quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sobre a liberdade e a servidão

O poder do rei-nanico






Havia, num tempo remoto, um reino próspero e um povo feliz. A família real vinha de muitas gerações e sempre reinava o primogênito da geração seguinte. Não era grande nem pequeno o território real, mas dotado de apreciáveis recursos hídricos e solo feraz. No topo das montanhas vicejavam as florestas milenares e de lá brotavam as fontes de águas puras que serviam ao povo sem discriminação. A fauna e a flora formavam um ecossistema perfeito. Os peixes prateavam os rios e lagos e praticamente não se precisava plantar o alimento; tudo emergia da terra como dádiva dos céus; a variedade de frutos permitia arranjos lindos às refeições de todas as mesas dos abrigos bem-feitos por artesãos motivados. Todos se ajudavam mutuamente, não havia o egoísmo entre as pessoas; dividiam e comiam o que caçavam e pescavam, de modo que nada lhes faltava; produziam vestimentas de couro e dominavam as técnicas rudimentares de fabricação de tecido de algodão; não sentiam fome nem frio; desconheciam o medo do presente e do futuro.
Tal regime de felicidade e de liberdade era atribuído à divindade do rei, que visitava cada abrigo familiar e interagia com seus súditos como pessoa quase comum. Só não o era porque quando passava todos se curvavam em reverência antes de olhá-lo frontalmente e receber seus sorridentes bons-dias. E assim muitos lustros escorreram, com o povo vivendo naquele maravilhoso vale protegido por montanhas que impediam visitas incômodas e prováveis ataques de conquistadores, embora todo o povo treinasse artes de guerra para a defesa contra algum invasor. O perigo, entretanto, era mínimo, tanto que não havia leis, normas, exércitos nem coortes policiais a atalhar desavenças entre os cidadãos. Sem egoísmo ou cobiça, e sem propriedades particulares a disputar, não havia por que lutar entre eles.
Vivendo em regime de paz e fartura, era raro alguém adoecer; o povo nascia e crescia forte e saudável, todos alcançavam alturas incomuns, os homens mediam 1,80m ou mais e as mulheres alcançavam 1,70m com facilidade. Mas como a Mãe-Natureza costuma pregar peças, o reino recebeu um primogênito não sem preocupação: nasceu prematuro e pequeníssimo, alcançando a idade adulta sem ultrapassar 1,40m.
A anomalia obrigava o povo a se dobrar além do normal, em reverência, quando da passagem do príncipe-nanico. Ele, por sua vez, foi acumulando uma ira somente contida a medo dos pais. Em silêncio, tornou-se ódio puro de corpo e mente. E assim o inexorável e indiferente tempo escoou, com o príncipe-nanico ocultando seus reais sentimentos, até que seus pais morreram e chegou o seu momento de assumir a divindade do rei-pai: entronizou-se o rei-nanico.
Ainda sem rainha, vergonhoso do seu tamanho ante as mulheres do reino, intentou localizar em outros reinos uma pretendente menor que ele. Não lhe foi possível, o que ampliou o seu ódio contra os próprios súditos, embora todos os reverenciassem curvando-se a uma altura menor que a dele. Na verdade, encostavam a fronte no chão e se encolhiam ao máximo para cumprir a reverência, o que faziam, porém, com gosto e amor pelo rei-nanico, para eles um ser divino.
Nem assim o rei-nanico suportava sua diferença física. Esquecia-se até de estudar para melhor conhecer os mistérios da vida e do mundo e a cultura de seus antepassados. Dedicava-se apenas a destratar seus súditos. Mas o povo, crendo na divindade do rei-nanico, considerava o seu comportamento como desígnio dos céus e aceitava passivamente a condição de inferioridade, que culminou com a absurda ordem no sentido de que todos os súditos andassem de quatro, como os animais, com o olhar apontado ao chão, única maneira de o rei-nanico tornar-se mais alto que todos. Não livrou do castigo nem mesmo aqueles servos que o rodeavam, dele cuidando com o máximo de gentileza.
Dia após dia, mais irritado ficava o rei-nanico esperando que algum súdito o contestasse ou descumprisse a ordem real. Porém, todos os súditos o obedeciam cegamente e demonstravam alegria por qualquer castigo recebido. Até mesmo os mais distantes súditos, alojados nas fronteiras do reino, andavam e trabalhavam andando como animais, mantendo-se assim até nos momentos mais íntimos. Entendiam que a decisão real era divina e mantinham-se em alegre circunflexão mesmo ao deitarem para dormir.
