segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"A Revolução Beltrame" II


Hoje o Jornal O Globo retoma um pouco a realidade das UPPs como contraponto, talvez, aos exageros de ontem (domingo). para a compreensão do todo, creio que basta a leitura dos textos em destaque e seu cotejo com o artigo e com as matérias jornalísticas que postei ontem, sempre ressalvando que sou favorável às UPPs: vejo-as como marco positivo de mudança operacional na PMERJ. Lamento, porém, que em cada local com UPP não haja uma Delegacia Legal da PCERJ para garantir a varredura do ambiente com o "pente fino" da investigação criminal, de modo a vencer obstáculos como os enfrentados ainda hoje no Complexo do Alemão. Isto porque ausência da PCERJ com estrutura permanente culmina por produzir efeitos danosos em suas incursões em favelas, volta e meia com a morte de inocentes, tal como ocorre com a PMERJ em locais onde não há UPPs. Na verdade, a UPP cuida apenas do continente da criminalidade. Compete à PCERJ cuidar do conteúdo, o que não está sendo feito. Em havendo a permanência da PCERJ com uma "Unidade e Investigação Criminal" (UIC), que invento neste instante por saliência, teríamos nas localidades ocupadas por UPP a garantia do ciclo completo de polícia à disposição da comunidade. Quem sabe a Rocinha não seria bom lugar para começar um novo momento?...

domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre “A Revolução Beltrame”

























Trata-se de artigo publicado pela Revista ÉPOCA (21nov2011), de autoria de Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP, professor da Fundação Getúlio Vargas (SP). Aborda o professor, com entusiasmo, o sucesso das UPPs, com o foco no seu ineditismo, e, principalmente, esbanjando aplausos ao secretário de segurança pública José Mariano Beltrame, bastando a provar o título do artigo... Nem tão coincidentemente assim, o Jornal O GLOBO (27nov2011) surge com uma chuvarada de elogios às UPPs, com destaque em primeira página. Do calhamaço de linhas postas em páginas suficientes para embrulhar muitos peixes, interessam-me as entrelinhas. Nelas, talvez haja alguma verdade substancial em meio a tanta efusividade. Na verdade, a chuvarada de messiânicos elogios às UPPs e ao secretário Beltrame lembra-me a máxima do ignominioso arquiteto da propaganda nazista Joseph Goebbels: “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade.” Vamos então às entrelinhas, claro que sem reproduzi-las todas para não cansar o leitor.






Entre as mentiras e falácias contidas nos diversos textos sobre o tema emerge o “método estatístico” utilizado por seus signatários, decerto os melhores jornalistas que fazem a cobertura diária da segurança pública. O título da primeira página é um primor de sensacionalismo: UPPs completam três anos e reduzem mortes em 50%. Em seguida, vem o subtítulo em letras menores: Rio teve menos 11 mil roubos em 38 bairros vizinhos às favelas. Trocando em miúdos, até agora existem 17 UPPs no ambiente representado pelos 38 bairros, em maioria absoluta situados na Zona Sul, dentre os 160 bairros existentes na capital, excetuando-se os arremedos de comunidade que ainda não ganharam o status de bairro. Nem vou comentar sobre os 92 municípios do RJ e muito menos pretendo listar a quantidade de bairros no estado inteiro ou somente no Grande Rio, dados facilmente capturáveis na internet. Atenho-me aos 38 bairros citados e ao inegável sucesso de uma modalidade de policiamento de proximidade (nenhuma novidade) pela primeira vez tornada realidade no RJ, claro que por salutar iniciativa do atual governo e seus gestores na pasta da segurança pública. Entretanto, uma coisa é lidar com o realismo, outra é fantasiar, como vem fazendo o Sistema Globo com vistas a conquistar o mundo tendo como arma suas bolhas de sabão.
Não que as UPPs sejam efêmeras, mas sua generalização midiática, sim, é puro falsete, eis que fundada em ambiguidades e falácias estatísticas. Pior que isso, institui mecanismo adequado a um discurso unívoco que nem mesmo se baseia nos dados estatísticos do ISP recentemente contestados por um economista. Tal incômodo chegou a gerar ameaçadora notinha de processo judicial, no Ancelmo Gois, que indiretamente sugere ao economista calar a boca, como se contestar dados estatísticos do ISP fosse crime. Ora, eu, por exemplo, contesto a estatística usada como fim e não como instrumento, dentre muitos, de aferição para novos planejamentos ou correção de rumo de ações planejadas. Portanto, para mim todos que fazem uso da estatística como fim incorre em erro fundamental que um dia virá à tona como fracasso ou tragédia. Não creio, por conseguinte, que o Sistema Globo esteja sendo útil à sociedade com tanta apologia a um experimento que vem dando certo, mas é limitado na sua prática; porque, para início de conversa, depois de elogiar tanto, o jornal nem pode destacar o inverso disso, e a tendência será a de ignorar os fatos criminosos e as falhas institucionais da segurança pública para não macular os exagerados elogios. E chegam a ser hilariantes as opiniões sobre os “vícios” do velho PM em contraposição à “pureza” dos novos, como se a sociedade fornecesse à PMERJ frutos somente sadios para o exercício da atividade policial em UPPs. Ora, faça-me o favor!...
Quantos bairros existem no Grande Rio?... Sei que na capital são 160, em São Gonçalo, 90, em Niterói, 48, em Nova Iguaçu, 91. Enfim, salvo pequenas correções, somente o somatório desses municípios alcança 229 bairros. Se acrescentarmos os bairros da capital não privilegiados com UPPs, teríamos 351 bairros, isto crendo no critério do benefício indireto das UPPs indo além do ambiente específico das favelas onde estão instaladas, o que parece ser verdadeiro. Agora, medir estatisticamente a incidência ou a não incidência de crimes da forma como se nos apresenta o vasto noticiário me parece absurdo. Que elogie o modelo de UPPs, vá! Que exalte o Dr. Beltrame como um “revolucionário”, aí não! Isto é exagero, e perigoso, pode prejudicar em vez de ajudar, já que os políticos profissionais não amam a concorrência. De modo que a indagação dos entrevistadores ao governante sobre a hipótese de o Dr. Beltrame vir a ser candidato a governador não mais serviu que bela saia justa. Obrigou o governante a apontar seu candidato predileto e deslegitimar o secretário Beltrame, cá entre nós com ótimas chances de vencer todos os demais candidatos somados, a permanecer o vendaval de notícias a seu favor. Afinal ele hoje representa “A Revolução Beltrame” aludida pelo cientista político na ÉPOCA e replicada em algum ponto das matérias em comento, quando alguém afirma estar o Dr. Beltrame comandando uma “revolução” na segurança pública. Hum... Que entrelinhas!... Quem sabe não seria interessante o ilustre gaúcho tomar assento na primeira cadeira do Poder Executivo?... No fim de contas, não seria o primeiro “messias gaúcho” a conquistar tal feito em tempos recentes. E, gaúcho por gaúcho, prefiro o atual, e acho até que votaria nele se o Sérgio Cabral endossasse o seu nome. Mas, ao que tudo indica, a alusão jornalística é mais uma bolha de sabão que o atual governante vai logo estourar com lança tão enorme quanto pontiaguda. Ah, tomara que a exagerada badalação não seque a pimenteira do gaúcho...



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

AD ULTIMA VERBUM

O texto a seguir é de autoria de Marcelo Adriano Nunes de Jesus, Professor de História em Bom Jesus do Itabapoana, Noroeste Fluminense. Ele é filho do saudoso Policial Civil Eurípedes Alves de Jesus, lotado na 29ª DP (Madureira) nos meus tempos de comandante do 9º BPM, lá pelos idos de 1989. Eurípedes era carinhosamente tratado por seus colegas policiais civis e militares como “Lobo Solitário” e “Índio”. Talvez a sua natureza reservada fosse em virtude de saudade da família distante, algo bastante compreensível, pois antes de tudo ele era um ser humano que soube educar seus filhos. O Professor Marcelo Adriano Nunes de Jesus possui um blog (www.pelasolidariedadeepelavida.blogspot.com) que bem traduz o seu caráter e sua preocupação com a vida. Nem por isso o Destino o poupou da tragédia e da tristeza que ele próprio retrata no seu lamento que ora transcrevo em solidariedade à sua dor de filho e irmão, dor simultânea, difícil de ser absorvida pelo mais elevado e religioso espírito. Espero, com o meu gesto, demonstrar minha solidariedade ao professor que conheci navegando na internet e que hoje tenho como amigo mesmo sem conhecê-lo pessoalmente. Ao querido amigo, um abraço, que desde já amplio ao ferir a emoção dos que me visitam por aqui. Que seu pai e seu irmão descansem em paz!

Marcelo Adriano Nunes de Jesus


AD ULTIMA VERBUM


O irmão, "Pingo" (Policial Civil do DF), falecido precocemente.


