras altas patentes militares. O deslocamento das
autoridades para a capital federal ocorrera tão discreto que a imprensa somente
soube do encontro após o seu encerramento. Pressionado, o Exército emite curta
nota oficial, à moda militar, assegurando que a reunião ocorrera em caráter
confidencial, esvaziando-se qualquer possibilidade de sua divulgação. E desabam
críticas à falta de informação. Contudo, o que a imprensa nem em sonho poderia
saber era o que realmente ocorria nos bastidores dos serviços de inteligência
brasileiros, bem como no âmbito mais elevado e secreto de decisão das Forças
Armadas...
Na esteira de inúmeras reuniões aparentemente com outros
objetivos, e que passaram despercebidas pela imprensa, finalmente surge a
notícia da realização de um encontro entre vinte e seis Ministros de Defesa dos
países das Américas do Sul, Central e do Norte. O encontro, denominado por IV Conferência Ministerial de Defesa das
Américas, tem sede em Manaus, e como assunto a discussão do Plano Colômbia, um
tema que há muito já se tornara domínio público. E fica claro que a preocupação
dos EUA, que manda seu
Ministro da Defesa até mesmo antes para um encontro isolado com o Presidente da
República, é conquistar pelo menos o apoio político dos países participantes.
Mas, antecedendo-se até mesmo ao resultado do encontro, circula em Brasília a
notícia de que o governo brasileiro já estaria deslocando tropas para aquelas
regiões da Amazônia mais vulneráveis ao narcotráfico, certamente imaginando um
acréscimo de problemas com a deflagração do badalado Plano Colômbia. Mesmo
assim, permanece no ar um mistério, porque as movimentações de tropas em
território nacional indicam que o Brasil está caminhando em direção a algo mais
complexo e ainda incompreensível aos olhos astutos dos jornalistas.
Logo na abertura do importante encontro, o Presidente da
República se depara com uma pressão vinda diretamente do comando da
Aeronáutica, que reclama não ser possível combater aeronaves de
narcotraficantes, até derrubando-as, sem que haja uma lei que ampare os
militares da FAB. Assim, logo
na abertura da conferência, o mandatário máximo do país é obrigado a vestir uma
inesperada saia justa. Porém, e com habilidade, consegue empurrar a pressão com
a barriga, mesmo com o brigadeiro comandante da Aeronáutica alegando que tal
impedimento era frustrante. Venceu, entretanto, a argúcia do político, que logo
atrai a mídia para uma simulação de operação de selva realizada na Base de
Instrução 4, da Escola de Treinamento do Exército, com o nítido objetivo de
atacar bases guerrilheiras (ou narcoguerrilheiras) na selva amazônica. É um
recado claro aos traficantes e guerrilheiros colombianos. E é certo que a
reação do comandante da Aeronáutica se reporta ao companheiro assassinado em
São Paulo: o coronel Paulo Reno...
Reforçando ainda mais a idéia de que o Brasil se prepara
para escorar os foragidos do território da Colômbia, ao ser deflagrado o tal
Plano Colômbia concebido pelos EUA,
o presidente diz na abertura do encontro que o Sistema de Vigilância da
Amazônia (Sivam) e o Sistema de
Proteção da Amazônia (Sipam)
estariam à disposição de todos os países participantes, e que a estes sistemas
se quisessem integrar, bastando para tanto assinar os respectivos convênios com
o Brasil. E a conferência termina num impasse, diante da desastrada intervenção
do subsecretário de Defesa dos EUA,
que se poderia resumir em sua arrogante declaração: “O plano será executado com
ou sem a solidariedade internacional”, conforme assim noticiou toda a imprensa.
Isto permitiu mais ainda que o presidente ficasse a dar pancadas ora no prego,
ora na ferradura, mantendo-se numa dubiedade de fazer gosto, ou seja, nem
afirmando nem negando apoio ao tal plano. Mas, mesmo assim, não deixa de
observar exercícios militares nitidamente comprovadores de que as tropas
brasileiras estão com o pavio aceso e já bem próximo da bomba, indicando: “Vai
explodir!” E logo se percebe que dificilmente o Brasil ficará de fora dessa
festa, porque o general comandante das Forças Armadas da Colômbia faz, ao final
do encontro, um apelo desesperado, e avisa com todas as letras que: “Se o Plano
Colômbia falhar, prejudicará Brasil, Venezuela, Peru e Equador” E corroborando
as apreensões do general colombiano, na mesma semana ocorre um ataque das FARCs derrubando um helicóptero de combate
colombiano, matando cinqüenta e
quatro militares, a maior baixa governamental havida naquele país até então.
É... não há mesmo jeito de o Brasil deixar o corpo fora desta perigosa
situação, que mistura assuntos policiais e militares em tal nível de
complexidade, que somente uma ação global poderá contê-la. E a ação sem dúvida
virá, mesmo que os fatos estejam ainda obscurecidos pela vontade presidencial...
Lógico! lógico!... No fim de contas, falar mais claramente
para a imprensa significaria abortar o que está para vir, pois é mais do que
óbvio que o arabesco criminoso em breve enfrentará um outro, este porém
governamental, tão complexo quanto aquele. Sem dúvida, e na hora certa, o pau
vai comer, só não se sabe quando. Mas, desconfia-se, porque, queira ou não, o
Plano Colômbia passa a ter prioridade, e o Brasil tem de, pelo menos, correr
junto com os EUA. Porque é certo que
a pressão contra os narcotraficantes e guerrilheiros colombianos terá
naturalmente que desembocar na imensa fronteira e nas regiões selváticas
brasileiras, que lhes poderão servir de abrigo contra os ataques americanos.
Por isso o Brasil não pode mais adiar a sua própria ação. E não há momento
melhor para estendê-la a todo o território nacional. Contra o arabesco
criminoso haverá de eclodir o arabesco governamental. Ou seja, de um lado a
enorme aranha a tecer sua teia; do outro, o inseticida governamental.
OUTUBRO.
Brasília. O novo superintendente da polícia federal, que veio de Minas Gerais,
convoca seus subordinados estaduais para uma reunião na capital. E deixa vazar
a possibilidade de troca de algumas chefias, tema que supostamente estaria
sendo tratado. Em declaração à imprensa, o superintendente reforça a tese de
que não há nenhuma insatisfação sua e de sua categoria com os militares. E
defende as recentes criações da Abin
e da Senad. Mas deixa no ar algumas
especulações de briga pelo poder.
A entidade representativa dos policiais federais entra em
choque com o superintendente, discordando de suas declarações e criticando-lhe
o estilo. Tudo isso ajuda no desvio da atenção. E, novamente, a imprensa engole
a isca... como se os jornalistas estivessem arriscando apostas num jogo de
pôquer: percebiam em mãos adversárias o royal street flush, mas só até a quarta
carta do baralho, em naipes de ouro: o dez, o valete, a dama e o rei. Não viam
a última...
NOVEMBRO,
PRIMEIRA SEMANA. No prazo previsto, o Ministro da Justiça inaugura
cinqüenta presídios de segurança máxima em todo o território nacional, cada um
com capacidade para acolher 1500 presos, em celas isoladas, com alta tecnologia
de controle dos presidiários. Os protestos atingem o clímax, com a oposição
insinuando ser o Presidente da República um ditador. E novamente promovem um
verdadeiro estardalhaço no sentido de aprovar seu afastamento do cargo. Mais
uma vez o mandatário máximo do país, perlongando o alambrado, não se pronuncia
a respeito. Mantém-se em silêncio... sabe o que faz...
O que ninguém até então alcançara é que nos bastidores dos
serviços de inteligência os contatos, secretamente acelerados no final de 1998,
se haviam ampliado deveras nos anos de 1999 e 2000. Documentos classificados
como ultra-secretos continuavam circulando, nervosos, entre os diversos
organismos da inteligência brasileira, em malas conduzidas por agentes. Nada de
correio. E as trocas de dados eletrônicos, em código, também corriam velozes,
envolvendo a Abin, a Senad, as Forças Armadas, a Polícia
Federal, as Polícias Militares e Civis, e demais organismos de inteligência
nacionais e internacionais, além do Ministério Público e da Justiça. E todas as
informações entrecruzando-se e se desembocando na CCOI, em Forte Apache.
Nada disso fora percebido pela imprensa durante os meses que
se antecederam às reuniões, e nem o seria nos seguintes. E muito menos os
repórteres notavam que todas as informações recolhidas e processadas no
quartel-general do Exército estavam sendo imediatamente repassadas à CIA, via satélite, apesar das inúmeras
reportagens criticando a presença de agentes estrangeiros em território
nacional, sempre desmentidas pelos órgãos oficiais. A imprensa vigiava o chão,
mas não fitava o céu. Estava boiando nas nuvens...
Nesse mês de novembro, os órgãos de inteligência trocam cada
vez mais céleres as informações, reunindo provas, cadastrando suspeitos,
levantando identidades falsas, investigando ONGs, entre outros inúmeros trabalhos voltados ao deslinde do
intrincado sistema do tráfico de drogas fora de favelas. Enfim, traça-se no
mapa do Brasil e da América do Sul, – na tela de cristal líquido da CCOI, – um arabesco de crimes conexos ao
tráfico de drogas nunca antes detectados, e nunca formalmente interligados, uma
teia de gigantesco tamanho, tudo até então guardado nas profundezas abissais da
aparente passividade governamental. Alerta vermelho em muitos pontos do Brasil!
O “gigante” não estava “adormecido”. Chegara a época de dar o troco...
NOVEMBRO,
15... Em razão das comemorações pela Proclamação da República, os
jornais amanhecem estampando longas matérias a respeito desse importante
momento do passado. Um deles, o A VERDADE NACIONAL, situado entre os mais lidos no país, e
caracterizado por absoluta isenção jornalística, abre editorial com o sugestivo
título “A BARRA ESTÁ PESADA!”, que aqui merece transcrição em sua
íntegra:
“Os povos do mundo, ao
longo dos tempos, sempre festejaram e festejam a liberdade como uma de suas
maiores conquistas. Ninguém nunca esquecerá a Revolução Francesa e o sacrifício
do povo da França na conquista de sua liberdade. Por isso é que as resistências
aos regimes autoritários, mesmo aquelas mais extremadas, são vistas com
simpatia.
Com efeito, a liberdade
não tem preço, assim como a democracia é o centro das discussões pacíficas na
busca do bem-estar social. Sem ela, não se pode defender a justiça social e
outros valores imprescindíveis à felicidade plena do ser humano. Mas a evolução
dos tempos fez surgir um mal, cujo efeito nas sociedades mundiais tem sido
nefasto. Chama-se, este mal, narcotráfico.
Nos tempos de hoje,
nota-se que as instituições democráticas inibem-se diante do crescimento
vertiginoso do narcotráfico. À margem das leis vigentes – leis sabidamente inadaptadas ao enfrentamento desse fenômeno
internacional –, o tráfico de drogas cresce e
prolifera-se a um extremo inimaginável e inconcebível.
Ele, o maldito
narcotráfico, já ultrapassou os limites estruturais e conjunturais dos países
mais avançados; venceu fronteiras; penetrou insidiosamente na tessitura social
desses poderosos povos, sem que eles pudessem perceber e reagir a tempo;
minou-lhes as bases como o câncer em muitos casos o faz, sem remédio. E chegou
aqui...
O narcotráfico não tem
ideologias, princípios ou regras que não sejam o estímulo ao vício das pessoas
e ao lucro de criminosos. Lucros astronômicos, assustadores, que têm propiciado
aos traficantes internacionais e nacionais um poder incomensurável.
Para os
narcotraficantes internacionais não há fronteiras, diga-se melhor. E não há
soberania a respeitar. Eles têm os seus próprios conceitos de uma desmedida
impunidade, que não se trava nos limites de suas nacionalidades. O narcotráfico
é problema global, é mal que assola a sociedade mundial contemporânea,
submetendo-a ao jugo despótico de seus interesses. É assim no mundo, é assim no
Brasil, aqui ainda pior, porque as mudanças conjunturais e estruturais trazem
sempre no seu bojo a falsa idéia de que têm fins políticos, contrários à
democracia. Estamos, pois, perigosamente inermes.
Por conta de
injustificados temores com a volta da ditadura, o Brasil vem adiando a busca de
soluções pragmáticas contra o narcotráfico. Demora em promover medidas mais
concretas para travar um mal que hoje ameaça a própria democracia, essa tênue
democracia, que depende de muita paz para prosperar em direção ao futuro. E
mais ainda, vem buscando solucionar o problema com operações puramente reativas
a acontecimentos isolados e imediatos, como a tal “operação cobra” e outras do
gênero, não menos mirabolantes, e que mais se parecem com uma inútil tentativa
de se curar fratura exposta com
esparadrapo.
Sim, não dá mais para
ocultar o sol com a peneira. O tráfico de drogas no território brasileiro
atingiu patamares insuportáveis e altamente danosos. Os jornais vêm denunciando
isso com eficiência. E pior: hoje já se fala em narcoguerrilheiros, uma nova modalidade
– tão nova que nem mesmo consta em dicionários – de infiltração do mal em movimentos supostamente políticos e de
hipotética legitimidade. Ou, pelo menos, que gozam de alguma simpatia popular.
Misturou-se uma coisa noutra, em razão da sobra de recursos no narcotráfico, e
de uma suposta falta de meios a sustentar movimentos revolucionários, não
interessando aqui avaliar se justos ou injustos. Não há como saber o que é um e
o que é outro. E vale a ressalva de que o Brasil não precisa hoje lutar com armas
pela democracia, mas senão atentar para a sua evolução ao nível ideal.
Os aparelhos policiais
estagnaram-se no tempo, certamente em razão dos temores da sociedade em
aprimorá-los. Quem vem ganhando com isso é o crime. As Forças Armadas não podem
movimentar-se além dos limites impostos pelo novo momento, porque está fadada
ao preconceito e às críticas ferozes, especialmente daqueles que fingem não
enxergar a dimensão e a profundidade do mal que nos assola, de Norte a Sul, de
Leste a Oeste.
Chama-se narcotráfico,
este mal, nefasto em todos os sentidos, inclusive à evolução do processo
democrático brasileiro. E não podemos deixar de insinuar que muitos, por
motivos inconfessáveis, resistem a uma ação mais arrojada das Forças Armadas
contra algo que está sobejamente além da real capacidade policial. E que fique
bem claro: não se está sugerindo a militarização das ações policiais, mas a sua
submissão à Justiça, às Leis e à Carta Magna. Que venham as Forças Armadas no
auxílio à justiça e no combate à macrocriminalidade. Que venham elas sob a
égide das leis democráticas. Mas que venham logo, logo, logo!
Cidadãos brasileiros!
Não há mais o que esperar! O mal está em suas portas, nos apartamentos ao lado,
nos condomínios de luxo, nos iates e nas fazendas, nas ruas e em todos os
lugares. O mal está no seio de suas famílias. E temos de combatê-lo com o que
possuímos, com as estruturas que sustentamos com os nossos esforços e tributos.
Se a polícia não pode sozinha, que venham as Forças Armadas! Que venham todos os
brasileiros, fardados ou não! Que venha a sociedade, em reação imediata! Não há
mais o que esperar, sob o risco de o narcotráfico exterminar a democracia no
Brasil!.”
A repercussão do editorial agitou todos os meios de
comunicação brasileiros e dos países vizinhos, indo repercutir até nos EUA e na Europa e provocando uma reação em
cadeia. A partir desse claro posicionamento da imprensa nacional, as
autoridades governamentais passam a ser cobradas por todos os segmentos da
sociedade. Entrevistas e mais entrevistas trazem à luz a questão do tráfico e
suas graves conseqüências ao país. A Senad
aproveita o momento e lança uma campanha de orientação contra o uso de drogas,
expondo suas conseqüências.
Apesar de todo esse esforço educacional, sabe-se que o problema
não diminuirá a curto prazo. E continua no foco da mídia a constatação de novos
perigos contra a democracia, diante da evidente arrogância dos impunes
traficantes em agir. A polícia consegue alguns resultados concretos, porém em
casos isolados. Não se observa nenhuma ação global, nada mesmo, que transmita
ao povo brasileiro uma concreta esperança de vitória contra o narcotráfico. Os
comentários colhidos nas ruas e divulgados pela imprensa conduzem a essa triste
conclusão. Todos manifestam desilusão em relação ao aparelho policial e começam
a exigir providências mais drásticas.
Em razão das assertivas cobranças, as autoridades
governamentais e os políticos favoráveis às mudanças, – e ao investimento
maciço na segurança pública, – ampliam seus espaços na discussão. E vão
reforçando na sociedade a idéia de alterações radicais no carcomido sistema
policial brasileiro, assim como se vêem impelidos a defender a ação direta das
Forças Armadas contra a macrocriminalidade do narcotráfico, com o fim de
assegurar a tranqüilidade pública, já seriamente abalada e colocando em risco o
próprio regime.
Diante do volumoso clamor público, os políticos contrários
às mudanças, e avessos ao emprego imediato de militares em atividades
policiais, vão ficando cada vez mais sem argumentos, não localizando nenhum eco
de seus empolgados discursos anteriores. Por isso, muitos preferem o silêncio a
andar na contramão de uma realidade tão incontornável quanto inadiável. Está
chegando a hora. Aproxima-se o momento propício ao anúncio de algumas medidas
governamentais, o que é feito pelo próprio Presidente da República,
oportunidade em que informa à nação a realização de um estudo profundo no
sentido da reestruturação do sistema de segurança pública no Brasil.
Ao fazer o pronunciamento, mesmo sem clarificar detalhes do
polêmico assunto, o mandatário máximo avisa que, entre outras medidas
concretas, finalmente criará a Guarda Nacional, como um braço armado do
Exército Brasileiro, e com missões precípuas de segurança pública, mas igualmente
agindo nas fronteiras terrestres e nas zonas rurais, em atividades de segurança
pública e de segurança interna. Também anuncia que essa força intermediária
será dotada de meios para atuar na terra, no ar e no mar.
Outra grande novidade anunciada é a da mudança da
Constituição Federal e da Legislação Penal, de modo que o Ministério Público,
tanto federal quanto estadual, passem a fiscalizar e a acionar diretamente as
Forças Armadas e o aparato policial, – incluindo-se a Guarda Nacional, –
alterando-se, assim, o sistema de convivência formal da polícia com a Justiça.
No dia seguinte, desabam críticas de entidades representativas de policiais
contra a idéia presidencial. Emergem ferozes os corporativismos, que, no
entanto, ficam sem resposta. O porta-voz da presidência limita-se a informar
que todos conheceriam o novo modelo de justiça criminal a ser proposto pelo
Poder Executivo, no momento em que chegasse ao Congresso Nacional, o que seria
feito em regime de urgência. A imprensa apóia o anúncio presidencial. Afinal,
fora ela mesma quem iniciara o questionamento, e em boa hora, segundo os
comentários gerais de diversos segmentos representativos da sociedade em
jornais, revistas, rádios, televisão, e em muitos outros locais de debate
público.
Ganhou a legitimidade de que precisava a fala presidencial.
Tomou força nas ruas. Os políticos não se renderam às pressões corporativistas.
A inegável gravidade do problema não mais permitia adiamentos. A imprensa ainda
tenta extrair as impressões dos militares a respeito das mudanças propostas.
Como sempre, apenas declaram os chefes militares que cumpririam a Carta Magna e
as leis vigentes no país. Não faltava mais nada. Estava muito próxima a hora da
reação... Esta reação, porém, já se antecipara por uma inesperada via: a CPI do narcotráfico, formada por destemidos
e experimentados deputados federais, que começaram a provocar uma verdadeira
devassa no crime organizado, ganhando o imediato apoio da imprensa e da
sociedade brasileira, esta já cansada de assistir a tanta impunidade.
As iniciativas da CPI do narcotráfico serviram como
verdadeiras molas propulsoras de outras comissões parlamentares de inquérito
estaduais, com muitos políticos locais também atrás de um pequeno espaço na
mídia, eis que o combate ao tráfico de drogas passou a ocupar as primeiras
páginas de todos os jornais e revistas, além de preencher os horários nobres da
tevê e do rádio.
Segundo outro editorial publicado no A VERDADE NACIONAL, excluídos os
exageros e as correrias de políticos com vistas à promoção pessoal, a verdade é
que a nação brasileira acordou para a necessidade de reagir ao marasmo que
predominava até então, partindo-se, assim, para a exigência de uma ação efetiva
contra o narcotráfico. Porém, esse mérito, segundo o editorialista, pertenceria
sempre ao Poder Legislativo e aos deputados federais integrantes da CPI do narcotráfico, conforme passou depois
a defender toda a imprensa e demais setores expressivos da sociedade.
Fazia-se evidente, contudo, que apenas a estrutura da CPI era insuficiente para combater o
gigantesco criminoso. As estruturas governamentais dos demais poderes
(Executivo e Judiciário) não podiam ficar a reboque de meia dúzia de deputados,
já merecidamente consagrados como heróis nacionais. Não mais estava apenas
próxima a hora de agir, mas chegara a hora, o que ficou patente em todo o
Brasil após a publicação de matéria no A VERDADE NACIONAL com o título: “Narcotráfico derrota EUA e Colômbia”, na qual houve a afirmação,
partida do General Accouting Office (GAO),
– agência de pesquisa do Congresso americano, – de que o cultivo de coca na
Colômbia havia crescido 50% em dois anos, mesmo com um exaustivo esforço
governamental em contrário. Também caíram por terra as notícias de que os
cartéis de Cali e de Medellin estavam enfraquecidos, eis que ambos apenas se
descentralizaram em núcleos menores e de mais difícil erradicação.
Outro ponto que pasmou a opinião pública foi a constatação
de que o aparato mundial de combate às drogas estava perdendo a guerra para os
narcotraficantes, que inventaram novas técnicas de camuflagem da pasta de
cocaína, – agora misturada ao carvão e a outros produtos insólitos, –
neutralizando assim sua principal maneira de detecção em portos e aeroportos: o
farejamento por cães com treinamento específico para a localização de drogas.
Outra afirmação feita pelo correspondente do A VERDADE NACIONAL,
em Washington, captada no GAO do
Congresso americano, dizia que os narcotraficantes estavam se utilizando de
barcos especiais, de tal modo velozes e com capacidade de transportar até duas
toneladas de cocaína, que as autoridades daquele país não conseguiam evitar os
descarregamentos da droga na costa norte-americana, caracterizando-se publicamente
o fracasso da estratégia nacional de repressão às drogas daquela superpotência,
que é a maior consumidora de cocaína do planeta...
Essas notícias bateram como bomba atômica no solo do Brasil,
que até então estava vivenciando a euforia de acabar com o narcotráfico
valendo-se apenas de um punhado de parlamentares duma quixotesca CPI. A ducha foi tão gelada, mas tão
gelada, que a própria CPI recolheu-se
em silêncio, prometendo novas investidas alguns meses à frente, sob a alegação
de que precisava estudar e organizar os dados recolhidos na primeira fase de
sua ação... Só num lugar não havia euforia nenhuma; havia, sim, muita frieza
dos especialistas em analisar cada passo da evolução do problema, e em
catalogar cada movimento dos milhares de criminosos ligados ao narcotráfico em
território nacional: no misterioso Forte Apache...
Sim, porque a tela de cristal líquido já apresentava um tal
emaranhado de pontos, manchas e linhas em branco, vermelho e violeta, que o
mapa da América do Sul parecia coberto por uma grande teia, um arabesco tão
complexo, que sugeria serem os países sul-americanos apenas moscas à disposição
duma gigantesca aranha chamada narcotráfico. Só que os potentes computadores de
Forte Apache, atentos, já continham em sua memória cada detalhe deslindado,
cada criminoso singularizado, e todas as provas necessárias ao enquadramento
penal dos envolvidos com o narcotráfico e crimes conexos; e em todo o
território nacional. Se o aracnídio era voraz, mais ainda o seria a tecnologia
que passaria a persegui-lo tenazmente. Desta feita, não haveria
improvisações...
CAPÍTULO II - A REPRESSÃO
ANO 2001
JANEIRO,
PRIMEIRA SEMANA... Brasília. Ainda sob os efeitos dos festejos de fim de
ano, que arrefeceram sobremaneira as tensões acumuladas nos meses anteriores,
logo no primeiro dia útil os Ministérios da Justiça e da Defesa promovem, na
sede do primeiro, um importante seminário, que se estende até o dia doze, com a
participação de juízes e promotores de justiça de todos os Estados brasileiros.
Também presentes magistrados federais e membros do Ministério Público da União.
O porta-voz ministerial, cercado pela imprensa, singelamente anuncia que se
trata da retomada dos debates sobre a extinção da Justiça Militar, entre outros
relevantes temas, todos colimando a melhor eficiência do Poder Judiciário e do
Ministério Público no Brasil.
