domingo, 22 de agosto de 2010

A realidade do crime no Rio

A “linha do tempo” I

Deixando de lado as insinuações críticas da mídia contra a PMERJ, na falta de vítimas inocentes atingidas por balas perdidas no episódio Vidigal/Rocinha/São Conrado/Hotel intercontinental, fenômeno semelhante inspirou capa do meu romance Cidadela Contemporânea; ou seja, nenhuma novidade debaixo do céu, não é a primeira nem será a última vez que bandidos armados deixarão a favela e enfrentarão o sistema no asfalto. Só que, numa modesta alegoria, deixo descer a favela toda para denunciar o conformismo social e o desprezo (real) que o asfalto sente pela favela. Traduzindo: o desprezo do rico pelo pobre, do patrão pelo empregado, da madame pela doméstica, sendo a recíproca absolutamente verdadeira em todos os casos de elite versus massa.




Como sempre, a mídia alfineta a PMERJ sugerindo ação “mal planejada” ou “não autorizada”. Deste modo, além de desmerecer a coragem dos policiais militares e seu não comprometimento com a criminalidade (eles poderiam se omitir, acovardados, ou “dar um aceno comprometedor” na passagem do bonde do mal) a imprensa finge desconhecer uma rotina que concerne aos batalhões e seus comandantes. Ademais, ainda ignora o fato de os quadrilheiros paramilitares de hoje serem consequência da desídia estatal de ontem, malgrado o esforço do Estado no sentido de contê-los em alguns momentos da “linha do tempo”. Porque, na realidade, esta criminalidade se reporta à ilha Grande, ao regime militar e à sua paranóica luta contra a “subversão”, obrigando as polícias brasileiras a se esquecerem dos bandidos episódicos e isolados. Por conta desta longeva cegueira policial ante a criminalidade crescente do tráfico de drogas e de armas mundo afora e aqui, os facínoras tornaram-se organizados, sofisticados e sanguinários em seus métodos de ação urbana.
Não entro no mérito da validade ou não da intervenção militar no país. Deixo tal consideração para os ideólogos. No meu caso, como policial, penso que não importa quem o bandido está vitimando, seja “de esquerda” ou “de direita. Ele tem de ser contido pela polícia conforme mandam as leis vigentes. Ocorre que, além de uma polícia míope e defasada no tempo, as leis malfeitas representam grave causa de expansão do crime, que é inerente ao ser humano, tal como o amor e o ódio (conclusão de Manuel Lopez-Rey). E em sendo impossível erradicá-lo da convivência social, ele aumenta na proporção do aumento populacional e deve ser tratado como fenômeno sociopolítico, ou seja, a sociedade, por meio de seus representantes políticos, é que deve rotular o que seja delito e estabelecer suas penalidades em processo dinâmico. Ao policial somente cabe cumprir o determinado pelas leis com os recursos e o treinamento que receber, evitando imiscuir-se em “discursos sociais” para condenar ou justificar criminosos. À polícia compete cumprir a lei e nada mais!
Não é o que ocorre... Desde os tempos da ilha Grande que presos comuns aprenderam com presos políticos “de esquerda” os conceitos ideológicos associados a táticas de guerrilha urbana. Organizados em facções (tais como faziam e fazem as esquerdas brasileiras), os marginais vão da ação isolada e suicida (vide exemplo histórico de Zé Bigode na ilha do Governador) à ação de grupos paramilitares enfrentando o Estado e alcançando muitas vezes o terrorismo, cujos exemplos abundam aqui no RJ. E são glamourizados em livros e filmes, bastando o exemplo do prócer do Comando Vermelho, William da Silva Lima, autor do livro Quatrocentos Contra Um – Uma História do Comando Vermelho. Por amor à síntese, e como desdobrarei o assunto (“linha do tempo”) em outros artigos, prefiro postar o que registrei em outro romance (O Espião), esclarecendo que meus livros aqui citados estão disponíveis no site (www.emirlarangeira.com.br) para leitura e impressão:


48 – OS CONLUIOS

“Quando uma teoria científica não permite atingir os objetivos que os agentes políticos têm em mente, eles recorrem à trapaça, à fraude, à mentira, à demagogia, etc. Quando esses meios falham, eles usam a violência para destruir o que não sabem ou não são capazes de controlar.” (P. Martinez – Política, Ciência, Vivência e Trapaça – ed. Moderna, SP, 1992)

