Carmen Di Novic, violão Recital de Violão - Guitar Recital
1. La Gota Del Agua (Estudo em Si Menor Fernando Sor 2. Prelúdio nº 3 3. Prelúdio (Ave de Gounod) Johann Sebastian Bach 4. Una Lágrima (delírio) Gaspar Sagreras 5. Carmem (valsa) Urany P. Larangeira 6. Cíntia (valsa) Urany P. Larangeira 7. Sonatina Urany P. Larangeira 8. Sons de Carrilhões (chôro) João Pernambuco 9. Dança Paraguaia (polka) Paulo Gallo 10. Cacique (tango) Attílio Bernardini 11. Meu Sertão Carmem Di Novic 12. Canção Para Taigo Carmem Di Novic 13. Uma Nova Emoção Carmem Di Novic 14. Eterna Saudade (valsa) Dilermando Reis 15. Se Ela Perguntar (valsa) Dilermando Reis 16. Se Lo M`accorgo Italian Dance - 17th Century 17. Estudo em Sol Menor Napoleão Coste 18. Lição em Lá Maior Napoleão Coste 19. Fascinação (valsa) F.D.Marchetti Arranjo: Dilermando Reis
Tipo de Produto: CD
Selo/Editora: Independente Número de catálogo/ISBN: 7899004790832 Procedência: Nacional Peso do item: 0,1 Kg Data gravação: 0 Data de lançamento: 2006
A violonista paranaense Carmen di Novic apresenta um repertório variado, reunindo desde nomes que marcaram a história do violão, como o espanhol Fernando Sor, o francês Napoleão Coste e os brasileiros Heitor Villa-Lobos e Dilermando Reis, até compositores menos conhecidos como Paulo Gallo e Gaspar Sagreras. A seleção inclui ainda músicas de autoria da própria intérprete e obras do violonista, professor e compositor Urany Larangeira. O certo é que o disco cumpre à risca o objetivo intentado pela artista, que é "proporcionar aos amantes da música instrumental momentos de paz e harmonia". Carmen, formada pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, com especialização na Universidade de Wisconsin (EUA), é uma ativa divulgadora da boa música no estado de Mato Grosso.
Para quem não conhece a música Una Lagrima de Gaspar Sagreras, ou para recordar, eis alguns exemplos de sua execução no Youtube:
As fotos atam as duas pontas da vida do meu tio Urany Larangeira
Admirei e amei muita gente ao longo dos meus anos idos e vividos. Um amor, entretanto, foi especial: meu tio Urany Larangeira.
Durante anos a fio eu o amei por tudo que ele representava: coragem, inteligência, cultura, alegria de viver, bom humor, carinho extremoso, e, principalmente, sua dedicação ao violão.
Violão à parte, tio Urany esbanjava jovialidade. Sua motivação pela vida contagiava-me. Seus conselhos jamais foram caretas. Ele respeitava todas as nossas diferenças, que, na verdade, eram poucas: ele era o meu exemplo.
Tio Urany me foi, durante toda a sua existência terrena, um “tio-pai-irmão”. Não me ocultava seus defeitos; não era professoral, embora me ensinasse a viver o tempo todo. Com paciência incomum, narrava-me histórias passadas do pai e de todos os irmãos dele: meus tios. Avaliava cada qual com precisão; não lhes mascarava as virtudes e os defeitos, incluindo-se na crítica com tranquilidade. Era um ótimo contador de histórias. Sinto saudade de suas histórias. Sinto saudade dele...
Detentor de impressionante talento para a vida, − não apenas para a música, − meu tio era capaz de executar com maestria labores pesados de pedreiro, carpinteiro, mecânico, eletricista etc. Gostava também de inventar engenhocas. Certa vez transformou um motor barulhento de liquidificador em ventilador silencioso. Não me perguntem como, mas lá estava a engenhoca jorrando ar fresco em quem duvidasse. Claro que, dentre tantas habilidades, consertar violão era uma delas, demais de tocá-lo em acurada erudição. Não apenas tocava, mas escrevia as músicas na pauta como se estivesse exercitando atividade simples.
Na sua vida de grandes aventuras, foi motorista de caminhão a viajar Brasil afora; foi amante da arte circence; foi sargento de polícia laureado com o primeiro lugar no Curso Profissional, que lhe daria direito à promoção a tenente; foi um senhor cavalariano, mas saiu da briosa a ocupar outras profissões no mundo. Ele era um devoto da liberdade...
Enquanto sargento da antiga Força Policial do RJ fez parte, comandado pelo histórico Tenente Coraci (pai do querido amigo, Delegado de Polícia, Dr. Idovan Ferreira) da primeira Volante da corporação com circunscrição estadual. Haja histórias desses tempos, algumas bastante picantes e perigosas! Mas ele, em destemor, enfrentava tudo e honrava o nosso nome de família. Foi decisiva a sua influência para eu ingressar na PMRJ, esquecendo-me de minha vocação original para a medicina.
Com o violão na posição correta da execução primorosa, tio Urany tocou em circos, rádios e demais lugares compatíveis com o exercício da arte apurada do violonista. Acompanhava o cantor Augusto Calheiros em suas apresentações e fazia música para o canto ao vivo de muitos artistas famosos nas rádios e nos circos de sua época. Conviveu com a nata da música popular brasileira, tocando com Dino Sete Cordas, Carlinhos Seis Cordas, Jonas do cavaquinho, todos do Conjunto Época de Ouro. Tocava todas as músicas de Dilermando Reis, inclusive algumas não gravadas e desconhecidas do público.
Tio Urany era o Uirapuru na floresta das cordas musicais. Nas rodas em que se apresentava, havia o seu momento solo das músicas restritas a violonistas clássicos. No silêncio de sua floresta composta de craques no chorinho e equivalentes reproduções, ele dedilhava Una Lágrima de Sagrera entrava a executar Catedral e outras músicas dificílimas, de Mozart a Schubert, levando ao êxtase os presentes, mas sem perder sua principal característica: a humildade. Sim, ele respeitava deveras seus parceiros dos domingos à tarde, gentes famosas que iam a casa dele se deliciar da boa música. Ele era amado e admirado.
Nem preciso dizer que o mais entusiasmado admirador dele era eu. Contudo, não tive a sorte de nascer com o talento dele. Isto coube ao meu primo Levi, filho dele, caçula, que mora no Paraná.
Tio Urany foi também professor de Matemática em Colégios Públicos. Era chamado pelos alunos de “Divino Mestre”. Esse meu tio, ah, esse meu tio era um craque em tudo que fazia! Daí a saudade que sentirei dele até partir para encontrá-lo, decerto num bom lugar, de muita música e eletrizantes histórias de vida. Tenho, às vezes, medo de não merecer tal privilégio por falta de talento musical ou de fé. Mas creio que meu amor pelo tio Urany me levará até ele. E lá reencontrarei meu pai, meus tios, primos, irmão e muitas gentes familiares e amigas pelas quais nutro uma saudade enorme.
Porque é certo que todos devem ter pedido para ficar com ele ouvindo os acordes do seu violão mágico e vendo os seus dedos deslizarem nas primas e nos bordões com a suavidade da brisa ou com a vibração da tempestade, pois ele fazia chover. Sim, sim, ele fazia chover ao tocar; ou fazia parar a chuva, tanto faz, eis que seus admiradores não viam ou sentiam nada além daquele raro momento de música executada por um virtuoso desde menino.
Imagens de Hiroshima, Nagasaki, Berlim e San Francisco
(Fonte: Google - Internet)
Na transição entre a fase aguda e a fase de recuperação da calamidade, momento caracterizado pela certeza do número de mortos somada à incerteza do número de desaparecidos que permanecerão sepultados no lamaçal serrano, as filas dos desesperados aumentam em vista da oferta governamental do “aluguel social”. Vê-se hoje, em primeiras páginas de grandes jornais, o rebanho de sem-teto mais uma vez humilhado. Em vez de os assistentes sociais irem até os desgraçados nos abrigos improvisados, melhor lugar para se ter a certeza do desabrigo, são eles, conformados flagelados, que têm de se virar para enfrentar a vergonhosa fila. Confirma-se assim, singelamente, a dura realidade do descaso governamental e societário com a dignidade humana, valor físico e moral apenas fictício nesta sociedade consumista e concentradora de poder e riqueza no topo da pirâmide. A fila de flagelados expõe as chagas de um sistema político fracassado nos seus fins sociais e bem-sucedido no desvio de finalidade e nas roubalheiras. A tragédia da serra fluminense é apenas mais um exemplo de que a solidariedade do primeiro momento (só ocorre no primeiro momento) rende dividendos emocionais e midiáticos, espécie de expiação de pecados acumulados pela sociedade hipócrita. Os exemplos isolados de ajuda humanitária são projetados em tantas páginas que até sugerem a solução definitiva do problema; também alguns episódios de heroísmo são ampliados brilhantemente, e a tragédia perde o seu foco, e em pouco tempo se esvai no esquecimento. Contados os mortos e os desabrigados em números nunca completos, pois muitas gentes permanecerão sepultadas nos lamaçais, o sol traz de volta a aparente normalidade da bomba de pavio apagado, até o dia em que algo ou alguém o acenda e produza nova desgraça... Enquanto isso a vida continua, à exceção dos atingidos, estacados na miséria falsamente atendida por meio de artifícios como o tal “aluguel social” e outros paliativos ornados em promessa de “minha casa, minha vida” e demais acenos de obras faraônicas que se tornarão fade e desaparecerão até a próxima tragédia. Quem conhece a doutrina de atendimento de Defesa Civil sabe que a calamidade crônica não sensibiliza ninguém. A aguda, sim. Nesta, geralmente consequência da outra, ou seja, do acúmulo de desídias governamentais e societárias, a reação humanitária mais parece mea culpa. Não soa como atenção real com os despossuídos que vivem pendurados nas encostas ou encravados nas calhas de rios e riachos esperando a enxurrada e os deslizamentos lamacentos, ambos letais. Porque a fase crônica da calamidade se assemelha ao cotidiano de todos: de perigo incubado, de desgoverno, de irresponsabilidade na gestão pública, de roubalheiras impunes e muito pannis et circencis a embalar o povoléu desprotegido. Erich Fromm certa vez afirmou que “a calamidade é ruim para o povo, mas boa para a sociedade”. Jean-Jacques Russeau também deixou para a posteridade um importante alerta no sentido de que “o homem é naturalmente bom e afável, mas a sociedade o deturpa”. Enfim, ambos concluíram com sabedoria que a sociedade organizada não passa de invenção humana fadada ao fracasso e só reage quando atingida em extremo insuportável. Pior é que não há como alterar a cultura da “organização social” fundada na necessidade da existência de um Estado forte a garantir a “ordem” como seu pré-requisito de funcionamento: estado interventivo e paternalista + povo conformado e clientelista = tragédia anunciada. O modelo estatal falido subsiste desde os remotos tempos, e todas as variações de vida societária vêm falhando e produzindo desastres bem mais artificiais que naturais. Já a natureza apenas age ou reage segundo o seu determinismo. Quem insiste em desnaturar tudo é o ser humano. E quando vê a consequência dos seus erros, apela para a emoção de primeira hora a suprir sua própria preguiça e a tentar sanar sua sem-vergonhice atávica. Por isso é que Erich Fromm afirmou ser a calamidade boa para a sociedade, decerto relembrando Hiroshima e Nagasaki, ou San Francisco (Califórnia), ou Berlim. Sim, o impressionante soerguimento dessas localidades ocorreu em vista de tragédias agudas e totais. No nosso caso (calamidades crônicas estourando aqui, ali e acolá em fases agudas), as desgraças de poucas vítimas são o aviso de que outras, grandiosas e totais, estão próximas...