Apesar da sua inevitabilidade, sempre nos surpreendemos quando a hora derradeira chega e mais ainda quando atinge pessoas que amamos. Não imagino a dor de um parto, porém, mesmo sendo do sexo masculino, tive a nítida sensação das dores de um parto ao contrário quando recebi a notícia da morte do meu pai e vinte dias depois a dor se repetia mais intensamente quando informado da prematura morte do meu irmão caçula.
O Pingo, como era conhecido entre familiares e amigos, era uma pessoa espetacular, quem o conheceu sabe o quanto ele era doce e encantador.
Aos dezenove anos, aventurou-se em um amor conhecido, em Copacabana, que o fez deixar seus familiares e o Rio de Janeiro para adotar Cuiabá, capital do Mato Grosso, como seu novo lar. Daquele amor nasceram duas lindas meninas, Emanuelle e Estela, mas o casamento não durou o tempo que um dia se jurou durar, e como tudo na vida um dia ele também chegou ao fim.
Sua maneira de ser contagiava a todos que o conheciam, que viam naquele menino a mais pura expressão de alegria, solidariedade, coleguismo e profissionalismo, mas sua vida não foi nada fácil nem tampouco glamorosa no coração do Brasil. Foi vendedor de chocolates, de motos, de sanduíches, morou em igreja por falta de dinheiro para pagar aluguel até o dia em que resolveu estudar e prestar concurso para a Polícia Judiciária Civil daquele estado. Nunca incomodou sua família em nada. Muitos dos seus problemas só tomamos conhecimento anos depois de ocorridos.
Ficou durante 10 anos no Grupo de Operações Especiais – o GOE. “Ad Ultima Verbum”, a última palavra em recursos policiais especiais. Durante esse tempo colecionou cursos de especialização os mais diversos, desde tripulante de aeronaves a operações com explosivos e cães, passando por operações subaquáticas e tantos outros, porém, mais importante que os cursos foram os amigos que ele não parava de somar em sua vida, e isso ficou patente em seu funeral.
É, meu irmão era muito querido. Quando eu, meu outro irmão Marcio e meu tio Jorge chegamos a Cuiabá, pensamos estar na capela errada, dada a enorme quantidade de pessoas presentes no local. Era polícia de tudo quanto era lugar, até policiais do BOPE – grupo de elite da Polícia Militar – se faziam presentes para o último adeus ao meu irmão. Era visível a consternação nas faces das pessoas, ninguém conseguia entender como uma morte estúpida havia ceifado a vida de uma pessoa tão cheia de vida e com tanto vigor.
Viaturas de diversas delegacias lotavam o pátio do estacionamento da capela e tão logo chegamos fomos literalmente abraçados pela família “pol”. Viaturas foram colocadas à nossa disposição e apesar do Marcio também ser policial e integrante do grupo de elite da Polícia Civil de Brasília, no DF, policiais fortemente armados faziam a nossa segurança e dos demais presentes.
Nossa única preocupação foi a de consolarmos uns aos outros. Agora era somente eu e o Marcio. A Polícia Civil arcou com todos os trâmites e despesas do funeral. Se me perguntarem o custo de uma coroa de flores eu não saberia responder. Eram várias em sua capela. O enterro do meu irmão parecia o de uma alta autoridade, o local onde seu corpo estava sendo velado era o mais belo da cidade. Mesmo tendo falecido por embolia pulmonar em um hospital público, a delegada titular da delegacia de homicídios determinou que o corpo fosse enviado ao Instituto Médico Legal para realização de necropsia e um inquérito policial foi aberto para se averiguar as circunstâncias e eventuais responsabilidades.
Na verdade, essa breve narrativa é uma justa, mas aquém homenagem à Polícia Civil do Estado de Mato Grosso. A corporação que meu querido irmão fazia parte e tanto amava fez jus ao amor que por ela ele sentia. Os homens e mulheres de preto não deixaram escapar nenhum detalhe. Tudo estava perfeito, exceto a presença da morte e da dor que sentíamos e que jamais nos abandonará.
Confesso que para mim está sendo muito difícil escrever, mas pedi forças a Deus para que através deste texto pudesse agradecer a cada policial, a cada autoridade em suas determinações para que as circunstâncias da morte do meu irmão fossem apuradas e esclarecidas, e sobretudo pelo o amor de todos vocês pelo nosso querido “Júnior”, o que ficou bastante claro pelas atitudes tomadas e pelo carinho a nós dispensado. Muito obrigado!
Por último, espero um dia voltar a Cuiabá e abraçá-los pessoalmente, talvez demore um pouco, mas estejam certos que nunca iremos esquecê-los. Fiquem com Deus e até breve.

Marcelo Adriano Nunes de Jesus

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sobre a boiada do RJ vendida ao Bradesco



Ontem passei a parte da tarde no Ginásio Caio Martins, Niterói, a cumprir rotina de abertura de conta no banco Bradesco mediante ordem. Malgrado o esforço dos funcionários do banco para agradar a todos, não pude deixar de enfiar meu olhar crítico para alguns pontos. Um deles se resume ao descarado descumprimento da lei do idoso. Com certeza, a velharia se sentia como condenada ao fuzilamento com o direito de se postar na estaca de fraque e cartola... Tudo muito arrumado em piquetes graciosos, predominando o infernal vermelho, claro, mas não havia nenhum esquema para atender a quem por direito de idade tem precedência. Daí, vi gentes envelhecidas sendo tratadas em igualdade de condições com os jovens. Nem reclamo do meu caso, que se insere no contexto de uma velhice de direito que me recuso a assumir de fato. Falo de pessoas mui antigas na face da Terra, mais para dentro dela que para fora, que no Ginásio Caio Martins subiram escadarias e pacientemente esperaram o anúncio da senha sem qualquer preocupação com cegueira, surdez, cardiopatias, isquemias, artrites, artroses etc.

Mais azar para os cegos e/ou surdos: não podiam acompanhar aquela espécie de “sorteio” em que a sua senha agonizava e não aparecia na telinha da tevê nem para identificação por alguém mais novo e interessado em ajudar os deficientes auditivos e visuais. Confesso que quase me insiro no exemplo do cego/surdo, embora seja também cardiopata devidamente operado, dentre outros defeitos da velhice. Foi por pouco que consegui enxergar o número e a mesa quando anunciado o meu “abate”. (Ó que saudades dos meus tempos de instrutor de tiro! Eu acertava todos na mosca, mas hoje nem sei por onde anda a minha arma...). Aliás, ninguém se propunha a ajudar ninguém. Cada qual cuidava de manter a atenção na telinha onde surgiria a salvação do atendimento do “passageiro” por uma “estação”. A partir desse momento, o passo acelerava e nem dava tempo de raciocinar. No guichê da “estação”, a funcionária treinada emendava um tema ao outro e ia enfiando papelada à assinatura. Atordoado, exausto de tanto esperar, fui rubricando tudo, e creio que assinaria até minha demissão da briosa, tal era a minha vontade de pular fora daquele abatedouro de carnes humanas tornadas “filé mignon” por obra e graça do atual governante e seus assessores, um dos quais, dizem à surda, hoje ocupando alto cargo no Bradesco. Verdade?... Coincidência?... Não sei...

Sei, porém, que não enxerguei em meio aos piquetes lotados de gentes simples nenhuma figura de alto talante. Ninguém de terno e gravata... Não vi nenhum embleminha do lado esquerdo do paletó indicando essas poderosas autoridades, que, ao que parece, foram poupadas do incômodo e conseguiram atendimentos personalizados, embora sejam servidores públicos como quaisquer outros integrantes da arraia-miúda. Bem... Pode ser que eu não os tenha visto porque estou ligeiramente cego de um olho por maculopatia crônica (pode ser redundante dizer que maculopatia é crônica, mas vá, não sou médico e estou perdoado!). Mas que não vi ninguém de alto talante, é a mais pura verdade! Não vi, mesmo, as gentes engravatadas por conta do nobre exercício de suas funções; e omito suas características funcionais por medo deles e delas. Fico cá, em minha humildade de gado velho, tal como fui tratado: gado de corte, talvez com pinta de nelore PO, mas na fila como qualquer exemplar pé-duro. Mas, por amor à verdade, afirmo que o tapete vermelho era privilégio de todos...

... Todos... Ah, que rebanho! Nada mais que rebanho sem vontade, cena que jamais ocorreria na Europa sem turbamulta a protestar quebrando tudo. Mas aqui é o Brasil, aqui é o Estado do Rio de Janeiro: apinhado de políticos larápios (qualquer dia desses cito seus nomes e apelo para a “exceção da verdade”, se processado por algum dos citados). Aqui é piquete que se reporta à Casa-Grande e à Senzala dos idos coloniais, imperiais e republicanos, tudo idêntico, sem tirar nem pôr... E assim, pensando assim, é que abri ou me abriram uma conta associando-me em viés a uma agremiação particular contra a minha vontade e por determinação de quem ignora os mais elementares direitos do cidadão, sendo um deles o insculpido no Art. 5º, caput, Inciso XX: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) XX - ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado;”

Enfim, que venham os sábios do Direito Constitucional e outros dotados da sapiência jurídica para ilustrar minha ignorância e aplacar minha indignação. Pois entendo que fui obrigado a me associar a um banco particular contra a minha vontade, que é diferente da vontade do governante, sem essa de dizer que “venceu o melhor banco na licitação”, resposta mui simplória ante a envergadura da negociação de bilhões e bilhões de reais envolvendo interesses pessoais, profissionais e familiares de milhões de brasileiros servidores públicos estaduais reduzidos a gado de corte sem mais nem menos, sem muita explicação e nenhum respeito à dignidade da pessoa humana.




Ah, não revisei o texto. Estou muito velho e não posso perder tempo com revisão de nada. Vai ao mundo como me veio ao atino ou ao desatino!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O mal do radicalismo

Radicalismo sugere antagonismo, o que nos permite supor que um é capaz de alimentar o outro e ambos não são saudáveis. Não seria demais acrescer como gerador de efeitos semelhantes o maniqueísmo, pela mesma razão que situa opostos como bem e mal, luz e trevas etc. Quando algum tema se situa nesses extremos, a tendência é a de seus defensores se rivalizarem enclausurados em seus conceitos e preconceitos, tornando-se ambos cegos em relação ao contexto.
Todo extremo é perigoso porque, via de regra, é exageradamente emocional. E quando se prende ao emocional descamba para o sensacional, e aí a desrazão ocupa o lugar da razão e segue danificando o que lhe vem à frente em oposição belicosa e inflexível. Pior é que a humanidade está sempre partida ao meio no que aparentemente seria “racional” ou “irracional”, sendo certo que ambos culminam afetados pela mesma emoção ao defenderem suas trincheiras fixas. Porque não há diálogo possível entre esses dois subsistemas que se encouraçam em absoluto hermetismo. Pesa então a ideia de quem detém mais força é quem se define como vencedor desde que o mundo é mundo.
O introito é para provocar uma acelerada discussão, sei disso. Mas não a posso evitar, eis que me vejo obrigado a me situar como contraponto ao discurso fechado do delegado federal que o assina. Destaco, então, o artigo publicado no GLOBO de hoje, 21 de novembro de 2011, de autoria do delegado federal:




Decerto o ilustre delegado federal jamais se viu injustamente acusado por marginal contumaz manipulado por sistema estatal criminoso. Portanto, sua posição é deveras cômoda ao expor seu ponto de vista. Claro que concordo com ele que policiais traidores devam receber punição exemplar. Por mim, deveriam até ser fuzilados. Porém, confiar num traidor da sociedade para tal desiderato, que pode incluir sua manipulação para retaliar desafetos (são muitas as dissidências entre bons policiais até na instituição dele) é algo temerário em todos os sentidos. Já vi esse filme, ou melhor, fui vítima de algo ignominioso assim: um nefasto conluio havido no RJ entre uma horda brizolista e um bandido da cúpula do Comando Vermelho, facção criminosa que abertamente apoiou a eleição do caudilho depois de entendimentos havidos na Ilha Grande, como denuncia o jornalista Carlos Amorim em seu livro (que não é ficção e não recebeu de mim nenhuma influência direta ou indireta): Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado:



Pág. 148: Anunciou uma política de preservação dos direitos humanos, numa cidade onde os grupos de extermínio agem abertamente. Colocou na Secretaria de Justiça um ex-perseguido político e companheiro de partido, Vivaldo Barbosa. (...). Brizola chega a nomear um ex-preso político da Ilha Grande, José Carlos Tórtima, Diretor de Presídio. O crime organizado explorou com habilidade cada uma dessas demonstrações de civilidade do governo estadual. (...)



