quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Minha vida III

Narro alguns momentos da minha vida numa sequência de fatos documentados, de modo a provar que todos eles se entrelaçam em nojosa intimidade. Pretendo que os leitores, ao final, concluam comigo sobre como se deram as trapaças da comunidade de informações da PMERJ, e por que elas desabaram contra mim desde o episódio do DOPS da Polícia Civil no antigo RJ (Minha vida I), e até hoje talvez se mantenham ativas nos meandros da PM.2 da PMERJ como espécie de cultura específica ou questão de desonra de quem não a possui por demérito de futricas oficializadas sem temor de punição.
Cabe neste ponto esclarecer que o chefe da comunidade de informações naquela distante época em que a celeuma tomou corpo era o então o TCel PM Valmir Alves Brum. E tudo se inicia a partir de orquestrado reconhecimento de PMs em vista do desaparecimento de onze jovens da Favela de Acari, fato supostamente ocorrido em julho de 1990, em tempo de comando do TCel PM José Ivan da Silva, que assumiu o nono batalhão em abril daquele ano, substituindo-me por eu ter requerido passagem para a reserva remunerada. Enfim, e para deixar bem claro, quando houve o suposto desaparecimento dos jovens e suas namoradas, eu não mais comandava o nono batalhão.
Feita a ressalva, devemos avançar até o final de 1991, quando eu já cumpria mandato parlamentar por quase um ano. Como eu me comprometera com meus companheiros da PMERJ ser representante da categoria, missão à qual me dediquei fielmente, e como sempre há PMs em apuros, convidei para compor minha equipe de trabalho dois advogados: Dr. Jorge Antônio da Silva e Dr. Adilson Rosa. O primeiro, por mera coincidência, vencera as eleições para a presidência da Seccional da OAB do Município de São Gonçalo, destacando-se, posteriormente, como um dos 25 notáveis da OAB/RJ.
Estava eu no gabinete, numa tarde, quando recebi telefonema do PM Paulo Roberto Borges da Silva, já falecido, comunicando-me que seria, no dia seguinte, apresentado à SSP para participar de reconhecimento como suposto extorsionário do tal grupo dos “onze de Acari” supostamente desaparecido no mês de junho ou julho de 1990, época, por sinal, que o PM em servia no Batalhão Florestal, lá em São Gonçalo, não mantendo qualquer vínculo com o nono batalhão, o que tornava a acusação inviável na origem e, portanto, leviana. Nervoso, o PM me informara que a orquestração partia de advogado dos traficantes homiziados na favela de Acari, juntamente com as tais “mães de Acari” e um agente da PM.2, capitão Odilon.
O cenário, sem dúvida, era de trapaça comandada pela PM.2 de Valmir Brum, este que depois se autodenominaria um “grande homem da polícia, grande investigador etc.” num livro de Carlos Nobre que mais à frente nominarei. E lá ia ele a passear pra lá e pra cá com as tais “mães de Acari”, assim recebendo fama midiática e aplausos da esquerda amante do caudilhismo que governava o RJ, e da qual eu era franco oponente.
Diante do pedido do PM, solicitei ao Dr. Jorge Antônio da Silva que acompanhasse o “reconhecimento” e o patrocinasse, caso fosse necessário. Com este escopo, fomos ambos à SSP. E, enquanto o “reconhecimento” se desenrolava num andar baixo (creio que 4º andar), eu me dirigi ao gabinete do Dr. Nilo Batista, no último andar, para cumprimentá-lo e manifestar minha apreensão ante a orquestração da PM.2 em plena sede da Polícia Civil. E de lá me retirei sem tornar ao local do “reconhecimento”... Muito bem, melhor que contar como esta trapaça se deu é transcrever um trecho da entrevista da mãe de Acari, de nome Edméia, prestada ao Jornalista Carlos Nobre, autor do livro “Mães de Acari, uma história de luta contra a impunidade”. Este livro, aliás, será mui referido por mim na sequência de artigos que escreverei com o mesmo fim, especialmente porque no tal livro eu sou o vilão da história e Brum, o grande herói. Sim, o livro acabou se tornando um primor de prova das loucuras e tramóias que se desenrolaram naquele período midiático-esquerdista-ilusório-remunerado. Eis uma fração de texto sobre o tal reconhecimento e parte da conversa entre Edméia e Carlos Nobre, que afirma no seu livro tê-la gravado como está por ele transcrita e pode ser lida em integral teor. Eis o que disse Brum a Carlos Nobre, o que também está no livro:

(...) O jornal revelou que o deputado-militar Emir Larangeira tumultuara o reconhecimento dos policiais militares, na Corregedoria da Polícia Civil. Larangeira confessara ter melado o reconhecimento que, para ele, teria sido uma farsa montada pela Polícia Militar. A interferência e participação do deputado Emir Larangeira, de fato, tornou polêmico o reconhecimento, segundo reconhece próprio Brum. — A presença de Larangeira, certamente, atrapalhou...

