quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O FIM DA UPP - POR FREDERICO CALDAS





Ainda não li o livro do estimado Coronel PM Frederico Caldas, mas o farei com prazer tão logo a ele tenha acesso (já encomendei). Porém, como escrevi bastante no meu blog sobre o tema UPP, sempre, claro, com minha visão crítica, porque estou geralmente a buscar contrastes e exceções como maneira de tentar melhorar o mundo, sei ele trará um toque especial de esperança, o que o torna ímpar. Digo assim porque o otimismo é da índole do Coronel PM Frederico Caldas. Também imagino, ainda sem ler o livro, que Frederico Caldas dever ter traçado o PM atuante em UPP como espécie de herói; e, se o fez, fê-lo muito bem, pois eles, apesar de tudo e dos pesares, conseguiram e ainda conseguem fazer a diferença por lá; já outros morreram tentando, e a imensa maioria não desistiu nem desiste da espinhosa missão de servir em UPPs dentro de favelas infestadas de malfeitores.

Não digo que a favela seja feita somente de pântanos; há por lá uma e outra flor de alegria em meio ao pânico dos tiroteios e das mortes de muitas crianças e adolescentes, de um lado, e de adultos e idosos, de outro, sem que nenhuma dessas pessoas tenha praticado na vida algum crime. Também não digo que na favela impera a indiferença entre os moradores, porque, contrariamente, é lugar da solidariedade orgânica, distante do que caracteriza a sociedade formal. Sim, a favela é marcante exemplo do que o saudoso Paulo Bonavides defende em obra dele: é “comunidade orgânica”, com todos os seus traços característicos de pobreza, indigência e miséria, a eles atualmente acrescidos os ultrajantes riscos de morte, além dos decorrentes do descaso público e das roubalheiras de brasileiros formais que se fingem solidários e se vestem de favelados em época de eleições.

Talvez lembrando Thomas Morus pudéssemos conceber uma “favela-utopia” a acolher pessoas aprofundadas em solidariedade e atendidas nos seus direitos básicos à saúde, à educação e à segurança, dentre outros indispensáveis à vida humana com qualidade. Mas hoje, em virtude do maldito tráfico de drogas e de armas de guerra sofisticadas, e principalmente devido à ganância humana, a vida favelada é um pesadelo que só cessa com a morte. Sim, a vida favelada, com ou sem PM, é corda bamba em razão da infestação do crime; e, quando entra em cena a PM, ela não consegue, como jamais conseguiu, tornar o ambiente favelado “uma ilha chamada Utopia”. Em contrário, acaba ampliando muitas vezes os riscos de quem não tem como se defender de nada, nem de traficantes e milicianos ou de PMs com eles guerreando para tentar pacificar o ambiente favelado.

Eis o quadro em que vejo a favela num contexto que bem conheço: um infeliz morador, adulto ou criança, sem saber para onde corre nem como se proteger dos inesperados tiroteios: do mal contra o mal ou do bem contra o mal, não importa, o efeito é o mesmo: sangue no chão das vielas maltratadas por um poder público corrupto que só pensa em favela apinhada de polícia, especialmente de PMs, como se estes fossem os “salvadores da pátria”; melhor dizendo, e as dignas autoridades sabem: PMs não passam de “buchas de canhão”...

Será que exagero?... Creio que não, o que não desmerece o esforço de milhares de oficiais e praças da PMERJ, homens e mulheres, que, lotados em UPPs, vêm se dedicando a “enxugar gelo”, expressão que “roubo” do ilustre mestre Coronel PM, Professor Universitário e Escritor Jorge da Silva para sintetizar meu raciocínio. Também creio, por último, e por outro lado, que o companheiro Frederico Caldas defenderá seu contraponto, porque é também real e não se trata de “enxugar gelo” no sentido particular do seu significado, tanto que não permitiu até agora que a PMERJ virasse as costas para muitos favelados que sonham, também, com aquela “ilha” de Thomas Morus, e sabem que se o PM repentinamente lhes virar as costas, como se a favela fosse espécie de “território inimigo”, a situação de paz e tranquilidade tão sonhada jamais será alcançada. Eta dilema!...

Sim, há todo um dilema a ser enfrentado por uma PMERJ que já morreu defendendo o solo pátrio contra o inimigo estrangeiro, que já enfrentou núcleos de comoção intestina ao longo dos seus mais de 200 anos. Sim, sim, há todo um dilema dentre muitos que se desdobrariam aqui como um círculo infelizmente vicioso, porque a permanência de PMs em UPPs, assim como a sua retirada, ambos significam morte de inocentes, em última análise. Que fazer então com esse programa, que, malgrado o excesso de mentiras quanto aos seus “planejamentos operacionais”, nasceu por acaso no Morro Dona Marta, como já confessou Beltrame?...

Quem sabe, talvez, o seu erro tenha sido o avanço apoteótico, tal como fizeram os exércitos napoleônicos em solo russo, e que terminaram derrotados pelo frio, pela fome e por doenças?.... Por tudo isso, creio, sim, e me arrisco a dizer que o livro do Coronel PM Frederico Caldas, que ainda não folheei, de algum modo trará o tema à discussão. E em boa hora. Pois, afinal, o dilema persiste, traduzido numa equação simples: se a PM se retirar das favelas em correria é demonstração de covardia de uma instituição que existe para demonstrar força e propiciar sensação de segurança ao cidadão em qualquer coletividade, rica ou pobre; se, por outro lado, permanecer nos atuais moldes, a demonstração de força dependerá de um fator primordial na seletividade do uso dela: superioridade numérica e bélica em relação ao inimigo. Hum...

Ah, sei que muitos não gostarão do vocábulo “inimigo” referindo-se a traficantes e milicianos! Mas como definir homens armados de fuzis andando em patrulhas nas favelas e impondo suas próprias leis?... Ora bem, é como Rousseau define "malfeitores" no seu Contrato Social... 

Agora irei ao livro do Coronel PM Frederico Caldas; e, mesmo sem conhecer seu conteúdo, sei que nele estará contida a verdade sob a ótica de um ser humano sabidamente otimista em seu exercício profissional, importante contraponto a pessoas, como eu, que não veem saída para as UPPs por razões nem tanto humanas, mas doutrinárias e pragmáticas, que têm na máxima frequência do patrulhamento no ambiente social como único formato democrático de ação da polícia administrativa, e que se resume na proteção igual do cidadão, seja favelado, seja aquinhoado (prevenção pela presença constante  e repressão como exceção). Agora sim, vamos ao livro!


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