Págs. 148/9: Os limites impostos à ação policial nos morros da cidade permitiram o enraizamento das quadrilhas (...). A paz no morro é sinônimo de estabilidade nos negócios. (...). Mas o respeito ao eleitor favelado - que decide eleições no Grande Rio - ajudou indiretamente na implantação das bases de operação do banditismo organizado. (...). Estava determinado a consolidar a base política que se apoiava enfaticamente nos setores pauperizados. Na eleição de 82, pesou o apoio da Federação das Favelas (FAFERJ) e da Federação das Associações de Moradores (FAMERJ). Mas o fato é: o crime organizado usou tudo isso para crescer. (...). O desenvolvimento do Comando Vermelho foi o subproduto de uma Administração que respeitou o cidadão. (...)



Pág 149: Na Ilha Grande, diante de toda a imprensa, um acontecimento insólito: a autoridade pública é recebida por um dos Vermelhos, um dos novos xerifes da prisão, Rogério Lengruber, o Bagulhão. O representante do Comando Vermelho veste bermudas, camiseta e sandálias havaianas. Mete o dedo na cara do Secretário de justiça e comunica a ele que os presos estão cansados de ouvir o blábláblá do governo. Esperam medidas concretas e imediatas. (...)



Pág. 157: No dia 30 de setembro, uma quinta feira, os homens de confiança do Governador Brizola se reúnem secretamente num anexo do Palácio Guanabara. O motivo do encontro é a incontrolável violência nas cadeias. A conversa a portas fechadas dura toda a noite e parte da madrugada. Estão presentes o Secretário Vivaldo Barbosa e seu Subsecretário Antônio Carlos Biscaia.



A folha penal do marginal merece destaque, para que o ilustre delegado, que, diferente de mim, não foi o alvo da horda (passei dez anos da minha vida para provar a trama do sistema situacional criminoso que utilizou a “delação premiada” contra mim. Posso hoje afirmar a trama porque a provei na Justiça, nos termos de sentenças transitadas em julgado que pode e devem ser lidas no meu site (www.emirlarangeira.com.br). Que leiam então a folha penal do facínora do CV tornado herói por oficiais e praças da PMERJ, delegados de polícia e tiras, promotores de justiça, facções brizolistas da mídia e outras pragas que se prestaram à tramóia por razões puramente retaliatórias contra quem combatera o tráfico como manda o figurino, ou seja, sem acordos ou flexibilidades convenientes (refiro-me a mim mesmo):




FOLHA DE ALTERAÇÕES DE IVAN CUSTÓDIO NO EXÉRCITO BRASILEIRO




Incorporou em 15/01/75 NO 20º Bat Log PQD, função motorista, soldado 1.055, Cia Mat Bel. PQDT em 09/12/75. Transferido p/ofício nº 894, de 05/12/75, para o 27º BI. 09/11/76 – Luto genitora em 04/fev/76 a 12/fev/76. REENGAJOU POR 02 (DOIS) ANOS A CONTAR DE 15/01/76.
A 10 dez, em Bl 231, publicou que faltou ao quartel desde o dia 08 dez 76, completando 24 horas no dia 9/dez de ausência. A 238 (Nr Bl) de 27/dez/76 - publicou ter deixado de se apresentar no quartel por término de férias chegando a passar ausente Nr 28 do art. 13, transgressão GRAVE (preso por 15 [quinze] dias em separado) Ingressando comportamento MAU. A 07 jan 77, o BI nº 005, publicou que tendo chegado ao conhecimento através do Ofício Nr 47177, de 05 Jan 77, do Titular da 29ª DP cópia de ocorrência em que se viu envolvido o militar desta OM, na qual o mesmo foi preso em flagrante por roubo de automóvel conforme confissão feita espontaneamente pelo referido Soldado, não fora este o primeiro carro roubado fato este que caracteriza ser autor como indigno de permanecer nas forças armadas. Resolvo com base no nº 2 do Art. 141 da RLSM de acordo com a letra C do parágrafo 2º, do nº 2 do Art. 125 do E/1, licenciá-lo a bem da disciplina, e posteriormente apresentá-lo a 29ª DP, por onde correrá o inquérito sobre as atividades em que o Sd em tela é indiciado. Em consequência licencio a bem da disciplina pela prova de ato indigno contra o pundonor militar que o incapacita de permanecer nas fileiras do E B, de acordo com o Nr 2 do Art. 141 do RLSM letra C do parágrafo 2º do Nr 2 do Art. 125 do E/1 (Idt 0131502-5) Ivan Custódio Barbosa de Lima, filho de Walter Custódio de Lima e Margarida Barbosa, nascido em 01 Fev, bras, solt, cútis pard cl cabelos cast/esc e crespo olhos cast esc. Declarou residir à Rua Lambarí, Nr 117 – Madureira – RJ. Recebeu Certificado de Isenção Nr 45.829 Série A – Licenciado.





FOLHA PENAL DE IVAN CUSTÓDIO BARBOSA DE LIMA
RG 03418.380-6




1. Rio de Janeiro:

1.1. 1ª VC 28/12/76 – Ofício nº 4301 da 29ª DP Madureira. Art. 157 § 2º incisos I e II. Proc. 34656 – Flag. 1057/76 – Cond. 05 anos e 04 meses a regime de reclusão fechado. Comparsa: CHAPELÃO.

1.2. 19ª VC 22/04/77 – Proc. nº 32453. Inq. Nº 59 da DRF. Art. 157 Par. 2º incisos I e II – Comparsa: CHAPELÃO.

2. Mato Grosso do Sul – Proc. 002/82 – tipo comum – arts. 155 e 304 C/C 5l do CP. Trans. Julgado – Não consta multa. Mandado: expedição 06/08/82 – Incid. Penal art. 155 CP. Clas. Condenação prescrição – 05/07/82.

3. São Paulo: Inq. 683/83 - 03ª DP - 22.06.82 Inst. 26/04 - Tipo Policial Portaria.

3.1. Campos Elíseos: Vítima Yaeke Miura – Inc. Penal Art. 155 CP – Proc. 371/83 – Decisão 21/12/84 – tipo comum – 11ª VC Inc. Penal Art. 155 CP RG 14. 218.247-3 Trans. Julgado – Não consta multa. Trans. Julgado – absolvido.

3.2. São Paulo (Capital): Inq. Nº 0097/83 – Del. 01ª DP – Fato 07/12/82 Inst. 26/04. Tipo: Policial Portaria – vítima José Bueno Alves. Inc. Penal Art. 155 § 4.

3.3. São Paulo (Capital): Inq. Nº 2937/83 Del Pol – Fato 11/07/83. Inst. 11/07/83 – Seq. 002 – Tipo: flagrante. Inc. Pen. Art. 012 da Lei nº 6368.

3.4. São Paulo – Capital: 9ª VC. Informação da Divisão Técnica de Distribuição e Informação Criminal DIPO 2, de 7 OUT 93: ESTELIONATO EM 24.12.80.

3.5. Baurú:

3.5.1. Inc. I CP. Art. 155 Par. 04 Inc. IV CP. Art. 180 CP. Inq. 0064/83 – Del. 01ª DP. Fato: 12.12.82 Inst. 10/82. Tipo: Policial Portaria – Vítima: Aparecido Belchior. Inc. Pen. Art. 155 Par. 04 Inc. I CP. Art. 155 Par. 04 Inc. IV CP; Art. 180 CP. Proc. 700/83 – Decisão 30.09.86 – tipo comum – Aut. Jud. 1ª VC – Transit. Julgado – Condenado. Inc. Penal – Art. 180 CP – Pena: 1 ano Reclusão. Trans. Julgado – Não consta multa – 1 Cruzeiro.

3.5.2. Proc. 700/83 – Decisão 18/06/91 - Tipo: Comum – Aut. Jud. 1ª VC – Extinção da Punibilidade. Inc. Penal – não consta – Trans. julgado: Não consta multa. Mandado: Seq. 002 Proc. 700/83 – Aut Jud 1ª VC Exp 04.12.86 – Pena 1 ano reclusão – Inc. Penal Art. 180 CP. Clas. Condenação prescrição; Situação: Existe CM Corresp. – Cumprimento. Contramandado – Aeq. 001 – Nº Proc. 700/83 Aut. Jud. 1ª V. C. Exp. 20.06.91. Motivo – Extinta a punibilidade.

3.6. Diadema: Condenado a 04 (quatro) anos de prisão fechada. Sentença Transitada em Julgado. Conduzia 117 Kg. de maconha. Proc. Nº 514/86 – Tipo: sumaríssimo – Nº Inq. 2937. Aut. Jud. 1ª VC – Art. 0012 da Lei de Entorpecentes – Trans. Julgado – Não consta multa.