Nem tanto surpresa, minha experiência indica a possibilidade de aqueles maratonistas do Complexo do Alemão e demais comunidades libertadas do jugo do tráfico estarem trabalhando. Pude constatar fenômeno assim nos idos de 1989 no Complexo de Acari, formado pelas favelas Parque Acari, Conjunto Amarelinho, Vila Esperança e Coroado.
Depois de erradicar o tráfico a artir de prisões e morte dos principais líderes criminosos, com apreensão concomitante de drogas e armas, a maioria dos “endoladores”, “aviões”, “vapores” e “soldados”, sem folha penal, preferiu buscar o labor honesto.
Esse numeroso contingente, na verdade, não desfrutava da riqueza do tráfico, restrita a uns poucos. Fechada a “quitanda das drogas”, cada um buscou sobreviver fora do crime, fenômeno que acompanhei de perto.
Hoje reconheço haver a repetição do fenômeno, ou seja, a migração coletiva de traficantes para outras comunidades dominadas pelo tráfico não vingou. Excluídos alguns líderes que foram presos ou mortos nos confrontos, número, por sinal, inexpressivo diante da reação esperada, a migração foi insignificante.
O planejamento e a ação operacional da polícia resultaram na covarde fuga dos marginais e o cenário geral pouco ou nada se alterou. Tal constatação deve animar as autoridades da segurança pública no sentido de avançar na conquista de comunidades submetidas a traficantes, seguida, claro, da ocupação com UPPs.
O sucesso das UPPs é um fato. Mantê-las ativas deve ser objetivo permanente. Conquistar territórios desarmando bandidos é imperativo, sendo certo que o BOPE e a CORE são mais que suficientes para tal desiderato.
Preocupa-me, todavia, a terrível catástrofe serrana, que forçosamente deslocou a atenção governamental para aquela região esfriando a animação com as UPPs. Como uma coisa não se relaciona à outra, a não ser para demonstrar que a PM é imprescindível em ambos os casos, importante se faz avançar com as ações visando à instalação de novas UPPs. Se não, pode pairar no ar a falsa ideia de que um fato relevante está a neutralizar o outro, o que não é bom e pode estimular a bandidagem.
Creio até na possibilidade de varredura geral para desarmar os traficantes, com o foco principalmente nos fuzis. Localizá-los nas mãos dos bandidos ou ocultos nas favelas é primordial. Sem o fuzil para ostentar, o traficante se torna psicologicamente frágil. Daí a uma nova maratona acovardada é um pulo, podendo-se até selecionar os efetivos de UPPs com base em restrições numéricas mais favoráveis ao sistema policial. A Pesquisa Operacional oferece modelos matemáticos simples para se alcançar esse objetivo, desde que haja um preciso diagnóstico para definir as variáveis independentes das quais o tráfico é a variável dependente nos moldes que os meliantes gostam e a sociedade abomina.
Enfim, parece-me relevante manter ativo o processo de conquista e ocupação aprofundando o estudo desse impacto (migrações em massa) que não houve ou foi insignificante. Porque muitas batalhas foram vencidas somente pela Guerra Psicológica que sobejamente conhecemos...
Há chuvas torrenciais todo ano; há desfiles de Escolas de Samba todo ano; há campeonatos de futebol todo ano. São eventos previsíveis. No segundo caso, há uma superestrutura; todo um planejamento ocorre; o enredo é escolhido; alas são organizadas; fantasias são planejadas e produzidas; compositores se dedicam à disputa pelo Samba Enredo; ensaios são efetuados; desfiles técnicos dão o retoque final e ocorre o desfile em que todo o sistema é testado. Um erro na passarela, tudo escoa ralo abaixo e a Escola de Samba é rebaixada. Resumo da ópera: cai o carnavalesco, a rainha da bateria é lançada ao ostracismo, o presidente da agremiação perde o posto e por aí segue a irada cobrança dos foliões. No terceiro caso, do futebol, é a mesma coisa, mas nem tanto como nas Escolas de Samba, e a razão é simples: há invariáveis desvios de conduta visando a interesses escusos e o time perde, e ingressa na segunda divisão, e a torcida sofre, embora a paixão do torcedor supere todas as derrotas. Mesmo assim, troca-se o técnico, jogadores são vendidos, o presidente do clube vai pro beleléu etc. No samba e no futebol, todavia, raramente há mortes a lamentar.
No primeiro caso, das chuvas torrenciais, a estrutura estatal de prevenção a desastres delas consequentes é obtusa; não há previsão de nada; não há diagnósticos amplos e profundos; não há nenhuma proatividade; as ações são reativas aos acontecimentos; tudo é surpreendente, embora se trate de imprevisibilidade previsível; e a desgraça se abate sobre os ignaros; porque os desidiosos não se lembram dos mortos anteriores e nenhuma providência se robustece para enfrentar a tragédia seguinte. Há, sim, muita solidariedade desordenada no momento agudo, ofuscando a incompetência do Poder Público. A mídia transforma cidadãos adotantes de cães abandonados em heróis, em vez de estimular a adoção de órfãos humanos. Quando há o desastre todos fogem da desgraça; não há justificativas que lhe correspondam. As cobranças se resumem aos pareceres de especialistas explicando o fato como se estivesse esmiuçando um caixão e seu conteúdo morto. Os eloquentes desespatifam ovos espatifados ou desderramam o leite derramado na maior caradura. Os políticos hábeis na retórica permanecem em seus postos sem grandes incômodos, a publicidade paga com verbas públicas lhes garante a imunidade. Ninguém é cobrado como nos outros dois casos comentados. Enquanto isso, o tempo é empurrado pela solidariedade tola invadindo o noticiário; donativos são desviados; contas bancárias são abertas e passam ao largo de qualquer fiscalização; almas anônimas ocupam o esquecimento da sociedade, que se sente máxima por doar um quilo de feijão ou um capote para saciar momentaneamente algum corpo vivo. Sim, eis a sociedade hipócrita de alma lavada ante as vítimas da tragédia anunciada. E, depois de a natureza secar a lama e os garis varrerem o pó das ruas, a vida continua, os festejos coletivos dão lugar às isoladas dores familiares. Ah, os atingidos que se danem, pois o mundo gira! Afinal, quem os mandou serem miseráveis e se pendurarem nas encostas?... Na verdade, há no íntimo dos afortunados moradores do asfalto certa aversão ao visual feioso da favela e dos favelados. Muitos sortudos até torcem para que o feio seja levado pela enxurrada e o mato renasça nas encostas resgatando a perdida “vista da montanha”. Mas, como a vida continua, as construções chiques necessitam de mão de obra barata e futuros favelados surgem de todos os pontos do país das desigualdades, ou, na linguagem presidencial feminina, emergem da “regra geral” da miséria nacional. E vêm os trabalhadores “morar” nas construções; e catam tábuas, e zincos, e pregos, e caibros velhos, e paus de eucalipto para construir seu barraco onde houver chão na encosta perigosa. E não sem dono, porque o futuro favelado paga a alguém pelo chão tomado a muque, cultura de opressão do pobre contra o pobre. E surge então o barraco, e a família viaja de longe para ocupar um lugar ao sol sem pensar na enxurrada: ignora-a e morre na ignorância... Ah, a “família”... Geralmente vinda em pedaços do Nordeste da água de menos para enfrentar as chuvas torrenciais das grandes cidades do Sudeste, sinônimo de morte. E as favelas crescem exponencialmente como “regra geral”. E essas famílias, se antes morriam de sede e fome, logo morrerão afogadas em água e/ou asfixiadas na lama da vergonha – nosso genocídio impune. E os políticos, donos da mídia indiretamente remunerada pelas verbas estatais publicitárias, põem-na de quatro. E a mídia se finge isenta produzindo falsos heróis em vez de críticas. Quase, na verdade, nos faz culpar o favelado por existir favela. E esses políticos e compadres midiáticos seguem sem remorso lhes ocupando o quengo apodrecido. Cá pra nós, muitos deles, de tanta culpa no cartório, deveriam se jogar dum penhasco...
