domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sobre as UPPs



Neste domingo, 27/02/2011, a ilustre jornalista Míriam Leitão, em inesperado viés, sai do seu “PANORAMA ECONÔMICO” para falar de Unidade de Polícia Pacificadora e de corrupção policial. Deixando para outra oportunidade o segundo tema sem dúvida importantíssimo, fixo-me na UPP não sem um gosto de mel na boca. Porque já especulei neste blog sobre a possibilidade de a tão preocupante migração de grandes levas de traficantes para outras localidades não ocupadas pela polícia não ter ocorrido. Enfim, a movimentação dos traficantes seguiu a lógica econômico-piramidal de sempre: poucos com muito nas algibeiras fugindo e muitos de bolsos vazios ficando nas comunidades em consentido mimetismo. Afirmou à importante colunista o secretário Beltrame: “− Quem foge é o grande bandido, o chefe...”
Não vou acrescentar detalhes à fala dele, corretíssima, que confirma minhas especulações anteriores e reforça minha mea culpa, embora o ilustre secretário seja cauteloso em não admitir que muitos jovens, graças às UPPs, estão aproveitando a chance de abandonar o crime para buscar o trabalho honesto, vencendo assim o dilema fundamental: para sair do tráfico, só morto ou preso. Ou seja, duas alternativas ruins imediatamente eliminadas pelas ocupações policiais. Creio que acolher a alternativa do resgate de muitos jovens para o lado do bem deva ser prioridade da maquinaria governamental. Sim, é imperioso instituir meios e modos de inclusão social para substituir a repressão policial em relação aos que não possuem folha penal, não estão mais traficando, e se tornaram apenas “suspeitos”. Apostar no resgate desse imenso contingente de jovens é melhor que vigiá-los para puni-los. Mantê-los ociosos, porém, é permitir que a criminalidade continue infectando o ambiente de forma latente...
Já sobre policial gostar de política, os profissionais da mídia precisam se acostumar à ideia de que o policial é antes de tudo cidadão, e, como tal, deve participar ativamente da política num regime democrático, claro que obedecendo a regras claras, como, aliás, ocorre com todos os cidadãos detentores de direitos e submetidos a deveres. Essa preconceituosa tentativa de excluir da política o policial e o militar é subproduto da ditadura, momento em que o povo é oprimido geralmente por militares e policiais fiéis a algum ditador. E ao se verem indefectivelmente excluídos do processo democrático tendem a se tornar sério obstáculo à democratização de um país. Ora, nos países civilizados e democráticos a polícia possui sindicatos, e em outros tantos há sindicatos até de militares. Portanto, o fato de a nova dirigente da Polícia Civil gostar de política e dela participar deveria ser visto positivamente pela sociedade e não o contrário. No meu modo de ver, a intervenção da ilustre jornalista Míriam Leitão nesse sentido faz aflorar uma ponta de preconceito que deveria ser abolido da mente societária em benefício da democracia, que, por sinal, não pertence a categorias distintas, mas é indistintamente do povo. E polícia também é povo!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A tragédia da serra e a hipocrisia societária*

Para não encerrar o assunto...


“As tragédias alheias são sempre de uma banalidade desesperante.”

(Oscar Wilde)


