TRIBUTO
A
OSWALDO MAZUR
(CONTO)
Emir Larangeira
Abril de 2001
UM
A
densa neblina tocava suavemente o chão na madrugada friorenta que se mantinha
acordada nas grimpas do Campo do Coelho, lindo lugar que num tempo mui remoto a
mãe-natureza fez nascer nas serranias friburguenses. Mas naquela madrugada o
céu parecia não existir, tudo estava envolto por um véu opaco que nem mesmo
permitia a visibilidade de algum lume caseiro de casa a casa, e o frio fino e
cortante fazia o próprio termômetro tremelicar por conta de uma temperatura
indo ao negativo.
Nos humildes casebres espalhados pelo imenso
vale de hortaliças as famílias de lavradores tentavam vencer a gelidez
enrolando-se em trapos disponíveis, o que era ainda muito pouco. Por isso é que
o fogo crepitava e fagulhava em trempes improvisadas nos cantos dos cômodos de
chão batido. Cuidava-se, assim, do aquecimento interno para espantar o frio,
enquanto a água fervia para coar o café madrugador. Mas havia lá no alto da
colina uma pequena casa desde antes acordada e envolta numa neblina tão densa
que mais parecia ter sido construída numa nuvem; e, nela, pessoas nervosas
circulavam sem parar no espaço apertado, umas indo ao quintal respirar o ar
gelado e rapidamente voltando, outras encolhidas sem ânimo diante da friagem;
e, dentro da casa, um fogo mais intenso queimava ardentemente o enorme
vasilhame cheio de água em ebulição, fazendo oscilar nas sombras dos rostos
cansados a alumiação de seus perfis: imperava a ansiedade entre os presentes,
ansiedade contagiante, que se instalara nos espíritos daquela gente humilde que
se deixava ficar na pequena casa do Campo do Coelho; mas em João Capistrano, o
chefe da família, o que se via era uma tensão incontrolável: logo ele seria pai
pela primeira vez. Sim, era o que acontecia no seu quarto, onde, naquele
momento, nem mesmo ele podia entrar, proibido por mulheres que amparavam sua
esposa, Maria da Ajuda, já em trabalho de parto.
Os homens aguardavam o grande momento, todos
espalhados por três outros cômodos do ranchinho feito em parede de barro batido
no bambu e teto de sapê. Mas tudo muito bem-feito desde muito tempo por João
Capistrano e seus diletos amigos. E eram os mesmos que ali com ele tagarelavam
nervosamente, tomavam uma pinga atrás da outra e pitavam sem parar o fumo
enrolado na palha do milho, enquanto do lado de fora alguns cachorros uivavam
em reclamação friorenta. Era, porém, um nervosismo pra lá de saudável, porque
todos acreditavam no sucesso do parto e na competência da velha aparadeira, Maria
do Carmo, que sempre atendia com dedicação às parturientes naquelas distantes
serranias friburguenses.
Tudo ia indo muito bem, pois a aparadeira,
experimentada em incontáveis situações como aquela, vinha volta e meia dar esta
garantia aos homens nervosos. Mas nem assim João Capistrano se acalmava:
tremia, fumava, sentava, levantava, ia até o quintal, voltava, conversava e
tentava ocultar sua excitação, algo, porém, impossível naquela altura dos
acontecimentos. E veio, enfim, o primeiro som do bebê, o choro da vida, a
explosão materializada de mais um espírito chegando ao mundo. E veio a futura
comadre, Magnólia Cordeiro, anunciando: “É homem!” Primeiro João Capistrano
ficou estatelado, para depois reagir: “Obrigado, meu Deus! É meu filho!... É meu
filho! Será João, como eu! Será Joãozinho!”
Pronto, estava sacramentado pelo pai que o
rebento teria de pia o seu nome, ou o do avô, que também era João, mas
diferençado de ambos pelo diminutivo de primeira hora. Surgia, pois, a terceira
geração de lavradores naquele recôndito vale do Campo do Coelho, lugarejo que
se situa a 12 Km da cidade de Nova Friburgo, na Região Serrana do Estado do Rio
de Janeiro, isto para que fique bem localizado o recanto onde ocorreu a
história que vamos contar.
DOIS
Joãozinho
nasceu saudável. Desde as primeiras horas foi muito bem cuidado, apesar da
pobreza de seus pais, que vinham vindo há anos plantando do modo como muitos
ainda plantam hortaliças diversas, em rotatividade das áreas de cultivo, no
vale do Campo do Coelho. Lá a vida corre sem a pressa da cidade, mas é ativa e
saudável, pois o que conta é a experiência quase atávica dos lavradores, vinda
de gerações passadas, além da solidariedade entre a gente simples, que nunca
deixa ninguém sozinho a enfrentar problemas. É a típica comunidade rural
estreitada por laços de um labor incessante, e sempre renovado, posto assim o
plantio de hortaliças, plantas efêmeras, o exige. Por isso aquela gente
laboriosa acorda antes do sol para hortar o chão, e dele, do indispensável sol
que chega pujante, se despede o lusco-fusco de um alvorecer friorento. Mas o
resultado da conjugação permanente entre a terra, o sol e a água
sistematicamente espargida é o verde lindíssimo que cobre todo vale como um
imenso tapete: tapete bordado em hortaliças pela mãe-natureza, com a ajuda de
seus filhos plantadores.
Naquela
manhã de 19 de junho de 1976 o sol jorrava seus raios sobre o vale, mas custava
a espantar a teimosa bruma e o frio impertinente. E foi no adiantado da hora
que os primeiros brilhos do poderoso rei dos astros finalmente bateram nas
costas dos lavradores, que desde o alvorecer labutavam nos campos de
hortaliças. E, cumprindo um majestoso determinismo, vieram os pássaros voejando
e pipilando e dando bons-dias aos felizes lavradores (homens e mulheres) já
aquecidos pelo esforço de seus próprios corpos. Muitos passarinhos adejavam,
pousavam, corriam, pulavam e cantavam sem medo da presença humana, formando um
quadro fantástico, lindo instante de integração entre humanos e bichos, coisa
de Deus. E todos ali ouviam ao longe o choro sadio de Joãozinho, o bebê que no
futuro marcaria com emoção intensa a vida simples dos viventes daquele lugar.
TRÊS
Oito
anos se passaram com a lentidão de sempre. Já então Joãozinho acompanhava o pai
na labuta de colher, cortar e amarrar os molhos de hortaliças. Mas ficava
apenas vendo seu herói paterno laborar enquanto brincava entre a passarada
cantante e com ela parolava alegremente com uma voz tão meiga que muitos
passarinhos chegavam quase a tocá-lo. Quem visse a cena certamente se
deslumbraria diante de tão estupenda beleza, pois lembrava a intimidade de São
Francisco de Assis com seus esvoaçantes e coloridos amiguinhos. Sim, porque a
imensidão verdejante dos descampados cultivados, – que recebiam a água do riacho
cristalino espargida por potentes bombas d’água, formando cortinas de vapores
ensolarados e multicolores, – a imensidão verdejante era o fundo da imediata
paisagem humana e animal encaixilhada pelo horizonte distante como um quadro
pintado pelos deuses. Tudo imensamente lindo!
Assim
as imagens de uma natureza maravilhosa se associavam aos movimentos dos
camponeses, da passarinhada e das borboletas que cortavam e coloriam
ininterruptamente o ar. E toda essa beleza ia sendo gravada na mente infantil
de Joãozinho, que, orgulhoso do pai, com ele já compartilhava do café cheiroso
e quente, momento em que todos comiam o pão em torno da trempe improvisada em
pedras lá mesmo na roça, de onde as caixas de hortaliças seguiam para a cidade.
E, no café, surgiam as cavaqueadas dos adultos, em volta o alarido feliz das
mulheres, estas que também participavam ativamente da vida no campo, pois nas
casas elas ficavam apenas o tempo certo de confeccionar o alimento da família.
Enfim, o menino ia gravando no seu pequenino espírito as imagens da mais
inefável felicidade, enquanto a vida seguia seu rumo sereno no vale do Campo do
Coelho.
QUATRO
O
ano de 1984 marcou a mudança, eis que uma imponente obra surgiu na localidade,
aguçando a curiosidade do povo camponês. Mas logo veio o esclarecimento, porque
os responsáveis pela grande construção se iniciaram na busca de mão-de-obra
destinada ao trabalho mais rústico. A especializada já até começara a montar o
canteiro de serviços, e os materiais não paravam de chegar. Seria ali construído
um Hotel Fazenda, grande novidade e, de certa maneira, motivo de apreensão,
porque muitos camponeses chegaram a imaginar que teriam suas terras invadidas
pelo progresso.
Contudo,
logo tudo ficou claro, não haveria nada disso, o hotel estava destinado a
ocupar uma área livre de qualquer plantio e respeitando a natureza, ou melhor,
chegava também com o objetivo de se tornar uma fortaleza em defesa do meio
ambiente. Daí então veio a descontração, mantendo-se apenas a curiosidade do
povo, que via o hotel receber contornos estruturais bastante portentosos. Mas,
na verdade, tratava-se de obra até certo ponto caracterizada pela rusticidade,
porque os construtores primavam por sua integração perfeita ao viçoso verde que
rodeava o prédio.
É
bom que se diga, porém, que a infra-estrutura era primorosa e compatível com a
magnitude da empreitada. Assim, depois de bom tempo, emergiu entre pinheiros e
eucaliptos, gramados e jardins viçosos o Hotel Fazenda. E dele se podia, e
ainda se pode até hoje, avistar os vales ocupados por hortaliças, além de
alguns descampados em que poucos animais pastam, e mais ao longe se avistam os
outeiros caminhando em direção às altas montanhas cujas silhuetas lá no
horizonte infinito recortam o céu. É tudo muito belo, e exatamente neste lugar
é que o Hotel Fazenda logo se iniciou a funcionar, até aproveitando muitas
pessoas do lugarejo como empregadas. Foi, portanto, salutar a chegada de mais
um núcleo de trabalho para aquela gente simples.
