quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Ah, essa tal sociedade...


Como todos que me visitam sabem, gosto de polemizar em torno de temas voltados para a segurança pública, geralmente focando a PMERJ e seus inúmeros erros e acertos. Nem tão pleno de saúde, mesmo assim me sinto em condições de voltar à ativa no meu blog, certo, porém, de que os assuntos serão repetitivos tais como se repetem no cotidiano das ações policiais especialmente em favelas. Porque nada muda: ora morre um PM, ora morre um bandido, e, infelizmente, desse confronto inevitável entre policiais e bandidos surgem vítimas inocentes, dentre as quais muitas crianças.
Chega a ser enfadonho comentar sobre essa tendência ao azar de crianças faveladas serem atingidas por balas perdidas. Aliás, sempre “perdidas” dentro da cruel lógica de que o labor policial em favelas dominadas pelo tráfico não pode parar. Eis, portanto, um círculo vicioso que perdura faz décadas, velha balança cujos pratos da repressão e da omissão oscilam de tempos em tempos sem jamais encontrarem entre si o equilíbrio. Ah, confesso que há momentos em que, atordoado, duvido da existência de Deus! Mas, no meu íntimo, eu sei que Ele existe; porém não entendo por que Ele permite a morte violenta de inocentes já submetidos à miséria de berço.
Nas favelas, morre-se de fome, doença ou tiro; nas favelas, o trabalhador finge que gosta do desconfiado bandido, e finge que gosta da desconfiada polícia, mas desconfia de ambos, de bandidos e policiais, pois deles recebe apenas repressões violentas. Sim, o trabalhador vive constantemente ameaçado e sabe que a vida de sua família está sempre na corda bamba, com a morte rondando-a indistintamente, de tal modo que ele pode sair para trabalhar e não voltar, ou se obriga a voltar antes por saber que um filho seu foi alcançado pelo azar da “roleta russa” dos confrontos inesperados entre policiais e bandidos, os primeiros sempre entendendo que cumprem missão legal, e os bandidos se achando no direito de enfrentar policiais. E nessa tormentosa rotina ficam no meio os favelados, como “mariscos”...
Não comento essa constância das balas perdidas matando crianças para execrar governos de ontem ou de hoje. Vejo a questão pela ótica da inércia de uma sociedade que não se preocupa com a segurança pública a não ser em se tratando da sua esquina e do seu rol de parentes e amigos. Mas esta mesma sociedade é boa de cobrar a ação policial, desde que seja longe dela, e nada melhor que nas favelas, de modo que os cidadãos formais possam ver na telinha da tevê apenas o sucesso de uma polícia que só combate bandido favelado e que as vítimas se restrinjam igualmente aos miseráveis favelados. Ao que parece, e enquanto for assim, tudo está bem...

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