Eis um tema delicadíssimo. O foco inicial da perplexidade de Onayr ocorreu em 05 de abril de 1991, quando ele, por conta de seus interesses acadêmicos, participou do lançamento de um livro na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Rio de Janeiro, durante um seminário sobre criminalidade dirigido pelo Instituto de Estudos de Religião (ISER), de orientação católica. Nada demais, se o autor da “obra-prima” não fosse o prócer do CV, William da Silva Lima, na época trancafiado no presídio de segurança máxima BANGU I.
– É verdade, Onayr, lembro-me que esse livro foi lançado na ABI com pompas e circunstâncias de arte literária.
– Parece surrealismo, não é mesmo?... Foi autografado pela mulher do bandido. Depois, ele teve permissão para dar entrevista à imprensa, inclusive internacional, no Hospital Penitenciário, para onde foi levado duas semanas após o lançamento do livro.
– Que havia de importante no livro?
– Por exemplo, o texto foi copidescado por César Queiroz Benjamim, ex-militante do MR-8.
– Quer dizer que num seminário sobre criminalidade o festejado foi o criminoso? De quem foi a idéia?
– Não sei.
– Que pena! Também não atentei para esse episódio...
– Bem, amigo, o fato é que dois anos depois, em 1993, um jornalista publicou uma pesquisa sobre o Comando Vermelho e confirmou tudo. Você leu o livro de Carlos Amorim?
– Não. Que livro?
– Comando Vermelho – A História Secreta do Crime Organizado. Foi lançado pela Record.
– Puxa, que título sugestivo! Vou procurar ler. Você se lembra do título do livro do bandido?
– Quatrocentos Contra Um – Uma História do Comando Vermelho. Foi publicado pela Vozes.
– Hum... Essa editora não é a da Igreja Católica? Bem, se foi algo artístico... Há bons romances escritos em prisões.
– Realmente. Veja só, se não se considerar a exploração política que envolveu o lançamento do livro, ele, a meu ver, é um importante registro histórico.
– Histórico?... É incrível o que você está dizendo!
– Mas é verdade. Li o livro, assim como os pesquisadores também o fizeram. Há nele um sabor de literatura, demonstrando que o bandido não era bobo. Ele cita Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, e também se refere a Euclides da Cunha e Os Sertões, dentre outros escritores que afirma ter lido, como Lima Barreto, Jorge Amado etc. Enfim, não há como negar valor ao texto, que inclusive apresenta construções de estilo. Por exemplo, o bandido cita uma velha tradição na cadeia de união entre presos comuns e revolucionários: “(...) revolucionários e presos comuns, ao compartilharem o mesmo chão e o mesmo pão, cresciam juntos num mesmo ideal.” Ainda sou capaz de afirmar que talvez seja o único documento-verdade sobre o funcionamento do sistema penitenciário na época do autoritarismo. Acho até que o texto deveria ser mais estudado.
– Pelo visto, você gostou do livro.
– Gostei. Achei-o útil porque veio escrito com franqueza. O autor não se defendeu de nada. Apenas relatou sua longa experiência carcerária. E não foi obra do sistema.
– Curioso... Vejo que o livro do bandido o impressionou. E também o outro, do jornalista.
– É verdade, ambos. E não somente a mim. Os pesquisadores analisaram os dois textos e concluíram que deveriam estudados, especialmente porque são narrações de não-ficção e apontam para uma valiosa questão social.
– Seria correto dizer que o bandido escreveu suas memórias?
– De certo modo, sim, embora o texto não discorra com profundidade sobre a vida dele fora das grades. Mas não deixa de ser um livro de memórias. Afinal, quem não gostaria de escrever suas memórias? Não estamos aqui escrevendo as minhas?...
– Tudo bem, Onayr; mas, cá pra nós, não lhe soa estranho o livro do bandido ser lançado na ABI?...
– E prefaciado pelo cientista social Rubem César Fernandes. Ele aparenta temor de ser mal interpretado, mas isto não ocorreu.
– Hum... Pelo visto, o livro merece atenção. Extraída a cascata política do lançamento, pelo que você me diz houve um consenso entre os pesquisadores de que a história contada pelo bandido continua a merecer estudo. Mas, Onayr, que foi feito dele?
– Não sei. Depois de lançado o livro, ele teve direito à prisão semi-aberta e se escafedeu mundo afora. Mas foi preso assaltando um ônibus e parece que está novamente trancafiado.
– Que decadência, hein?... Que mais você soube?
