A FACÇÃO
Não há fato isolado no ambiente social, mas uma
sucessão deles entre si interligados e formando história. É o que pretendo
apontar aqui com o foco exclusivo na chacina de Vigário Geral: 4 PMs do 9º BPM
e 21 moradores daquela favela brutalmente assassinados, respectivamente em
28/29 de agosto de 1993 (sábado/domingo) e 30/31 de agosto de 1993
(domingo/segunda).
O primeiro fato foi causa do segundo, não se há
de pôr dúvida, mas interessa trazer à lide as variáveis antecedentes e
intervenientes, e, também, as consequências das duas chacinas agora vistas como
um subsistema gerador de ocorrências posteriores.
Esses dois fatos, na verdade, serviram para
demonstrar as várias faces da truculência e da insídia de um desgoverno que
assolou como praga o Estado do Rio de Janeiro. Pois, em nome desses hediondos
crimes, outros foram perpetrados por sectários brizolistas detentores do poder
e da força do sistema, especialmente os ligados à famigerada “comunidade de
informações” da PMERJ. Eles, na verdade, e desde antes, na ditadura, já se
associavam em facção de caráter estável e permanente; mas, paradoxalmente,
esbanjaram seus poderes a partir dos idos de 1983.
Por sinal, Brizola não venceu as eleições como
se tivesse caído de paraquedas no Rio. Há toda uma gama de fatos
correlacionados que desembocaram na ocupação do Poder Executivo estadual pela
facção brizolista.
Como esta facção será muito citada, deve-se
logo explicar seu real significado, escudado no historicista e cientista
político Moisés I. Finley, e em sua obra “Democracia Antiga e Moderna”, Ed.
Graw Ltda, 1988, págs. 60/1:
“A FACÇÃO É O MAIOR MAL E O PERIGO MAIS COMUM.
FACÇÃO É A TRADUÇÃO CONVENCIONAL DA PALAVRA GREGA STASIS, UMA DAS MAIS EXTRAORDINÁRIAS QUE PODEM SER ENCONTRADAS EM
QUALQUER LÍNGUA. SUA RAIZ SIGNIFICA COLOCAÇÃO, MONTAGEM, ESTATURA, ESTAÇÃO. SUA
GAMA DE SIGNIFICADOS POLÍTICOS PODE SER MAIS BEM ILUSTRADA APENAS PELA RELAÇÃO
DE DEFINIÇÕES DICIONARIZADAS QUE PODE SER ENCONTRADA: PARTIDO, PARTIDO FORMADO
COM FINS SEDICIOSOS, FACÇÃO, SEDIÇÃO, DISCÓRDIA, DIVISÃO, DISSENSÃO E,
FINALMENTE, UM SIGNIFICADO BEM ABONADO, QUE OS DICIONÁRIOS INCOMPREENSIVELMENTE
OMITEM, A SABER: GUERRA CIVIL OU REVOLUÇÃO.”
Retornando a Vigário Geral, sem desconsiderar o
fato de que já pairavam no ar duas outras ocorrências de peso, que ficaram
conhecidas como chacinas dos “Onze de Acari” e da “Candelária”, com ressalva de
que a primeira jamais foi comprovada, no início as reações oficiais pareciam
apenas fruto do pânico generalizado entre atônitas autoridades públicas e seus
agentes – A FACÇÃO – designados para a apuração da tenebrosa chacina.
Na chacina de Vigário Geral, o assassinato dos
quatro PMs, na véspera, e no mesmo bairro, foi imediatamente esclarecido e
atribuído a traficantes homiziados na favela e liderados por um bandido
conhecido como Flávio Negão. Ele morreu meses depois em confronto com o BOPE,
matando antes um sargento. O bandido reafirmou, deste modo, sua ferocidade.
O curioso, no caso da chacina dos 4 PMs, é que
o sistema PMERJ reagiu acusando os mortos de terem “infringido o regulamento”, punindo-os
post mortem (foram expulsos da PMERJ
depois de mortos e sepultados), olvidando em descaramento a realidade de que a
corporação é que fora atacada: os PMs estavam fardados, em viatura caracterizada,
circulando numa via pública, e parece claro que a percepção de que eles não
tinham autorização prévia para seguirem roteiro diferente era de caráter
interno, e mesmo assim discutível. Afinal, tratava-se de viatura de supervisão
em trânsito na área do batalhão a que pertencia. Se estivesse em área de outra
unidade operacional, aí sim, se poderia questionar, embora não servisse para
“justificar” a barbárie contra eles cometida.
Hoje, depois de bom tempo, vencido o momento
mais turbulento e aprofundada a reflexão, não é demais concluir que outras
variáveis já estavam engendradas na cabeça da facção. Na verdade, tudo funcionou
“por música”, tendo apenas os dirigentes da Polícia Civil, da Polícia Militar e
do Ministério Público – a facção brizolista – servido voluntariamente como
instrumentos da diabólica solução, tudo para livrar o atônito governante da
tragédia política já anunciada por iniciativa da OAB/RJ: a intervenção federal.
Não vamos aqui demonstrar como o sistema
brizolista apontou 33 pseudoautores da chacina de VG, em tempo recorde
(pasmem!): policiais militares e civis, a maioria posteriormente inocentada por
absoluta falta de provas. Interessa-nos, porém, clarear aspectos importantes
aos olhos da história.
COMO SE FORMOU A FACÇÃO?...