4. OBSERVAÇÕES DO IDENTIFICADO:

4.1. Sinais Particulares: Seq. 004 – Descr.: Tatuagem no braço esquerdo e no peito.

4.2. INFORMAÇÕES GERAIS: Seq. 004 Qualificação indireta em 28/06/83. Inf. preso – Seq. 001 Informação 03/02/83. Histórico-Prisão: data: 28/01; local: Casa de Detenção – Motivo: flagrante. Inf. Preso – Seq. 002; informação 07/04/83. Histórico – Transf.: data 05/04 – Local Bataguassu – Motivo: cumprir Pena.

Eis agora a matéria jornalística figurando o parceiro do bandido Ivan Custódio Barbosa de Lima em dois assaltos a banco: CHAPELÃO, com a ressalva de que o comparsa de CHAPELÃO, de vulgo CACALO, assaltava com nada mais nada menos que Rogério Lengruber (BAGULHÃO), exatamente aquele que “peitou” os brizolistas da Ilha Grande, como denuncia Carlos Amorim. É possível ter dúvida?... Posto também um desenho demonstrando como eles se integravam na prática de crimes:





Nome: LUIS CARLOS DE SOUZA BARROS (“CHAPELÃO”)
RG 02625938




1) 23ª VC – Art. 155 CP – Proc. nº 4071 Inq. nº 60 da 27ª DP – Cond.: 02 anos e 06 meses.

2) 15 VC – Art. 157, par. 2º, I e II do CP – Proc. nº 10597 – Inq. nº 125/71 da 27ª DP – Cond.: 06 anos e 08 meses.

3) 11ª VC – Art. 157, par. I e II do CP – Proc. 26460 – Cond.: 05 anos e 04 meses. Comparsa: IVAN CUSTÓDIO BARBOSA DE LIMA.

4) 11ª VC – Art. 157, par. 2º, I e II do C. P. – Flagrante nº 1057/76 – Proc. nº 34656 – 29ª DP – Cond.: 08 anos de Reclusão – Comparsa: IVAN CUSTÓDIO BARBOSA DE LIMA.

5) 12ª VC – Art. 157, par. 2º, I e II e 288 C/C Art. 51 CP – Proc. nº 23436 – Inq. nº 65/72 da 27ª DP – Cond.: 07 anos de Reclusão.

6) 23ª VC – Art. 288 do CP e 19 da LCP – Flagrante 257/79 – Cond.: 03 anos e 08 meses

7) 19ª VC – Art. 157, par. I e II do CP – Proc. nº 32453 – DRF – Anulado. Comparsa: Ivan Custódio. Comarca de Angra dos Reis – Art. 12 da Lei 6368/76. Absolvido.

8) 11ª VC – Proc. nº 28021 – Inq. nº 89 da 17ª DP – Absolvido.

9) 8ª VC – Art. 157, par. I e II C/C Art. 288, Par. único C/C Art. 51 do CP – Proc. nº 45633 – Inq. nº 69/81, da DRF. Condenado 08 anos. Obs.: Neste assalto a quadrilha foi constituída pelos marginais Rubens Pereira da Silva e Luiz Carlos da Cruz (CACALO).

10) 19ª VC – Proc. 37777 – Inq. nº 109 da DRF, de 10/06/81. Absolvido.

11) 12ª VC – Inq. nº 108/81 DRF – Proc. nº 018 – SEM CONDENAÇÃO.

12) 23ª VC – Proc. nº 16539. SEM CONDENAÇÃO.

13) 2ª VC – SERRA C. ESPÍRITO SANTO – MANDADO DE PRISÃO nº 318/83 – Art. 157, par. 2º, I e II C/C Art. 44, I, todos do CP. Mandado expedido em 16/01/84.




Nome: LUIZ CARLOS DA SILVA ou JORGE LUIZ DA SILVA (CACALO)
RG 3 209 825




1) 2ª AUDITORIA DA MARINHA – Art 27 do Dec. Lei 898/69 – Proc. 395/75 – Condenado 07 anos e 03 meses;

2) 6ª VC – Art. 155, par. 4º, IV do CP – Proc. (?) – Cond. 08 meses.

3) 15ª VC – Art. 48 da Lei 898/69 – LSN – Proc. nº 17468 – Alvará de Soltura da 15ª VC.

4) 16ª VC – Art. 157, par. 2º, I e II do CP – Proc. nº 38180 – Cond.: 11 anos e 05 dias.

5) 20ª VC – Art. 157, par. 2º, I e II do CP C/C Art. 51, par. 1º do CP. – Proc. nº 30309 – Cond. 08 anos e 09 meses.

6) 22ª VC – Art. 157, par. 2º, I e II e III C/C Art. 12, II do CP. Proc. nº 13072 – Cond. 08 anos.

7) 27ª VC – Art. 157, par. 2º I e II do CP – Proc. nº 39106 – Cond.: 11 anos e 10 meses.

8) 14ª VC – Art. 157, par. 2º, I e II C/C Art. 25 do CP – Proc. nº 17522 – Cond.: 09 anos.

9) 19ª VC – Art.157, par. 1º, 2º, I e II e 3º e Art. 329 do CP – Proc. nº 35806 – Cond.: 10 anos e seis meses.

10) 15ª V.C. Art. 129 e 354 C/C 51 do C.P. Proc. 39225 Cond. Absolvido

11) 08ª VC – Art. 157, par. 2º, I e II C/C Art. 288, par. único – Proc. nº 45633 – Cond. 08 anos – comparsa: CHAPELÃO.

12) 23ª VC – Arts. 297 e 304 do CP – Proc. nº 16637 – Cond.: 03 anos.

13) 35ª VC – Proc. nº 027 – Inq. nº 113/81 da DRF – Flagrante 480/87, da 13ª DP, em 16/07/87.

14) 27ª VC – Art. 157, par. 2ª, I e II do CP – Proc. nº 51448 – Cond.: 10 anos e 06 meses – comparsa: BAGULHÃO.

15) 23ª VC – Art. 19 da LCP – Proc. nº 22325 – Inq nº 336 – Extinta a punibilidade.


CONCLUSÃO


1) O marginal Luiz Carlos de Souza Barros, que tem vulgo de CHAPELÃO, foi comparsa da "testemunha-chave" Ivan Custódio Barbosa de Lima no primeiro e no segundo assaltos relatados é da cúpula do Comando Vermelho.


2) O co-réu citado Luiz Carlos da Cruz, que figura no processo da 8ª VC, é CACALO, do Comando Vermelho.


3) CACALO é co-réu de Rogerio Lengruber (BAGULHÃO) em assalto a banco, ambos enquadrados na Lei de Segurança Nacional. BAGULHÃO foi assassinado em Niterói no ano de 1992.



domingo, 20 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sobre o Nem da Rocinha e sua personalidade psicopata

Eis o artigo da colunista Ruth de Aquino denominado “Meu encontro com Nem”. Nele, a importante articulista registra algumas opiniões do bandido deveras interessantes: transmitem a falsa ideia de ser ele um primor de ser humano; enfim, capaz de sentimentos nobilíssimos. Espaço largo, sem dúvida, em que o facínora sugestiona o leitor a imaginá-lo “gente boa”, capaz de amar a família e idolatrar o ex-presidente Lula, demais de rasgar elogios ao Secretário Beltrame, exaltar as UPPs, e negar que trafica crack (o resto ele pode), dentre outras balelas visando a projetar na mente dos leitores (milhares) uma imagem positiva, a ponto de dizer, descaradamente, que não vai para o inferno. Enfim, a colunista, talvez empolgada com o ineditismo da entrevista, não parou para pensar no efeito danoso do seu artigo exaltando um dos piores marginais da lei dos atuais tempos. Bem, a matéria em comento está no topo deste comentário, que neste ponto traz à lide outro colunista global (Arthur Dapieve) focando o tema por uma ótica mais realista e menos ingênua. O título do artigo, que também destaco, se reporta a uma dedução da colunista (“O traficante tranquilo”).

Curioso é que na mesma Revista ÉPOCA, que guardo na memória do meu computador, em 1º de outubro de 2007 (página 83), há um importante artigo de Susan Andrews, que igualmente reproduzo, posto falar mais forte que qualquer palavra que eu possa acrescentar. Deixo para os leitores esta incumbência crendo no tirocínio de cada um. Ponho-o no final para enfeixar a realidade que me preocupa e que se prende ao dizer do bandido sobre a corrupção policial que compõe o cenário do tráfico na Rocinha não é de hoje. O próprio Jornal O GLOBO em muitas matérias investigativas denunciou essa desgraça que assola como praga a polícia, não apenas a daqui, a bem da verdade, mas mundo afora, e seria injustiça afirmar que a corrupção policial é restrita à polícia do RJ.


Neste ponto, preocupa-me o fato de a sociedade estar diante de um inegável psicopata a ser talvez beneficiado com “delação premiada”, deste modo passando a gozar de regalias que lhe serão ofertadas para ao denunciar sua promíscua relação com policiais, muitos destes decerto conhecidos dele por razões inversas, ou seja, por combater o tráfico na Rocinha sem aceitar suborno.
Como separar o joio do trigo depois que o facínora abrir o boquirroto, honestamente, eu não sei. Mas sei que ele é psicopata nos termos da inferência abalizada de Susan Andrews, assim como estou certo de que no Brasil não há pena de morte, porque seria hora de negociá-la com o bandido oferecendo-lhe a prisão perpétua, pena fraca, cá entre nós, se aplicada em virtude do mal que ele já causou à sociedade. Tal consideração sobre esse testemunho de “Nem da Rocinha”, e para encerrar, pois já há três excelentes artigos lotados de pontos e contrapontos, vale citar alguns ensinamentos de Nicola Framarino Dei Malatesta, na sua consagrada obra "A Lógica das Provas em Matéria Criminal", Conan ed. (1995), Saraiva ed. (1960), somando-se a outro, de Atavilla (1959), ao fim e ao cabo das referências. Que cada um reflita sobre o assunto no fim de semana, e de preferência comente...



