domingo, 10 de maio de 2026

  

DO GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

 (Ainda não editada)

 

Foto histórica: Caserna General Castrioto

 Sede do comando da Guarda da Província Fluminense

 

 

 

 

Niterói

2020

O GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

DEDICATÓRIA

 

Ao mestre, amigo e compadre, Coronel PM Jorge da Silva, que me encorajou a enveredar pelos caminhos da literatura e me aconselhou ao longo de minha carreira (in memorian).

À Família Pessanha Larangeira, que, vinda de Portugal, vem honrando seus antepassados e mantendo firme sua identidade de Pessanha com dois “SS” e Larangeira com “G”.

À família Paraquett, à família de Lédio Ribeiro, à família Soares (João Batista), sustentáculos de minha vida.

Aos veteranos da PMERJ, desdenhados pelo sistema político do RJ, porém aguerridos na defesa da Corporação contra tudo e todos.

 

Aos companheiros das PMERJ e PCERJ injustiçados pelo brizolismo e por governantes posteriores, sem distinção.

 

Aos PMS e BMS brasileiros, ativos e veteranos, combatente até a morte”

 

Aos insignes Magistrados e Promotores de Justiça que entendem o sacrifício da PMERJ, mantendo-se obedientes às leis, mesmo as contaminadas por ideologias.

 

Aos insignes Defensores Públicos, Advogados e Estudantes de Direito, dos quais a PMERJ muito necessita.

 

Aos insignes Policiais Civis, Policiais Penais, Policiais Federais e Policiais Rodoviários federais sempre solidários e valiosos.

 

Aos insignes Guardas Municipais em nova roupagem legal, que se somarão ao labor da segurança pública e serão bem-vindos à luta.

 

Aos insignes integrantes das Forças Armadas, ativos e inativos, dos quais precisamos da ajuda para combater a calamidade do banditismo urbano, expressão cunhada pelo Coronel da FAB Coriolano Luiz Tenan, especialista em Defesa Civil.

 

A todos os enlutados da família policial, em especial às pensionistas especiais cujos esposos morreram ou foram feridos em combate ou adquiriram doenças físicas e mentais por conta do exercício da perigosa profissão Policial Militar, esta, que os leva à morte precoce, porém sempre incompreendida.

 

A meus filhos e netos, a meus irmãos, a Evanir Larangeira, meu “irmão-filho”, in memorian.

 

Aos cidadãos e cidadãs brasileiros do BEM: do asfalto e da favela.



DO GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

APRESENTAÇÃO

 

Não sei como designo este texto, se romance, se documentário, se biografia, sei lá. Sei apenas que ele me veio bem mais da emoção, - a princesa dos azares, - do que da razão, - a rainha da premeditação. Seja como for, vou em frente, ora em atino, ora em desatino, não há como medir as coisas da vida nem da morte, tudo é muito veloz e aleatório, tal como na Física Quântica e suas partículas subatômicas que constituem o infinito Universo das Galáxias e das Estrelas que viajam em eternidade num vazio do antes e do depois do big bang. Posso dizer ao amigo leitor que passei mais de um ano para descrever a precoce morte do meu pai, e o que me viria após esse atroz sofrimento. Confesso, sim, que me foi quase impossível, e muitas vezes desisti de escrever esta minha biografia a partir deste ponto crucial.

Vencida esta emoção, todavia, a história em si se me apresentava com outro obstáculo: ou eu narrava etapas de minha vida, alternando emoção e razão, ou me deixava vencer pela emoção e me prenderia à família, indo de geração em geração, o que, ao fim e ao cabo, não passaria da construção de uma “árvore genealógica. Não era meu propósito.

Com essas dúvidas no espírito, determinei-me narrar uma coisa e outra (razão e emoção), tentando equilibrar o fiel da balança. Assim segui em frente até o desfecho, num processo de triagem de fatos e versões que tornaram o texto quase que pedra de Sísifo a ser carregada nos meus costados.

Como todos poderão verificar, eu não poupei críticas. Fi-las, porém, com sinceridade, para que o leitor saiba que nem tudo foram flores a partir da Fusão do RJ com a GB, em 1975. Os conflitos foram reais e intensos, por minha culpa ou por culpa dos meus detratores, não me caberá julgar, mas apenas registrar o que de fato aconteceu a partir do meu máximo exemplo de inconformismo, sendo certo que a maioria, de um lado e de outro, talvez tenha optado pelo conformismo ou pelo aproveitamento de oportunidades, ajustando-se a quem mandava mais no contexto corporativo, o que não poderia ser meu caso, meu espírito inconformado não me permitiria.

