domingo, 28 de março de 2010

Novamente as UPPs

“Mas não se pode descansar, porque o preço do descanso é a vitória da burrice.” (João Ubaldo Ribeiro – Um certo cansaço – Jornal O Globo, 28/03/2010)

Há quem me questione por insistir exaustivamente na abordagem sobre as UPPs. Ocorre que, não fossem elas importantes, não estariam ocupando páginas e mais páginas da grande imprensa até no exterior. Por outro lado, na condição de oficial da PMERJ com razoável experiência conceitual e prática, creio ser útil inferir situações que envolvam as duplamente privilegiadas UPPs. Sim, duplamente, porque há as comunidades agraciadas por razões de governo, em detrimento de muitas outras ainda ignoradas, e há insistentes notícias dando conta de PMs ganhando reforço salarial por integrarem as UPPs, em discriminação do restante da tropa por parte do mesmo governo, que, enfim, e em sendo a notícia verídica, não estaria resguardando a isonomia.
Num Estado excessivamente interventivo e paternalista costuma proliferar como praga o clientelismo. Trata-se de cultura enraizada e poderosa a afetar, também, políticos e burocratas ocupantes do poder estatal. Esta é uma visão geral que deve prevalecer quando se critica. Críticas reducionistas não acrescentam valor a nenhuma discussão. Por conseguinte, elas hão de ser construtivas, mesmo que veementes, e jamais ofensivas. Uma coisa é ser contrário a uma ideia ou a uma ação estatal; outra é a exploração da emoção coletiva com objetivos menos nobres. Não é minha conduta nem como adversário de alguns sistemas políticos ou mesmo como desafeto de pessoas que, sob a minha ótica, são ruins, embora a recíproca deva ser verdadeira: não posso conceber a maldade para alguém sem a certeza de que esse alguém também a concebe para mim. Por isso evito confrontos deselegantes e ofensivos. Busco o embate conceitual e procuro expor minhas posições com a máxima clareza, sem, contudo, recuar em covardia. Claro que nem sempre estou com razão, sei reconhecer meus erros e os valores e méritos alheios. Mas, como disse o mestre João Ubaldo Ribeiro, “não se pode descansar...”
Bem... Filosoficamente, – e não sem certa irritação, – aceito a ideia de que nasci para morrer. Ah, a morte... Hora de descanso... Depois da morte, todo o tempo é disponível... Mas agora só me cabe viver, e não há como pensar em viver sem participar, embora a sociedade costume excluir os aposentados como seres sem importância. No militarismo, a cultura da inutilidade do aposentado atinge as raias do absurdo: a verdade está sempre com o ativo e ocupante do poder, mesmo sendo efêmera a sua passagem por essa estação do tempo, não mais que interregno em direção à mesma aposentadoria (última estação da vida onde todos se encontram). E, no final de contas, que a morte “cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta.”

Portanto, e doa a quem doer, vamos às UPPs e suas últimas notícias...




A semana foi profícua em informações, até com o “vazamento” do programa governamental de implantação de novas UPPs pela PMERJ, que, nesta situação específica, só obedece a ordens superiores, conforme já sabemos oficialmente. Ficou para trás o discurso do “tiro, porrada e bomba”, ou seja, do “enfrentamento”, escorregão feio que ia levando o governante ao abismo por apostar na truculência. Mas, seguindo os padrões da modernidade (válidos), a “pacificação” soou melhor aos olhos e ouvidos da mídia, mais ainda em virtude dos locais estrategicamente escolhidos em vista de eventos internacionais portentosos e geradores de divisas. Exceção, agora confirmada, ao pedido do Ministro do Meio Ambiente para privilegiar Santa Teresa, a não ser que a alta autoridade entenda de segurança pública... Ah, chega de pensar em privilégios geradores de discriminações! Parece-me burrice insistir no tema. Que me desculpe o mestre João Ubaldo Ribeiro por aceitar esse descanso burro!...
Cansado, então, de alardear sobre os motivos inconfessáveis que norteiam as escolhas de comunidades a serem beneficiadas por UPPs (será sempre benefício ou se tornará prejuízo em longo prazo?...), prefiro concluir momentaneamente que é boa a ideia dessa concentração de efetivos em caráter permanente (até então era modelo operacional considerado complementar e eventual para atender a eventos artísticos e desportivos, sem falar nas turbamultas que, por enquanto, e graças aos céus, saíram de moda). Mas, afinal, e demais disso, qual será o tempo de permanência das UPPs como boa iniciativa de proximidade da PM com a população carente? Boa hora de acrescentar como resposta parcial o sugestivo artigo do ilustre “Caveira” Rodrigo Pimentel. Porque o assunto UPPs está mui longe do seu final...

Um comentário:

neide disse...

Enquanto o governo escolhe qual será a sorteada e privilegiada comunidade a receber a UPP, o povo continua a ser alvo das balas perdidas se é que podemos dizer assim, como por exemplo o ocorrido hoje, durante um assalto, no centro de Botafogo.Duas pessoas foram socorridas durante o meu plantão no Hosp. Miguel Couto e segundo os relatos das mesmas, derepente parecia uma guerra e nimguem sabia ao certo o que estava se passando. Mas claro, o importante é centralizar os policiais nas UPPs como disse o nosso Governador para que o povo fique mais confiante. Pergunto eu: Confiante em que? Em quem? Realmente acho que estamos atravessando uma divergência de valores e prioridades.