segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

Histórias de Papa-Maikes

 

É preciso dizer que Papa-Maike é PM?...

 

Na briosa Polícia Militar ingressei, em 1950, como soldado raso. Naquela época, ela era oficialmente denominada Força Policial do Estado do Rio de Janeiro. E de soldado raso não saí, muito mais por ausência de linhagem familiar e bem menos por um inevitável comodismo, e, de certa maneira, conformado com a falta de oportunidade interna de ascensão hierárquica.

Mas, honestamente, devo-lhes confessar que me ajustei em tarefa assaz interessante. Era eu cassineiro dos oficiais no quartel-general da Força Policial, em Niterói, a sede do comando da milícia fluminense ainda em tempos distantes da inaudita fusão entre os Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara (1975), um verdadeiro golpe dentro de outro, acontecido antes, em 1964, e que em ambos os casos a todos desconheceu, desrespeitou e aviltou.

Ora bem, deixemos de lado a política. E me vou logo elucidar o significado da palavra cassineiro, para que os leitores não fiquem por aí a imaginar algum palavrão. Mas, observando-a, tem-se a imediata impressão de que cassineiro deriva de cassino, o que nos pode remeter à falsa ideia de que a Polícia Militar mantivesse alguma casa de jogatina no seu âmbito. Nada disso, longe disso, apesar de todos saberem que a jogatina sempre comeu a solto em quartel, especialmente em tempo de prontidão ou para ajudar a empurrar as horas durante o serviço interno e noturno. Ou então por puro vício, mesmo... Por isso, cassino trata-se tão-somente de termo, – mais aristocrático que militar, – a designar o refeitório dos oficiais; ou melhor, a diferençá-lo do local de repasto da soldadesca, da raia miúda, mais especificamente do povoléu fardado, da ralé militarizada: o rancho. Acham que não? Bem, então me vou entrar a dizer, rapidamente, como tudo começou, em 1835...

Em 14 de abril de 1835, foi criada a Guarda Policial da Província Fluminense, com efetivo fixado em 241 homens, entre oficiais e praças-de-pré. E se definiu como seria preenchido esse efetivo de humanos. Sim, o efetivo era de humanos, mas os métodos da época em recrutá-los nem tanto, especialmente no caso das praças-de-pré, assim categorizadas, e que mais pareciam presas de alguma caçada, como vocês verão.

No caso dos nobilíssimos oficiais, eram eles nomeados entre os voluntários avulsos do Exército, – oficiais que completavam o seu tempo de serviço e eram, nestes casos, dispensados da farda – todos da aristocracia, é óbvio. Ou então, ainda no caso dos oficiais, poderiam ser eles voluntários nomeados pelo presidente da Província, depois de escolhidos dentre os também aristocráticos cidadãos civis aptos às funções, recebendo todos as honrarias e as prerrogativas das patentes. Em resumo, eram investidos no irresistível brilho dos ouropéis...

Já o efetivo de praças-de-pré seria suprido por cidadãos brasileiros na faixa etária entre 17 e 40 anos de idade, voluntários ou recrutados entre a ralé. Segundo a história, o recrutamento era feito “na forma da lei”, isto é, “a pau e corda”, como diziam outrora. E mais: em sendo voluntários, eles se obrigavam a permanecer por dois anos na ativa; no caso dos recrutados, porém, eram quatro anos de dureza imperativa. E foi assim, “a pau e corda”, que muitos foram dar com os corpos na briosa Guarda Policial da Província Fluminense. E nunca se soube se as almas daqueles voluntários caçados vieram juntas com seus corpos. É bem possível que não, e também não nos é difícil conceber que tipo de gente vinha na ponta da corda e na pancada intimidativa da espada. Se as paredes do quartel ouvissem e falassem, reproduziriam a realidade mais ou menos assim: “Olha, vosmecê não quer, mas agora vosmecê é miliciano. Tome a farda, vista-a, e fique por quatro anos. Se desertar é crime!”, ao que o assim recrutado responderia: “Sim, nhonhô!”

Era assim, sem tirar nem pôr, ou, como dizia o texto legal, “na forma das leis vigentes”. Colocando em miúdos, era como se um “criminoso” fosse condenado a quatro anos de prisão, sendo obrigado a cumpri-los fardado de miliciano, não me parecendo necessário explicar aos leitores quão rigoroso era o militarismo naquela distante época da nossa história...

Acham que não?... Pois eu lhes digo que uma das punições mais abrandadas era a pranchada (batida com a parte mais larga da espada ou do espadim) nos lombos das faltosas praças-de-pré. Dependendo da falta, tome uma, ou vinte, ou trinta, ou sei lá quantas pranchadas mais. Que tal?

Que seja invenção minha, poderão alguns imaginar. Mas, não! Juro-lhes que não estou inventando nadinha. Era efetivamente assim, por conta da lei nº 16, de 14 de abril de 1835, assinada pelo presidente da Província do Rio de Janeiro, o senhor Joaquim José Rodrigues Torres, que criou, nos tempos del-rei, a milícia fluminense, e instituiu os critérios ora descritos. E não o fizera para que os milicianos tivessem uma boa-vida, posto, logo em 1842, a milícia fluminense, no mês de agosto, já lutava na pacificação de duas outras províncias sublevadas, – Minas Gerais e São Paulo, – enfrentando como briga de irmão. Tempo “bom”, aquele, em que o miliciano se ia à intestina contenda para morrer, depois de recrutado “a pau e corda”...

Não lhes parece estranho? E se eu lhes dissesse que em 1950 os milicianos não mais eram trazidos “a pau e corda”, mas que bastava ao recrutador, geralmente oficial, inspecionar-lhes os dentes e o físico, para que os agora somente voluntários se integrassem à briosa? Acreditariam? Não? Ora bem, pois lhes garanto que comigo assim ocorreu. Apresentei-me voluntário dentre algumas dezenas de outros, e o oficial me inspecionou como a um burro a ser comprado.

Por tudo o que foi contado, – e por muito mais que poderia sê-lo, mas não o farei por um certo amor à brevidade – vocês não acham que a palavra cassineiro tem um quê de aristocrática? Não acham, também, que vem de longe o predomínio da aristocracia na andança irreversível de um tempo pouco mudado? Por favor, digam que sim!... Eia!... Creio, portanto, que não exagerei em lhes dizer que o cassino dos oficiais tem vínculo histórico com a aristocracia brasileira, já que os oficiais-militares, desde os tempos del-rei, eram integrantes dela. Daí cassino, um nome pomposo.

A república chegou, porém em nada mudou a cultura dos quartéis, e somente se acentuou esse aspecto de diferença social que, por sinal, predomina até hoje. Sim, no fundo da mais isenta avaliação, os oficiais ainda se situam no plano da casa-grande, enquanto as praças moram na senzala contemporânea (ou na favela, que é a mesma coisa). Mas, isto não é motivo de preocupação. Afinal, toda a sociedade continua assim, dividida em partes desiguais e em proporções que dispensam comentários...

Mas não vamos gastar muita prosa com ideologias. O que efetivamente desejo é contar-lhes os fatos que ocorriam em quartel ou que eram por mim percebidos no cassino dos oficiais, geralmente por estar com os ouvidos colados no ar e captando as mais variadas conversas entre aqueles que compunham a casta da Polícia Militar, e no momento da descontração do repasto diário no quartel-general.

Devo-lhes dizer, todavia, que me chamavam pelo nome de guerra Aroeira somente alguns mais austeros, porque a maioria se me dirigia por um apelido, talvez até bem mais adequado: Marche-Marche. Apelidavam-me assim, mais por culpa deles que, em meio ao tumulto das impertinentes chamadas, de ponta a outra do amplo cassino, me obrigavam a correr para cá e para lá, num paranóico vaivém, a atender a todos ao mesmo tempo. Não me era possível, diriam muitos, ou alguns, ou poucos. E eu responderia que me era sim, não sem um hercúleo esforço de minha parte, eu, que cumpria tipo assim uma corrida de cem metros rasos, por muitas vezes, durante o almoço dos aristocráticos oficiais.

– Marche-Marche, eu quero água! – bradava o tenente, lá da mesa do canto.

– Marche-Marche, traga-me o bife! – urrava o major, preterindo ao tenente.

– Marche-Marche, venha cá! – prevalecia a voz simples e baixa do coronel.

Imaginem os senhores que eu ficava como um busca-pé disparado a esmo numa festa junina. E corria a atender ao tenente, e voltava a meio caminho a atender ao major, e revirava a direção a atender ao coronel, como um verdadeiro cu-de-breu queimando os pés entre as dezenas de mesas e sem destino certo. Ou, mais apropriadamente, com destino a quem mais imperava no ambiente: ao coronel.

Vocês têm ideia de como brada um oficial dando ordem? Claro que muitos de vocês passaram pelo serviço militar obrigatório – não aquele “a pau e corda” dos tempos del-rei, mas de certa maneira semelhante, porque até hoje o serviço militar é insolitamente obrigatório, ou seja, “a pau e corda” legalizados. Sim, passaram pelo serviço militar obrigatório, e por isso têm a perfeita noção daquilo que aqui lhes falo; mas não pensem que cá estou gratuitamente criticando essa cultura do brado autoritário de superiores para com (ou contra) subordinados, uma praxe nas casernas e no militarismo mundo afora. É coisa do militarismo, mesmo. Mas, às vezes, aquele que mais grita com os subordinados tem o coração melhor do que o daquele que fala sereno, macio, mas a ocultar na maciez uma índole de mau-caráter.

Sim, prezados leitores. Não é pela força do grito do militar que se conhece o homem que está por detrás dos galões ou das insígnias. Porém, e seja lá como for, se gritar chamando, escolha sempre o mais graduado, o de maior patente no ambiente, e vá até ele. Nunca escolha o tenente em lugar do major, e não vá a este em lugar do coronel. Seja um cu-de-breu consciente da hierarquia militar. E assim eu o era, até que todos estivessem bem atendidos, como o gado a buscar no cocho a ração disputando prioridades aos empurrões. Não havia empuxões entre eles, no sentido literal, mas o empuxado era eu, como se fora todos me empurrando para lá e para cá e a um só tempo. Mesmo assim, valia a pena a troca desse tratamento de cu-de-breu pela oportunidade de ligar minhas curiosas antenas nas conversas e nos fatos, tanto no cassino como no quartel.

Certa vez eu fui atender a um coronel recém-promovido. Narcisista como ele só, um magnífico loiro de meia-idade, olhos azuis e forte como um touro, o coronel jantava, isolado, sentado na mesa a ele destinada. Não era costume coronéis fazerem o repasto noturno em quartel, mas ali estava ele, o magnífico coronel, admirando-se a si próprio, mirando embevecido os ombros e as insígnias douradas – os seus ouropéis. Fora promovido ao posto máximo naquela semana, e estava para lá de envaidecido. “Dos coronéis irrompem, como timbres soberbos, soberbas cabeças de águias.” (Antero de Figueiredo).

De caminho nesta história, devo-lhes confessar uma coisa que nunca entendi: na Polícia Militar não tem general; o posto mais elevado é o de coronel. Mas chamavam o quartel do comando-geral de Quartel-General. Designam-no assim até hoje, e não compreendo o paradoxo, já que quartel-general é valhacouto específico de generais, que não existem na Polícia Militar. Deixem passar a reflexão para depois, não sem antes conferir o que lhes digo no Aurelião, ou confiar no que lhes digo, para ganhar tempo e para que eu possa pressurosamente atender ao nosso recém-promovido coronel, que já está a nervosamente me convocar a sua mesa de repasto:

– Marche-Marche, vem cá, e fite bem os meus ombros! – determinou-me. – E complementou com uma indagação, eu perfilado e já tremendo na presença dele: – Que vê?

– Oh, meu bom coronel! Vejo três estrelinhas douradas, e bem bonitas!

– Só?

– Só, meu bom coronel. Que mais eu poderia ou deveria ver, segundo sua sábia percepção?

– Olhe melhor, Marche-Marche! Diga-me... Como são as estrelas! – insistiu, e eu, nervoso, sem entender nadinha.

Respondi-lhe:

– São douradas, e estão em fila nos ombros.

Ele me interpelou:

– Não, Marche-Marche!

– Não? Que mais então, meu boníssimo coronel? Não estou conseguindo ver nada além do que vi, com os olhos que a terra me há de comer, e disse sinceramente ao senhor, na minha santa ignorância. Ou, melhor dizendo, sei que elas indicam que o senhor foi merecidamente promovido a coronel – tentei me safar assim.

Inconformado, ele retorquiu-me:

– Não, Marche-Marche. Já vi que você não tem visão profunda. Veja só, vou clarear-lhe um pouco a mente. As estrelas têm cinco pontas, cada qual formando uma pirâmide irregular e enfeixando-se todas numa base circular, que contém outra estrela. – Notou esses detalhes?

– Agora estou notando, meu bom coronel. Mas, perdoe-me meu bom superior, continuo sem entender...

– Imagino, imagino... Vou lhe explicar um pouco mais, para que você finalmente entenda aonde quero chegar, alcance a importância do que lhe quero transmitir. – Vê que a estrela maior apresenta uma textura enrugada, e que as linhas de remate dos triângulos que formam, aos pares, as cinco pontas da estrela são polidas?

– Isso eu vejo! – respondi. – Mas, meu bom coronel, a comida está esfriando... – completei, na esperança de terminar o meu martírio, sem saber que ele apenas começara.

– Leve-a de volta, traga-me outra! Mas, deixe-me completar esta parte da explicação, tal qual lhe dou! – exclamou. – Vou repetir o que lhe disse antes: – Você notou que no alto da estrela maior há uma base circular a apoiar uma estrela menor?

– Estou vendo, meu bom coronel.

– Então veja só, Marche-Marche, veja que a estrela menor tem cinco pontas voltadas exatamente para os prolongamentos das linhas centrais das pontas da estrela maior. E veja que ela, a estrela menor, é totalmente lisa, sem rugas na textura, mas também está colocada em alto-relevo. Na realidade, uma é contígua à outra, a menor à maior, a maior à menor. – Diga-me se entendeu?

– Pouco mais, pouco menos, meu bom coronel. – Mas a comida...

– Vá! Vá!... Leve logo a comida. Vá aquecê-la e volte rápido, que lhe explicarei o significado disso tudo. Não, não, não quero mais esta comida. Traga-me outra.

Fui, e rápido, e já com os nervos em incontroláveis repelões. Fui, sim, porém fitando obliquamente o coronel, enquanto dele me afastava. E ele, preso ao assunto que antes me discorrera, mirava e carinhosamente alisava as estrelas de seu ombro esquerdo com o fura-bolos da mão direita. “Estaria maluco?”, pensei comigo.

De caminho, já de volta, encorajei-me. E excogitei em lhe indagar o significado daquilo tudo, e ele, o afetado, ainda distraído, estava agora fitando os reluzentes ombros, ora o esquerdo, ora o direito, como se um não fosse tal qual o outro. “Irra!...”, somente pensei, é lógico.

– Pronto, meu bom coronel! A comida agora está quentinha.

– Marche-Marche, diga-me uma coisa: que faziam na vida seu pai, seu avô e seu bisavô? – indagou-me, enquanto elegantemente comia, garfo e faca em postura de boas maneiras e guardanapo levado aos cantos e ao centro da boca em gestos medidos.

– Meu bisavô não conheci, mas sei que era um escravo. Meu avô e meu pai eram lavradores no interior de Campos dos Goytacazes. Lá nasci e vim para cá, menininho. Ambos trabalhavam no corte da cana-de-açúcar, em fazendas das usinas. Eram boias-frias.

– Veja só, Marche-Marche, meu bisavô era um aristocrata de alto quilate, um nobre da corte imperial. Vovô e papai seguiram a carreira militar, vovô no Exército e papai aqui na briosa. Meu saudoso vovô chegou a Marechal e deixou bela herança, e papai tornou-se coronel e culminou comandante-geral, neste mesmo quartel. Você vê aquela mesa maior, ali?

– Sim, senhor, meu bom coronel. É a mesa do comandante-geral.

– É a mesma em que papai se assentou durante oito anos, até que a enfermidade e a morte interromperam-lhe a carreira e a vida. Você tem dúvida de que chegará o dia em que me sentarei naquela cadeira, hein, ó Marche-Marche?

– Não, senhor, meu bom coronel! Tenho certeza disso! – concordei rápido, mas pensando, curioso, naquelas misteriosas estrelas. – E, mesmo com um certo temor, arrisquei-me em indagar-lhe sobre o tema principal que ele mesmo iniciara: – Mas, meu bom coronel, e as estrelas, que significam, afinal?

– São símbolos, hein, Marche-marche! São símbolos!...

– Símbolos? De quê?...

– De poder, Marche-Marche... De inteligência, Marche-Marche... De cultura, Marche-Marche... De linhagem familiar, Marche-Marche... De histórias de glórias militares, Marche-Marche... Vá, Marche-Marche! Vá rápido buscar o café!

Confesso que me assustei com o maluco, mas acabei compreendendo o recado dele: o afetado se deixava estar comparando-se a mim, ele no alto e eu cá embaixo da escada social, nem mesmo galgando o primeiro degrau. As estrelas, quais fossem douradas, quais fossem prateadas, quais fossem de lata vagabunda, apenas serviram de motivo à sua galhofada social. Sim, poderia ele ter escolhido um mero botão de sua impecável farda, e o desfecho seria o mesmo. Coitado de mim, cuja única ascensão social que tive na vida foi a de sair do andar de baixo, do rancho da soldadesca, para servir aos sargentos, ainda embaixo, e, ao final de muitos anos, fui chegar ao meu posto máximo de cassineiro da oficialidade, no andar de cima.

Histórias de glórias militares?... Curiosa, bem curiosa, a afirmação do coronel... Ora, a não ser que ele se estivesse referindo à Guerra do Paraguai, como, aliás, todos os demais faziam para passar o tempo, sempre vazio de acontecimentos externos que justificassem a existência da Força Policial... Daí eles ficavam rememorando os feitos heróicos dos antepassados, lidos em livros velhos das estantes dos quartéis antes e depois do repasto do meio-dia e na falta de novos e bons livros a lhes distrair as mentes com algo mais atraente. Mas, ociosidade, afetação e narcisismo à parte, ali aconteciam coisas muitíssimo curiosas, como certa vez...