A massa de manobra do poder, formada por oficiais
e praças da PMERJ, e por alguns membros da PCERJ e do Ministério Público, já
vinha desde 1983 motivada por diversos incentivos pessoais e profissionais
amparados na tese brizolista dos “direitos humanos”, uma via perigosamente unívoca
que apenas visava a implantação e a manutenção da inércia do aparelho policial
em favor da pujança do crime organizado, especialmente do tráfico de drogas e
do Comando Vermelho. Infelizmente, a história se repete: é o que acontece hoje
por escolha malfeita do eleitor ainda estupidificado.
O primeiro período de governo brizolista
caracterizou-se pela permissividade e pela omissão em relação à criminalidade
em geral, culminando na fragorosa derrota de Brizola para Moreira Franco, que
lançou como principal mote de campanha “acabar com a criminalidade em seis
meses”, provocando um divisor de águas entre o fracasso e a esperança de ação
enérgica contra o crime, o que de fato ocorreu, mas igualmente sem sucesso,
pois, apesar de tudo, o crime se expandiu como metástase cancerígena.
O insucesso de Moreira Franco permitiu o
retorno de Brizola ao poder, agora juntando sua notória promiscuidade com o
banditismo a retaliações contra policiais que abominavam seus métodos.
Instituiu o caudilho uma “Central de Denúncias”, tão prestigiada que os
próprios traficantes faziam colagem de panfletos oficiais proclamando-a em suas
fortalezas impunes.
Eu fui e sou um desses policiais retaliados,
porque, apenas cumprindo com meu dever de combater o crime com rigor, acabei
retratando o modelo de ação defendido por Moreira Franco, que se utilizou politicamente
do meu êxito profissional sem que de mim dependesse autorizá-lo, especialmente
na ocasião da prisão do traficante “Cy de Acari”, considerado o maior do Estado
do Rio de Janeiro, e quiçá do Brasil, como assim o designava a mídia.
No meu caso, tive a cabeça colocada a prêmio
por um arrogante traficante da favela de Acari (Antonio Carlos Coutinho - de
apodo “Tunicão”), que mandou fechar a Avenida Brasil congestionando o tráfego
de veículos por quilômetros e com manifestação violenta contra policiais do
Nono Batalhão por parte de moradores acuados a medo do traficante Tunicão. Não
deu certo e ele morreu no mesmo dia em infernal tiroteio com a tropa de heróis
do Novo Batalhão comandada por mim.
O êxito a que lá atrás me referi fez-me
deputado estadual exatamente durante o segundo período de maldição brizolista.
No caso da PMERJ, especificamente, outros ingredientes também contribuíram para
a exacerbação da insídia contra mim, posto que eu, eleito parlamentar, criticava
as orquestrações do sistema brizolista contra os bons policiais que antes
arriscaram suas vidas combatendo a pujante marginalidade do tráfico. Foi uma
perseguição insana, típica da esquerda brasileira liderada por Brizola e Lula.
Sim, reflorescera na PMERJ a cultura do “fodão”
e do “bundão”, preconceito instalado no comando do Coronel PM Carlos Magno
Nazareth Cerqueira e seus xerimbabos com ele alinhados desde o primeiro período
do Brizolismo. E o que seria apenas uma cultura passou a ser, neste segundo
momento, um objetivo bastante claro e traduzido na síntese: quem era “fodão”
durante o comando anterior foi rebaixado à condição de “bandido” e perseguido
como tal pela facção.
Em compensação os “bundões”, também denominados
“administradores”, foram privilegiados por promoções e cargos de confiança de onerosa
Secretaria de Estado da PMERJ, estendendo-se ao futuro o poder de uma facção
bem mais numerosa e caríssima aos cofres públicos, esta, que permaneceu no
tempo, e existe até hoje, a dividir a corporação militar.
Sim, dividiu-se a PMERJ, desse modo insólito,
em dois segmentos distintos e antagônicos (“fodões” e “bundões”), instituindo-se
uma dissensão que atingiu limites insuportáveis. O preconceito contra os
“fodões” chegou ao ponto de o oficial ou praça não poderem mais portar arma na
cinta em quartéis: Isto já servia para designá-lo como “fodão” e possível
“bandido”.
ISTO NÃO FOI POR ACASO...
Neste ponto, vale iluminar algumas reflexões
escudadas na obra sobre o CV, escrita pelo Jornalista Carlos Amorim sob o
título “COMANDO VERMELHO – A História Secreta do Crime Organizado”. Assim os
leitores poderão observar os registros do livro, com ressalva do corajoso e
independente autor de que tudo o que nele está contido fora fruto de “doze anos
de pesquisa”, que “não é uma obra de ficção”, e que “todos os nomes e locais
são verdadeiros”. E assim se reporta Carlos Amorim à questão dos direitos
humanos, referindo-se ao Brizolismo:
“ANUNCIOU UMA POLÍTICA DE PRESERVAÇÃO DOS
DIREITOS HUMANOS, NUMA CIDADE ONDE OS GRUPOS DE EXTERMÍNIO AGEM ABERTAMENTE.
COLOCOU NA SECRETARIA DE JUSTIÇA UM EX-PERSEGUIDO POLÍTICO E COMPANHEIRO DE
PARTIDO, VIVALDO BARBOSA (...). BRIZOLA CHEGA A NOMEAR UM EX-PRESO POLÍTICO DA
ILHA GRANDE, JOSÉ CARLOS TÓRTIMA, DIRETOR DE PRESÍDIO. O CRIME ORGANIZADO
EXPLOROU COM HABILIDADE CADA UMA DESSAS DEMONSTRAÇÕES DE CIVILIDADE DO GOVERNO
ESTADUAL.”