1) Malatesta - Vol. II, pág. 65:

(...) quando no texto de vários testemunhos se nota eumdem praemeditatum sermonem, esta identidade não natural de forma fará supor uma identidade de inspiração, um conluio anterior para estarem de acordo na afirmação de um fato. É esta uma outra causa formal de descrédito, que pode em certos casos até anular o valor probatório dos testemunhos, pois os conluios preliminares só se sucedem por meio do acordo das testemunhas mentirosas. As verdadeiras não precisam de conluio, são postas de acordo pela própria verdade.

2) Ibidem, Vol. I, pág 106/7:


Mas, ordinariamente, a sugestão se apresenta como violação da liberdade subjetiva da testemunha, e é por isso ilícita. A sugestão ilícita pode ser de três espécies: violenta, fraudulenta e culposa. A sugestão violenta sugere as respostas por meio do temor, a fraudulenta por meio do engano gerado pelo dolo do interrogante, a culposa por meio do engano pela negligência do interrogante. (...). Consideramos em geral a sugestão como violação da liberdade subjetiva do interrogado; mas ela é contrária à verdade mesmo quando possa eventualmente emprestar ao interrogado as armas para mentir, dando-lhe um conhecimento dos fatos que podem facilitar e tornar mais verossímeis suas mentiras.

3) Malatesta - Vol. II, pág 56 – Saraiva, 1960:

Há crimes que, pela sua natureza, exigem uma baixeza de espírito inconciliável com o senso moral, donde o ter sido condenado por tais crimes inspira suspeita sobre a credibilidade da testemunha; (...) crime revelador da frieza de cálculo e torpeza de ajuste; (... ) todas as condenações, em suma, por crimes que implicam uma torpe baixeza de espírito, não conciliável com o senso moral, são motivos absolutos de suspeita contra a testemunha.

4) (ibidem, Vol. II, pág. 213):

Sempre que, repetimos, a acusação em sentido genérico do cúmplice, se apresente como desagravo do acusado acusador, a suspeita na veracidade deste é legítima. Disto deriva que esta suspeita se tornará imensa quando prometida a impunidade pela revelação dos cúmplices; o impulso à mentira é tão forte que a lógica se opõe a fazer menção de tal chamada de cúmplice, cujo preço é a impunidade do delator. Mas, afortunadamente esta hipótese de impunidade como preço das revelações perdeu toda a importância ao se verificarem os seus graves danos.

5) (Ibidem, Vol. II, pág. 213):

A promessa de impunidade, contrato imoral entre as leis e o delinquente, além de ser um erro jurídico é um erro probatório; de um lado, incita ao delito, corrompe e perturba a sociedade com o espetáculo da liberação de um réu, que quase sempre não só é maior como mais perverso; do outro, perturba todo o critério probatório, gerando, por obra de leis, na consciência do acusado um impulso poderosíssimo para as falsas revelações.

6) Altavilla, in “Psicologia Judiciária”, 3º Vol., 1959, Armênio Amado Coimbra, pág. 180:

(...) a experiência judiciária nos previne de que há malfeitores audaciosos que têm a impudência de fazer narrações pormenorizadíssimas. E tenha-se presente que a veridicidade do pormenor também não é um elemento seguro para deduzir que seja verdadeira a indicação do co-réu, porque não é raro o caso de, num quadro perfeitamente conforme a verdade, se colocar um indivíduo que lhe é perfeitamente estranho, como acontece quando se pretende salvar o verdadeiro culpado.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

PARA O BOPE






Paz na Rocinha

Tô saindo de fininho
A barra ficou pesada
Vender bagulho em favela
Tá virando uma furada.

Eô, eô, eô,
O BOPE já chegou!
Agora não há mais guerra
É tudo paz e amor!

Tô na boa, larguei tudo
Agora vendo banana
Deu tempo de me salvar
Do tiroteio e da cana.

Eô, eô, eô,
O BOPE já chegou!
Agora não há mais guerra
É tudo paz e amor!

Não mais uso prataria
Pendurada no pescoço
Não sabia que a paz
É muito melhor, seu moço.

Eô, eô, eô,
O BOPE já chegou!
Agora não há mais guerra
É tudo paz e amor!

Tô feliz, muito contente
Não tem mais bala perdida
Os fuzis bateram asas
Em silêncio e despedida.

Eô, eô, eô,
O BOPE já chegou!
Agora não há mais guerra
É tudo paz e amor!




Emir Larangeira



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

“A PM TEM QUE ACABAR!”



A frase é do ator Wagner Moura encenando o papel dum tenente-coronel da PMERJ no filme Tropa de Elite II. Proferida do alto da Tribuna da ALERJ para uma platéia de deputados estaduais representados por figurantes e alguns atores, a cena seria impossível na realidade. Daquele lugar, e nas circunstâncias do filme, a encenação jamais ocorreria. Por outro lado, desde que concretizada, há nela uma objetiva intenção de torná-la verossímil para derrocar ainda mais a imagem da PMERJ; aliás, aflora igual motivação no primeiro filme, cujo mentor, sem dúvida, foi o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que renasceu do seu frustrado intento de mudar a polícia do Rio inserindo-se na SSP/RJ, em alto cargo comissionado, durante o Governo Garotinho. Suas peripécias na SSP/RJ foram por ele reproduzidas num livro intitulado “Meu Casaco de General”, oportunidade em que destila rancor contra a instituição policial que o expurgara por não aceitar seus métodos de mudança, não sei se bons ou ruins, não lhe deram poder nem tempo para nada.
Li o supracitado livro quando lançado e estou certo de que não se tratou de dissertação acadêmica. Pareceu-me lamento por sua infrutífera experiência política no âmbito da segurança pública. Por que ele se enfiou na realidade policial como gestor, não sei dizer. Daí talvez o acurado texto do referido livro não passe de desabafo, mera chiadeira de criança vitimada por bullying na escola sem conseguir provar nada depois... Mas, na esteira de incomprovadas ameaças de morte e do exílio voluntário, o autor retornou em apoteose. Já então despreocupado com os tais “atentados”, uniu-se a dois ex-oficiais do BOPE que da PMERJ se afastaram por motivos que desconheço. Também não me ocorre saber que mecanismos administrativos enfrentaram ou fizeram uso para abandonar a profissão, de modo que lhes respeito as razões mesmo as desconhecendo. Igualmente não vi nas informações que eles prestaram ao antropólogo nada que destoe da vida real da PMERJ. Na verdade, tudo até se superpõe tal e qual decalque da vida corporativa, ressalvados, porém, os desvios para mais ou para menos, que fazem parte de qualquer inferência bem ou mal intencionada. Mas são meros detalhes, o conjunto da obra (Tropa de Elite I e II) explodiu em sucesso, quiçá em virtude do enredo bem bolado, do magnífico desempenho dos atores e atrizes, do cenário real e dos mistérios desvelados... Enfim, uma gama de curiosidade que os livros e os filmes mui bem atenderam e fizeram jorrar público pagante nas livrarias e nos cinemas. Negar mérito a tal fenômeno é maluquice ou recalque. Não é meu caso...
Com efeito, o impacto da obra “Tropa de Elite” é inegável. Mesmo assim, e este é o ponto, minha impressão é a de que a obra não afetou a rotina da PMERJ. Tudo lá permanece estático, indiferente, como se insignificantes formigas tentassem morder sem êxito um distraído paquiderme... Sim, é impressionante que a PMERJ não se tenha reunido para discutir as estrondosas críticas refletidas na mente de milhões de brasileiros e estrangeiros. Ignorou-as e continua a ignorá-las, permanecendo fiel ao seu lema, que se resume a cumprir ordens superiores sem jamais as questionar. Sim, a PMERJ parece serviçal de políticos, e não uma instituição de preservação da ordem pública, como regra, e de restauração desta ordem pública, como exceção. Nos dois casos, porém, obedecendo aos ditames constitucionais, legais e doutrinários, e não se submetendo a vontades avessas à sua equânime finalidade de prestadora de serviços à população, claro que limitada por seus meios materiais e humanos. Quanto aos meios materiais e humanos, aliás, se postos ante os problemas que a PMERJ enfrenta no exercício cotidiano da manutenção da ordem pública, está evidente o seu fracasso organizacional, pois ela atua exaurindo homens e materiais para atender às demandas gananciosas da política, esta que, por sorte, consegue no momento encabrestar as Forças Armadas e outras instituições federais em desvio de função, tudo legitimado, em tese, até 2016 (Copa do Mundo e Olimpíadas). Passados esses anos dourados, seja o que Deus quiser!...
Mas não reclamo, apenas constato o fenômeno para afirmar que o ordenamento jurídico pátrio precisa mudar para não ser abalroado tão desmedidamente. Pois esse jogo político, se hoje parece bom, poderá ser frustrante no futuro. Porque a PMERJ é um isolado jogador diante da roleta dum cassino a vencer até sumir atrás das fichas; mas, de súbito, e num só lance de entusiasmo, e crendo no seu sucesso de semideus, ele empurra toda a montanha de fichas num número de sorte. E perde, e se mata... Sente o mesmo vazio dum piloto de avião que embica ao chão logo após os paraquedista saltarem e abrirem seus paraquedas... E o avião se espatifa ante o aplauso dos paraquedistas que acabara de transportar em segurança. E desaparece o aviador tal como o jogador... Enquanto isso, um prudente poupador de fichas e trunfos, que de longe torce contra o “jogador-aviador”, ao ver o avião projetar-se contra o implacável chão, brada em veemência: “Ele tem que acabar!” E são acesas as luzes do salão, e irrompem no cinema os entusiásticos aplausos dos que passam a almejar para a PMERJ um fim trágico: “A PM tem que acabar!”





