quarta-feira, 21 de abril de 2010

O mito das UPPs




Há momentos em que penso estar o Jornal O Globo tresvariando quando se trata de enaltecer as UPPs como se fora sua “filha legítima”. Pensar na “união de facções” para enfrentar as UPPs chega a ser hilariante. Fosse outro motivo, vá. Mas imaginar a possibilidade de uma “guerra” entre UPPs e facções do tráfico unidas para tal desiderato é menoscabar no seu máximo as motivações que as levaram à dissidência histórica e à inimizade mortal. É, na verdade, de lascar!... Ora, ora, membros de facções rivais são como inimigos mortais e disputam a sangue seus territórios. Portanto, as facções desarmadas pela PMERJ nas comunidades ocupadas por UPPs não viraram a casaca, não. Duvido! Apenas estão discretamente vendendo drogas, certos de que não sofrerão nenhum ataque de facções rivais. Afinal, os traficantes anônimos estão sob o manto protetor das UPPs, que não têm o dom nem mesmo mítico da onipresença ou da onisciência... Ou alguém será capaz de afirmar que o tráfico cessou por inteiro nessas comunidades tomadas por UPPs? Ora, claro que não! Preocupa-me, pois, a intenção de O Globo em transformar as UPPs em mito. Que é “mito”? Indo na base da preguiça até Marcelo Gleiser (www.marcelogleiser.blogspot.com), lá está a dica:

“Começo hoje com a definição de mito dada por Joseph Campbell, uma das grandes autoridades mundiais em mitologia: ‘Mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre’. Sabemos que mitos são narrativas criadas para explicar algo, para justificar alguma coisa. Na prática, não importa se o mito é verdadeiro ou falso; o que importa é sua eficiência."

Se não basta, vamos à Enciclopédia e Dicionário Koogan-Houaiss Digital para enriquecer a informação:

“MITO s.m. Narrativa popular ou literária, que coloca em cena seres sobre-humanos e ações imaginárias, para as quais se faz a transposição de acontecimentos históricos, reais ou fantasiosos (desejados), ou nas quais se projetam determinados complexos individuais ou determinadas estruturas subjacentes das relações familiares. / Fig. Coisa fabulosa ou rara: a Fênix dos antigos é um mito. / Lenda, fantasia. / Fig. Coisa que não existe na realidade.”

Não é outra coisa que o Sistema Globo parece pretender: criar o mito das UPPs. Ocorre que em momento errado, pois o mito da “tolerância-zero” nova-iorquino e do seu similar da excelência da polícia japonesa desceram ralo abaixo, como nos informa o competente jornalista Segadas Vianna em artigo publicado no seu blog (www.falandoaverdadecomsegadasvianna.wordpress.com) e no blog de O Dia (www.odia.terra.com.br/blog/blogdaseguranca):

“Mitos na área de segurança pública mundial caem por terra

Caíram por terra dois mitos na área de segurança pública no mundo. A cidade de Nova York, usada como exemplo de eficiência e eficácia no combate e redução do crime, e o Japão usado como exemplo de correção e rigidez em sua polícia estão tendo suas imagens externas desmontadas pela realidade.
Nova York, alardeada pelos 'policiólogos' como o símbolo da 'Tolerância Zero', vem atravessando sérios problemas com o ressurgimento de gangues. No domingo de Páscoa duas gangues se enfrentaram à bala em plena Times Square, com um resultado de 40 prisões de membros de gangues e quatro pessoas baleadas. O confronto na Times Square foi entre duas gangues, uma de Manhattan e outra do Bronx, que disputam o controle do tráfico de drogas. O incremento do consumo de metanfetamina e de uma heroína com alto grau de pureza e barata para ser inalada ou fumada criaram um mercado extremamente atrativo para as gangues. As duas gangues nova-iorquinas mais conhecidas, os Crips e os Bloods, que estavam enfraquecidas com muitas prisões de seus integrantes e fornecedores de armas e drogas, estão ressurgindo com outra roupagem. A Bloods, constituída originalmente só por negros, apareceu com uma 'divisão' latina, a Latino Bloods. Novas gangues como a Latino Kings também vem se redividindo e crescendo. Jovens salvadorenhos criaram a MS-13; jovens dominicanos criaram a DDP. Os caribenhos estão revivendo a Crips. E pelo menos mais trinta gangues mexicanas estão ocupando áreas da cidade.
Já no Japão a polícia é que vem enfrentando um imenso desgaste interno e externo face às acusações que vão de extorsão, falsificação de documentos e provas judiciais, espancamento de suspeitos, assédio sexual, corrupção e chantagem. A polícia de Tóquio foi objeto de um filme/documentário que retrata esta situação, nunca antes discutida no Japão e tida até como um tabu pela sociedade japonesa e que vem fazendo grande sucesso no país. Um ex-policial pressionado a se aposentar após fazer denúncias oficiais sobre a corrupção na políai, o ex-Sargento Toshiro Semba é categórigo ao afirmar: ‘Dentre todas as organizações no Japão só a Yakuza e a polícia praticam crimes diariamente’.”