Ironias do autor à parte, ainda nesta linha de
raciocínio Carlos Amorim faz outra denúncia que merece destaque:
“OS LIMITES IMPOSTOS À AÇÃO POLICIAL NOS MORROS
DA CIDADE PERMITIRAM O ENRAIZAMENTO DAS QUADRILHAS (...). A PAZ NO MORRO É
SINÔNIMO DE ESTABILIDADE NOS NEGÓCIOS (...). MAS O RESPEITO AO ELEITOR FAVELADO
— QUE DECIDE ELEIÇÕES NO GRANDE RIO — AJUDOU INDIRETAMENTE NA IMPLANTAÇÃO DAS
BASES DE OPERAÇÃO DO BANDITISMO ORGANIZADO (...). ESTAVA DETERMINADO A
CONSOLIDAR A BASE POLÍTICA QUE SE APOIAVA ENFATICAMENTE NOS SETORES
PAUPERIZADOS. NA ELEIÇÃO DE 82, PESOU O APOIO DA FEDERAÇÃO DAS FAVELAS (FAFERJ)
E DA FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES DE MORADORES (FAMERJ). MAS O FATO É: O CRIME
ORGANIZADO USOU TUDO ISSO PARA CRESCER (...). O DESENVOLVIMENTO DO COMANDO
VERMELHO FOI O SUBPRODUTO DE UMA ADMINISTRAÇÃO QUE RESPEITOU O CIDADÃO.”
Este foi o clima por mim enfrentado enquanto
deputado estadual. E fui angariando, sem perceber, novas inimizades protagonizadas
por muitos autodenominados “bundões” e seus subordinados e parceiros que a eles
se aliaram na conveniente defesa dessa “tese” adaptada aos conceitos de
permissividade do novo governo ao qual se entregaram em subserviência. Deste
modo, desfecharam ataques contra os policiais-militares que se haviam destacado
no combate ao banditismo no período Moreira Franco. Eu parti na contramão
desses vis e abjetos em defesa dos policiais civis e militares que vinham sendo
sistematicamente retaliados.
Mas o poder concentrado por esses facciosos
estava mais organizado e maior do que se poderia supor. Há muito extrapolara o
âmbito dos quartéis, porque a facção era formada principalmente por oficiais e
praças da PM.2 (Serviço Secreto da PM) e da Chefia de Polícia Militar, esta, que
estava atuando como “braço de força” do MP.
Também a Polícia Civil organizou o seu “braço
de força” naquela “Central de Denúncias” comandada por promotores, cuja
preocupação era demonstrar “eficiência máxima” na investigação criminal, desde
que fosse contra policiais. E, por isso, os interesses convergiram e originaram
essa estrutura sectária, que passou a “investigar” com um poder acima do comum,
todos obsedados pela retaliação contra a polícia.
Desse conúbio de interesses, ainda reforçados
pelas Centrais de Inquéritos do Ministério Público, começaram a surgir absurdas
“soluções” para crimes supostamente praticados por policiais civis e militares,
uma obsessão da facção para atender à “tese brizolista”: o combate a “grupos de
extermínio”, desde que os suspeitos fossem policiais. Isto passou a ser a maior
ameaça contra toda a polícia, porque bastava designar alguém como “exterminador”
para que toda a maquinaria governamental se voltasse contra o alvo, não
importando se fosse ou não verdadeira a acusação. E, geralmente, não o era.
O efeito dessa “tese” contra o aparelho
policial logo foi sentido, principalmente na segunda etapa do Brizolismo. Os
mesmos facciosos do passado voltaram a ocupar o poder e reinstalaram a facção
com o nítido objetivo de retaliar aqueles que, durante o Governo Moreira
Franco, enfrentaram o crime organizado do tráfico, posição oposta à
permissividade praticada por Brizola, que levou seu candidato à derrota para
Marcelo Alencar, que, por sua vez, tentou recuperar o tempo perdido de forma
equivocada: uma repressão desenfreada, em vez da conhecida omissão, agora capitaneada
pelo digno General do EB Newton Cerqueira, eleito deputado federal e
protagonista da “promoção por bravura”, que beneficiou muitos que jamais foram
“bravos”, mas eram “peixes”.
Tornando à omissão, a segurança pública (ou
insegurança) foi entregue ao Dr. Nilo Batista, pessoa de competência jurídica
ímpar e inteligência indiscutível, mas restrito à política populista, e com
toda razão, por sinal, pois seu prestígio alçou-o ao cargo de Vice-Governador,
logicamente por ter Brizola a certeza de que seu segundo homem na hierarquia
político-funcional estaria sempre ao dispor de suas ideias e ações. Caso
contrário, ele não seria escolhido...
O Dr. Nilo Batista articulou a transferência de
famosos bandidos de BANGU I para presídios de menor segurança. Um, muito
famoso, que já se encontrava fora de BANGU I, ganhou facilmente a liberdade.
Sim, foi aberrante a fuga de um bandido do CV, saindo pela porta da frente de
um presídio de segurança mínima: o Dênis da Rocinha, em 13 de abril de 1993.
Logo a Rocinha, favela frequentada por Neuzinha Brizola, que foi presa em flagrante
naquele local. A fuga de Dênis foi assim foi registrada por Carlos Amorim:
“ELE SAIU PELA PORTA DA FRENTE, VESTINDO UM
TERNO FINO, E AINDA SE DEU AO TRABALHO DE DESPEDIR-SE DOS GUARDAS”.
Ainda bem que o ilustre jurista foi barrado por
uma corajosa Promotora de Justiça, na época lotada na Vara de Execuções Penais,
que ingressou no Tribunal de Justiça com uma ação judicial e impediu o avanço
das mordomias no sistema carcerário. Um dos pretextos era o de que o “bandido-pai”
deveria ficar junto do “bandido-filho”, o argumento para retirar de BANGU I um
prócer do CV. È mole?...