FIM

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Coronel PMSC RR Marlon Jorge Teza - Presidente da FENEME



EX-PM É "EX", NÃO É MAIS


Como todos os leitores deste blog sabem sou Policial Militar no posto de Coronel PM, hoje na reserva remunerada, mas pertencente aos quadros da reserva remunerada da Polícia Militar como define a Constituição Federal (art. 42 combinado com 142 § 2° e 3°), o estatuto dos Militares Estaduais e a Lei de Organização Básica da PM.
Diante disso, ao longo do tempo (mais de 35 anos) tenho lido, ouvido e assistido a mídia quase sempre dizer e enfatizar: “um dos envolvidos é EX-PM” pretendendo, muitas vezes, deixar subentendido uma severa crítica à própria instituição Policial Militar.
Ainda nesta semana houve, no Rio de Janeiro, a prisão de um procurado e perigoso traficante por parte de policiais militares, sendo constatado que três policiais (policiais civis mencionados somente como policiais) e mais dois “PMs”, sendo um “EX-PM” e outro PM reformado que estariam escoltando a fuga do bandido. Ora porque mencionar o tal “EX-PM” como PM, não estaria aí presente a mensagem subliminar de que a instituição é composta na maioria por maus policiais militares. Isso tem que mudar.
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/expm-preso-por-ajudar-na-fuga-de-bandidos-atuava-no-trafico-havia-5-anos/n1597363961911.html
Ainda sobre o “título” de “EX-PM”, os leitores desta postagem devem levar em conta de que se é “EX” é porque não mais pertence a instituição militar estadual, e ainda, geralmente por ter sido “expulso” dela por conduta incompatível com a profissão.
O “EX–PM” deveria, então soar como um elogio institucional, pois a instituição policial militar providenciou para que ele se tornasse em um “EX”, como ocorre, aliás, a todas as instituições policiais do mundo, sejam elas de investidura militar ou não.
A mensagem que fica é de que quando ouvimos, assistimos ou lemos (aquilo que a mídia produz), mesmo que estejam ali contidas mensagens subliminares maldosas e depreciativas, mencionando os “EX-PMs”, devemos ter o cuidado e atenção necessária para não confundir estes “EX” dos Policiais Militares reais e em atividade que, muitas vezes sem as condições de trabalho ideais, diuturnamente labutam em prol da sociedade.
Se é “EX” é porque não é mais, já foi e por algum motivo foi institucionalmente “extirpado” da Polícia Militar.
Um fraterno abraço a todos, por hoje é só.
Só mais uma coisinha, antes de criticar esta postagem pense, reflita, pois isso serve para manter o nível do debate.


MARLON JORGE TEZA


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A GUERRA DO RIO

JOrnal O GLOBO de 11 de novembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

“Incidente em Antares”...


Ponho aqui o título do romance de Erico Verissimo, escritor e jornalista, para homenagear o cinegrafista da BAND Gelson Domingos, alvejado por fuzil e morto durante confronto entre PMs e traficantes ao executar seu arriscado ofício na linha de tiro. Aliás, a câmera vista de longe sugere ser arma, até pela empunhadura do cinegrafista apontando-a em direção ao alvo a ser filmado. Ironia do destino?... Não! Não!... Consequência do serviço reflete mais a realidade!... Espero que a morte dele sirva para a Justiça melhor compreender o que as guarnições da PMERJ enfrentam diuturnamente nas favelas do RJ.
Soma-se ainda à tragédia particular do cinegrafista o brutal atentado contra a vida do irmão e do cunhado de um PM do 12º BPM, ambos torturados, baleados e enterrados no alto de um morro niteroiense. Por milagre, o irmão do PM fingiu-se morto e posteriormente se desenterrou, logrando escapar mesmo gravemente ferido. Foi encontrado e socorrido por populares. Já o cunhado do PM não teve a mesma sorte: ficou debaixo da terra, sem vida. Tudo porque foram reconhecidos por traficantes, num baile funk, como parentes do PM. Esta é a sina dos militares estaduais em razão do exercício da profissão. Melhor mesmo é não se ligar a nenhum PM, nem por conta de serviço nem por parentesco, pois o risco da profissão é tão tamanhão que ultrapassa a pessoa do PM e atinge terceiros...
Como todos puderam assistir ao vivo e a cores, o cinegrafista estava atrás do PM ao ser atingido sem muito alarde além do seu grito de dor, algo meio surreal, como se saído do nada... Invertendo os papéis, se o PM à sua frente acertasse antes o peito do assassino, e fosse ele algum adolescente armado de fuzil, logo depois encontrado sem arma, eis que geralmente ela é recolhida por outro traficante em plena ação, teríamos então um Auto de Resistência difícil de ser deglutido em meio à papelada fria que posteriormente se juntaria em inquéritos policiais, denúncias ministeriais e processos criminais. Para o PM explicar um fato somente inteligível no seu momento consumativo é-lhe impossível: nenhum relato verbal ou escrito conseguirá fielmente retratá-lo. Ademais, a desconfiança (preconceito) contra o pobre-diabo é regra já cristalizada na mente dos futuros inquisidores.
A verdade é que se tornou moda contestar Autos de Resistências aqui, ali e acolá, e não há argumento que sirva ante quem indicia, acusa e julga as ações de militares estaduais. Todos preferem crer no abuso dos profissionais de polícia durante enfrentamentos geralmente violentos, mas ignorados por vingativos indiciadores, acusadores e julgadores. Deveriam eles, por amor ao dever de ofício, e em nome do respeito mínimo à dignidade da pessoa humana, atentar que nenhum PM pode recusar ordem superior no sentido de se confrontar belicamente nas centenas de favelas infestadas de bandidos e não privilegiadas com instalação de UPPs. Sim, as centenas de favelas jamais receberão UPPs porque é impossível instalá-las em todos os lugares onde a pacificação é igualmente indispensável. Sobra então, como alternativa de ação policial, o eventual enfrentamento ou a omissão. E a arma que o Estado lhe põe nas mãos é o letal fuzil, de modo a “equilibrar” um lado e outro na “guerra das drogas”, sendo certo que nenhum disparo é passível de controle depois de acionado o gatilho, mesmo que o projétil acerte alvo: ele segue produzindo estragos incontroláveis em inocentes.
Enfrentamento arcando com riscos incontroláveis ou omissão... Claro que a segunda hipótese é inaceitável, até configura crime. Daí a ordem de repressão bélica ao tráfico, que se desdobra em crescente violência mútua, tal como a que matou o cinegrafista. Mas é missão da PMERJ neste ambiente de violência sem precedentes no país, embora alguns a designem, falaciosamente, como “missão de reconhecimento, que, recebida a tiros, apenas reage”... Ora, é só nomenclatura a justificar os letais tiroteios; e, se tombar morto o PM, o azar faz parte desta desgraçada profissão. Nem rende mais notícia... Mas, se o PM matar o bandido, cena rara na telinha da tevê, — é arriscadíssima a filmagem desse momento, como intentava fazê-lo o cinegrafista vitimado, — aí o bicho pega! E o infeliz do PM responderá severamente por supostos excessos subjetivamente medidos por inquisidores, acusadores e julgadores em má vontade e/ou sede de vingança. Ah, o PM que se dane!... Cá entre nós, morrer como o cinegrafista seria melhor: uma foto banal num jornal pronto a embrulhar o peixe no dia seguinte (Tá lá o corpo/Estendido no chão/Em vez de rosto uma foto/De um gol/Em vez de reza/Uma praga de alguém/E um silêncio/Servindo de amém...”), uma família desconhecida a sofrer o luto, mais uma viúva de PM na longa fila a receber migalhas... Porém, nenhum processo-crime a atazanar sua vida e pôr sua esposa na fila da visita com “direito” a revista íntima...
Esta é a realidade que o PM enfrenta na base do manu militari e em razão de desespero por não se inserir na mobilidade social deste país da roubalheira no andar de cima e de miséria e morte no andar de baixo. Ser PM, com todos esses riscos (especialmente o de morrer ou ser preso), é sua alternativa única de sustento da família. E, mesmo ganhando migalhas, ele não pode deixar de se arriscar a matar ou morrer no cotidiano desta trágica profissão. Tal situação lembra os tempos remotos em que os jovens eram levados ao extermínio, fardados de soldado, em troca de...: “... Que as alegres canções dos trovadores eram sufocadas pelo barulhento tilintar das armas, que as festivas passeatas com tochas eram substituídas por marchas guerreiras para os campos de batalha, e que os exuberantes jovens, no verdor da mocidade, eram chamados às armas pelo sino de guerra, para dar suas vidas pela Igreja ou pela coroa, pela honra do senhor feudal ou pelo orgulho dos burgueses.” (René Fülöp-Miller – Os Santos Que Abalaram O Mundo)... Ah, em troca de nada!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Urany Larangeira e Carmem Di Novic: duas gerações da arte vencendo o tempo
















Artista não é corpo: é alma. Assim era meu tio Urany Larangeira (1923-2007): corpo com alma de artista. Sim, alma de artista! Porém tão arrojada que enfiou o corpo dele em farda da milícia fluminense. Nesta época de arroubo varonil, Urany se tornou exímio cavalariano, propiciando aos olhos de atônitos mortais verdadeiros shows de equitação, dentre outras incontáveis aventuras fardadas. Mas o militarismo foi apenas necessidade de treinar o corpo para vencer as vicissitudes que lhe viriam à frente e não desanimá-lo ante a missão principal que lhe fora destinada ainda no verdor da juventude por influência paterna: abraçar-se ao violão. Foi ele em seguida aprofundar-se na teoria musical e aprimorar-se na execução ilimitada de músicas populares e eruditas. Já então era requisitado aos recitais e acompanhava famosos cantores nas rádios, nos picadeiros de circo e em palcos diversos, e não se escusava dos convites para tocar ave-marias em igrejas casamenteiras e emocionar nubentes em caminhada até os altares-mores.

Ainda vivenciando a fase militar, a alma de Urany, apaixonada, fez-se corpo para casar com Helena. Enfeitado em farda de sargento, foi ele ao conúbio que lhe rendeu numerosa prole: quatro filhas e dois filhos, − não necessariamente nesta ordem, − hoje desdobrados em muitos netos e bisnetos*. Alma amante da vida, sim, porém guerreira: manteve-se fiel à farda durante a II Guerra Mundial, até que se enfiou em novas aventuras, pedindo demissão da briosa e se lançando ao mundo como caminhoneiro a percorrer estradas poeirentas e lamacentas. Alma indócil, aventureira, ela levava e trazia Urany sem depender de ninguém para desenguiçar caminhão: o corpo dele pegava no pesado sem reclamar. Alma irrequieta, inventiva, bastava-lhe uma folga entre um recital e outro para pôr Urany a assentar tijolos em obras familiares. E a precisão dele era de fazer inveja aos melhores profissionais do ramo. Sim, porque nada que aquele corpo fazia era improviso: a alma dele era superdotada, e tornava-o capaz de vencer o impossível. Bela alma! Belo corpo! Formavam um ser humano especial!...