Enfim, duas polícias de Primeiro Mundo indo ao ralo. Por acaso eu conheço ambas, visitei-as em 1989 e voltei impressionado com a tecnologia disponível e com a excelente remuneração dos policiais (aqui privilegiam minorias e discriminam a maioria atropelando a Constituição Estadual). Mesmo assim, com todas as vantagens e um baixíssimo índice de letalidade policial, o crime avança, em especial o tráfico de drogas e crimes conexos, sem falar na exploração de situações contravencionais e criminosas típicas de máfia. Os mitos já eram!
Mas aqui, com tudo a favor do banditismo e contra a polícia, nota-se um esforço hercúleo de propaganda do que “não existe” para que passe a existir no ideário popular (o mito), embora as ocorrências envolvendo os “heróis” das UPPs se avolumem a passos rápidos, provando assim que não dá para empurrar indefinidamente a poeira para baixo do tapete.
Não sou contra as UPPs como iniciativa operacional, lembrando, todavia, que elas de certo modo existiam com outras denominações. Apenas mudou de roupagem o que se resume em conquista de território e ocupação, sendo até meio forte falar em “conquista de território e ocupação”, pois não estamos numa guerra... Não? Não estamos? E a letalidade policial aqui no RJ? Como se poderia analisar? Compará-la com o quê?
Em 1989, enquanto comandante do nono batalhão da PMERJ, comandei pessoalmente uma operação para rechaçar traficantes da comunidade conhecida como Vila São Jorge ou Favela Para Pedro. Mantive policiamento na localidade e realmente o ambiente se alegrou, embora os delitos menores e o tráfico não cessassem nos cantinhos escuros da favela. O tráfico é um mal universal. Movimenta trilhões de dólares-ano ao redor do mundo. Até onde é punido com a morte, na China, por exemplo, o tráfico não arrefece. A ganância humana não teme a morte nem nada. É o que aqui enfrentamos, ou seja, um misto de problema norte-americano e nipônico. Vencer esta cultura não será fácil, se não for impossível. Daí, e ante uma realidade aterradora, tentar mitificar as UPPs parece piada. E de mau gosto.
Já disse e reitero que não sou contra as UPPs. Apenas questiono a possibilidade de elas vencerem o tempo com sucesso e se expandirem como um direito de todos os favelados nas mais de mil comunidades carentes e infestadas de traficantes armados com fuzis de última geração. Ora, em vista desta realidade incontestável, as UPPs mais parecem uma barata a decididamente lutar contra o chinelo. Não há como a baratinha vencer. Terminará esmagada depois de uma certeira chinelada. Portanto, imaginar facções inimigas letais se abraçando para enfrentar os policiais militares das UPPs é surreal. Que invente a superestrutura global algo mais palatável de outra vez para figurar em primeira página e se desdobrar em suítes convenientes à construção do seu alucinado mito! No fim de contas, não cuidamos aqui de fantasias, mas de gentes empolgadas com elas, como nos demonstra a foto dos recrutas inserida na matéria. Não sei... mas o semblante deles lembra-me os camicases...