Ainda
durante a construção, Joãozinho, já indo para nove anos de idade, assistia a
tudo maravilhado. Muita vez se embrenhava no mato e ficava horas e horas
apreciando os trabalhadores assentando tijolos, misturando a massa, cortando
tábuas, cavando buracos, construindo telhados, pintando paredes e envernizando
o madeiramento para, finalmente, aflorar a imponente construção. E rebrilhava
ao sol aquele prédio, deslumbrando os camponeses não acostumados à nova
paisagem. Joãozinho simplesmente vibrava com o acontecimento.
Na
escola, situada na pequena zona comercial do Campo do Coelho, que cresceu
naturalmente nos dois lados da estrada que liga Nova Friburgo a Teresópolis, a
conversa entre a petizada não era outra, de tal modo que as professoras tiveram
até mesmo de organizar visitas ao Hotel Fazenda para aplacar a crescente
curiosidade infantil. Assim se foi instituindo um inevitável interesse à
contemplação da novidade, até que ela se integrasse à rotina do lugar.
Já
funcionando, o Hotel Fazenda começou a acolher seus hóspedes, brasileiros e
estrangeiros, que para lá acorriam em busca principalmente de paz. E essa gente
diferente passou a ser alvo de curiosidade durante um bom tempo, até que o povo
local se acostumasse com a invasão. Era, sem dúvida, uma agradável presença,
eis que trazia divisas e melhorava a vida de todos. Enquanto isso, na roça,
nada mudara: a rotina dos camponeses e da passarada era a mesma; preservara-se
a natureza, particularmente porque viera a melhor das indústrias para o Campo
do Coelho: o turismo. Não haveria ali chaminés poluentes...
CINCO
Em
meio a toda aquela movimentação crescia Joãozinho, que na escola deslumbrava os
mestres em sua volúpia de aprender. Além da dedicação ao estudo das matérias
obrigatórias, o menino ainda encontrava tempo para devorar os livros da pequena
biblioteca escolar. Lia tudo de tudo, até não haver mais nada para ler, o que o
fazia repetir suas leituras à exaustão. E como era uma biblioteca que se
formava por doações, via-se nas estantes desde romances clássicos a livros de
biofísica. Porém, nada escapava das vistas e da atenção do prodigioso
estudante, que muita vez surpreendia as professoras ao demonstrar conhecimentos
que deveriam estar ao largo de sua algibeira cultural.
Muita
coisa Joãozinho não entendia, é verdade, mas nem por isso deixava de ler e reler
os livros, começando logo a se encantar pelos que versavam sobre pintores
famosos, além de também se deleitar com as lindas histórias da Tradição Sufi,
às quais dava mais importância porque passaram a povoar seu mundo infantil, a
estimular sua imaginação fértil e a forjar inspirações futuras. E não demorou
muito para que Joãozinho se transformasse em atração no Hotel Fazenda, tudo
começando a partir das abordagens que ele fazia aos hóspedes que caminhavam
pela estradinha de chão batido bem em frente da casa dele: Joãozinho não perdia
a oportunidade de os cumprimentar e lhes pedir livros usados. Todos se
encantavam com o menino, e era certo que no dia seguinte os livros choviam no
seu colo tal qual a água que se espargia sobre as hortaliças: em grande quantidade.
E assim, depois de um tempo, a biblioteca particular de Joãozinho era maior que
a do colégio, onde ele já cursava o primeiro grau.
É
lógico que, sem perceber, Joãozinho começou a maravilhar os que com ele
conversavam, não somente no colégio, onde muita vez demonstrava mais
conhecimento sobre determinados assuntos do que a própria professora. Mas eram
principalmente os hóspedes do Hotel Fazenda que gostavam de ouvir as histórias
do lugar contadas por Joãozinho, bem como com ele trocar impressões sobre
literatura e arte em geral, assuntos que passaram a se integrar à sua cultura
particular. E isto se explicava facilmente, posto a maioria dos hóspedes
preferir durante o descanso e o lazer a leitura de livros deste quilate, cujas
mensagens culminavam definitivamente enfiadas no espírito arguto do menino.
Algum
tempo passou, até que, de repente, o Hotel Fazenda começou a sofrer pequenas
modificações, adaptando-se para funcionar ali um SPA*. E correu um
diz-que-diz-que na localidade, eis que chegava comandando o espetáculo uma
famosa atriz e intérprete: Tânia Alves. E, junto dela, o empresário Tadeu
Viscardi, seu marido e sócio no empreendimento.
Tânia
Alves chegou dispensando apresentações, e muito menos necessitou ser
apresentada à natureza, eis que no seu espírito já há muito se instalara a
férrea vontade de levar as pessoas ao conhecimento do mundo natural, para assim
reencontrarem a saúde física e mental. E, se não mudou a fachada do Hotel
Fazenda, mudou radicalmente seu miolo, todo agora voltado à reciclagem de
pessoas de todos os naipes que vinham em busca de paz e saúde do corpo e do
espírito. E logo haveria o reflexo do lado de fora, devido às animadas andanças
dos spazianos* por todos os caminhos livres entre as hortaliças plantadas nos
descampados do vale do Campo do Coelho. E o que era lindo e animado ficou ainda
mais lindo e animado, especialmente aos olhos atentos de Joãozinho.
SEIS
O
menino continuou a interagir com os novos hóspedes, que sempre voltavam ao SPA.
Assim se foi tornando amigo de muitos e ganhando seus livros, até que o fato se
transformasse em problema familiar, porque não havia mais paredes para o
orgulhoso pai e a enfeitiçada mãe arrumarem as obras acumuladas pelo filho.
Mas, bastou Joãozinho externar sua aflição, para a administração do SPA mandar
construir no terreno que acolhia sua casa simples um cômodo amplo com o fim de
acomodar organizadamente aquela biblioteca, agora com mais de três mil livros.
Foi exatamente nessa época que chegou ao SPA um casal que um dia revolucionaria
a vida do prodigioso menino: Oswaldo Mazur e Mariana Fernandez.
Vieram
da Argentina para tentar a vida e desenvolver suas habilidades no Brasil.
Escolheram viver nas serranias friburguenses e descobriram o SPA como um dos
locais ideais ao que pretendiam fazer: ele pintando retratos e quadros e
ilustrando contos infantis, ela contando histórias. Dois artistas, almas gêmeas
maravilhosas naquilo que faziam. E logo conheceram o menino mais badalado por
todos quanto freqüentavam ou trabalhavam no SPA, pasmando-se ambos com a
cultura dele e, principalmente, com seu talento literário e sua habilidade em
reproduzir em papéis improvisados as paisagens do Campo do Coelho, é bem
verdade que apenas pinturiladas a lápis de cor. E não levaria muito tempo para que
se forjasse uma profunda amizade entre o jovem pintor argentino e o menino
Joãozinho. E dela, da amizade, se iniciaria a troca entre os espíritos daqueles
dois, pois é certo que, enquanto Oswaldo Mazur ensinava suas técnicas ao
menino, este, por sua vez, lhe repassava as idéias de paisagens que depois
emergiam como belas obras de arte nas telas do virtuoso argentino.
Era
tão impressionante o grau de fidelidade dos cenários descritos pelo menino, que
muita vez Oswaldo Mazur os gravava em tela para depois se espantar com a
capacidade de Joãozinho em descrever a natureza. Depois, o próprio Joãozinho
começaria a produzir lindas obras, porém sempre orientado por seu mestre
argentino. Já com Mariana Fernandez ele ouvia, aprendia e memorizava as lindas
histórias por ela contadas, e que ele depois reproduzia talentosamente para as
crianças no colégio e no salão paroquial da igreja católica que fica numa
imponente colina lá no Campo do Coelho. Tornara-se, Joãozinho, uma espécie de
irmão caçula do casal argentino, dada a profunda amizade que os unia...
Veio
a fase em que Oswaldo Mazur decidira retratar os pássaros da região, que eram
muitíssimos e variados, além de lindos. E o maravilhoso pintor, captando as
descrições que lhe fazia Joãozinho, foi aprisionando em suas telas, – em meio
às paisagens de flores, árvores, gramados e casarios, tendo o céu, as nuvens, o
sol ou a lua como complementos, – foi aprisionando em suas telas os sabiás, os
gaturamos-reis, os tico-ticos, os canários-da-terra, os beija-flores, os papa-capins,
os periquitos, os papagaios e muitos outros espécimes, formando com cada um
suas obras-primas imediatamente arrematadas pelos spazianos. Mas depois de um
tempo os quadros de Joãozinho eram tão semelhantes aos do mestre argentino que
logo se viam arrematados. Com isso, Joãozinho pôde melhorar a moradia da
família e aprimorar sua biblioteca, agora transformada em ateliê, por sinal
bastante diversificado, eis que, munido de um computador, Joãozinho se iniciou
a escrever histórias infantis para Mariana Fernandez narrá-las nas noites de
sextas-feiras no SPA. E os spazianos, independentemente de idade, se
maravilhavam com as belíssimas encenações de Mariana Fernandez, sempre
atentamente acompanhadas por Joãozinho. Na verdade, o quase adolescente
simplesmente vibrava com as lindas interpretações da mestra castelhana
contadora de histórias e vocacionada divulgadora das maravilhas do mundo do
faz-de-conta.