Era, sim, a alma de Urany − é a mais pura verdade! – que lhe tocava o corpo sempre e sempre; e o meteu em sala de aula que antes frequentara como aluno, agora como professor de matemática. Que linda alma!... No colégio, Urany arrancava suspiros das adolescentes, porque sua alma artística se projetava além do corpo durante seus ensinamentos. Os alunos o chamavam “Divino Mestre”, carinhosa alcunha que o acompanharia durante os anos de magistério. Que alma destemida, a de Urany!... Ignorava o sofrer do corpo e partia em multivariados desafios a suprir suas ânsias por mais vida, porém sem largar o violão, que a cada dia se apurava em qualidade. Foi quando Urany, por decisão da alma, tornou-se serventuário da Justiça e passou a concomitantemente se dedicar à atividade que ocuparia a maior parte do seu tempo terreno: compositor, executor e professor de violão erudito e popular. Enfim, um maravilhoso concertista!

Ah, a alma dele estava feliz! O corpo sofria, sim, gostava da aventura, amava os riscos e queria mais e mais; porém a alma, almejando sossego, recolheu-se-lhe no íntimo do corpo para deixá-lo envelhecer em paz na aposentadoria; e assim o tempo trapeiro escorreu em sua inelutável trajetória rumo ao mistério maior do fim: o corpo do artista passou a comunicar à alma certo cansaço... A alma respeitava a fadiga do corpo, sim, mas se mantinha fiel à arte, principal elemento de sua comunicação com o mundo físico e metafísico, ressoando dos toques de bordões e primas belíssimas composições. Deste modo seguiu o velho corpo: firme na sua missão espiritual; corpo, aliás, mui discreto, e que se somava à alma numa só determinação: ambos não gostavam de holofotes.

Sim, a arte da alma pertencia somente a ela, e só admitia interagir com almas especiais, e nem todas se demonstravam especiais: umas não venciam os primeiros acordes; outras paravam a meio caminho... Para a alma do artista, porém, a resposta à sua busca lhe veio pelas mãos de Deus. Urany morava em São Gonçalo, RJ. Sua filha mais velha, Margot, médica novata, escolhera Umuarama, PR, como base futura. Somente por isso Urany e Helena adotaram a distante cidade paranaense, onde decidiram permanecer por bom tempo. E lá, claro, Urany não deixou descansar o corpo: entrou a lecionar violão numa Escola de Música. Foi onde conheceu aquela que seria sua aluna predileta: Carmem Di Novic.





A simbiose não se deu em pouco tempo. Carmem Di Novic teve de se dedicar ao estudo da teoria musical e à maneabilidade do violão por horas e horas, dias e dias, anos e anos, tal como antes o fizera Urany Larangeira. E a alma de Carmem, depositada num corpo jovem, formou família enquanto acumulava o conhecimento da música e aprimorava a habilidade na execução do violão. E Carmem explodiu para o mundo sob a forma de muitas artes: de esposa dedicada, de mãe extremosa, de diligente aluna e magnífica mestra de música e violão. Artes independentes, sim, em corpos desdobrados, porém unidos em sinergia divina.

Hoje, após 83 anos e 09 meses, o corpo de Urany Larangeira descansa, mas sua alma está feliz ao ver-se representada pela jovem artista cujo corpo resistiu ao esforço exigido pelo talento. Da perseverança de Carmem Di Novic refloresceu a arte máxima do violão, somatório de dois talentos magistrais. E ela a cada dia prova sua maestria ao tocar músicas de todos os naipes, eruditas e populares, acrescentando peças nascidas do seu próprio talento e de sua perícia na manipulação da teoria musical e do mágico instrumento: o violão. Ela é uma artista completa: paciente ao ensinar, ao tocar prova que o Universo é música.

Quem diria que o adolescente Urany Larangeira levaria adiante o seu sonho, desafiando em audácia o preconceito contra o violão? Eis como o pinho era maltratado, em denúncia de Lima Barreto, 1915, no seu romance
“Triste Fim de Policarpo Quaresma”: “(...) Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável. Que seria? (...); a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que coisa? Um homem tão sério metido nessas malandragens? (...) Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.”














Assim eram os tempos em que Urany Larangeira decidiu assumir a sua arte, sempre apoiado e amado pela família. E hoje, vencidos todos os obstáculos terrenos, o seu corpo descansa; mas sua alma permanece em alegria ao se deliciar dos acordes de sua aluna predileta, a obra-prima do “Divino Mestre”: a musicista e concertista de violão Carmem Di Novic!




Conheça a obra de Carmem Di Novic clicando o link ao lado.




*Filhos e Netos:

Margot: Nicole, Rossini Humberto e Verena
Wagner: Glauce Helena, André e Hugo Henrique
Rosane Maria: Georgelio Junior, Cintia, Kelly e Claudio
Ana Christina: Floriano Vitor
Solange Helena: Priscila e Ana Karina
Ubiratan Levi: Waghner

Bisnetas:

Neta de Margot: Natthalya Christina (filha de Rossini Humberto)
Neta de Wagner: Julia Botafogo (filha de André); vem vindo por aí o Caio, filho de Glauce Helena, que está grávida.
Netas de Rosane Maria: Leticia Cristina (filha de Kelly); Fernanda (filha de Georgelio Junior); Maria Eduarda e Luiza (filhas de Cintia)

TOTAL: 06 filhos, 14 netos e 06 bisnetos.

sábado, 5 de novembro de 2011

Sobre a declaração do editor-chefe do Jornal EXTRA, jornalista Octávio Guedes


Não faz muito tempo eu ouvi na CBN uma categórica declaração do ilustre jornalista Octávio Guedes sobre as milícias. Ele afirmou, em outras palavras, que “tráfico não é crime tão organizado como milícia”. Tento ainda compreender esta visão particular do insigne jornalista do Sistema Globo; considero-a importantíssima porque manifestada por um ícone do jornalismo em geral e especialista em segurança pública. Porém, aproveitando a primeira capa de O GLOBO de hoje, gostaria de propor um adendo ao discurso dele, discordante não em relação à proliferação de milícias no RJ, que ele denuncia como fato gravíssimo. Prendo-me ao fato de o jornalista pôr o tema sob o foco da simples comparação entre milícia e tráfico. Ao minimizar a capacidade de dano do segundo, ele de certo modo ignorou que ambos são danosos subsistemas de extremidade vinculados a um sistema criminoso maior, multinacional, que tem no mercado de drogas e armas seu ponto forte. Na realidade, são todos inter-relacionados, interatuantes, interdependentes, e, portanto, farinha do mesmo saco!
Claro que, para efeito de combate à criminalidade como polissistema, é lícito isolar determinados crimes para tentar minimizar seus males, do mesmo modo que a ciência isola um vírus para atacá-lo com o remédio mais eficaz. Não significa dizer que o crime ou a doença sejam eliminados da face da Terra em função do ataque... Pois uma coisa é singularizar um crime para priorizar seu combate, outra é crer que esse crime seja isolado e não mera face de um multifacetado sistema criminoso capaz de recriá-lo. Daí o meu espanto ante a enfática afirmação do jornalista, cuja voz é bastante ouvida. Creio até se tratar de momentânea indignação dele com o crescimento de milícias em favelas antes dominadas pelo tráfico, malefícios que, em tese, se equivalem. Pior ainda é que não se há de negar o domínio do asfalto por milicianos e traficantes (são apenas mais discretos), tanto na periferia como nos centros mais elegantes das cidades (contando com tácita ou explícita benevolência policial, decerto remunerada: nada é gratuito no submundo do crime).

Essa tendência do crime de ocupar territórios ignorados pela segurança estatal não é novidade. Ocorre aqui e em muitos países desenvolvidos pela impossibilidade da onipresença policial. Há também os subsistemas de vigilância particulares legalizados, hoje excelente negócio, mas confunde o que é exclusivamente público com o privado, estando o segundo a mais e mais legitimado no cerceamento do direito de ir e vir dos cidadãos sob pretexto aparentemente justo, mas que, na verdade, não passa de transferência do monopólio do uso da força, exclusivo do Estado, para o particular, corda bamba que costuma gerar crimes ao fim e ao cabo... Já no caso das milícias [(perigosa mistura de sistema (policiais ativos) e antissistema (ex-policiais)], não seria demais compará-las com as máfias dominadoras de territórios delimitados por fronteiras como se fossem “países governados pelo crime” ante a deliberada inércia estatal, deste modo convivendo o poder paralelo com o poder público, ora em conflito, ora em consenso, dependendo dos interesses maiores da política e da economia, que não amam a ética (aqui entendida como o conjunto das leis, da moral e dos costumes) e dispensam a honestidade, exceto nas aparências...

Milícia, portanto, não passa de versão terceiro-mundista de máfia: não exclui do seu interesse o rentável tráfico de drogas, ou praticado diretamente, depois de expulso o concorrente, ou a este permitido explorar mediante acordos percentuais, incluindo a proteção dos milicianos contra os ataques de traficantes rivais. Enfim, tudo tal e qual máfia exploradora de todas as variedades de crime dentro de um mesmo território. Poderíamos citar como exemplo, sem alongar, os sequestros praticados em regiões predeterminadas, em consenso de facções rivais, que, nestes casos, e em outros, se respeitam mutuamente num contexto de “guerra fria”. Enfim, ou tudo é disputado a sangue ou negociado em partes para assim garantir a “paz dos negócios” num ambiente criminoso que se entrelaça à tessitura social como quaisquer outros segmentos: contravencionais, criminosos e ordeiros. Pois não há como separar em piquetes cada rebanho com seus interesses concorrentes ou conflitantes, já que os segmentos sociais são interligados e nunca isolados em si mesmos.