3 comentários:

oziel disse...

Concordo plenamente com suas palavras. Ocorre Coronel que o governo do estado age como se tivesse descoberto a pólvora na área da segurança pública. Pura balela. Nos anos 80, ainda cabo na PMERJ, comandava numerosa turma de policiais (cerca de 9 homens) no DPO ou PPC de grande favela no RJ. Era a mesma coisa. Trinta anos depois de longo tempo desprestigiado pelos governantes essa velha modalidade de policiamento resurge com o nome de UPP e causa o maior frisson na sociedade fluminense, ávida de dias melhores e cansada da ostensividade marginal no estado. E concordo inteiramente com Vossa idéia de que serve apenas para inibir que a vagabundagem demonstre o poderio bélico de que dispõem para enfrentamento de outras facções eis que não precisam mais tomar conta de seu "território". O que me causa a mais espanto, entretanto, não é a sociedade acreditar nesta modalidade de policiamento como uma inovação deste governo, mas este mesmo governo, assessorado pelos que conhecem a matéria, utilizar-se de de mais um improviso na área da segurança pública, como todas as outras medidas adotadas. Explico: os primeiros policiais militares a serem lotados na UPP Dona Marta fizeram um curso para soldados no Batalhão Rodoviário, onde, em tese, foram preparados para atuarem nas rodovias estaduais, porém num estalar de dedos governamentais foram remanejados para a tal UPP antes mesmo de formarem-se. Assim. no improviso. Mas com a aparência de uma solução advinda de potente estratégia de segurança pública. Mudando de um polo para outro, apenas no intuito de comparação, como este mesmo governo fez agora com os moradores de determinada favela no RJ que foram remanejados para um conjunto habitacional em Realengo, cujos apartamentos estão avaliados em 41 mil reais, certamente destinado a outro segmento de nossa sociedade, mas que serviu de trampolim eleitoral para nosso governador e seus asseclas, em momento ímpar de oportunidade de somar a desgraça alheia com interesses políticos.Porém, nada fez enquanto não aconteceu o pior. Ou melhor, nada fizeram.

Celso Luiz Drummond disse...

Quanto a redução dos índices de criminalidade no bairro de Copacabana, o próprio presidente da associação de moradores do bairro disse ao JB que não acredita nos números apresentados pela secretaria de segurança, o que segundo ele não corresponde a realidade.
Quanto a NY a crise econômica parece que fez ressurgir as gangs de jovens, porém segundo a reportagem apresentada pelo jornal o Globo no Domingo, o chefe do NYPD,disse que o tiroteio na times square durante o domingo de páscoa por enquanto é um fato isolado.
O fato é que a política da tolerância zero do Giuliani, transformou areas que eram guetos intransponíveis em pólos culturais, polos turísticos onde a população pode transitar livremente. O programa Mundo S/A mostrou isso recentemente o antes e o depois de NY.
Quanto a UPP o Wagner Montes denunciou em seu blog que só daria certo se realmente houvesse uma relação de cordialidade entre a PM e os moradores o que segundo o jornalista não esta ocorrendo. Ele diz que tem recebido várias criticas de moradores dos morros ao comportamento arbitrário das UPP's nos morros.
Outra coisa é a maquilagem feita pelo governo Sérgio Cabral já que o jornal extra denunciou que traficantes do Tabajaras ameaçaram dona de birosca,devido ao fato da mesma fornecer almoço aos policiais das UPP's. Até onde sabemos no Tabajaras funciona uma UPP. Mas pelo visto o tráfico continua no comando.
Outra medida maluca na minha opinião que está sendo executada pelo secretário de segurança é retirar os fuzis das maos dos policiais das UPPs e colocar na mao deles eletrochoque e gas de pimenta. Se isso realmente acontecer ele está fornecendo meios para a retomada dos morros pelos meliantes. Ja que não é possível enfrentar fuzis, metralhadoras com gás pimenta ou eletrochoque.

Anônimo disse...

Eu acredito que essa informação foi divulgada para elevar a "eficiência" das UPPs, sabemos que o governador tem o apoio da mídia dominante.