Já a partir da manhã do dia dois as comitivas desembarcam,
dirigindo-se diretamente à sede do Ministério da Justiça. No aeroporto, ninguém
dá entrevistas. Todos simplesmente ignoram o assédio nervoso dos repórteres. À
tarde, já estão reunidos; à noite os jornalistas, sentindo-se engrupidos por
uma nítida campanha de desinformação, especulam sobre uma possível crise
institucional no país, crendo principalmente que os militares estão sendo
insistentemente incomodados por pressões no sentido da extinção da Justiça
Militar. E a partir deste primeiro dia, ensimesmados representantes do
Exército, da Marinha e da Aeronáutica chegam ao local do seminário com caixas e
mais caixas de documentos, permanecendo trancados com as autoridades civis até
o final de cada bateria de reuniões. A imprensa percebe-os, apesar de vestirem
ternos em vez de farda. Mas, se não falaram antes os civis, tampouco destravam
a taramela da boca os militares.
Enquanto isso, opiniões correm soltas e desencontradas.
Políticos reclamam por não serem ouvidos sobre um tema de inexorável deságüe no
Congresso Nacional. E deitam discursos e mais discursos em tumultuadas sessões
na Câmara e no Senado, como sempre disputando as luzes da promoção pessoal.
Mas, em vez de atrapalhar, essas chiadeiras ajudam bastante, pois, alheias a
tudo isso, as autoridades civis calmamente estudam a vasta documentação que
lhes fora entregue pelos militares. E a imprensa, rodopiando tontamente à cata
de novidades, mais uma vez engole a fumaça de um impenetrável fogo. Na verdade,
começa a surgir a ponta da carta que faltava no hipotético jogo de poker, porém
a misteriosa carta é somente visível ao mais importante jogador da grande mesa
em forma de mapa do Brasil: o Presidente da República...
Enquanto fervilham as polêmicas, com os desatentos focos dos
holofotes concentrados apenas no Ministério da Justiça, agentes da Abin visitam embaixadas e consulados
dos Estados Unidos, Inglaterra, Israel, Espanha, Portugal, França, Argentina,
Alemanha, Rússia e países da América Latina, além de outros sediados em
território pátrio. Mas não vão cuidar de política internacional. O assunto é
tão específico quanto ultra-secreto e apenas tratado com agentes dos serviços
de inteligência daqueles países. Está sendo deflagrada a maior operação de
combate ao tráfico internacional de drogas já ocorrida no Brasil. Alvos
principais: os cartéis de Medellin, de Cali, do Suriname, bem como as “firmas”
peruanas (equivalentes aos cartéis) e a máfia russa. E, além deles, os focos de
guerrilha rural também instalados no território brasileiro, e mais ainda, é
óbvio, o tráfico local, quase que já se podendo designá-lo por “cartel
brasileiro”.
Muitos já são os processos criminais em todo o território
nacional. Tramitam no mais absoluto segredo de justiça. As provas colhidas e
entregues ao Ministério Público e à Justiça Federal, bem como aos seus
congêneres estaduais, são consideradas mais que suficientes. Através delas,
inúmeras pessoas importantes entram na mira da justiça, além das que já estavam
anteriormente focadas por meticulosas investigações. É um momento ruim para os
traficantes do asfalto. E, lento, o arrastão começa a fechar suas pontas,
envolvendo na rede muitos peixes grandes que nunca fisgaram anzol. Começa-se a
apontar o inseticida em direção da grande aranha que há anos envenena o país,
porém tudo ainda a conveniente distância, num cerco invisível...
12
DE JANEIRO, SEXTA-FEIRA... No dia do encerramento do seminário, o
Presidente assina a tão esperada ordem operacional, em classificação
ultra-secreta. Está deflagrada, ainda no mundo invisível da inteligência
nacional, a OPERAÇÃO ARABESCO. A nova
Lei de Tóxicos estrearia em grande estilo...
21
DE JANEIRO, SÁBADO, MADRUGADA... Inicia-se um secreto deslocamento de
tropas do Exército e de Fuzileiros Navais, por ar e mar, para os quartéis
situados nas fronteiras com a Colômbia, a Venezuela, o
Peru, a Bolívia, a Guiana, o Suriname e a
Guiana Francesa. Todos os homens foram antes adestrados no CIGS (Centro de Instrução e
Guerra na Selva). Também em muitos pontos da Amazônia são estabelecidas
verdadeiras zonas de combate e montados vários acampamentos de Forças
Especiais. Tudo prenúncio de ferozes escaramuças naquela selvática região. E os
homens da selva, treinados na densa floresta e no combate difícil, retornam ao
hábitat das feras. Falassem ali as árvores e as feras do mato, elas diriam que
estremeciam na presença daquelas bestas humanas, comandos fardados, sem medo de
nada, muito menos dos perigos das brenhas ferozes.
Nela, na traiçoeira selva, as feras humanas deslizam
seguros, como se no asfalto estivessem. Dela, da selva, tiram o alimento, fazem
o fogo sem fósforos e espantam cobras e mosquitos gigantes. Já deram provas de
que venceram a floresta no curso do CIGS.
Nos rios, nadam como peixes, vestidos na farda e sem água nas armas. São
treinados na sobrevivência, no indianismo, no pára-quedismo, no alpinismo, no
tiro certeiro e na faca de corte afiado, a faca de comando, forjada no aço da
guerra. São todos Forças Especiais, lavas no sangue, gelo no cérebro e aço nos
músculos. Frios, gelados, sem famílias, sem nomes, esperam o combate. Sem
combate, nada são. É o sangue do guerreiro incontido nas veias intumescidas do
alerta máximo. Esperam a hora. E ela chegará, eles sabem, sentem o cheiro, o
cheiro do sangue e da morte no bafo pesado e quente da selva amazônica.
21
DE JANEIRO, SÁBADO, LUSCO-FUSCO DO ALVORECER... Rio, Vila Militar,
Brigada Pára-quedista. No campo de futebol, sargento comanda recrutas na
montagem de barracas. Em cada prolongamento lateral, dez abrigos de vinte
homens. Quatro dias e só pancadas persistentes de marretas nas estacas. Montam
então vinte barracas nas laterais, todas voltadas para o interior do campo, com
os banheiros de campanha enfileirados entre as bandeiras de córner e as balizas
– são as barracas da tropa. No dia seguinte, mais quatro barracas são plantadas
no centro do campo, em roda, entradas voltadas para o interior, banheiros entre
elas. Lonas bem esticadas e simetria das fileiras comprovam habilidade – são as
barracas de comando.
Em outro campo de futebol, na Base dos Afonsos, bem perto da
Brigada Pára-quedista, vinte helicópteros de transporte de tropa estão
estacionados, com os pilotos a postos na sala de espera e instrução, todos
aguardando o momento da ordem de pegar o céu. Não têm idéia da missão.
Recebem-na na hora. Estão acostumados. Vontade de ferro, não são de pergunta.
São como se assim fossem os campos e os helicópteros: não falam. Falassem os
campos e os helicópteros, e eles diriam que o combate era certo, uma questão só
de tempo.
O pessoal de comunicações instala complexo sistema de
telefonia e de rádio nas barracas de comando. Trabalho encerrado, ninguém
estranha. Na Brigada Pára-quedista, curiosidade não é da tropa. É tropa
treinada para agir. Os pára-quedistas nunca especulam sobre a missão. Não
querem saber por que recebem uma ordem, apenas cumprem-na, sem medo nas caras,
sem medo da morte, sem medo de nada. Eles têm o combate no sangue, lavrado no
ar dos saltos de aviões e no treinamento de macho que recebem em terra, ar e
mar. Nem todos conseguem ser pára-quedistas. Os fracos nunca conseguiram,
somente os fortes alcançaram o brevê. É tropa de macho!
Mesma data, todo o Brasil, em algum quartel, ou do Exército,
ou da Marinha, ou da Aeronáutica, repetese a mesma operação, especialmente na
Amazônia e nas fronteiras com os países vizinhos. E no Batalhão de Selva, em
Manaus, helicópteros da FAB estão
prontos para o transporte daquela tropa especial. Também a Marinha já reforçara
sua frota de navios no rio Amazonas, tudo articulado em seqüência discreta,
para não indicar o objetivo daqueles militares. A cada movimento percebido,
justifica-se logo com boa desculpa. Dúvidas, porém, pairam no ar, reforçando na
imprensa a idéia de que alguma séria crise está prestes a eclodir no país...
25
DE JANEIRO, QUINTA-FEIRA, MADRUGADA... Avenida Brasil, Rio de Janeiro.
Pneus rodam no asfalto, ruído nervoso, cinco caminhões lonados, velocidade de
comboio, destino Zona Norte. É o Batalhão de Operações Especiais da PM, o temido BOPE. Homens com fisionomia fechada mantêm silêncio de túmulo.
Um major comanda o grupo; é um grupo treinado para missões de altíssimo risco.
Só o comandante sabe o destino e a missão. São comandos, também não são de
pergunta. Apenas agem.
O comboio adentra a Brigada Pára-quedista. Na pista, ao lado
do campo de futebol, o comboio pára. Homens descem rápido. Caminham para uma
das quatro quinas. Acomodam-se, 05 subgrupos, 20 homens em cada barraca.
Isolamento absoluto. Total: 100 PMs
forjados no aço do treinamento de guerra e no combate ao banditismo. Querem,
pedem sem falar, clamam em esquisito silêncio pelo confronto. Sem peleja,
morrem de tédio, descontrolam-se, enervam-se, bufam como feras. Muitos deles já
passaram por aquele quartel antes de ingressar na PM. Por isso têm no sangue a lava fervente do guerreiro
verde-oliva. Mas agora vestem o preto do BOPE,
e são tanto de guerra como os pára-quedistas que ali ainda estão. Têm, sim,
duplo treinamento: no militarismo do combate em qualquer terreno e em qualquer
lugar, e na ação policial de risco extremo. Repete-se o procedimento nas
principais cidades brasileiras. Todos aguardam, feras enjauladas nos peitos,
mantêm a pressão nas veias, querem explodir na ação.
Nas outras três quinas do campo, grupos iguais de 100 homens
– Forças Especiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Barulho, nenhum. A
farda, também preta como a do BOPE,
é a farda de comando e do combate em meio à alvenaria da cidade. Nenhuma
insígnia identificando patente ou posto. Nem tarjeta de nome. Total de
combatentes alojados no campo: 400 homens, tinta preta nas caras, toucas pretas
na cabeça. Cada um portando metralhadora e pistola 9 mm dotadas de
silenciadores. Faca de comando e carregadores na cinta. Todos com coletes à
prova de balas. Não são homens, são feras. Não se conhecem, nem precisam. São
de guerra. Repete-se a cena nas metrópoles de todo o país.
Amanhece o dia, pára-quedistas chegando à rotina. Ordem:
alojamento direto, controle total, prontidão rigorosa. Não especulam. Em outro
ponto da Avenida Brasil, num batalhão do Corpo de Fuzileiros Navais, estão
alojados cinqüenta agentes e dez delegados da Polícia Federal escolhidos a
dedo. Receberam antes a ordem secreta: deslocamento e confinamento, um a um,
naquele quartel. Em idêntico esquema, cinco delegados e trinta detetives da
Polícia Civil do Rio de Janeiro apresentam-se naquele batalhão, para
“treinamento”. Apenas fachada. Reúnem-se aos federais. Estão na missão.
Detalhes em momento oportuno. Aguardam. Repete-se a mesma rotina em todo o
território nacional.
26
DE JANEIRO, SEXTA-FEIRA, MANHÃ... São Paulo. Aterra um Boeing
em Guarulhos; origem: Paris. Dois discretos cavalheiros, Jean Louvain e Marcel
Bordeaux, são recebidos na área VIP por
agentes da Abin. Cumprimentam-se e
vão direto à pista, sem alfândega. São do serviço secreto francês. Novamente
embarcam, num jato da FAB,
vôo imediato, Rio de Janeiro. Em quarenta e cinco minutos descem na pista da
Base Aérea, Zona Norte da cidade. São
alojados. Entrada guardada por impassíveis sentinelas, com ordem direta do
brigadeiro: ali só teria acesso quem ele autorizasse. Aquelas sentinelas,
porém, não são comuns: são praças forjadas no aço da guerra. E o comandante é
um Força Especial, coronel da Aeronáutica, formação idêntica à de todos os seus
comandados: são bichos-do-mato, são feras também no asfalto. São comandos, são
de combate. O medo, não o conhecem. Porém, sobra-lhes a coragem no sangue e a
gelidez no cérebro e os músculos bem fortes.
27
DE JANEIRO, SÁBADO, MANHÃ... Rio. Aeroporto Internacional. Dois
cavalheiros desembarcam. Têm o mesmo tratamento: pista direto, helicóptero,
Base Aérea da FAB. Robert Gray
e Jonh Secus, agentes da CIA,
reúnem-se aos seus colegas franceses. Durante o dia, discretamente, ainda são
recebidos os agentes de inteligência da Inglaterra, de Israel, da Espanha, de
Portugal, da Argentina, da Alemanha, da Rússia e de outros países da Europa e
da América Latina.
Todos são alojados no
mesmo lugar, aguardando, como observadores privilegiados, o desenrolar dos
acontecimentos. Em inglês e espanhol, comunicam-se sem dificuldades. Conhecem a
missão. Aguardam a hora na frieza de suas têmperas forjadas no risco, na linha
tênue entre a vida e a morte longe da terra natal. São espiões, sim, que não
conhecem nenhuma lei, nem em seus países, nem em qualquer outro lugar. Nada
mais lhes interessa, só sabem da missão que recebem; e por ela, pela missão,
matam e morrem na surdina do submundo da espionagem.
O alojamento dos alienígenas fora adaptado dois meses antes,
bem como dotado de impressionante parafernália eletrônica destinada à imediata
transmissão de mensagens para qualquer lugar do mundo; e tudo ainda acoplado à CCOI de Forte Apache. Sem dúvida, algo
muito grave estava ocorrendo no Brasil. As Forças Armadas mantinham-se em
alerta máximo!... E também a imprensa, que vinha percebendo apenas
superficialmente aquelas estranhas movimentações sem nada entender. Em Brasília,
jornalistas agitados insistem na busca de pronunciamentos oficiais, inclusive
junto à Presidência da República. São descaradamente enrolados. Não há outro
jeito. Perdidos, especulam até sobre a possibilidade de golpe militar e o fim
da democracia. É... não dá mais para segurar. Está chegando a hora da
deflagração da maior operação contra o narcotráfico já vista no mundo. A
ultra-secreta ordem presidencial logo tornar-se-á domínio público. Sim, mas na
hora certa. Até então, à vista dos incautos jornalistas, só as quatro cartas do
royal street flush; falta uma... a quinta carta do fecho do jogo que eles ainda
não vêem. Qual será?...
28
DE JANEIRO, DOMINGO, MANHÃ... Rio. Carros pretos, com homens de
terno e pastas nas mãos, – escoltados por agentes fortemente armados, –
adentram a Brigada Pára-quedista. Os homens são recebidos pelo comandante e vão
direto às barracas de comando, no centro do campo. Seguranças permanecem na
pista. São juízes e promotores de justiça federais e estaduais. Acompanhando a
comitiva vêm dois carrosfortes trazendo muitos volumes: centenas de mandados de
busca e apreensão em residências de luxo e outros tantos mandados de prisão
expedidos contra os criminos do asfalto, todos com seus respectivos processos
bem fundamentados com vasta prova. E as autoridades permanecem aguardando o dia
seguinte... No mesmo momento, em todas as capitais e cidades de grande porte do
país, repete-se a cena. Sim, o Poder Judiciário e o Ministério Público
finalmente entram em ação, comandando o espetáculo nacional. Era o que
faltava... é a carta que começa a surgir, lentamente; a pontinha é vermelha;
porém, nada de naipe... E lá fora a imprensa torce, nervosa: será ouro ou
copas? Que carta será?...
29
DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA... Rio. Cinco da manhã. Campo de
futebol. Brigada Pára-quedista. Grupo de 400 homens de guerra, vinte subgrupos
de operações especiais, 20 homens cada, ocupam helicópteros que chegam a um só
tempo da Base Aérea de Campo dos Afonsos. Cada comando com ordem escrita:
ocupar, simultaneamente, vinte endereços de luxo. Desta vez os alvos não são
favelas. Missão: bloquear os locais e prender traficantes e pessoas envolvidas,
apreender drogas, armas, documentos e outras provas comprometedoras.
Agem rápido. As máquinas aterram nas praias da Zona Sul do
Rio e de Niterói. Comandos fardados ocupam portas de edifícios de luxo e
simultaneamente cercam condomínios horizontais. Ninguém entra! ninguém sai!
Chegam, ao mesmo tempo, policiais federais e estaduais com os mandados
judiciais nas mãos. Ninguém escapa. Surpreendem-se os espantados alvos,
inesperadamente defrontados com aqueles guerreiros hostis e forjados no aço da
guerra feroz. Entregam-se, os criminosos, na maioria dos casos. Quando reagem,
morrem!
Ao mesmo tempo, no resto do país, a mesma operação de Forças
Especiais e da polícia é desencadeada. Sucesso total!... E muitas surpresas:
saem algemadas muitas personalidades e autoridades notórias em suas
incumbências oficiais e figuras permanentes nas colunas sociais. São presos sem
resistência, famílias nervosas, em muitos casos sem nada entender.
Rio de Janeiro. Dez da manhã. O argentino Luiz Henriquez
arruma apressadamente suas malas. Está com reserva para Buenos Aires ao
meio-dia, vôo 961 da VASP. Seu exagerado nervosismo, porém,
sugere ter ele percebido ou recebido informação sobre algo muito grave. E ele
se dirige à varanda de sua espetacular cobertura tríplex, frente ao mar, na
Barra da Tijuca. Olha para baixo, tudo normal, nenhum movimento diferente: não
tem visão da rua transversal à praia, onde homens discretos, – em roupas
esportivas e ocupando um Santana azul escuro, – aguardam ordens de um distraído
cidadão, de sunga, na praia, com um rádio de mão oculto entre os pertences.
Luiz Henriquez faz ligação para a Colômbia. Fala em código,
como se estivesse comunicando-se com alguma inocente namorada. Na sede da
Polícia Federal, Praça Mauá, a fita roda e registra cada detalhe. Depois de
desligar, o argentino retorna à tarefa de organizar a bagagem: a valise de mão
e a mala de tamanho médio, comportamento padrão de empresários que retornam
rápido... ou que não voltam nunca...
Na valise, arruma criteriosamente seus documentos de cidadão
argentino, de “empresário ligado ao Mercosul”, além de outros objetos pessoais.
Na mala, acondiciona pacotes e mais pacotes de dólares, um milhão ao todo,
envoltos de modo disforme em papel laminado, uma inócua tentativa para não ser
notado pela fiscalização do aeroporto. Sabe, porém, que não terá problemas:
viaja sempre no dia em que seus amigos da aduana e da Polícia Federal estão de
serviço. Mesmo assim, não abdica de se precaver e dissimular seus passos. Só
não sabe é que todos os seus amiguinhos já estão a ferros, trancafiados na dura
da lei que já os alcançou...
Onze e trinta da manhã. Depois do banho, Luiz Henriquez
arruma-se, bebe um gole de café, pega a bagagem e sai, indo direto à garagem de
seu prédio de luxo. Olha os carros, – um BMW 750ia vermelho e um Audi, A8,
Tiptronic cinza, – ambos recentemente adquiridos. Opta pelo Audi. Abre o
porta-malas e deposita a bagagem. Liga o motor e... é travado na porta por
quatro agentes policiais, que lhe enfiam na cara as pistolas de calibre 9 mm e
bradam: “Perez!... Polícia Federal! Você está preso!” Finalmente a ferros o
colombiano Alonso Perez, alvo principal da histórica OPERAÇÃO ARABESCO; trata-se do mais importante
traficante do cartel de Medellin em atividade no território brasileiro. Não era
argentino coisíssima nenhuma.
Rio de Janeiro: Barra, Ipanema, Jacarepaguá, Leblon,
Flamengo, Copacabana e outros bairros de luxo: presos pela Polícia Federal
quarenta traficantes de asfalto portando identidades falsas de outros países.
Todos ligados aos cartéis colombiano, boliviano, surinamês, e às firmas
peruanas, e à máfia russa. Em seus domicílios são recolhidos documentos
comprometedores, milhões de dólares e rotas de distribuição, no atacado,
cortando todo o território nacional, além de outros caminhos internacionais de
distribuição da droga, tendo o Brasil como base operacional.
Em todo o país ainda são presos magistrados, promotores de
justiça, delegados federais e estaduais, detetives e agentes policiais,
oficiais da Polícia Militar, do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, além de
outros menos graduados, todos alcançados por seus próprios serviços de
inteligência ou pela Polícia Federal.
O Ministério Público Federal e os seus congêneres estaduais
requisitam novos mandados de prisão e de busca e apreensão, logo expedidos por
centenas de juízes federais e estaduais, de plantão permanente nos quartéis das
Forças Armadas. E, a cada busca, mais documentos e novos esquemas de
funcionamento do narcotráfico nacional e internacional vêm à tona. E novas
prisões... Os seminários em Brasília fizeram o maior sucesso da temporada...
Operação cinematográfica em alto mar: a Força Aérea e o
Corpo de Fuzileiros Navais tomam de assalto um navio mercante pronto para
partir. Lanchas velozes, lotadas de ferozes comandos, cercam-no rapidamente;
máquinas com asas girando no ar entornam fieiras de cordas sobre aquela
embarcação. Feras deslizam no tombadilho, na proa, na popa e em todo lugar. A
tripulação estaca no terror e não reage. Espantados, comandante e marinheiros
são detidos. Recebem triagem, muitos são imediatamente conduzidos ao local de
concentração de aprisionados: a Vila Militar. O navio carregava cinco toneladas
de pasta de cocaína com destino à Europa. Ação simultânea de operações
especiais em todo o Brasil: dezenas de mortos e feridos. Guerrilheiros presos e
mortos em combates ferozes. Em Manaus, operação idêntica flagra navios
carregados de madeira recheada de cocaína, tudo destinado à Europa. São todos
presos e a carga confiscada.
Rio de Janeiro, Zona Sul. Ao cair da tarde, grupos de
operações especiais da PM
e da Polícia Civil cercam rápido e invadem mansão de traficante responsável
pela distribuição, no atacado, de pasta de cocaína para todo o Sudeste. É homem
ligado a Alonso Perez (o falso argentino Luiz Henriquez) e conhecido como João
Árabe. Reação! dez mortos!... Três toneladas de cocaína e dez milhões de
dólares apreendidos. Documentos e listas de propinas recolhidos, muitos nomes
conhecidos, principalmente de autoridades encarregadas de combater o tráfico de
drogas.
São Paulo, Morumbi, noite. Mansão de um chefe de quadrilha
especializada em roubo de aeronaves civis. Vinte e cinco seguranças, espalhados
em pontos estratégicos, cobrem a área interna constituída de muitos
bem-conformados jardins e espaços de lazer. Outros dez cuidam da segurança no
interior da deslumbrante residência. Circuito de tevê projeta imagens de todo o
quarteirão e dos jardins, além de focar as dependências internas da mansão.
Controle absoluto de cada pessoa ou veículo naquela área restrita, como se
assim fosse uma área militar inexpugnável. Todos os bandidos estão armados até
os dentes e prontos para impor reação a quaisquer ataques. Impossível a
surpresa, segundo pensavam...
Num local distante, agentes da SECINT (Secretaria de Inteligência da Aeronáutica)
providenciam o corte da energia elétrica do bairro. Na mansão, os bandidos
recebem repelões nos nervos e entram em alerta. Soltam cães ferozes, que se
ficam esgueirando como cobras entre os canteiros e sedentos de sangue estranho.
Rosnam e não latem, são treinados para atacar inimigos. Mas caem, uns após
outros, atingidos por setas tão silentes quanto venenosíssimas, disparadas por
bestas modernas e infalíveis. Mais ferozes que os cães são os comandos da Força
Aérea, que deslizam como a sombra da morte na penumbra do quintal da mansão.
São invisíveis, como se fantasmas fossem. Um dos facínoras desloca-se rápido ao
prédio do gerador, pensando em ligá-lo. E dá de cara com aquele vulto de preto,
mais rápido que ele, um gato no escuro. No espanto, tenta reagir. A faca de
comando corta o ar, silvando como cobra, e penetra-lhe a carne,
atravessando-lhe o coração. Ele morre na hora, sem ver nem sentir. E de repente
ocorre o confronto na escuridão total. Estrondos e línguas de fogo vomitam nos
caminhos entre os contendores. Corpos caem em tenebrosa seqüência. Comandos
possessos entram na casa, por todos os lados. Mais reação e embate fatal. O
sangue derrama-se pelos corredores da mansão e espirra nas paredes formando
desenhos tenebrosos; porém, desta vez, é sangue podre de bandido. Saldo final:
dez mortos entre os quadrilheiros, inclusive o chefão. Os demais são presos.