Avante bombeiros, autênticos heróis em meio a tantos vilões!
“A calamidade é ruim para o povo, mas boa para a sociedade.”
(Erich Fromm)
Fatalidade é ruir neste momento um prédio na Vieira Souto matando do porteiro ao morador da cobertura. Fatalidade é o extraordinário, o inesperado, o surpreendente... Na serrania fluminense não houve fatalidade. Não houve antecipação alguma. E a cada dia que passa aumenta o número de mortos em Friburgo, Teresópolis e Petrópolis (zonas urbana e rural) em virtude do fenômeno de sempre: desmatamento e ocupação irregular das encostas, que reclamaram soterrando centenas de pessoas, e assoreamento de rios em cujos leitos as irregulares moradias proliferaram a despeito de o Poder Público adrede saber que bastaria uma enxurrada para destruí-las. Os rios reclamaram, a enxurrada veio e pessoas morreram. Ou seja, muita previsibilidade, nenhuma fatalidade. Nesta capacidade de prever não incluo as gentes ignaras que morreram sem melhor alternativa de moradia neste nosso país da imobilidade social. Não posso crer que pessoas desprezem suas vidas e vidas alheias (de crianças, principalmente) a não ser por desespero. Porque, ressalvados os casos de loucura, morar em casarios plantados em encostas íngremes ou em calhas de rios, − como se fossem arcas de Noé ou ninhos de pássaros-pretos − só pode ser estado de necessidade. Soterramento de lares não se não se dá por fatalidade. É risco previsível, bastando um pouco de lucidez para evitá-lo, o que nos permite concluir que somente a absoluta privação mental induz alguém a se decidir por esse extremo risco para si e sua família. É neste ponto que se impõe a diligente e precursora ação do Poder Público para retirar essas gentes das áreas de risco, inclusive com o uso da força cujo monopólio é restrito ao Estado. Devemos atentar, por outro lado, que o deslizamento de terra ocorre até mesmo em encostas florestadas e jamais tocadas pelo homem. Afinal, a natureza é dinâmica e o planeta está longe de sucumbir em inércia. Daí em muitas ocasiões vermos nesgas de floresta desbarrancando em montanhas sem interferência humana. O próprio peso das árvores ultrapassa o limite de contenção e a floresta naturalmente se desfaz até renascer das sementes que porventura permaneçam no ponto original ou venham trazidas pelo sopro de Éolo ou por pássaros; e a mãe-natureza reconstitui a floresta devassada. Agiria ela como um ser humano a cortar cabelos ou unhas para vê-los crescer novamente: tudo muito natural, nada de fatalidade.
Enfim, o desbarrancar das encostas, se ocorrem sem a ação humana, com esta fica patente que o fenômeno é provocado. Tal avaliação é cabível para quase todas as favelas do RJ plantadas em elevações feitas de muita pedra e pouca terra ou em baixadas irrigadas por rios e riachos assoreados, dois perigos assustadores no tempo das chuvas de verão. Mas a memória do povo carioca e fluminense se recusa a relembrar desastres idênticos ao longo das quatro últimas décadas. Tudo bem que o povo não lembre! O que não se pode é admitir deslembranças em se tratando do Poder Público cuja função-síntese é prestar segurança ao cidadão, ou seja, garantir sua integridade física e moral em vista de antivalores e riscos, o que a Doutrina designa como “segurança individual” e “segurança comunitária”. Quando a doutrina da segurança pública deste modo se apresenta (garantia da ordem pública), não está se referindo ao campo restrito da atividade policial, mas a todas as atividades exclusivas do Estado nos seus três níveis de poder: União, Estados-membros e Municípios. Esse poder-dever intransferível não tem cumprido o seu papel para evitar desastres artificiais, embora se tenha tornado um eficiente “sistema caça-níqueis” que assola também calamitosamente as algibeiras do povo: multas de “pardais”, de “lei seca” e outras invenções destinadas a vigiar e punir os cidadãos a pretexto de que os estão “protegendo”. Mentira! Estão, sim, cerceando a liberdade individual por meio de proibições capazes de onerar os já exauridos recursos de um povo pagador dos impostos mais caros do mundo. Essa dinheirama não pode ser aplicada sem burocracia na prevenção de desastres. Em festas, pode, a Lei de Licitação dispensa formalidades. Deste modo, para os políticos é mais salutar gastar em shows, todos ridentes em meio ao povo e sambando ao som de vozes famosas no alto de grandiosos palcos iluminados. Sabem os políticos que a culpa da calamidade pode ser transportada para trás e que podem fingir o chororô reclamando das críticas (“Não é hora de críticas!”, dizem em desfaçatez). É hora de quê?... De elogios?... De silêncio?... E assim, “bonzinhos” e indignando-se com as críticas de suas descaradas omissões, tentam calar na marra a voz do povo. E ofertam o dinheiro difícil de ser alcançado, e apelam para a solidariedade popular tão fortemente que o povo se sente culpado e entra de corpo e alma ajudando neste momento agudo. E a oferta estatal para assentamento dos desabrigados, como no caso do Morro do Bumba, em Niterói, torna-se fade. E o povoléu miserável recomeça o plantio de barracos sobre os escombros anteriores, ignorando os mortos que naquelas profundezas de lama desbarrancada fixaram sua eternidade. E ali, neste mesmo lugar, os barracões de zinco esburacados afloram “salpicando de estrelas” o chão-túmulo-futuro. E o romantismo segue o seu curso até que um novo trovão se anuncie e a tempestade faça o seu trabalho trapeiro por ordem da Dona Morte.
A tragédia na Região Serrana do RJ não pode ser resolvida com dinheiro, primeira “solução” anunciada pelas atônitas autoridades públicas (atônitas?) ante o espantoso desastre que de natural não tem nada. O descaso do poder público é a causa, − antes, agora, e o será depois, − e não se pode reclamar da falta de tempo. Houve em demasia para os municípios atingidos, em vista de idênticos desastres por eles enfrentados no passado. Nada os impediu, portanto, de adotar medidas preventivas de Defesa Civil: diagnóstico de risco de deslizamento de encostas, desassoreamento de rios e riachos, limpeza da rede de escoamento d’água, repressão às construções irregulares e ao desmatamento, plano de evacuação de ares de risco etc. Se não houvesse uma doutrina de Defesa Civil ensinando detalhadamente tudo isso para evitar acidentes em virtude de fenômenos esperados, ainda se poderia defender a fatalidade como causa do desastre. Mas agora não! O desastre não foi natural! A tempestade, sim, foi natural, e mesmo violenta não produziria os estragos e as mortes se houvesse um mínimo de prevenção e de ação pré-calamidade. Na verdade, e por motivações inconfessas de poder, durante a Constituinte de 1988 reduziram a Defesa Civil a uma atividade subsidiária de Corpos de Bombeiros Militares, uma aberração doutrinária, gritante menoscabo a essa universal função iniciada na Inglaterra como meio de proteger os londrinos dos bombardeios alemães. Naquela época, Sir Winston Churchil dizia: “A Defesa Civil é uma obrigação para com a humanidade que não pode ser abdicada por nenhuma Nação, Comunidade ou Indivíduo.” A ampla utilidade da Defesa Civil, que chegou a se desenvolver sobremodo no Brasil a partir da II Grande Guerra, retrocedeu em premeditada entropia e hoje sobrevive de retórica e das fisionomias graves de políticos mui treinados na arte do palco. O resultado dessa encenação shakespeariana não pode ser outro senão assistirmos a sucessivos desastres aparentemente naturais, mas, se olhados pela ótica da prevenção ignorada, são artificiosos. Principalmente em vista do dinheiro gasto sem se saber quanto e como... Aqui no RJ a situação se agrava em vista da absurda transferência do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil (já prejudicada na Carta Magna) para a Secretaria de Estado da Saúde, inovação estrutural que responde indiretamente por mais de mil mortes em soterramento de lares em muitos municípios fluminenses. Afinal, a máxima arquitetural de Louis Sullivan (“a forma segue a função”) foi deliberadamente relegada ao valor ínfimo. Talvez, em vista da morte de alguns famosos, essas autoridades públicas despertem para o fato de que, ao estruturarem erradamente a Defesa Civil, − tornando-a desidiosa, − deveriam se sentar no banco dos réus por contribuírem para a morte de centenas de pessoas em comoriência desastrosa. Entre os anos 1975-1979 eu trabalhei na Defesa Civil. Tenho vivência acumulada durante esse período em que também houve muitas desgraças pelos mesmos motivos de hoje, com a diferença de que eu e todos mais que atuavam no referido órgão estadual deixamos a Defesa Civil estruturada e atuante na prevenção. Foi nesse período que iniciamos a conscientização dos municípios no sentido de criar organismos de Defesa Civil diretamente ligados ao gabinete dos prefeitos. Visitávamos os municípios, proferíamos palestras orientadoras e distribuíamos manuais contendo até mesmo um modelo de Decreto Municipal de criação da Defesa Civil Municipal. Não funcionou... Enfim, todo um esforço de ensinamento perdido ao longo dos últimos anos, acrescido ainda da desvalorização da Defesa Civil no contexto estadual. Portanto, esperar o quê? Ora, a repetição dos desastres, com a perda de parentes e amigos, confirmando quão desvalorizada é a vida humana por essas autoridades enfeitadas de jalecos, com fisionomias “preocupadas” e oferecendo dinheiro como se vidas perdidas pudessem ser compensadas pela distribuição do vil metal. Paradoxal é constatarmos que os gastos para grandes eventos festivos não enfrentam burocracias. Muitos são pagos até antecipadamente. Por que então não transformam em previsão de festa as previsões meteorológicas e liberam antes o dinheiro para minimizar seus funestos efeitos? Por que, tais como as festas (réveillon, por exemplo), as calamidades não possam ser previstas e medidas reais de prevenção possam ser executadas? Da mesma forma que se tem de montar um palco para acolher celebridades em encantadoras fantasias, nada impede de desassorear um rio com a mesma facilidade burocrática. Assim se fez com o rio Bengala, de Nova Friburgo, na década de 70, que inundou a cidade em ocorrência na qual um deslizamento de terra matou 54 pessoas. Naquela época, até carcaças de veículos represavam as águas sujas do rio. É bem possível que de lá para cá o desassoreamento não se tenha repetido, o que, como sugere Marcos Sá Correa, não é culpa da natureza, mas de políticos desidiosos. Só discordo dele quanto ao crime contra a vida humana, que para mim talvez seja doloso, se visto pela ótica da facilidade dos gastos com festas em contraposição à dificuldade dos gastos para preservar a vida.
