terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Bruxo

Era um ônibus comum, desconfortável, daqueles que só percorrem itinerários proletários. Eles estavam sentados no meio, num banco da fila contrária ao lugar do motorista. Pareciam dois amigos, malgrado a cabeleira de um, branquejada pelo tempo, indicar paternidade em relação ao outro. Não eram, porém, pai e filho; eram amigos: um velho e um moço. Não consegui desvelar de antemão esse primeiro mistério. Soube-o no transcurso da conversa deles e da incômoda viagem: não se tratavam como pai e filho; de onde eu estava sentado, no banco logo atrás deles, as suas vozes me chegavam clara e precisamente:

Velho: “Você pode não crer, mas exerço poder sobre a mente das pessoas.”
Moço: “Não acredito.”
Velho: “E se eu provar?”
Moço: “Hum... não sei.”
Velho: “Tá vendo aquela senhora sentada lá na frente?”
Moço: “Qual?”
Velho: “Aquela que está com uma gola rosa.”
Moço: “Vejo.”
Velho: “Vou fixar meu olhar no cangote dela. Não me distraia! Fique só observando, que ela vai começar a olhar pra trás até olhar diretamente pra mim.”
Moço: “Duvido!”
Velho: “Então olhe.”

Daí o velho trancou-se em concentração e fixou seu olhar na nuca da senhora da gola rosa. Depois de uns segundos, ela começou a se inquietar, girando o pescoço para um lado e para outro como se buscasse algo. E assim continuou, até que, repentinamente, olhou para o velho. Não fora um olhar casual. Era fixo, porém como se olhasse e nada visse. Repetiu ainda os movimentos de inquietação e os olhares fixos endereçados ao velho. Não havia como dizer que efetivamente via-o, mas olhava fixamente para ele.

Moço: “Foi coincidência!”
Velho: “Vou fazer novamente.”

Ato contínuo, o velho concentrou-se na nuca da senhora da gola rosa, esta que, de novo, começou e se remexer no banco, a olhar para os lados e para trás, até que mirou fixamente o velho, como se estivesse hipnotizada. Não parecia vê-lo, é a verdade. Era como se olhasse um nada no lugar ocupado por ele. E o moço impressionado, disse ao velho:

Moço: “Quero ver você fazer o mesmo com outra pessoa; desta vez eu escolho.”
Velho: “Pode escolher.”
Moço: “Então faça com o rapaz sentado no banco atrás do motorista.”
Velho: “Qual?”
Moço: “O cabeludo.”

Escolheu de propósito para colocar o velho numa posição enviesada em relação à nuca do escolhido. O fato, porém, não perturbou o velho. Ele se iniciou no seu hipnotismo olho-nuca e o fenômeno, para espanto do moço, não foi diferente. Ele viu o cabeludo agitar-se e depois imobilizar-se como um camundongo diante da cobra que o devora, repetindo cada gesto da senhora da gola rosa, olhos perdidamente fixos no velho.

Moço: “Puxa! Como você consegue hipnotizar pela nuca?”
Velho: “Bem, agora você crê que sou capaz disso... Mas a sua descrença anterior não me autoriza a lhe explicar como eu consigo dominar quem eu quiser desta forma.”
Moço: “Estou abobalhado! Pra mim é truque! Se você me ensinar, eu também faço. E se as pessoas já soubessem? Sei lá, algum sinal que você deu e eu não percebi?”
Velho: “Como dar sinal, se foi você quem escolheu o cabeludo?”
Moço: “Hum...”
Velho: “Escolha um outro qualquer. Espere alguém entrar numa parada adiante e se sentar na minha frente. Tá bem?”
Moço: “Vou fazer...”

Não tardou, e uma adolescente com mochila nas costas entrou e sentou dois bancos à frente deles. O velho piscou para o moço e começou o ritual. Em segundos o fenômeno se repetiu. A obediência da adolescente de mochila ao hipnotismo era evidente. Atabalhoada, ela olhava para trás, virava e revirava o pescoço para os lados, mas logo se voltava para o velho e mantinha nele um olhar fixo e vago, de quem nada vê. Aí o moço não teve mais dúvida de que o velho possuía poderes estranhos. Só poderia ser um...

Moço: “Você é bruxo?”
Velho: “Sou!”

Também não me ocorria nenhuma dúvida. Mais impressionado que o moço estava eu. O velho devia ter poderes paranormais, metafísicos, sei lá. Mas que eu vi com esses meus olhos que a terra há de comer, isto eu vi. Ele realmente fez com que três pessoas diferentes e desconhecidas obedecessem à sua vontade. E lhe bastou mirar-lhes a nuca. Ah, não posso negar, jamais me ocorreu estar diante de tal chance, única, inusitada: vi-me diante de um verdadeiro bruxo dentro de um ônibus proletário. E não pude deixar de imaginar até que estágio ia o poder dele. Seria capaz de conquistar pelo hipnotismo o coração de qualquer mulher, até a minha, ou a sua?...

2 comentários:

Sayonara Salvioli disse...

Muito boa esta história!... Eu acredito piamente!!! Já vi fatos semelhantes acontecerem com pessoas ditas comuns. Imagine-se, então, com um verdadeiro bruxo!... tsc tsc... Resta saber qual foi a parte fictícia e qual a parte real estabelecida pelo escriba no conjunto narrativo... Afinal, com a sua habilidade de criador literário, pode, muito bem, manipular as ações do bruxo e as reações de seu interlocutor... rsrs...
Saudações blogueiras :)

Val disse...

Quantos bruxos encontran-se ao nosso lado no dia a dia? Seu eu fosse acreditar piamente na possibilidade de tais poderes estranhos, com certeza sairia de casa bem protegida!

Um olhinho de boi, uma figuinha, um cristal energizado, um galhinho de arruda atrás da orelha, e, uma espadinha de São jorge dentro da bolsa. rsrsrsrs...