DO GETULISMO AO BRIZOLISMO
EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA
(Ainda não editada)
Foto histórica: Caserna General
Castrioto
Sede do comando da Guarda da Província
Fluminense
Niterói
2020
O
GETULISMO AO BRIZOLISMO
EMIR
LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA
DEDICATÓRIA
Ao mestre, amigo e
compadre, Coronel PM Jorge da Silva, que me encorajou a enveredar pelos
caminhos da literatura e me aconselhou ao longo de minha carreira (in
memorian).
À Família Pessanha Larangeira,
que, vinda de Portugal, vem honrando seus antepassados e mantendo firme sua
identidade de Pessanha com dois “SS” e Larangeira com “G”.
À família Paraquett, à família de
Lédio Ribeiro, à família Soares (João Batista), sustentáculos de minha vida.
Aos veteranos da PMERJ,
desdenhados pelo sistema político do RJ, porém aguerridos na defesa da
Corporação contra tudo e todos.
Aos companheiros das PMERJ e PCERJ injustiçados pelo
brizolismo e por governantes posteriores, sem distinção.
Aos PMS e BMS
brasileiros, ativos e veteranos, combatente até a morte”
Aos insignes Magistrados
e Promotores de Justiça que entendem o sacrifício da PMERJ, mantendo-se
obedientes às leis, mesmo as contaminadas por ideologias.
Aos insignes Defensores Públicos,
Advogados e Estudantes de Direito, dos quais a PMERJ muito necessita.
Aos insignes Policiais
Civis, Policiais Penais, Policiais Federais e Policiais Rodoviários federais
sempre solidários e valiosos.
Aos insignes Guardas
Municipais em nova roupagem legal, que se somarão ao labor da segurança pública
e serão bem-vindos à luta.
Aos insignes integrantes
das Forças Armadas, ativos e inativos, dos quais precisamos da ajuda para
combater a calamidade do banditismo urbano, expressão cunhada pelo Coronel da
FAB Coriolano Luiz Tenan, especialista em Defesa Civil.
A todos os enlutados da família policial, em especial às pensionistas
especiais cujos esposos morreram ou foram feridos em combate ou adquiriram
doenças físicas e mentais por conta do exercício da perigosa profissão Policial
Militar, esta, que os leva à morte precoce, porém sempre incompreendida.
A meus filhos e netos, a
meus irmãos, a Evanir Larangeira, meu “irmão-filho”, in memorian.
Aos cidadãos e cidadãs
brasileiros do BEM: do asfalto e da favela.
DO
GETULISMO AO BRIZOLISMO
EMIR
LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA
APRESENTAÇÃO
Não sei como designo
este texto, se romance, se documentário, se biografia, sei lá. Sei apenas que
ele me veio bem mais da emoção, - a princesa dos azares, - do que da razão, - a
rainha da premeditação. Seja como for, vou em frente, ora em atino, ora em
desatino, não há como medir as coisas da vida nem da morte, tudo é muito veloz
e aleatório, tal como na Física Quântica e suas partículas subatômicas que
constituem o infinito Universo das Galáxias e das Estrelas que viajam em
eternidade num vazio do antes e do depois do big bang. Posso dizer ao
amigo leitor que passei mais de um ano para descrever a precoce morte do meu
pai, e o que me viria após esse atroz sofrimento. Confesso, sim, que me foi
quase impossível, e muitas vezes desisti de escrever esta minha biografia a
partir deste ponto crucial.
Vencida esta emoção,
todavia, a história em si se me apresentava com outro obstáculo: ou eu narrava
etapas de minha vida, alternando emoção e razão, ou me deixava vencer pela
emoção e me prenderia à família, indo de geração em geração, o que, ao fim e ao
cabo, não passaria da construção de uma “árvore genealógica. Não era meu
propósito.
Com essas dúvidas no
espírito, determinei-me narrar uma coisa e outra (razão e emoção), tentando
equilibrar o fiel da balança. Assim segui em frente até o desfecho, num
processo de triagem de fatos e versões que tornaram o texto quase que pedra
de Sísifo a ser carregada nos meus costados.
Como todos poderão
verificar, eu não poupei críticas. Fi-las, porém, com sinceridade, para que o
leitor saiba que nem tudo foram flores a partir da Fusão do RJ com a GB, em
1975. Os conflitos foram reais e intensos, por minha culpa ou por culpa dos
meus detratores, não me caberá julgar, mas apenas registrar o que de fato
aconteceu a partir do meu máximo exemplo de inconformismo, sendo certo que a
maioria, de um lado e de outro, talvez tenha optado pelo conformismo ou pelo aproveitamento
de oportunidades, ajustando-se a quem mandava mais no contexto corporativo, o
que não poderia ser meu caso, meu espírito inconformado não me permitiria.