Sem comentários... Eis então um momento primoroso da entrevista de Edméia a Carlos Nobre:

— A senhora reconheceu alguns dos PMs que fizeram a extorsão?
— Não. Eu não estava em condições, mas a menina reconheceu. Um ano depois, a Rosângela reconheceu todos eles.
— Quem mais participou do reconhecimento?
— O advogado, o Salvador. Estava também o advogado do Larangeira e o capitão Odilon, que investigava o caso com o coronel Brum. Eu não reconheci nenhum. Quem eu conhecia não apareceu. Então, enquanto a menina reconhecia, o Salvador falou: Eu vou reconhecer porque quero ajudar vocês. Isto é muita bagunça, é muita sacanagem. Onde estão nossos polícias? Isto é o Salvador falando. Mas tava de truta com eles, né? (...). Ele, o advogado falou: eu vou reconhecer primeiro. Depois você reconhece (...). Pra ele não fazer o reconhecimento... Ele abandonou a gente. Passava PM e ele nada...

Ora bem, eu não permaneci no local onde se dava a orquestração, como já afirmei e Edméia deixa claro. Mais fácil ainda é concluir qual a função do advogado dos traficas, que ficou nervoso, sim, tal como o capitão da PM.2 ao me avistar, demais de fingir não ser ninguém no ambiente até eu o cumprimentar de caminho para deixar claro que ele não me passara despercebido. Mas o capitão cumpriu a parte dele na arapongagem produzindo um relatório para o seu chefe, Brum, nos termos em que eu teria “atrapalhado” o tal “reconhecimento”. A verdade é que ele, sim, se atrapalhou ao ser flagrado na tramóia, e por ver no recinto, e fora do seu controle, um advogado presidente de Seccional da OAB pronto a observar o “reconhecimento’ como patrono do PM que me solicitara ajuda. É desse episódio que emerge a primeira trapaça urdida pela comunidade de informações, geradora do epíteto “Larangetes”, em alusão ao meu nome de família: uma pequena nota cifrada e publicada em matéria paga nos classificados do Jornal Estado de São Paulo ,de 04 de dezembro de 1991, nos seguintes termos:

LARANJETES. Waldir, Carlos Alberto e Celso ficarão impunes. Cerca e Eira os protegerá para que Laranjeira continue a dar frutos podres. A brisa da orla precisa limpar seu quintal no Rio.

Claro que a notícia enviesada, típica de araponga (Cerca e Eira é Cerqueira e Brisa da Orla é Brizola), repercutiu e iniciou um embate público entre mim, o Cel Cesar Pinto, amigo de Brum, que comandava o novo batalhão, e o próprio Brum. Mas, enquanto a troca de farpas acontecia, ingressei com ação judicial no sentido de identificar a fonte da matéria. O Estadão forneceu todos os dados da matéria paga, inclusive nominando seu patrocinador, Sr. Arthur Marques Henrique Filho, assessor parlamentar da então Deputada Federal Regina Gordilho, do PRONA, partido neofascista brasileiro. Enfim, a trama veio à tona com todos os seus personagens: Regina Gordilho era ligada aos dois oficiais e prova maior não poderia haver: ambos guardavam nas algibeiras suas pretensões políticas e se candidataram a deputado (federal e estadual) em 1994, adivinhem por qual partido?... Vejam as notícias e demais documentos:



































Como estou indo por partes, e para não cansar o leitor nem perder o fio da meada, vou parando por aqui até focar outro ato protagonizado anos depois pelo então TCel PM Valmir Alves Brum, por sinal gravíssimo, e que permanece presente em nossas vidas, minha e dele, não me cabendo saber o desfecho da história. Mas não posso deixar de trazer à reflexão dos leitores uma nota oficial da PMERJ em vista da atuação de Brum no episódio que ficou conhecido como "lista do bicho", com as desculpas pela péssima qualidade da imagem. Mas vale o conteúdo:



Um comentário:

Sérgio Borges disse...

http://ondeoventofazacurvalagoinha.blogspot.com/2012/02/minha-vida-v.html#links