Se
havia um lugar chamado Felicidade, esse lugar era ali, era o SPA Maria Bonita,
nome dado em homenagem à estupenda atriz Tânia Alves, sua proprietária, famosa
por interpretar a figura nordestina mais marcante na vida real e personagem
ímpar do cinema nacional. E não somente por isso Tânia Alves se destacou, mas
também por defender e divulgar uma importante filosofia de vida, o Naturalismo,
doutrina que estimula a volta à vida natural e à simplicidade primitiva, quer
nas instituições sociais, quer na maneira de viver das pessoas. Enfim, uma
aproximação com o Ser Supremo através do respeito à natureza.
Sim,
ali havia a felicidade, até ocorrer o inesperado revés, a tragédia que ceifou
de súbito a vida de Oswaldo Mazur. Entendera o Criador que o maravilhoso pintor
deveria viver entre as paisagens que ele mesmo retratara, um admirável mundo
que ganhava vida através de suas pinceladas mágicas. Na verdade, e sem que
ninguém o soubesse, Oswaldo Mazur era um Anjo que acabara de cumprir sua missão
terrena. Por isso partira, porém deixando, entre aqueles que o amavam, a
saudade.
No
início, houve um sentimento de perda extremamente forte, especialmente para
Mariana Fernandez, sua mulher, que se viu desamparada tão longe de casa e da
família, e desesperada pelo desaparecimento brusco do amado. Foi terrível
também para Joãozinho, que se sentiu como se tivesse perdido um pedaço de si,
como se uma luz que brilhava dentro de sua alma se houvesse apagado. Foi tanta
a sua dor que até afetou o coração do seu coração, o ponto mais profundo de sua
alma. Afinal, ele aprendera com o mestre Oswaldo Mazur que todo artista tem um
coração do coração, onde se esconde a alma. E a alma de Joãozinho estava
irremediavelmente ferida.
Houve,
sim, a tristeza da mãe-natureza, o desalento dos camponeses, o silêncio da
passarada; houve, sim, na primeira hora, o espanto absoluto, a consternação geral,
ainda ampliada porque todos sabiam que a perda seria dupla, eis que Mariana
Fernandez, desconsolada, tornara à sua terra natal. E isso foi mais um corte
profundo no coração do jovem Joãozinho, que se viu perdido em sua emoção. Não
fosse o carinho dos pais, que sofriam, mas lhe procuravam minorar a dor, nem se
sabe o que lhe teria acontecido.
Foi
João Capistrano, o pai, emocionado e rememorando a madrugada mágica em que seu
filho veio ao mundo, foi ele quem alertou Joãozinho para a necessidade de
perpetuar a obra do mestre argentino que partira aos Céus. Cabia, sim, a
Joãozinho, instituir um meio de manter viva a memória do mestre; era ele quem
devia se inspirar e apresentar uma saída para que o nome de Oswaldo Mazur se
eternizasse além de sua maravilhosa obra, representada por muitas pinturas,
ilustrações e retratos de spazianos que ele riscara em vida. Porque nesses
trabalhos estava a imagem eterna do mestre da pintura; nesses retratos, o
mestre fixara não somente sua própria emoção, mas os sentimentos das pessoas
que para ele posaram. Ele buscava os corações dos corações dessas pessoas
através de seus olhares, e captava a máxima beleza daqueles seres humanos. E
também gravava a passarinhada com tanta precisão que parecia até que seus
maviosos cantos emergiriam a qualquer momento daquelas telas maravilhosas. Era,
sem dúvida, um mister orientado por Deus, obra de Anjo-mensageiro...
SETE
Enquanto
Joãozinho sofria em razão da dupla ausência de seus mais importantes amigos, ao
mesmo tempo pensava em como cumprir a idéia do seu pai. Mas o sofrimento dele
era tão intenso que precisou passar muito tempo antes de lhe brotar a
inspiração. Ajudou um pouco a minorar sua dor o ingresso no segundo grau e o
estudo à noite. Já se encaminhando à adolescência, ajudava o pai no plantio e
na manutenção do roçado de hortaliças, e ainda arranjava tempo para a leitura e
a pintura de novos quadros. Mas se afastara do SPA; não suportava a tristeza da
lembrança de Oswaldo e Mariana Fernandez, esta que partira para a Argentina para
nunca mais voltar. Apesar da tristeza que o abatia, aos domingos, depois da
missa, Joãozinho nunca deixava de contar suas histórias para as crianças do
lugarejo, que também se reuniam no quintal de sua casa e ficavam horas e horas
se deleitando com as maravilhas da Tradição Sufi antes carinhosamente
repassadas por Mariana Fernandez. E ele nunca deixava de contar as histórias
dele próprio com o seu mestre Oswaldo Mazur. Mantinha-o vivo nas almas de todas
as crianças.
Mas
eis que, num domingo, estando Joãozinho rodeado de crianças em sua casa, surgiu
nada mais nada menos que Tânia Alves. Joãozinho vira-a ainda ao longe, e ela
vinha com um sorriso delicado iluminando seu rosto suave e belo, rosto de quem
sabe o que é o mundo, o verdadeiro mundo, o mundo natural, a grande obra do
Criador dos Céus e da Terra. Na verdade, quando Joãozinho fisgou Tânia Alves
com seus olhos viu um Anjo-mensageiro, tal qual Oswaldo Mazur, e concluiu que
aquela visita não lhe seria em vão. Haveria, sim, um objetivo muito importante
nela, e lembrou o mestre e Mariana Fernandez...
Tânia
Alves, depois de pedir a Joãozinho para continuar sua tarefa de distrair a
petizada, ficou ouvindo-o atentamente e se entristecendo ao perceber que ele
contava histórias tristes. Joãozinho estava triste, sim, mas no coração do seu
coração, a casa de sua alma, surgiu sem querer uma pontinha de esperança junto
com a natural exclamação: “Oh, tia Tânia! Que prazer!” Ela então esclareceu a
razão da inesperada visita:
–
Joãozinho, primeiro lhe desejo parabenizar pela bela iniciativa em favor das
crianças e da arte. Estou impressionada. Mas acho que é hora de fazermos mais
por essas crianças, e eu vim aqui para lhe propor uma parceria...
Na
realidade, Tânia Alves e Tadeu Viscardi já haviam decidido iniciar uma obra
social de grande vulto destinada às crianças pobres do Campo do Coelho.
Pensavam em construir na área do SPA um prédio polivalente destinado ao
complemento educacional das centenas de meninos e meninas que habitavam as
cercanias do SPA. E partiram para a concretização da idéia de fundar uma
instituição com a finalidade de incrementar as artes e os esportes, além de
proporcionar às crianças um atendimento básico de saúde. Seria, sem embargo,
uma obra monumental, mas Tânia Alves esperava contar com a colaboração dos
próprios spazianos. Era uma causa justa, Tânia Alves e Tadeu Viscardi
resolveram apostar na idéia. Mas dependiam muito da participação de Joãozinho,
que sozinho concentrava a atenção da petizada. Por isso foi a casa dele
convidá-lo a participar, surpreendendo-se, porém, com o que viu: um abnegado
jovem dedicando-se de corpo e alma à preservação da Tradição Sufi e repassando
aos seus pequeninos ouvintes as histórias aprendidas com Mariana Fernandez.
Tânia
Alves ficou deveras emocionada, e mais ainda se emocionou Joãozinho quando,
depois de sugerir à artista dar à instituição o nome do saudoso mestre, recebeu
dela a aquiescência imediata. Na verdade, também ela guardava no coração do seu
coração uma profunda saudade daquele casal argentino que viera para o Brasil
trazendo na bagagem a arte e a alegria de viver. Seria, pois, uma justa
homenagem.
Tânia
Alves e Tadeu Viscardi puseram então mãos à obra, e em poucos meses surgiu num
largo espaço do terreno do SPA o majestoso prédio. E, para surpresa da atriz,
os spazianos, todos, sem exceção, colaboraram na construção, e ainda se
propuseram a ajudar a fundação por meio de contribuições mensais. Mas havia
algo de comum, havia a mola propulsora, a essência daquela motivação, e ela se
chamava Oswaldo Mazur. Sim, porque quase todos estavam ligados ao artista, ou
por terem em suas casas seus maravilhosos quadros, ou por guardarem em
belíssimas molduras seus retratos por ele pintados, ou possuírem enfileirados
nas estantes os livros infantis por ele magnificamente ilustrados. Sim, sim,
Oswaldo Mazur estava dentro do coração do coração de centenas de pessoas que o
admiravam sobremaneira, ele fazia parte da alma daquelas pessoas; por isso,
tudo foi ficando mais fácil...
OITO
Com
efeito, houve a entusiástica participação dos spazianos, que se ligaram
espontaneamente ao projeto movidos pelo amor ao casal argentino que tantas
lições de vida deixaram gravadas no SPA Maria Bonita. E logo os espaços da
fundação foram ocupados pelas crianças do Campo do Coelho, que tanto recebiam
tratamento médico e dentário como o apoio em suas necessidades culturais,
através de intensas atividades desportivas e artísticas, com aulas de música
instrumental, balé, teatro, canto orfeônico e, principalmente, com o
desenvolvimento da arte de contar histórias, a arte de Mariana Fernandez, que
nunca jamais seria esquecida.
Mas
faltava ela, Mariana Fernandez, nem que fosse para conhecer a homenagem que seu
amado recebera. Daí é que os spazianos, juntamente com Tânia Alves e Tadeu
Viscardi, decidiram também lhe providenciar um preito de reconhecimento. Coube
então a Tania Alves partir para a Argentina no encalço dela, enquanto aqui se
organizava a grande festa. Seria, sem dúvida, uma grata surpresa para ela,
embora também se soubesse que não seria fácil localizá-la. Mas Tânia Alves
possuía o principal para atingir tal desiderato: o prestígio internacional...