Enfim, entre trancos e barrancos, concluí o texto,
ou quase, pois é certo que me lembrarei de outros assuntos de caminho até a
publicação definitiva do livro, o que é normal. Afinal, a releitura me poderá
permitir a sorte de algum relance literário, de alguma jogada de estilo, como
nos recomenda Gladstone C. de Melo no seu “Ensaio
de Estilística da Língua Portuguesa”. Ler muitas vezes o texto até surgir o
“estalo” é preciso. Haja esforço!
Muito bem, a sorte está lançada, fixei meu nome como título porque é o
do pai, de quem herdei de pia o mesmo nome; é, enfim, a história dele misturada
à minha, como consequência da dele, sem preciosismos ou pieguices. Afinal,
prezado leitor, esta é apenas uma dentre bilhões de histórias de vida, que, “se
escritas, dariam uma grande aventura”, como nos brindou Jean-Paul Sartre. Com
efeito, poderia ser aqui, também, sua própria história.
Vamos então à aventura e seja o que Deus quiser!...
O GETULISMO AO BRIZOLISMO
EMIR
LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA
PREFÁCIO
Junto as minhas
mãos em concha desesperançada. Tento segurar o tempo que me escorre entre meus
dedos e me deixa de mãos vazias. Não há como fazê-lo, ele parece mágico,
impalpável, implacável, o único dono do meu destino.
Conformo-me. Que
fazer contra o tempo?... Nada. Não há como vencê-lo, ele finge não existir e
segue sua finalidade eterna, enquanto eu me espanto ante a realidade do fim do
meu caminho cada vez mais próximo. Fico imaginando o porquê de ter nascido.
Tento ser individualista nesse pensamento e não consigo, pois logo me ponho a
pensar nos meus filhos.
Vim ao mundo por
meu pai e minha mãe; fiz o mesmo: postei no blog da vida a minha ninhada. Mas
me indago sempre: “Para quê e por quê?” Não sei. Não encontro resposta a não
ser no outro que a mim se assemelha e no mundo estranho que me rodeia, mundo de
alegrias extremas e de infelicidades desastrosas.
Que mundo é este?
Que universo tão incógnito é este no qual, aparentemente, estamos dentro dele
como parte ínfima e íntima. Quem somos nós? Eis a pergunta que percorre o mundo
e movimenta o pensamento humano. As respostas não me convencem, estou certo de
que não me há o direito de saber. Então, como me vou situar em privilégio por
viver a vida? Que paradigma posso adotar para me justificar a mim o meu
existir? Não sei... Não sei.
Volto ao passado
e às lembranças da infância. Lembra-me vagamente a casa dos primeiros anos e as
imagens fragmentadas de mim mesmo e dos que me rodeavam: a família. Lembra-me
São Gonçalo, a casa da frente e a meiágua dos fundos. Na frente, lembra-me a minha
avó paterna, a minha mãe e o meu pai. No quintal, lembram-me os primos que
atrás moravam.
Tudo simples,
chão batido, casa de pobre, decente. Lembra-me, entre uma casa e outra, um
quarto; nele, um homem definhando numa cama: meu tio Acyr, ex-sargento da PM e
depois comissário da policial civil, que logo sairia do mundo levado pela
tuberculose, dando-me tempo de ver seus pés amarrados um ao outro indo embora
para sempre. Não me lembra choro de ninguém, eu não entendia o que ocorria, mas
me dava certo alívio por saber que aquele homem não mais me provocaria temor.
Motivo para temor? Não havia. Mas ele, o temor, me tomava a alma toda vez que
eu cortava o quintal entre a casa da frente e a meiágua de trás.
Depois, parece
que o tempo se esqueceu de mim, ou me esqueci do tempo, não sei. A memória me
retorna vivendo em Campos dos Goytacazes. Agora estou numa casa enorme, perto
da estação do meu trem; uma chácara apinhada de árvores frutíferas. A estação
ainda existe em processo entrópico; não mais existe a casa, somente a estação
envelhecida. Fase boa, porém estranha, meu pai vivendo nos roçados de Santo
Antônio do Imbé, mata virgem situada em Conceição de Macabu, município próximo
de Campos. Fase boa, tempo bom, sim, meu pai e eu, juntos, na roça, ele sendo
chamado pelos camponeses de “Seu Luís”. O nome dele era Emir. Nada de “Luís”.