Enfim, entre trancos e barrancos, concluí o texto, ou quase, pois é certo que me lembrarei de outros assuntos de caminho até a publicação definitiva do livro, o que é normal. Afinal, a releitura me poderá permitir a sorte de algum relance literário, de alguma jogada de estilo, como nos recomenda Gladstone C. de Melo no seu “Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa”. Ler muitas vezes o texto até surgir o “estalo” é preciso. Haja esforço!

Muito bem, a sorte está lançada, fixei meu nome como título porque é o do pai, de quem herdei de pia o mesmo nome; é, enfim, a história dele misturada à minha, como consequência da dele, sem preciosismos ou pieguices. Afinal, prezado leitor, esta é apenas uma dentre bilhões de histórias de vida, que, “se escritas, dariam uma grande aventura”, como nos brindou Jean-Paul Sartre. Com efeito, poderia ser aqui, também, sua própria história.

 

Vamos então à aventura e seja o que Deus quiser!...


O GETULISMO AO BRIZOLISMO

EMIR LARANGEIRA – HISTÓRIA DE VIDA

 

PREFÁCIO

Junto as minhas mãos em concha desesperançada. Tento segurar o tempo que me escorre entre meus dedos e me deixa de mãos vazias. Não há como fazê-lo, ele parece mágico, impalpável, implacável, o único dono do meu destino.

Conformo-me. Que fazer contra o tempo?... Nada. Não há como vencê-lo, ele finge não existir e segue sua finalidade eterna, enquanto eu me espanto ante a realidade do fim do meu caminho cada vez mais próximo. Fico imaginando o porquê de ter nascido. Tento ser individualista nesse pensamento e não consigo, pois logo me ponho a pensar nos meus filhos.

Vim ao mundo por meu pai e minha mãe; fiz o mesmo: postei no blog da vida a minha ninhada. Mas me indago sempre: “Para quê e por quê?” Não sei. Não encontro resposta a não ser no outro que a mim se assemelha e no mundo estranho que me rodeia, mundo de alegrias extremas e de infelicidades desastrosas.

Que mundo é este? Que universo tão incógnito é este no qual, aparentemente, estamos dentro dele como parte ínfima e íntima. Quem somos nós? Eis a pergunta que percorre o mundo e movimenta o pensamento humano. As respostas não me convencem, estou certo de que não me há o direito de saber. Então, como me vou situar em privilégio por viver a vida? Que paradigma posso adotar para me justificar a mim o meu existir? Não sei... Não sei.

Volto ao passado e às lembranças da infância. Lembra-me vagamente a casa dos primeiros anos e as imagens fragmentadas de mim mesmo e dos que me rodeavam: a família. Lembra-me São Gonçalo, a casa da frente e a meiágua dos fundos. Na frente, lembra-me a minha avó paterna, a minha mãe e o meu pai. No quintal, lembram-me os primos que atrás moravam.

Tudo simples, chão batido, casa de pobre, decente. Lembra-me, entre uma casa e outra, um quarto; nele, um homem definhando numa cama: meu tio Acyr, ex-sargento da PM e depois comissário da policial civil, que logo sairia do mundo levado pela tuberculose, dando-me tempo de ver seus pés amarrados um ao outro indo embora para sempre. Não me lembra choro de ninguém, eu não entendia o que ocorria, mas me dava certo alívio por saber que aquele homem não mais me provocaria temor. Motivo para temor? Não havia. Mas ele, o temor, me tomava a alma toda vez que eu cortava o quintal entre a casa da frente e a meiágua de trás.

Depois, parece que o tempo se esqueceu de mim, ou me esqueci do tempo, não sei. A memória me retorna vivendo em Campos dos Goytacazes. Agora estou numa casa enorme, perto da estação do meu trem; uma chácara apinhada de árvores frutíferas. A estação ainda existe em processo entrópico; não mais existe a casa, somente a estação envelhecida. Fase boa, porém estranha, meu pai vivendo nos roçados de Santo Antônio do Imbé, mata virgem situada em Conceição de Macabu, município próximo de Campos. Fase boa, tempo bom, sim, meu pai e eu, juntos, na roça, ele sendo chamado pelos camponeses de “Seu Luís”. O nome dele era Emir. Nada de “Luís”.