O desastre que vitimou quase mil pessoas e desabrigou milhares de famílias em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo não foi natural. Tudo, na verdade, resultou de inconsequente obra humana a desmatar montanhas e a assorear rios e riachos anos após anos. Posso afirmar com a autoridade de quem vivenciou igual fenômeno, no mesmo lugar, na década de setenta. Naquela época, eu labutava na Defesa Civil do RJ, que era ainda levada a sério, e não como hoje: o referido sistema se encontra absurdamente desfigurado...
Naqueles tempos nem tão distantes ocorreram deslizamentos de barreira com soterramento de casas e morte de 54 pessoas em Nova Friburgo, 44 pessoas em Petrópolis e 29 pessoas em Teresópolis. Demais de outras mortes isoladas, o desabrigo ampliou-se devido a inundações que atingiram seriamente o centro e a periferia de Nova Friburgo (rio Bengala) e se estenderam a Paraíba do Sul e Três Rios, com os rios Paraíba do Sul, Paraibuna e Piabanha afogando casas e gentes e asfixiando a economia de toda aquela região. Estradas vicinais desbarrancaram, pontes ruíram, rodovias permaneceram obstruídas por dias seguidos, terrível calamidade que não deveria ser jamais esquecida...
Mas esqueceram!... O exemplo atual nada mais é que repetição do cenário trágico de outrora, e pelos mesmos motivos, ressalvando-se o descaso do poder público com a Defesa Civil nos seus três níveis de responsabilidade (União, Estados-membros e Municípios): não dragaram os rios principais, não executaram obras preventivas em encostas, não instalaram sistemas de alarme, e a natureza sofreu destruições sucessivas ante os olhares indiferentes da maquinaria governamental e da sociedade organizada. Organizada?... Não! Não há na tessitura social senão o desprezo dos aquinhoados pelos miseráveis que, sem opção de moradia, se instalam em encostas perigosas e nas calhas assoreadas de rios e riachos aguardando a próxima torrente e a morte certa. Há ainda de se somar a tamanho absurdo o sentimento de repulsa da sociedade pelo miserável, a ponto de os societários culparem os favelados pela existência de favelas.
E os miseráveis, − ignaros e desorientados, e jamais fiscalizados no sentido de não ocuparem áreas de risco, − vão vivendo ignorados por todos (sociedade e estado). Jamais são deslocados preventivamente para áreas seguras, e por isso morrem, ou perdem tudo, e assim permanecem no mundo: chorando e esperando sua hora fatídica chegar de igual modo, no mesmo lugar, alterando apenas o momento da comoriência avassaladora.
Ora, de nada adiantam os pomposos anúncios de verbas e de donativos na fase pós-calamidade! Nem se justifica o exagero da solidariedade nesta fase aguda: indesculpável mea culpa de uma sociedade hipócrita e ansiosa por surgir como “heroína de catástrofes” (espécie de carpideira) recolhendo, organizando e distribuindo donativos, até eclodirem conflitos entre societários hipócritas e desidiosos agentes públicos querendo também se tornar “heróis”. Ah, todos na maior caradura em busca dos holofotes de uma imprensa sequiosa de novidades só para desviar a atenção do principal, ou seja, da consequência funesta do desastre em si. Aliás, a mídia estimula o falso heroísmo a ponto de glorificar uma senhora por adotar um cão em vez de acolher no seu regaço uma criança órfã. É, com efeito, muita sem-vergonhice! E assim seguiremos a aplaudir o engodo societário e estatal até a próxima tragédia...



*Publicado no Jornal Maricá em Foco em 10/02/2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Filosofia de botequim