Eu não entenderia
aquilo até alcançar a fase adulta; achava os camponeses burros ao errarem
sempre o nome do meu pai, e menos entendia vê-lo atendendo ao chamado. Só
desvelei o mistério muitos anos depois daquela mudança abrupta de São Gonçalo
para Campos e a clandestinidade do meu pai. Contudo, muito novo, talvez com
oito anos, minhas preocupações eram menos essas e mais a de aprender a andar de
bicicleta. Vivia também minha rotina semanal, até o fim de semana em que,
invariavelmente, eu fazia companhia ao pai indo ao roçado num velho caminhão.
Nem lembro se ele dirigia ou se era o irmão dele, Urany, ou outro a pilotar
aquele “queixo-duro” pelas estradas poeirentas ou enlameadas, dependendo do
tempo. Ah, tempo! Sempre ele, o tempo!
Minha rotina: parte
da manhã, Colégio José do Patrocínio, canto do hino em sua homenagem e aulas
esquecidas. De tarde, fugas para aprender a rodar a bicicleta alugada com
moedas que eu furtava do bolso do paletó do pai. Ele nunca dava falta ou fingia
não dar. Decerto sabia o destino delas ao observar meus joelhos ralados e
tratados a mercurocromo. Mas, ai de mim se eu me assanhasse a pedir moedas de
algum tio ou primo mais velho! Esse comportamento terminava sempre em merecida
surra. Não pense que reclamo, a vida era boa: comida farta, galinhas ciscando
no quintal, galos de briga trancafiados como joias raras; havia canários de
briga igualmente criados em impressionante zelo por meu pai. Sim, cada ovo de
poderosas galinhas caipiras recebia marcação a lápis e era reservado como se
fosse pérola. Afinal, ali dentro poderia estar um futuro campeão.
Assim a vida
seguia seu curso, o tempo lerdo fazia as coisas se tornarem imutáveis naquela
pacata cidade campista, até que meu pai adoeceu. Em princípio, no início da
doença do pai, permanecemos no casarão. Depois fomos amontoados na meiágua de
vovó Neném, mãe do pai, com ele acamado e piorando a cada dia. Fase ruim, muito
ruim... A doença não mais o deixou e a morte o alcançou aos 39 anos, muito
novo. Assisti em espanto ao seu último suspiro, meu tio Urany (já falecido)
segurando a cabeça do pai no seu colo, sentado na cama com as pernas na posição
da ioga. Ali, no regaço do irmão mais novo, o pai nos deixou: eu e mais quatro
irmãos (duas irmãs e dois irmãos) e minha mãe. Uma heroína ela foi: a mãe!
Da mesma forma
abrupta com que fomos parar em Campos, foi o nosso retorno a Niterói na semana
seguinte à morte do pai. A mãe decidiu romper as amarras campistas e embarcou
num trem com seus cinco filhos e mais nada além de trouxas contendo poucas
roupas. Enfim, reduzida materialmente a nada, a família instalou-se numa
pequena casa da irmã de minha mãe, tia Gilda. Viviam na casinha dela, tia
Gilda, vovó Mocinha, tio Pery e um filho pequeno, Augusto, meu primo-irmão. A
casa, que mal dava para quatro, acolheu mais seis. Não me lembro como isso se
arrumou, mas a vida foi reiniciada do zero num ambiente social hostil. Era
assim o bairro da Engenhoca naqueles tempos (década de cinquenta).
Em Campos não
havia a cultura da violência nas ruas. As crianças se davam bem, raramente
brigavam. Não havia disputas de território nem valentias gratuitas. Mas em
Niterói, especialmente na Engenhoca, era o contrário, cada rua possuía um
“dono”: um garoto supostamente mais valente e bom de briga. Seja qual fosse a
razão, assim funcionava a convivência entre as crianças: a medo do
aparentemente mais forte. Claro que não fugi à regra da ameaça imediata quando
apontei meu nariz curioso para a rua em que entrei a morar, ainda em espanto
pela morte do pai. Conto depois...