 

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Certa vez, numa das mesas do cassino se deixavam ficar quatro majores, que entraram a conversar alto entre eles. Três deles, eu os conhecia bem. Eram uns safados de boa estirpe que só viviam de pilhérias com os demais majores e até com alguns tenentes-coronéis contemporâneos de academia. E coitados dos capitães e dos tenentes, que sofriam deveras com aquele trio de traquinas. O outro major que completava aquela mesa, ao contrário, era um pacato oficial, que pouco falava, muito inocente, e de quando em quando alvo de chacotas até das praças; mas em cochichos à parte, é lógico. E entraram os três a conversar animadamente, com o outro apenas escutando, em quietude. E eu de ouvidos cosidos na prosa, já imaginando que boa coisa dali não sairia. E todos no cassino também...

– Baixinho, diga-me cá, com toda a sinceridade, mas com toda a sinceridade mesmo! Você já fez meia quando era criança? – indagou o major que tinha o apelido de Careca.

– Mas é lógico, Careca! – respondeu o Baixinho, que assim era chamado pelos demais devido a sua pouca altura. – E lhe digo mais: fiz meia muitas vezes e não tenho vergonha de falar – completou.

– Gostei da firmeza! Você é igual a mim, que também fiz meia muitas vezes quando criança! – devolveu o Careca, que completou indagando ao outro, conhecido como Pescador, eis que gostava do esporte:

– E você, Pescador, já fez meia quando criança?

– Ora, careca! Você não tem outro assunto?... Eu não queria falar nisso, mas já que o jogo é aberto, digo-lhe, e ao Baixinho, que fiz também, e muitas vezes. Nada demais, coisas de criança...

E assim ficaram, com toda a platéia observando. Nunca vi tanto ouvido colado no ar aguardando o desfecho, incluindo-se o sisudo comandante-geral, sentado em sua mesa de repasto, até que o Careca, o mais safado dos três, encaixou a indagação endereçada ao compenetrado e silencioso major:

– E você, meu amigo?... Já fez meia quando criança?

E este levantou o braço direito e o tímido fura-bolos para cima, a indicar quantidade, e respondeu meio sem jeito, meio encabulado:

– Só uma vezinha, com meu o primo...

A gargalhada foi ouvida a quilômetros de distância, deixando o pobre do major numa desconfortável situação. Logo a notícia correu os quartéis, no nosso famoso e temido “boletim do soldado”, espécie de “central de fuxicos internos” cuja existência nenhum comandante, por mais rigoroso que fosse, conseguiu evitar. Saibam que o “boletim do soldado” ganha fácil de quaisquer outras modalidades de bulícios que se conhecem na prática e na ficção.

Cabe aqui explicar o que designei por “academia”. Antes de existir a Escola de Formação de Oficiais, que hoje é conhecida pela sigla EsFO, havia o Curso Profissional (CP). Neste último, ingressavam os sargentos para conquistar o direito ao oficialato. Por isso, houve uma época em que os oficiais formados na EsFO conviveram com aqueles outros oriundos da tropa, e que se formaram no CP, muitos ocupando postos hierárquicos e comando superiores. Por isso é que, de quando em quando, acontecia de grupos heterogêneos se sentarem juntos à mesa de repasto, ocasiões em que se afloravam os preconceitos, muita vez em tom de brincadeiras como a que contei. E nem sempre o que soava inocente de fato era-o...

 

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Relembrando o paradoxo do quartel-general, que deveria ser quartel-coronel, já lhes esclareci, implicitamente, que o referido quartel possuía dois andares. Embaixo, funcionavam diversos setores, além do Batalhão de Serviços Auxiliares, cuja sigla era BSA. Como vocês sabem, os militares adoram siglas, simplificam tudo, de modo que não precisem de muito trabalho em pensar. E no meu quartel existiam muitas pessoas interessantes, como o tenente Mangueira, uma figura que merece rápida descrição. Imaginem um sujeito grande, meia-idade, gordo do tipo balofo, farda relaxada e um vasto bigode a lhe disfarçar a feiúra e barba sempre por fazer. Mas era, sobretudo, um bonachão, o tenente Mangueira, apesar de semi-analfabeto, um voluntário vindo de longe, quiçá daqueles tempos do pau e corda.

Sempre ao se iniciar o expediente, o Batalhão de Serviços Auxiliares (BSA) formava no imenso pátio do quartel. E nós todos, perfilados, a ouvir o boletim, não aquele outro, fofoqueiro, mas este, um formal mecanismo de comunicação à tropa. Após a leitura, diante do comandante do BSA, que era um coronel, a tropa desfilava, alternando-se a cada dia os oficiais no comando da tropa. E chegara o dia do tenente Mangueira, sempre uma surpresa. E ele, garboso, – apesar de ostentar uma figura até certo ponto grotesca, mais para humor do que para qualquer seriedade militar, – comandou primeiro “sentido!”, em seguida “ombro-Arma!”, e se apresentou ao coronel pedindo-lhe permissão para deslocar a tropa em continência àquela autoridade militar. Permissão concedida, ele comandou: “Direita... Volver!” Com este brado, a tropa rodopiou em posição lateral ao comandante, para seguir marchando até o ponto em que deveria retornar, na marcha-batida, para a continência em marcha. Então o tenente Mangueira, em comovente empolgação, bradou num vozeirão: “Ordinário, marche!”

E lá foi a tropa, aquela enorme minhoca, seis colunas de homens batendo forte os pés no chão (plac, ta plac, plac, ta plac...) ao som do rataplã e em direção ao espaço de onde deveria voltar: em frente das portas já abertas da alfaiataria, que davam para o pátio. Naquele ponto, o tenente Mangueira deveria – mas não o fez – comandar “em direção à esquerda, marche!”, para que a tropa girasse como um leque, o primeiro homem da coluna da esquerda marchando no mesmo lugar, enquanto a primeira fila de soldados abriria e fecharia o leque até o ponto em que a tropa deslocaria em retorno, já em linha reta, em direção onde se deixava ficar o coronel a esperar os cumprimentos em continência. Mas o pobre-diabo do tenente Mangueira esqueceu-se de como emitir o tal comando, e a tropa foi em frente, rumando, inexorável, em direção à alfaiataria. Desesperado, o tenente Mangueira pulou na frente da tropa, braços abertos em cruz e gritando:

– BSA, Ô ô ô! BSA, ô ô ô!... Ô ô ô, BSA! Ô ô ô, BSA!...

Os safados dos soldados não obedeceram ao inexistente comando da “manada” e atropelaram o exasperado tenente se enfiando na alfaiataria e causando o maior pandemônio. Foi estupendamente cômica aquela cena, o coronel dobrando-se com as mãos espalmadas, e a pressionar a barriga, e rindo às bandeiras despregadas, e com ele todos aqueles que assistiam à inusitada conseqüência de um mero esquecimento. E mais hilariante foi a reação da tropa. Imaginem mil homens em uníssonas gargalhadas. Imaginaram?...

O episódio foi o assunto do mês no “boletim do soldado”, já que mais nada ocorrera naqueles dias seguintes, ficando o quartel restrito às garbosas formaturas da tropa, que venciam as horas matutinas e aguçavam os estômagos daqueles milicianos que não logravam conquistar uma dispensa para cuidar de “coisas externas”; ou que, simplesmente, desapareciam, a serviço doméstico de algum oficial. Neste último caso – hum!... – valiam o peso em ouro os pedreiros, eletricistas, carpinteiros, bombeiros, pintores e quejando...

Os demais, ou ficavam literalmente coçando o saco, ou eram escalados para algumas insólitas tarefas, entre as quais a de servirem como improvisados cobradores de bondes, por empréstimo à “SERVE” (sigla da estatal que administrava o transporte do povoléu em bondes que cruzavam Niterói e São Gonçalo). Tempos bons!...

 

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Eis uma história muito contada em quartéis policiais-militares, de tal modo que nem se sabe mais se é verdadeira ou inventada. Mas não importa, vale aqui registrá-la mais ou menos como foi por mim ouvida um dia no rancho... Era uma sexta-feira. No quartel, estava de serviço um corneteiro conhecido por suas habilidades em elevar até à boca a sua pinga de sempre. Em suma, um pé-de-cana, e muito amigo de um capitão que lá servia, eis que se conheciam desde a infância. E o oficial se demonstrava habitualmente preocupado com o amigo corneteiro e beberrão.

Sexta-feira, como já disse, às duas horas da tarde, o capitão se deixava estar postado na varanda do andar de cima, quando avistou seu amigo e lhe chamou pelo nome. O corneteiro para ele olhou, e o capitão fez dois gestos, a indagar se o amigo parara de beber: primeiro levou à boca a mão direita espalmada, com o polegar indo e vindo da boca à frente, no ar, e da frente à boca, em movimentos alternados; depois, entrou a cruzar os braços em frente do corpo, com as mãos espalmadas para baixo, imitando o clássico gesto de parar alguma coisa. Em resumo, o capitão perguntava ao corneteiro, por gestos medidos, se ele, o corneteiro, parara de beber. Mas ele, o desavisado, entendeu tudo errado: ao primeiro gesto, interpretou-o como tocar a corneta; ao segundo, interpretou-o como o toque de encerramento do expediente. E foi o que fez, ato contínuo, não dando tempo de nada. Foi o maior rebuliço em quartel, com a tropa largando os diversos serviços e se escafedendo rápido, e o capitão gritando o engano, e os oficiais saindo das repartições a tentar saber o que houvera, e o comandante-geral espumando de raiva, porque encerraram sem a sua ordem o expediente às duas horas, quando o seria normalmente às cinco horas da tarde. Não houve jeito e conserto: o expediente naquela sexta-feira encerrou-se às duas...

Os leitores poderão estranhar essa incidência de alcoolismo em quartéis de milicianos. Mas já houve épocas em que a cachaça era servida como repasto oficial aos faxineiros, conforme se fez publicar numa Ordem do Dia do coronel Rodrigues da Silva Travassos, datada de 9 de maio de 1896:

 

“Dora em diante as praças sentenciadas e para sentenciar não terão direito, nos dias de festa nacional, aos extraordinários fornecidos às outras praças, nem nos dias comuns à ração de sobremesa no jantar. A aguardente só será fornecida àquelas praças que, sendo presas, estiverem no serviço de faxina.”

 

Segundo alguns boletins antigos que eu andei lendo, entre o serviço do café da manhã e do almoço há provas de que, pelo menos até o ano de 1903, a cachaça fazia parte da alimentação da tropa tanto quanto o feijão e o arroz, sendo legalmente adquirida para fins de consumo pelos milicianos. Num dos boletins que li, encontrei a seguinte ordem publicada:

 

“Sr. Ten Cel Cmt manda publicar, para conhecimento do Btl. e devidos efeitos o seguinte:

1º – De acordo com as ordens estabelecidas, foi ontem (15 de novembro) distribuído às praças que trabalham nos reparos do quartel, meio litro de aguardente, fornecida pela agência do Btl.” (16 de novembro de 1903 – Diversas ordens).

 

Ou uma outra publicação extraída do mesmo boletim:

 

 “6º – De acordo com a 2ª observação da tabela de gêneros em vigor na Brigada, foram ontem distribuídos às praças, que tomaram parte na parada (de 15 de novembro), trinta litros de aguardente, saídos da agência do Btl.”

 

Acreditem, caros leitores: se eu fosse anotar todas as histórias de paus-d’água daquela época, haveria de gastar muitas horas e laudas. E no cassino? Quantas vezes os oficiais me faziam sinais convencionados, para que eu lhes providenciasse uma discreta dose da pinga como se fora água? E alguns repetiam a degustação em quantidades de arrepiar...

 

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Como lhes disse, (não sei se disse) comecei a servir no rancho das praças, mas daquela forma coletiva, tipo presídio, de encher os pratos da soldadesca em longas filas. O chefe do rancho, chamado por aprovisionador, era um capitão velho de idade, ainda do tempo do pau e corda. E a fila, ele a percorria recomendando: “Óia ocês tudo aí!... Sordado tem que trazê a canicrinha de alumino, senão num come, não!” Não seria nenhum exagero jurar que era assim que ele falava. Certa vez, lá estava a fila, bem comprida, e a soldadesca fuxicando, uns chamando os outros por apelidos, algo muito comum nos quartéis. E o capitão, ao ver um miliciano gritar ao seu parceiro – “Canarinhôoo!...” – estrilou: “Óia aí, o sordado que chamá o otro por apilido num vai cumê, não!” Exatamente ao terminar a frase, passou por ele seu ordenança. E ele assim se lhe dirigiu: “Tico-tico, num vai imbora sem dar graxa na minha butina, não, ó, hein!...”

E eu mesmo sendo chamado de Marche-Marche, dentre muitos milicianos igualmente conhecidos apenas por antonomásias?... É, não havia como evitar essa prática que começava comigo, sendo apelidado por todos os comandantes-gerais e demais oficiais aos quais servi no cassino.

A partir daí, nada impedia a validade dos apelidos, alguns que provocavam até contendas, por desgosto, de milicianos que se exasperavam ao serem vítimas de alguma galhofa com o seu nome, o seu mister, ou a sua figura física. Diziam no “boletim do soldado” que isso ocorria porque a ociosidade é mãe de todos os vícios...

 

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Esta correu no “boletim do soldado” na época em que eu já estava como cassineiro dos oficiais. Foi no Primeiro Batalhão de Caçadores, onde hoje é a sede do 7º batalhão da PMERJ, em Alcântara, São Gonçalo. O quartel fica na rua principal. Defronte à entrada, do lado oposto, há uma rua que dá para uma colina, transversal àquela principal, hoje bastante povoada. Nesta rua, distante talvez uns cem metros do quartel, havia um bicheiro conhecido como Seu Antônio, homem velho e aleijado. Lá, quase todos os milicianos iam fazer uma fezinha no jogo do bicho. Até os oficiais também cultivavam o hábito de tentar a sorte com os números no “ponto” de Seu Antônio. Mas eis que um dia a polícia civil estava a prender Seu Antônio, os milicianos assistindo à ação da coirmã da porta do quartel, porém todos indignados em ver o bicheiro entrando em cana. E houve a inusitada reação: por ordem de um oficial, que sempre arriscava a sorte com o velho bicheiro, os milicianos foram até lá e prenderam os policiais civis por “invasão armada de área militar”, levando-os todos a ferros para o quartel.

Foi o maior rebuliço da paróquia, até que o delegado e o comandante chegaram a um acordo. Soltaram o velho e marcaram um futebol de confraternização acompanhado de um lauto almoço no quartel, é lógico que regado a muita cerveja. E a paz voltou a reinar entre as duas instituições, sendo justo esclarecer que nessa época a Polícia Militar era aquartelada, como tropa militar, sem atribuições de policiar as ruas. E, segundo dizem, Seu Antônio escreveu Jogo do Bicho naquele mesmo lugar até morrer...

 

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No militarismo tudo é escrito. Existia essa prática desde o império, assim como continua a vigorar na cultura profissional da Polícia Militar, até hoje, esse procedimento de comunicação denominado “parte” (fulano deu parte, beltrano deu parte, sicrano deu parte, etc.), que contém as informações básicas de algum fato pretérito. Por conta dessas comunicações, há histórias inacreditáveis. Mas elas ocorreram mesmo, por mais que os leitores estranhem ou desconfiem que não. Dá até para jurar por todos os santos e santas...

Na Escola de Formação de Oficiais havia um cadete que era tão rigoroso, mas tão rigoroso, que, certa vez, achando que cometera uma falta disciplinar, – somente por ele presenciada ou sentida na pele, e mais ninguém, – ele simplesmente comunicou ao seu comandante a falta que entendeu ter cometido, a fim de que fosse punido... Deu parte de si mesmo, algo até então inédito nos anais dos fuxicos internos. E, como não poderia deixar de ser, alguns o reputaram maluco.

E no batalhão de policiamento rodoviário, que até hoje recolhe animais nas estradas, um sargento comunicou, por escrito, – deu parte, como já expliquei, – que a guarnição que ele comandava apreendera três cavalos, sendo um deles “égua”... E um outro deu parte da apreensão de “três carneiras”... E mais outro deixou de comunicar a falta de um miliciano porque, ao conhecer o nome dele (Washington), preferiu perdoar-lhe a falta... e ainda seria o mesmo miliciano muitas outras vezes “perdoado” por seus superiores...

Na Escola de Formação de Oficiais, o comandante avisara aos cadetes que não mais aceitaria desculpas das guarnições de serviço, caso o campo de futebol fosse invadido por cavalos soltos na cidade e à procura de capim verde. A partir da recomendação, todos os cadetes oficiais-de-dia zelavam no sentido de manter os portões sempre fechados. Mas eis que um dia um cadete bobeou e os cavalos adentraram o campo, formando aquele espetáculo irritadiço ao comandante. E o cadete, para se livrar da punição que decerto viria, quis transferi-la aos cavalos; e deu parte informando que “os cavalos invadiram o campo sem autorização”, e que “eram reincidentes em faltas daquela natureza” Foi preso por dupla falta: pela parte que deu dos cavalos, como se fossem humanos, e pela asnice...

 

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Há muitas outras histórias que não decorreram de partes, mas que foram parar direto no “boletim do soldado” e lá ficaram para sempre. Na Polícia Militar, como em qualquer organização militar, há o padre capelão. Na nossa, muitos capelães prestaram missões religiosas. Mas havia um tenente cujo nome de guerra era Bispo, já falecido em acidente automobilístico. Certa vez estava ele, o tenente Bispo, e o padre capelão (capitã0, ambos aguardando para falar com o comandante-geral, coronel do Exército Hindemburgo Coelho de Araújo. O já também falecido coronel Aloísio, na época capitão, exercia as funções de ajudante-de-ordens. E anunciou ao comandante que lá os estavam a esperar para lhe falar o padre capelão e o Bispo. O comandante, respeitando a hierarquia religiosa, mandou entrar primeiro o Bispo (o tenente), só aí percebendo a confusão...