Não sabiam que lidavam com homens de guerra, dispostos a tudo. Lidavam com
feras...
Mas um Força Especial culmina ferido. No peito, recebera a
rajada, porém escorada no colete à prova de balas. Entre os facínoras mortos,
logo identificados os dois matadores do coronel Paulo Reno. A autoria e o
motivo de seu assassinato há muito já estavam deslindados pelos agentes do SECINT: o coronel descobrira o modus
faciendi da rede de roubo de aeronaves civis para transporte de drogas e não
aceitara suborno. Por isso, fora sumariamente eliminado. Os seus companheiros
de farda souberam esperar. Não se esqueceram, e finalmente chegara a hora do
coronel Paulo Reno receber as devidas honras militares, desfazendo-se assim as
dúvidas surgidas quando de sua covarde execução. Dentro da lei, cobrou-se o
sangue com sangue. Seria um tenente-brigadeiro post-mortem, na bravura de seu
silêncio.
Angra dos Reis. Estourada mansão de traficantes colombianos
por Forças Especiais da Marinha. Muitas lanchas, iates e toneladas de cocaína
são apreendidos, além de armas e três milhões de dólares. O mesmo ocorre em
Armação dos Búzios e Cabo Frio, também regiões praianas do Estado do Rio de
Janeiro. Repetese a cena em toda a orla marítima brasileira. Presos inúmeros
traficantes de diversas nacionalidades.
Região Centro-Oeste e Amazônia. Batalhão de Selva do
Exército, homens forjados para todos os perigos das brenhas amazônicas, sangue
misto, de soldado e de índio, rigidez de tora milenar, dominam a floresta em
silêncio. Deslizam como cobras nas águas dos rios. São onças no mato; são
homens treinados no CIGS (Centro
de Instrução e Guerra na Selva); são comedores de tapuru e de frutos do mato.
Da selva, tudo tiram para sobreviver. Lesmas, até lesmas eles avidamente
devoram. E sobem em árvores rápidos como os macacos, na peconha presa aos pés.
São ferozes como cinco milhões de diabos na hora do grito de guerra: “Selva!
selva! selva!”.
Esta é a hora do sangue jorrar e manchar o verde do mato – o
sangue do inimigo. É hora de morrer ou matar. São assim, como feras, que os
comandos do CIGS invadem
quinze aeroportos clandestinos e recuperam quarenta aviões civis de pequeno
porte. Ao mesmo tempo, – e em muitos lugares, – tomam de assalto cinqüenta e
quatro grandes laboratórios de refino da cocaína e da papoula, tanto na selva
como em fazendas da região. Muitos colombianos, bolivianos, surinameses,
peruanos, russos e brasileiros são colocados a ferros, entre eles diversos
índios. Traficantes reagem e são mortos. Os locais, depois de concluída a
perícia, são destruídos. Vencem as feras do Batalhão de Selva, feras humanas,
capazes de conversar com a floresta, mais até que os animais e as aves, estas
que nem param os pios na cruza com eles, com os sensacionais guerreiros da
selva amazônica. Eles são únicos, como é única no mundo aquela selva feroz.
Ações militares diversificadas nas Regiões Nordeste e Norte
localizam e devastam, simultaneamente, milhares de hectares de plantios da
coca, da papoula e da maconha. Realizadas muitas prisões de lavradores e
índios. Durante o dia, e parte da noite, são muitas as ações isoladas, – da
polícia federal e das polícias civis e militares estaduais, – resultando em
prisões diversas e na apreensão de muitos carros importados, armas, drogas e
dólares.
Em Foz do Iguaçu, a Polícia Federal desbarata uma quadrilha
especializada em atravessar a fronteira como “mulas”, transportando milhões de
dólares para lavagem no Paraguai. Nas fronteiras com a Argentina e o Uruguai,
operações semelhantes logram o mesmo êxito. Ainda nesse esquema especial,
muitos proprietários e empregados de casa de câmbio, além de banqueiros, são
presos por todo o Brasil.
Ações militares são simultaneamente desfechadas contra os
guerrilheiros colombianos, peruanos, bolivianos e brasileiros em todo o
território nacional, especialmente na selva amazônica e nas fronteiras com a
Colômbia, o Peru, a Bolívia, a Venezuela, a Guiana, o Suriname e a Guiana
Francesa. Violentas escaramuças militares resultam em muitas mortes, milhares
de prisões e impressionante aparato bélico recolhido. Desta vez não funcionou
aquela musiquinha dos guerrilheiros, especialmente o último verso do soneto:
“Se matarem um daqui, dez de lá vamos matar.” Não mataram os “dez de lá”... e
foram presos, e morreram às pencas, e sem cantar...
Noite. Resultado parcial do primeiro dia de ação,
encerrando-se o ciclo inicial da OPERAÇÃO
ARABESCO: traficantes
e narcoguerrilheiros colocados a grilhões em praticamente todos os Estados da
federação, num total de 21.450 marginais. Entre os presos, o traficante
internacional Luiz Henriquez, – poderoso chefão do cartel de Medellin no
Brasil, – que de argentino não tinha nada além de seus documentos falsos: era o
colombiano Alonso Perez, do alto escalão daquele cartel.
Entre os 21.450 meliantes que foram pescados pela rede
governamental, lá estavam 3.500 “peixões” do tráfico de asfalto, tanto do
cartel de Medellin como dos cartéis de Cali e do Suriname, além das firmas
peruanas e da máfia russa. Centenas de colombianos, bolivianos, russos e
surinameses entre os traficantes tupiniquins, prova incontestável de que os
quatro cartéis já haviam transferido suas bases para o território nacional.
Milhares de brasileiros trancafiados, especialmente figurões, todos estreando
os novos presídios federais. E houve a apreensão de 30.350 fuzis, 28.040
metralhadoras e milhares de revólveres e pistolas, muitos de procedência
estrangeira. Recuperadas 123 aeronaves civis. Recolhidos trezentos cinqüenta e
quatro milhões de dólares e muitas toneladas de ouro em barras, além de
indicações de contas bancárias no estrangeiro, – a serem resgatadas para o
fundo financeiro de combate às drogas, – alcançando a impressionante cifra de
quase cento e quarenta bilhões de dólares americanos, uma inacreditável
fortuna.
Total de cocaína, ópio e maconha apreendidos: 234 toneladas.
Baixas entre os bandidos: 285 mortos e 150 feridos. Entre as forças
governamentais: 15 mortos e 70 feridos, do Exército; 8 mortos e 34 feridos, da
Marinha; 12 mortos e 35 feridos, da Aeronáutica; 44 mortos e 120 feridos, das
Polícias Militares; 8 mortos e 27 feridos, da Polícia Federal; e 40 mortos e 17
feridos, das Polícias Civis estaduais. Foi operação de guerra. Saldo
considerado normal, diante da envergadura da OPERAÇÃO ARABESCO. Contadas as baixas, valeu o
empenho das forças governamentais.
30
DE JANEIRO, TERÇA-FEIRA... O país acorda na batida do tambor de guerra.
Estado de Defesa havia sido decretado nas Regiões Norte, Centro-Oeste e parte
do Nordeste desde a madrugada anterior. A imprensa corre para todos os lados,
baratinada, sem saber como e onde documentar primeiro, num vaivém agitadíssimo,
com alguns repórteres ainda imaginando algum golpe militar em andamento.
Mas o Presidente da República finalmente fala, em cadeia
nacional, esclarecendo à nação as razões do impressionante aparato militar e
policial nas principais cidades brasileiras: vitória contra o tráfico
internacional instalado há anos no Brasil. Não havia golpe militar coisíssima
nenhuma, ou qualquer necessidade de extinção da Justiça Militar. Era tudo
fachada, para garantir o grande sucesso da OPERAÇÃO ARABESCO. Finalmente apareceu a última
carta do imaginário Royal Street Flush: não era o ás de ouro. Era o sete de
copas... Um tremendo e premeditado blefe.
O Ministro da Justiça concentra em si a responsabilidade de
dar entrevistas. Além dele, ninguém mais se pronuncia. E informa sobre os
resultados, porém não divulga tudo. Haveria desdobramentos. Muitos ainda seriam
apanhados, em fuga, nos dias seguintes.
Os agentes secretos dos países participantes transmitem,
céleres, as informações para as suas agências, provocando imediatos
desdobramentos em operações distantes, muitas prisões e apreensões de cocaína e
de documentos comprometedores, além de dados para investigações posteriores.
Foram dias movimentados e sangrentos no submundo internacional do narcotráfico
e da espionagem, um prejuízo aos criminosos nunca antes ocorrido.
O fim da OPERAÇÃO
ARABESCO marcou o
seu início: durariam meses as apurações complementares, os processos criminais
e outras prisões. E muitos escândalos... E, enquanto essa mais expressiva
operação nacional contra o narcotráfico acontecia, um elegante casal de
“italianos”, alheio aos acontecimentos, embarcava tranqüilamente, em primeira
classe, via VASP, no Galeão, com destino a Paris: viagem de núpcias. Mas
não eram italianos... e nunca mais retornariam ao Brasil...
Na semana seguinte, as pesquisas dão ao Presidente da
República o seu maior índice de popularidade (86%), calando a boca dos
adversários, todos com as suas saias justíssimas. Chegam cumprimentos oficiais
de muitas nações amigas. Valeu o sacrifício presidencial, que finalmente livrou
o Brasil da impressionante teia do narcotráfico internacional. Pelo menos por
um tempo, porque o governante também sabia que a droga é como o câncer maligno:
este destrói o corpo humano, tanto quanto aquele corrói inexoravelmente a
tessitura social. Mas o mandatário máximo não se ilude; sabe que popularidade
de político é tão efêmera quanto as nuvens que enfeitam o céu azul, e, de
súbito, são levadas ao vento aleatório dos novos acontecimentos. Ou tornam-se
negras e medonhas, anunciando tempestade...
CAPÍTULO
III - TUDO TEM UM INÍCIO...
21
DE JANEIRO DE 2000, SEXTA-FEIRA. MEIA-NOITE... Carlos foi o último a
sair das termas Orly. O calor do lado de fora contrastava com o conforto do ar
condicionado daquele agradável ambiente. O manobreiro encostou seu
Mercedes-Benz C-280, comprado há uma semana. E ele agraciou o antigo
funcionário com boa gorjeta, e sobretudo discretamente, uma característica
marcante em seu comportamento. Depois, entrou no carro e partiu, sem qualquer
pressa, relembrando a primeira vez em que se enfiou, curioso, naquele lugar,
dois anos antes, também no verão. Isso em fevereiro de 1998, época em que ainda
não tinha dinheiro para dar a si o luxo de desfrutar mais amiúde das delícias
daquele afrodisíaco lugar. Agora, porém, sentia-se à vontade com as mordomias
que o dinheiro lhe proporcionava, e se animava com sua vida atual, um objetivo
que sempre almejara desde que, pela primeira vez, pisara os seus pés mineiros
na Cidade Maravilhosa.
Ao volante do Mercedes-Benz, Carlos deslocou-se com destino
a Ipanema. Passou pela Glória e divertiuse com os travestis em habitual trotoir,
todos mostrando seus corpos seminus e enfiados em sumárias roupas femininas. Ao
observar a cena, ia imaginando que vida teriam eles (ou elas?) durante o dia:
“Quais seriam as suas realidades?”, pensava. Não tinha, contudo, a resposta
certa. Por outro lado, sobrava-lhe a certeza de que muitos daqueles travestidos
escondiam suas identidades originais de empresários, homens casados, militares
e outros adeptos daquela “arte”. Também não lhe causaria estranheza se muitos
ali consumissem droga, para ele sempre uma alvissareira notícia, posto que há
dois anos integrara-se ao alto escalão do narcotráfico colombiano. Ingressara
no cartel de Medellin pela porta da frente, ou melhor, diretamente no andar
mais alto da hierarquia do tráfico internacional de drogas instalado no Brasil.
O Rio de Janeiro era a sua base operacional, em missões muito especiais na área
financeira, oportunidade que lhe surgira em razão de seu antigo e único emprego
numa casa de câmbio, no centro da cidade.
Quando ingressou no complexo e mágico mundo das finanças e
do câmbio, Carlos não cogitava nada além da possibilidade de construir uma vida
de classe média, sem grandes sonhos de consumo. Mas os relacionamentos com os
abastados clientes lhe foram despertando no íntimo a vontade de romper barreiras
mais ousadas, principalmente porque percebera, logo cedo, que muitos daqueles
clientes que negociavam na casa de câmbio traziam volumosas quantias de
procedências geralmente pouco recomendáveis. Vinham sempre, em verdade, para
“lavar” dinheiro, nunca para investir em procedimentos oficiais e controlados.
Em resumo, eram, em sua maioria, uns refinados pilantras. E não fora difícil a
Carlos separar, entre a expressiva clientela, honestos de desonestos, por mais
discretos e dissimulados que fossem estes últimos.
Ainda completamente perdido em seus pensamentos, e depois de
deslizar com o automóvel, tranqüilo, pelo aterro do Flamengo e por Botafogo e
Copacabana, Carlos finalmente chega a sua casa, em Ipanema, onde continua
devaneando sem atropelo. Curte aquele momento com inelutável prazer. Podia
curtir aquele luxo, não havia problema, o sábado já começara, dia em que sua
loja de câmbio não funcionava. Antes de se recolher para dormir, dirige-se à
varanda e ainda relembra sua vida apertada, um ciclo encerrado não fazia tanto
tempo, desde que houvera um almoço no Le Bec Fin, tendo como comensais ele
próprio e um facínora de alto nível do cartel colombiano de Medellin. Tivera a
competência e a sorte de ser escolhido a dedo e aceitara ingressar no crime.
Apenas dois anos se haviam passado, e ele já residia naquele
belo apartamento frente ao mar e com uma vista maravilhosa da praia de Ipanema.
Estava satisfeito com a vida que levava. Valera a pena aceitar as benesses do
cartel de Medellin em troca de seus serviços especializados. E, perdido em seus
devaneios, culminou pensando em Vivian Melbo: “Como seria bom se ela, em vez de
me esperar nas termas, me estivesse esperando aqui...” Pensava em sua garota
predileta, com quem mais uma vez passara um final de tarde e parte da noite nas
termas Orly, algo constante desde que a conhecera. Acostumara-se com as
atenções de Vivian Melbo, uma loura espetacular, de cabelos compridos e
encaracolados, olhos verdes e pele clara, com matiz ligeiramente bronzeado pelo
sol das praias cariocas. Vinte e seis anos de idade, 1,74 m de altura, ela
formava um harmonioso conjunto de beleza, ainda acentuado por um andar de
modelo. Era, com efeito, uma belíssima mulher.
Desde a primeira vez em que fitara Vivian Melbo, Carlos se
entregou àquele novo fascínio. Não resistiu ao encanto da prostituta e
elegeu-se seu “pirulove” (assim as garotas eram referidas por seus pares
constantes naquele local de deleite sexual remunerado). O aprazível encontro
ocorrera no primeiro dia de ambos nas termas Orly, cada qual com sua história e
sendo por ela empurrados ao mesmo endereço. Depois de tanto tempo, aprofundaram
uma grande amizade, além do prazer que gozavam juntos, pelos menos três vezes
por semana.
“Vivian Melbo não possuía aparência
tupiniquim. Filha de norte-americana com brasileiro, seus pais conheceram-se em
Boston, enquanto cursavam sociologia em Harvard. Casaram-se e resolveram
residir no Brasil, optando pelo Rio de Janeiro. Ela foi o único fruto de uma
história de amor abruptamente encerrada por tragédia. Aos dezesseis anos de
idade, a bela adolescente perdeu os pais num acidente de automóvel, na Lagoa
Rodrigo de Freitas, após derrapagem e choque frontal numa árvore, no retorno de
um programa noturno. A súbita morte dos pais desesperou-a. Sem saber o que
fazer, ela mudou-se para os Estados Unidos, indo também morar em Boston, com os
avós maternos. Decisão infeliz, pois um tio solteiro, e residente no mesmo
endereço, olhava-a com indisfarçável cobiça...
Mal Vivian Melbo completara 21 anos, um dia o tio invadiu o
quarto dela e a estuprou violentamente. Seus gritos não despertaram os avós,
que dormiam (?) no quarto ao lado. Com as entranhas rasgadas, ela não mais
duvidou de que era uma estranha no ninho. Não obstante o seu parentesco
sangüíneo, o fato de ser mestiça transformou-a em vítima de preconceito e de
violência sexual no seio da própria família.
Traumatizada, Vivian Melbo retornou ao Brasil e ao Rio de
Janeiro. Não quis procurar os parentes do pai brasileiro; ficara tomada de
muito medo, e achava que poderia enfrentar rejeição, porque antes desdenhara a
família do pai ao preferir partir. E também sentia-se envergonhada. Optou,
então, por ficar só no mundo; mas, apesar do empenho em buscar emprego, não o
encontrava. E investira suas poucas reservas na compra de um quarto-e-sala, em
Copacabana, ficando impossibilitada de se sustentar por muito tempo com as
sobras daquela pequena poupança. Mesmo assim, dois anos levou esticando o
dinheiro, que se foi naturalmente minguando até acabar. Havia dias de fome e de
desespero. A partir daí, sem saída, Vivian Melbo procedeu como inúmeras moças
em situações semelhantes e perdidas nas cidades grandes: inseriu o seu nome nos
classificados da prostituição:
“Vivian, loura bonita e
sensual, 1, 74 m, 23 anos, atende a cavalheiros distintos no seu endereço.
Tel.: 567-981...”
Sim, tornou-se garota de programa, nem mesmo se preocupando
em dar nome ou endereço falsos. E, vendendo o corpo, em menos de três anos saiu
do sufoco financeiro. Assim, vislumbrou um futuro sem maiores dificuldades,
pelo menos enquanto fosse nova e bonita. Transformara-se, na verdade, numa
pessoa aparentemente fria e ambiciosa, fruto de seu desencanto com a vida. Mas,
no seu íntimo, ainda era movida por sentimentos que não coadunavam com a
prostituição, esta que adotara como única saída financeira, mesmo contra sua
vontade.
Já calejada na mais antiga das profissões, e perto de
completar 26 anos, a linda moça decidiu-se por fazer a vida nas termas Orly.
Horário bom, ela chegava às doze horas e se retirava à meia-noite, momento a
partir do qual retomava sua liberdade. Desse modo, permitia-se dormir bem,
fazer ginástica e ir à praia pela manhã, uma garantia de saúde e beleza por
mais tempo. Nas termas Orly, o ambiente agradável, os clientes selecionados, o
uso sistemático de camisinhas e os exames médicos regulares traduziam para si
menor preocupação com as doenças do sexo. E foi quando conheceu Carlos, e o seu
modo delicado agradou-a deveras. Ali as garotas não se sentiam prostitutas;
preferiam sublimar o exercício dessa milenar profissão fingindo-se apaixonadas
por determinados clientes, algo comum naquele meio luxurioso. E, como Carlos
tornara-se um habitué do lugar, ela transava quase que somente com ele. Com
outros, apenas esporadicamente.
Mas a experiência vivida por Vivian Melbo, ao longo daqueles
anos como prostituta, era simplesmente aterradora. Ela geralmente atendia aos
clientes situados nas camadas mais altas da sociedade, alguns com taras
indescritíveis. Também entre as suas colegas de trabalho surgiam as histórias
mais rocambolescas que se possa imaginar, e que elas não tinham qualquer pejo
em divulgá-las entre si e até para outros clientes. Sim, porque tanto na época
em que Vivian Melbo militava como garota de programa, ou como garota de termas,
muitas pessoas importantes deixavam nela suas marcas de taras incríveis, comportamentos
sexuais que lhes eram certamente inviáveis nos lares e com as esposas. Mas
entre si, e até por vingança, as prostitutas se deliciavam com os comentários
que faziam sobre essas insólitas perversões sexuais.
Certa vez, uma das colegas de Vivian Melbo narrou que uma
alta autoridade pública, ao ocupar a cabina do prazer (local onde supostamente
ocorria uma simples massagem), pediu-lhe para vestir suas roupas e calçar seus
sapatos; e depois passou a exigir-lhe que o chamasse de veado. Ela cumpriu a
vontade da importante e imponente figura pública, que ficou rebolando e
meneando o corpo como se fosse dançarina prostituída. Quem o visse depois em
função, de toga, onde ele trabalhava, nunca acreditaria... Uma outra também
comentara que um determinado cliente pagava-lhe mais caro por uma calcinha do
que todas as demais despesas. Algumas biscas, quando se recusavam a vender-lhe
as calcinhas, levavam-no à loucura. Ele era capaz de pagar qualquer preço por
aquela pequenina peça do vestuário da “massagista”, depois de com ela
transar.
Vivian Melbo também passara por experiências semelhantes,
mas não gostava de falar sobre o assunto. E também costumava recusar muitas
transas, especialmente nas termas, porque, nesta fase, ela contava com a
preferência exclusiva de Carlos, e não mais enfrentava problemas financeiros.
Guardava em si, porém, uma inegável aversão pela vida que levava. E sempre
pensava em abandonar a prostituição, como uma colega sua o fizera depois de
conhecer um empresário italiano e partir com ele para Roma, inclusive
contraindo matrimônio. Isso era comum ocorrer; afinal, as meninas que
trabalhavam nas termas Orly eram geralmente lindas. E entre elas estava a
belíssima Vivian Melbo, que ali não era somente prostituta. Ela ainda precisava
completar uma importante missão...”
S
Naqueles dois anos, Carlos já instituíra sua rotina
particular nas termas Orly. Primeiro, deliciava-se com boa sauna. Às vezes
cortava o cabelo e se barbeava, utilizando-se dos excelentes serviços da casa.
Em seguida, ocultava-se com a sua preferida Vivian Melbo para mais uma sessão
de “massagem”. Ele sempre se encantava com a delicadeza daquela moça bonita que
com ele se desdobrava em atenções e lhe dispensava um sincero carinho. Sentia
isso no seu íntimo e não a trocava por nenhuma outra. Era a sua melhor
transa.
Desde os 23 anos na casa de câmbio, Carlos resumia o seu
trabalho às transações com moedas estrangeiras. Passados alguns anos, ele
angariou em definitivo a confiança de João Sharif, o patrão. E começou a
ingressar com desenvoltura na prática da lavagem de dinheiro sujo, obtido por
meios ilegais. Boa parte destinava-se ao exterior, tudo feito na surdina.
Impressionava-se com os expressivos valores das transações, vendo desfilar
diante de seus olhos cobiçosos milhões e milhões de dólares, todos gerados no submundo
do tráfico e da corrupção, e tudo muito bem dissimulado em fachadas de negócios
sérios.
Carlos distinguia claramente cada operação e seus titulares.
Executava-as, porém, de modo sempre muito discreto. Não fazia perguntas;
restringia-se, insatisfeito e silente, ao seu habitual salário. E assim,
friamente, foi ampliando e aprofundando o conhecimento com as pessoas ligadas
às transações ilegais, aprendendo seus caminhos e conquistando-lhes a
confiança. E não lhe custou muito abrir seu próprio espaço entre os abastados.
Aquela gente, sempre assídua nas colunas sociais, prezava-o e exigia-lhe
constantemente os serviços. Deste modo, ele foi penetrando discretamente num
mundo que não lhe pertencia. Como atendia a todos com absoluto zelo, agindo
como profissional especializado, construiu rápido um caminho sem pedras para a
fortuna.
No início, Carlos recebia somente pequenos agrados
financeiros e esporádicos convites para festas particulares, mas tudo em razão
de reconhecimento por sua presteza em tratar dos interesses da exigente
clientela, sempre propiciando-lhe bons lucros. E esses beneficiados por sua
habilidade de cambista gostavam de ostentar, gastando verdadeiras fortunas em
festas faraônicas; mas, na hora de valorizar o seu trabalho geralmente eram sovinas,
uma incoerência, em se tratando de dinheiro fácil e sempre aumentado em razão
de sua competência técnica. Carlos, no fim de contas, ficava mesmo a ver
navios, restrito às migalhas que recebia. O dinheiro era sujo, mas não era
dele...