Outro organismo que foi providencialmente
ocupado no Brizolismo foi a Defensoria Pública, entregue ao Dr. José Carlos
Tórtima, este que mereceu observações importantes de Carlos Amorim:
“NA OPINIÃO DE MUITAS PESSOAS LIGADAS À POLÍCIA
NO RIO, O ADVOGADO JOSÉ CARLOS TÓRTIMA TEVE INFLUÊNCIA SOBRE UM CERTO NÚMERO DE
PRISIONEIROS QUE SE ENVOLVERAM NA FORMAÇÃO DO COMANDO VERMELHO. HOJE ELE É O
PROCURADOR-CHEFE DA DEFENSORIA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO.”
O Dr. José Carlos Tórtima nega o fato
denunciado por Carlos Amorim, do mesmo modo que Brizola negava a existência do
CV, assim como outros membros do PDT mantinham esse conveniente discurso em
uníssono com a ideia do líder maior. Alguns chegaram a anunciar pelo jornal O
DIA que: “O COMANDO VERMELHO NÃO EXISTE”. Nilo Batista declarou no mesmo Jornal
que o “COMANDO VERMELHO É UM BESTEIROL”.
AFINAL, O CV EXISTE OU NÃO EXISTE?...
Há diversos estudos, encetados por experientes
policiais civis e militares, que não deixam dúvida quanto à existência dessa
organização criminosa. No meu modo de ver, creio que ela existe mais como
cultura do que como estrutura, e não sei o que é pior... (Obs.: hoje se sabe
que o CV é estruturado no Brasil e algures)
Um dos mais preciosos trabalhos a respeito do
CV pertence ao TCel PM RR Eneas Quintal de Oliveira, cuja experiência acumulada
ao longo de muitos anos dirigindo presídios e ocupando cargos elevados no
DESIPE empresta-lhe enorme e indiscutível credibilidade às pesquisas que fez e
transformou-as em tese no Curso Superior de Polícia Militar (CSP).
O livro de Carlos Amorim, também resultado de
pesquisa, rebate a dúvida de Brizola, obstinado líder político que não se
permitia a mínima emoção. Brizola era estrategista dos mais racionais, tanto
que sobreviveu a todas intempéries que lhe surgiram como obstáculos ao seu
maior objetivo: ser Presidente da República. Ele vinha de longe, e com o
discurso decorado de sempre e o seu sonho de criar o “Grupo dos Onze”.
De acordo com a “Teoria Geral da Administração”
(CHIAVENATO, Idalberto. McGraw-Hill, 1987) uma organização, para existir,
depende no mínimo de cinco variáveis básicas: estrutura, pessoas, tarefas,
ambiente e tecnologia (agora acrescentado da “Competitividade”, por sinal,
muito importante no nosso contexto).
Isto pode ser adequado à realidade do CV como
organização criminosa, mesmo que de forma rudimentar. Senão, vejamos: a
estrutura é informal, mas existe, e com forte cultura, hierarquia de seus
membros, divisão de ambientes, direcionamento de tarefas e manutenção
financeira dos líderes presos (pessoas). O vínculo hierárquico é poderoso no
CV, assim como integrar o CV significa status
no submundo do crime. Os líderes são cultuados em suas comunidades, — o
AMBIENTE, — assim como respeitados por todos os demais segmentos do CV de
outras localidades.
Com referência ao AMBIENTE, o que era antes
restrito ao Morro do Juramento e ao Presídio da Ilha Grande espalhou-se pelo
Estado do Rio de Janeiro e até pelo Brasil e por países alienígenas, pois já se
observava a prática de crimes por membros do CV em diversos Estados Federados e
fora do Brasil. Serve de exemplo o próprio Ivan Custódio Barbosa de Lima, providencial
“I.”, bandido do CV, que surgiu
do nada “solucionando” a chacina de Vigário Geral, acusando falsamente dezenas
de policiais civis e militares, como já comprovado na Justiça. Ele, por si só,
representa bom exemplo da expansão do CV: não se limitou a sua vasta folha
penal carioca: praticou crimes graves
As PESSOAS existem em número impressionante,
assim como as tarefas criminosas
são incontáveis. Por último, a TECNOLOGIA, dado importante da “competitividade” (variável básica
mais recente), que coloca o CV na dianteira da polícia, pois os sofisticados
instrumentos, indispensáveis às TAREFAS CRIMINOSAS, são primeiramente
adquiridos pelos membros do CV.
Aí está, com todos os ingredientes e uma forte
cultura para sustentá-la, a organização criminosa denominada Comando Vermelho,
que hoje se dá ao luxo de possuir até concorrentes, como o Terceiro Comando, e
aliados como o PCC – Primeiro Comando da
Capital – em São Paulo, dentre outros grupos hostis ou amigos estruturados em
torno do tráfico de drogas, inclusive as Milícias, estas que estão
numericamente além do próprio CV (mais homizios em comunidades carentes).
A cultura do CV não se restringe aos objetivos
pragmáticos do lucro com o crime. Há muito tempo o CV deixou de lado o romantismo
do bandido corajoso, dando lugar ao cunho político e financeiro de sustentação
dessa cultura. Os ensinamentos da Ilha Grande, local onde os presos políticos
disseminaram a ideia, logo absorvida, da relevância desse aspecto político,
estão hoje muito mais enraizados, assim como envolveram psicologicamente as
comunidades carentes, ambientes de homizio da maioria dos membros do CV.
