domingo, 4 de março de 2012

SOBRE O BRASIL E SUA DEMOCRACIA CAMBALEANTE

(manifestação de opinião ancorada na Lei no 7.524, de 17 de julho de 1986)





A dissensão vulcânica que ata o passado ao presente está esquentando sem que se possa vislumbrar o tamanho da explosão futura nem pra que lado o magma se derramará a derreter muitas gentes. Bem, talvez todos os lados... Sim, os personagens detentores do poder político sentem-se suficientemente fortes para lancear o magnífico urso que hiberna sob o manto do Cruzeiro do Sul... Mas o urso já reage às tocaias que lhe são desferidas em ira vingativa, tal como mordida de serpente. Sim, sim!... O urso despertou do sono hibernal para enfrentar a univocidade que impera num país onde as leis parecem valer apenas para quem manda e desmanda e a corrupção na política se oficializa como espécie de arma futura. Mas o magnífico urso, atento, convoca com autoridade a onça que passeia na selva e no asfalto. Como o urso, a onça é plena de vida... E marcharão juntos, urso e onça, a enfrentar a serpente que sai do ovo para envenenar os bons e justos...
As vingativas serpentes ignoram o fato de que urso e onça não falam a linguagem delas, o que não significa temor ou inércia ante elas, que chocalham o rabo em agressividade imaginando-se vitoriosas já antes da mordida. Saem do ninho superestimando sua trilha de retaguarda nem tão guarnecida assim, eis como perderão a batalha tal como Napoleão perdeu a guerra na Rússia: avaliou arrogantemente um contexto em que já se sentia vencedor e não o era. E aqui também as serpentes serão esmagadas porque prometeram paz e harmonia ao mundo dos bichos e agora se enroscam para o bote traiçoeiro apostando apenas no chocalhar alarmante do rabo e no seu veneno mortal. E os bichos gratuitamente antagonizados (supostas presas fáceis) vestem farda, não importando sua cor e a destinação: municipal, estadual ou federal.




Não me refiro especificamente a nenhuma ninhada de serpentes, até porque, no caso, todas as ninhadas são idênticas e de cada ovo nasce uma dessas víboras veneníferas... Nem tenho motivos para defender os bichos, a não ser os que amam a Liberdade e a Democracia com "L" e “D” maiúsculos. E percebo que ela, a Democracia, se distancia da realidade pátria tal como a miragem no deserto engana o sedento. Ora!... Já vi filme igual... Vivenciei a assustadora baderna deflagrada em anos anteriores a 1964 e depois experimentei o regime militar trabalhando e estudando normalmente, até que houve a transição que ora fragiliza a democracia por conta de serpentes em chocalhar retumbante. Hoje, porém, sou um bicho avelhantado, mas por ter usado farda de PM vejo o país como um ovo podre tendente a deixar escapar seu mau cheiro; aliás, o mesmo ovo podre e tremeluzente (fingindo-se saudável) anterior a 1964 – o ovo da serpente!



Constato, é verdade, uma euforia desenvolvimentista desfocada da realidade de um povo ignaro a receber migalhas em histórico conformismo. Essa desesperança é percebida na maior de todas as filas: a das casas lotéricas onde o povoléu clientelista gasta em jogos de azar governamentais o pouco que recebe do próprio governo, devolvendo às algibeiras públicas o capital paternalista de elevado peso eleitoral, sobrando-lhe só a resignada gratidão e o remorso pelo mau uso do misérrimo dinheiro que tentou multiplicar vencendo o eterno azar... Trata-se de círculo vicioso indispensável ao reforço da “Grande Esperança”: a implantação do regime socialista no Brasil a pretexto de ofertar à massa resignada um Estado mais “amigo”, mesmo que a imagem cubana, stalinista, maoista e a de alguns países do Cone Sul represente miséria sem liberdade, por mais que seus mentores a ocultem. “Mui amigos”... Que democratas, nada! Muito menos neste país em que a legalidade virou piada e os valores pátrios são substituídos por tentativas de vindicta servindo de gasolina a alimentar um fogaréu reacendido pelo ódio.