Peço desculpas a Octávio Guedes, profissional que admiro e respeito pela excelência de sua carreira de jornalista investigativo, para afirmar que o tráfico de drogas e armas responde pela macrocriminalidade mais organizada do mundo, sendo a milícia apenas um de seus multivariados tentáculos da ponta da linha. Equipara-se o tráfico, talvez, à praga dos crimes financeiros igualmente vultosos e alastrados em tudo que é sistema governamental e particular neste mundo de economia globalizada. Esta massa delituosa é tão sinérgica (o todo maior que a soma das partes) que nem precisa fermento para fazê-la crescer e envolver tudo e todos por meio da gananciosa prática mais conhecida da História da Humanidade: a corrupção.




Por sinal, nem Jesus Cristo escapou da ganância! E não devemos pensar em corrupção apenas vinculada a dinheiro. Há muita imoralidade a impulsionar pequeníssimos e grandiosos pecados sociais, de tal modo que não seria exagero, numa linguagem pessimista, afirmar que o Bem triunfa do Mal ontem e hoje, e provavelmente triunfará amanhã. Porque, enquanto pessoas influentes, como é caso do ilustre jornalista, − de inquestionável competência e caráter inegavelmente ilibado, − insistirem na afirmação de que milícia é “crime mais organizado que o tráfico”, dentre outras afirmações semelhantes, tal comportamento tende a gerar benefício para o “lado perdedor” da comparação, que pode merecer do poder público perigosa desatenção. Contrariamente, portanto, ouso repetir que milícia não passa de desdobramento da macrocriminalidade (transnacional) de armas e drogas, cuja poderosa engrenagem garante o consumo na ponta da linha dos países tiranos e democráticos, desenvolvidos ou subdesenvolvidos... Tanto que neste instante pode estar estimulando algum viciado da própria empresa a que se integra o ilustre jornalista a furtar lápis, canetas, envelopes e quejandos para trocar por um papelote de cocaína na primeira esquina. Porque nenhuma vigilância, estatal ou particular, pode garantir que tal não ocorra entre as melhores empresas públicas e particulares e em meio às melhores famílias.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sobre o inferno astral da PMERJ

“Deixai toda a esperança, ó, vós, que entrais!”




































A Teoria do Caos tornou realidade a assustadora ideia de que o bater de asas de uma borboleta poderá produzir um furacão meses depois num local distante, inclusive alterando a atmosfera terrestre para sempre... A demolição da PMERJ começa a bater asas como borboleta pela manifesta intenção do atual governo em alienar diversos espaços históricos da corporação, passando por anúncios de mudança com ares de ficção cinematográfica na formação dos novos PMs. Lembra Robert Moses e sua megalomania na Nova Iorque da década de 50. Curiosamente, a máxima predileta do norte-americano tem origem em Joseph Stalin, importante genocida da História da Humanidade, perdendo apenas para Adolph Hitler: “Não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos.”
Robert Moses não foi um sujeito qualquer. Ele expressava uma “queda para a crueldade extravagante, ao lado de seu brilho visionário, sua energia obsessiva e ambição megalômana...” (Berman, 1982). E o que vem ocorrendo com a PMERJ neste momento lembra o espetáculo pirotécnico literalmente promovido por Moses, que se poderia igualmente resumir na ideia da destruição do passado para dar lugar ao falso novo exaltado por ações e simbolismos de mudanças miraculosas, exaltação que atinge o ápice da aprovação impensada duma opinião pública manipulada em torvelinho de anúncios sensacionais provavelmente bem aquinhoados... Reporto-me mais uma vez a Marshall Berman (TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR) e à essência do seu complexo texto assim resumido: “Um dos temas centrais deste livro tem sido o destino de ‘tudo que é sólido’, na vida moderna, ‘desmancha no ar’. O dinamismo inato da economia moderna e da cultura que nasce dessa economia aniquila tudo aquilo que cria – ambientes físicos, instituições sociais, ideias metafísicas, visões artísticas, valores morais – a fim de criar mais, de continuar infindavelmente criando o mundo de outra forma.” (p. 323).
Não há nem que “ressalvar as devidas proporções” para associar a ideia de Berman ao que acontece com a PMERJ neste momento: tudo se encaixa na cruel realidade exposta pelo autor com o foco em Moses [“Não é difícil nos alongarmos indefinidamente sobre o poder e o estilo pessoal de Moses. Entretanto, essa ênfase tende a obscurecer uma das fontes fundamentais de sua vasta autoridade: a capacidade de convencer um público massivo de que ele era o veículo de forças históricas mundiais e impessoais, o espírito propulsor da modernidade." (p. 330)]. Dá, sim, para perceber cada passo imitativo do personagem político interessado em destruir as bases da existência da PMERJ como instituição secular, com o nítido objetivo de fechar sua porta e jogar a chave fora para dar lugar à “modernidade”, como intentou e até conseguiu Moses... E os papéis são mui bem representados por seus subordinados, que pensam e agem afinados com a tese maior de destruição da bicentenária corporação.
Pior é que essa afinada turma e seu líder contam, para alcançar o ignominioso escopo, com a ingenuidade do PM, associada à subserviência dos atuais líderes acariciados (ou anestesiados) mediante pagamento de polpudas gratificações que já alcançam e fracionam a tropa segundo o velho princípio do “dividir para enfraquecer”. Advém daí a sucessão de anúncios a mais e mais velozes, porque os personagens da trama têm pressa na destruição total da PMERJ. Por isso atacam todas as vertentes possíveis e imagináveis, e que hoje se resumem, dentre tantas outras medidas escandalosas que a PMERJ finge não ver: 1) Alienação da área onde funcionava a Escola de Formação de Oficiais, em Niterói, para um estaleiro; 2) Alienação da área do 23º BPM, Leblon, tão impensada que, depois de anunciada, os personagens recuaram na imediatista intenção, substituindo-a por outra aparentemente mais simpática ao bumbo do bairro que ressoa no Brasil: venda de delegacias e instalação delas na área do batalhão; 3) Transformação do prédio do 6º BPM, Tijuca, em área de lazer para a comunidade local, medida simpática e decerto aplaudida, deste modo desviando a atenção da população da ideia central, que é a destruição das edificações da PMERJ; 4) Alienação do Quartel-General, na Rua Evaristo da Veiga, área indubitavelmente nobre para o mercado imobiliário; 5) Fechamento do Colégio da PM, sediado em Niterói, que hoje acolhe em torno de 400 filhos de PMs e amplia a esperança de novas turmas de crianças destacadas em mérito nas provas federais de avaliação individual; 6) Retirada do efetivo da PMERJ do Tribunal de Justiça, substituindo-o por policiais civis da CORE; 7) Contratação de professores para lecionar a nova ordem nas unidades de ensino e instrução da PMERJ, em demérito do corpo docente interno formado por competentes oficiais e praças, não se sabendo ainda a profundidade desta intenção que, na verdade, integra-se como luva ao contexto destruidor por implosão; 8) Redução drástica da capacidade de prestar serviços à população, pelo cerceamento, via administrativa, do dever da PMERJ de lavrar Termos Circunstanciados em vista da Lei 9099/95; 9) Extinção dos GATs (Grupamento de Ações Táticas) por conta da tragédia gonçalense (brutal assassinato da Juíza Patrícia Acioli por integrantes do GAT do 7º BPM); 10) Retenção de dezenas de milhões de reais do Fundo de Saúde da PMERJ nos cofres do Estado, dinheiro descontado das algibeiras parcas do PM para que ele e sua família recebam atenção médico-hospitalar digna. Cá entre nós, se nem esse dinheiro, que é nosso, entra nos cofres da PMERJ, que dizer do outro?... 11) Criação de órgão corregedor externo interferindo na hierarquia e na disciplina militares, em superposição de funções entregues a sectários civis, dissimulando-se uma falsa isenção pela presença subalterna de alguns PMs na estrutura. Ignoram os sectários ser a PMERJ, constitucionalmente, uma Força Auxiliar Reserva do Exército Brasileiro e, portanto, possuidora de legislação castrense semelhante à da força federal verde-oliva, que, por sinal, não sofre ingerência externa nos moldes inventados pelo RJ. Ora, a PMERJ até poderia se escudar na Carta Magna e em leis e decretos federais para contestar a existência desse organismo corregedor externo, cuja função tem sido a de colaborar na destruição da imagem da corporação por meio de ameaças endereçadas aos que almejam uma PMERJ eficiente e eficaz na manutenção da ordem pública, sua missão precípua. Porque, sem qualquer sombra de dúvida, a PMERJ é capaz de solucionar seus problemas hierárquico-disciplinares sem a necessidade dessa interferência externa, bastando-lhe a fiscalização do Ministério Público (Art. 55 do CPPM) e a ação da Justiça na cobrança de seus excessos ou omissões.
Enfim, isto é só um pouco do todo que move o ímpeto destruidor dos personagens em questão, no que são ajudados pela mídia em insanidade impressionante. Nesse estágio, entender que tudo não passa de coincidência, e que essa turma de fora é movida por boas intenções, é o cúmulo da inocência ou da estultice. Na verdade, a PMERJ está no dantesco Portal do Inferno e não percebe que sua inércia a levará à destruição. Daí a inscrição de Dante Alighieri (1265-1321) gravada no frontispício deste desabafo, espécie de alerta que espero ver alcançar os brios do PM, em especial dos jovens oficiais ainda em estado de letargia por contágio de cima para baixo. Porque não há mais como negar que o botão da implosão ou da explosão da PMERJ está acionado; digo-o assim, tanto faz, porque não sei mais se a implosão ocorrerá antes da explosão por conta da passividade interna ante o relógio que faz escorrer o tempo ao marco zero sem que ninguém se ocupe de desligá-lo. Ou então esperam que os botões de fora continuem acionados e a explodir gradualmente a instituição, em fases premeditadas, tornando a PMERJ, ao fim e ao cabo, nada mais que pó, indo ao inferno por falta de orações, de mãos dadas, dos que deveriam reagir a tempo saindo da letargia do casulo e batendo asas em sentido inverso... Mas não o fazem!