 

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Eis uma ocorrida durante comunicação entre uma radiopatrulha e a central de comunicações:

– Maré-zero! Maré-zero! Bravo-uno chamando!

– Na escuta, bravo-uno! Pode prosseguir.

– Cabo na vala! Cabo na vala! – estrilou o miliciano no rádio da patrulha.

– Proceda, bravo-uno! Socorra o cabo! Socorra o cabo! – autorizou maré-zero.

– Não, maré-zero! Não, maré-zero! É cabo de alta tensão!...

 

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Havia um cadete amazonense cujo nome de guerra era Vasconcellos, e que cursava na Escola de Formação de Oficiais da PMERJ devido a convênio entre a corporação daqui e a sua coirmã amazonense. Fazia ele, o cadete, uma prova de português, cuja questão única consistia numa dissertação versando sobre o tema Controle da Natalidade. E ele fez uma linda dissertação... Sobre as festas natalinas, com papais-noéis, árvores enfeitadas em multicoloridas bolinhas de vidro e algodão imitando a neve, além de presentes dependurados e tudo o mais que se possa imaginar numa festa de Natal...

Por sinal, esse amazonense era uma caixinha de surpresas em matéria de provas, que sempre ocorriam numa mesma época. O professor de Geografia havia ensinado sobre os Movimentos Tectônicos (geodinâmica do globo terrestre), enquanto mestre da Educação Física explicara que os exercícios abdominais eram úteis à melhoria dos Movimentos Peristálticos (dos intestinos).

Bem, vocês já aí imaginaram o que ocorreu com o cadete, ao responder à pergunta que lhe veio vindo na prova. Sim, ele misturou Geografia com Educação Física, e afirmou que os exercícios abdominais eram úteis aos “movimentos tectônicos dos intestinos”; só faltou também explicar sobre os “movimentos peristálticos” do globo terrestre, mas ainda bem que a prova não era de Geografia...

 

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Uma guarnição de PATAMO do 9º BPM – viatura do tipo veraneio, com guarnição de cinco milicianos – foi agraciada com um recruta recém-transferido para o batalhão. Sem que ele percebesse, ao ocuparem os bancos do carro os outros milicianos lhe deixaram livre o lugar do carona, ao lado do motorista, onde ele se sentou. E saíram, aguardando algum chamado pelo rádio, algo comum e que logo aconteceu.

Era noite, quando maré-zero determinou à guarnição de PATAMO que procedesse a uma ocorrência. E lá se foi a PATAMO queimando pneus, sirene e giroscópio ligados. O recruta, de arma na mão e tenso, aguardava a ação. E ela veio: o motorista parou de súbito a PATAMO e bradou: “Descendo rápido! Descendo rápido!” Todos desceram, rápido... Pelo lado do motorista, sobrando o outro lado ao inadvertido recruta, que saltou veloz... E foi parar, deitado, dentro de um valão fétido, tomando um inesperado banho de lama poluída ao extremo, e que certamente não lhe seria medicinal. Na verdade, tudo não passara de um comitê de boas-vindas ao novato, que deve ter gastado um bom dinheiro com perfumes... E não se sabe até hoje se aquela ordem emitida pelo rádio fora verdadeira ou falsa...

 

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Prova de matemática na Escola de Formação de Oficiais. Os cadetes do primeiro ano não sabiam quem era pior, se a dita (ou maldita) matemática, ou se o feroz professor, que formulara quatro questões apenas, porém daquelas de arrancar os cabelos...

Dois cadetes que disputavam o primeiro lugar sempre serviam de gabarito aos demais. Depois que eles terminaram a prova, – ambos com resultados idênticos e o grau máximo conquistado, – acercou-se deles um desesperado colega não muito afeito aos números. E conferiu os resultados dele com os doIs craques na matéria. Gelou-lhe o sangue, errara quase tudo. Mas ele precisava de uma nota dez para se livrar da segunda época. Não fez por menos: montou outra prova, gabaritada, e armou um telefonema ao professor, trazido o recado por um cabo amigo dele: alguém ao telefone informava que a filha do rigoroso e irascível mestre “sofrera um acidente...”

O homem deixou a sala de aula e correu feito um louco ao telefone de lá da administração. Enquanto isso, o desesperado cadete adentrou rapidamente a sala e enfiou na pilha de provas a sua outra, de nota dez, e retirou a que fizera primeiro. E retornou o mestre, com uma fisionomia de zanga feroz e de atordoada perplexidade. Mas ele não tinha a mínima condição de saber o que houvera durante sua forçada ausência. Mas sentia claramente que fora vítima de alguma tramóia.

Do lado de fora, os cadetes festejavam a brilhante armação, quando o seu autor retirou do bolso a prova reprovada... E não era a dele... Mas a de outro colega que com ele festejava junto e que danou a chorar ao ver sua prova reduzida a um bolinho de papel, de tão amassada que ficara.

A prova do cadete não estava lá essas coisas, mas dava para o pobre-diabo alcançar a aprovação. E ele era repetente... Assim ficou a situação: um cadete com duas provas na pilha à frente do mestre, que dela tomava conta como se fora um cão vigiando um belo pedaço de osso, e o outro chorando sem prova nenhuma a poder contar sua história. Que fria!...

Um pequeno grupo de retardatários cadetes ainda matutava em sala as respostas, em exercícios mentais que fediam longe. E o outro grupo, que já terminara as provas, bolando do lado de fora um plano para enfiar de volta aquela prova erradamente retirada pelo desesperado cadete. Isto no mínimo, porque o ideal seria colocar a prova de volta e retirar a maldita, que lá ficara sobrando, toda errada.

Como cadetes têm parte com trinta milhões de diabos, decidiram eles entrar em grupo e provocar uma séria discussão com o mestre sobre as dificuldades das questões, etecétera, etecétera, como um time de futebol reclamando ao juiz um gol de mão descaradamente marcado por um atacante adversário no último minuto e valendo um campeonato...

Assim foi feito, o professor pressionado pelos ferozes cadetes, a reclamar das questões, enquanto uma furtiva mão, acobertada por alguns corpos zangados, enfiava de volta a prova do segundo desesperado cadete ao seu devido lugar. Até aí o plano deu certo, mas o primeiro desesperado cadete acabou por ficar com as duas provas (a verdadeira e a falsa) na desvirginada pilha.

Deu-se mal o cadete, mas se salvou pela oportunidade que o comandante culminou lhe propiciando, uma inesperada chance dada por um dos melhores comandantes da EsFO, apesar de disparadamente o mais durão que por lá passara. Com o elogio, que lhe deram na conversa que ouvi, surgiu o nome dele: coronel MDM. E ele, o coronel MDM, indagou ao cadete qual das duas provas era a válida... E ele lhe respondeu que a ruim. Foi à segunda época, recebeu severa punição, mas obteve o perdão do desligamento, que se lhe afigurava inevitável. E ele nunca mais colou, estudou muito e se formou com méritos. O caso dele era de preguiça mental, mas o forte repelão que levou nos nervos colocou-o no rumo certo.

 

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Outra que deu no “boletim do soldado” também ocorreu com os cadetes e no comando do coronel MDM. Ele, como diziam os oficiais no cassino, era muito rígido, porém humano. Gostava de tudo muito bem-feito, e tinha um brio de dar exemplo. Certa vez, a EsFO foi convidada a participar de uma festividade militar no quartel do 3º Regimento de Infantaria do Exército (3º RI), hoje transformado em batalhão (3º BI) e tornado edifício de apartamentos para acolher flagelados em grave calamidade em Niterói com muitos mortos. Ficava ele situado no limite entre os Municípios de Niterói e São Gonçalo. A participação dos cadetes consistiria em desfilar em torno do campo de futebol, na pista de atletismo, em honra a diversos generais e outras autoridades militares e civis que lá estariam postadas num palanque.

O coronel MDM recomendou aos cadetes o máximo esmero na marcha, e os colocou a treinar ordem-unida durante toda a semana que se antecedeu ao evento. O falecido tenente-coronel Cavalcanti, na época primeiro-tenente, comandaria os cadetes, como de fato comandou. Comandou?... Ele inventou uma novidade, a ser feita durante o desfile, para demonstrar aos oficiais-generais que os cadetes da briosa milícia marchavam melhor que os militares de verdade.

Tudo bem. A intenção parecia boa, a de ser “mais realista que o rei”. Tal demonstração consistiria no seguinte: os cadetes viriam marchando em passos garbosos. Mas, ao chegarem defronte ao palanque das autoridades, o tenente comandaria “alto!”, “direita-volver!”; e os cadetes, ato contínuo, e parados, prestariam uma bela continência. Na seqüência, – e novamente ato contínuo, – ele comandaria “esquerda-volver!”, “ordinário-marche!”, e os cadetes sairiam rompendo a marcha, em frente, tudo feito bem rápido, no tempo exato, e com o máximo entusiasmo. Na teoria, tudo estava efetivamente perfeito, e assim foi exaustivamente treinado na EsFO, até a véspera da festividade.

O dia amanheceu garoando muito, um transtorno a mais para os cadetes já vestidos com as calças brancas do uniforme de gala e os sapatos revestidos com polainas igualmente brancas. Mas lá foram eles, porque “soldado é superior ao tempo”; e no quartel do Exército, tudo enfeitado, lá estavam os cadetes em forma e em meio à irritante chuva fina aguardando a hora de romperem a marcha. E, no momento previsto, os garbosos cadetes partiram à marcha esmerada, tal qual haviam exaustivamente treinado. E lá foram eles, a banda tocando um dobrado e o tenente Cavalcanti à frente, comandando o que deveria ser o “espetáculo”. Todos os cadetes em desfile esperavam, ansiosos, a sua primeira voz de comando, que seria de “alto!”, para em seguida vir a segunda, que seria de “direita-volver!” E ele, o tenente Cavalcanti, deu a primeira voz de comando no tempo certo: “Alto!”; e emendou a segunda, num comando – inverso do esperado – de “esquerda-volver!”, mandando assim a tropa de cadetes voltar-se de frente para o campo, do lado contrário ao palanque que acolhia a seleta plateia. Desmoronou-se tudo o que fora esmeradamente treinado: eram cadetes girando à direita, outros à esquerda, outros mais dando voltas malucas em torno de si mesmos, enfim, uma zorra total, as calças brancas respingando lama e, no palanque, todo mundo caindo às gargalhadas. Se o Renato Aragão lá estivesse, contrataria o grupo imediatamente. Só um oficial, do alto do palanque, não estava com cara de riso. Ao contrário, bufava pelos quatro ventos e cantos e com cara de poucos amigos: o coronel MDM...

 

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Já que estamos neste ritmo de marcha, vamos a outra de desfile. Era o ano de 1972, a briosa preparava-se para a marcha militar de Sete de Setembro. Tempos ruins em época de repressão, plena ditadura. Eu estava escalado para desfilar no Batalhão de Serviços Auxiliares (BSA), que formaria uma tropa condensada com os recrutas da Companhia Escola. Ou seja, jovens e velhos unidos e levando vaia certíssima na Avenida Amaral Peixoto, em Niterói.

Até aí, tudo bem, uma vaia a mais, uma vaia a menos!... Mas ocorre que havia um rumor, correndo no “boletim do soldado”, de que a tropa poderia “sofrer um atentado” na hora do desfile. Depois, o assunto ficou deveras sério, deixando-nos apreensivos. Marche-Marche, por exemplo, nem entendia direito desse negócio de ditadura, – limitava-se, há mais de 20 anos, a apenas servir aos senhores oficiais no cassino, – preocupou-se de fato com os fuxicos dos oficiais quando no repasto cotidiano.

Perigo verdadeiro, ou não, Marche-Marche mandou a patroa nem sair de casa, ela doida para ver a parada escolar das meninas, – tinha duas, já adolescentes, – ambas animadas em marchar pelo colégio que estudavam. Ele, nervoso, não as deixou ir, temeroso com as possíveis conseqüências do tal “atentado”.

Madrugada do esperado dia, lá estava Marche-Marche no pátio da Companhia Escola de Recrutas, no bairro do Fonseca, esperando a ordem de entrar em formatura. Todo sabiam, pelo boletim oficial, que a tropa seria comandada por um major reconhecidamente vibrador.

No cassino, antes, os oficiais comentavam que ele, o major, era tão empolgado, mas tão empolgado com o militarismo que dormia com sua espada de oficial debaixo do travesseiro, mania que começara ainda na EsFO, pois ele fazia o mesmo com o Espadim de Castrioto (João Nepomuceno Castrioto, primeiro comandante da Guarda Policial da Província Fluminense), o símbolo do cadete. Diziam até que ele, entre escolher a esposa ou a espada para dormir, optava firme pela segunda. Era um patriota sobremodo devotado, um fenômeno, um respeitável amante do militarismo. Mas alguns o reputavam como um perdido caso de neurônios cabriolando além do usual. Ou seja, um maluco...

Contudo, lá estavam aquele bando de desengonçados milicianos, uns velhos, outros gordos, todos vestidos com uma feia farda de brim cáqui e botins pretos que em nada combinavam com ela, além de um cinto de guarnição em napa verde e um capacete cinza simplesmente horroroso. Sim, que feia, aquela farda! Nada combinava com coisa nenhuma. E nem mais nada precisava para uma estrondosa vaia do que envergar em público aquele feiíssimo uniforme. Mas, todos conformados, esperavam o major comandante, quando ele finalmente chegou, já paramentado em alto estilo. Chegou solene e mandou formar a tropa, com o fim de transmitir-lhe um recado:

– Atenção, senhores! Bom dia! Todos sabem que hoje é o dia mais importante da nossa pátria. Mas poderemos enfrentar um grave problema na hora do desfile. Há um plano de ataque à tropa que poderá ocorrer do alto dos prédios na Avenida Amaral Peixoto. Diante da gravidade do fato, eu e os oficiais estaremos armados para protegê-los. Por exemplo, vou demonstrar para vocês como estou, para que os oficiais façam o mesmo.

Dito, desvestiu-se da gandola; e surgiu, preso ao seu dorso nu, o dobro do que usava um cangaceiro nos velhos tempos de Lampião. Tinha de tudo agarrado ao corpo, desde peixeiras e cartucheiras com centenas de munição, a binóculos, etecétera, etecétera, etecétera. Houve, sim, uma incontrolável vontade de rir; porém, o máximo que a tropa conseguiu foi travar a boca num comportado silêncio. E mais ele disse, como o único até então a falar ao microfone previamente instalado:

– A ordem é a seguinte: se houver algum ataque do alto dos prédios, as colunas da esquerda cairão para a esquerda da Avenida Amaral Peixoto, e as da direita, do mesmo modo, para a direita da Avenida. Entenderam? – perguntou ele, fitando os oficiais.

E um deles, exatamente o mais alto e já nosso conhecido, o tenente Mangueira (aquele do “BSA, ô!, Ô, BSA!”), indagou-lhe singelamente, indo ao microfone:

– Meu major, que faço com a minha coluna? São elas nove... E a que estou à frente é a do meio. Pra que lado eu vou?...

Aí, que me desculpem os leitores, Marche -Marche disparou junto com a tropa, – mais de mil homens, – a mais sonora gargalhada de que já coletivamente participara. Já fora demais para todos ouvir do major que ele e meia dúzia de oficiais estariam a tomar conta de mil... E, novamente por conta do tenente Mangueira, mil espoucaram o riso em uníssono.

O major ficou vermelho feito um tomate bem maduro, e retrucou ao tenente dizendo-lhe que escolhesse o lado que bem o quisesse, mas sem se esquecer do comando que daria à tropa em marcha, para não se repetir o que já fizera antes... Coitado do tenente Mangueira, que não sabia onde enfiar a sua cara de vexame. Enquanto isso, o bulício comia solto, em meio às galhofadas que não mais cessaram. Já estava virando circo quando o major retomou energicamente o controle e encerrou o assunto:

– Batalhão, sentido! – comandou. – E acrescentou: – Entendam-me bem, senhores! Não se trata de brincadeira! Há mesmo um risco de ataque à tropa. E minha ordem é a de que as colunas saiam do centro da rua para as laterais, até coordenarmos a reação! Agora, vamos todos embarcar em silêncio.

O homem estava bufando como fera acuada. Andava em dificuldade, com tanto peso a levar. Mas lá foi ele, impoluto, embarcando no seu jipe, que ele por sinal adorava, em direção ao local de concentração.

Era o local próximo ao Instituto Abel, situado na Avenida Estácio de Sá, hoje Roberto Silveira. Na vez da tropa, ela saiu marchando daquele ponto a caminho da Avenida Amaral Peixoto. E lá fomos todos, já levando a maior vaia desde que a tropa rompeu a marcha, até dobrar na pista de desfile, o tão esperado “momento de perigo”, com as laterais da Avenida Amaral Peixoto apinhadas de crianças chupando pirulitos e agitando bandeirolas, e de populares, todos em grande alegria. Mas bastou surgir a briosa com aquela farda feiíssima e o brado maluco do major ecoando no ar: “Batalhão do meu sangue! Vamos marchar à vitória! Avante, camaradas!”, para que todos ganhassem a maior vaia que já levaram na vida.

E lá se foi o major, no comando da tropa, gritando na frente seus altos brados de entusiasmo, como se quisesse sobrepujar as cada vez mais estrondosas vaias que todo levavam. E disse Marche-Marche: - Confesso-lhes, confesso-lhes mesmo: eu não mais sabia se as vaias eram para nós ou somente para ele. Ó bendito capacete, que nos permitiu a nós, milicianos, esconder dentro dele quase toda a cara de vexame e de riso descontrolado que tínhamos, de cabo a rabo da tropa e sem exceção! Ou melhor, uma exceção: ele, o empolgado major, que na frente ia como se nada estivesse acontecendo de anormal.