Diante dos últimos e polêmicos acontecimentos, vejo o futuro com pessimismo! Não creio na boa intenção dessa extrema-esquerda-serpentiforme que se lança açodadamente contra os militares (ursos e onças) em escaramuças idênticas às que assistimos no passado anterior ao regime militar. Eram práticas baderneiras e anúncios de mudança do regime com direito a “paredón” e demais retaliações do gênero. Os discursos sindicais eram insuflados por sanguissedentos países socialistas com expressiva representatividade no Brasil. Isto eu vivenciei como civil, ainda moço, sindicalizado como comerciário. E me sentia mal... Porque, mesmo imaturo, era-me fácil concluir que o futuro anunciado durante sucessivas greves e aflitivos boicotes de gêneros alimentícios, configurando um ambiente de grave perturbação da ordem pública, culminaria tal como Stalin fez na Rússia: na eliminação sumária de um milhão de russos e em trabalho forçado na Sibéria para doze milhões de contrários ao novo regime. Ou como na Cuba de Fidel ou na China de Mao...




Ora, nas plagas tupiniquins não se há de repetir a triste história russa, ou a desgraceira maoista, ou o sangrento engodo cubano. Haverá reação às provocações e às ações dissociadas de uma transição democrática que os atores e atrizes alegam não ter sido pactuada. E poderá ser sangrenta, porque o Estado de Direito enfraquece diante da imposição de um poder político que se torna a mais e mais avesso às leis vigentes e às decisões judiciais. Enfim, a onça não mais está sendo cutucada com vara curta: agora leva temerários pontapés. E, diferentemente do perigoso urso já acordado, ela não hiberna, é muito arisca e, portanto, não menos feroz que seu aliado de tamanho assustador e ferocidade indiscutível – bichos que não temem a serpente...



















Esclarecendo que sou filho de operário-comunista perseguido pelo Estado Novo de Vargas, com sua ficha levada ao DOPS do antigo RJ durante o regime militar, espectro que me acompanhou vida afora mesmo depois da morte do meu pai, com 39 anos, quando eu contava apenas dez, não sou e jamais fui comunista. Nem extremista de direita, por razões óbvias... Por conseguinte, almejo que a verdadeira democracia supere esses conflitos que afloram em prenúncio de erupção vulcânica. Afinal, tenho uma filha de onze anos e pretendo que ela cresça num ambiente seguro, e não em meio a vindictas irresponsáveis de meia dúzia de atores e atrizes que se colocam acima do bem e do mal porque antes pegaram em armas para sequestrar, matar, roubar bancos etc., e assim tentar implantar um extremado regime de esquerda no Brasil. São pessoas que hoje, eventualmente, ocupam o poder político no qual pretendem se eternizar tendo como mote o “combate aos malfeitos da ditadura militar”, como se cometer crimes graves que conscientemente cometeram não merecesse contrapartida imediata...
Enfim, todos se jactam de terem praticado delitos nada românticos a pretexto de “combater o regime militar” e “defender a democracia”... E saem do ninho em chocalhar desafiador, imaginando-se capazes de retaliar pelo veneno de seus argumentos os militares que com eles confrontaram para o verde-amarelo-azul-e-branco vencer o vermelho. Claro que serpente não se preocupa com nenhuma democracia! Aliás, nem antes e nem agora... Ah, mas por uma democracia aprimorada, consolidada, e avessa a esse radicalismo, eu lutarei como um bicho, nem que eu seja nada mais que mosquito! E a luta passa pela defesa da legalidade a qualquer preço! Porque não há democracia sem respeito às leis vigentes, que devem ser criadas, atualizadas ou revogadas, sim, porém sempre com fins gerais de melhoria da qualidade de vida do povo, e não para acirrar desforras particulares como se o povo fosse mero expectador, sem poder reclamar por uma paz duradoura em ambiente efetivamente adequado ao Estado Democrático de Direito. Enfim, quem se propuser a defender esta linha de pensamento e de ação em favor da Democracia, abominando as serpentes adoradoras de Fidel, Stalin, Mao e demônios afins, pode contar comigo!