Enquanto
tudo isso ocorria, Joãozinho tomava-se de emoção. Só pela possibilidade de
rever a querida contadora de histórias da Tradição Sufi, seu coração batia mais
forte; e o coração do seu coração, ou seja, a sua alma, se rejubilava com a
idéia. Ele visitava cada casa, cada criança, em tudo quanto era lugar do Campo
do Coelho, preparando-as para o grande dia. E, na fundação, comandava os ensaios
da petizada, sendo ainda ajudado por muitos artistas amigos de Tânia Alves,
todos spazianos, que vieram também colaborar. A festa prometia...
Na
Argentina, Tânia Alves buscou os canais de tevê e a imprensa local, além de
pedir ajuda às autoridades no sentido de localizar Mariana Fernandez. E o que
lhe parecia difícil tornou-se simples, eis que ao primeiro anúncio de que ela
estava em solo argentino somente para contatar Mariana Fernandez, esta, ao
assistir a entrevista da querida amiga, veio diretamente ao seu encontro e
ambas se desmancharam em lágrimas ao se abraçarem. Tânia Alves então convidou
Mariana Fernandez a vir ao Brasil e ao SPA, porém lhe ocultando a existência da
instituição. Mariana Fernandez ficou deveras emocionada ao receber o convite. E
ficou a par de todas as novidades havidas durante a sua ausência, especialmente
a mais importante: o seu pupilo Joãozinho era já um calouro de Medicina.
Mariana Fernandez não podia nem sonhar com o que a esperava no Brasil e nas
serranias friburguenses...
NOVE
Um
mês depois, Mariana Fernandez embarcou no avião com destino ao Brasil.
Sentia-se nostálgica, infeliz, pois as lembranças da morte trágica do seu amado
jamais lhe saíram da mente. Na verdade, ela ainda se recusava a viver uma
existência normal, até certo ponto indignada e cética diante da vida e do
mundo. Estava, com efeito, experimentando um terrível baixo-astral.
Com
esses pensamentos pessimistas, Mariana Fernandez se manteve silente durante
toda a viagem, até que o avião aterrou no Aeroporto do Galeão, no Rio de
Janeiro. Lá, esperava-a Tânia Alves, que a hospedou em sua casa. No dia
seguinte, domingo, ambas seguiram viagem para o Campo do Coelho. Mariana
Fernandez, porém, fez questão de passar pelo lugar onde ela e Oswaldo Mazur
construíram o seu lar: o recanto de São Pedro da Serra, bem perto de Nova
Friburgo. Foi muito forte a emoção de Mariana Fernandez ao rever a casinha onde
ela e o amado curtiram uma indescritível felicidade durante treze anos. E ali
desatou um pranto de saudade, sendo amparada pela amiga Tânia Alves.
Vencido
aquele instante de desalento, elas seguiram viagem percorrendo cada pedaço de
chão, o coração aos pulos, com Mariana Fernandez ansiosa ao ver surgir ao longe
o Campo do Coelho. Se já não estava fácil para ela segurar as lágrimas, ainda
mais difícil ficou quando do carro ela avistou a igrejinha no alto da colina,
uma imagem que lhe era tão familiar. Desatou novamente a chorar de emoção.
Afinal, era sempre para aquele local que ela conduzia seus amigos spazianos nas
caminhadas dominicais. E mais emoção a contagiou quando o carro saiu do asfalto
e pegou a estradinha de acesso ao SPA. Ela aproximava sua alma de um passado
que abandonara em indescritível sofrimento.
Avistou
então, ao longe, o portal de entrada do SPA Maria Bonita, e imediatamente notou
que algo muito especial a aguardava, pois se iniciou o foguetório e a Banda de
Música da Polícia Militar, postada na entrada, do lado de fora, fê-la ouvir
belos acordes de músicas folclóricas argentinas. Ela estremeceu, porque, com a
sua sensibilidade, já percebia que algo muito especial a esperava.
O
carro parou antes da entrada, distante uns trinta metros da Banda de Música. E
Mariana Fernandez viu os dois lados da pista de acesso ao SPA apinhados daquela
gente que lhe era tão familiar: os spazianos. Mas, antes, a Banda de Música
entoou o Hino Nacional Argentino. Admirável!... Viu-se, além das lágrimas de
Tânia Alves e de Mariana Fernandez, que todos naquela fila de espera pranteavam
em emoção. E quando ela adentrou o SPA, após o término do hino, viu centenas de
spazianos formando um festivo corredor e a aplaudindo ao ouvirem o alto-falante
anunciando sem parar o seu nome e o de Oswaldo Mazur.
Mariana
Fernandez não acreditava no que via. Não se sentia merecedora de tanto carinho,
de tanta homenagem. Na verdade, não sabia o quanto fora importante para aquelas
pessoas nas sextas-feiras à noite, quando singelamente interpretava suas
histórias infantis e lhes despertava nos corações os tempos da meninice. Muitos
ali, naquele momento mágico proporcionado pela maravilhosa contadora de
histórias, se lembravam dos pais e avós num clima de emoção inolvidável. Sim,
Mariana Fernandez as tornava novamente crianças, e eram essas pessoas que a
aclamavam na passagem pelo corredor humano formado em sua homenagem. E,
finalmente, ela vislumbrou o majestoso prédio ostentando o nome do inesquecível
pintor, retratista e ilustrador de histórias infantis, que deixara sua marca
eternamente registrada na alma de toda a gente spaziana e da criançada do Campo
do Coelho:
Fundação Oswaldo Mazur
Ali
estava a surpresa, a maior de todas as homenagens: seu inesquecível companheiro
eternizado como o patrono de uma obra destinada a cuidar de crianças carentes.
E, já envolvida naquele clima emocionante, ela avistou na porta de entrada
aquela figura tão amada, seu querido Joãozinho, logo emitindo um comovente
“oh!”, enquanto apressava o passo para finalmente abraçar seu grande amigo, o
irmão caçula que ela e seu amado Oswaldo Mazur conquistaram no Campo do Coelho.
As
homenagens não mais pararam. Houve encenações de peças teatrais, demonstrações
de ginástica e, finalmente, a formatura dos novos contadores de histórias da
Tradição Sufi, meninos e meninas da primeira turma da Fundação Oswaldo Mazur.
Era a Turma Mariana Fernandez. E, neste momento, Joãozinho subiu no palco e
declamou um poema especialmente escrito por Cacá, o mais querido dentre os
funcionários do SPA, mais uma sincera manifestação de carinho de todos os
presentes endereçada a Mariana Fernandez e Oswaldo.
Mariana
Fernandez não continha as lágrimas, e recebia muitos abraços e beijos enquanto
se encaminhava ao salão para descerrar a placa comemorativa do seu retorno. E
eis que lhe veio outra insuperável honraria: ali estava funcionando o Museu
Oswaldo Mazur, com as paredes enfeitadas pelos quadros, retratos e livros
infantis por ele ilustrados ao longo de sua vida no Brasil. Todos os spazianos
haviam doado as obras de arte de Oswaldo Mazur criadas no tempo em que ele
atuara no SPA Maria Bonita. Neste momento, Mariana Fernandez caiu em si e
percebeu, lá no fundo de sua alma, no coração do seu coração, que seu amado
estaria vivo para sempre, nunca jamais seria esquecido, tanto por suas obras
como pelas histórias criadas por Joãozinho para eternizá-lo como um Anjo-mensageiro.
Sim,
porque Oswaldo Mazur estava ali, presente, entre pássaros, animais, casarios e
paisagens verdejantes que retratara em vida. E, no meio daquela gente toda que
o amava e ainda o ama, Mariana Fernandez lembrou que o artista nunca morre,
apenas se torna Anjo por vontade de Deus. E, percebendo que também era Anjo,
finalmente sorriu, e sorriu, e sorriu, porque reencontrou sua alma naquele
lugar do vale do Campo do Coelho, um lugar chamado Felicidade. E para lá um dia
ela voltará e permanecerá contando suas belíssimas histórias para as crianças
pequenas e grandes, para os spazianos antigos e novos, assim novamente
participando da mais importante de todas as terapias já havidas no SPA Maria
Bonita: o apoio às crianças carentes acolhidas pela Fundação Oswaldo Mazur e o
reencontro dos spazianos com o mais nobre de todos os sentimentos: o amor ao
próximo.
Em
tempo: Esta história homenageia Mariana e Oswaldo. Não soube mais dela por
muito tempo. Recentemente, porém, algumas pessoas do SPA Maria Bonita garantiram-me
que ela conseguiu superar o trauma da perda do marido. Reconstituiu sua vida e
atualmente curte um novo amor, já tendo inclusive gerado um rebento, não sei se
do sexo masculino ou feminino. Mas isto não importa. O que nos deixa contente é
saber que Mariana recobrou a alegria de viver, e certamente está contando suas
lindas histórias da Tradição Sufi para muitos adultos e crianças, transmitindo
assim a felicidade e levando as pessoas a refletirem sobre a vantagem do Bem
sobre o Mal. Mariana, sem dúvida, e mesmo que não saiba, é Anjo-mensageiro. Que
seja feliz!
*
SPA – Aurelião – [Do top. Spa, estância hidromineral, na Bélgica.] S. m. 1. Estabelecimento que reúne serviços de
hotelaria e outros, terapêuticos ou de cuidados corporais (banhos medicinais, dieta
alimentar, exercícios, etc.).