Sim, lá fomos todos, vexados e vaiados, até o final da Avenida Amaral Peixoto, e prosseguiram marchando e levando vaia, marchando e levando vaia, em destino ao quartel-general. Para melhor mentalização da cena,  - disse Marche-Marche com as palavras lhe faltando para bem descrevê-la: – imaginem o time do Vasco da Gama percorrendo a Marquês de Sapucaí com as arquibancadas ocupadas somente pela torcida do Flamengo; ou o contrário, para que não digam que se trata de um torcedor faccioso. Imaginem, agora, a intensidade das vaias. Imaginaram? Sim, imaginaram! Digo a vocês: no nosso caso foi ainda pior... E assim terminou Marche-Marche a história:

- Confesso-lhes que naquele dia senti vontade de me vaiar a mim mesmo, como aquele cadete que deu parte de si próprio. E estamos até hoje esperando o tal atentado, eu em casa ainda levando uma estupenda vaia da patroa e das meninas. Tudo por conta do fuxico, que virou “verdade oficial”, até hoje sou vaiado por minha própria família...

 

 

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Esta aconteceu no outrora 1º Batalhão de Caçadores, em São Gonçalo. As paredes dos gabinetes dos oficiais estavam apinhadas de fotos, de quadros com diplomas e de outros símbolos típicos da meritocracia militar, uma cultura genérica e comum a todos os quartéis. Mas surgiu uma lei determinando que os gabinetes, a partir da sua vigência, somente poderiam ostentar duas fotos: a do Presidente da República e a do Governador do Estado. O comandante reuniu os oficiais e lhes determinou que retirassem todas as fotos e os quadros dependurados na parede, deixando apenas aqueles dois previstos em lei. Foi quando um distraído tenente indagou:

– Comandante, concordo que a lei deva ser cumprida, mas não acho justo que o retrato de Jesus Cristo seja retirado. Afinal, isso é um desrespeito aos cristãos, como eu, e como o senhor, que também mantém na parede de seu gabinete um quadro d’Ele, igualzinho ao meu...

Dito, todos fitaram o quadro singelamente apontado pelo tenente... E verificaram que o “Jesus Cristo”, com aquela barba característica e os cabelos compridos, trazia no pescoço uma corda com o histórico laço de forca....

 

 

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Esta aconteceu no mesmo 1º Batalhão de Caçadores e no “tempo do onça”. O comandante mandou seu ordenança levar ao prefeito da cidade um bilhete, no qual pedia sacos de cimento para alguns reparos a serem feitos no quartel. O pobre do miliciano, ao entregar o bilhete e após a sua leitura por parte da autoridade municipal, dela ouviu o seguinte:

– Puxa! O comandante está maluco! Como posso doar 102 sacos de cimento? Será que ele está querendo reformar todo o quartel? – reclamou. – Diga-lhe que 102 sacos de cimento eu não tenho como mandar – concluiu o prefeito.

No quartel, o miliciano comentou com o comandante as palavras do prefeito:

– Comandante, o prefeito ficou nervoso, e disse que não poderia ceder os 102 sacos que o senhor pediu.

E o comandante, visivelmente irritado, disse-lhe o seguinte:

– Ô, políça! Vorta lá no prefeto e diga que ele se enganô. Diga que o que está escrito é pra ele mandá 1 Ô 2 saco de cimento...

 

 

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Esta aconteceu em Niterói e foi contada no cassino por um capitão, que na época era o ajudante-de-ordens do comandante-geral. Era noite de um sábado. O capitão teve necessidade de dar um telefonema urgente. Estava ele próximo ao prédio do DETRAN, onde também funcionava a Companhia de Trânsito e um plantão de atendimento ao público, para onde eram canalizadas as ocorrências de trânsito.

Ao chegar, o capitão observou uma inusitada discussão entre um novato miliciano e o respeitável Juiz Titular da Vara de Execuções Penais do Estado, um homem de reconhecido saber e figura notória na cidade de Niterói. Menos para o novato miliciano...

– Meu prezado policial. Vou explicar-lhe mais uma vez: o meu filho, este rapaz que aqui está, com a mulher dele e meus dois netos, abalroou o veículo deste outro cidadão, que também aqui está com a esposa e filhos, todos na sua presença. Veja bem: eles, por coincidência, são amigos íntimos. E também, por coincidência, abalroaram os carros que dirigiam. O senhor entendeu, até este ponto, o meu relato? – indagou calmamente o Juiz.

– Positivo! Correto!...

– Pois bem, meu prezado policial. Apenas por precaução, eles decidiram comparecer ao hospital Antônio Pedro, por livre e espontânea vontade, a fim de verificar se alguém dentre os familiares recebeu ferimentos. Tudo isso na hora do acidente e em natural nervosismo. Mas, graças a Deus, ninguém sequer se arranhou, nada ocorreu, não houve nenhuma vítima. Entendeu até este ponto, policial?

– Positivo!

– Então, veja bem. O senhor está com as chaves e os documentos dos carros de ambos; e os carros foram recolhidos ao depósito enquanto eles se dirigiram ao hospital. Mas isso é procedimento específico em acidentes com vítimas, que não foi o caso. Neste, meu caro policial, o senhor não pode reter os documentos e os carros. Por isso, vim até aqui tentar explicar e esclarecer ao senhor que este não é um caso de retenção de veículos e documentos; e o senhor precisa devolvê-los, para que todos se retirem. Entendeu, policial?

– Negativo! Eles foram ao hospital, e, por isso, tenho de proceder como se o acidente fosse com vítima. É ordem do tenente. Nesses casos, as chaves e os documentos devem ser encaminhados à delegacia e os veículos ao depósito. É o que farei, por ordem do tenente.

– Mas, prezado policial... Sou um Juiz de Direito, um homem entendedor de leis. E seria o último a lhe exigir algo fora dos preceitos legais. A lei é clara: não houve nenhuma vítima no acidente e a ocorrência deve ser encerrada no local. No máximo, se for do entendimento do policial que atendeu à ocorrência, poderá ele multar. Nada mais. Por isso insisto, e em nome da lei, que o senhor devolva as chaves e os documentos dos carros agora mesmo. As famílias estão esgotadas, o senhor há de convir.

– Negativo, senhor! A ordem que tenho do tenente comandante é bem clara também. Foi ao hospital, tem vítima! E tudo deve ser mandado para a delegacia. É o que farei, senão acabarei preso no quartel...

– Bem, policial, então eu é que serei obrigado a lhe prender, por desrespeito às leis, por abuso de poder, por desobediência etc...

O capitão, que a tudo assistia sem interferir, dirigiu-se ao juiz:

– Com licença, meritíssimo. Sou capitão. Passei aqui somente para telefonar e acabei assistindo a tudo o que está ocorrendo. E lhe peço permissão para interferir nesta questão.

– Pois não, capitão! Fique à vontade! – aquiesceu o Juiz.

– Miliciano, sou capitão. Aqui estão os meus documentos.

– Sim, senhor capitão! Sd PM Beltrano, RG 44444, do primeiro pelotão, da companhia de trânsito, do 5º batalhão da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, de plantão no posto, etc., etc. – perfilou-se o novato miliciano, num enquadramento de fazer inveja a qualquer militar de verdade.

– Soldado, eu desejo lhe fazer uma pergunta: você reconhece minha superioridade hierárquica em relação ao seu tenente comandante de pelotão?

– Sim, senhor capitão! Sim, senhor! É lógico que sei que o senhor é superior ao tenente.

– Bem, então devolva as chaves e os documentos dos carros aos usuários aqui presentes. E imediatamente! Entendido?

– Sim, senhor capitão! Sim, senhor capitão! Imediatamente!

Sem mais delongas, o novato miliciano entregou tudo ao juiz, mantendo-se durante todo esse tempo na mais enquadrada posição de sentido, como se assim fosse uma estátua. O juiz agradeceu ao capitão, satisfeito com o desfecho. E logo se retirou, juntamente com os familiares e o amigo do filho. E foi quando o capitão tentou fazer ver ao miliciano que ele seria preso pelo magistrado, se insistisse naquela decisão equivocada, mesmo com a ordem do tenente, que não teria autoridade nenhuma para libertá-lo. E ele então disse:

– Mas, capitão, se eu liberasse os carros, também seria preso pelo tenente, o que, no meu entendimento, seria muito pior porque, pelo juiz, eu seria preso uma vez só, e pelo tenente quantas vezes ele bem entendesse...

 

 

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A vida de cassineiro me permitia preencher sobremodo minha aguda curiosidade. Não havia história que eu não soubesse, posto estar sempre a buscá-la onde elas estivessem. Por isso é que, durante as folgas, eu procurava ler coisas do passado, por sinal, muito interessantes. Vou contar-lhes alguns fatos curiosos e ocorridos nos “tempos do onça”, e que pude conhecer lendo um livreto da Irmandade de Nossa Senhora das Dores da Polícia Militar. E tome lá a primeira delas, nos termos em que foi publicada:

 

Com muitos goles de cachaça foram comemorando os nomes iguais, por fim, o soldado escolta do preso acaba sendo carregado por este:

 

– Seu nome é Manoel?

– É.

– Pois o meu também é.

– Então somos xarás.

– Sem tirar nem pôr.

– Você de onde é?

– Da Bahia.

– Bem, o nome é igual, mas a província é diferente; minha terra é Minas Gerais.

– Povo bom.

– Obrigado.

– Ah! mineiro, seu eu pudesse molhar a garganta agora, até me esquecia de que sou preso.

– Você tem umas patacas no bolso?

– Ora se tenho!

– Na taberna do Lucas a gente encontra da boa. Em frente, marche!

E lá foram os dois: o detento Manuel Joaquim Afonso e o soldado Manuel José Rodrigues, escolta do xará, encarregado de levá-lo à cadeia. Bem. Da taberna do Lucas, os dois Manuéis já saíram um tanto ou quanto alegres. E continuaram tocando pra frente, mas um trago aqui, mais outro trago ali. E, naturalmente, o soldado vendo cada vez menos o caminho da cadeia. Entretanto, algo importante ocorria. É que, enquanto a praça desmoronava-se rápido ante a ação do álcool, o prisioneiro – velho pau-d’água – continuava firme em cima das pernas. De repente, a cachaça cantou de galo dentro do Manuel fardado, e ele escarrapachou-se na calçada, largado feito um morto. O outro Manuel não vacilou: abaixou-se, agarrou o xará e acomodou-o no ombro. E avançou, resoluto, levando o peso do borracho e o do próprio corpo encharcado de pinga. E os passos estalando nas lajes da calçada. E as esquinas ficando para trás. Lento, lento. De repente, o portão de ferro da Casa de Correção. A chegada, afinal. E então, estendendo num banco a carga humana, o preso explica:

– É meu amigo e xará; não podia deixar ele caído na rua.

Eis agora como o fato vem narrado no ofício (29-julho-1836) do Administrador da Casa de Correção ao Chefe de Polícia (sic):

 

“Ilmo. Sr.

 

O preso Manoel Joaquim Affonso, que por ordem de V. S.a foi removido para o Quartel General, se apresentou hontem ás 5 horas da tarde nesta Casa com o offício incluso, trazendo ás costas o soldado da Companhia adida Manoel José Rodrigues, o qual estava como morto, pelo estado de embriagues em que se achava, sendo de notar, que era este o guarda que conduzia o ditto preso. Pelo o despacho dado por V. S.a no offício ditto (que entregou aberto) se vê que devia o referido sêr conduzido a Cadeia, porém mais certo do caminho para esta Casa, do que para aquela, carregou o guarda, e veio aqui se apresentar. Deixo a consideração de V. S.a que espetáculo tão interessante seria pelas ruas onde tranzitarão, vendo-se um preso conduzindo ás costas o soldado que devia guardar. Levando pois o relatado ao conhecimento de v. S.a, envio egualmente o supra ditto preso em conformidade do Despacho ditto de V. S.a em o mencionado offício – Deos Guarde V. S.a. Casa de Correção, 29 de julho de 1836. – Ilmo. Sr. Doutor Eusebio de Queiroz Chefe de Polícia – Thomé Joaquim Torres – Administrador.” 

 

 

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Oito dias na Fortaleza da Laje para a praça que de folga, acompanhasse tropa marchando na rua. Sim, a coisa era dura naquela época. Por exemplo, o coronel João Antônio Garcez Palha, comandante do Corpo Militar da Polícia da Corte não era de fazer graça a ninguém. Se soubesse que uma praça sua fora vista acompanhando tropa marchando na rua perdia as estribeiras. Por quê? Porque naquele tempo (1870), quando viam força militar marchando na rua, ao som de banda de música, os capoeiras corriam para a frente dela, e punham-se a dançar, gingar e a dar rasteiras. Também os vagabundos, mendigos – a arraia-miúda – gostavam de seguir a música da caserna. Esse negócio, pois, de soldados do Corpo Militar misturados à patuléia, não agradava ao coronel Garcez Palha. E até baixou ordem proibindo. E foi ao extremo, ao fixar o castigo de oito dias na Fortaleza de Laje para toda praça encontrada acompanhando força militar desfilando na rua, conforme os termos de sua ordem do dia nº 66, de 7-junho-1870. Mas parece que o soldado João de Souza Pacheco, da 3ª Cia, de Inf., não levou muito a sério a recomendação de seu comandante. Era como jogador de pôquer: gostava de pagar para ver.

E assim, certo dia, vendo passar o 2º Btl. da Guarda Nacional, naturalmente puxado por furiosa banda de música, o Pacheco esqueceu a proibição do rigoroso coronel Garcez Palha, e, não agüentando o fogo do entusiasmo queimando-o por dentro, voou para o meio do povo que acompanhava a tropa. Foi o mal. Por certo algum sargento bigodudo, cara ruim de buldogue, que andava por ali rondando, pôs os olhos em cima do Pacheco e logo franziu a testa. E deu voz de prisão. O soldado faltoso caiu numa lamúria de arrancar lágrimas de um lobo, mas o sargento cortou a cantilena: “Vamos pro quartel; lá você explica tudo ao oficial de estado-maior.” Frente a frente com o superior, Pacheco ainda tentou se livrar da friagem do xadrez, mas apenas ouviu algumas palavras secas: “Nhenhenhém não adianta. Eu é que não vou pro buque no seu lugar.” E não adiantou mesmo. Basta ler a ordem do dia nº 66 de 7-junho-1870, na sua forma original:

 

“Quartel do Commando Geral do Corpo Militar de Polícia da Corte, Rio de Janeiro, 7 de junho de 1870.

 

Ordem do Dia

Nº 66

Nesta data mando soltar o soldado da 3ª Companhia de Infantaria João de Souza Pacheco que foi preso por ter estado entre o povo que acompanhava o 2º Bat. da Guarda Nacional, sem estar de serviço, em contravenção ás ordens estabelecidas, e mando declarar de novo que é inteiramente prohibido ás praças deste Corpo andarem no grupo do povo, não estando em serviço, para que se não diga que o Corpo Militar tem em seu seio capoeiras, e que aquelle que for encontrado em desrespeito a esta ordem será remetido para a Fortaleza da Laje, por oito dias. Assignado, João Antônio Garcez Palha – Tenente Coronel Commandante geral.”

 

 

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Essa veio de tempo pouco posterior ao voluntariado a pau e corda. Ingressara no 1º batalhão de Alcântara, São Gonçalo, uma turma de recrutas, todos de nível primário, exceto um, que já contava com o segundo grau completo e fazia pré-vestibular para medicina.

No curso de formação de soldados, era comum o sargento monitor cobrir os tempos de aula dos “atarefados” oficiais instrutores. Mas, naquela época, os sargentos ainda eram daqueles caçados a pau e corda, ou seja, quase todos semi-analfabetos. E havia um que, mesmo não tendo muita instrução, trabalhava como “enfermeiro” do quartel, eis que era um mestre na aplicação de injeção. E também um excelente ser humano, estimado por toda a soldadesca.

O sargento substituía o tenente médico nas aulas de Higiene e Primeiros Socorros. E veio a prova, com as questões elaboradas pelo médico. Uma questão apenas: dissertar sobre infecção e infestação, estabelecendo as devidas diferenças. Pois bem, divulgou-se o resultado, tendo o bondoso sargento corrigido para o tenente médico as provas dos vinte e oito recrutas. E, ao anunciar as notas que atribuíra a cada aluno, lamentou-se com o recruta que estudava no curso pré-vestibular de medicina, que não vencera nem mesmo grau 2 em sua prova, enquanto que os demais, semi-analfabetos como o monitor, angariaram notas acima de sete.

O recruta, inconformado com o baixo grau a ele atribuído, e consciente de que fizera uma dissertação além da capacidade do sargento em corrigi-la, requereu ao comandante da companhia a revisão de sua prova pelo tenente médico. O pedido dele foi acolhido, a prova revisada e o seu grau passou de 1,5 para 10...

Segundo os comentários no cassino, a transmudação da tropa de analfabeta para outra mais alfabetizada, – assim como o aumento da procura e a exigência de concursos para selecionar, entre os interessados, apenas os mais capacitados, – provocou uma inusitada situação: uma nova tropa, escolarizada, porém recebendo ordens e “ensinamentos” de antigos oficiais que mal sabiam assinar o próprio nome, mas que, em compensação, possuíam muita cultura e invejável inteligência... Nos ombros, como no caso daquele coronel lá do início.

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   Essa aconteceu no Rio de Janeiro, no posto 6, em Copacabana.

 

Havia uma guarnição parada no ponto base, à beira da praia, no calçadão. Já à noite, os PMs estranharam um corpo na areia, indo e voltando na marola.

Foram lá conferir e se tratava de um corpo de afogado. Os Pms voltaram ao calçadão e um deles contatou Maré 0:

 

- Maré Zero, bravo 19 falando.

- Continue, Bravo 19.

- Corpo boiando na beira do mar.

- Morto? – indagou o distraído de Maré Zero.

O patrulheiro, sacana como ele só, respondeu.

- Não! Não está morto! Está até fumando um cigarrinho comigo porque está gelado. E batemos um longo papo. Irra!

 

Mas enquanto ele falava e ou seu parceiro ria às escâncaras, o corpo foi arrastado pela marola. Aí falou o patrulheiro a mangar mais ainda do operador de Maré Zero:

 

- O cadáver evadiu-se.

 - Como?

- Sei lá, deve ter se escafedido enquanto conversávamos.

- Devia estar devendo alguma coisa à Dona Justa.