O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não. (Fernando Pessoa, in 'Reflexões Sobre o Homem - Textos de 1926-1928')
Às vezes me prendo em cisma incontornável ao tentar abrir caminhos para tocar a razão ou a emoção das pessoas sem a pretensão de alcançar as duas simultaneamente. Sei, hoje, que ambas estão guardadas em estações do cérebro bem próximas uma da outra, surpresas da ciência com as quais tenho de me acostumar. Contudo, penso que aumenta a minha chance de chegar a essas duas plataformas de embarque ou desembarque em toques de teclado sonorizados como o barulho de uma só Maria Fumaça, porque, se a estação da emoção fosse ainda o coração, seriam duas máquinas, e seus caminhos, opostos. Por outro lado, em sendo estações contíguas, pode o trem não parar na razão nem na emoção e seguir em direção ao nada. Ou, em parando, posso constatar os passageiros embarcados em vagões de emoção ou razão mais interessantes que os meus nessa viagem de muitos maquinistas bons. E toda esquivança é pouca se deparo com gentes me mandando seguir adiante levando na bagagem fechada a minha idéia racional ou emocional. Em vez de embarque ou aceno de adeus, e não sem tristeza, recebo um indiferente “xô” como recado para buscar outras paragens.
Não é fácil penetrar a razão ou a emoção alheia, embora o ser humano exista com a finalidade de influenciar e ser influenciado. Esta via da influência, porém, nem sempre é de mão dupla; em contrário, é unívoca e manipulada pelo poder. E, quando me refiro ao poder, incluo todas as suas formas: do dinheiro às armas, da vigilância à punição. Ademais, o poder é insolente e só a morte será capaz de travar seu detentor, este, sempre interessado em proibir emoções e razões em prol do conformismo.
Reagir às pressões do poder não é fácil. Muitos não reúnem forças para pensar e sentir e se acomodam na inércia do “rebanho nietzschiano”. Desanimam ante o esforço do qual necessitam para abrir suas próprias trilhas, subindo e descendo montanhas, atravessando rios caudalosos e mares irados, até que surjam no seu horizonte íntimo a emoção e a razão, bens maiores que os diferenciam das coisas inertes e de animais meramente instintivos, se é que afirmar assim seja racional num mundo quântico em que até as pedras “pensam”...
Curioso é que não posso negar meus instintos, o que me aproxima dos animais irracionais, estes que me surpreendem em suas emoções e me arrebatam em fidelidade canina ou sensibilidade símia. E, se sinto a essência da rosa e posso imaginar sua existência, também os seres irracionais captam a essência de tudo que os cerca em apurados sentidos que me superam facilmente. Se não pensam, sentem o mundo mais que eu; e muitos não se submetem a nenhuma força ou poder: morrem lutando por sua liberdade de ser o que são, e não se entregam ao jugo de nada e ninguém. Será tudo isso irracional?... Ou serei eu, ser humano, o verdadeiro irracional?...
Eu nasci, tu nascestes, eles nasceram. Eu vivi, tu viveste, eles morreram e se tornaram a nossa alimentação básica. Seria esta a finalidade deles? Sim?... Então, por que reclamo se eles me devoram quando invado a liberdade deles? Não serei eu o irracional ao mergulhar para fisgar um peixe raro e ser devorado pelo tubarão? Qual será o sentido disso tudo? Ou não haverá nenhum? Afinal, nasci, tanto como os animais, para morrer um dia. A diferença estaria, talvez, na desvantagem de saber com antecedência que morrerei. Mas o elefante busca o seu local de morte: sabe da hora chegada.
Os animais se alimentam de animais, e há alguns comportamentos impressionantes: o leão, ao imobilizar a sua presa, morde-a em local que a põe em estado de choque. A cobra faz o mesmo com seu veneno. O ser humano usa a tecnologia para dissimular a carne que o alimenta em assados e cozidos... Sim, sou animal, sim, porém cônscio de que penso com exclusividade e sou ímpar na emoção. Será?... Talvez... Mas sou o único animal na face da Terra a utilizar a violência para matar por prazer, incluindo-se entre as vítimas meus iguais racionais e emotivos. Os outros animais supostamente irracionais e sem emoções usam a agressividade na medida certa da necessidade de sobreviver e preservar a espécie. Já o ganancioso ser humano faz matanças várias em nome da força e do poder de humilhar seus irmãos. Quem são os irracionais e emocionais, afinal?... Quem é o arrogante da história humana? Quem menoscaba seu semelhante em pedantismo? Quem?... Ora, eu e você que me lê!...
PS: Sobre a recente tragédia na Região Serrana, mais que anunciada, sugiro a leitura de texto que postei neste blog em 10 de maio de 2009 (Sobre a muralha da Rocinha e de outros morros favelizados). Reporto-me a fenômeno semelhante ocorrido nos mesmos Municípios nos quais eu atuei, como capitão PM, no tempo em que a Defesa Civil era levada a sério.
O Jornal O GLOBO de domingo, 09/01/2011 veio recheado de novidades, com direito a “DOIS CAPPUCINOS E A CONTA”, famoso bate-papo do jornalista Mauro Ventura com celebridades. Desta vez o entrevistado foi o ilustre comandante da PMERJ, Cel PM Mário Sérgio Duarte, um dos principais mentores das UPPs e líder dos militares estaduais na libertação de favelas do jugo do tráfico.