A revolta das populações carentes há muito vem
sendo politicamente capitalizada pelos benfeitores do CV, das milícias e de
outras facções como o Terceiro Comando Puro (TCP), que sustentam a lacuna
deixada pelo ausente e omisso RJ. Considerando-se que a maioria da população do
Rio de Janeiro vive na pobreza, na indigência ou na miséria, amontoada em
favelas e bairros periféricos desprovidos de urbanização e outros meios mínimos
de conforto; considerando-se que isto propicia um ambiente de incontida revolta
das pessoas contra o omisso PODER PÚBLICO, sem dúvida não poderia haver clima
melhor para o predomínio do PODER MARGINAL.
Quem manda no voto das favelas é o bandido, e
engana-se quem pensa que isto é feito apenas pelo terror das armas, o que
também é verdade. Existe, sim, um consenso de escolha, principalmente porque o
bandido procura se ajustar a sua comunidade. É neste consenso que espertamente
encaixou-se o caudilho desde a sua retumbante vitória política em 1982.
ISTO TAMBÉM NÃO OCORREU AO ACASO...
Sem dúvida, o CV fez a sua escolha: as
comunidades carentes se transformaram em guetos brizolistas e silenciosamente
abarrotaram as urnas com o nome do escolhido: “Brizola na cabeça!”
Os políticos tradicionais não perceberam a
extensão e a profundidade do consenso entre bandidos e comunidades em direção à
única solução de mudança. De um lado, o CV, com certeza da impunidade que
viria; do outro, as comunidades apostando na novidade e apegando-se à esperança
de dias melhores. Desta maneira o ambiente social, principalmente das
comunidades carentes, ficou impregnado pelo PDT e pelo CV, no maior casamento
político já ocorrido no Brasil, tendo o Rio de Janeiro como altar-mor.
BRIZOLA NÃO VEIO COBRIR O RIO DE JANEIRO COM
SEU PONCHO GAUCHESCO POR ACASO...
Carlos Amorim destaca em seu
livro que “o encontro dos integrantes das organizações revolucionárias com
criminosos comuns rendeu um fruto perigoso: o Comando Vermelho”. O jornalista,
com rara capacidade de abstração e síntese, apontou sua reflexão para um dos
cérebros do CV: o “Professor”, William da Silva Lima:
“SOBRE ISSO HÁ UM DEPOIMENTO INQUESTIONÁVEL: O
PRIMEIRO E MAIS IMPORTANTE LÍDER DO COMANDO VERMELHO, WILLIAM DA SILVA LIMA – O
PROFESSOR –, DIZ QUE LEU MUITOS LIVROS NA CADEIA. COMO NESSA HISTÓRIA TODO
MUNDO ESCREVEU MEMÓRIAS, WILLIAM NÃO IA FICAR DE FORA. O FUNDADOR DO COMANDO
VERMELHO PUBLICOU QUATROCENTOS CONTRA UM – UMA HISTÓRIA DO COMANDO VERMELHO, PELA
ED. VOZES.”
Humm!... A Editora Vozes pertence à Pastoral
Penal. Mera coincidência?... É óbvio que não! Carlos Amorim, em seu livro,
reporta-se a alguns trechos da obra do líder do CV William da Silva Lima,
publicada sob os auspícios daquela Editora e prefaciada por Rubens César
Fernandes, eminente sociólogo e presidente da ONG Viva Rio, alinhada ou aliada
da Infoglobo (outra coincidência?...):
“QUANDO OS PRESOS POLÍTICOS SE BENEFICIARAM DA
ANISTIA, QUE MARCOU O FIM DO ESTADO NOVO, DEIXARAM NA CADEIA PRESOS COMUNS
POLITIZADOS, QUESTIONADORES DAS CAUSAS DE DELINQUÊNCIA E CONHECEDORES DOS
IDEAIS DO SOCIALISMO. ESSAS PESSOAS, POR SUA VEZ, DE ALGUMA FORMA, PERMANECERAM
ESTUDANDO E PASSANDO SUAS INFORMAÇÕES ADIANTE [...]. NA DÉCADA DE 60 AINDA SE
ENCONTRAVA PRESOS ASSIM, QUE PASSAVAM DE MÃO EM MÃO, ENTRE SI, ARTIGOS E LIVROS
QUE FALAVAM DE REVOLUÇÃO [...]. O ENTROSAMENTO JÁ ERA GRANDE, E 1968 BATIA ÀS
PORTAS. REPERCUTIAM FORTEMENTE NA PRISÃO OS MOVIMENTOS DE MASSA CONTRA A
DITADURA, E CHEGAVAM NOTÍCIAS DA PREPARAÇÃO DA LUTA ARMADA. AGORA, CHE GUEVARA
E RÉGIS DEBRAY ERAM LIDOS. NÃO TARDARIA CONTATOS COM GRUPOS GUERRILHEIROS EM
VIAS DE CRIAÇÃO.”
A propósito da citação do líder do CV sobre a
“década de
Esse movimento não prosperou
porque os militares fizeram-no abortar e iniciaram um novo período político no
Brasil, porém tão afastado da democracia quanto aquele que pretendia o
caudilho. Na verdade, trocou-se uma provável ditadura de esquerda, talvez
sangrenta, devido aos caminhos exacerbados que buscavam os seus defensores, dentre
os quais o caudilho, por uma ditadura de direita não menos sangrenta, além de
sangrada por movimentos clandestinos caracterizados pela insistência da
esquerda em promover a luta armada na cidade e no campo. Não entro no mérito da
legitimidade de nada. Apenas concluo que o regime militar de 1964 surgiu em
consequência, e principalmente, das loucuras do caudilho.