Histórias de Papa-Maikes

 

É preciso dizer que Papa-Maike é PM?...

 

Na briosa Polícia Militar ingressei, em 1950, como soldado raso. Naquela época, ela era oficialmente denominada Força Policial do Estado do Rio de Janeiro. E de soldado raso não saí, muito mais por ausência de linhagem familiar e bem menos por um inevitável comodismo, e, de certa maneira, conformado com a falta de oportunidade interna de ascensão hierárquica.

Mas, honestamente, devo-lhes confessar que me ajustei em tarefa assaz interessante. Era eu cassineiro dos oficiais no quartel-general da Força Policial, em Niterói, a sede do comando da milícia fluminense ainda em tempos distantes da inaudita fusão entre os Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara (1975), um verdadeiro golpe dentro de outro, acontecido antes, em 1964, e que em ambos os casos a todos desconheceu, desrespeitou e aviltou.

Ora bem, deixemos de lado a política. E me vou logo elucidar o significado da palavra cassineiro, para que os leitores não fiquem por aí a imaginar algum palavrão. Mas, observando-a, tem-se a imediata impressão de que cassineiro deriva de cassino, o que nos pode remeter à falsa ideia de que a Polícia Militar mantivesse alguma casa de jogatina no seu âmbito. Nada disso, longe disso, apesar de todos saberem que a jogatina sempre comeu a solto em quartel, especialmente em tempo de prontidão ou para ajudar a empurrar as horas durante o serviço interno e noturno. Ou então por puro vício, mesmo... Por isso, cassino trata-se tão-somente de termo, – mais aristocrático que militar, – a designar o refeitório dos oficiais; ou melhor, a diferençá-lo do local de repasto da soldadesca, da raia miúda, mais especificamente do povoléu fardado, da ralé militarizada: o rancho. Acham que não? Bem, então me vou entrar a dizer, rapidamente, como tudo começou, em 1835...

Em 14 de abril de 1835, foi criada a Guarda Policial da Província Fluminense, com efetivo fixado em 241 homens, entre oficiais e praças-de-pré. E se definiu como seria preenchido esse efetivo de humanos. Sim, o efetivo era de humanos, mas os métodos da época em recrutá-los nem tanto, especialmente no caso das praças-de-pré, assim categorizadas, e que mais pareciam presas de alguma caçada, como vocês verão.

No caso dos nobilíssimos oficiais, eram eles nomeados entre os voluntários avulsos do Exército, – oficiais que completavam o seu tempo de serviço e eram, nestes casos, dispensados da farda – todos da aristocracia, é óbvio. Ou então, ainda no caso dos oficiais, poderiam ser eles voluntários nomeados pelo presidente da Província, depois de escolhidos dentre os também aristocráticos cidadãos civis aptos às funções, recebendo todos as honrarias e as prerrogativas das patentes. Em resumo, eram investidos no irresistível brilho dos ouropéis...

Já o efetivo de praças-de-pré seria suprido por cidadãos brasileiros na faixa etária entre 17 e 40 anos de idade, voluntários ou recrutados entre a ralé. Segundo a história, o recrutamento era feito “na forma da lei”, isto é, “a pau e corda”, como diziam outrora. E mais: em sendo voluntários, eles se obrigavam a permanecer por dois anos na ativa; no caso dos recrutados, porém, eram quatro anos de dureza imperativa. E foi assim, “a pau e corda”, que muitos foram dar com os corpos na briosa Guarda Policial da Província Fluminense. E nunca se soube se as almas daqueles voluntários caçados vieram juntas com seus corpos. É bem possível que não, e também não nos é difícil conceber que tipo de gente vinha na ponta da corda e na pancada intimidativa da espada. Se as paredes do quartel ouvissem e falassem, reproduziriam a realidade mais ou menos assim: “Olha, vosmecê não quer, mas agora vosmecê é miliciano. Tome a farda, vista-a, e fique por quatro anos. Se desertar é crime!”, ao que o assim recrutado responderia: “Sim, nhonhô!”

Era assim, sem tirar nem pôr, ou, como dizia o texto legal, “na forma das leis vigentes”. Colocando em miúdos, era como se um “criminoso” fosse condenado a quatro anos de prisão, sendo obrigado a cumpri-los fardado de miliciano, não me parecendo necessário explicar aos leitores quão rigoroso era o militarismo naquela distante época da nossa história...

Acham que não?... Pois eu lhes digo que uma das punições mais abrandadas era a pranchada (batida com a parte mais larga da espada ou do espadim) nos lombos das faltosas praças-de-pré. Dependendo da falta, tome uma, ou vinte, ou trinta, ou sei lá quantas pranchadas mais. Que tal?

Que seja invenção minha, poderão alguns imaginar. Mas, não! Juro-lhes que não estou inventando nadinha. Era efetivamente assim, por conta da lei nº 16, de 14 de abril de 1835, assinada pelo presidente da Província do Rio de Janeiro, o senhor Joaquim José Rodrigues Torres, que criou, nos tempos del-rei, a milícia fluminense, e instituiu os critérios ora descritos. E não o fizera para que os milicianos tivessem uma boa-vida, posto, logo em 1842, a milícia fluminense, no mês de agosto, já lutava na pacificação de duas outras províncias sublevadas, – Minas Gerais e São Paulo, – enfrentando como briga de irmão. Tempo “bom”, aquele, em que o miliciano se ia à intestina contenda para morrer, depois de recrutado “a pau e corda”...

Não lhes parece estranho? E se eu lhes dissesse que em 1950 os milicianos não mais eram trazidos “a pau e corda”, mas que bastava ao recrutador, geralmente oficial, inspecionar-lhes os dentes e o físico, para que os agora somente voluntários se integrassem à briosa? Acreditariam? Não? Ora bem, pois lhes garanto que comigo assim ocorreu. Apresentei-me voluntário dentre algumas dezenas de outros, e o oficial me inspecionou como a um burro a ser comprado.

Por tudo o que foi contado, – e por muito mais que poderia sê-lo, mas não o farei por um certo amor à brevidade – vocês não acham que a palavra cassineiro tem um quê de aristocrática? Não acham, também, que vem de longe o predomínio da aristocracia na andança irreversível de um tempo pouco mudado? Por favor, digam que sim!... Eia!... Creio, portanto, que não exagerei em lhes dizer que o cassino dos oficiais tem vínculo histórico com a aristocracia brasileira, já que os oficiais-militares, desde os tempos del-rei, eram integrantes dela. Daí cassino, um nome pomposo.

A república chegou, porém em nada mudou a cultura dos quartéis, e somente se acentuou esse aspecto de diferença social que, por sinal, predomina até hoje. Sim, no fundo da mais isenta avaliação, os oficiais ainda se situam no plano da casa-grande, enquanto as praças moram na senzala contemporânea (ou na favela, que é a mesma coisa). Mas, isto não é motivo de preocupação. Afinal, toda a sociedade continua assim, dividida em partes desiguais e em proporções que dispensam comentários...

Mas não vamos gastar muita prosa com ideologias. O que efetivamente desejo é contar-lhes os fatos que ocorriam em quartel ou que eram por mim percebidos no cassino dos oficiais, geralmente por estar com os ouvidos colados no ar e captando as mais variadas conversas entre aqueles que compunham a casta da Polícia Militar, e no momento da descontração do repasto diário no quartel-general.

Devo-lhes dizer, todavia, que me chamavam pelo nome de guerra Aroeira somente alguns mais austeros, porque a maioria se me dirigia por um apelido, talvez até bem mais adequado: Marche-Marche. Apelidavam-me assim, mais por culpa deles que, em meio ao tumulto das impertinentes chamadas, de ponta a outra do amplo cassino, me obrigavam a correr para cá e para lá, num paranóico vaivém, a atender a todos ao mesmo tempo. Não me era possível, diriam muitos, ou alguns, ou poucos. E eu responderia que me era sim, não sem um hercúleo esforço de minha parte, eu, que cumpria tipo assim uma corrida de cem metros rasos, por muitas vezes, durante o almoço dos aristocráticos oficiais.

– Marche-Marche, eu quero água! – bradava o tenente, lá da mesa do canto.

– Marche-Marche, traga-me o bife! – urrava o major, preterindo ao tenente.

– Marche-Marche, venha cá! – prevalecia a voz simples e baixa do coronel.

Imaginem os senhores que eu ficava como um busca-pé disparado a esmo numa festa junina. E corria a atender ao tenente, e voltava a meio caminho a atender ao major, e revirava a direção a atender ao coronel, como um verdadeiro cu-de-breu queimando os pés entre as dezenas de mesas e sem destino certo. Ou, mais apropriadamente, com destino a quem mais imperava no ambiente: ao coronel.

Vocês têm ideia de como brada um oficial dando ordem? Claro que muitos de vocês passaram pelo serviço militar obrigatório – não aquele “a pau e corda” dos tempos del-rei, mas de certa maneira semelhante, porque até hoje o serviço militar é insolitamente obrigatório, ou seja, “a pau e corda” legalizados. Sim, passaram pelo serviço militar obrigatório, e por isso têm a perfeita noção daquilo que aqui lhes falo; mas não pensem que cá estou gratuitamente criticando essa cultura do brado autoritário de superiores para com (ou contra) subordinados, uma praxe nas casernas e no militarismo mundo afora. É coisa do militarismo, mesmo. Mas, às vezes, aquele que mais grita com os subordinados tem o coração melhor do que o daquele que fala sereno, macio, mas a ocultar na maciez uma índole de mau-caráter.

Sim, prezados leitores. Não é pela força do grito do militar que se conhece o homem que está por detrás dos galões ou das insígnias. Porém, e seja lá como for, se gritar chamando, escolha sempre o mais graduado, o de maior patente no ambiente, e vá até ele. Nunca escolha o tenente em lugar do major, e não vá a este em lugar do coronel. Seja um cu-de-breu consciente da hierarquia militar. E assim eu o era, até que todos estivessem bem atendidos, como o gado a buscar no cocho a ração disputando prioridades aos empurrões. Não havia empuxões entre eles, no sentido literal, mas o empuxado era eu, como se fora todos me empurrando para lá e para cá e a um só tempo. Mesmo assim, valia a pena a troca desse tratamento de cu-de-breu pela oportunidade de ligar minhas curiosas antenas nas conversas e nos fatos, tanto no cassino como no quartel.

Certa vez eu fui atender a um coronel recém-promovido. Narcisista como ele só, um magnífico loiro de meia-idade, olhos azuis e forte como um touro, o coronel jantava, isolado, sentado na mesa a ele destinada. Não era costume coronéis fazerem o repasto noturno em quartel, mas ali estava ele, o magnífico coronel, admirando-se a si próprio, mirando embevecido os ombros e as insígnias douradas – os seus ouropéis. Fora promovido ao posto máximo naquela semana, e estava para lá de envaidecido. “Dos coronéis irrompem, como timbres soberbos, soberbas cabeças de águias.” (Antero de Figueiredo).

De caminho nesta história, devo-lhes confessar uma coisa que nunca entendi: na Polícia Militar não tem general; o posto mais elevado é o de coronel. Mas chamavam o quartel do comando-geral de Quartel-General. Designam-no assim até hoje, e não compreendo o paradoxo, já que quartel-general é valhacouto específico de generais, que não existem na Polícia Militar. Deixem passar a reflexão para depois, não sem antes conferir o que lhes digo no Aurelião, ou confiar no que lhes digo, para ganhar tempo e para que eu possa pressurosamente atender ao nosso recém-promovido coronel, que já está a nervosamente me convocar a sua mesa de repasto:

– Marche-Marche, vem cá, e fite bem os meus ombros! – determinou-me. – E complementou com uma indagação, eu perfilado e já tremendo na presença dele: – Que vê?

– Oh, meu bom coronel! Vejo três estrelinhas douradas, e bem bonitas!

– Só?

– Só, meu bom coronel. Que mais eu poderia ou deveria ver, segundo sua sábia percepção?

– Olhe melhor, Marche-Marche! Diga-me... Como são as estrelas! – insistiu, e eu, nervoso, sem entender nadinha.

Respondi-lhe:

– São douradas, e estão em fila nos ombros.

Ele me interpelou:

– Não, Marche-Marche!

– Não? Que mais então, meu boníssimo coronel? Não estou conseguindo ver nada além do que vi, com os olhos que a terra me há de comer, e disse sinceramente ao senhor, na minha santa ignorância. Ou, melhor dizendo, sei que elas indicam que o senhor foi merecidamente promovido a coronel – tentei me safar assim.

Inconformado, ele retorquiu-me:

– Não, Marche-Marche. Já vi que você não tem visão profunda. Veja só, vou clarear-lhe um pouco a mente. As estrelas têm cinco pontas, cada qual formando uma pirâmide irregular e enfeixando-se todas numa base circular, que contém outra estrela. – Notou esses detalhes?

– Agora estou notando, meu bom coronel. Mas, perdoe-me meu bom superior, continuo sem entender...

– Imagino, imagino... Vou lhe explicar um pouco mais, para que você finalmente entenda aonde quero chegar, alcance a importância do que lhe quero transmitir. – Vê que a estrela maior apresenta uma textura enrugada, e que as linhas de remate dos triângulos que formam, aos pares, as cinco pontas da estrela são polidas?

– Isso eu vejo! – respondi. – Mas, meu bom coronel, a comida está esfriando... – completei, na esperança de terminar o meu martírio, sem saber que ele apenas começara.

– Leve-a de volta, traga-me outra! Mas, deixe-me completar esta parte da explicação, tal qual lhe dou! – exclamou. – Vou repetir o que lhe disse antes: – Você notou que no alto da estrela maior há uma base circular a apoiar uma estrela menor?

– Estou vendo, meu bom coronel.

– Então veja só, Marche-Marche, veja que a estrela menor tem cinco pontas voltadas exatamente para os prolongamentos das linhas centrais das pontas da estrela maior. E veja que ela, a estrela menor, é totalmente lisa, sem rugas na textura, mas também está colocada em alto-relevo. Na realidade, uma é contígua à outra, a menor à maior, a maior à menor. – Diga-me se entendeu?

– Pouco mais, pouco menos, meu bom coronel. – Mas a comida...

– Vá! Vá!... Leve logo a comida. Vá aquecê-la e volte rápido, que lhe explicarei o significado disso tudo. Não, não, não quero mais esta comida. Traga-me outra.

Fui, e rápido, e já com os nervos em incontroláveis repelões. Fui, sim, porém fitando obliquamente o coronel, enquanto dele me afastava. E ele, preso ao assunto que antes me discorrera, mirava e carinhosamente alisava as estrelas de seu ombro esquerdo com o fura-bolos da mão direita. “Estaria maluco?”, pensei comigo.

De caminho, já de volta, encorajei-me. E excogitei em lhe indagar o significado daquilo tudo, e ele, o afetado, ainda distraído, estava agora fitando os reluzentes ombros, ora o esquerdo, ora o direito, como se um não fosse tal qual o outro. “Irra!...”, somente pensei, é lógico.

– Pronto, meu bom coronel! A comida agora está quentinha.

– Marche-Marche, diga-me uma coisa: que faziam na vida seu pai, seu avô e seu bisavô? – indagou-me, enquanto elegantemente comia, garfo e faca em postura de boas maneiras e guardanapo levado aos cantos e ao centro da boca em gestos medidos.

– Meu bisavô não conheci, mas sei que era um escravo. Meu avô e meu pai eram lavradores no interior de Campos dos Goytacazes. Lá nasci e vim para cá, menininho. Ambos trabalhavam no corte da cana-de-açúcar, em fazendas das usinas. Eram boias-frias.

– Veja só, Marche-Marche, meu bisavô era um aristocrata de alto quilate, um nobre da corte imperial. Vovô e papai seguiram a carreira militar, vovô no Exército e papai aqui na briosa. Meu saudoso vovô chegou a Marechal e deixou bela herança, e papai tornou-se coronel e culminou comandante-geral, neste mesmo quartel. Você vê aquela mesa maior, ali?

– Sim, senhor, meu bom coronel. É a mesa do comandante-geral.

– É a mesma em que papai se assentou durante oito anos, até que a enfermidade e a morte interromperam-lhe a carreira e a vida. Você tem dúvida de que chegará o dia em que me sentarei naquela cadeira, hein, ó Marche-Marche?

– Não, senhor, meu bom coronel! Tenho certeza disso! – concordei rápido, mas pensando, curioso, naquelas misteriosas estrelas. – E, mesmo com um certo temor, arrisquei-me em indagar-lhe sobre o tema principal que ele mesmo iniciara: – Mas, meu bom coronel, e as estrelas, que significam, afinal?

– São símbolos, hein, Marche-marche! São símbolos!...

– Símbolos? De quê?...

– De poder, Marche-Marche... De inteligência, Marche-Marche... De cultura, Marche-Marche... De linhagem familiar, Marche-Marche... De histórias de glórias militares, Marche-Marche... Vá, Marche-Marche! Vá rápido buscar o café!

Confesso que me assustei com o maluco, mas acabei compreendendo o recado dele: o afetado se deixava estar comparando-se a mim, ele no alto e eu cá embaixo da escada social, nem mesmo galgando o primeiro degrau. As estrelas, quais fossem douradas, quais fossem prateadas, quais fossem de lata vagabunda, apenas serviram de motivo à sua galhofada social. Sim, poderia ele ter escolhido um mero botão de sua impecável farda, e o desfecho seria o mesmo. Coitado de mim, cuja única ascensão social que tive na vida foi a de sair do andar de baixo, do rancho da soldadesca, para servir aos sargentos, ainda embaixo, e, ao final de muitos anos, fui chegar ao meu posto máximo de cassineiro da oficialidade, no andar de cima.

Histórias de glórias militares?... Curiosa, bem curiosa, a afirmação do coronel... Ora, a não ser que ele se estivesse referindo à Guerra do Paraguai, como, aliás, todos os demais faziam para passar o tempo, sempre vazio de acontecimentos externos que justificassem a existência da Força Policial... Daí eles ficavam rememorando os feitos heróicos dos antepassados, lidos em livros velhos das estantes dos quartéis antes e depois do repasto do meio-dia e na falta de novos e bons livros a lhes distrair as mentes com algo mais atraente. Mas, ociosidade, afetação e narcisismo à parte, ali aconteciam coisas muitíssimo curiosas, como certa vez...