Nas festas, regadas com bebidas finas, em algumas ocasiões
surgia o indispensável complemento: a cocaína. Carlos impressionava-se com o
cartaz da branquinha, avidamente consumida nas orgias em coberturas de luxo da
Zona Sul. Deslumbrava-se com tudo o que via, especialmente com a liberalidade
dos convivas. Era comum observar-se naquelas festas as trocas de casais, algo
que Carlos não engolia muito bem no seu conservadorismo mineiro. Mas, com o
tempo, – e por astuta conveniência, – foi-se amoldando aos novos conceitos. Na verdade,
seus valores individuais e sociais se foram sucumbindo aos encantos dos ricos,
com os quais lidava no seu dia-a-dia da casa de câmbio e dos ambientes
socialites que passara a freqüentar assiduamente.
Certa vez, e já contando com razoável situação financeira,
Carlos recebeu e acolheu um convite para uma “noite baiana” numa belíssima
cobertura situada no Leblon. Foi pessoalmente recepcionado por Sílvia, cliente
especial da casa de câmbio e bela mulher, de seus 31 anos, e muito rica. Ele a
atendia em ocasiões de suas inúmeras viagens ao exterior. Sílvia não tratava de
negócios escusos; tinha fortuna de fato, proveniente das rendosas atividades
empresariais de seu pai. Filha única, gozava a vida gastando o dinheiro que lhe
vinha sem qualquer suor.
O ambiente na cobertura de Sílvia era todo fantasia. Garçons
e garçonetes, com elegantes roupas típicas, serviam bebidas e iguarias finas.
Casais bem-arrumados não paravam de chegar. Carlos, extasiado, deliciavase em
observar o brilho fantástico das lindas mulheres, todas com roupas de griffe e
ornamentadas com jóias valiosíssimas. Havia, porém, por detrás daquela aparente
descontração, uma descarada disputa pela maior ostentação.
Faziam-se presentes na festa muitos empresários, políticos,
autoridades, artistas, colunistas sociais, jornalistas, escritores, jogadores
de futebol e muitas outras personalidades somente vistas pelo atônito e
deslumbrado Carlos em programas de tevê. Algumas, de tão famosas,
afiguravam-se-lhe míticas. E ele não acreditava estar diante delas, em carne e osso, vendo-as conversar, sorrir e
beber como seres normais.
Participavam também muitos outros tão desconhecidos quanto
ele, sem a marca da fama ou do sucesso, avaliação que obviamente não inseria
especulação sobre fortunas individuais. Nem sempre a fama significava riqueza
naquele meio milionário e também freqüentado por pilantras refinados, tanto
homens quanto mulheres, todos atrás de um bom golpe do baú e tendo como trunfo
a cara-de-pau e uma boa aparência.
Da varanda, Carlos observava o desenrolar da noite festiva.
E percebeu ao seu lado uma linda mulher, iniciando com ela uma descontraída
conversa. Ela logo se apresentou, sem rodeios: “Chamo-me Hortênsia; sou
embaixatriz argentina e separada; resido no Flamengo...” Ele nem abriu a boca,
só apurou os ouvidos. E a mulher desfiou-lhe um rosário de vantagens, em
comentários comuns às ricaças. Ele ouvia atentamente a faladeira, impressionado
com a sua fluência e com o traje em couro argentino que ela ostentava,
verdadeira obra de arte. Também já observara Sílvia vestida em couro,
igualmente espetacular.
Carlos já estava visivelmente encabulado com o assédio,
quando foi imprensado com a clássica indagação: “E você, faz o quê?” Ele falou,
singelamente, que era um mero empregado de casa de câmbio, e foi o bastante
para a embaixatriz dele fugir na velocidade do raio, comportamento claro de
quem não quer, numa festa, gastar tempo com um provável pobretão. Carlos ficou
ligeiramente mal-humorado, porém logo esqueceu o episódio. Afinal, que se
danasse a portenha, pois não lhe faltavam cenas atraentes para apreciar. E se
assustar...
A festa rolava em descontração. Até demais, pois uma pessoa
famosa, figura constante nas colunas sociais, apareceu servindo lenços de linho
numa bandeja de prata. E no centro da bandeja rutilava um dourado
lança-perfume, como nos velhos tempos em que seu uso não infringia a lei:
“Proibido tinha gosto melhor”, pensou Carlos. E não titubeou em rememorar os
carnavais de outrora, pegando um dos lenços, embebendo-o com um forte jato e
aspirando aquele líquido gelado e perfumado que saía sob pressão do invólucro
de metal. Foi às nuvens...
Aquele mundo novo contagiava o espírito de Carlos. E há
muito ele não se contentava em amesquinhar pequenas sobras financeiras, que, mesmo
substanciais, ainda não lhe permitiam manter-se como figura permanente naquele
cenário cintilante dos ricaços. Contudo, novos amigos lhe surgiam na vida,
abrindo-lhe as portas das facilidades de consumo. Um deles, Luiz Henriquez, de
origem argentina, e pouco mais velho que ele, descortinou-lhe o brilho da
alegria e do esbanjamento: o submundo do crime. O primeiro contato com Luiz
Henriquez ocorrera meses antes, na casa de câmbio. E para a finalidade de
sempre: a lavagem de milhões de dólares, que pelo argentino eram regularmente
enviados a diversos países da Europa, aos Estados Unidos, à Argentina e... à
Colômbia.
Luiz Henriquez costumava lidar com João Sharif, porém há
muito já percebera a desenvoltura daquele especialista em câmbio e apreciava o
seu modo discreto e impessoal de tratar das transações, nunca discriminando os
clientes. Na verdade, para Carlos tornara-se indiferente se o dinheiro provinha
ou não de fonte suja. Cuidava dos refinados clientes como se fossem todos
“honestos”, e assim enchia os bolsos de seu patrão... Sim, porque Carlos
recebia apenas as partículas dos muitos milhões de dólares que lhe passavam
pelas mãos. E fingia não se incomodar: “Melhor algum do que nada”, pensava, até
que houve o assédio: Luiz Henriquez convidou-o a almoçar e o levou ao luxuoso
restaurante francês Le Bec Fin, em Copacabana. Ocuparam uma discreta mesa,
ficando claro para Carlos ser o argentino um habitual comensal naquele lugar. O
maître desdobrava-se em cortesia. O garçom, exclusivo, dirigia-se ao argentino
pelo nome, sempre antecedido do indefectível “Dr.”, confirmando o seu
prestígio.
Feitos os pedidos, Luiz Henriquez clarificou sem rodeios sua
intenção, oferecendo a Carlos uma chance de ganhar muito dinheiro. As tarefas
seriam restritas ao seu conhecimento profissional e endereçadas às suas
incontáveis amizades no meio empresarial, político, militar, policial e
judiciário, entre outros contatos fechados que possuía. Carlos aceitou a
proposta, porém manifestou seu temor com a reação de João Sharif, sendo logo
tranqüilizado por Luiz Henriquez. E este esclareceu que a participação do
cambista consistiria apenas em aproximá-lo de determinadas pessoas no âmbito de
suas atividades normais. Somente cuidaria de apresentá-lo como um “grande amigo
do ramo de negócios ligados ao Mercosul”, ficando por conta de Luiz Henriquez o
estreitamento dos contatos dali para diante. “Tudo muito fácil, mas nem tanto”,
raciocinava Carlos. Por isso, indagou ao argentino:
–
Henriquez, tudo bem, acho que dá para fazer o
que você me propõe. Mas, vamos supor que alguém não goste do assunto...
–
Fique tranqüilo, Carlos. Sei como lidar com
isso. Você vai custar a perceber o tamanho do nosso poder. Nós fazemos negócios
pesados, muita grana mesmo!...
E continuou na explicação:
–
Pode ter a certeza de que nenhum deles irá
reclamar com você, mesmo que não aceitem o jogo. Mas é difícil não aceitar.
Nossas garantias são totais e o dinheiro ilimitado. O problema é só chegar a
eles, para estreitar uma amizade, entendeu?
–
Tudo bem, Henriquez! Não lhe posso negar uma
coisa: não agüento mais aperto financeiro. Fico danado da vida quando recebo
convite para uma festa chique e tenho de atentar para não repetir o mesmo
traje. É muito chato. Muitas vezes recuso – reclamou Carlos.
–
Tem razão. Acho que a primeira coisa é
providenciar-lhe um banho de loja. Quando a gente sair daqui, vamos passar numa
loja de griffe. Só compro lá. O dono é amigo. Você vai ter de comprar um
armário maior – gracejou Luiz Henriquez.
–
Puxa, Henriquez! Você está brincando comigo?
–
Não, Carlos. No nosso negócio não existe tempo a
perder. É tudo muito profissional e rápido, e dinheiro não é problema. Estou
falando sério!...
–
Desculpe-me, Henriquez. É que tudo me parece
brincadeira. Estou meio confuso com tudo isso. É para acreditar mesmo?
–
Claro que sim, amigo! Vamos fazer o seguinte:
daqui, vamos direto à loja. Você não precisa voltar ao trabalho. João Sharif é
dos nossos. Mas você é o especialista de que precisamos. Mas, primeiro, tem que
estar em condições de freqüentar a sociedade em igualdade com os ricaços. Está
decidido. E já que você aceitou, vamos montar uma fachada e tanta com você.
Prepare-se para entrar no mundo dos ricos, mas sendo um deles...
Dali, partiram para Ipanema, adentrando a loja mais cara dum
shopping. Veio o próprio dono recepcionar o refinado cliente “argentino”, cujos
gastos garantiam-lhe lucros astronômicos.
–
Boa tarde, Dr. Henriquez! Que prazer! Do que
estamos precisando hoje?
–
Martins, desejo um especial favor; quero que
você capriche um guarda-roupa completo para o amigo aqui, no mínimo dez peças
de cada. Aquele atendimento de sempre...
–
Claro, doutor! Providenciarei o melhor que
tiver. Estou com umas novidades chegadas da Europa. Há umas coleções
espetaculares de sapatos e gravatas. E uns lançamentos italianos sensacionais.
Pode deixar seu amigo aos meus cuidados.
–
Muito bom, Martins. Anote tudo em minha conta –
disse. – Carlos, volto daqui a três horas. Hoje seu dia será diferente. Vamos a
um lugar especial. Você vai gostar – concluiu Luiz Henriquez. – Legal, Henriquez! Estarei esperando;
obrigado mesmo!
–
Está certo, amigo, mas atente logo para a
primeira recomendação que lhe faço: mantenha sempre discrição absoluta! Nunca
fale nada do nosso relacionamento com ninguém, nunca pergunte nada. Este é o
nosso maior trunfo. Não se esqueça de que os mais espertos são os aparentemente
mais beócios. No nosso meio, ninguém é confiável, até certeza em contrário.
Guarde este conselho como se fosse um tesouro...
–
Ora, Henriquez! Você sabe como eu sou discreto
ao extremo. O meu ramo já me ensinou... Fique tranqüilo!
–
Eu sei amigo, eu sei... mas nunca é demais
avisar, especialmente agora. O jogo é outro.
–
Tudo bem, Henriquez. Pode ir, calmo. Estarei
aqui esperando – respondeu Carlos, já um pouco chateado, mas entendendo a
preocupação de seu interlocutor.
Carlos se decidiu, resoluto: “Entrarei de corpo e alma nesse
negócio!” Não tinha dúvida de que aquela vida, apesar de arriscada, atendia aos
seus anseios materiais. Ansiava conhecer as primeiras tarefas, tendo como
mentor o argentino Luiz Henriquez. Ou melhor, colombiano: Alonso Perez, seu
verdadeiro nome, chegado ao Brasil com documentos falsificados em precisão, tão
perfeitos que, se conferidos naquele seu país de fachada, seria ele um
“próspero e respeitável exportador de alimentos do Mercosul”.
Alonso Perez representava os interesses do cartel de
Medellin, sendo no Brasil o responsável por contatos objetivando a abertura de
canais de venda da cocaína em pasta, no padrão colombiano de distribuição
mundial. A pasta vinha prensada em tabletes de um quilo, formando um
paralelepípedo de aproximadamente trinta centímetros de comprimento, quinze de
largura e cinco centímetros de altura. Cada tablete custava no Brasil cinco mil
dólares, única moeda aceita. Vendida em frações, desdobrava-se em vinte e cinco
mil dólares, proporcionando um lucro fantástico aos traficantes, isto sem
considerar as misturas com outras substâncias, para aumentar a quantidade da
cocaína a ser vendida no varejo (“batismo”).
O tráfico direto da droga não faria parte das tarefas de
Carlos. Sua participação seria exclusivamente como especialista em transações
cambiais. O conúbio de Perez com o brasileiro apresentava-se atraente em todos
os sentidos: nas operações de câmbio negro e nas articulações com pessoas
importantes, incluindo-se alguns clientes traficantes do asfalto,
intermediários que faziam a droga chegar às favelas.
“Carlos
nascera em Minas Gerais, numa cidade do interior. Membro de uma família de
classe média, ainda muito jovem, – e contando com boa mesada, – veio para o Rio
de Janeiro estudar Economia, tarefa que não lhe fora difícil cumprir.
Inteligente e dedicado, lograra sucesso. Morava numa pensão, em Botafogo,
bairro apropriado ao deslocamento rápido e barato para o centro da cidade e
para os bairros nobres: Copacabana, Leblon e Ipanema, locais prediletos para
suas investidas noturnas atrás de mulheres bonitas e sem compromisso fixo.
Durante muitos anos ele permaneceu naquele endereço.
Em vez de seguir o rumo de muitos conterrâneos seus, que
saíam de Natividade de Carangola para Belo Horizonte com o fim de completar
seus estudos e tentar alguma profissão mais próximo de casa, Carlos optou por
se deslocar e se radicar no Rio de Janeiro, onde já estivera antes, passando um
verão em casa de amigos. Encantou-se com a vida dos cariocas, com a diversidade
de pessoas e com a variedade de cultura, tanto brasileira como estrangeira. Era
o ambiente com que sonhava desde a adolescência. Por isso, não pensou duas
vezes, recebendo o apoio de sua família quando decidiu partir para a Cidade
Maravilhosa.
Fez Economia, e, com o diploma debaixo do braço, não teve
grandes problemas para arranjar emprego. Suas excelentes recomendações
universitárias ajudaram-no a abrir caminhos profissionais. Depois de um teste,
foi contratado pela casa de câmbio para não mais sair. Dava conta de suas
atividades com presteza, garantindo bom lucro a João Sharif. Também inseriu
fácil em sua cultura moral as transações de “caixa dois”. Frio e calculista,
mantinha uma expressiva lista de clientes importantes, que astutamente
controlava e atualizava sem o conhecimento de João Sharif. Assim se começou a
despertar para uma desmedida ambição...
Imbuído da vontade de
vencer, Carlos foi tocando a vida e aprendendo cada detalhe das transações
legais e ilegais que ocorriam rotineiramente na casa de câmbio, até surgir-lhe
o convite de Perez para almoçar. Ganhou roupas novas e foi, pela vez primeira,
às termas Orly. Adorou aquele ambiente de lindas e solícitas mulheres em trajes
insinuantes. No seu caso, nunca teria coragem de enfiar a mão no bolso para se
deliciar daquele lugar. Com Perez convidando e pagando tudo, dali em diante não
iria querer outra vida. Se dependesse de sua vontade, e de coragem, sentia-se
suficientemente preparado para aventurar-se a vôos mais altos e partir em busca
da fortuna e do consumo fáceis. Tudo estava propício e caminhando nesse
sentido...”
Carlos e Luiz Henriquez se reencontraram no shopping e
rumaram às termas Orly, onde aprofundaram o diálogo iniciado no almoço:
–
Companheiro, acho que fizemos uma boa amizade a
partir de hoje.
–
Sem dúvida, amigo. Hoje você me proporcionou
coisas que eu nunca tive. Essas mulheres são demais! Que lugar! Daqui não dá
vontade de ir embora! – exclamou o deslumbrado iniciante.
–
É mesmo! Isso é que é vida boa! Aqui nós
desfrutamos de boas mulheres, e sem compromisso. É só ter dinheiro, mas isso
não é problema.
–
Não é pra você, amigo. Se dependesse do meu
ganho, eu nunca entraria aqui.
–
Veja bem, Carlos, você é uma pessoa legal.
Gostei mesmo de você, e estou disposto a lhe ajudar. Mas não sei se você está
pronto. É um jogo de riscos!...
–
Ora, Henriquez! Eu já me arrisco demais, e por
quase nada. Faço aquelas transações de rotina e só recebo ninharia do Sharif.
Por mim, toco o barco com você! Estou cansado de viver apertado, sem poder usar
uma roupa de griffe, sem poder comprar um carro mais decente. A partir de hoje,
se você quiser, pode me experimentar. Você não se irá arrepender...
–
Boa, amigo! Gostei da firmeza! Na semana que
vem, orientarei você para executar uma tarefa simples.
–
Puxa, amigo! Terei de esperar ainda uma semana?
Está faltando confiança?
–
Nada disso, Carlos! É que eu preciso fechar uns
contatos... E logo você começa; fique tranqüilo. Só por sua disposição, você
receberá mais um prêmio ainda hoje. É de graça!
Na saída, com ambos no BMW 750ia de Perez, este colocou no
bolso de Carlos uma expressiva maçaroca de dólares. Desconcertado, ele nem
contou. Saltou em Botafogo e pegou no porta-malas do carro o seu banho de loja:
dezenas de bolsas com roupas, sapatos e outras peças de vestuário. Despediu-se
rápido e correu para a pensão. Entrou no quarto, enfiou a mão no bolso, puxou e
contou a bolada: “Vinte mil dólares? Não dá pra acreditar! Pagarei tudo quanto
é dívida numa tacada só!”
Naquela noite, a ansiedade não deixou o cambista dormir,
ficando ele a apreciar aquela dinheirama. Não conseguia largar a inusitada
bolada, mas, depois de saciar suas cobiçosas vistas, guardou tudo debaixo do
travesseiro. Afinal, muitos dólares passavam por suas mãos todos os dias,
sempre como um rio correndo invariavelmente ao mar, e nunca paravam no caminho.
“Desta vez foi diferente!”, pensava consigo, enquanto rememorava a figura
misteriosa de Luiz Henriquez. Na verdade o colombiano Perez...
“Alonso
Perez, nascido em Bogotá e filho de favelado, logo cedo se iniciou no crime.
Ainda adolescente, aos 17 anos, matou um jovem adversário de sua gangue.
Conseguiu fugir para Medellin, ingressando no cartel apenas como mais um
empregado na produção em larga escala da cocaína. Como muitos outros, viveu
primeiramente na selva, em laboratórios clandestinos, executando a tarefa de
transformar as folhas da coca no mais venenoso tóxico que assola a humanidade
nos tempos atuais. Mas o colombiano não se importava com isso; não se
incomodava com o fato de ser a cocaína um agente destruidor da vida de milhões
de pessoas. Na realidade, pensava apenas em sobreviver e em não ser preso pelo
crime que havia praticado.
Aos 21 anos, ele já se enfileirava com prestígio entre os
homens de confiança de Carlos Castebar, o narcotraficante mais conhecido do
mundo. Ainda na Colômbia, realizou algumas execuções por ordem do chefão,
angariando sua total confiança.
O cartel passou, então, a investir em Perez. Colocou-o
recebendo aulas de português e treinando o modo de falar argentino. Ao cabo de
seis meses, foi mandado para Buenos Aires, aonde os contatos de Carlos
Castebar, já orientados, providenciaram-lhe uma verdadeira sabatina de aulas e
de conhecimento sobre o Mercosul. Dotado de vivaz inteligência, Perez não
demorou muito em se apresentar como um legítimo portenho, além de dominar com
fluência o português. Contava 23 anos quando desembarcou no Rio, já como “Luiz
Henriquez”, a fachada montada na Argentina.
Passou dois anos somente conhecendo o país. Estava
pessoalmente orientado por Carlos Castebar para contatar com todos os seus
agentes no Brasil. Suas referências eram respeitáveis: vinham do próprio chefão
internacional. Depois, radicou-se no Rio de Janeiro. Instalou-se num
apartamento previamente montado pelos antigos contatos do cartel na cidade. Não
teve trabalho algum. Recebeu tudo pronto, além de uma milionária conta
bancária. Comprou carros novos e começou a circular em ambientes elegantes,
buscando assim estreitar contatos importantes. Conversava muito, freqüentava a
noite e fazia amigos. E escolheu o melhor lugar para isso: as termas Orly.
Não havia pressa em suas ações. Não dava um passo sem
consultar Medellin, o que geralmente fazia através de telefones públicos.
Recebia os pagamentos efetuados pelos traficantes atacadistas locais,
comunicando-lhes quando e onde a droga comprada chegaria. Somente relações de
alto nível, em restaurantes de luxo e outros pontos tão chiques que nem a
polícia ousava se aproximar. Ou nas termas Orly, uma de suas bases prediletas.
Já próximo dos 32 anos, – e acumulada experiência, – Perez
percebeu em Carlos um excelente investimento. Depois de consultar Medellin,
passou a travar relações mais freqüentes com o especialista em câmbio.
Parecia-lhe a pessoa ideal, um importante elo de ligação entre as suas
criminosas atividades e o mundo oficial. Não lhe fora difícil perceber a
ambição no sentimento do cambista, que contava uma idade aproximada da sua, o
que ele considerava bom. Competência, ele já a reconhecera no futuro parceiro.
Faltava-lhe somente saber se ele morderia a isca. Foi mais fácil do que
imaginara...”
S
Tempo e fortuna correram velozes. Em meados de 1999, Carlos
mantinha-se na rotina da casa de câmbio, porém agora com uma grande diferença:
fora promovido a gerente por João Sharif, que certamente recebera em troca, do
cartel de Medellin, um alto prêmio.
Assim, o dinheiro passou a entrar a rodo no bolso de Carlos,
que até já comprara um apartamento em Ipanema, num local que lhe fora
determinado por Luiz Henriquez. Também trocara o seu carro nacional por um
Mercedes-Benz C-280, o modelo que mais apreciava. Aprendeu a elegância dos
ricos, freqüentando regularmente suas festas. Por sinal, não festejavam
particularmente nada. Qualquer motivo era bom: subiu o dólar, caiu o dólar, a
seleção vai jogar, ou outra razão não menos fútil. Carlos não queria saber; convidou,
estava lá. E foi numa dessas festas que reencontrou Hortênsia, a embaixatriz
argentina. De olho em suas roupas de griffe, a esperta portenha aproximou-se
dele com uma calculada intimidade:
– Olá!
Como vai? Vi você chegando. Aí, hein!... de carro novo!...
– É...
os negócios melhoraram.
– Estou
vendo, estou vendo... Você está um pão! – insinuou-se a portenha, jogando todo
o seu charme em cima de Carlos.
– E
você, o que tem feito? – provocou Carlos.
– Tenho
viajado bastante pelo mundo. Você sabe, sou uma pobre divorciada, e tenho de
preencher o meu tempo, ver as modas mundo afora... sabe como é, não sabe?...
– Isto
é bom. Infelizmente, não posso fazer o mesmo. Os negócios me absorvem muito.
– É
assim mesmo, queridinho! Quando tiver um tempo, liga pra mim. Que tal nós
sairmos para almoçar um dia desses?
– Hum!...
é uma idéia... Depois você me passa o telefone – respondeu Carlos, até gostando
do convite, quando viu Sílvia se aproximar.
– Como
vai, meu amigo? – cumprimentou-o Sílvia, sempre uma simpatia.
– Estou
muito bem. Você não tem aparecido lá na casa de câmbio... O que houve?... Está
aborrecida?
– Que
nada, bobinho! Você sabe que só me contento quando atendida por você –
respondeu Sílvia, com Hortênsia saindo de fininho, já se sentindo um estorvo na
conversa.
– Muito
bonita a embaixatriz, não acha? – elogiou Carlos a portenha, que se retirava.
– Quê?!...
embaixatriz de quê?! – assustou-se Sílvia com a afirmação de Carlos.
– Ué,
Sílvia!? Desde aquela festa baiana, aqui em sua casa, que ela assim se
apresentou a mim. Estava inclusive com uma bela roupa de couro, você e ela,
ambas com modelos muito lindos.
– Ora,
Carlos! Essa Hortênsia não tem jeito mesmo! Ela é minha costureira! É ela quem
faz essas roupas de couro...
– Quê?! – espantou-se Carlos, fitando o semblante
igualmente espantado de Sílvia. – E caíram ambos na gargalhada...
CAPÍTULO IV - NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE...
Os dias transcorriam serenos, com os ventos soprando
favoráveis aos parceiros criminosos, Carlos e Perez, que continuavam firmes nos
negócios; contudo, mantinham entre si uma certa dose de desconfiança. Carlos
era o mais cabreiro, porque desconhecia quase tudo a respeito de Perez: nunca o
achava, nunca sabia onde ele estava. Mas, ao contrário, era facilmente
localizado pelo outro, a qualquer hora do dia ou da noite.