Outra notícia relevante foi a divulgação do plano integral de implantação de UPPs no Município do Rio de Janeiro, não apenas indicando cada favela a ser beneficiada como também o total de PMs a serem fixados nesses locais: 12.500. Este número, salvo pequenas correções, corresponde a 1/3 do efetivo total da PMERJ espalhado por todo o RJ. Deste dado numérico pode-se chegar a outros, partindo-se da estimativa de população favelada a ser atendida por UPPs até 2014: 1.000.000 de almas. Segundo dados do IBGE, a população da Capital gravita atualmente em torno de 6.323.037 habitantes de um total de 16.010.429 em todo o RJ. Não sei exatamente o efetivo atual da corporação. Falam em 40.000 almas. Talvez seja prudente considerar o número projetado para as UPPs e multiplicá-lo por três, sem levar em conta as diversas situações que se refletem sobre a corporação e diminuem o seu efetivo pronto. Deste modo, hoje teríamos 37.500 PMs (oficiais e praças) empenhados na atividade-fim, isto com exagerada boa vontade. Também não é caso de fracionar o efetivo em escalas, podendo-se, no entanto, determinar a média de três turmas, o que nos remete a 12.500 PMs por dia a atender todo o RJ, número promissor porque, a bem da verdade, é provável que o efetivo empregado diariamente (24 horas) não alcance 5.000 militares estaduais em todo o RJ. Não faço essa conta de afastar ou de chegar com objetivos falaciosos ou críticos. Penso que a dinâmica do patrulhamento preventivo (predominante) e repressivo (eventual) não se deva fixar em números. Afinal, lidamos com a sensação de segurança, o que significa entendê-la subjetiva, do mesmo modo que o é a proporcionalidade policial por habitante. Tratar o tema com base em números como se fosse gentes parece-me irracional, embora a PMERJ assim se comporte na distribuição do efetivo, cultura que chega ao cúmulo de considerar um desprestígio para comandantes de unidades operacionais seu efetivo ser “perdido” em transferências para outras unidades. A briga pelo efetivo na corporação é terrível dentro da ótica da quantidade como regra. Creio que a distribuição com base em policial por habitante é uma das mais espantosas falácias na cultura da segurança pública. E as UPPs vieram para quebrar esta regra anacrônica e doentia, na medida em que atende a anseios e valores objetivos e subjetivos das favelas e do asfalto, projetando-se muito além das fronteiras do RJ essa efetividade em virtude do entusiasmo midiático. Deste modo, não é exagero assegurar que a sensação de segurança em regiões onde as UPPs foram implantadas aumentou deveras. São diversos ambientes intermediários (Favelas da Zona Sul, da Tijuca e do Complexo do Alemão, demais da Cidade de Deus, do Morro da Providência etc.) todos de forte influência no contexto da Capital, o que garante ter sido o plano criteriosamente elaborado. Deste modo, ressalvo que minhas críticas iniciais às UPPs eram consequência da falta de coragem do Poder Público de assumir as razões da escolha: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Independentemente das causas concorrentes para a implantação de UPPs, elas representam um marco na história corporativa, pois oferece a prevenção como regra e a repressão como exceção, demais de levar às populações sofridas uma paz sonhada e agora alcançada. As UPPs vieram para ficar, não há dúvida, e o custo-benefício delas tem sido espantoso. Resta agora haver a inclusão social, papel a ser desempenhado por outros organismos públicos municipais, estaduais e federais, de modo que a PMERJ cumpra tão-somente a finalidade de garantir a ordem pública enquanto se efetiva uma inclusão social abrangente, profunda e duradoura. Não pode a inclusão social basear-se em pequenas ações como carícias de policiais em crianças e ínfimas atividades culturais promovidas por PMs a lembrarem as desusadas “Ações Cívico Sociais − ACISO” no contexto de conquista da confiança da população em zonas guerrilheiras conquistadas e ocupadas por forças regulares. São outros tempos, e se justifica a empolgação generalizada, mesmo havendo a notícia de privilégios financeiros para PMs lotados em UPPs, dando a impressão (falsa) de que eles valem mais do que seus companheiros que suam no asfalto dia e noite, e morrem em tocaias promovidas por narcoguerrilheiros urbanos. Também a Carta Estadual proíbe quaisquer privilégios em razão de trabalho urbano ou rural, o que se presume ser a gratificação direcionada aos integrantes das UPPs um direito pessoal extensivo a todos os militares estaduais ativos e inativos. Também não há como concordar com o discurso oficial no sentido de que a tropa de UPPS, por ser nova, não possui os “vícios dos antigos”, aviltante discriminação a ser questionada pelas entidades representativas dos militares estaduais na Justiça. Porque parte da boca de quem detém o poder de retaliar, e só o fato de assim comentar induz à falsa ideia de que a tropa da PMERJ, à exceção da que ocupa UPPs, é imoral, desonesta, despreparada etc. Isto é absurdo! Que as autoridades adotem o discurso do comandante-geral na entrevista com Mauro Ventura como padrão de avaliação, pois é correto faz justiça à tropa no seu todo! O resto que se ouve e lê é condenável discriminação... Por fim, sobre a ideia de diminuir o número de mortes em confrontos, insisto no desmonte do “grupo psicológico” representado por guarnições com mais de dois componentes, seja qual for a sua denominação (PATAMO, PAMESP, GAT etc.). A cultura repressiva dessas guarnições impregnou-se de tal forma no espírito do “grupo psicológico” que somente acabando com eles é que a cultura da repressão, responsável pela maioria dos autos de resistência, desaparecerá. Fracionar esses efetivos em guarnições de radiopatrulha (dois homens), diminuindo-lhes o ambiente de tarefa e propiciando rápida reunião em emergências, aumentará a sensação de segurança em vista da maior ostensividade preventiva. Nessas emergências concentradoras eventuais de efetivos acima de dez componentes o comando será de oficial subalterno. Outra ideia seria aquartelar esses efetivos para circular em comboios comandados por oficiais, mediante planejamento prévio e ações em favelas ainda conflituosas após avaliação da supervisão de oficial superior e de outras autoridades do andar de cima. Esses cuidados, somados à possibilidade da união de efetivos de diversas unidades operacionais organizados de forma semelhante, evitará o aleatoriedade das ações que geralmente culminam em autos de resistência. Porém, destruir para reconstruir não costuma ser prática institucional. A resistência às mudanças é que traduz a cultura geral e prejudica a competitividade. Portanto, para destruir o velho e construir o novo é necessário mais que vontade e poder: depende de muita coragem.
Faz bom tempo que ouvi de um colega oficial da PM: “A profissão policial-militar é a profissão do nada!” Tinha ele razão em parte, na época éramos mais aquartelados que rueiros (no bom sentido) e sobrava tempo para o baralho e o futebol. Bem, ele se mandou para outra profissão. Eu fiquei e concluí, contrariamente ao que dele ouvi, que a PM funcionava como a “profissão das mil e uma utilidades” porque fazíamos de tudo um pouco. Por outro lado, jamais pude desconcentrar meu pensamento da afirmação do colega, que mais se referia ao controle da criminalidade. Afinal, quem tenta fazer muita coisa acaba não fazendo nada ou faz malfeito. Teria ele razão?... ... Tendo ou não, alguns anos após 1964 fomos jorrados às ruas pra valer e fazer de tudo: do socorro ao menino com o prego espetado no pé à prisão do bandido perigoso, o que acabou inspirando minha tese apresentada à Banca Examinadora do Curso Superior de Polícia (CSP), em 1988, laureada com grau máximo em suas quatro etapas: Projeto, Metodologia, Conteúdo e Apresentação. Comprovei que, ante a criminalidade, nós quase nada produzíamos em benefício da sociedade, dando razão ao colega. Por outro lado, provei que fazíamos de tudo porque a miséria não era atendida pelo Estado através de outros organismos existentes com esse fim. (vide a íntegra do trabalho: www.emirlarangeira.com.br). A questão primordial talvez seja a de entender e aceitar o paradoxo do policiamento preventivo, missão precípua da PMERJ: o bom serviço seria a ausência de ocorrência criminal. Ou seja, seria este o tão almejado “nada” decorrente da total inibição da oportunidade de o criminoso potencial delinquir, já que ele existe e sempre existirá, tal como o amor e o ódio (López-Rey, 1973 – Introdução1). Presume-se, pois, que o criminoso potencial vê a PM e recua em seus objetivos imediatos. Mas ele acabará burlando a vigilância ostensiva até cumprir sua finalidade, a não ser que seja um azarado e entre em cana. Com o olho no ambiente social, deduz-se que a utilidade do patrulhamento preventivo implica considerar que quanto maior for a sua frequência mais eficiente e eficaz será a prevenção. E, de certo modo, também a repressão, devido à presença maciça da PM nas ruas e logradouros. Quanto à proximidade do PM com as pessoas, há controvérsias, especialmente se ela se dá entre o PM embarcado em radiopatrulha e o cidadão. Há muitos estudos comprovando que o policiamento motorizado não propicia uma proximidade ideal entre o policial e o público porque torna subjetiva a sensação de segurança, diferentemente do policial rondando a pé, prática cada vez mais incomum nos grandes centros urbanos. Outro paradoxo da prevenção é o de que ela, por estar presente e visível, facilitaria a imediata repressão do crime já ocorrido e em meio ao clamor. Mais que paradoxo, isto soa como falácia, a uma porque a repressão ocorre quando a prevenção falha; a duas porque nem sempre a prevenção é ágil a ponto de alcançar o criminoso em flagrante. O lapso entre a comunicação pela vítima à Central de Operações (190), o acionamento e a chegada da polícia, a tomada de informações no local e outros atrasos põem o criminoso em indiscutível dianteira. Deste modo, ele geralmente não é alcançado pela repressão, que não ultrapassa o desgaste dos recursos policiais, não supera a frustração da vítima e o tiro vai pela culatra: a vítima se revolta bem mais com a polícia ineficiente do que com o criminoso que a vitimou. Estrategicamente, não seria demais entender a situação acima como sério óbice; ou, como se infere dos ensinamentos de Planejamento Estratégico, um verdadeiro choque entre a realidade e a retórica; enfim, são os gaps (lacunas)2 “entre a ordem e a desordem” e “entre meios e fins”. São as “falácias do planejamento estratégico universalmente conhecidas”... Em resumo, defender a prevenção seria como rezar para ganhar os céus... Ou não? Muito bem, na verdade, não! Afinal, há o componente psicossocial a ser levado em consideração, desde que a polícia atenda aos anseios e valores captados no ambiente social. Para tanto é necessário avançar nos contatos com os segmentos comunitários, não restritamente aos cidadãos organizados em Associação de Moradores, mas envolvendo as instituições particulares que compõem a tessitura social localizada. Importa igualmente saber a opinião dos cidadãos individualizados em pesquisas de campo permanentes e localizadas. É tarefa árdua, onerosa, porém fundamental ao emprego eficiente e eficaz da PMERJ cujo exemplo positivo é a UPP. Mas a PMERJ não pode garantir seu prestígio apenas por conta do sucesso das UPPs em áreas restritas (“Ambiente de Tarefa”)3. Afinal, há o “Ambiente Geral” a exigir que sejamos a esponja de aço das “mil e uma utilidades” e façamos “tudo”, e assim deixo provado que não somos protagonistas do “nada”, como sugeriu o colega. Hum, vejo-me como se estivesse tentando ensinar padre a dizer missa...
1. LÓPEZ-REY, Manuel – O Crime – Artenova, Rio/GB, 1973 – Introdução: “Em verdade, o crime, como o amor e o ódio, é inerente à condição humana e reduzi-lo a uma expressão teórica ou a um sistema de pesos e medidas, para dar a impressão de uma medição exata, é tão ilusório como reduzir o amor e o ódio a uma pequena teoria ou a expressões numéricas.”
2. CARTER, Cris, Stewart R. Clegg e Kornberger (tradução Raul Rubenich) – UM LIVRO BOM, PEQUENO E ACESSÍVEL SOBRE ESTRATÉGIA – Bookman – Porto Alegre – 2010 pp. 143-144.