 

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Certa vez, numa das mesas do cassino se deixavam ficar quatro majores, que entraram a conversar alto entre eles. Três deles, eu os conhecia bem. Eram uns safados de boa estirpe que só viviam de pilhérias com os demais majores e até com alguns tenentes-coronéis contemporâneos de academia. E coitados dos capitães e dos tenentes, que sofriam deveras com aquele trio de traquinas. O outro major que completava aquela mesa, ao contrário, era um pacato oficial, que pouco falava, muito inocente, e de quando em quando alvo de chacotas até das praças; mas em cochichos à parte, é lógico. E entraram os três a conversar animadamente, com o outro apenas escutando, em quietude. E eu de ouvidos cosidos na prosa, já imaginando que boa coisa dali não sairia. E todos no cassino também...

– Baixinho, diga-me cá, com toda a sinceridade, mas com toda a sinceridade mesmo! Você já fez meia quando era criança? – indagou o major que tinha o apelido de Careca.

– Mas é lógico, Careca! – respondeu o Baixinho, que assim era chamado pelos demais devido a sua pouca altura. – E lhe digo mais: fiz meia muitas vezes e não tenho vergonha de falar – completou.

– Gostei da firmeza! Você é igual a mim, que também fiz meia muitas vezes quando criança! – devolveu o Careca, que completou indagando ao outro, conhecido como Pescador, eis que gostava do esporte:

– E você, Pescador, já fez meia quando criança?

– Ora, careca! Você não tem outro assunto?... Eu não queria falar nisso, mas já que o jogo é aberto, digo-lhe, e ao Baixinho, que fiz também, e muitas vezes. Nada demais, coisas de criança...

E assim ficaram, com toda a platéia observando. Nunca vi tanto ouvido colado no ar aguardando o desfecho, incluindo-se o sisudo comandante-geral, sentado em sua mesa de repasto, até que o Careca, o mais safado dos três, encaixou a indagação endereçada ao compenetrado e silencioso major:

– E você, meu amigo?... Já fez meia quando criança?

E este levantou o braço direito e o tímido fura-bolos para cima, a indicar quantidade, e respondeu meio sem jeito, meio encabulado:

– Só uma vezinha, com meu o primo...

A gargalhada foi ouvida a quilômetros de distância, deixando o pobre do major numa desconfortável situação. Logo a notícia correu os quartéis, no nosso famoso e temido “boletim do soldado”, espécie de “central de fuxicos internos” cuja existência nenhum comandante, por mais rigoroso que fosse, conseguiu evitar. Saibam que o “boletim do soldado” ganha fácil de quaisquer outras modalidades de bulícios que se conhecem na prática e na ficção.

Cabe aqui explicar o que designei por “academia”. Antes de existir a Escola de Formação de Oficiais, que hoje é conhecida pela sigla EsFO, havia o Curso Profissional (CP). Neste último, ingressavam os sargentos para conquistar o direito ao oficialato. Por isso, houve uma época em que os oficiais formados na EsFO conviveram com aqueles outros oriundos da tropa, e que se formaram no CP, muitos ocupando postos hierárquicos e comando superiores. Por isso é que, de quando em quando, acontecia de grupos heterogêneos se sentarem juntos à mesa de repasto, ocasiões em que se afloravam os preconceitos, muita vez em tom de brincadeiras como a que contei. E nem sempre o que soava inocente de fato era-o...

 

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Relembrando o paradoxo do quartel-general, que deveria ser quartel-coronel, já lhes esclareci, implicitamente, que o referido quartel possuía dois andares. Embaixo, funcionavam diversos setores, além do Batalhão de Serviços Auxiliares, cuja sigla era BSA. Como vocês sabem, os militares adoram siglas, simplificam tudo, de modo que não precisem de muito trabalho em pensar. E no meu quartel existiam muitas pessoas interessantes, como o tenente Mangueira, uma figura que merece rápida descrição. Imaginem um sujeito grande, meia-idade, gordo do tipo balofo, farda relaxada e um vasto bigode a lhe disfarçar a feiúra e barba sempre por fazer. Mas era, sobretudo, um bonachão, o tenente Mangueira, apesar de semi-analfabeto, um voluntário vindo de longe, quiçá daqueles tempos do pau e corda.

Sempre ao se iniciar o expediente, o Batalhão de Serviços Auxiliares (BSA) formava no imenso pátio do quartel. E nós todos, perfilados, a ouvir o boletim, não aquele outro, fofoqueiro, mas este, um formal mecanismo de comunicação à tropa. Após a leitura, diante do comandante do BSA, que era um coronel, a tropa desfilava, alternando-se a cada dia os oficiais no comando da tropa. E chegara o dia do tenente Mangueira, sempre uma surpresa. E ele, garboso, – apesar de ostentar uma figura até certo ponto grotesca, mais para humor do que para qualquer seriedade militar, – comandou primeiro “sentido!”, em seguida “ombro-Arma!”, e se apresentou ao coronel pedindo-lhe permissão para deslocar a tropa em continência àquela autoridade militar. Permissão concedida, ele comandou: “Direita... Volver!” Com este brado, a tropa rodopiou em posição lateral ao comandante, para seguir marchando até o ponto em que deveria retornar, na marcha-batida, para a continência em marcha. Então o tenente Mangueira, em comovente empolgação, bradou num vozeirão: “Ordinário, marche!”

E lá foi a tropa, aquela enorme minhoca, seis colunas de homens batendo forte os pés no chão (plac, ta plac, plac, ta plac...) ao som do rataplã e em direção ao espaço de onde deveria voltar: em frente das portas já abertas da alfaiataria, que davam para o pátio. Naquele ponto, o tenente Mangueira deveria – mas não o fez – comandar “em direção à esquerda, marche!”, para que a tropa girasse como um leque, o primeiro homem da coluna da esquerda marchando no mesmo lugar, enquanto a primeira fila de soldados abriria e fecharia o leque até o ponto em que a tropa deslocaria em retorno, já em linha reta, em direção onde se deixava ficar o coronel a esperar os cumprimentos em continência. Mas o pobre-diabo do tenente Mangueira esqueceu-se de como emitir o tal comando, e a tropa foi em frente, rumando, inexorável, em direção à alfaiataria. Desesperado, o tenente Mangueira pulou na frente da tropa, braços abertos em cruz e gritando:

– BSA, Ô ô ô! BSA, ô ô ô!... Ô ô ô, BSA! Ô ô ô, BSA!...

Os safados dos soldados não obedeceram ao inexistente comando da “manada” e atropelaram o exasperado tenente se enfiando na alfaiataria e causando o maior pandemônio. Foi estupendamente cômica aquela cena, o coronel dobrando-se com as mãos espalmadas, e a pressionar a barriga, e rindo às bandeiras despregadas, e com ele todos aqueles que assistiam à inusitada conseqüência de um mero esquecimento. E mais hilariante foi a reação da tropa. Imaginem mil homens em uníssonas gargalhadas. Imaginaram?...

O episódio foi o assunto do mês no “boletim do soldado”, já que mais nada ocorrera naqueles dias seguintes, ficando o quartel restrito às garbosas formaturas da tropa, que venciam as horas matutinas e aguçavam os estômagos daqueles milicianos que não logravam conquistar uma dispensa para cuidar de “coisas externas”; ou que, simplesmente, desapareciam, a serviço doméstico de algum oficial. Neste último caso – hum!... – valiam o peso em ouro os pedreiros, eletricistas, carpinteiros, bombeiros, pintores e quejando...

Os demais, ou ficavam literalmente coçando o saco, ou eram escalados para algumas insólitas tarefas, entre as quais a de servirem como improvisados cobradores de bondes, por empréstimo à “SERVE” (sigla da estatal que administrava o transporte do povoléu em bondes que cruzavam Niterói e São Gonçalo). Tempos bons!...

 

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Eis uma história muito contada em quartéis policiais-militares, de tal modo que nem se sabe mais se é verdadeira ou inventada. Mas não importa, vale aqui registrá-la mais ou menos como foi por mim ouvida um dia no rancho... Era uma sexta-feira. No quartel, estava de serviço um corneteiro conhecido por suas habilidades em elevar até à boca a sua pinga de sempre. Em suma, um pé-de-cana, e muito amigo de um capitão que lá servia, eis que se conheciam desde a infância. E o oficial se demonstrava habitualmente preocupado com o amigo corneteiro e beberrão.

Sexta-feira, como já disse, às duas horas da tarde, o capitão se deixava estar postado na varanda do andar de cima, quando avistou seu amigo e lhe chamou pelo nome. O corneteiro para ele olhou, e o capitão fez dois gestos, a indagar se o amigo parara de beber: primeiro levou à boca a mão direita espalmada, com o polegar indo e vindo da boca à frente, no ar, e da frente à boca, em movimentos alternados; depois, entrou a cruzar os braços em frente do corpo, com as mãos espalmadas para baixo, imitando o clássico gesto de parar alguma coisa. Em resumo, o capitão perguntava ao corneteiro, por gestos medidos, se ele, o corneteiro, parara de beber. Mas ele, o desavisado, entendeu tudo errado: ao primeiro gesto, interpretou-o como tocar a corneta; ao segundo, interpretou-o como o toque de encerramento do expediente. E foi o que fez, ato contínuo, não dando tempo de nada. Foi o maior rebuliço em quartel, com a tropa largando os diversos serviços e se escafedendo rápido, e o capitão gritando o engano, e os oficiais saindo das repartições a tentar saber o que houvera, e o comandante-geral espumando de raiva, porque encerraram sem a sua ordem o expediente às duas horas, quando o seria normalmente às cinco horas da tarde. Não houve jeito e conserto: o expediente naquela sexta-feira encerrou-se às duas...

Os leitores poderão estranhar essa incidência de alcoolismo em quartéis de milicianos. Mas já houve épocas em que a cachaça era servida como repasto oficial aos faxineiros, conforme se fez publicar numa Ordem do Dia do coronel Rodrigues da Silva Travassos, datada de 9 de maio de 1896:

 

“Dora em diante as praças sentenciadas e para sentenciar não terão direito, nos dias de festa nacional, aos extraordinários fornecidos às outras praças, nem nos dias comuns à ração de sobremesa no jantar. A aguardente só será fornecida àquelas praças que, sendo presas, estiverem no serviço de faxina.”

 

Segundo alguns boletins antigos que eu andei lendo, entre o serviço do café da manhã e do almoço há provas de que, pelo menos até o ano de 1903, a cachaça fazia parte da alimentação da tropa tanto quanto o feijão e o arroz, sendo legalmente adquirida para fins de consumo pelos milicianos. Num dos boletins que li, encontrei a seguinte ordem publicada:

 

“Sr. Ten Cel Cmt manda publicar, para conhecimento do Btl. e devidos efeitos o seguinte:

1º – De acordo com as ordens estabelecidas, foi ontem (15 de novembro) distribuído às praças que trabalham nos reparos do quartel, meio litro de aguardente, fornecida pela agência do Btl.” (16 de novembro de 1903 – Diversas ordens).

 

Ou uma outra publicação extraída do mesmo boletim:

 

 “6º – De acordo com a 2ª observação da tabela de gêneros em vigor na Brigada, foram ontem distribuídos às praças, que tomaram parte na parada (de 15 de novembro), trinta litros de aguardente, saídos da agência do Btl.”

 

Acreditem, caros leitores: se eu fosse anotar todas as histórias de paus-d’água daquela época, haveria de gastar muitas horas e laudas. E no cassino? Quantas vezes os oficiais me faziam sinais convencionados, para que eu lhes providenciasse uma discreta dose da pinga como se fora água? E alguns repetiam a degustação em quantidades de arrepiar...

 

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Como lhes disse, (não sei se disse) comecei a servir no rancho das praças, mas daquela forma coletiva, tipo presídio, de encher os pratos da soldadesca em longas filas. O chefe do rancho, chamado por aprovisionador, era um capitão velho de idade, ainda do tempo do pau e corda. E a fila, ele a percorria recomendando: “Óia ocês tudo aí!... Sordado tem que trazê a canicrinha de alumino, senão num come, não!” Não seria nenhum exagero jurar que era assim que ele falava. Certa vez, lá estava a fila, bem comprida, e a soldadesca fuxicando, uns chamando os outros por apelidos, algo muito comum nos quartéis. E o capitão, ao ver um miliciano gritar ao seu parceiro – “Canarinhôoo!...” – estrilou: “Óia aí, o sordado que chamá o otro por apilido num vai cumê, não!” Exatamente ao terminar a frase, passou por ele seu ordenança. E ele assim se lhe dirigiu: “Tico-tico, num vai imbora sem dar graxa na minha butina, não, ó, hein!...”

E eu mesmo sendo chamado de Marche-Marche, dentre muitos milicianos igualmente conhecidos apenas por antonomásias?... É, não havia como evitar essa prática que começava comigo, sendo apelidado por todos os comandantes-gerais e demais oficiais aos quais servi no cassino.

A partir daí, nada impedia a validade dos apelidos, alguns que provocavam até contendas, por desgosto, de milicianos que se exasperavam ao serem vítimas de alguma galhofa com o seu nome, o seu mister, ou a sua figura física. Diziam no “boletim do soldado” que isso ocorria porque a ociosidade é mãe de todos os vícios...

 

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Esta correu no “boletim do soldado” na época em que eu já estava como cassineiro dos oficiais. Foi no Primeiro Batalhão de Caçadores, onde hoje é a sede do 7º batalhão da PMERJ, em Alcântara, São Gonçalo. O quartel fica na rua principal. Defronte à entrada, do lado oposto, há uma rua que dá para uma colina, transversal àquela principal, hoje bastante povoada. Nesta rua, distante talvez uns cem metros do quartel, havia um bicheiro conhecido como Seu Antônio, homem velho e aleijado. Lá, quase todos os milicianos iam fazer uma fezinha no jogo do bicho. Até os oficiais também cultivavam o hábito de tentar a sorte com os números no “ponto” de Seu Antônio. Mas eis que um dia a polícia civil estava a prender Seu Antônio, os milicianos assistindo à ação da coirmã da porta do quartel, porém todos indignados em ver o bicheiro entrando em cana. E houve a inusitada reação: por ordem de um oficial, que sempre arriscava a sorte com o velho bicheiro, os milicianos foram até lá e prenderam os policiais civis por “invasão armada de área militar”, levando-os todos a ferros para o quartel.

Foi o maior rebuliço da paróquia, até que o delegado e o comandante chegaram a um acordo. Soltaram o velho e marcaram um futebol de confraternização acompanhado de um lauto almoço no quartel, é lógico que regado a muita cerveja. E a paz voltou a reinar entre as duas instituições, sendo justo esclarecer que nessa época a Polícia Militar era aquartelada, como tropa militar, sem atribuições de policiar as ruas. E, segundo dizem, Seu Antônio escreveu Jogo do Bicho naquele mesmo lugar até morrer...

 

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No militarismo tudo é escrito. Existia essa prática desde o império, assim como continua a vigorar na cultura profissional da Polícia Militar, até hoje, esse procedimento de comunicação denominado “parte” (fulano deu parte, beltrano deu parte, sicrano deu parte, etc.), que contém as informações básicas de algum fato pretérito. Por conta dessas comunicações, há histórias inacreditáveis. Mas elas ocorreram mesmo, por mais que os leitores estranhem ou desconfiem que não. Dá até para jurar por todos os santos e santas...

Na Escola de Formação de Oficiais havia um cadete que era tão rigoroso, mas tão rigoroso, que, certa vez, achando que cometera uma falta disciplinar, – somente por ele presenciada ou sentida na pele, e mais ninguém, – ele simplesmente comunicou ao seu comandante a falta que entendeu ter cometido, a fim de que fosse punido... Deu parte de si mesmo, algo até então inédito nos anais dos fuxicos internos. E, como não poderia deixar de ser, alguns o reputaram maluco.

E no batalhão de policiamento rodoviário, que até hoje recolhe animais nas estradas, um sargento comunicou, por escrito, – deu parte, como já expliquei, – que a guarnição que ele comandava apreendera três cavalos, sendo um deles “égua”... E um outro deu parte da apreensão de “três carneiras”... E mais outro deixou de comunicar a falta de um miliciano porque, ao conhecer o nome dele (Washington), preferiu perdoar-lhe a falta... e ainda seria o mesmo miliciano muitas outras vezes “perdoado” por seus superiores...

Na Escola de Formação de Oficiais, o comandante avisara aos cadetes que não mais aceitaria desculpas das guarnições de serviço, caso o campo de futebol fosse invadido por cavalos soltos na cidade e à procura de capim verde. A partir da recomendação, todos os cadetes oficiais-de-dia zelavam no sentido de manter os portões sempre fechados. Mas eis que um dia um cadete bobeou e os cavalos adentraram o campo, formando aquele espetáculo irritadiço ao comandante. E o cadete, para se livrar da punição que decerto viria, quis transferi-la aos cavalos; e deu parte informando que “os cavalos invadiram o campo sem autorização”, e que “eram reincidentes em faltas daquela natureza” Foi preso por dupla falta: pela parte que deu dos cavalos, como se fossem humanos, e pela asnice...

 

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Há muitas outras histórias que não decorreram de partes, mas que foram parar direto no “boletim do soldado” e lá ficaram para sempre. Na Polícia Militar, como em qualquer organização militar, há o padre capelão. Na nossa, muitos capelães prestaram missões religiosas. Mas havia um tenente cujo nome de guerra era Bispo, já falecido em acidente automobilístico. Certa vez estava ele, o tenente Bispo, e o padre capelão (capitã0, ambos aguardando para falar com o comandante-geral, coronel do Exército Hindemburgo Coelho de Araújo. O já também falecido coronel Aloísio, na época capitão, exercia as funções de ajudante-de-ordens. E anunciou ao comandante que lá os estavam a esperar para lhe falar o padre capelão e o Bispo. O comandante, respeitando a hierarquia religiosa, mandou entrar primeiro o Bispo (o tenente), só aí percebendo a confusão...