Na verdade, havia ainda um inextricável mistério bailando na
mente preocupada de Carlos, que já concluíra não passar de mero instrumento nas
mãos do colombiano, que ele continuava pensando ser o argentino Luiz Henriquez.
Sim, não passava de um inexpressivo intermediário, apesar de se saber
importante dentro daquele contexto em que atuava. O cambista sentia-se
incomodado com o desprestígio, e, de certa maneira, temeroso, porém não o
demonstrava. Aprendera também a ser frio e calculista, e muito antes de conhecer
o narcotraficante.
Mas, ainda insatisfeito, Carlos cumpria a sua parte com
presteza. Já havia apresentado muitas pessoas importantes a Perez. Somente
isto, pois da boca do colombiano ele nunca conseguira saber nada sobre os
desdobramentos dos contatos que providenciava. Funcionava sempre a máxima do
narcotraficante, dita na primeira hora do relacionamento entre ambos: “O
segredo é a alma do negócio!” Contudo, o colombiano não podia evitar que Carlos
controlasse os clientes da casa de câmbio e miudamente conhecesse todas as
operações financeiras por eles encetadas. Por isso era fácil ao arguto cambista
deduzir quais os contatos que se firmavam positivamente entre Perez e aquelas
pessoas que lhe eram por si apresentadas: bastava acompanhar os sugestivos aumentos
das transações dessas pessoas no dia-a-dia da casa de câmbio. O dinheiro
aumentado logo denunciava os acertos entre Perez e alguns dos apresentados...
Com o passar do tempo, pouco tempo, aliás, Carlos já se
transformara num homem rico. Com a sua experiência em lavar dinheiro sujo, não
lhe foi difícil legalizar seu próprio patrimônio. E indo em ritmo acelerado no
acúmulo de sua fortuna, em meados de 1999 o cambista deu um outro grande e
inesperado passo: tornou-se o proprietário da casa de câmbio, comprando-a de
João Sharif, que tomara a iniciativa de lhe oferecer o negócio. Teve, porém, a
cautela de ouvir primeiro a opinião de Perez, que lhe esclareceu ter sido o
mentor da idéia, ainda garantindo-lhe o dinheiro necessário à transação.
Somente então Carlos aceitou a proposta, cujo preço oficial foi situado em
termos compatíveis com a sua renda legalmente acumulada. Mas, no “caixa dois”,
foram pagos mais cinco milhões de dólares a Sharif, quantia exorbitante, porém
razoável em termos de custo/benefício, como dizem os economistas. Afinal, os
mais volumosos negócios corriam sempre à revelia do fisco e das autoridades em
geral. E o cambista nem precisara desembolsar nada: já estava tudo ajustado por
Perez; ou melhor, pelo cartel colombiano.
Nessa nova condição de titular da casa de câmbio, Carlos
passou a lidar com todos os clientes e a controlar todas as suas manobras
financeiras. Também se obrigou, por isso, a distribuir propinas a muitos deles.
Recebera do antigo proprietário a lista atualizada, e ainda ampliara-a
sobremaneira. Muitas das propinas eram-lhe repassadas por Perez para entrega
aos contatos. Foi assim que o cambista passou a ingressar em searas que lhe
eram até então desconhecidas, ao lidar agora com um surpreendente número de
pessoas importantes e poderosas. E, naturalmente, passou a saber demais...
Desde há muito Carlos não precisava mais de Luiz Henriquez
como companhia nas termas Orly. E continuava fiel à sua “pirulove”, a linda
Vivian Melbo. Ele também já abdicara das festas socialites, mantendo-se mais
reservado. Sua empolgação, fazia tempo, dera lugar ao comportamento isolado,
não só por questão de segurança, mas também para não se ficar desgastando com
explicações sobre a velocíssima fortuna que acumulara. E igualmente já se havia
dado o prazer de adquirir uma bela mansão em Angra dos Reis, com cais
particular e um belo saveiro. Nos fins de semana, mesmo com o clima já
esfriando, deliciavase com todo aquele conforto oriundo do crime.
Desde adolescente, ainda lá em Minas Gerais, o cambista
acalentava o sonho de um dia conquistar a riqueza material. Conseguira, e não
se arrependia de ter trocado a relativa honestidade pela vida criminosa, mas
nunca permitira à família conhecer o anverso de sua moeda. Para os familiares,
ele apenas se tornara um hábil ganhador na Bolsa de Valores.Todos o imaginavam
um especialista em compra e venda de ações...
Pelo menos uma vez, de dois em dois meses, Carlos
deslocava-se até sua terra natal para visitar os parentes. Com tanto dinheiro
acumulado, ele já garantira um alto padrão de vida à mãe e aos dois irmãos,
ambos mais novos que ele. O pai havia morrido quando ele completara 30 anos.
Não se preocupou muito, eis que mantinha com o pai um relacionamento esfriado
pela distância e vencido pelo tempo, o mesmo tempo que o envelhecera e levara-o
à demência, aos quase oitenta anos. Com os demais parentes, ao contrário,
preservara a típica união familiar. E, com argúcia, propiciara-lhes as melhores
condições de permanência no torrão original. Não desejava parente por perto.
Por isso comprara casas, lojas comerciais e uma bela fazenda na região,
registrando tudo em nome dos irmãos. Também por precaução, nunca comentara com
ninguém no Rio de Janeiro sobre sua família, nem mesmo com Perez. Quando
indagado, ou desconversava ou simplesmente mentia.
A vida continuava boa e descontraída, e Carlos mantinha-se
fiel à rotina das termas Orly, sempre agarrado com a sua predileta Vivian
Melbo. E ela sentia-se otimamente bem com ele, a única pessoa com quem
conversava mais intimamente, além de transar, é claro. No fim de contas, fora
com Carlos a sua primeira “massagem”, encantando-se ela com a delicadeza dele.
Desde os seus tempos como garota de programa, Vivian Melbo estava acostumada a
acoitar em sua alcova homens de todos os naipes; alguns bons, outros péssimos.
Ali nas termas, porém, as prostitutas não se obrigavam a aceitar qualquer um.
Os abusados podiam ser dispensados. Era a regra do lugar; as biscas faturavam
menos, mas não se submetiam a maustratos. E Vivian Melbo evitava outros
atendimentos. Não precisava de dinheiro. Além disso, estava igualmente
afeiçoada a Carlos, agora o seu parceiro constante.
A intimidade de Carlos com Vivian Melbo aumentava com o
passar do tempo, a tal ponto que ele começou a encontrá-la aos domingos, em sua
folga. Saíam para almoçar e passeavam como verdadeiros namorados. No fundo, já
estavam apaixonados, porém não assumiam a realidade. Cada um vivia suas
estranhas vidas, e, nelas, não cabiam companhias permanentes. Contudo, não
puderam estancar o ímpeto de seus corações. O cupido vencera mais uma vez. E a
relação de ambos se fortaleceu em mútua confiança.
Carlos pensava conhecer quase todo o drama de Vivian Melbo.
E, aos poucos, ela também ia extraindo praticamente tudo da vida de crimes do amante,
e até de suas preocupações em se sentir isolado naquele mundo cruel e
realizando tarefas complicadas, porém sempre mantido a conveniente distância
por Luiz Henriquez. O cambista não reclamava do tratamento que recebia, apenas
estranhava-o. Tudo era-lhe ótimo, exceto o fato de não conhecer nada além do
seu mister de apoio aos interesses de Luiz Henriquez, aqueles de sempre: ora
lavando dinheiro, que enviava para contas no exterior, ora apresentando ao
falso portenho as pessoas que o procuravam com os mesmos objetivos escusos, ora
distribuindo propinas. O resto, Carlos ignorava, não sabia nada mesmo, e muito
menos o que Vivian Melbo extraordinariamente fazia nas suas manhãs de folga,
durante a semana...
Como Vivian Melbo possuía dupla nacionalidade e falava
fluentemente o inglês, reforçava-se ainda mais sua relação com Carlos, que, por
sua vez, dominava relativamente bem aquele idioma. Os negócios exigiamlhe
contatos internacionais, o que realizava com desenvoltura. Nas termas, ambos se
distraíam praticando demoradas conversações, algo sempre muito agradável.
Durante todo aquele tempo de contato de Carlos com Luiz
Henriquez, a bela loura fazia-lhes companhia. Ela se dava bem com o traficante,
que a tratava com distinção, decerto por causa de Carlos. Mas a prostituta não
conseguia extrair nada da vida daquele que se fingia argentino, a não ser a
história de sempre: “Os negócios do Mercosul.” Vivian Melbo, porém, cansava-se
de saber que Luiz Henriquez não tinha nada de portenho. Já chegara ali, desde o
primeiro dia, com a missão de observar Alonso Perez: ela era agente secreta,
classe “C”, do mais poderoso
serviço de inteligência do mundo: a Central Intelligence Agency, conhecida por
sua temida sigla: CIA.
“Tudo
teve início quando Vivian Melbo colocou o anúncio de prostituição nos
classificados, ainda muito nova, aos 23 anos. No consulado americano, um
assessor especial do cônsul, Geoffrey Foster, lia detalhadamente a resenha dos
jornais brasileiros. Era, na verdade, um agente de primeira categoria da poderosa
CIA. Ele notou o anúncio
e foi o primeiro a ligar. Vivian Melbo, ainda inexperiente, contou-lhe sobre
sua dupla nacionalidade. O encontro foi marcado naquele mesmo dia.
Foster contava 30 anos. Sua trajetória na inteligência
norte-americana iniciara-se ao final de seu serviço no Corpo de Fuzileiros
Navais. Era um boina-verde, com experiência em ações de combate, além de
razoável cultura. Já naquela época, interessava-se por assuntos brasileiros.
Ele servira na guarda especial do consulado, sediado na cidade do Rio de
Janeiro, quando ainda era fuzileiro naval, durante um ano. Depois retornara ao
seu país; mas, por diversas vezes visitara o Brasil, em férias. Encantara-se
com o Rio.
Quando foi sondado para ser um espião, Foster aceitou de
imediato. Gostava de aventuras e confirmara falar e escrever razoavelmente bem
o português. Fora aprovado nos árduos treinamentos em Langley (centro de
treinamento de agentes da CIA,
situado na Virgínia) e convidado a retornar ao Brasil, agora com outra
finalidade: a observação permanente da evolução do narcotráfico no país. Vivian
Melbo caíra-lhe do céu...
Os contatos de Foster estendiam-se aos demais agentes
estrangeiros espalhados pelo Brasil, alguns até de países pouco amigáveis nas
relações com os EUA. Mas os serviços
de inteligência têm seu próprio mundo e sua impenetrável cultura. Quando o
assunto interessa, todos se tornam “amigos”. Era o caso do narcotráfico, pois o
Brasil vinha há muito tempo servindo de rota para a distribuição de drogas, em
larga escala, tanto para os Estados Unidos como para a Europa. E também se
inserira nas preocupações da CIA o forte indício de que já se produzia
no Brasil a matéria prima da cocaína e do ópio – a coca e a papoula,
respectivamente.
Também os serviços de inteligência e de combate às drogas
brasileiros mantinham-se estreitados com Foster: a Abin; a Senad; o
poderoso Serviço de Inteligência do Exército, dissimulado em suas siglas
simples (E-2), comuns a inúmeras
estruturas menores e inseridas nos estados-maiores de suas organizações
militares espalhadas por todo o Brasil; o SIM e
o SECINT, respectivamente
poderosos serviços de inteligência da Marinha e da Aeronáutica. E,
complementando, os serviços de inteligência das Polícias Militares brasileiras,
todas integradas ao que eles designavam por “comunidade de informações”, além
da Polícia Federal e de outros organismos estatais. E, além de todos esses
tentáculos tupiniquins, é claro que Foster também se mantinha estreitado com
outros organismos governamentais americanos oficialmente instalados em
território brasileiro.
A estrutura de espionagem brasileira gozava da particular
preferência de Foster. Em tempos anteriores, os seus sistemas de observação e
de coleta de informações foram organizados com orientação dos EUA, um dado que Foster já trouxera na
algibeira quando chegou ao Brasil como agente da CIA. E ele já estava bem recomendado, através dos canais
abertos entre as cúpulas da inteligência brasileira e norte-americana. A CIA, todavia, tinha vida própria no seu
campo de ação. Com recursos à vontade, não abdicava de também conferir tudo por
seus próprios meios. Daí a importância de Vivian Melbo, entre muitas outras
pessoas com as quais Foster trocava, naquela época, contatos estreitos, e com
informações sempre bem remuneradas pelo ricaço país capitalista.
A conversa de Foster com Vivian Melbo soara como um milagre.
Ele não fora até ela para transar. Ou melhor, fora sim, mas para transar outros
assuntos mais importantes. O trabalho dela seria simples: como garota de
programa, deveria freqüentar determinados ambientes e estreitar relacionamento
com algumas pessoas, que lhe eram previamente indicadas, e delas tentar extrair
informações preciosas. A lista era grande. Vivian Melbo não teria descanso. Em
compensação, sua fome foi saciada logo naquele primeiro encontro: dez mil
dólares, a quantia deixada por Foster, como garantia do pagamento mensal de
igual valor.
Durante todo o tempo em que atuou como garota de programa, a
bela loura deu mostras de sua competência. Muitas informações preciosas ela
conseguira com a sua habilidade na cama e no diálogo. Ninguém desconfiava de
nada, e ela seguiu em frente, até se decidir ingressar numa casa de massagem.
Isso decorreu de vontade própria, porém antes autorizada por Foster, com uma
condição: ela teria de optar pelas termas Orly. O seu alvo: Alonso Perez, o
colombiano que ali se apresentava como o argentino Luiz Henriquez. A CIA já sabia de tudo... e Vivian Melbo
também...”
S
Numa de suas idas às termas Orly, Carlos sugerira a Vivian
Melbo a idéia de viajarem juntos. Era maio de 1999, um pouco antes de ele se
tornar o titular da casa de câmbio. Ele reservara o mês de julho para gozar
merecidas férias. Ela gostou da idéia, mas se preocupou em pedir uns dias de
folga ao seu patrão... Completamente alheio às circunstâncias que a deixavam
ficar ali nas termas, Carlos tranqüilizou-a, afirmando já ter resolvido tudo
com o proprietário, ao qual assegurou uma boa soma em dinheiro. Não disse
quanto, mas ela gostou daquele interesse pessoal manifestado por seu
“pirulove”. Também apreciava a companhia dele. E de receber todas as
informações que ele inadvertidamente lhe repassava. Afinal, era Carlos o par
constante de Perez nas termas... E, na verdade, não era bem ali que ela
precisava de pedir dispensa, mas lá no consulado norte-americano...
Vivian Melbo sentia-se uma traidora em relação a Carlos. Mas
não podia interromper sua tarefa de espionagem. No fim de contas, seu alvo
preferencial era o colombiano Perez. Carlos era apenas a linha de mira a lhe
apontar o traficante. Por isso, mesmo constrangida, ela seguia em frente em sua
missão secreta. E nunca a CIA
fora tão bem informada sobre as operações do narcotráfico no Brasil. Recebia o
principal: os nomes das pessoas assediadas por Perez, além de outras
informações complementares. Sim, nunca os serviços de inteligência se
desdobraram e trabalharam tanto em todo o território brasileiro...
No início de julho, o improvisado casal partiu para os
Estados Unidos. O vôo 888, da VASP, aterrou suavemente em Nova
Iorque. Eles não enfrentaram maiores problemas na liberação da entrada em
território norte-americano. Aliás, até parecia que eram esperados, pois os
funcionários aduaneiros desmancharam-se em gentilezas, algo incomum com
estrangeiros, em especial com os povos latinos, usualmente recebidos com muita
desconfiança. Mas Vivian Melbo não era uma estranha no ninho. O seu nome e o de
Carlos já constavam na discreta lista consultada pelos geralmente duros
controladores da chegada de estrangeiros...
Liberados sem atropelos pela aduana, foram então para o
Saint Moritz on the Park Hotel, em frente do aprazível Central Park. Naquela
noite, deleitaram-se freneticamente com os prazeres do sexo, como perfeitos
amantes em lua-de-mel. Estavam ambos efetivamente enamorados. No dia seguinte
de manhã visitaram os Museus Whitney, Metropolitan Museum of Art, Guggenheim
Museum e Cooper Hewitt. Passearam de carruagem e fizeram compras. Depois se
deixaram ficar num restaurante com serviços tipicamente brasileiros, na rua 46.
Em seguida ao almoço, tornaram ao hotel, onde se recolheram em descanso.
À noite, em limusine colocada à disposição pelo hoteleiro,
dirigiram-se ao Village, o bairro mais badalado de Nova Iorque. E, por sorte,
numa das casas de diversão se apresentava o cantor Gilberto Gil. Não perderam o
show, espetacular, do famoso cancioneiro e compositor brasileiro. De caminho,
foram jantar num chique restaurante, o Little Italy, retornando para mais uma
noite de amor, que se aprofundava, irreversível e sem se conter, nos corações
de ambos.
Vivian Melbo, apesar de tudo, não perdia a chance de
repassar para Foster as novas informações que escapuliam de Carlos em suas
inconfidências sobre o narcotráfico. Ela arranjava um pretexto qualquer, –
típico da inteligência feminina, – e corria ao telefone. Sentia-se mal fazendo
aquilo, é bem verdade. O que antes soava-lhe como simples conduta profissional,
agora começava a ter contornos de traição, de deslealdade para com Carlos.
Comentava isso com Foster, usando de toda a sua sinceridade. O amigo,
entretanto, tranqüilizava-a e motivava-a a seguir em frente. E garantia que ela
não se arrependeria do que estava fazendo, no fim de tudo. E ela aprendera a
confiar em Foster, e era o que a mantinha firme no mister da espionagem; por
isso, não abria o seu jogo nem mesmo para Carlos. Ao inverso dele, cuidava
sempre para que não lhe escapasse da boca nenhuma inconfidência.
–
Oh, amor! Como estou feliz! Há muito tempo não
desfruto de momentos tão maravilhosos como agora! – declarou-se Vivian Melbo,
demonstrando-se sinceramente extasiada com o passeio e com a companhia de
Carlos.
–
Eu também, querida! Sair para outro ambiente,
como fizemos, foi a melhor coisa do mundo. E lhe confesso: se não fosse a sua
companhia, tanto cá quanto lá, não sei como eu sobreviveria. Sou um ente
isolado, não converso com ninguém além de você. Só você conhece a minha vida.
Você e Luiz Henriquez...
–
Eu sei, querido, eu sei. É uma vida perigosa,
sem dúvida. Mas você um dia poderá sair dela, mudar de vida.
–
Não sei como, Vivian. Como me livrarei do
assédio do Luiz Henriquez? Já fui longe demais. Não dá mais pra recuar. Hoje
sei de todos os contatos que ele mantém no Rio e em muitos outros pontos do
Brasil. Às vezes não consigo identificar quem é quem, o que fazem, mas sei que
estão com ele em algum esquema. Só os identifico facilmente quando é alguma
autoridade, alguma pessoa conhecida, e de cujas atividades eu também tenha
conhecimento. Afora isso, nada sei.
–
Olha, querido. Eu acho que você tem de procurar
saber sempre mais. Pode ser o seu grande trunfo no futuro...
–
Ou o meu fim, amor! Nunca soube de nenhuma
violência, mas sei que é impossível não existir.
–
Decerto, querido! É tudo muito profissional. Há
o crime, porém não há o vínculo com nada palpável. Fica tudo parecendo
fortuito. Os criminosos desse meio são exímios profissionais, agem como
verdadeiros espiões. Mas, não vamos falar mais nisso. Vem cá... me dá um abraço
gostoso, me dá um beijo. Como é bom estar com você aqui! – melou-se, toda, a
apaixonada amante.
–
Oh, querida! Você me faz um homem muito feliz.
Amanhã, vamos zarpar para Las Vegas. Estou ansioso para ver as luzes daquela
cidade. E vamos visitar os cassinos. Você sempre me deu sorte no amor. E quero
ter com você muita sorte no jogo – brincou Carlos, abraçando-se a sua amada.
–
Oh, amor! Eu sei que lhe darei sorte, no amor e
na vida. E você foi a minha melhor sorte até hoje. Amo você!...
Cada vez mais enlevados por aquele sentimento que neles se
fortalecia, Carlos e Vivian Melbo partiram de Nova Iorque para Las Vegas.
Luzes, eventos artísticos maravilhosos, jogos nos cassinos, lá iam eles,
curtindo uma felicidade até então para ambos desconhecida. Hospedaram-se no
Hotel-Cassino Bellagio, na zona do agrião, a Strip, toda tomada de hotéis e
lojas deslumbrantes. Fizeram compras no Caesars Forum Shops. À noite se
deleitaram com o espetáculo do Mystere do Cirque du Soleil, e depois foram às
máquinas da sorte, que efetivamente os estava acompanhando: ganharam duzentos
mil dólares.
A viagem estava paga... E quinze dias se passaram com eles
vibrando em alegria e muita troca de carinhos. E muito sexo, pois o clima em
Las Vegas, mítico em todos os sentidos, animava-os deveras a sair da realidade
e a ingressar inteiros na fantasia.
Resolveram, então, partir para a Europa. Num Concorde, é
lógico. Desceram em Londres, às sete da noite, no aeroporto de Heathrow.
Novamente não tiveram qualquer problema com a aduana. Parecia até que eram
esperados, tamanha a cortesia com que foram recepcionados. Dali, hospedaram-se
no RitzCarlton. Descansaram e fizeram amor até o auge do frenesi. Estavam
realmente enfeitiçados. Só não tinham assumido, definitivamente, o amor que já
sentiam um pelo outro.
No dia seguinte, de mãos dadas, passearam na West End,
fazendo compras na Oxford Street. E gastaram à vontade. Contavam com um bom
lucro para usar e abusar. Aliás, nem precisavam de tanta sorte. Talvez o ganho
no jogo tenha sido o dinheiro mais honesto até então conquistado pelo casal...
À noite, curtiram o ritmo louco do Piccadilly, como dois alegres adolescentes.
Retornaram ao hotel, e, pela primeira vez, muito cansados, dormiram a sono
solto.
Logo cedo deslocaram-se com destino a Paris. Dispensaram o
Eurotunel, preferindo atravessar de Ferry apreciando as belezas do Canal da
Mancha. E, finalmente, puseram os pés na cidade mais apreciada da Europa:
Paris. Hospedaram-se no George V, um lindo cartão de visitas da capital francesa.
Como um casal em turismo, tomaram café num dos inúmeros
bares típicos, dispensando o restaurante do hotel. Estavam ansiosos por
conhecer as ruas e o cotidiano dos franceses. E passearam por toda a
Cidade-Luz: Torre Eifeel, Champs-Élysées, etc., rompendo abraçados o Arco do
Triunfo. Selaram, naquele histórico local, juras e juras e mais juras de amor
eterno.
–
Querida, acho que é hora de eu lhe dizer, de
todo o coração, que não posso mais viver longe de você. Como você sabe, sou uma
pessoa rica. Nada mais me falta para ser completamente feliz, exceto você.
–
Oh, amor! Eu também não sei mais ficar sem você.
E não quero mais saber de voltar à vida antiga. Buscarei outra coisa para
fazer. Quando voltar, tentarei me desvencilhar do passado, só para curtir o
nosso amor. Não sei ainda como farei isso, mas farei.
–
Daremos um jeito, amor. Nada neste mundo é
impossível. E temos tempo de imaginar meios e modos de mudar nossas vidas. Mas
agora não quero pensar nisso! Quero amar você ainda mais, muito mais...
–
Oh, querido! Você me pegou pelo pé, pelo
coração, por tudo quanto é lugar. Não irá mais livrar-se de mim! – animou-se a
apaixonada Vivian Melbo.
Por vontade de Vivian Melbo, viajaram de trem até Rouen,
hospedando-se no Hôtel de la Marine, na Place des Carmes, onde almoçaram um
delicioso prato típico. Retornaram a Paris, circulando em museus, restaurantes
e cafés, deliciando-se com o romantismo parisiense. Três dias de total
felicidade, e partiram de trem, num inesquecível passeio, por diversos países,
– Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda, Suécia, Finlândia, Bélgica e
Portugal, – dispensando os demais.
Retornaram à Itália, onde decidiram passar mais tempo. Foi
um mês inteiro de felicidade esfuziante, inesquecível. Não tinham mais dúvidas.
Estavam perdidamente apaixonados. Casaram-se em Veneza, contagiados por todo
aquele delicioso romantismo. Retornaram a Roma e embarcaram de volta ao Brasil,
com uma certeza: Vivian Melbo não mais pisaria nas termas Orly. Tudo faria
parte de um passado, do qual, entretanto, não se envergonhariam, porque ali se
despertaram para o amor. Para ambos, porém, havia uma séria dificuldade: romper
as barreiras que eles voluntariamente impuseram às suas vidas.