Mas vamos à
síntese deste prefácio que lembra a locomotiva do trem da minha vida... Torno à
Travessa Ribeiro, 62 – Porto da Madama – São Gonçalo/RJ. Curioso... Agora sou
tocado por um detalhe: escrevo isto como antevisão de minha história de vida,
aos 62 anos de idade... Ah, mas hoje há uma casa nova no lugar da outra, em que
eu e meus irmãos (Enilda, Édio, Elma). Evanir (falecido) nasceu em Campos dos
Goytacazes. Na travessa Ribeiro, também vieram ao mundo meus primos José Onayr
e Sônia Regina (ambos falecidos), filhos de tio Itassy e tia Gloria
(falecidos). Uma grande ninhada familiar, que foi crescendo com a vinda dos
filhos de tio Urany (Margot, Wagner, Rosângela (falecida), Solange e Ubiratan
Levi).
Antes dessa
turminha, porém, surgiu pelas mãos de tio Acyr o bebê Carlos Alberto, que
cresceu irmão deles; mas desconfio até hoje que ele é filho de tio Acyr com
alguma mulata bonita, sua descarada preferência. O nariz de Carlinhos, meu
“tio” e padrinho (ou primo?), é idêntico ao de tio Acyr. Não há de se negar,
não se há como manter o mistério: Carlinhos foi gerado a partir de tio Acyr,
pelo menos eu assim o deduzo; mas foi registrado como filho legítimo por vovó
Neném e seu marido, vovô Rossini, embora este já estivesse debaixo da terra,
quietinho, sem mais condições de fazer filho algum. Mas não se revirou na
sepultura por ganhar um neto enviesado. Hehehe.
Tio Acyr dava
medo! Era o mais velho dos irmãos do pai. Destemido policial civil, todos o
respeitavam, embora seus irmãos, dentre eles o pai, fossem geniosos e
valentões. Eram policiais-militares, exceto o pai, que seguiu rumo oposto:
líder sindical da VIDROBRAS, grande fábrica estatal de vidros situada no bairro
de Neves, São Gonçalo.
Na onda dessa
fornada de crianças havia ainda a mais antiga de todas: os filhos e filhas de
tia Iracy, única irmã do pai, casada com tio José Brás Soares, oficial da
Polícia Militar, depois empresário bem-sucedido. Dele e de tia Iracy saíram
Elcy, Jocy e Lecy (os dois últimos falecidos). Muito depois surgiria a precoce
princesinha loira: Márcia Valéria.
Vou agora lembrar
o pai antes de casar. Era da pá virada! Elegante, fumante desbragado, bonito, e
amigo íntimo de Lédio de Sá Ribeiro, jogador do Botafogo em tempos de
amadorismo e mais tarde formado em medicina. A dupla dava que falar. Eles andavam
como irmãos para tudo que era festa e armavam o diabo. Certa vez, foram a um
baile num local de chão batido. O calor e a poeira pareciam não incomodar as
pessoas que ressumavam suores na dança, enquanto a poeira subia a se misturar
ao rosto e ao corpo, como ainda o é no Nordeste. Lá pelas tantas, os dois
espalharam pó-de-mico no chão e pularam fora. Esconderam-se na escuridão e se
deliciaram vendo os dançarinos saindo do lugar se coçando como macacos
nervosos. Como eu disse, eles eram da pá virada, mas depois de casados foram
dois exemplares maridos.
Vim a conhecer
Dr. Lédio depois da morte do pai, eí pude constatar o valor de uma amizade
eterna. Pois, aos onze anos, eu já estava enfiado no Laboratório de Análises Clínicas
de Dr. Lédio de Sá Ribeiro e no seio da família dele como espécie de reedição
do pai. Dele, ouvi muitas histórias semelhantes à que resumi, deliciando-me por
conhecer o pai depois de morto. Com Dr. Lédio o pai foi revivido dentro de mim
em ressurreição de lembranças emocionantes. Mas não significa que fiquei na moleza.
No laboratório, fiz muita coisa. Era tratador de sapos, na época utilizados em
testes de gravidez (Galli Mainini). Se o
nome do inventor estiver errado, peço desculpas. Nem os profissionais de hoje
conhecem o teste, está superado por tecnologias que não vêm ao caso explicar.
Demais de cuidar
de sapos, eu também esterilizava lâminas e lamínulas de vidro utilizadas em
exames de urina, fezes e sangue. Dava uma trabalheira danada, era tudo feito
manualmente, o risco de contrair moléstia era enorme. Foi meu caso: conheci
quase todos os parasitos: áscaris lumbricoide, trichuris trichiura, necator
americanus, giárdia lamblia e ameba, dentre outros.