Eu não entenderia aquilo até alcançar a fase adulta; achava os camponeses burros ao errarem sempre o nome do meu pai, e menos entendia vê-lo atendendo ao chamado. Só desvelei o mistério muitos anos depois daquela mudança abrupta de São Gonçalo para Campos e a clandestinidade do meu pai. Contudo, muito novo, talvez com oito anos, minhas preocupações eram menos essas e mais a de aprender a andar de bicicleta. Vivia também minha rotina semanal, até o fim de semana em que, invariavelmente, eu fazia companhia ao pai indo ao roçado num velho caminhão. Nem lembro se ele dirigia ou se era o irmão dele, Urany, ou outro a pilotar aquele “queixo-duro” pelas estradas poeirentas ou enlameadas, dependendo do tempo. Ah, tempo! Sempre ele, o tempo!

Minha rotina: parte da manhã, Colégio José do Patrocínio, canto do hino em sua homenagem e aulas esquecidas. De tarde, fugas para aprender a rodar a bicicleta alugada com moedas que eu furtava do bolso do paletó do pai. Ele nunca dava falta ou fingia não dar. Decerto sabia o destino delas ao observar meus joelhos ralados e tratados a mercurocromo. Mas, ai de mim se eu me assanhasse a pedir moedas de algum tio ou primo mais velho! Esse comportamento terminava sempre em merecida surra. Não pense que reclamo, a vida era boa: comida farta, galinhas ciscando no quintal, galos de briga trancafiados como joias raras; havia canários de briga igualmente criados em impressionante zelo por meu pai. Sim, cada ovo de poderosas galinhas caipiras recebia marcação a lápis e era reservado como se fosse pérola. Afinal, ali dentro poderia estar um futuro campeão.

Assim a vida seguia seu curso, o tempo lerdo fazia as coisas se tornarem imutáveis naquela pacata cidade campista, até que meu pai adoeceu. Em princípio, no início da doença do pai, permanecemos no casarão. Depois fomos amontoados na meiágua de vovó Neném, mãe do pai, com ele acamado e piorando a cada dia. Fase ruim, muito ruim... A doença não mais o deixou e a morte o alcançou aos 39 anos, muito novo. Assisti em espanto ao seu último suspiro, meu tio Urany (já falecido) segurando a cabeça do pai no seu colo, sentado na cama com as pernas na posição da ioga. Ali, no regaço do irmão mais novo, o pai nos deixou: eu e mais quatro irmãos (duas irmãs e dois irmãos) e minha mãe. Uma heroína ela foi: a mãe!

Da mesma forma abrupta com que fomos parar em Campos, foi o nosso retorno a Niterói na semana seguinte à morte do pai. A mãe decidiu romper as amarras campistas e embarcou num trem com seus cinco filhos e mais nada além de trouxas contendo poucas roupas. Enfim, reduzida materialmente a nada, a família instalou-se numa pequena casa da irmã de minha mãe, tia Gilda. Viviam na casinha dela, tia Gilda, vovó Mocinha, tio Pery e um filho pequeno, Augusto, meu primo-irmão. A casa, que mal dava para quatro, acolheu mais seis. Não me lembro como isso se arrumou, mas a vida foi reiniciada do zero num ambiente social hostil. Era assim o bairro da Engenhoca naqueles tempos (década de cinquenta).

Em Campos não havia a cultura da violência nas ruas. As crianças se davam bem, raramente brigavam. Não havia disputas de território nem valentias gratuitas. Mas em Niterói, especialmente na Engenhoca, era o contrário, cada rua possuía um “dono”: um garoto supostamente mais valente e bom de briga. Seja qual fosse a razão, assim funcionava a convivência entre as crianças: a medo do aparentemente mais forte. Claro que não fugi à regra da ameaça imediata quando apontei meu nariz curioso para a rua em que entrei a morar, ainda em espanto pela morte do pai. Conto depois...