–
Minha querida, quero-a vivendo comigo, quando
chegarmos. Não pretendo ver você mais nas termas, nem mesmo a passeio, está
bem?
–
Tudo bem, amor! Mas você irá até lá conversar?
Depois de tantos anos, não posso sair deixando má impressão.
–
Isto é comigo! Eu resolvo tudo. Tem alguma coisa
sua lá?
–
Quase nada. Mas você peça para olhar dentro do
meu armário. Tome a chave e devolva-a ao patrão, está bem?
–
Lógico que está! Estou muito feliz, casado com
você. Na verdade, nunca tive uma namorada depois que a conheci.
–
Olha, amor, você pode não acreditar, mas há
muito tempo que meu único homem é você. Nos dias em que você não ia às termas,
eu ficava distante, não encostava em ninguém. Você sabe como é aquilo lá. Se se
atrasar um pouquinho, a colega segura o cliente. A maioria delas só pensa em
dinheiro. Nunca foi o meu caso. Um dia você saberá.
–
Então, eu não sei disso?
–
Imagino!... Mas tenho ainda muito o que lhe
contar...
–
É, mas você lá chegou também no meu primeiro
dia. E eu fui o mais fiel “pirulove” daquela casa – comentou Carlos, gracejando e abraçando-se
à amada.
–
Oh, Carlos! Nunca pensei que me fosse apaixonar.
Tornei-me uma pessoa gelada, por causa da difícil vida que venho levando. Mas
você me trouxe de volta a felicidade. E pode ter certeza de uma coisa: por mais
que você se assuste, um dia, com alguns segredos meus, quero que saiba que eu o
amo verdadeiramente.
–
Ah, Vivian, deixa de bobagem! Eu também amo
você!
–
Não, Carlos, não é bobagem! Quando chegarmos,
terei de arrumar algumas coisas em minha vida. Quero sepultar definitivamente o
meu complicado passado, para viver uma nova vida com você. Eu amo você! Não
posso mais existir sem o seu amor.
–
Eu também, amor. Nada irá atrapalhar a nossa
felicidade, pode também acreditar!
Carlos relembrava daquelas festas socialites que
freqüentara, ambientes bem menos confiáveis que as termas. Ali, nas termas,
pelo menos as pessoas agiam com sinceridade: os homens compareciam com
finalidades claras, assumindo seus gostos; as prostitutas os fingiam amar, com
eles igualmente fingindo crer nas mentiras delas, porém deliciando-se com as
transas. Tudo realmente muito claro. Ali, as mulheres trocavam de homens por
puro “desejo financeiro”. Lá fora, as mulheres se vangloriavam de plantar belos
pares de chifres nos maridos, enquanto eles escapuliam atrás de outras,
formando-se uma verdadeira algaravia conjugal...
S
A aterragem no Galeão deu-se tranqüila e ainda pela manhã.
De lá, o casal se dirigiu, em táxi, para os seus respectivos endereços.
Combinaram o reencontro no apartamento de Carlos na tarde do dia seguinte,
quando Vivian Melbo já traria alguns de seus pertences para ali permanecer
definitivamente. Depois providenciariam o restante da mudança, ajustando ambos
os seus gostos, ou mudando-se para outro apartamento. Nem precisavam, posto o
apartamento de Carlos ser bastante amplo e bem localizado. Mas a bela loura,
antes mesmo de desarrumar suas malas, partiu para o consulado norte-americano.
Por telefone, já havia marcado com Foster um encontro em caráter de emergência,
para com ele poder conversar miudamente. Foster tornara-se um grande amigo, mas
ela não conseguia afastar da mente suas preocupações. Como ele reagiria à
notícia do casamento? E logo com quem...
Não obstante, no seu íntimo ela alimentava a esperança de
salvar o amado. Afinal, sempre deixara claro para Foster o seu sentimento por
Carlos, não de amor, no início, mas de sincera amizade. Agora, Carlos
significava muito mais para ela. Na verdade, tudo.
–
Olá, Vivian! Muito bem, menina, sempre
pontual...
–
Ah, meu amigo! Desta vez o assunto é mais sério
do que você possa imaginar...
–
Será? Vamos ver o que você tem a dizer. Pelo
visto, vem notícia boa por aí...
–
Não, meu amigo! Desta vez, o assunto é pessoal.
–
Carlos?...
–
Puxa! A sua bola de cristal não falha mesmo.
–
Decerto, Vivian. Mas, deixe-me ver se adivinho o
que você me irá contar. Depois você começa, está bem? – gracejou Foster,
olhando com carinho para aquela bela mulher, de quem aprendera a gostar como se
fosse uma irmã mais nova.
–
Duvido que você adivinhe – descontraiu-se Vivian
Melbo.
–
Vamos lá, então. Eu acho que você vai me dizer
que se apaixonou por Carlos. Isto não me é novo há muito tempo.
–
Não é só isso – retorquiu Vivian Melbo, já
encabulada.
–
Eu sei, eu sei. Então, você me dirá que curtiu
com ele uma feliz lua-de-mel, antes mesmo de se casarem em Veneza. É isto? –
acrescentou o experimentado e bem informado agente da CIA, sem perder o tom carinhoso com a sua espantada
interlocutora.
–
Ai, meu Deus! Como pude ser tão tola! Como pude
imaginar ser possível fazer algo sem a CIA saber?
–
É verdade, amiga. Mas agora lhe darei uma boa
notícia. Primeiro, quero que você saiba que não há um só minuto de sua viagem
de que eu não tenha conhecimento. Vocês ficaram protegidos pela CIA durante todo o tempo. Sei
até qual foi a igreja escolhida por vocês.
–
Não tenho mais dúvidas! Aliás, não deveria ter
nenhuma mesmo! – exclamou Vivian Melbo, um pouco atordoada.
–
Bem, vamos à boa notícia. Desde o início, eu
protegi o Carlos. Percebi a sinceridade dele para com você. Percebi, também,
que você por ele se afeiçoara. Na realidade, você se fascinou por ele desde o
primeiro dia. Para mim, sem que vocês notassem, foi amor à primeira vista. Você
acha que a CIA deixaria
de lado tão importante fator? E se você estivesse apaixonada por Perez? Como
seria? Para nós, o amor é uma fraqueza profissional, um tendão de Aquiles...
–
Deus me livre! Puxa, Foster! Não lhe posso negar
que estou surpresa! Acho que a CIA descobriu
antes de mim a minha paixão! – exclamou, atônita, a bela loura.
–
E Carlos? Você sabia que ele nunca traiu você?
Que nunca teve qualquer namorada depois que conheceu você?
–
Não imaginava... e não lhe posso dizer o mesmo!
– gracejou Vivian Melbo, apertando as sobrancelhas e deixando um certo ar de
travessura em seu belo semblante.
–
Olha só, cara amiga; há muito tempo que nós
trabalhamos juntos. A CIA
está muito grata por seu trabalho. Você nem pode imaginar a importância dele. E
Carlos, se não lhe confidenciasse o que confidenciou a respeito de Perez e de
outros, nós estaríamos talvez engatinhando, sem nada de importante evoluindo.
Por isso, tive a cautela de preservar o Carlos. Para nós não importa se ele
praticou algum crime, isto é problema policial, e não de espionagem, que é
sempre muito prática. Para a CIA,
e para os serviços de inteligência brasileiros, ele também é “nosso agente”. O
que você acha da notícia?
–
Oh, Foster! Não sei o que lhe dizer! – respondeu
Vivian Melbo, desmanchando-se em lágrimas, como uma criança, e emocionada
diante da excelente notícia.
–
Tudo bem, minha amiga, não precisa chorar. Mas
eu terei de orientar você muito bem, para que tudo dê certo. Ouça-me, com
atenção...
S
E ficaram horas e horas conversando; ou melhor, com Vivian
Melbo recebendo meticulosas orientações do agente da CIA, até que ela se retirou. Decidiu-se, porém, almoçar
sozinha num restaurante tranqüilo, para poder raciocinar um meio de abordar o
assunto com Carlos. Estava otimista, – e também preocupada, – quando adentrou o
restaurante Porcão-Rio’s, no Aterro do Flamengo. Precisava saber como
entabularia a conversa para convencer o seu amado a cumprir uma perigosa
tarefa, sua única salvação...
Não foram poucos os olhares masculinos instintivamente
voltados para aquela bela loura, andar de modelo, pernas torneadas e busto
empinado como o de uma garota de 18 anos. Estava no esplendor de seus quase 29
anos. E não deixou de se envaidecer deveras com os gulosos olhares que a
espetavam em derredor. Sentia-se bonita: “Meu amado Carlos, mesmo com 32 anos,
não perde para esses afoitos. Só preciso usar minha intuição feminina para tudo
dar certo”, imaginava, feliz da vida...
Carlos retornara ao trabalho, logo verificando com o gerente
as operações realizadas em sua ausência. Enquanto isso, após chegar em seu
pequeno apartamento, Vivian Melbo cuidou de arrumar suas coisas para a mudança.
Na casa de câmbio não havia muita novidade. Tudo transcorrera normalmente, com
Carlos orientando, de longe, e por telefone, o seu gerente. Apenas alguns
assuntos ficaram pendentes durante a viagem, porque ele teve o cuidado de
adiantar as propinas antes de partir. Afinal, dinheiro não lhe faltava para
isso. E ele não queria ter problemas durante as férias. Sobraram, então, os
assuntos corriqueiros, tendo o gerente se incumbido de todos com eficiência.
Ninguém na loja conhecia as transações de Carlos. Diferente
de seu antecessor, ele sempre preferira guardar para si os segredos da
profissão. Não se podia esquecer de que João Sharif fora de certa maneira
“aconselhado” a lhe vender a casa de câmbio. E, apesar de ter ganhado muito
dinheiro na saída, não exteriorizara qualquer contentamento. Uma certeza,
porém, havia em Carlos: Sharif nunca abriria a boca, ou por estar comprometido
até o último fio de seus cabelos, ou por medo de represálias. Parecia que ele
estava adivinhando, porque, ao final da tarde, veio-lhe a notícia, dada por um
parente do antigo patrão através do telefone: “João Sharif acaba de ser
assassinado!” Carlos pensou rápido: “Luiz Henriquez!”
O cambista foi para casa preocupado. Não sabia detalhes do
inesperado assassinato. Apenas que Sharif parara o carro num sinal luminoso, no
Leblon, quando dois homens, numa motocicleta, e com as caras cobertas por
capacetes com visores fechados, estacaram ao seu lado e o mataram a tiros de
pistola 45 mm; um crime rápido e preciso. Buscaria clarificar as notícias
quando chegasse. Tentaria um contato com Luiz Henriquez para saber de alguma
coisa. Mas seguiu com uma certeza: o antigo patrão sabia demais. E ele também...
Logo após ingressar em seu confortável domicílio, chegou
Vivian Melbo, de surpresa, já trazendo sua bagagem; apenas o imprescindível.
Ansiosa, nem mesmo esperara o dia seguinte, como estava combinado entre ambos.
“Depois traria o restante”, assim a bela loura alegou ao chegar. Levara apenas
o necessário ao primeiro momento de se concubinar com o amado. Foi o bastante
para Carlos se descontrair um pouco, ajudando-a nos afazeres de arrumar as
poucas roupas e outros objetos que ela selecionara. Mas logo retomou a
realidade e chamou-a à sala para conversar, relatando-lhe, então, a inesperada
notícia que recebera. Vivian Melbo assustou-se. Não soubera ainda do
assassinato de João Sharif, absorta que estava com seus próprios problemas e
com a mudança.
–
Amor, tenho uma notícia não muito boa para lhe
dar. Acabaram de assassinar o João Sharif. Acho que não foi acaso, não. Estou
preocupado...
–
Nossa, Carlos! Será que foi o Perez?
–
Perez?! Que Perez?! – espantou-se Carlos.
–
Oh, amor! Tenho muito que lhe contar. Você não
tem idéia do quanto é grave o que lhe direi a partir de agora.
–
Que é isso, Vivian?... Não estou entendendo
patavina do que você está falando!
–
Você irá entender, amor! Espero que você se
mantenha calmo, porque a situação é muito grave. Ouça-me, por favor!...
–
Claro! Sou eu mesmo que lhe preciso ouvir,
porque de mim você sabe quase tudo. E eu sei muito pouco de você, a não ser a
sua vida nas termas. Pode falar, amor. Sou todo ouvidos.
A bela loura começou então a relatar toda a sua história, desde
o início, e sem nada ocultar. A cada relato, Carlos aumentava o espanto. Nunca
poderia supor que pudesse escutar o que Vivian Melbo lhe estava a narrar. E ela
foi incisiva, assim como manifestou muita preocupação com o destino de seu
amado. Carlos efetivamente não estava em condições de reclamar. E também sabia
que, diante da realidade com que se iria defrontar, Vivian Melbo representava
sua única esperança, sua tábua de salvação. E chegou a ficar de pé, num rasgo
de espanto, quando ela lhe anunciou ser agente da CIA.
–
Olha, amor, você, para todos os efeitos, é
também um aliado dos órgãos de segurança, um “agente da CIA”. Todos pensam que você é um infiltrado no sistema
organizado do narcotráfico. E Perez é o centro de todo o esquema, o principal
elo de ligação do Brasil com a Colômbia. Há muitos anos que ele está sendo
vigiado pela inteligência brasileira e pela CIA; na verdade, desde que chegou ao Brasil, ainda jovem. Tudo
o que ele diz ser, como argentino, é absolutamente falso, exceto com relação ao
narcotráfico, o que você já sabe. Mas ele não é peixe pequeno. É o maior de
todos, é o tubarão do narcotráfico em águas brasileiras.
–
Puxa, amor! Por isso é que eu nunca consegui
saber onde ele mora. Nem mesmo sei o seu telefone particular. Os contatos comigo
sempre partiram dele, e na hora em que ele determinava. Agora entendo melhor as
coisas. E acho que ele deve ter matado o João Sharif...
–
Ele, diretamente, não. Mas alguém mandado por
ele, com certeza – completou Vivian Melbo.
–
Bem Vivian, e agora? Que devo fazer? Estou
perdido! Totalmente perdido!...
–
Não vai ser fácil, amor. O fato de nos
apaixonarmos também me poderá custar um alto preço. A CIA não costuma
perdoar isso, não. O certo era eu já ter sido até assassinada, como fizeram ao
João Sharif. A regra é a mesma, de ambos os lados. Sou também um arquivo. Só
que tenho um amigo, e as informações que lhe passei, ao longo desses últimos
anos, vêm-nos ajudando muito. Por isso, deram-nos uma chance de ouro. Vamos
executar uma arriscada missão. É tudo ou nada!
E explicou a Carlos, em detalhes, cada passo que ele daria
dali em diante. Primeiro, deveria ir ao velório de João Sharif, para apresentar
suas condolências à família. E ali já começaria a observar as pessoas presentes
e a ouvir os comentários sobre o assassinato. Por outro lado, aguardaria
tranqüilamente o chamado de Perez, não demonstrando nada além de surpresa com a
morte de João Sharif. De preferência, até especulando sobre alguma
possibilidade de ele ter dado algum golpe em cliente da casa de câmbio, em
épocas passadas, mas sem exagerar nas conclusões.
Deveria ouvir muito e falar pouco. Dali em diante pisaria em
ovos... O local de encontro com Perez seria, como de hábito, as termas Orly.
Curioso, o destino: sua mulher tornara-se uma estranha naquele ninho de prazer.
Ele não, pois teria de manter as aparências e atuar como um verdadeiro agente
secreto. Sua vida estava em jogo. Passou de cambista a serviço do narcotráfico,
a espião a serviço da CIA.
E a andar na corda bamba...
S
O enterro de João Sharif não rendeu qualquer novidade que
pesasse no contexto. Havia pouca gente e muitos herdeiros, e todos somente
interessados no dinheiro do defunto. E Carlos, no mesmo pé em que chegou saiu,
retornando ao seu apartamento. E o novo encontro com Perez não tardou. Naquela
mesma noite Carlos recebeu o telefonema dele, marcando ambos um encontro nas
termas. Seria na tarde seguinte. Este compromisso atrapalhou os planos
imediatos do apavorado cambista, que imaginara trazer para sua casa, naquela
mesma tarde, os documentos que mantinha em cofre no local de trabalho. Muitos
ele já os guardara em sua algibeira doméstica, mas boa parte deixara lá mesmo
na casa de câmbio, tanto para consulta como para demonstrar aos clientes as
intrincadas transações das contas “CC5”, uma das artimanhas que Carlos
utilizava para lavar dinheiro sujo, remetendo-o ao exterior. Era um arquivo e
tanto...
Durante o dia, ele recolheu tudo quanto possuía: documentos
altamente comprometedores de incontáveis personalidades e autoridades
espalhadas pelo Brasil afora. Muitos deles se reportavam ainda aos tempos de
João Sharif como titular da casa de câmbio. O cambista também guardara consigo
outras anotações geradas de inconfidências de terceiros, todas certamente de
interesse da CIA. Suas
informações produziriam uma incomparável devassa na vida de muitos figurões. O
que estava em jogo, porém, era a sua pele... E ele já estava cônscio de que não
se iria encontrar com nenhum Luiz Henriquez, mas com o colombiano Alonso Perez,
que, decerto, mandara assassinar João Sharif. Carlos esfriou como o gelo;
começara a pisar em terreno minado, sabia disso; dali em diante, era tudo ou
nada. E pensou em Vivian Melbo...
Ao cabo daquele dia de tensão, o cambista se preparou para
outro momento de muita pressão psicológica. Não poderia de maneira nenhuma
deixar transparecer preocupação em presença de Perez. Chegou antes dele nas
termas Orly, sendo festivamente recepcionado. As meninas fizeram questão de lhe
proporcionar o máximo de carinho e atenção. Perguntavam por Vivian Melbo com
tal naturalidade que ele ficou deveras emocionado. Não imaginava que entre
aquelas biscas houvesse tanta solidariedade e respeito. E não foram poucas as
que disputaram o privilégio de trocar-lhe as roupas pelo roupão tradicional. De
início, estranhou, posto que sua amada deixara-o mal acostumado. Mas ao final
sentiu-se feliz, até se olvidando daquilo que enfrentaria a seguir...
Perez não demorou muito a pôr os pés no lugar. E foi logo
ter com Carlos, que se recolhera à sauna a vapor, para descontrair. Perez
chegou sério, porém amistoso, assim convidando o seu interlocutor a postarse
num local mais discreto. Sentaram-se ambos, em divãs afastados dos demais,
quando então o colombiano tomou a iniciativa do diálogo:
–
E aí, caro amigo, como foi de viagem?
–
Tudo bem, amigo. Aliás... tudo ótimo! – devolveu
Carlos, demonstrando um sorriso de satisfação com a pergunta inicial.
–
É, caro amigo, mas não está tudo bem por aqui,
não. Durante sua ausência, muita coisa estranha ocorreu; e eu estou vendo a
necessidade de lhe orientar em relação a alguns detalhes...
–
Mas, que há de errado? – indagou Carlos, já
imaginando que o assunto iria esquentar.
–
Veja só, Carlos. Têm saído muitas notícias na
imprensa. Você esteve fora, mas precisa se manter informado. Vou até mandar pra
você alguns jornais das últimas semanas, pra você se atualizar. No nosso
negócio interessa-nos saber até a cor da mosca, quanto mais o seu vôo... –
falou sério o colombiano, deixando Carlos intrigado, e ao mesmo tempo animado;
tudo indicava que ele conseguiria arrancar alguma boa informação do preocupado
colombiano.
–
Mas, meu amigo, fale-me um pouco mais claro.
Você está me deixando nervoso; eu acabo de chegar de um passeio maravilhoso,
com a Vivian; estou curtindo um especial momento em minha vida; mas você me
está preocupando – respondeu Carlos, esticando o assunto.
–
Nada disso, caro amigo. Não é para você ficar
nervoso. É que eu estou um pouco tenso. Você sabe que sou muito bem informado,
não sabe?
–
Mas é lógico. Só lamento não poder compartilhar
um pouco mais de sua vida. Você nunca me deu uma verdadeira chance de
aproximação. Só tratamos de negócios e mais nada. Eu gostaria de gozar um pouco
mais da sua confiança; afinal, são quase dois anos de convivência...
–
Sem dúvida, Carlos! Você tem sido perfeito nos
trabalhos. Por isso é que preciso alertá-lo sobre algumas coisas. Você
certamente soube do João Sharif... Viu o que aconteceu com ele?...
–
Puxa, Henriquez! Que morte estúpida! Não tenho
idéia do que houve, mas acho que boa coisa ele não fez... — respondeu Carlos,
em palavras medidas, como se estivesse em alerta máximo.
–
Carlos, você se lembra daquele conselho que eu
lhe dei sobre o silêncio? – indagou, com ar enigmático, o colombiano.
–
Claro que me lembro! Não vai me dizer que o
Sharif andou falando demais!?... Foi isso?
–
Claro que foi! Ele passou informações sobre a
organização a um agente da polícia federal. Acho que, no fundo, ele não gostou
de ser afastado da casa de câmbio. Por isso é que estou preocupado. É preciso
que você deixe ficar tudo muito bem arrumado, sem rastos de nada, está certo?
–
Certíssimo, Henriquez! Não darei uma bobeada
dessa, não. Eu sempre achei o Sharif muito boca aberta. Não é o meu caso. Tenho
a boca trancada com chave e taramela. Comigo nunca ocorrerá um deslize que lhe
deixe mal, pode ter certeza.
–
Eu tenho, Carlos. Mas pode estar certo de que
virão em cima de você; e você não pode deixar no caminho nada que comprometa as
nossas transações. Eu me vou afastar por uns tempos. Na volta, faço logo
contato com você.
–
Tudo bem. Mas, por quanto tempo?
–
Pouco tempo. Tenho de buscar umas instruções...
Não pode ser por telefone. Quem sabe, não retorno com alguma promoção para
você? – descontraiu-se Perez, deixando Carlos ainda mais ansioso.
–
Meu amigo, como fico nessa história? Você é meu
único contato. Aliás, nem sei como fazer para lhe falar numa emergência; e vai
aqui uma reclamação de amigo: você nunca me deu o seu telefone, e muito menos
visitou-me ou me permitiu alguma visita em sua casa. Não me leve a mal, mas
acho que mereço do amigo um pouco mais de confiança. Aliás, quero-lhe comunicar
que me casei com a Vivian Melbo durante a viagem...
–
Oh! que beleza! Por que não falou logo?...
Apesar de que, para mim, isso nunca foi novidade. Você está apaixonado por ela
há muito tempo...Você tem razão, Carlos, não tenho sido um bom amigo. Mas
consertarei isso hoje mesmo. Eu tenho algumas coisas para lhe mostrar; tenho
também um extra para você; afinal, não lhe dei ainda o meu presente de
casamento... Que loucura, casar em plena viagem! – exclamou Perez.
–
Olha, Henriquez, vou dizer-lhe uma coisa: foi a
melhor solução para mim. Eu só transava com ela mesmo; também, ela ficava aqui
somente me esperando; só nos faltava decidir e decidimos. Estamos felizes, e
mais agora, que você finalmente se abre um pouco mais comigo. Eu sempre me
senti meio estorvo em sua vida!
–
Não é nada disso, amigo. Eu cumpro fielmente as
orientações que recebo. Mas agora, como terei de me ausentar, vou passar-lhe
algumas tarefas extras. Estou autorizado a isso. Vamos fazer uma coisa: vamos
sair logo daqui e continuar a conversa lá em casa.
–
Tudo bem, amigo. Finalmente entrarei na casca do
ovo. Eta parto difícil! — brincou Carlos, imaginando que sua vida de espião da CIA estava saindo melhor que a encomenda...
Dali seguiram com destino à Barra da Tijuca, direto ao
apartamento de Perez. Foram em um só carro, deixando Carlos o seu para buscar
mais tarde, não sem antes providenciar uma bela gorjeta ao guardador, ainda
reforçada, como prêmio, pela lembrança que ele teve de indagar por Vivian
Melbo... E chegaram naquele prédio luxuosíssimo, frente ao mar, uma cobertura
tríplex maravilhosa, com decoração cinematográfica. Carlos, que se achava um
ricaço, viu-se diante de sua insignificância financeira. Perez estava muitos
anos-luz à sua frente. Também não era para menos: ele era o grande chefão do
cartel de Medellin no Brasil. Disso Carlos agora já sabia...