3. CHIAVENATO, Idalberto – INTRODUÇÃO À TEORIA GERAL DA ADMINISTRAÇÃO – Elsevier Editora Ltda. – Rio de Janeiro, 2003, pp. 512-517.
Quando me encontro com velhos amigos de farda aflora-me aterradoramente a realidade dos tempos idos e vividos. Percebo a variedade dos gostos e das aparências indicando os bem-sucedidos, e a auto-humildade (ou auto-humilhação) dos que não chegaram ao topo do sucesso. Não digo que os dois tipos estejam aprisionados totalmente aos valores ou desvalores materiais. Entretanto, não posso negar que a ostentação do sucesso aflora em todo o corpo de alguns, assim como o insucesso de outros se reflete na alma que lhes sai pelos olhos tristes ou raivosos. E, desgraçadamente, reconheço que ninguém mudou: o jovem de ontem é o velho de hoje, igualando-se no invólucro desgastado por suores, alegrias, tristezas e vícios. Ah, qualquer que seja o “verniz externo”, todos velhos!... Porém, como se ainda jovens fossem, se arrogam a si vitórias retumbantes, em meio a aturdidos derrotados que semearam a terra de suas vidas com sementes podres. E, decorrido o inexorável tempo, nada mais eles têm para colher ou plantar, o ânimo se lhes esgotou.
Quando falo em semeadura, penso nas sementes físicas e metafísicas. E vejo incontornáveis discrepâncias nos velhos colegas tanto tempo igualados em uniforme roto durante os anos viçosos. Hoje alquebrados, mesmo assim muitos se apresentam como “vinhos” a serem apreciados em cheiro e sabor e, particularmente, pelo preço caro, embora o cheiro e o sabor sejam de vinagre. Já alguns outros não podem nem disfarçar: são vinagres na essência e na existência. Curiosamente, não é difícil constatar que assim eles eram desde a juventude: vinho ruim ou vinagre. Mas vinho que não se fez vinagre no primeiro instante por obra da sorte. A turma era composta por 25 jovens da periferia. Não havia ninguém de bairro nobre. Os cinco “melhores” do grupo se foram ao além-túmulo, como é da natureza humana elogiar defuntos. Não tenho notícia da morte de colegas pertencentes a corporações de outros Estados Federados. Eram quatro. Deste modo, aquela turma dos anos 60 está atualmente reduzida a 16 almas unidas em amizades ou dispersas em inimizades que remontam aos bancos da Escola de Formação de Oficiais. Não é difícil explicar: é tendência do animal racional, tanto como dos irracionais, competir. A diferença é que os irracionais competem pela sobrevivência, e os racionais, por ganância e vaidade. E nem mesmo a inevitável proximidade do túmulo iguala esses velhos oriundos de um mesmo grupo de jovens da periferia, que, por conta de convivência e trabalho, mantiveram contatos esparsos. Não sei se a cultura da corporação, − de tradicional subjetividade nas avaliações do mérito ou do demérito, − responde pelas amizades ambíguas, por insinceras relações e inimizades declaradas entre membros de uma só turma − as facções. Também não sei se nas demais turmas o acirramento desses fatores haja sido tão amplo e profundo. Mas noto entre os colegas de outras turmas certa semelhança de atitudes e comportamentos, o que remete ao vinagre o todo das turmas. Ou ao vinho da mesma pipa... Na verdade, enxergo esse vinho tão-somente para consumo egoístico e ressaca certa. Eu mesmo me assumo estar bem mais para vinagre do que para vinho. Guardo, entretanto, a vantagem de me sentir gratificado pela colheita do meu plantio, mesmo que em alguns casos eu tenha plantado rosas e colhido espinhos ou plantado espinhos e colhido rosas, o que me torna tão ambíguo e merecedor de críticas como os demais. No fim dessas contas do tempo me vem o desânimo em relação ao outro, bem mais do que em relação a mim. Vejo-me novamente em vantagem, porque me olho no espelho e assumo minhas imperfeições. Não as transfiro para as algibeiras de terceiros. Colho o que plantei, e tento ainda semear boas semente nesse final de vida. Insisto, pois, na busca da minha finalidade em campos físicos e metafísicos, eis que ainda creio na possibilidade de plantar rosas e colhê-las abundantemente. Sou otimista, não vejo por que desistir de plantar como sempre plantei: sozinho. Porque sei que os que de mim se aproximaram ansiavam por colher minhas rosas gauderiando nos meus jardins. Não lançaram sementes, mas sempre estiveram nos meus canteiros parasitando as rosas. Por conseguinte, e em lamento, reconheço que a vida íntima com esses colegas de três anos de internato me preservou pouquíssimos amigos. De modo que permaneço fiel a eles, sejam vinho ou vinagre. Afinal, sei que a turma foi reunida em tempo e lugar por mera casualidade voltada à doentia competitividade de méritos, deméritos, galões e “cangalhas”. Enfim, mero sucesso em contraposição ao insucesso material e moral. E para relembrar esses tempos idos e vividos (bem ou mal), trago aqui o poeta Laurindo Rabelo e suas Contas do Tempo:
Deus pede estrita conta do meu tempo. É tão forçoso do tempo já dar conta Mas como dar sem tempo tanta conta Eu que gastei sem conta tanto tempo Para ter minha conta feita a tempo Dado me foi bom tempo e não fiz conta Não quis, sobrando tempo, fazer conta Quero hoje fazer conta e falta tempo Ó vós que tendes tempo sem ter conta! Não gasteis esse tempo em passatempo! Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta! Mas se os que contam com seu tempo Fizessem desse tempo alguma conta Não choravam sem conta o não ter tempo.
Houve épocas em que as edificações eram eternizadas em pinturas ou fotografadas em “flash-pólvora”. O tempo trapeiro, porém, levou tudo ao esquecimento: as edificações ruíram, as pinturas e as fotos desapareceram em irreversível entropia. A arqueologia vem dando mostras de quantas construções monumentais se perderam ao longo dos séculos, não importando se por causas naturais, destruições bélicas ou falta de manutenção. Ainda hoje se encontram indícios de civilizações remotas soterradas em pontos diversos do planeta. Os métodos de preservação e restauração evoluíram com a tecnologia, estimulando o tombamento de edificações para levá-las ao futuro. Em função dessa decisão de caráter universal, a Humanidade tem hoje o privilégio de visitar prédios seculares ou vê-los em quadros e fotos recuperadas. No entanto, e mesmo assim, muitas das pinturas desapareceram e as fotos não resistiram ao tempo. Por outro lado, antigos prédios mantêm-se vivos, mas não servem estruturalmente às exigências funcionais modernas. Ademais, hoje eles podem ser preservados em imagens tão fielmente detalhadas e contempladas como se estivessem presentes no mundo. Essas informações virtuais são atualmente acessíveis a todas as camadas sociais mundo afora. Nesses tempos das imagens eternizadas, o tombamento pode ser substituído pela destruição do velho a dar acesso ao novo, saindo de cena a contemplação para dar lugar à participação. Afinal, um corpo não pode ocupar o espaço do outro num só tempo; daí assistirmos à ousadia de pessoas capazes de destruir antigas construções para atender às demandas participativas da modernidade. No fim de contas, a edificação antiga se põe a mais e mais distante da máxima arquitetural de Louis Sullivan: “O formato segue a função”1. Destruir para construir não é ideia recente nem se reduz à arquitetura; ultrapassa esses limites, vai à poesia e às artes plásticas e adentra a Administração com a reengenharia dos negócios para fazer frente às incertezas ambientais e à competitividade. No mundo das organizações modernas não há de haver estruturas rígidas, mas dinâmicos desenhos para atender às exigências da vida em sociedade. O mundo está mudado e as atividades sociais recebem forte influência do ambiente e da tecnologia. Os espaços recebem novos significados em relação ao tempo. Problemas complexos impõem soluções urgentes e igualmente complexas. Quem não se preparar para essas mudanças e não partir corajosamente à destruição e à reconstrução sucumbirá ante a competitividade. Quem sair na dianteira vencerá a corrida... É tão complexo o mundo moderno que a filosofia não se escusou de firmar suas posições e historiar as mudanças nos grandes centros urbanos para adequá-los às prementes necessidades humanas. Desintegrar para reintegrar é preciso! E não me surpreende a ousadia do atual comandante-geral da PMERJ, Cel PM Mário Sérgio, que, em sendo filósofo de formação, se obriga a ir além do seu tempo tal como “Robert Moses e suas obras públicas”2, em Nova Iorque, lá pela década de 50 e seguinte. A notícia da reformulação dos quartéis se reflete mui além da obra física. Mas não serão poucos os defensores da manutenção de estruturas físicas por conta de carcomidas tradições. Claro que não se trata de defender a cessão pura e simples de espaços pertencentes à corporação para atender a interesses não institucionais, como parece acontecer em Niterói, em que um estaleiro se arroja na direção de espaço da PMERJ em transação mal explicada ao Público Interno. Mas a reconstrução do espaço e sua ocupação em outros moldes pela própria instituição é marco tão histórico como participar da Guerra do Paraguai, o que, aliás, é só História do Brasil e dispensa ufanismos: o país vizinho é atualmente nosso amigo. Os tempos são outros...