Mas vamos à síntese deste prefácio que lembra a locomotiva do trem da minha vida... Torno à Travessa Ribeiro, 62 – Porto da Madama – São Gonçalo/RJ. Curioso... Agora sou tocado por um detalhe: escrevo isto como antevisão de minha história de vida, aos 62 anos de idade... Ah, mas hoje há uma casa nova no lugar da outra, em que eu e meus irmãos (Enilda, Édio, Elma). Evanir (falecido) nasceu em Campos dos Goytacazes. Na travessa Ribeiro, também vieram ao mundo meus primos José Onayr e Sônia Regina (ambos falecidos), filhos de tio Itassy e tia Gloria (falecidos). Uma grande ninhada familiar, que foi crescendo com a vinda dos filhos de tio Urany (Margot, Wagner, Rosângela (falecida), Solange e Ubiratan Levi).

Antes dessa turminha, porém, surgiu pelas mãos de tio Acyr o bebê Carlos Alberto, que cresceu irmão deles; mas desconfio até hoje que ele é filho de tio Acyr com alguma mulata bonita, sua descarada preferência. O nariz de Carlinhos, meu “tio” e padrinho (ou primo?), é idêntico ao de tio Acyr. Não há de se negar, não se há como manter o mistério: Carlinhos foi gerado a partir de tio Acyr, pelo menos eu assim o deduzo; mas foi registrado como filho legítimo por vovó Neném e seu marido, vovô Rossini, embora este já estivesse debaixo da terra, quietinho, sem mais condições de fazer filho algum. Mas não se revirou na sepultura por ganhar um neto enviesado. Hehehe.

Tio Acyr dava medo! Era o mais velho dos irmãos do pai. Destemido policial civil, todos o respeitavam, embora seus irmãos, dentre eles o pai, fossem geniosos e valentões. Eram policiais-militares, exceto o pai, que seguiu rumo oposto: líder sindical da VIDROBRAS, grande fábrica estatal de vidros situada no bairro de Neves, São Gonçalo.

Na onda dessa fornada de crianças havia ainda a mais antiga de todas: os filhos e filhas de tia Iracy, única irmã do pai, casada com tio José Brás Soares, oficial da Polícia Militar, depois empresário bem-sucedido. Dele e de tia Iracy saíram Elcy, Jocy e Lecy (os dois últimos falecidos). Muito depois surgiria a precoce princesinha loira: Márcia Valéria.

Vou agora lembrar o pai antes de casar. Era da pá virada! Elegante, fumante desbragado, bonito, e amigo íntimo de Lédio de Sá Ribeiro, jogador do Botafogo em tempos de amadorismo e mais tarde formado em medicina. A dupla dava que falar. Eles andavam como irmãos para tudo que era festa e armavam o diabo. Certa vez, foram a um baile num local de chão batido. O calor e a poeira pareciam não incomodar as pessoas que ressumavam suores na dança, enquanto a poeira subia a se misturar ao rosto e ao corpo, como ainda o é no Nordeste. Lá pelas tantas, os dois espalharam pó-de-mico no chão e pularam fora. Esconderam-se na escuridão e se deliciaram vendo os dançarinos saindo do lugar se coçando como macacos nervosos. Como eu disse, eles eram da pá virada, mas depois de casados foram dois exemplares maridos.

Vim a conhecer Dr. Lédio depois da morte do pai, eí pude constatar o valor de uma amizade eterna. Pois, aos onze anos, eu já estava enfiado no Laboratório de Análises Clínicas de Dr. Lédio de Sá Ribeiro e no seio da família dele como espécie de reedição do pai. Dele, ouvi muitas histórias semelhantes à que resumi, deliciando-me por conhecer o pai depois de morto. Com Dr. Lédio o pai foi revivido dentro de mim em ressurreição de lembranças emocionantes. Mas não significa que fiquei na moleza. No laboratório, fiz muita coisa. Era tratador de sapos, na época utilizados em testes de gravidez (Galli Mainini). Se o nome do inventor estiver errado, peço desculpas. Nem os profissionais de hoje conhecem o teste, está superado por tecnologias que não vêm ao caso explicar.

Demais de cuidar de sapos, eu também esterilizava lâminas e lamínulas de vidro utilizadas em exames de urina, fezes e sangue. Dava uma trabalheira danada, era tudo feito manualmente, o risco de contrair moléstia era enorme. Foi meu caso: conheci quase todos os parasitos: áscaris lumbricoide, trichuris trichiura, necator americanus, giárdia lamblia e ameba, dentre outros.