Incapaz de punir algum recalcitrante, o rei-nanico determinou que todos os seus súditos assumissem a condição de escravos, determinando-lhes praticar sacrifícios de seus primogênitos em sua honra. Silenciosos, conformados, e ocultando a tristeza em acenos de alegria, os pais eliminavam seus filhos em honra do rei-nanico, este que se demonstrava satisfeito com a cega obediência que lhe prestavam em todo o reino, de tal modo que ele não carecia de fiscalizar o cumprimento de suas ordens, sempre consideradas divinas. E o povo, com o tempo, nem mais se lembrava de andar ereto...
Sem que o tresloucado rei-nanico percebesse, a população foi aos poucos diminuindo. Os casais não mais procriavam e a população, vivendo em promiscuidade e na sujeira, sucumbia assolada por epidemias. Isolado em seu castelo, quando surgia em público era tão festejado que não notava que seu reino estava arruinado. Jamais apontava os olhos para baixo a ver aqueles maltrapilhos e adoentados que lhe estavam próximos. Só avistava os corpos encurvados e distantes e lhes via os trapos com os quais mal se encobriam. Ficava satisfeito ao perceber que a cega obediência às suas ordens não se alterara. Nada mais havia a ordenar ao povo, nenhuma lei, norma ou ordem real. Tornou ao castelo com o cenho franzido, não lhe ocorria idéia nova para destilar seu ódio contra os súditos: eles se contentavam com a servidão como se fora prêmio divino.
Em pouco tempo a morte dizimou todo o povoléu do reino, sobrando vivo somente o rei-nanico e um servo já decrépito, doente, no fim da vida. Sem olhar para baixo, nem notara que lhe faltava pouco para ficar totalmente só. Somente abriu os olhos para a realidade quando ouviu uns gemidos ao pé dele: era o servo expirando em seus últimos momentos. Ao perceber que o servo morria, mesmo assim determinou-lhe que se movesse aos seus serviços. O servo lhe respondeu, desculpando-se em pranto incontido, que não conseguiria cumprir a ordem do seu rei, pois não mais conseguia se mover. Ainda lhe pediu que usasse seus poderes sobrenaturais para curá-lo, e assim ele poderia permanecer na servidão com a qual se sentia honrado. Atônito, o rei-nanico viu o leal servo esparramar-se diante dele: morto.
O rei-nanico levantou-se do seu trono e decidiu pela primeira vez mirar o chão. Já no salão real espantou-se com os corpos de muitos escravos em podridão fétida, miasma que suas narinas não mais captavam devido à familiaridade que adquirira com o passar do tempo. Aí sim, apavorado, foi até a sacada e olhou o seu reino. Nada viu além de cadáveres e ratos circulando entre eles em espetáculo dantesco. E finalmente concluiu que se tornara servo do seu próprio poder, servo dos seus servos. Não podia libertar ninguém e nem se libertar. Não podia viver sem eles. Ciente disso, e tomado por profunda infelicidade, galgou em desespero a escadaria da torre mais elevada do castelo. Em chegando ao topo, concentrou-se no poder divino que cria possuir e se lançou para os céus imaginando não alcançar o mesmo fim terreno dos seus servos. Mas a gravidade, um dos muitos atributos milagrosos ou misteriosos da Mãe-Natureza, cuidou então de sua queda, e seu pequeno corpo espatifou-se no chão como qualquer mortal. O rei-nanico tornara-se servo de si mesmo e vítima do seu último ato. Morreu, porém, pensando ser deus, com o Universo mantendo sua eterna indiferença ao clichê do reino-do-faz-de-conta: “E viveram felizes para sempre.” Felizes ou infelizes, reis ou servos, sendo ou não cumpridores de leis, normas e dogmas, todos se igualam ante a morte inevitável, como ontem aconteceu e amanhã acontecerá com opressores e oprimidos, tanto faz como tanto fez. É, enfim, tudo ilusão, a relação de poder senhor-escravo termina sempre com ambos no túmulo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Interessantíssimo esse texto. Vc que o postou está de parabéns. Se não for incômodo: onde tem mais desse?

Rita S. Coelho disse...

Parabéns, excelente!
Como todo bom escritor, nesse texto você nos leva a refletir sobre vários assuntos: o poder, a servidão,a ilusão, o conformismo, a igualdade, a finitude etc.
É certo que morte do corpo, de certa forma iguala a todos. Todavia, áquele que cumpre bem sua missão (assim como você), ficará eternizado através de suas obras.

José Ricardo disse...

Excelente!