– Muita coisa. Por exemplo, fervilharam maledicentes comentários sobre o badalado lançamento. Muitos estranharam a promiscuidade de personalidades e autoridades públicas e eclesiásticas com o prócer do CV. E veja só o que o bandido afirmou em determinado trecho de sua narrativa (sic): “Quando os presos políticos se beneficiaram da anistia, que marcou o fim do Estado Novo, deixaram na cadeia presos comuns politizados, questionadores das causas de delinqüência e conhecedores dos ideais do socialismo. Essas pessoas, por sua vez, de alguma forma permaneceram estudando e passando suas informações adiante. Na década de 1960 ainda se encontrava presos assim, que passavam de mão em mão, entre si, artigos e livros que falavam de revolução... O entrosamento já era grande, e 1968 batia às portas. Repercutiam fortemente na prisão os movimentos de massa contra a ditadura, e chegavam notícias da preparação da luta armada. Agora, Che Guevara e Régis Debray eram lidos. Não tardaria contatos com grupos guerrilheiros em vias de criação...”
– Tem isso no livro?
– E muito mais... Inclusive esta parte foi destacada por Carlos Amorim. Quer saber o que o jornalista Jorge Pontual grafou no prefácio da obra de Carlos Amorim? Eu lhe digo: “O Comando Vermelho pôde parodiar impunemente as organizações de esquerda da luta armada, seu jargão, suas táticas de guerrilha urbana, sua rígida linha de comando. E o que é pior: com sucesso.”
– Não acredito!... Será que você não está vendo miragem?
– Ora, amigo! Claro que não!... O mais curioso é que os governantes da época em que o livro foi lançado diziam que o CV “não existia”... Cá pra nós, qual policial ousaria desmentir essas declarações veiculadas em jornais? Como os policiais sairiam para combater algo que os altos dirigentes político-administrativos diziam “não existir”? Era a senha. Afinal, se o CV “não existia”, não cabia à polícia combater algo “inexistente”...
– Mula! Que coisa! Nem sei que dizer, mas tenho a certeza de que você está falando com base em livros publicados e em notícias veiculadas na época. Mesmo assim, não posso negar meu espanto. Apesar de que, acho que o Comando Vermelho é muito mais cultura que estrutura. Mas que existe, existe! E não sei se não será pior existir só como cultura ou ideologia. Afinal, por trás das revoluções sempre estiveram presentes as idéias estimulando-as.
– Tem razão. E você nem sabe da história o desfecho. Não é só você que está espantado. Eu também fiquei e estou até hoje, e também Carlos Amorim, que afirmou: “As palavras do Professor dão bem a idéia do quanto ele se desenvolveu nos contatos que manteve na cadeia. Dizem que, ao contrário da maioria dos militantes da esquerda, ele leu O Capital – conhecimento que ainda hoje falta a muito comunista de carreira.”
– Hum... O bandido era politizado a esse nível?
– Era. E, como você deve saber, a história costuma baralhar idéias e fatos como um quebra-cabeça cujas peças custam a encontrar seus lugares no tabuleiro, mas acabam se encaixando e formando o desenho que lhes fora predeterminado...
– É verdade. Dizem até que a história se repete...
– Tem mais, tem mais... Carlos Amorim registrou no seu livro que: “William da Silva Lima, um pernambucano de cinqüenta anos, se considera um guerrilheiro.”
– Quê?!?...
– E também anotou uma incrível entrevista do bandido, gravada pelo detetive de polícia João Pereira Neto, que na época trabalhava na Divisão Anti-seqüestro (DAS) da Polícia Civil: “William comenta que alguns intelectuais pretendiam usar o Comando Vermelho na luta política: (...). ‘Alguns deles, pequeno-burgueses, pretendiam usar nossas comunidades e nossa organização com finalidades políticas. À medida que não deixamos usar, comprovamos, sem soberba, que conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu, o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente elas serão três milhões de adolescentes que matarão vocês (a polícia) nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas? Quantos BANGU I, II, III, IV, V... terão que ser construídos para encarcerar essa massa?’...”
– Deus me livre!... Curioso, Onayr, como é que ele dizia “vou aos morros”, se estava preso?...
– Ora, é só você deduzir. Ele só poderia ir aos morros se o deixassem, não é mesmo?... Bem, pode ser que tivesse declarado isso ao detetive enquanto solto... Mas, como? Também pode ser uma questão de mau uso do tempo do verbo. Bem, deixemos isso pra lá. Anote aí outra revelação de Carlos Amorim, segundo ele, ocorrida pelos idos de 1982 a 1984, ou seja, bem antes do lançamento do livro do bandido William da Silva Lima: “Na Ilha Grande, diante de toda a imprensa, um acontecimento insólito: a autoridade pública é recebida por um dos Vermelhos, um dos novos xerifes da prisão, Rogério Lengruber, o Bagulhão. O representante do Comando Vermelho veste bermudas, camisetas e sandálias havaianas. Mete o dedo na cara do Secretário de Justiça e comunica a ele que os presos estão cansados de ouvir o blábláblá do governo.”
– Hum...
– Que intimidade, hein? Quem seria esse Secretário de Justiça? E quem estava com ele na ocasião? Não seria interessante desvelar esse mistério? – gracejou Onayr encerrando o diálogo.
– Quer saber, Onayr? Estou apavorado! Nem sei mais o que comentar! Pelo visto, depois que o brizolismo passou por aqui parece que é melhor ser bandido que policial...