*
Spaziano – palavra incorporada à rotina da comunicação verbal e escrita entre
os funcionários e as centenas de pessoas que desfrutaram e desfrutam do SPA
Maria Bonita.
TRIBUTO
A
OSWALDO MAZUR
Emir Larangeira
A
densa neblina tocava suavemente o chão na madrugada friorenta que se mantinha
acordada nas grimpas do Campo do Coelho, lindo lugar que num tempo mui remoto a
mãe-natureza fez nascer nas serranias friburguenses. Mas naquela madrugada o
céu parecia não existir, tudo estava envolto por um véu opaco que nem mesmo
permitia a visibilidade de algum lume caseiro de casa a casa, e o frio fino e
cortante fazia o próprio termômetro tremelicar por conta de uma temperatura
indo ao negativo.
Nos humildes casebres espalhados pelo imenso
vale de hortaliças as famílias de lavradores tentavam vencer a gelidez
enrolando-se em trapos disponíveis, o que era ainda muito pouco. Por isso é que
o fogo crepitava e fagulhava em trempes improvisadas nos cantos dos cômodos de
chão batido. Cuidava-se, assim, do aquecimento interno para espantar o frio,
enquanto a água fervia para coar o café madrugador. Mas havia lá no alto da
colina uma pequena casa desde antes acordada e envolta numa neblina tão densa
que mais parecia ter sido construída numa nuvem; e, nela, pessoas nervosas
circulavam sem parar no espaço apertado, umas indo ao quintal respirar o ar
gelado e rapidamente voltando, outras encolhidas sem ânimo diante da friagem;
e, dentro da casa, um fogo mais intenso queimava ardentemente o enorme
vasilhame cheio de água em ebulição, fazendo oscilar nas sombras dos rostos
cansados a alumiação de seus perfis: imperava a ansiedade entre os presentes,
ansiedade contagiante, que se instalara nos espíritos daquela gente humilde que
se deixava ficar na pequena casa do Campo do Coelho; mas em João Capistrano, o
chefe da família, o que se via era uma tensão incontrolável: logo ele seria pai
pela primeira vez. Sim, era o que acontecia no seu quarto, onde, naquele
momento, nem mesmo ele podia entrar, proibido por mulheres que amparavam sua
esposa, Maria da Ajuda, já em trabalho de parto.
Os homens aguardavam o grande momento, todos
espalhados por três outros cômodos do ranchinho feito em parede de barro batido
no bambu e teto de sapê. Mas tudo muito bem-feito desde muito tempo por João
Capistrano e seus diletos amigos. E eram os mesmos que ali com ele tagarelavam
nervosamente, tomavam uma pinga atrás da outra e pitavam sem parar o fumo
enrolado na palha do milho, enquanto do lado de fora alguns cachorros uivavam
em reclamação friorenta. Era, porém, um nervosismo pra lá de saudável, porque
todos acreditavam no sucesso do parto e na competência da velha aparadeira, Maria
do Carmo, que sempre atendia com dedicação às parturientes naquelas distantes
serranias friburguenses.
Tudo ia indo muito bem, pois a aparadeira,
experimentada em incontáveis situações como aquela, vinha volta e meia dar esta
garantia aos homens nervosos. Mas nem assim João Capistrano se acalmava:
tremia, fumava, sentava, levantava, ia até o quintal, voltava, conversava e
tentava ocultar sua excitação, algo, porém, impossível naquela altura dos
acontecimentos. E veio, enfim, o primeiro som do bebê, o choro da vida, a
explosão materializada de mais um espírito chegando ao mundo. E veio a futura
comadre, Magnólia Cordeiro, anunciando: “É homem!” Primeiro João Capistrano
ficou estatelado, para depois reagir: “Obrigado, meu Deus! É meu filho!... É meu
filho! Será João, como eu! Será Joãozinho!”
Pronto, estava sacramentado pelo pai que o
rebento teria de pia o seu nome, ou o do avô, que também era João, mas
diferençado de ambos pelo diminutivo de primeira hora. Surgia, pois, a terceira
geração de lavradores naquele recôndito vale do Campo do Coelho, lugarejo que
se situa a 12 Km da cidade de Nova Friburgo, na Região Serrana do Estado do Rio
de Janeiro, isto para que fique bem localizado o recanto onde ocorreu a
história que vamos contar.
DOIS
Joãozinho
nasceu saudável. Desde as primeiras horas foi muito bem cuidado, apesar da
pobreza de seus pais, que vinham vindo há anos plantando do modo como muitos
ainda plantam hortaliças diversas, em rotatividade das áreas de cultivo, no
vale do Campo do Coelho. Lá a vida corre sem a pressa da cidade, mas é ativa e
saudável, pois o que conta é a experiência quase atávica dos lavradores, vinda
de gerações passadas, além da solidariedade entre a gente simples, que nunca
deixa ninguém sozinho a enfrentar problemas. É a típica comunidade rural
estreitada por laços de um labor incessante, e sempre renovado, posto assim o
plantio de hortaliças, plantas efêmeras, o exige. Por isso aquela gente
laboriosa acorda antes do sol para hortar o chão, e dele, do indispensável sol
que chega pujante, se despede o lusco-fusco de um alvorecer friorento. Mas o
resultado da conjugação permanente entre a terra, o sol e a água
sistematicamente espargida é o verde lindíssimo que cobre todo vale como um
imenso tapete: tapete bordado em hortaliças pela mãe-natureza, com a ajuda de
seus filhos plantadores.
Naquela
manhã de 19 de junho de 1976 o sol jorrava seus raios sobre o vale, mas custava
a espantar a teimosa bruma e o frio impertinente. E foi no adiantado da hora
que os primeiros brilhos do poderoso rei dos astros finalmente bateram nas
costas dos lavradores, que desde o alvorecer labutavam nos campos de
hortaliças. E, cumprindo um majestoso determinismo, vieram os pássaros voejando
e pipilando e dando bons-dias aos felizes lavradores (homens e mulheres) já
aquecidos pelo esforço de seus próprios corpos. Muitos passarinhos adejavam,
pousavam, corriam, pulavam e cantavam sem medo da presença humana, formando um
quadro fantástico, lindo instante de integração entre humanos e bichos, coisa
de Deus. E todos ali ouviam ao longe o choro sadio de Joãozinho, o bebê que no
futuro marcaria com emoção intensa a vida simples dos viventes daquele lugar.
TRÊS
Oito
anos se passaram com a lentidão de sempre. Já então Joãozinho acompanhava o pai
na labuta de colher, cortar e amarrar os molhos de hortaliças. Mas ficava
apenas vendo seu herói paterno laborar enquanto brincava entre a passarada
cantante e com ela parolava alegremente com uma voz tão meiga que muitos
passarinhos chegavam quase a tocá-lo. Quem visse a cena certamente se
deslumbraria diante de tão estupenda beleza, pois lembrava a intimidade de São
Francisco de Assis com seus esvoaçantes e coloridos amiguinhos. Sim, porque a
imensidão verdejante dos descampados cultivados, – que recebiam a água do riacho
cristalino espargida por potentes bombas d’água, formando cortinas de vapores
ensolarados e multicolores, – a imensidão verdejante era o fundo da imediata
paisagem humana e animal encaixilhada pelo horizonte distante como um quadro
pintado pelos deuses. Tudo imensamente lindo!
Assim
as imagens de uma natureza maravilhosa se associavam aos movimentos dos
camponeses, da passarinhada e das borboletas que cortavam e coloriam
ininterruptamente o ar. E toda essa beleza ia sendo gravada na mente infantil
de Joãozinho, que, orgulhoso do pai, com ele já compartilhava do café cheiroso
e quente, momento em que todos comiam o pão em torno da trempe improvisada em
pedras lá mesmo na roça, de onde as caixas de hortaliças seguiam para a cidade.
E, no café, surgiam as cavaqueadas dos adultos, em volta o alarido feliz das
mulheres, estas que também participavam ativamente da vida no campo, pois nas
casas elas ficavam apenas o tempo certo de confeccionar o alimento da família.
Enfim, o menino ia gravando no seu pequenino espírito as imagens da mais
inefável felicidade, enquanto a vida seguia seu rumo sereno no vale do Campo do
Coelho.
QUATRO
O
ano de 1984 marcou a mudança, eis que uma imponente obra surgiu na localidade,
aguçando a curiosidade do povo camponês. Mas logo veio o esclarecimento, porque
os responsáveis pela grande construção se iniciaram na busca de mão-de-obra
destinada ao trabalho mais rústico. A especializada já até começara a montar o
canteiro de serviços, e os materiais não paravam de chegar. Seria ali construído
um Hotel Fazenda, grande novidade e, de certa maneira, motivo de apreensão,
porque muitos camponeses chegaram a imaginar que teriam suas terras invadidas
pelo progresso.
Contudo,
logo tudo ficou claro, não haveria nada disso, o hotel estava destinado a
ocupar uma área livre de qualquer plantio e respeitando a natureza, ou melhor,
chegava também com o objetivo de se tornar uma fortaleza em defesa do meio
ambiente. Daí então veio a descontração, mantendo-se apenas a curiosidade do
povo, que via o hotel receber contornos estruturais bastante portentosos. Mas,
na verdade, tratava-se de obra até certo ponto caracterizada pela rusticidade,
porque os construtores primavam por sua integração perfeita ao viçoso verde que
rodeava o prédio.