Igualdade



Quando se trata de hipocrisia social, toda junção de caracteres é possível: lados contrários se unem, ideologias se pulverizam e ressurgem irmanadas. Estúpidos e cultos assentam-se nas cadeiras comuns rodeando a mesa única do barzinho como se se entendessem às maravilhas; enfim, nulidades e sumidades se igualam no rumo de seus interesses imediatos. Isonomia, diriam alguns, depois de alargarem as qualidades filosóficas do inculto artífice, com este enaltecendo os dizeres dos primeiros sem entender patavina de nada. É mais ou menos assim numa esquina democrática e na mesa entulhada de rodelas de papelão marcando as tulipas consumidas pelo servente e seu engenheiro, ambos igualados pelo chope e demonstrando conhecimento profundo da última convocação da seleção. Depois, igualitariamente embriagados, o servente sai bamboleando pelos quarteirões até chegar ao ponto do ônibus, que não vem, e se deixa quedar ali mesmo, por fim deitando-se na sarjeta do costume, dormindo o sono dos excluídos até o amanhecer de mais um dia destinado ao suor. O engenheiro, porém, há muito chegou ao lar, de táxi, e depois de vomitar seus excessos e deglutir os remédios da ressaca, deita-se ao lado da mulher boazuda fingindo-se adormecida e a lembrar o amante com quem curtiu o sexo durante a tarde num chique motel. Assim a vida continua e o sol empurra mais uma noite e faz chegar o dia, com cada qual, engenheiro e servente, se preparando para pousar no galho social de uma árvore de pouca copa e muitas raízes fincadas no chão agreste de intransponíveis diferenças sociais... Também assim o cirurgião faz a cirurgia num paciente que não precisava operar e o faxineiro do hospital esfrega seus corredores com produtos impróprios à esterilização, ou seja, cada qual no seu galho ou raiz cumprindo o destino por força do nascimento em berço de ouro ou nenhum berço. Mas ambos se sentem felizes, talvez até mais o faxineiro, que, sem pensar em desventuras, consegue fazer brilhar o chão, enquanto o cirurgião chora a derrota de suas mãos inábeis no labor de rasgar o corpo alheio, algo que faz apenas em agrado ao pai, rico fazendeiro, analfabeto, que lhe determinara ser médico a qualquer preço. Quem perde, afinal, é o paciente, que não precisava operar nada e gratuitamente sai do mundo sem saber se a morte é apenas um delicioso sono eterno: somatório de noites bem-dormidas esperando o prêmio do Paraíso. Ora, tanto faz como tanto fez, morto não dá palpite nem testemunho, e do seu cadáver restará somente o pó, eis a verdade substancial, pois todos os desiguais neste mundo de diferenças sociais se tornam isonômicos no sepulcro. E a morte é simples e direta, não importa a beleza do túmulo nem a riqueza do morto, seja sociólogo ou motorneiro, psicólogo ou louco, eleitor nordestino ou presidente eleito. Mas a vida é o ponto visível e tragicômico das gentes que se enganam ao representar papéis como se tudo fosse tão eterno que nem mesmo a morte é lembrada, parece que não existe. Enquanto isso, brilha o sol de um novo dia, a mulher se enfeita, e seu jovem marido, magistrado, quase ainda adolescente, se põe em grave reflexão sobre a condenação que escreveu na véspera para punir um criminoso sem saber se ele é mesmo criminoso, mas certo de que agradará ao clamor público porque anunciou a culpa do réu, e somente isto importa. Notícia é notícia, é a atração que fundamenta a notícia seguinte, em suíte, e ele, o juiz, não quer ser o ator-vilão-da-história. Que o seja o réu, mesmo inocente!... Sim, sim, a vida é assim, tem de ser e será sempre assim! Afinal, chovendo ou fazendo sol, condenando ou absolvendo o réu, a vida continua, é o que diriam todos em volta da mesma mesa em que antes discutiam o servente e o engenheiro sobre a escalação da seleção, enquanto empilhavam rodelas de tulipa de chope. E assim a vida vai, e vem, e vai, e vem, e vai, e vem, até que a morte alcance a todos, ricos ou pobres, e seus corpos, agora isonômicos, sejam baixados em caixões luxuosos às sepulturas de granito ou plantados em covas rasas depois de escorregarem pela abertura do vai-volta; enfim, corpos servindo de adubo às raízes da mesma árvore que cresceu no cemitério, árvore frondosa, arejada por ventos do prazer material de um tempo desgraçadamente finito, tanto para ricos que o desfrutam no prazer da mais-valia como para pobres que o veem escorrer junto com o suor de sua menos-valia. Eis a verdade de ontem, de hoje e de amanhã! Eis nosso mundo igualitário! Mas a noite é nossa, e na cama aquecida ou na calçada úmida o sol democraticamente jorra seus raios ao nascer de um novo dia. No fim de contas, o sol nasce para todos...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sobre o avanço das UPPs

Uma visão otimista e realista


UPP de Chapéu Mangueira e Babilônia




O sistema UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) conta hoje com bem-sucedidos subsistemas instalados em favelas. Seus reflexos imediatos e mediatos na contenção do crime são alvissareiros. A migração de traficantes é bem menor que a alardeada como preocupação de grande porte (até por mim, assumo aqui a mea culpa) e muitos jovens delinquentes estão tendo a chance única de libertação dos grilhões que os aprisionavam, a medo da morte, ao submundo do crime. Porque impossível é pensar, numa localidade dominada pelo tráfico, algum membro de quadrilha se resgatar por si mesmo ou ser resgatado para a vida honesta sem o risco de retaliações extremas. Ao arrependido resta apenas a certeza de que a saída é a morte ou a prisão. Mas eis que surgem as UPPs em projeto audacioso de mudança da rotina do policiamento em favelas. Da repressão sistemática e violenta em incursões aleatórias, partiu a PMERJ para a ação planejada de conquista e ocupação dos territórios dominados, libertando-os literalmente, ou seja, livrando as populações faveladas do jugo de traficantes, dele também salvando um exército de adolescentes sem oportunidade de emprego. Talvez até alguns pudessem desfrutar de vida melhor, mas a larga porta de entrada do tráfico, ilusoriamente atraente, mantém-se trancada. E não há saídas senão as mencionadas: prisão ou morte.
O sistema UPP é estimulante em todos os sentidos. Não há mais risco de erro em admitir tão grata realidade, especialmente em vista da chance de os traficantes sem antecedentes mudarem de vida. As UPPs são a porta da esperança que, como mágica, abre os escaninhos obscuros do crime e deixa entrar o sol da liberdade. Não se há de negar que talvez esse fenômeno, espécie de ressocialização extramuros das prisões, aqui tratado superficialmente, tenha igual valor ao da libertação dos cidadãos favelados em geral.
Rendo-me, portanto, ao otimismo. Insisto em situar as UPPs como subsistemas de um sistema inovador que está a proporcionar, pela primeira vez, a prevenção do crime nas favelas como regra e a repressão como exceção. E, em se tratando de sistema, afloram circunstâncias conceituais e práticas no mínimo englobando o ambiente, a entrada dos insumos, o processamento, o resultado (saída) e a retroalimentação incorporando aquele resultado a um novo ambiente de entrada, círculo virtuoso que permitirá a homeostase (equilíbrio) do sistema, de modo que não ocorra sua entropia (degeneração).

