quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pensando besteira em véspera de eleição (enquanto escolho meus candidatos...)



1. Existir pra quê?


Corro contra o tempo. Não me ajusto à ideia de que ele passa muito rapidamente e não me sinto velho diante do espelho. Mas, quando deparo com foto recente de velhos amigos, enfrento a triste realidade de que o tempo passou mais rápido que a velocidade da luz. E me indago se bem aproveitei o meu tempo. Também penso se meus companheiros de jornada e amizade usaram o tempo deles com alegria, embora cientes de que a tristeza faz parte da vida. No fim de contas, não podemos evitar a perda de entes queridos, não prevemos o átimo seguinte, não dominamos o nosso destino nem o alheio. Nem o amor extremado evita a perda de quem amamos. Valeu a pena viver entre o sim e o não da vida?...
Não sei responder à indagação a não ser na superficialidade dela. Não consigo refletir e alcançar no meu mais profundo íntimo o que deveria ou não ter feito para viver melhor neste mundo antropocentrista que me faz esquecer o tempo da minha vida e a escassez dele dia após dia em que o sol nasce e se põe. Vivo sem olhar para trás para contar o tempo e sabê-lo bem preenchido ou perdido. Seria a vida um “talvez”?...
Não faço nada com as próprias mãos, como antigamente. Hoje, a ciência e a tecnologia me suprem as necessidades máximas e mínimas e me torno a mais e mais preguiçoso. Não encontro respostas existenciais que me atendam na filosofia nem na teologia nem em nada. Para mim, tudo é esfinge... Não consigo fingir desvelar enigmas existenciais ocultando-me em dogmas. Entretanto, sou deísta! Não sou ateu, o ateísmo é uma burrice! Como aceito um Deus maior que o universo, irrito-me com as abstrações que O fazem minúsculo, em especial as que afirmam ser eu (entenda-se nós) feito à Sua imagem e semelhança, como se eu fosse o centro do Universo. Ora, nem a Via-Láctea e muito menos o Sistema Solar e a Terra o são. Não duvido, porém, da existência de anjos, santos e santas. E creio que o diabo se materializa até mostrando os chifres, embora a sua (dele) tática seja a de se apresentar com cara de anjo depois de muito botox... E muitas vezes se veste e se comporta como mulher ocultando sua real carantonha...





Diante de tanta confusão mental, não me considero bom (“nobre”). Estou mais para mau (“escravo”). Não cogito o azar a não ser o alheio num egocentrismo sem limites. Sou insignificante ante o espaço e o tempo (ou espaço-tempo), sei disso, e não me dou por vencido. Acho o que faço mais importante que quaisquer coisas que outros façam. Sou capaz de amargar a infelicidade ao volante de um carro de luxo e mesmo assim me acho mais feliz que o motorista ao lado, no semáforo, dentro de um fusca caindo aos pedaços. Não entendo por que ele sorri para si próprio em sinal de felicidade interior. Ele nem mesmo olha para o meu carro de luxo, não gasta o tempo dele com essa futilidade. Fico furioso. Sinto ódio dele por ignorar sua inferioridade material. E o meu tempo passa raivosamente, enquanto o dele transcorre em felicidade tanta que dá para percebê-la. Que boa hora de humildemente indagar dele o que o faz feliz naquele momento de desigualdade social antes de o sinal abrir democraticamente para ambos!... Não o faço, tenho medo da resposta, medo de ela se resumir a um sorriso feliz, a um “talvez”, e ao adeus incógnito. Mas não possuo carro de luxo, é apenas uma alegoria de “escravo” endereçada aos “nobres”.
Enquanto isso, entre o certo e o errado, vivendo a minha luta interior entre o bem e o mal, o tempo escorre como um rápido trapeiro de minha vida. Ah, o tempo!... Não consigo travá-lo nem vivê-lo plenamente. Não sei se ele é absoluto ou relativo... Não tenho tempo para isso e mais nada além do meu próprio egoísmo a fingir não ver ante o espelho a minha velhice inevitável e a proximidade do fim. Curioso é que enquanto estou só com a minha verdade única e infalível (que pode ser a não-verdade), não me sinto velho. Até estranho quando sou chamado de vovô. Mas, ao olhar a minha imagem lado a lado com a dos meus companheiros de jornada, ah, que decepção! Lá se vai a doce ilusão da juventude para o buraco. Evito sair na foto por vergonha de mim mesmo, por não querer assumir que o tempo também passou para mim, mero fugitivo do grupo tão envelhecido como eu. Entretanto (é justiça que me faço!), não ajo como muitos que dissimulam uma juventude falsa por conta da mesma ciência e da tecnologia que os tornaram preguiçosos por dentro e artificialmente rejuvenescidos por fora. Sou apenas preguiçoso por dentro... Sei também que todos, ricos e pobres, produzidos ou não, poderosos ou não, terminamos no túmulo que nos iguala no sim ou no não. Ou no nada...
O mais angustiante, também, é cientificar-me de que o progresso não me trouxe nenhuma felicidade (de fora para dentro de mim). Em contrário, – e além de escravo de minhas dúvidas e dos meus enigmas indecifráveis, – sou escravo de um Estado paternalista ao qual pago caro por seus serviços que não me garantem nenhuma segurança em quaisquer de seus aspectos. Sou cliente maltratado e reclamo ao vento. Mau (“escravo”) ou bom (“nobre”), eu sou (entenda-se somos) massa de manobra dos mesmos detentores do poder daqueles tempos remotos: Estado e Igreja. Porque nada mudou na face da Terra, apenas o poder de antes se proliferou em novos tentáculos de controle social (vigilância e punição), que, enfim, privilegiam bem mais malfeitores do que cidadãos cumpridores das leis que políticos safados lhes enfiam goela abaixo. E sou (entenda-se somos) eleitor deles...