É
bom que se diga, porém, que a infra-estrutura era primorosa e compatível com a
magnitude da empreitada. Assim, depois de bom tempo, emergiu entre pinheiros e
eucaliptos, gramados e jardins viçosos o Hotel Fazenda. E dele se podia, e
ainda se pode até hoje, avistar os vales ocupados por hortaliças, além de
alguns descampados em que poucos animais pastam, e mais ao longe se avistam os
outeiros caminhando em direção às altas montanhas cujas silhuetas lá no
horizonte infinito recortam o céu. É tudo muito belo, e exatamente neste lugar
é que o Hotel Fazenda logo se iniciou a funcionar, até aproveitando muitas
pessoas do lugarejo como empregadas. Foi, portanto, salutar a chegada de mais
um núcleo de trabalho para aquela gente simples.
Ainda
durante a construção, Joãozinho, já indo para nove anos de idade, assistia a
tudo maravilhado. Muita vez se embrenhava no mato e ficava horas e horas
apreciando os trabalhadores assentando tijolos, misturando a massa, cortando
tábuas, cavando buracos, construindo telhados, pintando paredes e envernizando
o madeiramento para, finalmente, aflorar a imponente construção. E rebrilhava
ao sol aquele prédio, deslumbrando os camponeses não acostumados à nova
paisagem. Joãozinho simplesmente vibrava com o acontecimento.
Na
escola, situada na pequena zona comercial do Campo do Coelho, que cresceu
naturalmente nos dois lados da estrada que liga Nova Friburgo a Teresópolis, a
conversa entre a petizada não era outra, de tal modo que as professoras tiveram
até mesmo de organizar visitas ao Hotel Fazenda para aplacar a crescente
curiosidade infantil. Assim se foi instituindo um inevitável interesse à
contemplação da novidade, até que ela se integrasse à rotina do lugar.
Já
funcionando, o Hotel Fazenda começou a acolher seus hóspedes, brasileiros e
estrangeiros, que para lá acorriam em busca principalmente de paz. E essa gente
diferente passou a ser alvo de curiosidade durante um bom tempo, até que o povo
local se acostumasse com a invasão. Era, sem dúvida, uma agradável presença,
eis que trazia divisas e melhorava a vida de todos. Enquanto isso, na roça,
nada mudara: a rotina dos camponeses e da passarada era a mesma; preservara-se
a natureza, particularmente porque viera a melhor das indústrias para o Campo
do Coelho: o turismo. Não haveria ali chaminés poluentes...
CINCO
Em
meio a toda aquela movimentação crescia Joãozinho, que na escola deslumbrava os
mestres em sua volúpia de aprender. Além da dedicação ao estudo das matérias
obrigatórias, o menino ainda encontrava tempo para devorar os livros da pequena
biblioteca escolar. Lia tudo de tudo, até não haver mais nada para ler, o que o
fazia repetir suas leituras à exaustão. E como era uma biblioteca que se
formava por doações, via-se nas estantes desde romances clássicos a livros de
biofísica. Porém, nada escapava das vistas e da atenção do prodigioso
estudante, que muita vez surpreendia as professoras ao demonstrar conhecimentos
que deveriam estar ao largo de sua algibeira cultural.
Muita
coisa Joãozinho não entendia, é verdade, mas nem por isso deixava de ler e reler
os livros, começando logo a se encantar pelos que versavam sobre pintores
famosos, além de também se deleitar com as lindas histórias da Tradição Sufi,
às quais dava mais importância porque passaram a povoar seu mundo infantil, a
estimular sua imaginação fértil e a forjar inspirações futuras. E não demorou
muito para que Joãozinho se transformasse em atração no Hotel Fazenda, tudo
começando a partir das abordagens que ele fazia aos hóspedes que caminhavam
pela estradinha de chão batido bem em frente da casa dele: Joãozinho não perdia
a oportunidade de os cumprimentar e lhes pedir livros usados. Todos se
encantavam com o menino, e era certo que no dia seguinte os livros choviam no
seu colo tal qual a água que se espargia sobre as hortaliças: em grande quantidade.
E assim, depois de um tempo, a biblioteca particular de Joãozinho era maior que
a do colégio, onde ele já cursava o primeiro grau.
É
lógico que, sem perceber, Joãozinho começou a maravilhar os que com ele
conversavam, não somente no colégio, onde muita vez demonstrava mais
conhecimento sobre determinados assuntos do que a própria professora. Mas eram
principalmente os hóspedes do Hotel Fazenda que gostavam de ouvir as histórias
do lugar contadas por Joãozinho, bem como com ele trocar impressões sobre
literatura e arte em geral, assuntos que passaram a se integrar à sua cultura
particular. E isto se explicava facilmente, posto a maioria dos hóspedes
preferir durante o descanso e o lazer a leitura de livros deste quilate, cujas
mensagens culminavam definitivamente enfiadas no espírito arguto do menino.
Algum
tempo passou, até que, de repente, o Hotel Fazenda começou a sofrer pequenas
modificações, adaptando-se para funcionar ali um SPA*. E correu um
diz-que-diz-que na localidade, eis que chegava comandando o espetáculo uma
famosa atriz e intérprete: Tânia Alves. E, junto dela, o empresário Tadeu
Viscardi, seu marido e sócio no empreendimento.
Tânia
Alves chegou dispensando apresentações, e muito menos necessitou ser
apresentada à natureza, eis que no seu espírito já há muito se instalara a
férrea vontade de levar as pessoas ao conhecimento do mundo natural, para assim
reencontrarem a saúde física e mental. E, se não mudou a fachada do Hotel
Fazenda, mudou radicalmente seu miolo, todo agora voltado à reciclagem de
pessoas de todos os naipes que vinham em busca de paz e saúde do corpo e do
espírito. E logo haveria o reflexo do lado de fora, devido às animadas andanças
dos spazianos* por todos os caminhos livres entre as hortaliças plantadas nos
descampados do vale do Campo do Coelho. E o que era lindo e animado ficou ainda
mais lindo e animado, especialmente aos olhos atentos de Joãozinho.
SEIS
O
menino continuou a interagir com os novos hóspedes, que sempre voltavam ao SPA.
Assim se foi tornando amigo de muitos e ganhando seus livros, até que o fato se
transformasse em problema familiar, porque não havia mais paredes para o
orgulhoso pai e a enfeitiçada mãe arrumarem as obras acumuladas pelo filho.
Mas, bastou Joãozinho externar sua aflição, para a administração do SPA mandar
construir no terreno que acolhia sua casa simples um cômodo amplo com o fim de
acomodar organizadamente aquela biblioteca, agora com mais de três mil livros.
Foi exatamente nessa época que chegou ao SPA um casal que um dia revolucionaria
a vida do prodigioso menino: Oswaldo Mazur e Mariana Fernandez.
Vieram
da Argentina para tentar a vida e desenvolver suas habilidades no Brasil.
Escolheram viver nas serranias friburguenses e descobriram o SPA como um dos
locais ideais ao que pretendiam fazer: ele pintando retratos e quadros e
ilustrando contos infantis, ela contando histórias. Dois artistas, almas gêmeas
maravilhosas naquilo que faziam. E logo conheceram o menino mais badalado por
todos quanto freqüentavam ou trabalhavam no SPA, pasmando-se ambos com a
cultura dele e, principalmente, com seu talento literário e sua habilidade em
reproduzir em papéis improvisados as paisagens do Campo do Coelho, é bem
verdade que apenas pinturiladas a lápis de cor. E não levaria muito tempo para que
se forjasse uma profunda amizade entre o jovem pintor argentino e o menino
Joãozinho. E dela, da amizade, se iniciaria a troca entre os espíritos daqueles
dois, pois é certo que, enquanto Oswaldo Mazur ensinava suas técnicas ao
menino, este, por sua vez, lhe repassava as idéias de paisagens que depois
emergiam como belas obras de arte nas telas do virtuoso argentino.
Era
tão impressionante o grau de fidelidade dos cenários descritos pelo menino, que
muita vez Oswaldo Mazur os gravava em tela para depois se espantar com a
capacidade de Joãozinho em descrever a natureza. Depois, o próprio Joãozinho
começaria a produzir lindas obras, porém sempre orientado por seu mestre
argentino. Já com Mariana Fernandez ele ouvia, aprendia e memorizava as lindas
histórias por ela contadas, e que ele depois reproduzia talentosamente para as
crianças no colégio e no salão paroquial da igreja católica que fica numa
imponente colina lá no Campo do Coelho. Tornara-se, Joãozinho, uma espécie de
irmão caçula do casal argentino, dada a profunda amizade que os unia...
Veio
a fase em que Oswaldo Mazur decidira retratar os pássaros da região, que eram
muitíssimos e variados, além de lindos. E o maravilhoso pintor, captando as
descrições que lhe fazia Joãozinho, foi aprisionando em suas telas, – em meio
às paisagens de flores, árvores, gramados e casarios, tendo o céu, as nuvens, o
sol ou a lua como complementos, – foi aprisionando em suas telas os sabiás, os
gaturamos-reis, os tico-ticos, os canários-da-terra, os beija-flores, os papa-capins,
os periquitos, os papagaios e muitos outros espécimes, formando com cada um
suas obras-primas imediatamente arrematadas pelos spazianos. Mas depois de um
tempo os quadros de Joãozinho eram tão semelhantes aos do mestre argentino que
logo se viam arrematados. Com isso, Joãozinho pôde melhorar a moradia da
família e aprimorar sua biblioteca, agora transformada em ateliê, por sinal
bastante diversificado, eis que, munido de um computador, Joãozinho se iniciou
a escrever histórias infantis para Mariana Fernandez narrá-las nas noites de
sextas-feiras no SPA. E os spazianos, independentemente de idade, se
maravilhavam com as belíssimas encenações de Mariana Fernandez, sempre
atentamente acompanhadas por Joãozinho. Na verdade, o quase adolescente
simplesmente vibrava com as lindas interpretações da mestra castelhana
contadora de histórias e vocacionada divulgadora das maravilhas do mundo do
faz-de-conta.