Fonte: Internet (Wikimedia Commons). Autores: Marcelo Evandro Johnsson e Walter P. F. Filho


Fixo-me na retroalimentação (feedback) como fundamental porque diagnostica os resultados, estes que produzirão novos insumos ambientais, cabendo ao observador corrigir rumos em processo dinâmico e permanente. Pode parecer complicado, mas boa parte desses resultados está sendo diretamente percebida, como a diminuição dos delitos conexos ao tráfico no entorno das favelas. Deixando de ser homizio de bandidos, as comunidades ocupadas por UPPs não mais servem de depósito impune a estimular novos crimes, especialmente o furto e o roubo de carros e motos, demais de receptações diversas. Também as UPPs não mais permitem a ação do tráfico com ostentação de armas de guerra por insolentes bandidos. De uma só tacada, as UPPs oxigenaram ambientes altamente poluídos pela criminalidade.
Não significa, entretanto, que todo esse êxito institucional vá erradicar a criminalidade nos ambientes policiados por UPPs. O crime é doença mundial crônica, e os criminosos proliferam na medida do aumento populacional e da impunidade. Daí sobrelevar o acompanhamento dos subsistemas localizados e de suas circunvizinhanças para que as ações policiais, como variáveis independentes, influenciem na contenção do crime, vista como variável dependente desse sistema policial globalizado (o todo maior que a soma das partes).
A transformação da realidade em dados de análise e o estabelecimento de novos paradigmas de diminuição da incidência criminal requerem, como imperiosa providência, a visão das UPPs não como entes isolados, mas como subsistemas interagentes, interatuantes e inter-relacionados em vista de objetivos globais, intermediários e específicos passíveis de comparação com os resultados esperados. Mais ainda: que esses dados produzidos em detalhes formem um conjunto de conhecimento a ser processado em função de objetivos e resultados reavaliados e reincorporados ao ambiente gerador de insumos: a retroalimentação. De resto, é só festejar a expressiva vitória do sistema UPP, traduzida pela libertação dos ordeiros cidadãos favelados e pela oportunidade de trabalho honesto aos jovens egressos do tráfico, iniciativa que deve ser estimulada pelo estado e pela sociedade.
Sobre o esvaziamento do contingente de traficantes em função do agradável fenômeno do retorno à vida ordeira de muitos dos envolvidos, deve-se atentar para o fato de que o crime organizado não difere do modelo piramidal de poder que permeia a tessitura social. No fim de contas, os segmentos sociais no modelo capitalista (e também, sem retórica, no socialista) são todos piramidais, ou seja, sempre há poucos abocanhando a mais-valia em detrimento de muitos desfavorecidos. Daí a constatação do luxo favelado concentrado no topo da quadrilha, contrastando com a miséria onde a maioria dos pequenos traficantes se confunde com os cidadãos favelados. Enfim, todos afetados pela carência e apenas destacados com alguns tênues símbolos de poder (cordões de ouro ou prata e arma) e um ganho que não ultrapassa a subsistência. Na verdade, quem conhece o funcionamento do tráfico em favelas sabe que a maioria dos envolvidos recebe mixaria, enquanto a minoria controla a dinheirama e dela desfruta em arrogância de senhor feudal. Para a maioria, portanto, a UPP está significando uma autêntica libertação.
Por outro lado, saindo do otimismo e adentrando o realismo, sobrelevo em impertinência a necessidade de atenção com a retroalimentação do sistema. Significa diagnosticar anseios e valores institucionais (anseios e valores do contingente empenhado em UPP) e anseios e valores sociais e comunitários, de modo a adequá-los a objetivos renovados e ao alcance de resultados ótimos. É com espírito realista que distingo comunidade (caracterizada pela solidariedade orgânica) de sociedade (caracterizada pela formalidade e pela indiferença do indivíduo em relação ao outro). Sei que deformo levemente os ensinamentos da Ciência Política ao radicalizar o conceito de sociedade, mas na minha visão polêmica é assim que enxergo a realidade.
Neste ponto é de se indagar em que segmento se situa o contingente policial-militar, nitidamente formal, porém oriundo da comunidade (periferia e favelas), uma inegável contradição. Esses contingentes comunitários de PMs acostumados a servir à sociedade, no asfalto, está hoje nas favelas em meio aos seus iguais comunitários, aparentemente um fator facilitador das interações entre PMs e favelados. Contudo, as relações de poder não funcionam tão romanticamente assim; conflitos vários e dissociados do tráfico acontecerão nas favelas, bem como alguns delitos estarão desordenando o ambiente favelado e seu entorno, o que demandará a necessidade de repressão, sempre geradora de efeitos colaterais negativos.
Equilibrar (pela homeostasia) ambiente tão incerto e tendente à turbulência nos remete a um sistema de difícil globalização, mas não impossível, o que releva, sobretudo, a retroalimentação. Nela está a identificação dos ingredientes sociais, políticos, legais, ilegais etc. que se integrarão à receita da entrada para serem processados, assim gerando, na saída do sistema, a fornada de resultados a serem novamente incorporados como insumos, sendo certo que não existe uma folha exatamente igual a outra nem na mesma árvore.
Esta visão realista não desmerece o valor das UPPs como sistema aberto e inovador na segurança pública, sendo certo que o mérito da ideia pertence a muitos anônimos integrantes da PMERJ e da cúpula da SSP, para que se faça justiça inclusive ao passado. Porque as UPPs decorrem de princípios sobejamente conhecidos, porém não assumidos por administrações anteriores, o que, por amor à verdade, devo reconhecer. Faltava apenas vontade política, e ela emergiu curiosamente após uma operação repressiva ("política enfrentamento") no Complexo do Alemão. O resultado foi considerado desastroso. Mas isto é quase passado. Digo quase porque falta muito caminho a percorrer. Porém agora sabemos ser possível ofertar a prevenção aos cidadãos favelados, e este é um caminho sem volta que não pode falhar como ocorreu com as tropas napoleônicas em território russo: avançaram em excessiva euforia esquecendo-se dos rigores do inverno e da
logística de retaguarda...