Eu gostava de futebol, mas me inibia quando Dr. Lédio, sentado no chão, controlava a bola com a facilidade de um craque como Nilton Santos. Fazia com a bola o que bem entendia e me zoava por eu errar nas embaixadas; muito nervoso, logo eu, que fazia de tudo com a bola nos jogos do Esporte Clube Peixoto, no bairro do Engenho Pequeno, onde fui morar, numa casa da vovó Neném. Eu era titular do time e não fazia feio, de tal modo que cheguei a jogar por dinheiro no Juvenil do Costeira, Estaleiro rico, que pagava bem aos jogadores na disputa do campeonato da Liga Niteroiense de Futebol. Mas, diante dele, que jogou com Heleno de Freitas, eu ficava tenso e não conseguia fazer nada (risos),

Como alegria de pobre dura pouco, uma peritonite aguda quase me eliminou do mundo dos vivos. Operado com urgência no Hospital Antonio Pedro, passei seis meses convalescendo e o futebol já era! Eu só viria a jogar de novo na PMRJ, como soldado, e depois como cadete, com rígida orientação de não jogar nada do lado de fora, só no quartel e nas aulas de Educação Física. Qualquer acidente que me deixasse fora de combate por uma semana era desligamento certo. Futebol, só como torcedor, o que me era terrível.

Do Costeira, depois de um clássico contra o Canto do Rio Futebol Clube, no qual me destaquei, fui convidado a assinar contrato no juvenil do Vasco da Gama. Em São Januário, perguntei timidamente ao Tim, grande craque do Vasco, monstro sagrado, e me bateu uma ducha fria:  o salário do juvenil era zero, nada, dinheiro nenhum, somente alimentação e estadia em São Januário, se eu morasse longe. Fui para casa cabisbaixo, não podia nem pensar em sair da Ford, onde trabalhava duro com salário mínimo para ajudar em casa.

Desanimado, depois de ficar uns oito meses sem jogar convalescendo da cirurgia, capitulei, ingressei na PMRJ como soldado raso e disse adeus ao futebol profissional. Mas me alentava saber que fui convidado a jogar por um diretor da agremiação que possuía uma loja de atacado no Mercado de São Cristóvão, e me assistira a jogar pelo Costeira contra o Canto do Rio, time inicial do mestre amigo Gerson Nunes, o “Canhotinha de Ouro”, niteroiense, magnífico campeão do mundo pela Seleção Brasileira de 1970, um craque sem tirar nem pôr, mais velho que eu. Gerson jogou profissionalmente no Botafogo, no Flamengo e no São Paulo, se a memória não me falha. Tal como o monumental Tim, Gerson foi monstro sagrado do futebol-arte.

O jogo contra o Canto do Rio foi eletrizante. Vencemos de um a zero, com minha participação decisiva no lance do gol. Enfim, joguei bem e fui convidado a jogar no juvenil do Vasco encaminhado por Seu Tião, meu técnico e “olheiro” do Vasco na região. Tudo ilusão, a peritonite me derrubara e o futebol ficara para trás em minha fase de adulto-jovem.

Bem, eis uma pitada de minha história. Agora vou pegar o trem para alcançar o fim da linha, sempre a lembrar minhas idas e vindas de Campos a Niterói e vice-versa. Eram novos tempos, cheios de emoção. Mas vou começar como se não tivesse escrito nada até agora. Depois começarei como se nada ainda tivesse escrito neste mundo de momentos acumulados que chamamos vida.

Eis então a minha existência. Não reparem se o assunto ficar por vezes repetitivo, a emoção me envolve de tal modo que tenho de parar para enxugar as lágrimas. Pois se trata de minha história de vida, contada no estádio dos meus 76 anos e revisada aos 80. Tenho agora de dar um tempo a extravasar minha emoção de velhote...

A minha vida é ainda hoje um manancial de acontecimentos. Vamos a eles, como a partida de um trem com muitos vagões cheios e outros vazios, alguns descarrilados, outros cambaleantes, até chegar ao ponto final, que é o fim de todos, inclusive o meu, sem que eu saiba se esse fim é algum início de vida espiritual, embora eu pense como alguns filósofos do passado anteriores a Sócrates; diziam que nascer era pecado e a morte, punição por ter nascido. Ora bem, que assim seja! Mas que a história fique no livro e vença o tempo, este, que me escoa pelas mãos em conchas desesperançada e me escorre entre meus dedos... Devo então registrar a minha vida antes que minhas mãos se esvaziem e não mais me sobre tempo!...

 


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