Se
havia um lugar chamado Felicidade, esse lugar era ali, era o SPA Maria Bonita,
nome dado em homenagem à estupenda atriz Tânia Alves, sua proprietária, famosa
por interpretar a figura nordestina mais marcante na vida real e personagem
ímpar do cinema nacional. E não somente por isso Tânia Alves se destacou, mas
também por defender e divulgar uma importante filosofia de vida, o Naturalismo,
doutrina que estimula a volta à vida natural e à simplicidade primitiva, quer
nas instituições sociais, quer na maneira de viver das pessoas. Enfim, uma
aproximação com o Ser Supremo através do respeito à natureza.
Sim,
ali havia a felicidade, até ocorrer o inesperado revés, a tragédia que ceifou
de súbito a vida de Oswaldo Mazur. Entendera o Criador que o maravilhoso pintor
deveria viver entre as paisagens que ele mesmo retratara, um admirável mundo
que ganhava vida através de suas pinceladas mágicas. Na verdade, e sem que
ninguém o soubesse, Oswaldo Mazur era um Anjo que acabara de cumprir sua missão
terrena. Por isso partira, porém deixando, entre aqueles que o amavam, a
saudade.
No
início, houve um sentimento de perda extremamente forte, especialmente para
Mariana Fernandez, sua mulher, que se viu desamparada tão longe de casa e da
família, e desesperada pelo desaparecimento brusco do amado. Foi terrível
também para Joãozinho, que se sentiu como se tivesse perdido um pedaço de si,
como se uma luz que brilhava dentro de sua alma se houvesse apagado. Foi tanta
a sua dor que até afetou o coração do seu coração, o ponto mais profundo de sua
alma. Afinal, ele aprendera com o mestre Oswaldo Mazur que todo artista tem um
coração do coração, onde se esconde a alma. E a alma de Joãozinho estava
irremediavelmente ferida.
Houve,
sim, a tristeza da mãe-natureza, o desalento dos camponeses, o silêncio da
passarada; houve, sim, na primeira hora, o espanto absoluto, a consternação geral,
ainda ampliada porque todos sabiam que a perda seria dupla, eis que Mariana
Fernandez, desconsolada, tornara à sua terra natal. E isso foi mais um corte
profundo no coração do jovem Joãozinho, que se viu perdido em sua emoção. Não
fosse o carinho dos pais, que sofriam, mas lhe procuravam minorar a dor, nem se
sabe o que lhe teria acontecido.
Foi
João Capistrano, o pai, emocionado e rememorando a madrugada mágica em que seu
filho veio ao mundo, foi ele quem alertou Joãozinho para a necessidade de
perpetuar a obra do mestre argentino que partira aos Céus. Cabia, sim, a
Joãozinho, instituir um meio de manter viva a memória do mestre; era ele quem
devia se inspirar e apresentar uma saída para que o nome de Oswaldo Mazur se
eternizasse além de sua maravilhosa obra, representada por muitas pinturas,
ilustrações e retratos de spazianos que ele riscara em vida. Porque nesses
trabalhos estava a imagem eterna do mestre da pintura; nesses retratos, o
mestre fixara não somente sua própria emoção, mas os sentimentos das pessoas
que para ele posaram. Ele buscava os corações dos corações dessas pessoas
através de seus olhares, e captava a máxima beleza daqueles seres humanos. E
também gravava a passarinhada com tanta precisão que parecia até que seus
maviosos cantos emergiriam a qualquer momento daquelas telas maravilhosas. Era,
sem dúvida, um mister orientado por Deus, obra de Anjo-mensageiro...
SETE
Enquanto
Joãozinho sofria em razão da dupla ausência de seus mais importantes amigos, ao
mesmo tempo pensava em como cumprir a idéia do seu pai. Mas o sofrimento dele
era tão intenso que precisou passar muito tempo antes de lhe brotar a
inspiração. Ajudou um pouco a minorar sua dor o ingresso no segundo grau e o
estudo à noite. Já se encaminhando à adolescência, ajudava o pai no plantio e
na manutenção do roçado de hortaliças, e ainda arranjava tempo para a leitura e
a pintura de novos quadros. Mas se afastara do SPA; não suportava a tristeza da
lembrança de Oswaldo e Mariana Fernandez, esta que partira para a Argentina para
nunca mais voltar. Apesar da tristeza que o abatia, aos domingos, depois da
missa, Joãozinho nunca deixava de contar suas histórias para as crianças do
lugarejo, que também se reuniam no quintal de sua casa e ficavam horas e horas
se deleitando com as maravilhas da Tradição Sufi antes carinhosamente
repassadas por Mariana Fernandez. E ele nunca deixava de contar as histórias
dele próprio com o seu mestre Oswaldo Mazur. Mantinha-o vivo nas almas de todas
as crianças.
Mas
eis que, num domingo, estando Joãozinho rodeado de crianças em sua casa, surgiu
nada mais nada menos que Tânia Alves. Joãozinho vira-a ainda ao longe, e ela
vinha com um sorriso delicado iluminando seu rosto suave e belo, rosto de quem
sabe o que é o mundo, o verdadeiro mundo, o mundo natural, a grande obra do
Criador dos Céus e da Terra. Na verdade, quando Joãozinho fisgou Tânia Alves
com seus olhos viu um Anjo-mensageiro, tal qual Oswaldo Mazur, e concluiu que
aquela visita não lhe seria em vão. Haveria, sim, um objetivo muito importante
nela, e lembrou o mestre e Mariana Fernandez...
Tânia
Alves, depois de pedir a Joãozinho para continuar sua tarefa de distrair a
petizada, ficou ouvindo-o atentamente e se entristecendo ao perceber que ele
contava histórias tristes. Joãozinho estava triste, sim, mas no coração do seu
coração, a casa de sua alma, surgiu sem querer uma pontinha de esperança junto
com a natural exclamação: “Oh, tia Tânia! Que prazer!” Ela então esclareceu a
razão da inesperada visita:
–
Joãozinho, primeiro lhe desejo parabenizar pela bela iniciativa em favor das
crianças e da arte. Estou impressionada. Mas acho que é hora de fazermos mais
por essas crianças, e eu vim aqui para lhe propor uma parceria...
Na
realidade, Tânia Alves e Tadeu Viscardi já haviam decidido iniciar uma obra
social de grande vulto destinada às crianças pobres do Campo do Coelho.
Pensavam em construir na área do SPA um prédio polivalente destinado ao
complemento educacional das centenas de meninos e meninas que habitavam as
cercanias do SPA. E partiram para a concretização da idéia de fundar uma
instituição com a finalidade de incrementar as artes e os esportes, além de
proporcionar às crianças um atendimento básico de saúde. Seria, sem embargo,
uma obra monumental, mas Tânia Alves esperava contar com a colaboração dos
próprios spazianos. Era uma causa justa, Tânia Alves e Tadeu Viscardi
resolveram apostar na idéia. Mas dependiam muito da participação de Joãozinho,
que sozinho concentrava a atenção da petizada. Por isso foi a casa dele
convidá-lo a participar, surpreendendo-se, porém, com o que viu: um abnegado
jovem dedicando-se de corpo e alma à preservação da Tradição Sufi e repassando
aos seus pequeninos ouvintes as histórias aprendidas com Mariana Fernandez.
Tânia
Alves ficou deveras emocionada, e mais ainda se emocionou Joãozinho quando,
depois de sugerir à artista dar à instituição o nome do saudoso mestre, recebeu
dela a aquiescência imediata. Na verdade, também ela guardava no coração do seu
coração uma profunda saudade daquele casal argentino que viera para o Brasil
trazendo na bagagem a arte e a alegria de viver. Seria, pois, uma justa
homenagem.
Tânia
Alves e Tadeu Viscardi puseram então mãos à obra, e em poucos meses surgiu num
largo espaço do terreno do SPA o majestoso prédio. E, para surpresa da atriz,
os spazianos, todos, sem exceção, colaboraram na construção, e ainda se
propuseram a ajudar a fundação por meio de contribuições mensais. Mas havia
algo de comum, havia a mola propulsora, a essência daquela motivação, e ela se
chamava Oswaldo Mazur. Sim, porque quase todos estavam ligados ao artista, ou
por terem em suas casas seus maravilhosos quadros, ou por guardarem em
belíssimas molduras seus retratos por ele pintados, ou possuírem enfileirados
nas estantes os livros infantis por ele magnificamente ilustrados. Sim, sim,
Oswaldo Mazur estava dentro do coração do coração de centenas de pessoas que o
admiravam sobremaneira, ele fazia parte da alma daquelas pessoas; por isso,
tudo foi ficando mais fácil...
OITO
Com
efeito, houve a entusiástica participação dos spazianos, que se ligaram
espontaneamente ao projeto movidos pelo amor ao casal argentino que tantas
lições de vida deixaram gravadas no SPA Maria Bonita. E logo os espaços da
fundação foram ocupados pelas crianças do Campo do Coelho, que tanto recebiam
tratamento médico e dentário como o apoio em suas necessidades culturais,
através de intensas atividades desportivas e artísticas, com aulas de música
instrumental, balé, teatro, canto orfeônico e, principalmente, com o
desenvolvimento da arte de contar histórias, a arte de Mariana Fernandez, que
nunca jamais seria esquecida.