Obs.: as palavras e expressões em itálico são conceituais. Não pertencem ao conhecimento exclusivo deste autor.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sobre a política


Fonte: Internet



Iniciamos a semana com a abertura da nova legislatura nos parlamentos brasileiros, momento de renovação das esperanças e certeza de um novo período de liberdade. Isto é bom. Sempre apreciei política e polêmica e a liberdade é o anteparo do funcionamento pleno de ambas. Todavia, não gosto de extremismo, assim como não creio em equilíbrio absoluto: pode indicar forças opostas a se anularem. Fico, portanto, com a ideia do equilíbrio relativo, oscilante, assimétrico, para que a vida tenha graça

Gosto da social-democracia, embora não aceite nenhuma ideologia como sistema fechado. Ponho-me perto do meio sem ser “muro”. É apenas referência para avaliar a política e seus atores; quanto a estes, observo-lhes o contraste entre o discurso e a prática, e haja decepção! Aliás, decepção até comigo mesmo: fui deputado estadual e não venci a burocracia estatal cuja ideologia é tão-somente a conquista do poder para dele se tirar proveito. Confirmei ser essa burocracia tão insolente quanto afastada dos seus fins sociais... Mas, como o Cândido, de Voltaire, não perdi meu otimismo. Continuo participando do processo político como expectador e eleitor.