8 comentários:

Marcelo Nunes disse...

Perfeito, meu amigo. Muito boa a comparação com o Ovo da Serpente. De fato, lembrando do filme estrelado por Liv Ullmann e David Carradine, o contexto é perfeito em sua comparação. Grande abraço.

Marcelo Nunes disse...

Perfeito, meu amigo. Muito boa a comparação com o Ovo da Serpente. De fato, lembrando do filme estrelado por Liv Ullmann e David Carradine, o contexto é perfeito em sua comparação. Grande abraço.

Paulo Xavier disse...

Ideologia política é como religião ou torcer para um time de futebol. Se alguém me disser que seu Flamengo é melhor que meu Botafogo, tenho dezenas de razões para discordar e a principal delas é que sou muito feliz com meu Botafogo e jamais me vi torcendo para o Flamengo. Nasci num lar católico mas frequentei por alguns anos a igreja evangélica, depois me afastei por discodar de muitas coisas, a principal delas é o antagonismo entre o velho e o novo testamento. O mesmo Deus que destrói seus inimigos no velho testamento, O manda perdoá-los no Novo, aliás Nietzche explica bem isso, e ele era filho de pastor protestante e mãe judia. Viram que confusão?!
Às vezes eu falo brincando com meus companheiros de trabalho, que temos dois Brasis, um público e um privado e são bem diferentes em quase tudo.
Sinceramente não vejo motivo para preocupação em relação ao futuro do país. A corrupção não é "privilégio" de um só partido político, ela está presente em todo lugar dentro da nossa sociedade. O país cresce com muito trabalho e ordem, e para que esse processo não pare, basta que cada um cumpra com o seu dever.
Cel Larangeira, parabéns pelo belo e corajoso texto. Abs. Paulo Xavier

Anônimo disse...

Emir, vc sempre com a colocação perfeita.

Mari Torres

Esmeralda R. de Souza disse...

Primeiro quero parabeniza-lo por sua estória de vida que conhece um pouco e capacidade de luta, sempre em prol dos menos favorecidos.
A muito se fala e compara as "políticas" desse nosso País....mas surpreende-me ainda que as pessoas que assistiram a tudo isso no passado hoje parecem terem perdido a noção do mundo que deixaremos para os nossos filhos e netos...com raras excessões ,é claro.
Continue na luta e vigie sempre....Suas comparações no texto são perfeitas.....
Meu pensamento será sempre o mesmo...SEM EDUCAÇÃO NÃO HA POLÍTICA E SEM POLÍTICA NUNCA TEREMOS DEMOCRACIA....
Um grande beijo..
Esmeralda R. de Souza.

jorgedasilva disse...

Caro Larangeira,
Você está coberto de razão. O revanchismo é mau conselheiro, pois se nutre do fígado, e não do cérebro. Confunde-se vingança (sentimento humano individual, compreensível, embora questionável) com revanchismo, atitude político-ideológica cuja finalidade não vai além do mero sentimento de vingança. Temo que, pela via ideológica, entremos num círculo vicioso, sem saída. Do meu ponto de vista, penso que a melhor maneira de lutar contra o estado de coisas atual e centrar o foco no tema da corrupção dos poderosos.

Emir Larangeira disse...

Caro mestre

Você tem razão! A cultura da honestidade deveria ser uma "ideologia" em qualquer civilização. Porque ela se contrapõe à corrupção, que é podre, é decomposição de valores, é imoralidade putrefata. Sua intervenção me fez lembrar duas genialidades:

“Embora a autoridade seja um urso teimoso, muitas vezes, à vista de ouro, deixa-se conduzir pelo nariz” (Shakespeare)

“Vede os pequenos tiranos/ que mandam mais do que o Rei/ Onde a fonte de ouro corre/ apodrece a flor da lei!” (Cecília Meireles)

O problema é que a fonte de ouro corre a mais e mais para as algibeiras do poder político (como um bolo repartido em pedaços disputados a tapas nas composições feitas com aparência de beijo); e o poder político tenta desviar o foco para uma polêmica capaz de tornar a espantosa corrupção que grassa caoticamente no país um simples detalhe.