Mas
faltava ela, Mariana Fernandez, nem que fosse para conhecer a homenagem que seu
amado recebera. Daí é que os spazianos, juntamente com Tânia Alves e Tadeu
Viscardi, decidiram também lhe providenciar um preito de reconhecimento. Coube
então a Tania Alves partir para a Argentina no encalço dela, enquanto aqui se
organizava a grande festa. Seria, sem dúvida, uma grata surpresa para ela,
embora também se soubesse que não seria fácil localizá-la. Mas Tânia Alves
possuía o principal para atingir tal desiderato: o prestígio internacional...
Enquanto
tudo isso ocorria, Joãozinho tomava-se de emoção. Só pela possibilidade de
rever a querida contadora de histórias da Tradição Sufi, seu coração batia mais
forte; e o coração do seu coração, ou seja, a sua alma, se rejubilava com a
idéia. Ele visitava cada casa, cada criança, em tudo quanto era lugar do Campo
do Coelho, preparando-as para o grande dia. E, na fundação, comandava os ensaios
da petizada, sendo ainda ajudado por muitos artistas amigos de Tânia Alves,
todos spazianos, que vieram também colaborar. A festa prometia...
Na
Argentina, Tânia Alves buscou os canais de tevê e a imprensa local, além de
pedir ajuda às autoridades no sentido de localizar Mariana Fernandez. E o que
lhe parecia difícil tornou-se simples, eis que ao primeiro anúncio de que ela
estava em solo argentino somente para contatar Mariana Fernandez, esta, ao
assistir a entrevista da querida amiga, veio diretamente ao seu encontro e
ambas se desmancharam em lágrimas ao se abraçarem. Tânia Alves então convidou
Mariana Fernandez a vir ao Brasil e ao SPA, porém lhe ocultando a existência da
instituição. Mariana Fernandez ficou deveras emocionada ao receber o convite. E
ficou a par de todas as novidades havidas durante a sua ausência, especialmente
a mais importante: o seu pupilo Joãozinho era já um calouro de Medicina.
Mariana Fernandez não podia nem sonhar com o que a esperava no Brasil e nas
serranias friburguenses...
NOVE
Um
mês depois, Mariana Fernandez embarcou no avião com destino ao Brasil.
Sentia-se nostálgica, infeliz, pois as lembranças da morte trágica do seu amado
jamais lhe saíram da mente. Na verdade, ela ainda se recusava a viver uma
existência normal, até certo ponto indignada e cética diante da vida e do
mundo. Estava, com efeito, experimentando um terrível baixo-astral.
Com
esses pensamentos pessimistas, Mariana Fernandez se manteve silente durante
toda a viagem, até que o avião aterrou no Aeroporto do Galeão, no Rio de
Janeiro. Lá, esperava-a Tânia Alves, que a hospedou em sua casa. No dia
seguinte, domingo, ambas seguiram viagem para o Campo do Coelho. Mariana
Fernandez, porém, fez questão de passar pelo lugar onde ela e Oswaldo Mazur
construíram o seu lar: o recanto de São Pedro da Serra, bem perto de Nova
Friburgo. Foi muito forte a emoção de Mariana Fernandez ao rever a casinha onde
ela e o amado curtiram uma indescritível felicidade durante treze anos. E ali
desatou um pranto de saudade, sendo amparada pela amiga Tânia Alves.
Vencido
aquele instante de desalento, elas seguiram viagem percorrendo cada pedaço de
chão, o coração aos pulos, com Mariana Fernandez ansiosa ao ver surgir ao longe
o Campo do Coelho. Se já não estava fácil para ela segurar as lágrimas, ainda
mais difícil ficou quando do carro ela avistou a igrejinha no alto da colina,
uma imagem que lhe era tão familiar. Desatou novamente a chorar de emoção.
Afinal, era sempre para aquele local que ela conduzia seus amigos spazianos nas
caminhadas dominicais. E mais emoção a contagiou quando o carro saiu do asfalto
e pegou a estradinha de acesso ao SPA. Ela aproximava sua alma de um passado
que abandonara em indescritível sofrimento.
Avistou
então, ao longe, o portal de entrada do SPA Maria Bonita, e imediatamente notou
que algo muito especial a aguardava, pois se iniciou o foguetório e a Banda de
Música da Polícia Militar, postada na entrada, do lado de fora, fê-la ouvir
belos acordes de músicas folclóricas argentinas. Ela estremeceu, porque, com a
sua sensibilidade, já percebia que algo muito especial a esperava.
O
carro parou antes da entrada, distante uns trinta metros da Banda de Música. E
Mariana Fernandez viu os dois lados da pista de acesso ao SPA apinhados daquela
gente que lhe era tão familiar: os spazianos. Mas, antes, a Banda de Música
entoou o Hino Nacional Argentino. Admirável!... Viu-se, além das lágrimas de
Tânia Alves e de Mariana Fernandez, que todos naquela fila de espera pranteavam
em emoção. E quando ela adentrou o SPA, após o término do hino, viu centenas de
spazianos formando um festivo corredor e a aplaudindo ao ouvirem o alto-falante
anunciando sem parar o seu nome e o de Oswaldo Mazur.
Mariana
Fernandez não acreditava no que via. Não se sentia merecedora de tanto carinho,
de tanta homenagem. Na verdade, não sabia o quanto fora importante para aquelas
pessoas nas sextas-feiras à noite, quando singelamente interpretava suas
histórias infantis e lhes despertava nos corações os tempos da meninice. Muitos
ali, naquele momento mágico proporcionado pela maravilhosa contadora de
histórias, se lembravam dos pais e avós num clima de emoção inolvidável. Sim,
Mariana Fernandez as tornava novamente crianças, e eram essas pessoas que a
aclamavam na passagem pelo corredor humano formado em sua homenagem. E,
finalmente, ela vislumbrou o majestoso prédio ostentando o nome do inesquecível
pintor, retratista e ilustrador de histórias infantis, que deixara sua marca
eternamente registrada na alma de toda a gente spaziana e da criançada do Campo
do Coelho:
Fundação Oswaldo Mazur
Ali
estava a surpresa, a maior de todas as homenagens: seu inesquecível companheiro
eternizado como o patrono de uma obra destinada a cuidar de crianças carentes.
E, já envolvida naquele clima emocionante, ela avistou na porta de entrada
aquela figura tão amada, seu querido Joãozinho, logo emitindo um comovente
“oh!”, enquanto apressava o passo para finalmente abraçar seu grande amigo, o
irmão caçula que ela e seu amado Oswaldo Mazur conquistaram no Campo do Coelho.
As
homenagens não mais pararam. Houve encenações de peças teatrais, demonstrações
de ginástica e, finalmente, a formatura dos novos contadores de histórias da
Tradição Sufi, meninos e meninas da primeira turma da Fundação Oswaldo Mazur.
Era a Turma Mariana Fernandez. E, neste momento, Joãozinho subiu no palco e
declamou um poema especialmente escrito por Cacá, o mais querido dentre os
funcionários do SPA, mais uma sincera manifestação de carinho de todos os
presentes endereçada a Mariana Fernandez e Oswaldo.
Mariana
Fernandez não continha as lágrimas, e recebia muitos abraços e beijos enquanto
se encaminhava ao salão para descerrar a placa comemorativa do seu retorno. E
eis que lhe veio outra insuperável honraria: ali estava funcionando o Museu
Oswaldo Mazur, com as paredes enfeitadas pelos quadros, retratos e livros
infantis por ele ilustrados ao longo de sua vida no Brasil. Todos os spazianos
haviam doado as obras de arte de Oswaldo Mazur criadas no tempo em que ele
atuara no SPA Maria Bonita. Neste momento, Mariana Fernandez caiu em si e
percebeu, lá no fundo de sua alma, no coração do seu coração, que seu amado
estaria vivo para sempre, nunca jamais seria esquecido, tanto por suas obras
como pelas histórias criadas por Joãozinho para eternizá-lo como um Anjo-mensageiro.
Sim,
porque Oswaldo Mazur estava ali, presente, entre pássaros, animais, casarios e
paisagens verdejantes que retratara em vida. E, no meio daquela gente toda que
o amava e ainda o ama, Mariana Fernandez lembrou que o artista nunca morre,
apenas se torna Anjo por vontade de Deus. E, percebendo que também era Anjo,
finalmente sorriu, e sorriu, e sorriu, porque reencontrou sua alma naquele
lugar do vale do Campo do Coelho, um lugar chamado Felicidade. E para lá um dia
ela voltará e permanecerá contando suas belíssimas histórias para as crianças
pequenas e grandes, para os spazianos antigos e novos, assim novamente
participando da mais importante de todas as terapias já havidas no SPA Maria
Bonita: o apoio às crianças carentes acolhidas pela Fundação Oswaldo Mazur e o
reencontro dos spazianos com o mais nobre de todos os sentimentos: o amor ao
próximo.
Em
tempo: Esta história homenageia Mariana e Oswaldo. Não soube mais dela por
muito tempo. Recentemente, porém, algumas pessoas do SPA Maria Bonita garantiram-me
que ela conseguiu superar o trauma da perda do marido. Reconstituiu sua vida e
atualmente curte um novo amor, já tendo inclusive gerado um rebento, não sei se
do sexo masculino ou feminino. Mas isto não importa. O que nos deixa contente é
saber que Mariana recobrou a alegria de viver, e certamente está contando suas
lindas histórias da Tradição Sufi para muitos adultos e crianças, transmitindo
assim a felicidade e levando as pessoas a refletirem sobre a vantagem do Bem
sobre o Mal. Mariana, sem dúvida, e mesmo que não saiba, é Anjo-mensageiro. Que
seja feliz!
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Spaziano – palavra incorporada à rotina da comunicação verbal e escrita entre
os funcionários e as centenas de pessoas que desfrutaram e desfrutam do SPA
Maria Bonita.
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