Eu gostava de
futebol, mas me inibia quando Dr. Lédio, sentado no chão, controlava a bola com
a facilidade de um craque como Nilton Santos. Fazia com a bola o que bem
entendia e me zoava por eu errar nas embaixadas; muito nervoso, logo eu, que
fazia de tudo com a bola nos jogos do Esporte Clube Peixoto, no bairro do
Engenho Pequeno, onde fui morar, numa casa da vovó Neném. Eu era titular do
time e não fazia feio, de tal modo que cheguei a jogar por dinheiro no Juvenil
do Costeira, Estaleiro rico, que pagava bem aos jogadores na disputa do
campeonato da Liga Niteroiense de Futebol. Mas, diante dele, que jogou com Heleno
de Freitas, eu ficava tenso e não conseguia fazer nada (risos),
Como alegria de
pobre dura pouco, uma peritonite aguda quase me eliminou do mundo dos vivos.
Operado com urgência no Hospital Antonio Pedro, passei seis meses convalescendo
e o futebol já era! Eu só viria a jogar de novo na PMRJ, como soldado, e depois
como cadete, com rígida orientação de não jogar nada do lado de fora, só no
quartel e nas aulas de Educação Física. Qualquer acidente que me deixasse fora
de combate por uma semana era desligamento certo. Futebol, só como torcedor, o
que me era terrível.
Do Costeira,
depois de um clássico contra o Canto do Rio Futebol Clube, no qual me
destaquei, fui convidado a assinar contrato no juvenil do Vasco da Gama. Em São
Januário, perguntei timidamente ao Tim, grande craque do Vasco, monstro sagrado,
e me bateu uma ducha fria: o salário do
juvenil era zero, nada, dinheiro nenhum, somente alimentação e estadia em São
Januário, se eu morasse longe. Fui para casa cabisbaixo, não podia nem pensar
em sair da Ford, onde trabalhava duro com salário mínimo para ajudar em casa.
Desanimado,
depois de ficar uns oito meses sem jogar convalescendo da cirurgia, capitulei,
ingressei na PMRJ como soldado raso e disse adeus ao futebol profissional. Mas
me alentava saber que fui convidado a jogar por um diretor da agremiação que
possuía uma loja de atacado no Mercado de São Cristóvão, e me assistira a jogar
pelo Costeira contra o Canto do Rio, time inicial do mestre amigo Gerson Nunes,
o “Canhotinha de Ouro”, niteroiense, magnífico campeão do mundo pela Seleção
Brasileira de 1970, um craque sem tirar nem pôr, mais velho que eu. Gerson
jogou profissionalmente no Botafogo, no Flamengo e no São Paulo, se a memória
não me falha. Tal como o monumental Tim, Gerson foi monstro sagrado do
futebol-arte.
O jogo contra o
Canto do Rio foi eletrizante. Vencemos de um a zero, com minha participação
decisiva no lance do gol. Enfim, joguei bem e fui convidado a jogar no juvenil
do Vasco encaminhado por Seu Tião, meu técnico e “olheiro” do Vasco na região.
Tudo ilusão, a peritonite me derrubara e o futebol ficara para trás em minha
fase de adulto-jovem.
Bem, eis uma
pitada de minha história. Agora vou pegar o trem para alcançar o fim da linha,
sempre a lembrar minhas idas e vindas de Campos a Niterói e vice-versa. Eram
novos tempos, cheios de emoção. Mas vou começar como se não tivesse escrito
nada até agora. Depois começarei como se nada ainda tivesse escrito neste mundo
de momentos acumulados que chamamos vida.
Eis então a minha
existência. Não reparem se o assunto ficar por vezes repetitivo, a emoção me
envolve de tal modo que tenho de parar para enxugar as lágrimas. Pois se trata
de minha história de vida, contada no estádio dos meus 76 anos e revisada aos
80. Tenho agora de dar um tempo a extravasar minha emoção de velhote...
A minha vida é ainda
hoje um manancial de acontecimentos. Vamos a eles, como a partida de um trem com
muitos vagões cheios e outros vazios, alguns descarrilados, outros
cambaleantes, até chegar ao ponto final, que é o fim de todos, inclusive o meu,
sem que eu saiba se esse fim é algum início de vida espiritual, embora eu pense
como alguns filósofos do passado anteriores a Sócrates; diziam que nascer era
pecado e a morte, punição por ter nascido. Ora bem, que assim seja! Mas que a
história fique no livro e vença o tempo, este, que me escoa pelas mãos em
conchas desesperançada e me escorre entre meus dedos... Devo então registrar a
minha vida antes que minhas mãos se esvaziem e não mais me sobre tempo!...
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