sexta-feira, 15 de junho de 2012

A FARDA E A CRUZ


Não faz muito tempo, fui submetido a uma cirurgia no HCPM-Rio. E no meu sofrido ir e vir ao hospital, certo dia eu avistei um militar estadual envergando curioso uniforme de instrução azul-claro com uma cruz azul-marinho estampada no peito que não se assemelhava ao símbolo tradicional de resgate. Estranhei, sim, porque sei que uniforme de instrução não é para outro fim senão aquele que seu nome sugere. Mas, por economia, ele é muitas vezes utilizado em ações operacionais, para tanto complementado com aprestos de segurança, dentre outros destinados a ofertar o máximo de maneabilidade em confrontos ou em específicos serviços internos. Sei ainda que a farda é motivadora de fetiches e vaidades, eis que associada à força e à coragem, e, de certo modo, ela insinua que quem a veste não teme a morte. Mas o que me despertou a atenção não foi o uniforme em si: meus olhos se fixaram insistentemente na cruz destacada em azul mais escuro que o pano do uniforme. A princípio imaginei tratar-se de padre. Então indaguei de mim para mim: “Que faz o sacerdote no hospital? Estaria ele a acompanhar o desenrolar de algum evento operacional externo e viera atender a algum moribundo necessitando de extrema-unção?”...

Com a minha mente enfiada em interrogações, estiquei os olhos a tentar identificar o que me parecia um “ET”. Não resisti e disparei a dúvida ao ouvido dum velho PM, próximo de mim, que se deliciava de uma paçoca. Lambendo os beiços, e com um sorriso maroto no canto da boca, ele me esclareceu tratar-se de médico amante da referida farda. Confesso que também não resisti ao riso ante a inusitada cena, pois, se o médico estivesse voltando ou indo para a linha de frente de algum combate, talvez a vestimenta se justificasse, exceto a cruz... No entanto, percebi que ele ia e voltava ali mesmo, no hospital, com sua pimpona farda a me confundir. Ah, não sei de quem terá sido a má ideia do designer, mas o uniforme lembrou-me uma especulação do mestre Machado de Assis, – talvez filosófica, psicológica ou psiquiátrica, – em seu magnífico conto "O Espelho":


"Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro..."


Duas almas... Ainda atônito, pus a minha “alma de dentro” a cismar... E gargalhei à surda em vista do inusitado: era efetivamente um médico pronto para algum combate que não deveria ser de médico, mas de militar em linha de frente ante o fogo inimigo. E mais pensei: “Estaria ele indo para alguma instrução em local que fosse outro?” Enfim, e segundo o conceito do uniforme de instrução, que, aliás, muito utilizei em momentos e lugares certos, recebendo ou ministrando instrução militar na selva e em quartéis, ou enfrentando facínoras em favelas, dentre outras situações apropriadas à veste azul-marinho, achei-a imprópria ao local e à pessoa; ou, mais precisamente, achei-a ridícula. Claro que não me refiro ao seu conteúdo (o corpo), mas ao estilista que a concebeu em momento de transe psicótico. Contudo, não nego que Machado de Assis, – a cada olhada de soslaio que eu dava para o curioso uniforme, – vinha-me insistentemente ao atino ou ao desatino com seu lapidar dizer:

"O alferes eliminou o homem!"


Por favor, leiam o conto!...

E não mais se apagaram de minha mente a frase machadiana e a imagem da farda com a cruz simbolizando sei lá o quê, e com tal intensidade que não me lembro da figura humana nela enfiada; nem sei se ostentava insígnias ou galões, pois fiquei pregado à cruz!... É que, acostumado à instrução e ao confronto por trinta anos, e também ao uso de uniformes certos em lugares certos, geralmente designados em boletim, confesso que me atordoei ao ver um médico despido do seu majestoso uniforme branco, como, aliás, vestem-se todos os médicos e enfermeiros, de ambos os sexos, naquele hospital e algures, com as mulheres envergando saias ou calças femininas. Sei também que os símbolos dos postos e graduações possuem lugares predeterminados no uniforme militar, e que é normal o uso de complementos indicadores de cursos, medalhas de mérito etc. Mas uniforme de instrução com aquela cruz estampada?... Que esquisito!... Enfim, não resisti em adaptar a insólita visão ao alferes machadiano do conto, para assim aplacar o meu espanto:

Ih, o militar eliminou o médico!