Toda essa explanação exige o retorno às
informações contidas na obra de Carlos Amorim, livro que precisa ser lido por
todos os cidadãos que desejam construir a democracia no Brasil de forma
transparente e sem conluios desastrosos. Ao lançar o seu livro, em julho de
1993, pela Editora Record, Carlos Amorim salientou, conforme já dissemos, que
sua publicação “não é uma obra de ficção” e que “todos os nomes e locais são verdadeiros”.
E surge a primeira e grave denúncia, no prefácio escrito pelo Jornalista Jorge
Pontual, uma “palavra de leitor”:
“O COMANDO VERMELHO PÔDE PARODIAR IMPUNEMENTE
AS ORGANIZAÇÕES DE ESQUERDA DA LUTA ARMADA, SEU JARGÃO, SUAS TÁTICAS DE
GUERRILHA URBANA, SUA RÍGIDA LINHA DE COMANDO. E O QUE É PIOR: COM SUCESSO.”
Como se depreende, não vejo miragem. Esta
contundente afirmação de Jorge Pontual obriga-nos a repetir as singelas
declarações de Brizola e Nilo Batista, dentre outros do PDT, assegurando que o
CV “não existe”. Qual policial ousaria, na época, desmentir essas declarações?...
O livro de William da Silva Lima teve, por
parte do governante Brizola, da Pastoral Penal e da ABI, o patrocínio de seu
local de lançamento com pompas de obra produzida por “gênio literário”. Assim
informa Carlos Amorim:
“O LIVRO DE WILLIAM DA SILVA
LIMA FOI LANÇADO NO AUDITÓRIO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA (ABI), NO
DIA 05 DE ABRIL DE 1991, DURANTE SEMINÁRIO SOBRE CRIMINALIDADE DIRIGIDO PELO
INSTITUTO DE ESTUDOS DE RELIGIÃO, DE ORIENTAÇÃO CATÓLICA. O TEXTO FINAL FOI
COPIDESCADO POR CÉSAR QUEIROZ BENJAMIM, UM EX-MILITANTE DO MOVIMENTO
REVOLUCIONÁRIO 8 DE OUTUBRO (MR-8), QUE TRABALHOU SOBRE UM ORIGINAL DE MAIS DE
QUATROCENTAS PÁGINAS.”
Nota-se a perplexidade de Carlos Amorim diante
das constatações que fez em sua pesquisa de doze anos, o que torna a sua obra
única no gênero. Ele ainda sublinha:
“AS PALAVRAS DO PROFESSOR DÃO BEM A IDEIA DO
QUANTO ELE SE DESENVOLVEU NOS CONTATOS QUE MANTEVE NA CADEIA. DIZEM QUE, AO
CONTRÁRIO DA MAIORIA DOS MILITANTES DA ESQUERDA, ELE LEU O CAPITAL –
CONHECIMENTO QUE AINDA HOJE FALTA A MUITO COMUNISTA DE CARREIRA.”
Com efeito, a história costuma encaixar as ideias
e os fatos delas decorrentes como num quebra-cabeça cujas peças espalhadas
custam a encontrar seu lugar no tabuleiro. Mas acabam se encaixando e formando
o desenho final que fora anteriormente determinado.
Também não foi por mero acaso que a ABI foi
escolhida. É só retornar ao passado e aos idos de 1962 para constatar que uma
das brilhantes presenças no movimento que gerou a “Declaração de Goiânia” era a
do ilustre Jornalista Barbosa Lima Sobrinho. Por isso, talvez, a ABI tenha sido
escolhida como palco do CV...
O conluio do governante Brizola e de seus
sectários com o CV não terminou no lançamento apoteótico da mais importante
“obra literária” do CV. Segundo ainda informa Carlos Amorim, outro fato
surpreendente ocorreu e foi por ele assim sintetizado:
“DUAS SEMANAS APÓS O LANÇAMENTO, NO DIA 19 DE
ABRIL, O FUNDADOR DO COMANDO VERMELHO, COM AUTORIZAÇÃO DO DESIPE, MANTEVE UM
ENCONTRO COM JORNALISTAS ESTRANGEIROS NO HOSPITAL PENITENCIÁRIO. ESTA FOI A
SEGUNDA VEZ NA HISTÓRIA DO SISTEMA PENAL BRASILEIRO QUE UM PRESO COMUM DEU ENTREVISTA
COLETIVA À IMPRENSA. NA NOITE DE AUTÓGRAFOS NA ABI, QUEM ASSINAVA OS LIVROS ERA
A MULHER DELE, SIMONE BARROS CORRÊA MENEZES.”
Somente para aguçar a curiosidade e a reflexão
daqueles que tiverem acesso à leitura deste texto, informa Carlos Amorim a
respeito desse personagem do CV alçado à condição de “gênio literário” pelos
sectários brizolistas:
“WILLIAM DA SILVA LIMA, UM PERNAMBUCANO DE
CINQUENTA ANOS, SE CONSIDERA UM GUERRILHEIRO, (...). HOJE ELE ESTÁ PRESO EM
BANGU I.”