Não aprecio pensamentos rígidos; assustam-me os que se fixam em objetivos imutáveis. Aplaudo quem muda de posição e busca novos rumos, desde que voltados para o bem-estar geral. Não me importa se alça vôo ante meus olhos alguma ideia cercada de impossibilidades. É algo corriqueiro neste mundo de aparências. Por outro lado, sei que num ambiente assim inventar retórica para sugestionar pessoas é deveras confortável: evita-se a polêmica e a dispersão.

Os amantes de dogmas e ideologias costumam seguir cegamente seus “mestres”. É o que poderíamos denominar, em linguagem nietzscheziana, como “moral de rebanho”, característica infelizmente predominante entre os pensantes. Porque, na verdade, poucos pensam e muitos seguem o barulho do sino pendurado ao pescoço do que vai à frente tangido a estocadas pelos eternizados detentores do poder ou animado por ofertas irresistíveis, porém dissimuladas tais como um cão perseguindo a falsa lebre na pista de corrida.



Fonte: Internet



Não gosto nem me rendo a esse comportamento manipulado. Em matéria de conformismo, não sou “lobo” nem “ovelha”. Estou mais para “cão pastor”, porém meio vira-lata: selvagem, sem dono, livre, leve e solto. Ninguém me pendura “sino” ao pescoço, embora eu não esteja a salvo de confundir gato por lebre... Ah, mas posso errar e acertar à vontade, sem preocupação maior a não ser com minha própria consciência; e me mantenho fiel às minhas emoções, mesmo equivocadas, porque errar por mim é melhor que acertar pela anulação dos meus anseios e valores.

Entendo-me social-democrata, sim, todavia não vejo em nenhum partido político esse emblema a não ser por conveniência eleitoreira. Por outro lado, e como admiti talvez em total incoerência, sou otimista e preciso crer em algo e/ou alguém, porém o faço sem separar o autor de sua obra. E me começo a indagar como o ser humano está sujeito a falhas no cotidiano de uma vida mais veloz que nossa vontade de viver. E vou à minha primeira referência existencial... Chego à ideia do homem e da mulher construindo os clãs, e assim sucessivamente, até chegar ao modelo de convivência de hoje.

Muita coisa mudou: o simples tornou-se complexo, o homem natural tornou-se social, o artesanato industrializou-se e o poder estatal “representado” aumentou a influência de poucos sobre muitos. O homem social tornou-se “rebanho” que não era quando se mantinha isolado. Contradição?... É, parece que sim, porque a vida em sociedade instituiu classes e castas, categorizou gentes em camadas estanques em vez de integrá-las num sistema igualitário forjado no respeito pelas diferenças. O mundo se tornou pirâmide em vez de plano. Acentuaram-se as distâncias sociais, aprofundaram-se as desigualdades, e o “rebanho” mundial foi agrilhoado em piquetes delimitados por nítidas fronteiras: os países ricos, e pobres, e famélicos, porém igualados na opressão das massas a medo de torturas, prisões e execuções dissimuladas em supostas “legalidades” ou acobertadas pela clandestinidade dos carrascos oficiais.



Fonte: Internet


É neste contexto mundial globalizado, midiático e desumano que o racional se diz superior aos animais por ser “civilizado”. E os atores se salvam da danação por meio das religiões e de suas sistemáticas orações. E se fingindo ascéticos na teoria, promovem na prática suas matanças coletivas e fomentam a destruição do ecossistema. E põem na sua frente um belo bife (carne morta), e cortam-no, e o degustam em opção animalesca, tal como faz o leão a destrinçar a presa para lhe garantir a sobrevivência. Eis como se igualam homem e animal, com vantagem para o segundo, que utiliza a agressividade apenas para a preservação da espécie, enquanto o “pensante” faz uso indiscriminado da violência por qualquer pretexto, especialmente para conquistar e manter o poder.

Eis o cenário político em que a coletividade massificada e dominada por minorias deposita seu obrigatório voto na urna. Alguns até fingem reagir, anulando-o, como se tal providência mudasse o efeito global da política no dia seguinte. Ah, esquecem-se de que, para anular o voto, ficaram antes na obediente fila do abate! E assim seguirão, em conformismo extremo, e no dia seguinte brilhará o sol ou jorrará a chuva; mas, invariavelmente, o dia e a noite se revezarão com os jornais mostrando as mesmas caras políticas reassumindo seus poderes na burocracia estatal: atores eternos, que iniciaram seus mandatos hereditários desde as primeiras casas-grandes e senzalas. E assim sempre o será...