Obrigado pela intervenção.

Cel Wainer disse...

COMANDANTE, ANTES DE MAIS NADA UM BOM DIA PARA O SENHOR. FICO FELIZ EM SABER QUE MINHA OPINIÃO NA POESIA "A DITA QUE DURA", COADUNA COM SEU PENSAMENTO.
NENHUMA DITADURA É SALUTAR, QUER SEJA DE DIREITA, QUER SEJA DE ESQUERDA, PIOR AINDA QUANDO ELA SE APRESENTA DA FORMA DE LOBO COM PELE DE CORDEIRO, SEM COR, DE FORMA PERNICIOSA E TRAIÇOEIRAMENTE LEVANTANDO UMA BANDEIRA "DEMOCRÁTICA" ENGANOSA, VOLTADA PARA UM "BEM-ESTAR-SOCIAL", QUE NA REALIDADE É UM PANO DE FUNDO PARA UMA SUSTENTÇÃO LONGA DE UM AUTORITARISMO AVASSALADOR QUE ANIQUILA OU CORROMPE COM DOSES VENENOSAS E HOMEOPÁTICAS SEUS OPOSITORES. É O QUE VIVENCIAMOS HOJE NO BRASIL.
PORÉM COMO O SENHOR POSTOU, A HISTÓRIA NÃO É ESTÁTICA NEM ABSOLUTA, A HISTÓRIA SEGUE SEU CURSO, ELA É CÍCLICA, É SÓ NOS REPORTARMOS AO PASSADO NÃO SÓ DO BRASIL, COMO DO MUNDO E VEREMOS QUE AS REVOLUÇÕES DOS BICHOS SEMPRE SE SUCEDEM. E JUNTO COM O URSO E COM A ONÇA, OUTROS BICHOS IRÃO ACORDAR E DAR UM BASTA NESTE ESTADO DEMAGÓGICO DE SITUAÇÃO, QUE ELES DIZEM SER "ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO".
QUANTO AO SAUDOSO CORONEL VIDAL, PODEMOS DIZER NESTE CAMPO, QUE ELE É UM GRANDE EXEMPLO POR TER AUTORIDADE E NÃO SER AUTORITÁRIO.
BEIJOS E ABRAÇOS FRATERNOS COMANDANTE. WAINER.

A Dita que Dura

A dita que diziam dura,
é nada mais,
que pura candura,
diante da nobre Democracia,
enriquecida de senões,
em um atro véu de ilusões.
Como já foi exaltado,
é proibido proibir;
do povo,
para o povo
e com o povo,
a presença da restrição
num processo de alienação.
Na rua de bem comum,
o público é particular
para transitar só com permissão,
nem todos podem passar,
as casas não permeiam com a via pública,
existem fronteiras de divisão;
concertinas, cercas elétricas e cacos de vidro.
Na supremacia prolongada de segregação,
uma realidade nua e crua.
A lei seca para coibir,
o uso da razão,
o povo bem longe da educação,
vale mais o chicote na mão.
Parece pouco!
Big brother não é programa de televisão,
nossa privacidade vivida,
por imposição é dividida
e desprovida de um próprio sentimento.
Em cada canto,
até no banheiro,
tácito e expresso monitoramento.
O charme do cigarro hollywoodiano
a grande restrição,
nem aqui,
nem ali,
nem lá
e nem acolá.
Pare!
Cuidado com os quebra- molas
a indústria gananciosa do trânsito,
política educativa!
Triste ilusão,
tudo na contramão.
Radares,
pardais que não são pássaros
conotam aves de rapina,
instrumento de extorsão.
É proibido proibir,
a dita que diziam dura,
é nada mais
que pura candura.
Nobre Democracia;
do povo,
para o povo
e com o povo,
só Demagogia.
Infelizmente,
essa não é apenas,
uma mera poesia.

WAINER NOV DE 2009