Aparece, também, no livro de Carlos Amorim,
talvez a mais impressionante revelação de William da Silva Lima, gravada pelo
Detetive de Polícia João Pereira Neto, da Divisão Antissequestro do Rio:
“WILLIAM COMENTA QUE ALGUNS INTELECTUAIS
PRETENDIAM USAR O COMANDO VERMELHO NA LUTA POLÍTICA. (...). ALGUNS DELES,
PEQUENOS-BURGUESES, PRETENDIAM USAR NOSSAS COMUNIDADES E NOSSA ORGANIZAÇÃO COM
FINALIDADES POLÍTICAS. À MEDIDA QUE NÃO DEIXAMOS USAR, COMPROVAMOS, SEM
SOBERBA, QUE CONSEGUIMOS AQUILO QUE A GUERRILHA NÃO CONSEGUIU, O APOIO DA POPULAÇÃO
CARENTE. VOU AOS MORROS E VEJO CRIANÇAS COM DISPOSIÇÃO, FUMANDO E VENDENDO
BASEADO. FUTURAMENTE ELAS SERÃO TRÊS MILHÕES DE ADOLESCENTES QUE MATARÃO VOCÊS
(A POLÍCIA) NAS ESQUINAS. JÁ PENSOU O QUE SERÃO TRÊS MILHÕES DE ADOLESCENTES E
DEZ MILHÕES DE DESEMPREGADOS EM ARMAS? QUANTOS BANGU I, II, III, IV, V... TERÃO
QUE SER CONSTRUÍDOS PARA ENCARCERAR ESSA MASSA?”
Como “vou aos morros”, se ele estava preso?...
William da Silva Lima é tão importante líder do CV que Carlos Amorim lhe
dedicou muita atenção, principalmente porque as ligações políticas e os
conluios de sectários brizolistas com o CV alcançaram um incrível pragmatismo
nos bastidores desses contatos. Pois é certo que, para se chegar a assumir
publicamente a paternidade dessas perigosas ligações, como no caso do
lançamento do livro do líder do CV, muitos conluios devem ter ocorrido longe do
domínio público. Neste ponto, é imprescindível destacar outra revelação de Carlos
Amorim:
“NA ILHA GRANDE, DIANTE DE TODA A IMPRENSA, UM
ACONTECIMENTO INSÓLITO: A AUTORIDADE PÚBLICA É RECEBIDA POR UM DOS VERMELHOS,
UM DOS NOVOS XERIFES DA PRISÃO, ROGÉRIO LEMGRUBER, O BAGULHÃO. O REPRESENTANTE
DO COMANDO VERMELHO VESTE BERMUDAS, CAMISETAS E SANDÁLIAS HAVAIANAS. METE O
DEDO NA CARA DO SECRETÁRIO DE JUSTIÇA E COMUNICA A ELE QUE OS PRESOS ESTÃO
CANSADOS DE OUVIR O BLÁBLÁBLÁ DO GOVERNO...”
E complementa
com outra não menos importante citação:
“NO DIA
30 DE SETEMBRO (1983), UMA QUINTA-FEIRA, OS HOMENS DE CONFIANÇA DO GOVERNADOR
BRIZOLA SE REÚNEM SECRETAMENTE NUM ANEXO DO PALÁCIO GUANABARA. O MOTIVO DO
ENCONTRO É A INCONTROLÁVEL VIOLÊNCIA NAS CADEIAS. A CONVERSA A PORTAS FECHADAS
DURA TODA NOITE E PARTE DA MADRUGADA. ESTÃO PRESENTES O SECRETÁRIO VIVALDO
BARBOSA E SEU SUBSECRETÁRIO ANTÔNIO CARLOS BISCAIA, O SECRETÁRIO DE POLÍCIA
ARNALDO CAMPANA, O COMANDANTE DA PM CORONEL CARLOS MAGNO NAZARETH CERQUEIRA, O
DIRETOR DO DESIPE, AVELINO GOMES, E O COORDENADOR DE ASSUNTOS PENITENCIÁRIOS,
DRÁUZIO LOURENÇO.”
Como se pode notar, os personagens do inconfesso
convívio do Brizola e do PDT com o CV surgem naturalmente e se encaixam no
quebra-cabeça que representa a história do brizolismo no Estado do Rio de
Janeiro e a permissividade de seus sectários com a organização criminosa que se
tornou a mais poderosa do Brasil depois de oito anos de impunidade local: O CV!
Tudo que aqui está retratado permite imaginar a
ideia política do caudilho, o seu sonho inalcançado no passado, o seu “Exército
de Libertação Nacional” representado pelo CV, que hoje reúne os componentes
ideológicos necessários, efetivos surpreendentes e armamentos sofisticados,
além do apoio das populações que mais atendem aos discursos populistas do líder
do PDT. E já partem às ações terroristas... (Em tempo: hoje quem comanda o
espetáculo é o Lula).
SERÁ QUE TUDO ISSO OCORREU e OCORRE POR
ACASO?...
CLARO QUE NÃO!...
Em resumo: há grupos de bandidos fortemente armados,
há a numerosa e revoltada população concentrada em favelas apoiando-os, há a
guerrilha urbana praticada diariamente nos “santuários do crime”, há a
sofisticação dos sequestros, há a precisão dos assaltos a carros fortes, a
bancos e a outras instituições empresariais, e há o organizado tráfico de drogas.
Há tudo isto motivado pela sigla CV, ingrediente social instalado na cultura
das comunidades carentes e motivador incontestável das ações de dois poderes
que se uniram por laços de comprometimento fortíssimos: o PODER PÚBLICO e o PODER
MARGINAL. E há, ainda hoje, o PCC e o TCP e as MILÍCIAS.