 

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Eis uma ocorrida durante comunicação entre uma radiopatrulha e a central de comunicações:

– Maré-zero! Maré-zero! Bravo-uno chamando!

– Na escuta, bravo-uno! Pode prosseguir.

– Cabo na vala! Cabo na vala! – estrilou o miliciano no rádio da patrulha.

– Proceda, bravo-uno! Socorra o cabo! Socorra o cabo! – autorizou maré-zero.

– Não, maré-zero! Não, maré-zero! É cabo de alta tensão!...

 

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Havia um cadete amazonense cujo nome de guerra era Vasconcellos, e que cursava na Escola de Formação de Oficiais da PMERJ devido a convênio entre a corporação daqui e a sua coirmã amazonense. Fazia ele, o cadete, uma prova de português, cuja questão única consistia numa dissertação versando sobre o tema Controle da Natalidade. E ele fez uma linda dissertação... Sobre as festas natalinas, com papais-noéis, árvores enfeitadas em multicoloridas bolinhas de vidro e algodão imitando a neve, além de presentes dependurados e tudo o mais que se possa imaginar numa festa de Natal...

Por sinal, esse amazonense era uma caixinha de surpresas em matéria de provas, que sempre ocorriam numa mesma época. O professor de Geografia havia ensinado sobre os Movimentos Tectônicos (geodinâmica do globo terrestre), enquanto mestre da Educação Física explicara que os exercícios abdominais eram úteis à melhoria dos Movimentos Peristálticos (dos intestinos).

Bem, vocês já aí imaginaram o que ocorreu com o cadete, ao responder à pergunta que lhe veio vindo na prova. Sim, ele misturou Geografia com Educação Física, e afirmou que os exercícios abdominais eram úteis aos “movimentos tectônicos dos intestinos”; só faltou também explicar sobre os “movimentos peristálticos” do globo terrestre, mas ainda bem que a prova não era de Geografia...

 

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Uma guarnição de PATAMO do 9º BPM – viatura do tipo veraneio, com guarnição de cinco milicianos – foi agraciada com um recruta recém-transferido para o batalhão. Sem que ele percebesse, ao ocuparem os bancos do carro os outros milicianos lhe deixaram livre o lugar do carona, ao lado do motorista, onde ele se sentou. E saíram, aguardando algum chamado pelo rádio, algo comum e que logo aconteceu.

Era noite, quando maré-zero determinou à guarnição de PATAMO que procedesse a uma ocorrência. E lá se foi a PATAMO queimando pneus, sirene e giroscópio ligados. O recruta, de arma na mão e tenso, aguardava a ação. E ela veio: o motorista parou de súbito a PATAMO e bradou: “Descendo rápido! Descendo rápido!” Todos desceram, rápido... Pelo lado do motorista, sobrando o outro lado ao inadvertido recruta, que saltou veloz... E foi parar, deitado, dentro de um valão fétido, tomando um inesperado banho de lama poluída ao extremo, e que certamente não lhe seria medicinal. Na verdade, tudo não passara de um comitê de boas-vindas ao novato, que deve ter gastado um bom dinheiro com perfumes... E não se sabe até hoje se aquela ordem emitida pelo rádio fora verdadeira ou falsa...

 

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Prova de matemática na Escola de Formação de Oficiais. Os cadetes do primeiro ano não sabiam quem era pior, se a dita (ou maldita) matemática, ou se o feroz professor, que formulara quatro questões apenas, porém daquelas de arrancar os cabelos...

Dois cadetes que disputavam o primeiro lugar sempre serviam de gabarito aos demais. Depois que eles terminaram a prova, – ambos com resultados idênticos e o grau máximo conquistado, – acercou-se deles um desesperado colega não muito afeito aos números. E conferiu os resultados dele com os doIs craques na matéria. Gelou-lhe o sangue, errara quase tudo. Mas ele precisava de uma nota dez para se livrar da segunda época. Não fez por menos: montou outra prova, gabaritada, e armou um telefonema ao professor, trazido o recado por um cabo amigo dele: alguém ao telefone informava que a filha do rigoroso e irascível mestre “sofrera um acidente...”

O homem deixou a sala de aula e correu feito um louco ao telefone de lá da administração. Enquanto isso, o desesperado cadete adentrou rapidamente a sala e enfiou na pilha de provas a sua outra, de nota dez, e retirou a que fizera primeiro. E retornou o mestre, com uma fisionomia de zanga feroz e de atordoada perplexidade. Mas ele não tinha a mínima condição de saber o que houvera durante sua forçada ausência. Mas sentia claramente que fora vítima de alguma tramóia.

Do lado de fora, os cadetes festejavam a brilhante armação, quando o seu autor retirou do bolso a prova reprovada... E não era a dele... Mas a de outro colega que com ele festejava junto e que danou a chorar ao ver sua prova reduzida a um bolinho de papel, de tão amassada que ficara.

A prova do cadete não estava lá essas coisas, mas dava para o pobre-diabo alcançar a aprovação. E ele era repetente... Assim ficou a situação: um cadete com duas provas na pilha à frente do mestre, que dela tomava conta como se fora um cão vigiando um belo pedaço de osso, e o outro chorando sem prova nenhuma a poder contar sua história. Que fria!...

Um pequeno grupo de retardatários cadetes ainda matutava em sala as respostas, em exercícios mentais que fediam longe. E o outro grupo, que já terminara as provas, bolando do lado de fora um plano para enfiar de volta aquela prova erradamente retirada pelo desesperado cadete. Isto no mínimo, porque o ideal seria colocar a prova de volta e retirar a maldita, que lá ficara sobrando, toda errada.

Como cadetes têm parte com trinta milhões de diabos, decidiram eles entrar em grupo e provocar uma séria discussão com o mestre sobre as dificuldades das questões, etecétera, etecétera, como um time de futebol reclamando ao juiz um gol de mão descaradamente marcado por um atacante adversário no último minuto e valendo um campeonato...

Assim foi feito, o professor pressionado pelos ferozes cadetes, a reclamar das questões, enquanto uma furtiva mão, acobertada por alguns corpos zangados, enfiava de volta a prova do segundo desesperado cadete ao seu devido lugar. Até aí o plano deu certo, mas o primeiro desesperado cadete acabou por ficar com as duas provas (a verdadeira e a falsa) na desvirginada pilha.

Deu-se mal o cadete, mas se salvou pela oportunidade que o comandante culminou lhe propiciando, uma inesperada chance dada por um dos melhores comandantes da EsFO, apesar de disparadamente o mais durão que por lá passara. Com o elogio, que lhe deram na conversa que ouvi, surgiu o nome dele: coronel MDM. E ele, o coronel MDM, indagou ao cadete qual das duas provas era a válida... E ele lhe respondeu que a ruim. Foi à segunda época, recebeu severa punição, mas obteve o perdão do desligamento, que se lhe afigurava inevitável. E ele nunca mais colou, estudou muito e se formou com méritos. O caso dele era de preguiça mental, mas o forte repelão que levou nos nervos colocou-o no rumo certo.

 

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Outra que deu no “boletim do soldado” também ocorreu com os cadetes e no comando do coronel MDM. Ele, como diziam os oficiais no cassino, era muito rígido, porém humano. Gostava de tudo muito bem-feito, e tinha um brio de dar exemplo. Certa vez, a EsFO foi convidada a participar de uma festividade militar no quartel do 3º Regimento de Infantaria do Exército (3º RI), hoje transformado em batalhão (3º BI) e tornado edifício de apartamentos para acolher flagelados em grave calamidade em Niterói com muitos mortos. Ficava ele situado no limite entre os Municípios de Niterói e São Gonçalo. A participação dos cadetes consistiria em desfilar em torno do campo de futebol, na pista de atletismo, em honra a diversos generais e outras autoridades militares e civis que lá estariam postadas num palanque.

O coronel MDM recomendou aos cadetes o máximo esmero na marcha, e os colocou a treinar ordem-unida durante toda a semana que se antecedeu ao evento. O falecido tenente-coronel Cavalcanti, na época primeiro-tenente, comandaria os cadetes, como de fato comandou. Comandou?... Ele inventou uma novidade, a ser feita durante o desfile, para demonstrar aos oficiais-generais que os cadetes da briosa milícia marchavam melhor que os militares de verdade.

Tudo bem. A intenção parecia boa, a de ser “mais realista que o rei”. Tal demonstração consistiria no seguinte: os cadetes viriam marchando em passos garbosos. Mas, ao chegarem defronte ao palanque das autoridades, o tenente comandaria “alto!”, “direita-volver!”; e os cadetes, ato contínuo, e parados, prestariam uma bela continência. Na seqüência, – e novamente ato contínuo, – ele comandaria “esquerda-volver!”, “ordinário-marche!”, e os cadetes sairiam rompendo a marcha, em frente, tudo feito bem rápido, no tempo exato, e com o máximo entusiasmo. Na teoria, tudo estava efetivamente perfeito, e assim foi exaustivamente treinado na EsFO, até a véspera da festividade.

O dia amanheceu garoando muito, um transtorno a mais para os cadetes já vestidos com as calças brancas do uniforme de gala e os sapatos revestidos com polainas igualmente brancas. Mas lá foram eles, porque “soldado é superior ao tempo”; e no quartel do Exército, tudo enfeitado, lá estavam os cadetes em forma e em meio à irritante chuva fina aguardando a hora de romperem a marcha. E, no momento previsto, os garbosos cadetes partiram à marcha esmerada, tal qual haviam exaustivamente treinado. E lá foram eles, a banda tocando um dobrado e o tenente Cavalcanti à frente, comandando o que deveria ser o “espetáculo”. Todos os cadetes em desfile esperavam, ansiosos, a sua primeira voz de comando, que seria de “alto!”, para em seguida vir a segunda, que seria de “direita-volver!” E ele, o tenente Cavalcanti, deu a primeira voz de comando no tempo certo: “Alto!”; e emendou a segunda, num comando – inverso do esperado – de “esquerda-volver!”, mandando assim a tropa de cadetes voltar-se de frente para o campo, do lado contrário ao palanque que acolhia a seleta plateia. Desmoronou-se tudo o que fora esmeradamente treinado: eram cadetes girando à direita, outros à esquerda, outros mais dando voltas malucas em torno de si mesmos, enfim, uma zorra total, as calças brancas respingando lama e, no palanque, todo mundo caindo às gargalhadas. Se o Renato Aragão lá estivesse, contrataria o grupo imediatamente. Só um oficial, do alto do palanque, não estava com cara de riso. Ao contrário, bufava pelos quatro ventos e cantos e com cara de poucos amigos: o coronel MDM...

 

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Já que estamos neste ritmo de marcha, vamos a outra de desfile. Era o ano de 1972, a briosa preparava-se para a marcha militar de Sete de Setembro. Tempos ruins em época de repressão, plena ditadura. Eu estava escalado para desfilar no Batalhão de Serviços Auxiliares (BSA), que formaria uma tropa condensada com os recrutas da Companhia Escola. Ou seja, jovens e velhos unidos e levando vaia certíssima na Avenida Amaral Peixoto, em Niterói.

Até aí, tudo bem, uma vaia a mais, uma vaia a menos!... Mas ocorre que havia um rumor, correndo no “boletim do soldado”, de que a tropa poderia “sofrer um atentado” na hora do desfile. Depois, o assunto ficou deveras sério, deixando-nos apreensivos. Marche-Marche, por exemplo, nem entendia direito desse negócio de ditadura, – limitava-se, há mais de 20 anos, a apenas servir aos senhores oficiais no cassino, – preocupou-se de fato com os fuxicos dos oficiais quando no repasto cotidiano.

Perigo verdadeiro, ou não, Marche-Marche mandou a patroa nem sair de casa, ela doida para ver a parada escolar das meninas, – tinha duas, já adolescentes, – ambas animadas em marchar pelo colégio que estudavam. Ele, nervoso, não as deixou ir, temeroso com as possíveis conseqüências do tal “atentado”.

Madrugada do esperado dia, lá estava Marche-Marche no pátio da Companhia Escola de Recrutas, no bairro do Fonseca, esperando a ordem de entrar em formatura. Todo sabiam, pelo boletim oficial, que a tropa seria comandada por um major reconhecidamente vibrador.

No cassino, antes, os oficiais comentavam que ele, o major, era tão empolgado, mas tão empolgado com o militarismo que dormia com sua espada de oficial debaixo do travesseiro, mania que começara ainda na EsFO, pois ele fazia o mesmo com o Espadim de Castrioto (João Nepomuceno Castrioto, primeiro comandante da Guarda Policial da Província Fluminense), o símbolo do cadete. Diziam até que ele, entre escolher a esposa ou a espada para dormir, optava firme pela segunda. Era um patriota sobremodo devotado, um fenômeno, um respeitável amante do militarismo. Mas alguns o reputavam como um perdido caso de neurônios cabriolando além do usual. Ou seja, um maluco...

Contudo, lá estavam aquele bando de desengonçados milicianos, uns velhos, outros gordos, todos vestidos com uma feia farda de brim cáqui e botins pretos que em nada combinavam com ela, além de um cinto de guarnição em napa verde e um capacete cinza simplesmente horroroso. Sim, que feia, aquela farda! Nada combinava com coisa nenhuma. E nem mais nada precisava para uma estrondosa vaia do que envergar em público aquele feiíssimo uniforme. Mas, todos conformados, esperavam o major comandante, quando ele finalmente chegou, já paramentado em alto estilo. Chegou solene e mandou formar a tropa, com o fim de transmitir-lhe um recado:

– Atenção, senhores! Bom dia! Todos sabem que hoje é o dia mais importante da nossa pátria. Mas poderemos enfrentar um grave problema na hora do desfile. Há um plano de ataque à tropa que poderá ocorrer do alto dos prédios na Avenida Amaral Peixoto. Diante da gravidade do fato, eu e os oficiais estaremos armados para protegê-los. Por exemplo, vou demonstrar para vocês como estou, para que os oficiais façam o mesmo.

Dito, desvestiu-se da gandola; e surgiu, preso ao seu dorso nu, o dobro do que usava um cangaceiro nos velhos tempos de Lampião. Tinha de tudo agarrado ao corpo, desde peixeiras e cartucheiras com centenas de munição, a binóculos, etecétera, etecétera, etecétera. Houve, sim, uma incontrolável vontade de rir; porém, o máximo que a tropa conseguiu foi travar a boca num comportado silêncio. E mais ele disse, como o único até então a falar ao microfone previamente instalado:

– A ordem é a seguinte: se houver algum ataque do alto dos prédios, as colunas da esquerda cairão para a esquerda da Avenida Amaral Peixoto, e as da direita, do mesmo modo, para a direita da Avenida. Entenderam? – perguntou ele, fitando os oficiais.

E um deles, exatamente o mais alto e já nosso conhecido, o tenente Mangueira (aquele do “BSA, ô!, Ô, BSA!”), indagou-lhe singelamente, indo ao microfone:

– Meu major, que faço com a minha coluna? São elas nove... E a que estou à frente é a do meio. Pra que lado eu vou?...

Aí, que me desculpem os leitores, Marche -Marche disparou junto com a tropa, – mais de mil homens, – a mais sonora gargalhada de que já coletivamente participara. Já fora demais para todos ouvir do major que ele e meia dúzia de oficiais estariam a tomar conta de mil... E, novamente por conta do tenente Mangueira, mil espoucaram o riso em uníssono.

O major ficou vermelho feito um tomate bem maduro, e retrucou ao tenente dizendo-lhe que escolhesse o lado que bem o quisesse, mas sem se esquecer do comando que daria à tropa em marcha, para não se repetir o que já fizera antes... Coitado do tenente Mangueira, que não sabia onde enfiar a sua cara de vexame. Enquanto isso, o bulício comia solto, em meio às galhofadas que não mais cessaram. Já estava virando circo quando o major retomou energicamente o controle e encerrou o assunto:

– Batalhão, sentido! – comandou. – E acrescentou: – Entendam-me bem, senhores! Não se trata de brincadeira! Há mesmo um risco de ataque à tropa. E minha ordem é a de que as colunas saiam do centro da rua para as laterais, até coordenarmos a reação! Agora, vamos todos embarcar em silêncio.

O homem estava bufando como fera acuada. Andava em dificuldade, com tanto peso a levar. Mas lá foi ele, impoluto, embarcando no seu jipe, que ele por sinal adorava, em direção ao local de concentração.

Era o local próximo ao Instituto Abel, situado na Avenida Estácio de Sá, hoje Roberto Silveira. Na vez da tropa, ela saiu marchando daquele ponto a caminho da Avenida Amaral Peixoto. E lá fomos todos, já levando a maior vaia desde que a tropa rompeu a marcha, até dobrar na pista de desfile, o tão esperado “momento de perigo”, com as laterais da Avenida Amaral Peixoto apinhadas de crianças chupando pirulitos e agitando bandeirolas, e de populares, todos em grande alegria. Mas bastou surgir a briosa com aquela farda feiíssima e o brado maluco do major ecoando no ar: “Batalhão do meu sangue! Vamos marchar à vitória! Avante, camaradas!”, para que todos ganhassem a maior vaia que já levaram na vida.

E lá se foi o major, no comando da tropa, gritando na frente seus altos brados de entusiasmo, como se quisesse sobrepujar as cada vez mais estrondosas vaias que todo levavam. E disse Marche-Marche: - Confesso-lhes, confesso-lhes mesmo: eu não mais sabia se as vaias eram para nós ou somente para ele. Ó bendito capacete, que nos permitiu a nós, milicianos, esconder dentro dele quase toda a cara de vexame e de riso descontrolado que tínhamos, de cabo a rabo da tropa e sem exceção! Ou melhor, uma exceção: ele, o empolgado major, que na frente ia como se nada estivesse acontecendo de anormal.