3 comentários:

Paulo Xavier disse...

Quem assistiu o "Bom dia Brasil" de hoje 23/08, pode ver Alexandre Garcia com um comentário pertinente a este episódio de S. Conrado, que leva todos a uma profunda reflexão.
Entre outras coisas ele pergunta, Como tudo isso começou? Até quando vamos ver cenas como esta? Ele cita que há desprezo muito grande pelas leis, onde prevalece a lei do mais esperto, que segurança é um dever do Estado mas é obrigação de todos, que o problema não é só da Polícia, o problema é nosso também.
Enfim, quem não viu vale a pena ver, basta entrar no portal do G1, Bom dia Brasil, Alexandre Garcia.
Parece que metade das perguntas estão respondidas nesse texto do Cel Larangeira, ou seja, a subversão à ordem, às leis e ao Estado tranformará tudo lentamente num verdadeiro caos, se não puserem freio, hoje, já.

Anônimo disse...

Fantástico o post! Parabéns!!

Anônimo.

rogers2nay disse...

Eu e mais tods os moradores dos bairros que estão sendo assolados com tanta criminalidade e violência precisamos urgentemente de ajuda, estes bairros são todos que ficam entre bandeirantes e santa izabel, que ficam em São gonçalo-RJ, aqui sempre foi um lugar pacato e bom para se viver, vivo aqui desde que nasci, mas apos o inicio das operações no Rio, e implantaçao das UPPs os bandidos que saem de la sem serem presos por que o BOPE avisa antes de chegar la, estão vindo para cá,estão fazendo grande arruaça aqui, mortes, tiroteios,drogas, tudo que existia nas favelas do Rio trouxeram para cá, a cidade do Rio está ficando muito bonita sim, tranquila e sem violencia para a copa e para as olimpiadas, mas e São Gonçalo, mas e nossos bairros(pachecos,barracão,sacramento,meia noite,santa izabel)? como ficamos, não temos mas paz, estão andando armados a luz do dia,matando policiais todos os dias(por que isso não aparece em noticiarios e jornais de grande porte ein? por que sera?), a guerra do Rio foi somente transferida para ca? onde tudo fica escondido para que a copa seja realizada com o Rio bem "maquiadinho"? queremos solução, essa semana invaridam um DPO em santa izabel mataram um policial e cortaram as mãos de outros dois, assaltaram varias pessoas conhecidas (imaginam quatas mais q não conheço q tbm foram), cade a justiça? cade a atenção para nos? até quando são gonçalo vai ficar largada, isso vai piorar para melhorar "a cara" do rio?