Que vá adiante o comandante-geral da PMERJ em sua ousadia! São quatro anos que podem mudar a corporação e projetá-la ao futuro promissor. Eu estarei enfiado no meu pijama torcendo para ver a primeira mudança revolucionária, e que seja a partir do Quartel-General, embora a PMERJ não possua o posto e a patente de oficial-general. É apenas tradição... Mas podemos gozá-la tomando um cafezinho no Bar Treme & Terra ou no Café & Bar... Bonos situados no Shopping Center PM da Evaristo da Veiga, em cujo teto se erguerá um Quartel-Coronel de muitos andares modernizados. E, no terraço, preservada (a engenharia moderna permite tal façanha), despontará a velha Capela da Irmandade em meio a um frondoso jardim e um moderníssimo pátio a formar a tropa para hastear nossas bandeiras centenárias. E todo o resto, destruído, devidamente guardado na memória virtual do computador e projetado em telões para apreciação pelo povo. Por que não?...
1. CARTER, Cris, Stewart R. Clegg e Kornberger (tradução Raul Rubenich) – UM LIVRO BOM, PEQUENO E ACESSÍVEL SOBRE ESTRATÉGIA – Bookman – Porto Alegre – 2010.
2. BERMAN, Marshall (tradução Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriati) – TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR – A AVENTURA DA MODERNIDADE – Companhia das Letras, São Paulo, 1982.
Símbolo do sofrimento policial: parente de PM morto em confronto com marginais
Apenas sugestão
Há no sistema tráfico1, posto aqui como variável dependente2, quatro subsistemas (variáveis independentes) que lhe dão vida. São eles: traficante, arma, droga e usuário. Excluindo o usuário por razões óbvias e enfraquecendo um dos três que restaram, a tendência do sistema tráfico é ingressar num processo entrópico, sem, entretanto, degenerar totalmente. Porque sem traficantes não há tráfico, mas sempre existirão traficantes potenciais; sem drogas não há tráfico, mas sempre haverá a oferta em razão da demanda e do fato de que ela é oriunda de manancial transnacional inesgotável; sem armas, mesmo claudicadas as outras duas variáveis independentes o sistema tráfico sobreviverá, embora em menor potencial de violência, pois é a arma que induz ao uso quem a carrega, aumentando o número de feridos e mortos por PAF. Portanto, das três variáveis independentes a primeira a ser reprimida é a arma, seguindo-se-lhe a droga e, finalmente, o traficante. Uma política de segurança pública contra o tráfico de drogas restrita aos três subsistemas, mas priorizando armas e drogas, naturalmente resultaria na diminuição dos confrontos e abalaria o sistema tráfico na ponta da linha. A ideia é a de que o tráfico de drogas jamais desaparecerá do ambiente, mas será menos letal se o alvo não for o traficante. Sim, este apenas deve ser indiretamente combatido como consequência da priorização dos outros dois subsistemas de mais fácil localização e identificação (armas e drogas), o que implica a ampliação e o aprofundamento das atividades de inteligência voltadas para esse fim. Prender traficantes não deve ser tão importante quanto desarmá-los ou deixá-lo sem a droga, cuja venda gera ganhos e facilita a aquisição de novas armas. Numa visão pragmática, é fácil concluir que o traficante é a variável independente de menor valor entre as três. Por outro lado, é o obstáculo mais difícil e arriscado de se transpor, tendo em vista sua imediata capacidade de reação e regeneração. Focalizar o traficante como alvo prioritário de ações policiais produz o aumento do número de mortos de ambos os lados da contenda polícia-tráfico. Na verdade, festejar a prisão de traficantes tornados “vilões” não transforma em “herói” quem o prendeu. Isto é perigosa ficção e eu sou exemplo vivo desta hipocrisia político-midiática: fui tornado “herói” por ter aprisionado o traficante Cy de Acari (o “vilão”), e depois apupado como “vilão” por ter aprisionado o traficante Cy de Acari. A incongruência midiática me lembra Sócrates falando aos Trinta Tiranos: “Estou sendo condenado por crer em deuses em vez de crer em deuses”... Sensacionalismo à parte, um plano de combate ao tráfico na ponta da linha deve evitar escaramuças de pequenos grupos policiais contra traficantes igualmente fracionados em pontos de comércio da droga (as bocas de fumo e seus “aviões”, “vapores” e “soldados”, estes últimos invariavelmente armados). A tendência, nesses casos, é a do confronto entre duas forças que se julgam entre si superioras, quando, na realidade, se equivalem. Numa alegoria, colocar dois lutadores num ringue presume equilíbrio de forças a estimular o combate entre eles. A PMERJ costuma exigir das Unidades Operacionais (UOp), dentre outras imposições, a apreensão de armas e drogas e a prisão de traficantes. Deste modo, impõe a repressão em vez de estimular a prevenção, esta última sempre abalada pela falsa impressão de que, se não houve ocorrência a registrar, o patrulhamento “não fez nada”... Eis a pressão despachada para o subsolo das UOp (praças), e a repressão então se torna “questão de honra” e personifica a disputa entre o “herói” e o “vilão”. Essas exigências de operacionalidade mínima endereçadas aos pequenos grupos (guarnições precipuamente preventivas e excepcionalmente repressivas) são fomentadoras da violência armada, que se dá com maior frequência no contexto de ações não aparatosas. Os vícios vinculados às ações de pequeno porte incluem as blitze para vistoriar aleatoriamente veículos e pessoas desconhecidas. Em todos os sentidos, elas são de discutível valor prático no contexto da segurança pública, demais de afrontarem os cidadãos, eis que os põem sob suspeita com fundamento num Poder de Polícia que me parece no limiar do abuso de poder. Para que haja diminuição dos crimes de sangue, quase sempre vinculados ao tráfico no varejo, não se pode admitir a paranóica cobrança de resultados às guarnições fracionadas no ambiente com a finalidade precípua da prevenção ao crime. Se se partir para a ideia de combater o crime visível como exigência principal, claro que as favelas passam a ser preferenciais, as guarnições partem para essas áreas críticas em busca de resultados e culminam produzindo violências desnecessárias. Já no asfalto o patrulhamento preventivo deve coibir o tráfico, geralmente desarmado e possível de ser atalhado sem tiroteios e mortes, ressalvadas as cautelas de sempre. Pretendo, com esta reflexão, despertar o interesse dos responsáveis pelo decreto que está por vir e que objetiva premiar policiais onde as taxas de homicídios baixarem. Porque o instrumento legal será inócuo em vista da cobrança de índices de operosidade, cultura organizacional tão insistente quanto o exemplo que deixei gravado em texto anterior ao sublinhar o M-4 (Manual Básico do Policial Militar). Como denunciado, o M-4 sugere até “arrombar porta de barraco”, isto na vigência de um governo a veementemente apregoar o contrário com justa razão, pois o barraco é ou deveria ser um lar inviolável. Cá pra nós, o decreto fracassará se a estrutura organizacional não restringir as funções do policiamento ostensivo preventivo ao asfalto (“O formato deve seguir a função”3 – Louis Sullivan). Sim, pois tudo passa pela ideia de mudança: evolucionária e/ou revolucionária. O decreto é tipicamente evolucionário: pretende mudar atitudes para resultar comportamentos adequados ao aceno do prêmio. Mas, se não houver uma intervenção revolucionária no sentido de desestruturar as causas da excessiva mortalidade (o “formato”), de nada o decreto (“função”) adiantará, pois ninguém é maluco a ponto de evitar se antecipar ante um marginal que lhe aponta o fuzil em beirada de favela. A realidade é simples: se mais miudamente os autos de resistência forem analisados, a conclusão será a de que a maior quantidade deles envolve guarnições isoladas de PATAMO (Patrulhamento Tático Motorizado). Com radiopatrulhas, porém, os autos de resistência tendem a decair. Porque os dois componentes da guarnição vão preferir a prevenção, e, em ocorrendo a necessidade de repressão, outras radiopatrulhas se lhes poderão somar formando efetivos maiores, desde que sua frequência seja ampliada no ambiente. O resto é aritmética, considerando que duas PATAMOS de cinco homens resultam cinco duplas de radiopatrulha. Quanto às viaturas maiores, seria de bom alvitre trocá-las por menores. Atualmente é fácil, pois as viaturas são terceirizadas. Poderiam elas manter-se estacionadas para emprego sempre aparatoso, recebendo cores diferentes, de modo a que sejam identificadas como acontece com o BOPE. A PMERJ poderia, por exemplo, reeditar o Grupamento de Ações Táticas (GAT) com essa finalidade repressiva aparatosa se antecipando ao BOPE. E mesmo o uniforme do efetivo de GAT das UOp a atuar em favelas deveria ser diferente do utilizado no cotidiano do patrulhamento preventivo em radiopatrulhas. Bem, tudo que ponho aqui não passa de superficial sugestão, sem dúvida. Mas nem tão desprovida de vivência, esta que me sobra deveras, com a vantagem de que pouco se mudou na PMERJ. Parece-me que os PMs estão nas ruas como há vinte ou trinta anos e agindo segundo os mesmos artifícios que ao sistema compete atalhar: uma radiopatrulha arrisca-se a ser “atacada” e lhe vai ao socorro a(s) PATAMO(S) acionada(s) pelo sistema oficial (Central de Comunicações); e, por conta disso, a manjada armação legitima mais uma ação violenta e inútil que poderia ser evitada...
___________
1. CHIAVENATO, Idalberto – INTRODUÇÃO À TEORIA GERAL DA ADMINISTRAÇÃO – Elsevier Editora Ltda. – Rio de Janeiro, 2003, pp. 473-495.
2. AZEITONA, Débora – O Método Experimental – Trabalho Acadêmico – http://www.notapositiva.com/trab_estudantes/trab_estudantes/psicologia/psicologia_trabalhos/metodoexperiment.htm - Psicologia 12º ano - Google. (Nota do autor: é vasta a literatura sobre a Metodologia da Pesquisa Científica. Porém, escolhi a referência em destaque porque contém clara explicação sobre as variáveis dependentes e independentes.)