Sim, lá fomos todos, vexados e vaiados, até o final da Avenida Amaral Peixoto, e prosseguiram marchando e levando vaia, marchando e levando vaia, em destino ao quartel-general. Para melhor mentalização da cena,  - disse Marche-Marche com as palavras lhe faltando para bem descrevê-la: – imaginem o time do Vasco da Gama percorrendo a Marquês de Sapucaí com as arquibancadas ocupadas somente pela torcida do Flamengo; ou o contrário, para que não digam que se trata de um torcedor faccioso. Imaginem, agora, a intensidade das vaias. Imaginaram? Sim, imaginaram! Digo a vocês: no nosso caso foi ainda pior... E assim terminou Marche-Marche a história:

- Confesso-lhes que naquele dia senti vontade de me vaiar a mim mesmo, como aquele cadete que deu parte de si próprio. E estamos até hoje esperando o tal atentado, eu em casa ainda levando uma estupenda vaia da patroa e das meninas. Tudo por conta do fuxico, que virou “verdade oficial”, até hoje sou vaiado por minha própria família...

 

 

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Esta aconteceu no outrora 1º Batalhão de Caçadores, em São Gonçalo. As paredes dos gabinetes dos oficiais estavam apinhadas de fotos, de quadros com diplomas e de outros símbolos típicos da meritocracia militar, uma cultura genérica e comum a todos os quartéis. Mas surgiu uma lei determinando que os gabinetes, a partir da sua vigência, somente poderiam ostentar duas fotos: a do Presidente da República e a do Governador do Estado. O comandante reuniu os oficiais e lhes determinou que retirassem todas as fotos e os quadros dependurados na parede, deixando apenas aqueles dois previstos em lei. Foi quando um distraído tenente indagou:

– Comandante, concordo que a lei deva ser cumprida, mas não acho justo que o retrato de Jesus Cristo seja retirado. Afinal, isso é um desrespeito aos cristãos, como eu, e como o senhor, que também mantém na parede de seu gabinete um quadro d’Ele, igualzinho ao meu...

Dito, todos fitaram o quadro singelamente apontado pelo tenente... E verificaram que o “Jesus Cristo”, com aquela barba característica e os cabelos compridos, trazia no pescoço uma corda com o histórico laço de forca....

 

 

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Esta aconteceu no mesmo 1º Batalhão de Caçadores e no “tempo do onça”. O comandante mandou seu ordenança levar ao prefeito da cidade um bilhete, no qual pedia sacos de cimento para alguns reparos a serem feitos no quartel. O pobre do miliciano, ao entregar o bilhete e após a sua leitura por parte da autoridade municipal, dela ouviu o seguinte:

– Puxa! O comandante está maluco! Como posso doar 102 sacos de cimento? Será que ele está querendo reformar todo o quartel? – reclamou. – Diga-lhe que 102 sacos de cimento eu não tenho como mandar – concluiu o prefeito.

No quartel, o miliciano comentou com o comandante as palavras do prefeito:

– Comandante, o prefeito ficou nervoso, e disse que não poderia ceder os 102 sacos que o senhor pediu.

E o comandante, visivelmente irritado, disse-lhe o seguinte:

– Ô, políça! Vorta lá no prefeto e diga que ele se enganô. Diga que o que está escrito é pra ele mandá 1 Ô 2 saco de cimento...

 

 

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Esta aconteceu em Niterói e foi contada no cassino por um capitão, que na época era o ajudante-de-ordens do comandante-geral. Era noite de um sábado. O capitão teve necessidade de dar um telefonema urgente. Estava ele próximo ao prédio do DETRAN, onde também funcionava a Companhia de Trânsito e um plantão de atendimento ao público, para onde eram canalizadas as ocorrências de trânsito.

Ao chegar, o capitão observou uma inusitada discussão entre um novato miliciano e o respeitável Juiz Titular da Vara de Execuções Penais do Estado, um homem de reconhecido saber e figura notória na cidade de Niterói. Menos para o novato miliciano...

– Meu prezado policial. Vou explicar-lhe mais uma vez: o meu filho, este rapaz que aqui está, com a mulher dele e meus dois netos, abalroou o veículo deste outro cidadão, que também aqui está com a esposa e filhos, todos na sua presença. Veja bem: eles, por coincidência, são amigos íntimos. E também, por coincidência, abalroaram os carros que dirigiam. O senhor entendeu, até este ponto, o meu relato? – indagou calmamente o Juiz.

– Positivo! Correto!...

– Pois bem, meu prezado policial. Apenas por precaução, eles decidiram comparecer ao hospital Antônio Pedro, por livre e espontânea vontade, a fim de verificar se alguém dentre os familiares recebeu ferimentos. Tudo isso na hora do acidente e em natural nervosismo. Mas, graças a Deus, ninguém sequer se arranhou, nada ocorreu, não houve nenhuma vítima. Entendeu até este ponto, policial?

– Positivo!

– Então, veja bem. O senhor está com as chaves e os documentos dos carros de ambos; e os carros foram recolhidos ao depósito enquanto eles se dirigiram ao hospital. Mas isso é procedimento específico em acidentes com vítimas, que não foi o caso. Neste, meu caro policial, o senhor não pode reter os documentos e os carros. Por isso, vim até aqui tentar explicar e esclarecer ao senhor que este não é um caso de retenção de veículos e documentos; e o senhor precisa devolvê-los, para que todos se retirem. Entendeu, policial?

– Negativo! Eles foram ao hospital, e, por isso, tenho de proceder como se o acidente fosse com vítima. É ordem do tenente. Nesses casos, as chaves e os documentos devem ser encaminhados à delegacia e os veículos ao depósito. É o que farei, por ordem do tenente.

– Mas, prezado policial... Sou um Juiz de Direito, um homem entendedor de leis. E seria o último a lhe exigir algo fora dos preceitos legais. A lei é clara: não houve nenhuma vítima no acidente e a ocorrência deve ser encerrada no local. No máximo, se for do entendimento do policial que atendeu à ocorrência, poderá ele multar. Nada mais. Por isso insisto, e em nome da lei, que o senhor devolva as chaves e os documentos dos carros agora mesmo. As famílias estão esgotadas, o senhor há de convir.

– Negativo, senhor! A ordem que tenho do tenente comandante é bem clara também. Foi ao hospital, tem vítima! E tudo deve ser mandado para a delegacia. É o que farei, senão acabarei preso no quartel...

– Bem, policial, então eu é que serei obrigado a lhe prender, por desrespeito às leis, por abuso de poder, por desobediência etc...

O capitão, que a tudo assistia sem interferir, dirigiu-se ao juiz:

– Com licença, meritíssimo. Sou capitão. Passei aqui somente para telefonar e acabei assistindo a tudo o que está ocorrendo. E lhe peço permissão para interferir nesta questão.

– Pois não, capitão! Fique à vontade! – aquiesceu o Juiz.

– Miliciano, sou capitão. Aqui estão os meus documentos.

– Sim, senhor capitão! Sd PM Beltrano, RG 44444, do primeiro pelotão, da companhia de trânsito, do 5º batalhão da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, de plantão no posto, etc., etc. – perfilou-se o novato miliciano, num enquadramento de fazer inveja a qualquer militar de verdade.

– Soldado, eu desejo lhe fazer uma pergunta: você reconhece minha superioridade hierárquica em relação ao seu tenente comandante de pelotão?

– Sim, senhor capitão! Sim, senhor! É lógico que sei que o senhor é superior ao tenente.

– Bem, então devolva as chaves e os documentos dos carros aos usuários aqui presentes. E imediatamente! Entendido?

– Sim, senhor capitão! Sim, senhor capitão! Imediatamente!

Sem mais delongas, o novato miliciano entregou tudo ao juiz, mantendo-se durante todo esse tempo na mais enquadrada posição de sentido, como se assim fosse uma estátua. O juiz agradeceu ao capitão, satisfeito com o desfecho. E logo se retirou, juntamente com os familiares e o amigo do filho. E foi quando o capitão tentou fazer ver ao miliciano que ele seria preso pelo magistrado, se insistisse naquela decisão equivocada, mesmo com a ordem do tenente, que não teria autoridade nenhuma para libertá-lo. E ele então disse:

– Mas, capitão, se eu liberasse os carros, também seria preso pelo tenente, o que, no meu entendimento, seria muito pior porque, pelo juiz, eu seria preso uma vez só, e pelo tenente quantas vezes ele bem entendesse...

 

 

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A vida de cassineiro me permitia preencher sobremodo minha aguda curiosidade. Não havia história que eu não soubesse, posto estar sempre a buscá-la onde elas estivessem. Por isso é que, durante as folgas, eu procurava ler coisas do passado, por sinal, muito interessantes. Vou contar-lhes alguns fatos curiosos e ocorridos nos “tempos do onça”, e que pude conhecer lendo um livreto da Irmandade de Nossa Senhora das Dores da Polícia Militar. E tome lá a primeira delas, nos termos em que foi publicada:

 

Com muitos goles de cachaça foram comemorando os nomes iguais, por fim, o soldado escolta do preso acaba sendo carregado por este:

 

– Seu nome é Manoel?

– É.

– Pois o meu também é.

– Então somos xarás.

– Sem tirar nem pôr.

– Você de onde é?

– Da Bahia.

– Bem, o nome é igual, mas a província é diferente; minha terra é Minas Gerais.

– Povo bom.

– Obrigado.

– Ah! mineiro, seu eu pudesse molhar a garganta agora, até me esquecia de que sou preso.

– Você tem umas patacas no bolso?

– Ora se tenho!

– Na taberna do Lucas a gente encontra da boa. Em frente, marche!

E lá foram os dois: o detento Manuel Joaquim Afonso e o soldado Manuel José Rodrigues, escolta do xará, encarregado de levá-lo à cadeia. Bem. Da taberna do Lucas, os dois Manuéis já saíram um tanto ou quanto alegres. E continuaram tocando pra frente, mas um trago aqui, mais outro trago ali. E, naturalmente, o soldado vendo cada vez menos o caminho da cadeia. Entretanto, algo importante ocorria. É que, enquanto a praça desmoronava-se rápido ante a ação do álcool, o prisioneiro – velho pau-d’água – continuava firme em cima das pernas. De repente, a cachaça cantou de galo dentro do Manuel fardado, e ele escarrapachou-se na calçada, largado feito um morto. O outro Manuel não vacilou: abaixou-se, agarrou o xará e acomodou-o no ombro. E avançou, resoluto, levando o peso do borracho e o do próprio corpo encharcado de pinga. E os passos estalando nas lajes da calçada. E as esquinas ficando para trás. Lento, lento. De repente, o portão de ferro da Casa de Correção. A chegada, afinal. E então, estendendo num banco a carga humana, o preso explica:

– É meu amigo e xará; não podia deixar ele caído na rua.

Eis agora como o fato vem narrado no ofício (29-julho-1836) do Administrador da Casa de Correção ao Chefe de Polícia (sic):

 

“Ilmo. Sr.

 

O preso Manoel Joaquim Affonso, que por ordem de V. S.a foi removido para o Quartel General, se apresentou hontem ás 5 horas da tarde nesta Casa com o offício incluso, trazendo ás costas o soldado da Companhia adida Manoel José Rodrigues, o qual estava como morto, pelo estado de embriagues em que se achava, sendo de notar, que era este o guarda que conduzia o ditto preso. Pelo o despacho dado por V. S.a no offício ditto (que entregou aberto) se vê que devia o referido sêr conduzido a Cadeia, porém mais certo do caminho para esta Casa, do que para aquela, carregou o guarda, e veio aqui se apresentar. Deixo a consideração de V. S.a que espetáculo tão interessante seria pelas ruas onde tranzitarão, vendo-se um preso conduzindo ás costas o soldado que devia guardar. Levando pois o relatado ao conhecimento de v. S.a, envio egualmente o supra ditto preso em conformidade do Despacho ditto de V. S.a em o mencionado offício – Deos Guarde V. S.a. Casa de Correção, 29 de julho de 1836. – Ilmo. Sr. Doutor Eusebio de Queiroz Chefe de Polícia – Thomé Joaquim Torres – Administrador.” 

 

 

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Oito dias na Fortaleza da Laje para a praça que de folga, acompanhasse tropa marchando na rua. Sim, a coisa era dura naquela época. Por exemplo, o coronel João Antônio Garcez Palha, comandante do Corpo Militar da Polícia da Corte não era de fazer graça a ninguém. Se soubesse que uma praça sua fora vista acompanhando tropa marchando na rua perdia as estribeiras. Por quê? Porque naquele tempo (1870), quando viam força militar marchando na rua, ao som de banda de música, os capoeiras corriam para a frente dela, e punham-se a dançar, gingar e a dar rasteiras. Também os vagabundos, mendigos – a arraia-miúda – gostavam de seguir a música da caserna. Esse negócio, pois, de soldados do Corpo Militar misturados à patuléia, não agradava ao coronel Garcez Palha. E até baixou ordem proibindo. E foi ao extremo, ao fixar o castigo de oito dias na Fortaleza de Laje para toda praça encontrada acompanhando força militar desfilando na rua, conforme os termos de sua ordem do dia nº 66, de 7-junho-1870. Mas parece que o soldado João de Souza Pacheco, da 3ª Cia, de Inf., não levou muito a sério a recomendação de seu comandante. Era como jogador de pôquer: gostava de pagar para ver.

E assim, certo dia, vendo passar o 2º Btl. da Guarda Nacional, naturalmente puxado por furiosa banda de música, o Pacheco esqueceu a proibição do rigoroso coronel Garcez Palha, e, não agüentando o fogo do entusiasmo queimando-o por dentro, voou para o meio do povo que acompanhava a tropa. Foi o mal. Por certo algum sargento bigodudo, cara ruim de buldogue, que andava por ali rondando, pôs os olhos em cima do Pacheco e logo franziu a testa. E deu voz de prisão. O soldado faltoso caiu numa lamúria de arrancar lágrimas de um lobo, mas o sargento cortou a cantilena: “Vamos pro quartel; lá você explica tudo ao oficial de estado-maior.” Frente a frente com o superior, Pacheco ainda tentou se livrar da friagem do xadrez, mas apenas ouviu algumas palavras secas: “Nhenhenhém não adianta. Eu é que não vou pro buque no seu lugar.” E não adiantou mesmo. Basta ler a ordem do dia nº 66 de 7-junho-1870, na sua forma original:

 

“Quartel do Commando Geral do Corpo Militar de Polícia da Corte, Rio de Janeiro, 7 de junho de 1870.

 

Ordem do Dia

Nº 66

Nesta data mando soltar o soldado da 3ª Companhia de Infantaria João de Souza Pacheco que foi preso por ter estado entre o povo que acompanhava o 2º Bat. da Guarda Nacional, sem estar de serviço, em contravenção ás ordens estabelecidas, e mando declarar de novo que é inteiramente prohibido ás praças deste Corpo andarem no grupo do povo, não estando em serviço, para que se não diga que o Corpo Militar tem em seu seio capoeiras, e que aquelle que for encontrado em desrespeito a esta ordem será remetido para a Fortaleza da Laje, por oito dias. Assignado, João Antônio Garcez Palha – Tenente Coronel Commandante geral.”

 

 

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Essa veio de tempo pouco posterior ao voluntariado a pau e corda. Ingressara no 1º batalhão de Alcântara, São Gonçalo, uma turma de recrutas, todos de nível primário, exceto um, que já contava com o segundo grau completo e fazia pré-vestibular para medicina.

No curso de formação de soldados, era comum o sargento monitor cobrir os tempos de aula dos “atarefados” oficiais instrutores. Mas, naquela época, os sargentos ainda eram daqueles caçados a pau e corda, ou seja, quase todos semi-analfabetos. E havia um que, mesmo não tendo muita instrução, trabalhava como “enfermeiro” do quartel, eis que era um mestre na aplicação de injeção. E também um excelente ser humano, estimado por toda a soldadesca.

O sargento substituía o tenente médico nas aulas de Higiene e Primeiros Socorros. E veio a prova, com as questões elaboradas pelo médico. Uma questão apenas: dissertar sobre infecção e infestação, estabelecendo as devidas diferenças. Pois bem, divulgou-se o resultado, tendo o bondoso sargento corrigido para o tenente médico as provas dos vinte e oito recrutas. E, ao anunciar as notas que atribuíra a cada aluno, lamentou-se com o recruta que estudava no curso pré-vestibular de medicina, que não vencera nem mesmo grau 2 em sua prova, enquanto que os demais, semi-analfabetos como o monitor, angariaram notas acima de sete.

O recruta, inconformado com o baixo grau a ele atribuído, e consciente de que fizera uma dissertação além da capacidade do sargento em corrigi-la, requereu ao comandante da companhia a revisão de sua prova pelo tenente médico. O pedido dele foi acolhido, a prova revisada e o seu grau passou de 1,5 para 10...

Segundo os comentários no cassino, a transmudação da tropa de analfabeta para outra mais alfabetizada, – assim como o aumento da procura e a exigência de concursos para selecionar, entre os interessados, apenas os mais capacitados, – provocou uma inusitada situação: uma nova tropa, escolarizada, porém recebendo ordens e “ensinamentos” de antigos oficiais que mal sabiam assinar o próprio nome, mas que, em compensação, possuíam muita cultura e invejável inteligência... Nos ombros, como no caso daquele coronel lá do início.

 

 

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   Essa aconteceu no Rio de Janeiro, no posto 6, em Copacabana.

 

Havia uma guarnição parada no ponto base, à beira da praia, no calçadão. Já à noite, os PMs estranharam um corpo na areia, indo e voltando na marola.

Foram lá conferir e se tratava de um corpo de afogado. Os Pms voltaram ao calçadão e um deles contatou Maré 0:

 

- Maré Zero, bravo 19 falando.

- Continue, Bravo 19.

- Corpo boiando na beira do mar.

- Morto? – indagou o distraído de Maré Zero.

O patrulheiro, sacana como ele só, respondeu.

- Não! Não está morto! Está até fumando um cigarrinho comigo porque está gelado. E batemos um longo papo. Irra!

 

Mas enquanto ele falava e ou seu parceiro ria às escâncaras, o corpo foi arrastado pela marola. Aí falou o patrulheiro a mangar mais ainda do operador de Maré Zero:

 

- O cadáver evadiu-se.

 - Como?

-Sei lá, deve ter se escafedido enquanto conversávamos.

 

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Quem tiver histórias pra contar do seu dia a dia da briosa, pode contar que depois eu ajusto.




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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