Feitas estas considerações históricas, a
reflexão partirá para o segundo período do governo Brizola, agora com o foco na
chacina de Vigário Geral. Em primeiro lugar, deve-se situar Vigário Geral no
contexto do CV. Ainda fixado na pesquisa de Carlos Amorim; e para garantir
isenção na análise, assim sublinhou o autor a respeito daquele famigerado
local:
“ENTRE OS GRANDES CHEFES QUE CONTINUAM EM
LIBERDADE HÁ UMA DIVISÃO DE TAREFAS. ADLAS FERREIRA DA SILVA, O ADÃO, É O
PINGA-FOGO, O BRAÇO ARMADO DA ORGANIZAÇÃO. DOMINA UM TERRITÓRIO IMPORTANTE, A
FAVELA DE VIGÁRIO GERAL, ENCRAVADA NO CORAÇÃO DA ZONA NORTE. ADÃO NÃO É UM
HOMEM DE MUITAS PALAVRAS – É DA AÇÃO ARMADA, DO CONFRONTO. TEM SOB SEU COMANDO
UM NÚMERO AINDA NÃO DETERMINADO DE SOLDADOS EQUIPADOS COM O QUE HÁ DE MELHOR NA
INDÚSTRIA BÉLICA MUNDIAL. COSTUMA REQUISITAR REFORÇOS DE OUTROS FEUDOS DO
COMANDO VERMELHO, TODA VEZ QUE ESTÁ ENVOLVIDO NUMA GRANDE AÇÃO COM
CARACTERÍSTICAS DE GUERRILHA URBANA. EM TODAS AS OPERAÇÕES VIOLENTAS – ASSALTOS
E SEQUESTROS –, A POLÍCIA SEMPRE VÊ UM LADO DO BANDIDO, JUSTAMENTE O DEDO QUE
APERTA O GATILHO.”
Vigário Geral e seus bandidos há muito vêm se
destacando por seus métodos violentos. No último período brizolista os
traficantes daquele local partiram para o ataque frontal contra policiais,
bastando o exemplo dos quatro policiais civis, da 39º DP, barbaramente
assassinados, em 1993, no Bairro Jardim América, quando tentavam impedir um
“pega” que contava com a assistência de centenas e talvez milhares de pessoas.
Os traficantes ali faziam a “segurança” e vendiam cocaína. Os policiais civis
foram colocados de joelhos, pedindo clemência aos bandidos, e foram friamente
executados, nada ocorrendo como represália por uma polícia amedrontada e
impedida literalmente de contra-atacar.
O ódio de policiais contra os
bandidos de Vigário Geral tem inúmeros antecedentes, sendo notório que muitos
policiais-militares já foram vítimas da sanha assassina de traficantes ao
transitarem em ônibus a caminho de suas casas ou do trabalho. Bastava serem
identificados em insólitas blitzen realizadas por marginais apenas com o
objetivo de matar policiais.
É notório que Vigário Geral, como assegurou
Carlos Amorim, sempre representou um poderoso braço armado do CV: principais “guerrilheiros
urbanos”, temidos até mesmo por facínoras de outros locais. Esta fama não foi
conquistada gratuitamente. Ali sempre ocorreram lideranças cruéis, como a de
Chiquinho Rambo, – a denominação fala por si só, – Flávio Negão e o próprio
Adão (Adlas), além de outro famigerado bandido, hoje preso: Zé Penetra. Todos
eles sempre se destacaram por muita audácia. São todos assassinos ferozes,
especialistas em sequestros e assaltos perpetrados contra instituições
financeiras.
Flávio Negão comandou pessoalmente o bárbaro
assassinato dos quatro policiais civis e dos quatro policiais-militares, fato
último que fez entornar o caldo de um ódio fervente e acumulado, originando a
não menos absurda reação de PMs, cujo nefasto resultado foi a chacina de 21 pessoas
Independentemente da barbaridade da reação, que
acabou infortunando inocentes, - homens, mulheres e crianças, - não se pode
deixar de considerar esses antecedentes de ódio, e o formato operacional de
“guerrilha urbana” instalado na cultura de todos.
A irracionalidade do ato dos PMs teve um
antecedente indiscutível: a revolta. E esta não mede consequências, assim como
não se vincula a preceitos de legalidade.
POR QUE A REVOLTA?...
É lógico que os verdadeiros assassinos devem
ser severamente penalizados. Todavia, isto não irá eliminar o problema. Apenas
irá acirrá-lo até à próxima tragédia, que certamente ocorrerá, caso os bandidos
continuem como “líderes” daquela sofrida comunidade, que não tem outra
alternativa a não ser a de ficar do lado deles. É ilusão pensar que movimentos
isolados de pessoas corajosas e bem-intencionadas irão resolver o problema. Há,
naquele local, o império da anomia.
Hoje, são muitos “braços armados” – e muito bem
armados – espalhados pelo Estado do Rio de Janeiro. Hoje, eles têm telefonia
celular, carros importados, moeda nacional forte, computadores e outros
sofisticados meios para aprimorarem a organização criminosa. E, pior que tudo
isso: têm a polícia fragmentada, inerme e inerte em razão das retaliações
brizolistas do passado.
Hoje, os bandidos sabem que as Forças Armadas
não conseguem resolver o problema, pela simples razão de que elas vieram para
enfrentar o crime e se depararam com guerrilha urbana, o que não se resolve num
estado de normalidade democrática.
O romantismo da democracia emergente não
permite a hipótese única da decretação de um Estado de Defesa, ou até de um
estado de absoluta exceção legal – Estado de Sítio –, a fim de que a Polícia e
as Forças Armadas enfrentem os guerrilheiros do CV e demais facções criminosas
em igualdade de condições. Mas esse mesmo romantismo, e o proselitismo de todos
aqueles que continuam a defender a ineficiente e ineficaz ação de uma polícia
desmantelada pelo brizolismo e políticos assemelhados, muito se arrependerão um
dia desse adiamento...
Nenhum comentário:
Postar um comentário