–
Carlos, a questão é a seguinte: estamos
recebendo um revés violento. Há muitas operações da polícia federal em curso, e
só acertando na mosca. Em alguns casos, não temos dúvida de que as informações
saíram do Sharif; em outros, são provenientes de algum outro traidor, que está
soltando a língua, em segredo, numa CPI em
Brasília. E também está passando preciosas informações sobre a ponta da linha
de produção e distribuição. Mas ainda não conseguimos descobrir quem está
mudando de lado. Só sabemos que tem um filho da puta que passava informações
para o Sharif, e ele as repassava aos seus contatos na área governamental. O
Sharif fez um acordo qualquer com o governo, não sabemos com quem; mas esse não
informa mais nada – completou um Perez agitado e ainda desconhecido de Carlos,
que se fez de desentendido para recolher mais dados.
–
Mas, Henriquez, como pode ser o Sharif? Ele só
cuidava de transação financeira e de propina paga aos nomes que você
determinava. É o que faço hoje. Agora, quem está preocupado sou eu...
–
Que nada, Carlos! Você não sabe de nada! Tem
alguém fazendo jogo duplo, e deve ter conseguido de Sharif alguns outros nomes.
Você não duvide de que trabalhamos compartimentados. Ninguém conhece nada de
ninguém, ninguém se conhece, esse é o jogo. O Sharif furou todo o esquema. Não
podíamos perder tempo com ele. Agora, entra você. Precisamos que descubra quem
é o espião. Por isso é que vou viajar, e tenho como certo que o nosso traidor
tentará algum assédio sobre você, tentará extrair-lhe alguma informação
preciosa. Quando isso ocorrer, você ligará pra mim, direto à Colômbia...
–
Colômbia?... Não entendi essa Henriquez... Como
Colômbia?... Você não vai para a Argentina?
–indagou Carlos, ele mesmo impressionado com a sua cara-de-pau.
–
Não, Carlos! Vou abrir um segredo pra você: sou
colombiano!... Não sou nenhum Luiz Henriquez e nem argentino. Meu nome é Alonso
Perez, o resto é pura fachada, desde que cheguei ao Brasil! – completou o
colombiano, demonstrando plena confiança em Carlos.
–
Puxa! Nem sei o que digo... Como eu chamo você,
daqui em diante?
–
Luiz Henriquez. Em público, serei sempre Luiz
Henriquez. Não se esqueça disso, está bem? – acrescentou o colombiano.
–
Tudo bem, Pe... Luiz... Henr...
–
Não Carlos! Aqui, na intimidade, você pode até
me chamar de Perez; afinal, gosto do meu nome, e sinto falta de alguém dirigir-se
a mim como existo no mundo; e aqui são poucas as pessoas, a não ser na
Colômbia. Mas, publicamente, nem sonhar...
–
Tudo certo, Henriquez. Fique tranqüilo. Só
preciso saber com detalhes que devo fazer...
–
Simples. Tome este número de telefone. Quando o traidor
mostrar-lhe a cara, avise-me! Aliás, qualquer suspeita, qualquer situação
diferente, avise-me imediatamente, está certo?
–
Sem qualquer dúvida! Mas, você acha mesmo que a
tal figura irá tentar comigo?
–
Com certeza, irá. A pressão do outro lado é forte.
O jogo é pesado! Se ele não informar o que querem, é defunto certo. Tanto faz o
lado... o jogo é sujo mesmo – acrescentou Perez com uma convicção assustadora,
deixando Carlos espantado. – Só agora ele percebia com clareza o buraco em que
se metera...
–
Amigo, estou assustado! O meu negócio sempre foi
transação financeira; agora... estou entrando em outra seara, mais perigosa...
Eu não contava com isso! – atalhou Carlos, realmente atemorizado.
–
Ora, meu amigo, o negócio é bola de neve; depois
que rola, não pára mais. Mas fique tranqüilo, que seu prêmio será mais alto do
que você possa supor. Aliás, espere-me aí, que vou pegar seu presente... com
uma condição: abra em casa, está bem? – completou Perez, sinalizando o fim da
conversa. – E que conversa!...
Dito, saiu em direção ao interior da ampla cobertura, não
demorando a retornar. Na mão, trazia uma valise de bom tamanho. Entregou-a a
Carlos, insinuando, sorridente: “Aí está, meu amigo. Na volta, garanto-lhe que
terá o dobro!” Carlos pegou a valise, pensando com os seus botões: “Será uma
bomba?...” Pareceu que Perez adivinhara o seu pensamento: “Amigo, pode ir
tranqüilo. Aí dentro não tem nenhuma bomba, não. Ou melhor, tem sim, mas uma
que você irá simplesmente adorar!”, encerrou, deixando Carlos com um semblante
de bestunto. Mas ele se recompôs rapidamente, devolvendo a brincadeira: “Que é
isso, amigo! Bomba foi a que você deixou na minha cabeça!...”
Despediu-se e partiu como um tufão. Pegou um táxi e se
dirigiu às termas, com o fim de apanhar o seu carro. Depois, foi para casa,
ainda com os nervos em repelões. Nunca cogitara viver tantas emoções e tantos
perigos em sua vida. E pensava seriamente na morte. Ela estava bem perto,
rondando seus passos. E a salvação era Vivian Melbo, porque ele, em sã consciência,
não conseguia mais raciocinar coisíssima nenhuma. Chegou ao apartamento ainda
sobressaltado. Vivian Melbo imediatamente notou e correu a indagar:
–
Que houve, amor? Você está uma pilha!
–
Puxa, amor, nunca imaginei tanto risco! Vou
contar tudo em detalhes. Acho que seu chefe vai ter que dar uma ajuda. Se não,
estou frito!...
–
Que mala é essa? – perguntou Vivian Melbo, com
Carlos tão agitado que até se esquecera do presente.
–
É presente do Perez; agora sei quem ele é, e
dito por ele mesmo; não sei do que se trata, mas vamos ver logo.
E abriu a valise, deparando-se com muitas notas, todas
arrumadas em maços iguais: um milhão de dólares!
– Nossa!
Que presente! – exclamou Vivian Melbo, diante da fortuna que rutilava em suas
lindas pupilas.
– Cruzes!...
Acho que a tarefa que recebi é realmente valiosa – completou Carlos, pedindo à
mulher para se deixar ficar na poltrona a ouvi-lo com calma. – E contou-lhe
cada detalhe do impressionante diálogo que mantivera com Perez...
– Carlos,
e os documentos? – indagou Vivian Melbo, repentinamente.
– Ih,
é mesmo! Esqueci-os na mala do carro! Vou até lá buscá-los...
E ficaram planejando o próximo passo, já sabendo que nada
mais fariam sem a orientação segura de Geoffrey Foster, o amigo da CIA...
No dia seguinte, enquanto Carlos providenciava a remessa de
seu presente ao exterior, – tarefa simples, – Vivian Melbo dirigia-se ao
consulado norte-americano. Sua condição de dupla nacionalidade permitia-lhe a
presença naquele lugar sem despertar suspeitas. E ela foi logo repassar a
Foster a farta documentação criteriosamente organizada pelo cambista, além de
informar ao agente da CIA
sobre os últimos e inusitados acontecimentos. Só não falou sobre o presente...
–
Meu amigo, e agora? Como o Carlos sairá dessa
enrascada? – indagou, de pronto, a nervosa agente classe C.
–
Fique tranqüila, querida. Isto é bem mais fácil
do que você imagina. Temos um problema, e lhe darei uma bela solução – intrigou
o experimentado agente da CIA.
–
Como assim, Foster? Não entendi ainda nada –
retrucou Vivian .
–
Vou explicar, mas primeiro tome um café. Você
está muito tensa. Não há necessidade disso... Ou você não confia no amigo?
–
É lógico que confio! E como confio! Se não fosse
você em minha vida, eu ainda estaria por aí como garota de programa. Talvez até
morta, de doença ou outra praga qualquer desta vida miserável! – exclamou,
emocionada.
–
Tudo bem, querida. O material que você trouxe,
eu o vejo depois. Agora explicarei o que o Carlos terá de fazer; mas ele deve
esperar uma semana para valorizar o trabalho. Veja bem, o homem que o Alonso
Perez quer é Libernato Garcez. É um colombiano. Por isso é que Perez está sem
destino. Nunca desconfiaria primeiro de um patrício. Esse colombiano é segundo
escalão em relação a Perez. Está no Brasil como um pacato comerciante espanhol,
com o nome falso de Andrés Luiz. É ele quem passa informações à polícia
federal, a um delegado cujo nome não lhe interessa saber. Mantém-se solto por
isso...
–
Tudo bem, Foster. Mas como Carlos poderá passar
os dados para o colombiano? Assim, direto, ele não tem condições...
–
Calma, minha querida! Deixe-me concluir: tenho
aqui para você um documento precioso. São duas faturas de um hotel na
Argentina, uma do João Sharif e outra do Andrés Luiz... ou Libernato Garcez. Lá
é que eles iniciaram suas transações. O Perez ficará uma besta quando olhar
esse documento. Carlos não precisará falar nada. Apenas lhe irá entregar as
faturas, dizendo que as encontrou numa gaveta do João Sharif, na casa de
câmbio... entendeu agora? – completou Foster, já com um ar brincalhão.
–
Puxa, Foster! E eu aqui imaginando bobagens,
achando que você não teria nenhuma solução; é que eu esqueço quem você é; sou
uma boba!...
–
Veja só, Vivian; Carlos deve telefonar ao Perez
e dizer-lhe que somente poderá esclarecer tudo aqui, à vista das faturas. Ele
não poderá adiantar nenhuma conclusão ao colombiano, senão ele desconfiará.
Entendeu bem isto? – completou, sério, o agente da CIA. – Sim! sim!
Entendi! Pode deixar.
–
Outra coisa, Vivian; estou preparando uma
fachada, – passaportes e outros documentos, – para você e Carlos. Não demorará
o dia em que vocês terão de deixar o Brasil para sempre. Serão dois “italianos”
saindo para nunca mais voltar. Receberão as passagens e as orientações em hora
certa. A partir daí, minha amiga, você terá completado sua missão com as duas
pátrias. Você merece! – encerrou Foster, novamente explicando cada detalhe da
orientação a ser repassada a Carlos.
Vivian saiu como se estivesse pisando em nuvens. Entendera o
recado, e muito claramente: teria de vender tudo no Brasil e transferir o
resultado ao exterior. E, chegada a hora, viajaria com Carlos, ambos apenas com
a roupa do corpo. Isso não seria problema para o amado. Afinal, estava no
contexto de sua especialidade. “Graças! graças!”, exclamava Vivian Melbo,
ansiosa para se encontrar com Carlos. Partiu para o apartamento dele, e, de
caminho, digitou o número da casa de câmbio no seu celular e apertou a tecla
verde. Carlos chegou junto com ela, rápido como um trovão. E a ouviu
atentamente... Duas semanas depois:
–
Alô!
–
De onde fala! É o Perez?
–
Quem deseja?
–
Um amigo, Carlos!
–
Um momento!
–
Olá, meu amigo, como vai? – cumprimentou Perez.
–
Tudo bem. Tenho um assunto para quando você
retornar; mas não lhe posso comentar por telefone, e não sei se é importante...
–
Tem certeza? Estou pensando voltar na semana que
vem; mas, se for importante, parto de volta agora mesmo! – completou Perez, já
demonstrando ansiedade.
–
Não sei... não sei... é um documento que eu
achei, com um nome estranho; não sei se devo falar por telefone...
–
Não, não fale! Amanhã estarei aí.. Falo com você
pessoalmente; um abraço!
–
Outro! Estarei esperando!
Assunto encerrado. Cabia somente aguardar a chegada do
colombiano. Enquanto isso, Carlos foi ultimar a tarefa que iniciara logo no dia
da visita de Vivian Melbo ao consulado: desfazer-se de todos os seus bens sem
deixar rastos. “Isso me será absolutamente fácil! Também não preciso me
preocupar com a minha família, pois sempre guardei segredo desse meu lado
pessoal”, pensava o cambista, até um pouco constrangido, posto que nem para
Vivian Melbo comentara sobre seus parentes. “Também, não tive tempo para tal alvitre”,
especulava.
Dois dias depois, o cambista recebeu o telefonema de Perez,
já chegado ao Brasil e em incontida curiosidade. Marcaram nas termas Orly, onde
se encontraram no fim da tarde. Perez nunca alterava sua cautelosa rotina, por
medida de segurança. Em lá chegando, pela primeira vez Carlos se surpreendeu em
verificar que o colombiano já se deixava estar aguardando-o. E foi direto ao
assunto:
–
Meu caro amigo, estou ansioso para ver o que
você conseguiu...
–
Sim, amigo. É que encontrei umas faturas de
hotel numa gaveta do Sharif. Eu ainda não as havia observado. Achei curioso,
porque ele fez uma viajem à Argentina sem que eu soubesse...
–
Ué?... eu também não soube, completou Perez.
–
Exato! E, junto com a fatura, em seu nome, há
uma outra, em nome de Andrés Luiz. Você o conhece?
–
Quê?! Deixa eu ver! – assustou-se Perez.
–
Aqui está. Eu não entendi nada, mas foi a única
coisa que aconteceu de diferente até então.
–
Você é que pensa, meu amigo. Aconteceu tudo;
tudo que eu precisava. Olha só, Carlos, eu até lhe proporcionarei um presente
em dobro daquele que lhe dei pelo casamento. E pode tocar de modo normal a sua
vida. Esqueça-se de tudo por um tempo, está bem? — colocou gravemente o
colombiano.
–
Está certo, Perez. Se você não me quer falar
sobre o tema não há problema. Prefiro também não saber. Estou satisfeito em lhe
proporcionar algo de bom...
–
De bom, não! De ótimo! – respondeu Perez, com um
sorriso nada interessante no canto da boca: um sorriso assassino...
Mais dois dias, apenas dois dias se transcorreram, para que
Carlos lesse nos jornais: “Executado a tiros um comerciante espanhol no sinal
luminoso, tudo indicando assalto...” É... o calor dos acontecimentos estava
chegando ao ponto de efervescência, como se assim fosse uma rajada de balas
cuspidas de armas assassinas... E, lá no consulado norte-americano, o agente da
CIA sorria de orelha a
orelha: há muito o espanhol Andrés Luiz, – ou o colombiano Libernato Garcez, –
deixara de interessar à CIA.
“Já morreu tarde!”, exclamou Foster, em pensamento.
O agente da CIA já
analisara os documentos produzidos por Carlos. E simplesmente se impressionara
com a qualidade e a quantidade de informações. Chegou a ficar ansioso, apesar
de toda a sua experiência. Tinha em mãos uma verdadeira bomba a repassar cópia
aos serviços de inteligência brasileiros. Pelo que sabia das informações
acumuladas, agora acrescidas de novos dados providenciados por Carlos, nada
mais seria necessário para, finalmente, ser desencadeada a ação que vinha há
meses sendo minuciosamente planejada pelo governo brasileiro e países amigos.
Tudo, é óbvio, gerenciado pela poderosa CIA...
Foster chamou a secretária e determinou-lhe que ligasse para
a Abin, em Brasília... No dia
seguinte, três “médicos”, vestidos em estilo, compareceram ao consulado, com o
fim de realizar uns exames de rotina num alto funcionário daquele inacessível
lugar. Eram especialistas... mas em outra área bem diferente: dois coronéis, –
um do Exército, outro da Aeronáutica, – e um Capitão-de-Mar-e-Guerra, – todos
agentes de altíssimo nível da Abin.
E passaram o dia no consulado “examinando o doente”; depois saíram, com os
documentos, direto ao Aeroporto do Galeão, onde um jato da FAB os aguardava. Uma hora e meia de viagem e desceram em
Brasília, indo direto à Casa Militar da Presidência, cientes de que no dia
seguinte haveria muito trabalho. Dali, foram então ao Forte Apache... Não
faltava mais nada para complementar o complexo planejamento de uma operação que
abalaria sobremaneira o tráfico de drogas no Brasil e no mundo: a OPERAÇÃO ARABESCO.
CAPÍTULOV - O PLANEJAMENTO
INÍCIO
DO ANO 2000...
As Forças Armadas desde há muito já traçara a fase
estratégica de sua participação no combate frontal ao narcotráfico. Em caráter
ultra-secreto, o assunto fora colocado à apreciação presidencial como um sério
óbice à segurança nacional e à democracia. A ineficiência dos organismos de
segurança pública (federais e estaduais) já tornara evidente a esmagadora
vitória do narcotráfico em todo o território brasileiro. Na verdade, tudo
estava uma bagunça generalizada, necessitando, pois, de uma ação integrada e comandada
a partir do próprio Presidente da República.
As pressões externas se haviam ampliado deveras,
especialmente em razão de reiteradas matérias jornalísticas publicadas no país,
todas demonstrando concretamente que a imprensa e meia dúzia de deputados
federais investigavam melhor que todos os organismos oficiais juntos: uma
vergonha nacional. Diante da grave situação, o mandatário tomou as primeiras
medidas políticas, ampliando as ações da Abin
e da Senad, ambas subordinadas à
Casa Militar da Presidência.
Desta maneira, o Presidente da República foi avocando para
si a responsabilidade de comandar a virada, autorizando, em nível ainda
ultra-secreto, a deflagração da fase tática do plano, a partir da promulgação
da duríssima Lei de Tóxicos e da construção de presídios federais, além da
criação do fundo especial contra o narcotráfico. Determinou, então, aos
Ministros da Defesa, da Justiça e da Casa Militar, as demais articulações
institucionais. Iniciou-se, assim, a parte mais visível da fase tática. Nesta,
montou-se no quartelgeneral do Exército, em Forte Apache, Brasília, o mais
moderno CENTRO DE COMUNICAÇÕES E OPERAÇÕES DE INTELIGÊNCIA já
concebido pelo sistema governamental, com o apoio financeiro e operacional da CIA. Com essa importante medida, iniciaram-se
as ações de inteligência e de contra-inteligência, num perfeito sincronismo
entre todos os organismos de informações, de todos os níveis governamentais,
tanto nacionais quanto internacionais, e em intercâmbio permanente. O
cruzamento dos dados permitiram o que faltava até então: a homeóstase do
sistema, e sua evolução rumo aos objetivos traçados, algo impossível sem
aqueles meios tecnológicos avançados.
Nesta fase, todos os levantamentos e investigações correram
em caráter confidencial, reservado, secreto ou ultra-secreto, dependendo do
grau de importância e do sigilo exigido às ações de inteligência e de
contrainteligência. Tudo feito a contento, fechou-se o ano de 2000 com um tempo
necessário ao desencadeamento da fase operacional, o esperado confronto com a
base e a cúpula do tráfico nacional e internacional de drogas. Iniciou-se esta
última fase a partir de agosto de 2000, com todos os serviços de inteligência e
contrainteligência voltados contra a mais poderosa modalidade de crime já vista
na humanidade: o narcotráfico.
Tudo previsto, inclusive as reações políticas daqueles que
passaram a protestar contra a “ingerência” das Forças Armadas em assuntos
civis, alguns inocentemente, outros não. Não obstante as pressões, a ordem
presidencial foi clara. Ele se dispôs a agüentar o tranco. O Brasil em primeiro
lugar!
10
DE AGOSTO, QUINTA-FEIRA... Reunião ultra-secreta, no QG do Exército, contando com a presença dos
Ministros da Defesa, da Justiça e da Casa Militar, além dos titulares da Abin e da Senad. Igualmente presentes os chefes militares das três armas
(Exército, Marinha e Aeronáutica). Começa a exposição do plano operacional por
equipe mista dos órgãos de inteligência, passo a passo, a partir de diagnóstico
dos principais focos criminosos a serem combatidos.
25
DE AGOSTO, DIA DO SOLDADO... O planejamento é apresentado ao mandatário
máximo do país, que o assina sem titubear. O próximo passo seria a ordem
presidencial, a ser assinada dias antes da deflagração da OPERAÇÃO ARABESCO.
Fechava-se, destarte, o ciclo tático do planejamento. Daí em diante as ações
somente possuiriam um objetivo: cumprir a ordem operacional presidencial a
qualquer preço.
PLANO OPERACIONAL CONTRA O NARCOTRÁFICO
CLASSIFICAÇÃO : ULTRA-SECRETO
Data: 25 de agosto de 2000.
Autorizo______________________________________
Presidente da
República
A –
Objetivos:
1. Global:
Erradicação do narcotráfico e dos focos de guerrilha em todo
o território brasileiro, em operação simultânea das forças governamentais da
União e dos Estados-membros.
2. Específicos:
a) Desencadeamento
de operações militares (ações de comandos especiais) contra alvos criminosos,
cujo poder de reação estão a exigir o
emprego de aparato militar;
b) Articulação
de operações conjuntas e simultâneas, – de natureza policial e mista (policial
e militar), – contra alvos que determinem ações tipicamente policiais, e outros
cujo poder de fogo exijam aparato bélico mais apropriado.
B –
Situação:
Informações confirmadas por vasta prova dão conta de que o
país está à beira de uma instabilidade institucional muito além da capacidade
instrumental das polícias estaduais (civis e militares) e da polícia federal.
Relevam-se as Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, especialmente a Amazônia
e as fronteiras com a Colômbia, o Peru e a Bolívia. Em diversos locais
restritos verifica-se a presença de guerrilheiros e traficantes atuando em
comum acordo, ambos ligados ao plantio da coca, da maconha e da papoula, além
do processamento delas todas e mais da heroína. Há regiões perigosamente
próximas de um colapso institucional, indicando a necessidade de medidas
extremas para a retomada da normalidade legal. Entre alguns dos muitos fatos já
confirmados, salientam-se:
1. Índios da Amazônia utilizados no
transporte de insumos fabricados no país (ácido clorídrico, ácido sulfúrico e
permanganato de potássio) para os laboratórios de refino de cocaína na
Colômbia. Através dos rios Javari e Japurá, os índios brasileiros estão conduzindo
toneladas de insumos, transformando os rios em verdadeiras narcovias fluviais.
Os traficantes colombianos estão usando os indígenas para transportar insumos
ainda pelo rio Solimões, até entrar na Colômbia pelo rio Caquetá, além de
outras rotas alternativas (Rio Içá, que no país vizinho se denomina Putomayo).
Nas margens dos rios Solimões, Javari, Japurá, Içá, Caquetá e Putomayo, muitas
fotos aéreas do serviço de inteligência da Aeronáutica comprovam a existência
de diversos laboratórios de refino na fronteira, do lado da Colômbia, em
ligação com outros, em funcionamento no próprio território brasileiro. Há
muitos traficantes armados e militarmente organizados, podendo também ser
guerrilheiros da FARC.
2. Grave
comprometimento da polícia e do judiciário com o narcotráfico, na Amazônia e
nas Regiões Centro-Oeste e Sul, promovendo a libertação de inúmeros traficantes
brasileiros e colombianos mediante corrupção. Todos já identificados e com
provas suficientes.
3. Rede
organizada de aviação clandestina controlada por um casal de traficantes já
presos. O levantamento da fortuna acumulada por ambos, – dentro e fora do
Brasil, – é de valor assustador. Tudo já investigado e com provas contundentes
de que ambos são integrantes de perigosa quadrilha de ladrões de aeronaves
civis, com fortes ramificações no resto do país, especialmente em São Paulo.
Inúmeros aeroportos clandestinos já identificados, com fotos aéreas e outras
provas necessárias contra muitos criminosos da quadrilha, igualmente
singularizados.
4. Impressionante
esquema de desvio de armas, carregadores e munição das Forças Armadas, milhares
já em mãos de traficantes de favelas nas principais cidades brasileiras.
Contrabando volumoso de material bélico estrangeiro, via aeroportos e portos
clandestinos e oficiais, com o comprovado envolvimento de muitos agentes da
polícia federal e da alfândega. Todos já identificados em todo o território
nacional; e com provas suficientes.
5. Constatação
de remessa ilegal de bilhões de dólares para o exterior, via Paraguai, através
de “laranjas” e mediante o uso ilegal das famosas contas “CC5”, tudo com a conivência de banqueiros, gerentes de
instituições financeiras, além de inúmeras casas de câmbio espalhadas pelo
país. Os criminosos já estão identificados e muitas provas colhidas. Os números
são assustadores. Dão notícia de que nos últimos três anos saíram ilegalmente
do país mais de 250 bilhões de dólares, em “contas laranjas”, somente a partir
das contas “CC5”, criadas pelo
Banco Central para remessa de dólares ao exterior.
6. Confirmadas,
com provas, as informações repassadas por um dos maiores traficantes
brasileiros preso: esquema de tráfico nas fronteiras brasileiras com o
Suriname, a Guiana e a Venezuela, com centenas de traficantes já identificados
e com provas de serem ligados aos cartéis de Cali, de Medellin e do Suriname,
além de outros vinculados às “firmas” peruanas. Também confirmada a presença de
mafiosos russos em território nacional, e em permanente conluio com os
narcotraficantes colombianos.