10 comentários:

Anônimo disse...

Talvez esse Dr. Rambo esteja esperando alguma invasão da Al-Qaeda ao hospital... Daqui a pouco ele vai revistar até as velhinhas 90 anos internadas pra averiguar se elas tem armamento pesado escondido em suas calçolas ou misseis acoplados em suas bengalas!

Anônimo disse...

É duro para o cara que sai de manhã de casa, e, não sabe se vai voltar no fim do dia, que realmente troca tiros com vagabundo, ver este palhaço fazendo pose no pátio do HCPM com mug e coturno, e com a arma no coldre. Eu queria ver ele com um bandido cara a cara. Vai sair gritando igual a uma garotinha.

Anônimo disse...

Bom, Misoca, bom não, excelente.

Apenas à guisa de somar dados:

1. Na época da "gratificação faroeste", mais de um médico e/ou dentista, cavaram promoções e /ou gratificações em Operações Policiais Militares,fardados de azul e aprestados;

Obs. O caçador de recompensa eliminou o médico!

2.Dezenas de Oficiais trocaram a farda pelo terno de Delegado estadual ou federal. O que se ve é que essas pessoas se especializaram no proceso lento e gradual de destruirem a PM.

Obs. O Delegado eliminou o Oficial/PM!

Poderia deixar aqui outras contribuições, mas ficará cansativo, e tecnicamente acredito que já deu para generalizar o que infelizmente está parecendo uma lei cientifica, ora por sobrevivencia, ora por ódio institucional acumulado. Mas o que importa é que ela já vai para 204anos....

Belzeba

Anônimo disse...

Acho que este Oficial não passa de uma caricatura de Policial Militar combatente, que na qualidade de Médico, deveria cuidar da saúde dos Policiais Militares e do HCPM, mas ao invés disso, vive por aí andando pelo hospital armado até os dentes, fazendo discursos ufanistas, delirantes e por vezes desconexos. Enquanto isto, o HCPM está uma porcaria, um caos. Falta tudo. Faltam médicos e enfermeiros, faltam leitos, material. Isto sem falar na sujeira e mal cheiro. Nem a cantina existe mais...precisamos de um novo HCPM!

Emir Larangeira disse...

Prezado anônimo

ressalvando que eu realmente não identifiquei a pessoa que envergava o chamativo uniforme de instrução, o que não me impediu de achá-lo (o uniforme) ridículo e criticar quem o concebeu (designer), devo-lhe dizer que o HCPM-Rio, na minha avaliação superficial, não mais suporta a demanda do Público Interno, hoje por damais numeroso. Daí não ser má ideia um novo hospital (nós o merecemos!), e não é preciso vender quartéis para tanto, basta o Estado repassar à PMERJ o nosso dinheiro do Fundo de Saúde, descontado do nosso salário, que é suficiente para construir um novo HCPM-Rio, podendo-se pensar na venda do velho hospital para investir no novo, que deve ser localizado de modo a facilitar o acesso da tropa e familiares, quase todos residentes na Zona Oeste e na Zona Norte. Vejo neste artigo que escrevi uma boa provocação a ser direcionada positivamente para o pleito do novo hospital, sem essa de ser construído com a venda de quartéis, mas com o nosso dinheiro que permanece estagnado no tesouro estadual.

Anônimo disse...

Este negócio de brincar de polícia por parte de alguns oficiais de saúde já está ficando ridículo...é treinamento no BOPE, desfilando de fuzil, subindo morro durante a instalação das UPPs...caramba, o que precisamos na PMERJ é de Médicos e Enfermeiros para cuidar dos doentes! Subir morro e trocar tiro é missão de combatente.Cada macaco no seu galho, cada um no seu quadrado.