3. CARTER, Cris, Stewart R. Clegg e Kornberger (tradução Raul Rubenich) – UM LIVRO BOM, PEQUENO E ACESSÍVEL SOBRE ESTRATÉGIA – Bookman – Porto Alegre – 2010, p. 111.
“Artigo III − Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.” (Declaração Universal dos Direitos Humanos)
No meu velho tempo de comandante do 9º BPM (abril de 1989/abril de 1990), eu realizava operações aparatosas com o apoio da PCERJ. Polícias irmanadas, entrosamento fácil, os traficantes não enfrentavam a polícia. A regra era a correria, embora os delinquentes atirassem para trás, pondo a arma por cima da cabeça ou lateralmente à cintura. E, deste modo insólito, fugiam tentando acertar seus perseguidores. Quando podiam, os policiais não revidavam, para evitar riscos posteriores de interpretações judiciais e ministeriais desfavoráveis. Ora bolas, o policial não deve esperar o bandido atirar para revidar! Basta o meliante estar armado para justificar a ação imediata do agente da lei se antecipando ao disparo que lhe poderá ser fatal. E é bom que se alerte: o cruel facínora, enquanto réu, é geralmente comportado e cabisbaixo nos tribunais. E consegue enganar muitas gentes togadas, a ponto de se tornar “vítima da polícia”. A legislação pátria que sopesa a ação policial contra bandidos ARMADOS DE FUZIL − como se os últimos fossem cidadãos detentores de direitos humanos iguais aos dos policiais − é absurda! Que sejam respeitados os direitos humanos do marginal depois de ele se render, tudo bem! Creio que só pelo fato de o bandido portar arma de guerra, ele deveria ser submetido a tribunal especial como em tempo de guerra e condenado à prisão perpétua, boa forma de intimidar esses arrogantes que acenam para a sociedade com o fuzil como se fosse símbolo de vitória. E é duro de doer ver policial morto por tiro de fuzil. No meu tempo, os vagabundos portavam metralhadoras, escopetas e armas curtas. E também a polícia. Hoje, a moda do fuzil está disseminada nos dois lados da contenda, e a letalidade policial decerto aumentou, assim como a dos marginais. É problema localizado no RJ. Em São Paulo, com todo o respeito que nutro pelas abalizadas opiniões da estudiosa Julita Lemgruber, arrisco-me a afirmar que se morre menos porque o fuzil não está em moda como aqui, e espero que nem lá nem nos demais Estados Federados vingue a cultura da guerra urbana. Cá pra nós, gratificação para policial que “matar menos” é no mínimo estranha: sugere a ideia de que ele está “matando mais”, sem se considerar que ele também está morrendo mais. Ao que me parece, para a tal gratificação funcionar e atender aos anseios pacificadores da sociedade há de se combinar antes com o bandido... Em virtude do precipitado aplauso da mídia, as pessoas tendem a consagrar a falsa ideia de que a guerra instalada no RJ é culpa exclusivamente da polícia. Olvida-se, deste modo, a belicosidade dos marginais e o fato de que a polícia faz o que lhe manda o “andar de cima”, que vem pondo o fuzil nas mãos dos policiais ao longo dos tempos, tornando esse armamento de guerra uma regra de difícil reversibilidade. Quanto aos policiais, até onde eu apurei (sou bastante informado nos bastidores), estão silenciosos e apreensivos. O efeito será sentido no instante da distribuição do armamento para uma tropa acostumada ao fuzil versus fuzil. Não custa, portanto, lembrar aos que fingem não saber, − ou se movem por meio de nojoso preconceito, − que se manter vivo é direito do policial enquanto pessoa humana. Mas esses preconceituosos, em condenável reducionismo psicológico, não entendem ou não querem entender que o discurso generalizado contra a polícia, − mesmo não atingindo diretamente os policiais, − institui no ambiente social um generalizado sistema de aversão contra eles e os desestimula. Exemplo melhor do que reclamo é o texto acima, fruto de ideia preconcebida: “Não seria má ideia haver também punição para o policial que sair por aí matando ladrões de galinha e passadores de cheques sem fundo.” É necessária a sugestão?... Sem embargo, − e lembrando Henry Berson1, − esses comentários ideológicos desenham apenas uma falseada ideia do fato, mas não a sua vivência fundada na realidade, embora seja absurdo o número de policiais civis e militares assassinados por bandidos no RJ. (Dá vontade de postar uma foto aqui de PM destroçado por fuzil, mas não o farei em respeito à família deles!). Advém daí o perigo de os aplicadores do Direito (sem vivência do fato e influenciados por discursos midiáticos) muitas vezes concluírem que o policial, ao acertar um tiro nos costados de algum marginal, o faz sempre por motivo torpe, mesmo que o facínora esteja correndo e atirando para trás; e nem sempre o policial pode se proteger, restando-lhe tão-somente reagir à agressão injusta, mas de difícil senão impossível comprovação posterior. A não ser, claro, que o tiro do bandido o acerte em cheio, como ocorreu com o PM Jair Gonçalves dos Santos2, meu comandado, no centro de Madureira, em 1989... Deixou viúva e quatro crianças na orfandade. E de lá para cá, quantos policiais civis e militares morreram alvejados por fuzil? Por que a preocupação somente com a redução do número de bandidos mortos?... Vinte anos... Em 1989, ao apreender um fuzil AR-15 na Favela de Acari, alertei para as consequências futuras da banalização do uso de armas de guerra por bandidos. Não fui ouvido; ou melhor, depois (1993) puseram um bandido do Comando Vermelho a instituir uma versão mentirosa do fato com fins retaliativos a mim endereçadas em malícia, sendo desnecessário dizer quem era o governante... Como se vê, não é tão simples julgar o comportamento do policial a partir de opiniões afastadas da verdade que ele enfrenta no seu dia a dia. Não significa que o nobre objetivo de diminuir os índices alarmantes de mortalidade a tiros no RJ não seja perseguido. Pode e deve ser, sim! A começar por um maior controle das ações de pequenos efetivos (PATAMO, PAMESP etc.) em favelas. Nem a antiga regra do Manual Básico do Policial-Militar (M-4)3 restringindo as incursões em favelas a duas PATAMOS comandadas por oficial subalterno (tenente) pode ser hoje legitimada pela corporação. Aliás, esse manual ainda ensina a arrombar porta de barraco como se não fosse lar.
Exagero?... Não, não exagero! Eis o que prescreve o M-4 posto em vigor no ano de 1983: “Art. 146 – A ação em favelas deve ser executada com 2 (duas) viaturas do PATAMO, no mínimo (...) 9) ao ter de arrombar a porta de um barraco, não entrar logo em seguida, pois a diferença da iluminação exterior para o interior causará dificuldade visual que poderá ser fatal.” E no Parágrafo único do Art. 150 do mesmo M-4: “Se for utilizada mais de uma viatura PATAMO para o patrulhamento conjunto, o Comandante será um Oficial Subalterno.” Enfim, já em 1983 (durante o primeiro Governo Brizola, em que as ações policiais em favelas eram desaconselhadas e muita vez proibidas), barraco não era considerado nada além de local perigoso a ser “arrombado”. Não me ocorre que esse M-4, reeditado em 1987, haja sido revogado; e mesmo que tenha sido, ele continua a circular nos bastidores da PMERJ não sei em que intensidade de influência. Então, a questão prende-se ao seguinte: que prescrições de conduta individual e coletiva há atualmente em vista da Carta Magna? Deixando de lado a apatia institucional, mesmo quando era para valer a regra do oficial subalterno comandando incursões em favelas nunca foi levada ao pé da letra. Na época em que comandei o 9º BPM (abril de 1989 a abril de 1990), exigi o cumprimento do Art. 150 do M-4, e foi bastante, porque, para reunir duas guarnições de PATAMO (cobriam setores diferentes e distantes) só com motivação real e escalação prévia de oficial subalterno. Demais disso, eu participava rotineiramente de operações (“cerco e estrangulamento”, “martelo e bigorna” etc.). Trabalhava, porém, com alvo certo e aparato superior ao dos marginais para evitar confrontos desnecessários (como aconteceu no Complexo do Alemão). Não raro, todavia, enfrentávamos alguma reação de “soldados do tráfico”, bem mais para dar tempo aos comparsas de ocultar a droga. Ou então era uma covarde correria. Não houvesse tiros, seria como o rapa atrás de camelôs... E que seja assim hoje e futuramente, para que os índices de mortalidade diminuam!...
__________________
1. MORENTE, Manuel Garcia – FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA – Ed. Mestre Jou, São Paulo-SP, 1930, pp. 23-24.
2. Morto por um só tiro, em 08.08.89, em Madureira, disparado por um assaltante de ônibus. Trabalhava no trânsito quando foi acionado por populares. Partiu no encalço do ladrão, que, ao se ver quase alcançado, sacou uma arma da bolsa que carregava e atirou para trás, por cima do ombro, acertando a testa do miliciano. Já no hospital, eu ainda guardava a esperança de que ele sobrevivesse. Mas veio a enfermeira e meneou a cabeça em gesto negativo. Ele expirou diante de mim. Eta momento difícil!... Não pegamos o assassino. (Texto do meu livro Cavalos Corredores – a verdadeira história).
3. MANUAL BÁSICO DO POLICIAL MILITAR (M.4) – Ato do Comandante-Geral da PMERJ (Cel PM Carlos Magno Nazareth Cerqueira), de 05 de dezembro de 1983, aprovando e determinando a impressão. Gráfica da PMERJ, edição de 1987.