7. Produção, em larga escala, de
identidades e passaportes falsos. Fantástico arabesco de criminosos com falsas
identidades, muitos deles mantendo fachadas de prósperos comerciantes. Já
identificados milhares desses bandidos em todo o território brasileiro.
8. Envolvimento
de agentes do DEA no tráfico
internacional de drogas, via Brasil, ligando-se inclusive suas ações ao
transporte de grande quantidade de cocaína para a Europa, por aviões militares
daqui e de outros países.
9. Tráfico
de drogas em larga escala por navios, muitos já identificados, assim como os
esquemas de datas e horários de embarque e desembarque. Carregamentos de
madeira têm sido utilizados para ocultar cocaína no interior das toras.
10. Uso
de lanchas de luxo no transporte marítimo de drogas na costa brasileira.
Criminosos já identificados e reunidas provas suficientes.
11. Sistema
de distribuição de propinas, por traficantes, para inúmeras autoridades
públicas em todo o Brasil, todas já identificadas, assim como suas contas no
exterior já estão apuradas.
12. Grande
esquema de roubo de carros de luxo, especialmente importados, para troca por
drogas nas fronteiras transitáveis. Inúmeros criminosos já identificados, e com
provas suficientes para incriminá-los.
13. Plantação
em larga escala de coca, maconha e papoula no denominado “Polígono da Maconha”,
e ainda na Amazônia e em outras regiões do país, tudo comprovado por fotos
aéreas e terrestres, além da identificação de milhares de plantadores e de
traficantes.
14. Circulando
e atuando no território brasileiro muitos laboratórios de refino montados por
traficantes estrangeiros (colombianos, peruanos e bolivianos) em carroçarias de
caminhões, de modo a atender à demanda de consumo local e impedir sua
localização por autoridades policiais. Em quase todos, porém, a inteligência
brasileira já instalou dispositivos que permitem rastreamento por satélite.
15. Detectado,
na mesma rota internacional do narcotráfico, um intenso e crescente comércio
ilegal de aves e de outros pequenos mamíferos, especialmente nas fronteiras do
Brasil com o Paraguai e a Bolívia, alcançando este descaminho mais de 50
milhões de animais silvestres e movimentando cerca de dois bilhões de dólares
por ano.
C – Forças
Amigas:
1. Governamentais:
1.1 – Exército, Marinha e Aeronáutica;
1.2 – Justiça e Ministério Público
federais;
1.3 – Polícia federal;
1.4 – Receita Federal;
1.5 – Justiça e Ministério Público
estaduais;
1.6 – Polícias Militares estaduais;
1.7 – Polícias Civis estaduais;
1.8 – FUNAI;
1.9 – IBAMA;
1.10
–
Demais organismos governamentais (União, Estados e Municípios).
2. Não-governamentais:
2.1 – Instituições Religiosas
2.2 – Outras instituições envolvidas em
campanhas contra drogas.
3. Forças
Amigas internacionais:
3.1 – países aliados...
D – Forças inimigas:
Representadas por criminosos e
colaboradores de atividades ilegais.
E – Meios materiais e humanos:
1. Todo
o efetivo disponível e necessário das forças amigas, alcançando cada recanto do
território nacional.
2. Todos
os recursos materiais e tecnológicos disponíveis.
3. Ajuda
financeira internacional, a ser acrescida ao fundo especial de combate ao
narcotráfico, conforme entendimentos governamentais já mantidos, no valor de U$
850.000.000,00 (oitocentos e cinqüenta milhões de dólares).
F – Suporte legal e recolhimento de aprisionados:
Constituição da República Federativa do Brasil, Lei de
Tóxicos e demais Leis Penais. Recolhimento de aprisionados, de acordo com a
legislação vigente no país, nos novos presídios a serem inaugurados em novembro
do corrente, em vista do cronograma previamente fixado na fase estratégica.
G – Desenvolvimento das ações:
Diante do quadro de gravidade, e da possibilidade concreta
de sua ampliação no espaço territorial brasileiro, o desenvolvimento das ações
será simultâneo e em todo o território nacional. Em regiões restritas,
dependendo do tipo de ação a ser desencadeada, poderá ser sugerido ao Ex.mo Sr. Presidente da
República a decretação do Estado de Defesa, nos termos do Art. 136 da
Constituição Federal.
1. Ações policiais civis, policiais-militares e
militares:
1.1
– Em
cada grande cidade brasileira haverá a concentração de aparato militar e
policial pronto para ações imediatas e fiscalizadas pelo Ministério Público e
pela Justiça. Cumprir-se-ão Mandados de Busca e Apreensão e de Prisão, num
total aproximado de 12.000 (doze mil), todos podendo ser previamente expedidos com
base em provas ou indícios veementes, conforme decisão judicial. Esse número
poderá ser ampliado até a data do desencadeamento das operações e também
posteriormente.
1.2
–
Dossiês individuais, com fotos, documentos e outras provas minuciosas, estão
sendo aprontados, para entrega prévia aos promotores de justiça e aos juízes
federais e estaduais.
1.3
–
A partir da véspera do desencadeamento das ações, haverá a manutenção de juízes
e promotores de justiça, em plantão permanente, nas zonas de concentração dos
efetivos operacionais, com o fim de entregar os mandados previamente elaborados
e outros, conforme o desenrolar das primeiras prisões e seus conseqüentes
desdobramentos.
2. Ações militares (contraguerrilha):
Ação conjunta e sistemática das Forças Armadas no combate
aos focos guerrilheiros, em regiões já localizadas e a serem determinadas como
zonas militares de combate (zonas vermelhas), a partir de ordem judicial
requisitada pelo Ministério Público da União. Áreas em Estado de Defesa.
Possibilidade de confrontos mortais.
H –
Esquema de mobilização das forças amigas:
1. Serão
organizados seminários e reuniões em Brasília, desenvolvendo-se a abertura das
informações, gradativamente, da cúpula para a base, ainda em nível
ultra-secreto. Sugestão de data e assuntos a serem discutidos como “fachada”,
de modo a instituir um blefe em relação ao inevitável assédio da imprensa:
1.1 –
Seminário de três dias, em setembro, com a presença de todos os desembargadores
presidentes de Tribunais de Justiça e Procuradores Gerais dos Ministérios
Públicos federal e estaduais. Local: Auditório do Ministério da Justiça.
a)
Temas de fachada: “extinção da Justiça
Militar” e criação de “Justiça Especial de Combate ao Narcotráfico”;
b)
Caráter secreto do seminário, com abertura
feita pelos Ministros da Justiça e da Defesa, precedendo-
se às informações a serem repassadas por
agentes especializados da Abin e da Senad. Exposição detalhada do plano
operacional a ser desencadeado;
c)
Indicação, por cada autoridade máxima, de
cinco juízes e cinco promotores de justiça, com vistas à
criação dos grupos de decisão indispensáveis
ao desencadeamento das operações;
d)
Visita dos desembargadores ao Forte Apache,
seguida de almoço e permanência por toda a tarde do
terceiro dia.
1.2 – Reunião secreta, no QG do Exército, em setembro, com a presença
de todos os comandantes militares regionais das três armas, do superintendente
da polícia federal, além de todos os secretários de segurança pública e comandantes
das polícias militares estaduais. Exposição detalhada do planejamento e do
“modus operandi” de cada órgão militar e civil participante.
1.3 – Reunião, em outubro, do
superintendente da polícia federal com as chefias regionais, para exposição do
planejamento e a especificação das ações a serem desencadeadas. Caráter secreto
indispensável.
1.4 – Seminário secreto, de duas semanas,
no Auditório do Ministério da Justiça, em janeiro de 2001, de 9 às 18h, com os
grupos de juízes, promotores e procuradores de justiça federais e estaduais.
Detalhamento do plano operacional e orientação sobre os procedimentos
seguintes, com vistas à eclosão simultânea das operações em todo o território
nacional.
a)
Temas de fachada: “Extinção da Justiça Militar” e criação de “Justiça Especial
de Combate ao Narcotráfico”.
I – Contrapropaganda:
É fundamental que a imprensa esteja absolutamente
desinformada. Ninguém poderá dar entrevistas, devendo ser considerada falta
grave no âmbito de cada instituição participante o descumprimento desta ordem.
Todos os documentos serão distribuídos com a tarja de ultra-secreto, com os
devidos esclarecimentos sobre a Lei de Salvaguarda de Assuntos Sigilosos.
Interessa que a imprensa especule uma crise política. Quanto menos informações
tiver a imprensa, mais boatos surgirão, distraindo a atenção da opinião pública
e dos políticos para assuntos diversos. Há entre os políticos forças amigas,
porém suas características não condizem com segredo. É importante que eles
permaneçam desavisados e ocupando os espaços da mídia. Muitos boatos serão
lançados com o fim de reforçar as especulações de uma crise entre o poder civil
e o poder militar.
J – A singularização dos criminosos e a
distribuição das provas:
1. Em
complemento ao já explicitado, os juízes e promotores designados receberão, em
tempo hábil, todo o material probatório contra os envolvidos no narcotráfico.
Para cada um será elaborado um detalhado dossiê, formando pacotes
individualizados, e que lhes serão entregues por agentes de inteligência nos
próprios Estados, sem chamar a atenção. Daí, tomarão as medidas legais.
2. Em
data a ser confirmada, após a autorização presidencial, os juízes e promotores
receberão instruções ultra-secretas indicando os locais e a data/hora em que se
deverão apresentar, todos já munidos dos respectivos Mandados de Busca e
Apreensão e de Prisão. Para garantir segredo absoluto, esses locais serão
restritos aos quartéis do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em cada
localidade considerada.
3. As
autoridades da Justiça e do Ministério Público permanecerão de plantão nas
primeiras quarenta e oito horas, com a finalidade de emitir ordens legais
contra novos suspeitos ou criminosos eventualmente não cadastrados. O prazo de
permanência poderá ser estendido, caso a situação exija.
L – Tratamento diferenciado aos índios:
Em princípio, serão todos recolhidos, todavia em locais
separados, de modo que cada caso seja avaliado pela Justiça, com o apoio da FUNAI,
admitindo-se a tentativa de reintegração dos índios às respectivas tribos,
através de pessoal especializado. Todas as informações sobre plantio de matéria
prima, aeroportos clandestinos e rotas fluviais na Amazônia serão levantadas
mediante interrogatórios por parte da Justiça, respeitados os direitos
constitucionais dos indígenas.
M – Indústrias de Produtos Químicos:
Muitas já identificadas como fornecedoras dos insumos
destinados ao refino da cocaína, com fortes indícios de conivência criminosa de
vendedores atacadistas e industriais. A respeito desta ação específica, após as
primeiras horas da operação será acionada a receita federal para uma devassa
fiscal nas empresas, em complemento às medidas policiais.
N – A autorização da operação:
Competirá ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República
emitir a ordem final, constando sua assinatura e a determinação do dia da ação
operacional, seguindo sugestão dos Excelentíssimos Senhores Ministros da
Justiça e da Defesa, os quais levarão ao mandatário máximo do país o
correspondente documento dessa histórica decisão governamental. Isto ocorrerá
no mínimo uma semana antes do desencadeamento da ação, depois de tramitados
todos os dossiês até seus destinos predeterminados, e de acordo com este plano.
O – O Estado de Defesa:
Em sendo indispensável, poderá ser decretado na véspera do
dia exato da ação, delimitados os seus efeitos a locais restritos, de modo que
se cumpra, sem prejuízo do segredo, os ditames constitucionais, entre os quais
a comunicação ao Congresso Nacional. Durará, em princípio, apenas 48 horas.
P – Divulgação dos resultados:
1. Após
vinte e quatro horas haverá um pronunciamento do Senhor Presidente da República
à nação, em cadeia nacional, esclarecendo, finalmente, sobre a operação.
2. Somente
o Senhor Ministro da Justiça fornecerá informações à imprensa, para evitar
transtornos e vazamentos de algum dado ainda considerado secreto.
Q –
Denominação da operação:
OPERAÇÃO ARABESCO
ORDEM PRESIDENCIAL
CLASSIFICAÇÃO : ULTRA-SECRETO
OPERAÇÃO
ARABESCO
DEFLAGRO, em todo o território nacional, o presente plano
operacional de combate ao narcotráfico, nos termos já autorizados em 25 de
agosto de 2000.
Palácio da Alvorada, 12 de janeiro do ano 2001.
_______________________________________
Presidente da
República
CAPÍTULO VI - A CIA NUNCA ABANDONA SEUS
FILHOS...
Carlos e Vivian Melbo, ambos já com as novas identidades de
“italianos”, desembarcam em Paris, no aeroporto internacional Charles De
Gaulle. Desembaraçam-se sem dificuldades na aduana e se encaminham à saída. São
polidamente interpelados por um elegante cidadão, em perfeito inglês, que vai
traduzido:
–
Com licença, cavalheiro; desculpe-me, senhora.
Sou amigo de Geoffrey Foster, e trago um envelope endereçado ao casal, a seu
pedido.
Carlos e Vivian Melbo fingem-se pasmados por alguns segundos
e finalmente recebem o volumoso
envelope, em tamanho de ofício, agradecendo ao distinto cavalheiro, sem
qualquer intenção de lhe perguntar coisa nenhuma. Não precisavam: sabiam que o
que fosse estaria muito bem explicado por Foster. Também não havia qualquer
necessidade de inferir que aquele cavalheiro era um agente da CIA...
–
Muito obrigado pela gentileza, prezado amigo! –
respondeu Carlos, mantendo um sorriso simpático, no que foi acompanhado por um
divertido sorriso de sua acompanhante, até ver desaparecer o portador.
Ansiosos, ambos procuraram um canto reservado, no hall do
aeroporto; sentaram-se e foram direto ao envelope; abriram-no rapidamente e
constataram o conteúdo: um meticuloso relatório orientando alguns procedimentos
futuros: códigos de contatos a serem utilizados de quando em quando, e
recomendação sobre os seus passos seguintes, a partir da chegada a Paris.
Tudo estava acertado: um carro de luxo aguardava-os no
estacionamento do aeroporto; as chaves e os documentos em nome do “italiano”
Carlos compunham aquela algibeira de surpresas; também o endereço de uma bela
residência nos arredores de Paris, tudo já em nome do casal. E mais uma gorda
conta bancária (vinte milhões de dólares) na principal Agência do Citibank
daquela cidade.
Acrescido tudo isso da recomendação para que Carlos
concentrasse todas as suas receitas bancárias naquela mesma conta do Citibank.
E se surpreenderam em notar que todas as contas já estavam listadas pela CIA, uma a uma, inclusive aquele “presente
de casamento” de US$ 1.000.000,00 (um milhão de dólares) e mais o dobro desta
quantia (pela informação sobre Andrés Luiz), ambos doados por Perez. E a
explicação: a partir daí, nada mais lhes existiria em relação ao passado. Seria
apenas uma casal de milionários “italianos”. Só tiveram certeza de uma coisa:
estavam perdoados, tudo ficara para trás, menos a CIA, que deu
linha em suas vidas, mas segurou uma das pontas...
É possível que neste ponto o leitor estranhe que o casal de
criminosos tenha recebido o prêmio da impunidade e o aval da CIA para gozar a vida e os milhões de
dólares que receberam do narcotráfico. Mas não é para se estranhar coisíssima
nenhuma, pois, no mundo da espionagem, a noção de crime perde totalmente o seu
valor, ficando apenas a idéia de que os fins justificam todos os meios,
inclusive os que sejam formalmente considerados crimes. Não importa à
espionagem tal situação, que se traduz num mero detalhe operacional. Daí o
prêmio ao casal, que poderia descumprir todas as leis do mundo, menos afrontar
os interesses da CIA. E isto eles não fizeram...
S
JUNHO DE 2001. O Presidente da República inaugura, nos
arredores de Goiânia, o CENTRO INTEGRADO DE
TREINAMENTO
DE SEGURANÇA PÚBLICA (CITSP) em área
considerada militar e altamente secreta. Subordina-o diretamente à Abin. Assume sua direção um
general-de-exército, em meio a protestos da oposição. Mas o povo brasileiro
aprova inteiramente a medida presidencial, calando a boca dos mais açodados
contrários. E, no bojo da aprovação popular, o mandatário máximo do país anuncia
a reformulação estrutural do sistema de segurança pública, a partir da efetiva
criação da Guarda Nacional, como um braço armado do Exército Brasileiro. E
informa, em superficiais palavras, que esta força intermediária de segurança,
com atividades completas de polícia administrativa e judiciária, cuidaria das
entradas e saídas de todo o território nacional, cobrindo portos, aeroportos e
fronteiras terrestres, além de cuidar de populações atingidas por calamidades e
distúrbios civis.
Anunciou, também, que em breve encaminharia ao Congresso
Nacional, para discussão e aprovação, um novo modelo sistêmico de segurança
pública, mudando-se completamente o ineficiente modelo existente. Segundo suas
palavras, o novo modelo teria a segurança individual como o maior objetivo,
para depois se chegar à segurança comunitária. Era o que faltava: definir uma
moderna estrutura de combate permanente e diuturno ao crime do narcotráfico e a
outros que lhe são diretamente consequentes, incluindo-se o resgate
socioeconômico das populações fronteiriças através de audacioso plano
governamental, de modo a definitivamente erradicar a pobreza, a indigência e a
miséria em toda aquela imensa região fronteiriça com os países produtores de
coca.
O Presidente da República falava com a legitimidade de quem
acreditou e arriscou. Não havia hora melhor para promover as necessárias
mudanças, rechaçando-se definitivamente os corporativismos do passado. Afinal,
o território brasileiro agora aparecia na tela de cristal líquido, em Forte
Apache, quartelgeneral do Exército, Brasília, completamente límpido, tal qual o
firmamento em dia de sol brilhante. O vermelho, o branco e o violeta deram
lugar às cores vivas da natureza sadia.
A normalidade legal estava restaurada; a democracia vencera
a batalha contra os preconceitos e temores; os brasileiros estavam unidos na
paz e na harmonia. Todas essas declarações produziram um forte e positivo
impacto na sociedade, assim retratada em manchete editorial pelo prestigiado
jornal A VERDADE
NACIONAL,
com o título: “A BARRA NÃO ESTÁ MAIS PESADA”:
“O povo brasileiro
assistiu, nos últimos meses, a algo que lhe parecia impossível. O perigo de
antes foi transformado na felicidade de hoje. O Brasil está livre de
narcotraficantes internacionais e nacionais por um bom tempo. Os resultados
alcançados demonstram, de modo cristalino, que o tráfico no asfalto se nos
afigurava muito mais violento e intenso do que o praticado nas favelas, na
verdade apenas a ponta da linha de toda uma estrutura milionária e ilegal.
Resta-nos agora manter a vigilância. Não somente a maquinaria governamental,
mas toda a sociedade.
Um país verdadeiramente
participativo tem na sociedade a primeira barreira contra a criminalidade.
Ficar a exigir que o Estado tudo resolva é exemplo ultrapassado de Estado
hipertrofiado e demasiadamente interventivo, onde a sociedade é apenas cliente.
Não há mais como ser assim. Somos nós, todos os brasileiros, quem sustentamos o
Estado. A nós, tão-somente a nós, cabe definir o Estado que almejamos. Não o
contrário. Não podemos mais delegar ao Estado todas as soluções de nossos
problemas, sejam quais forem. E não podemos viver sobressaltados com
criminosos.
As pessoas honestas e
produtivas têm o direito à tranqüilidade, à harmonia e à paz. Segurança, antes
de tudo, é um inalienável direito dos cidadãos. E não há sociedade capaz de
evoluir, em todos os sentidos, se não houver a plena garantia de sua
integridade física e psicológica.
Daqui para diante, deve
a sociedade brasileira demonstrar sua aversão ao crime com mais veemência. Não
mais deve se contentar com o falso ufanismo de uma polícia anunciando que
prendeu meia dúzia de
“pés-inchados” em
favelas. Favelas não produzem armas e drogas, tudo vem de fora. Portanto, é
fácil concluir que, se fecharmos os registros dos mananciais externos, a partir
de nossas fronteiras, os traficantes favelados terão de buscar outras maneiras
de viver. Terão de sair de seus “santuários”, colocar suas caras de fora. E
serão singularizados e presos. Não como hoje, em que muitos favelados são
presos, e não sabemos se efetivamente são criminosos. Se o forem, que sejam
punidos. Mas o que a sociedade não mais pode admitir é a falácia de que o
tráfico está localizado apenas nas favelas brasileiras. Está provado que não. E
como está! Por isso, cidadãos brasileiros, vamos vigiar, atuar, participar,
discutir, pressionar... Mas não nos deixemos mais enganar por aparências. Sim,
cidadãos! Por aparências!... Posto que muitos daqueles que discursavam exigindo
mais segurança para os cidadãos, – e criticando as ações
governamentais diante do perigo, – estão agora
trancafiados. Muitos dos que criticaram a construção de novos presídios foram
os primeiros a ocupá-los. Suas máscaras desabaram e foram ao chão. Os
criminosos são eles!
Contudo, encerrada a
bem-sucedida operação jurídico-militar-policial, que acarretou um estupendo
prejuízo ao narcotráfico em território nacional, com reflexos até no exterior,
deve a sociedade brasileira avaliar as causas deste fenômeno mundial, e partir
para a busca de soluções fora da esfera da simples repressão. Por menor ou
maior que seja, a repressão nunca representará sozinha uma boa solução, porque
atua apenas sobre os efeitos e não sobre as causas. Sim, porque só houve a
repressão porque falhou a prevenção.
Que a repressão
produziu excelentes frutos imediatos, não se discute; mas agora é hora de a
sociedade aprofundar a reflexão, de saber, afinal, qual a magnitude do uso e do
tráfico, o que é causa e o que é efeito, inserindo-se neste raciocínio o peso
de cada droga individualmente consumida na saúde geral da população, na sua
produtividade, e, por via de conseqüência, na economia brasileira. Pois é certo
que o álcool e o fumo, que são drogas malevolentíssimas à saúde coletiva do
povo, têm consumo lícito no Brasil, e não são menos nocivas do que as drogas
pesadas e ilícitas. Porém, há exemplos no mundo que indicam ser melhor a
licitude do uso de drogas do que o contrário, ou seja, do que criminalizá-las,
como sói ser aqui, e como tentaram no passado os norte-americanos com a famosa
Lei Seca, que só fez crescer o consumo clandestino de bebidas alcoólicas e
fortalecer a máfia naquele país. E vai aqui uma indagação: que mal é
percentualmente maior à população brasileira nos dias de hoje: o álcool, o
fumo, a cocaína, a heroína, o LSD, a maconha ou o que mais exista?...
Os EUA insistem em
destruir os plantios de coca em territórios de países produtores, especialmente
da Colômbia, que, segundo informações seguras, produz 90% da cocaína consumida
pelos filhos daquela superpotência. E aqui está o ponto crucial da questão,
pois enquanto os norte-americanos insistem em situar como causa a produção da
cocaína ao natural, há cada vez mais a convicção de importantes correntes de
estudiosos de muitos países que consideram o consumo a causa primordial do
tráfico, o que implicaria em os EUA investirem seus bilhões lá mesmo, na terra
deles, e em programas preventivos de grande envergadura, de modo a atacar o
gravíssimo mal pela verdadeira raiz, que está lá mesmo, no uso sistemático da
droga por milhões de norte-americanos. Portanto, não adianta muito investir em
aparatos bélicos para destruir plantios, somente, como se a solução do
narcotráfico fosse apenas esta; pois é certo que, enquanto houver procura,
haverá oferta, e plantios de coca em outros lugares...
Que fiquem as respostas
a estas questões por conta dos estudiosos, que não devem ter o pejo de fazer
emergir suas teses com maior vigor, de modo que a problemática do tráfico passe
primeiramente pelo uso da droga como causa, e pela educação do povo no sentido
de não usá-la, ou ainda pela necessidade de curar aqueles que a usam, através
de um controle eficiente e eficaz dos usuários. Sim, porque não se pode
combater o que não se conhece com exatidão, e não se pode admitir que a solução
deste gravíssimo problema permaneça restrita apenas à repressão de um mal que
nunca foi muito bem dimensionado, gerando assim um descontrole total e
inviabilizando a prevenção. Em resumo, passada a bem-sucedida repressão –
palmas para ela! –, é hora de se atuar firmemente na prevenção, tendo
principalmente como foco a saúde e a educação. Que a sociedade não deixe este
grave problema em mãos apenas de organismos estatais. Que haja repressão, sim,
mas que a ela se anteceda a prevenção e o conhecimento profundo do que
necessita ser reprimido. É o que este jornal finalmente sugere ao povo
brasileiro.”