Papo De Bombeiro disse...

Vai ver que o Oficial de saúde, passou pelas Forças Armadas ou foi PM combatente. O importante é que eles estava por la, trabalhando e orgulhoso da sua farda e de seus distintivo adquirido certamente por méritos!
Quanto ao fundo Padrinho o Governo é obrigado a da uma contra partida para cada valor da contribuição dos PM e BM para o HcPM/RJ e HAP ou HCB . Isso foi acordado no governo Garotinho,porém parece que esqueceram do compromisso.

Emir Larangeira disse...

Dileto amigo

Eu não fiz nenhum julgamento de quem vestia a farda, mas do estilista, que, no meu modo de ver, não foi feliz ao concebê-la. Quanto à motivação de quem a vestia, insisto que há tempo e lugar para o militar envergar seus diversos uniformes e pode ser que houvesse motivo justo para o oficial estar vestido com uniforme de instrução ou combate, em vez do uniforme branco que padroniza o dia a dia hospitalar militarizado. Por outro lado, mormente no meu tempo de atividade, o boletim determinava diariamente o uniforme a ser vestido pela tropa. O próprio nome ("uniforme") diz a que veio, não é mesmo?... Veja no Aurelião o conceito de "uniforme", que você me entenderá melhor, pois meu comentário tem a ver com conveniência e oportunidade e no militarismo vale o escrito. Já pensou se cada militar lotado em quartel escolhesse a farda que mais lhe aprouvesse... Que bagunça!...Enfim, imagine eu, reformado, me enfiando em uniforme para matar a saudade dos galões e medalhas. Vontade eu até tenho de quando em quando... Mas concretizar o ato resultaria cadeia ou hospício, em ambos os casos merecidamente.
Abraços ao amigo.

Emir Larangeira disse...

Para não ser cruel com o amigo, vai o texto do Aurelião:
uniforme

[Do lat. uniforme.]
Adjetivo de dois gêneros.
1. Que só tem uma forma.
2. Que não varia.
3. Semelhante, análogo, idêntico.
4. E. Ling. V. comum de dois.
Substantivo masculino.
5. Farda ou vestuário confeccionado segundo modelo oficial e comum, para uma corporação, classe, grupo de funcionários, etc.
6. Vestimenta padronizada para determinada categoria de indivíduos:
“O motorista de uniforme debruado tirou o boné em curva homenageante.” (Genolino Amado, O Reino Perdido, p. 31.)
7. O conjunto do fardamento, insígnias de posto, graduação, função ou especialização, e de condecoração, em uso pelos militares:
Via-se no retrato um capitão em uniforme de gala;
Ali era obrigatório o uniforme de campanha.
8. Bras. N.E. V. terno1 (4). [Cf. oniforme.]

Anônimo disse...

O militar em questão JAMAIS foi das Forças Armadas, JAMAIS foi combatente e não conquistou esta farda por méritos, já que ela existe, e só é vestimenta de médicos em algumas ocasiões muito excepcionais. Não vejo a mínima necessidade deste militar desfilar armado pelo pátio do HCPM ou por seus corredores, e pior, enquanto o hospital agoniza pela falta de recursos materiais e humanos, o militar posa de combatente subindo morro e fazendo pose para fotos na Bandeirantes e no Facebook, acompanhado de um fã clube também fardado(oficiais da saúde de mug e armados). O HCPM, a Saúde e a PMERJ precisam de Médicos e Enfermeiros, não de factóides de combatente. Os médicos da PMERJ têm a missão de cuidar da saúde dos combatentes, para que estes possam combater. O combate do médico é no centro cirúrgico, no ambulatório, ou na emergência. Quer ser combatente? Faça prova para o CFO, passe três anos na APM ralando e depois, se tiver coragem siga a carreira. E tenho dito.