A burocracia garante a eficiência e a eficácia do Estado que eles (elas) governam contra os seus administrados fingindo-se “a favor” deles. Os administrados são vocês e eu: o povo – a plateia (ah, que vontade de meter no “e” um acento agudo!) de um cenário teatral imutável e de mesmos atores. Revezam-se, às vezes, na encenação dos mesmos personagens nos mesmos palcos, sendo por nós aplaudidos ou vaiados, o que não muda absolutamente nada: continuamos sendo plateia a pagar ingresso caro para ver a mesma peça encenada pelo Estado: o filho malcriado da sociedade. Eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois, eles são os otários; sim, todos nós pagamos o preço eterno de nossa má-criação! Vivemos o nosso tempo como palhaços a verem o circo passar e finalmente morremos sem conhecer o final da história. Que mais somos nós?... Ah, somos robôs de alguns poucos...




2. Um justo reclamo da Senhora Ideia...



Outro dia, lendo um jornal, vi na margem do texto a Senhora Ideia chorando. Sentada num hífen, que também ficou meio esquecido pela nova ortografia, a Senhora Ideia era o retrato da tristeza. Não resisti e indaguei dela as razões, e ela não se fez de rogada: “Tiraram-me o acento agudo, não tenho mais ideia-mãe de nada!” Eu então rebati: “Mas foi apenas um ajuste ortográfico!” Ela replicou: “Não! Não foi! O acento agudo era a minha vida própria, a minha ênfase, o meu ideário, não era apenas um desenho! Não posso mais ir para além do bem e do mal”...
Pasmei-me! Fiquei sem saber que falar, mas provoquei: “Explique-se melhor! Não entendi!” E a Senhora Ideia me respondeu: “O acento agudo era o meu cabelo, fazia parte do meu eu, não era simples adorno ortográfico! Imagine uma doença tornando-o de súbito um careca!... Não vá me dizer que o costume da falta de cabelo será logo superado. Nem peruca resolve, a ventania leva-a e emerge a vergonha diante de todos! Enfim, perdi a minha vontade. Não posso mais não-ser, ser ou vir-a-ser...” Fiquei sem entender direito e resmunguei: “Hum...”
A Senhora Ideia não fez por menos e continuou a expor as razões de sua tristeza. Afinal, não era ela uma palavra solta no vernáculo, mas antes ligada a ideários de profundo valor no desenrolar da vida humana desde Sócrates e Platão ou desde muito antes ou muito depois. Não mais era ela a base do devir... Não era ela mais aplicada em contestações nietzschianas. Sem o concurso dela, não haveria mais de haver nenhum ideal. Em síntese, não mais haveria de haver a imaginação, a fantasia; não mais haveria o sonho a se tornar realidade...
Aí comecei a entender a importância da Senhora Ideia e me imaginei sem ela. Concluí que o acento agudo jamais poderia desancar a Senhora Ideia e seu sentido filosófico, espiritual, literário, artístico. Retirar-lhe o acento agudo representou-lhe um baque moral. Afinal, todos nós nos gabamos de ter ideia e menoscabamos a sua visão como um ente substantivo, um nome antes de tudo, e que por isso não deveria ser descaracterizado como se fora um vocábulo qualquer. Foi como se retirasse de Cláudio o acento agudo, e ele passasse a se chamar Claudio contra a sua vontade, perdendo assim a sua identidade concreta.
Chorei junto com a Senhora Ideia. Não deu para me sentar ao lado dela, o hífen era mui pequeno, e não gostei da oferta do acento circunflexo de me servir de cadeira... Mas pensei na sua utilidade na ponta de uma seta a ser cravada no lombo de quem inventou desacentuar a Senhora Ideia. Foi, sem dúvida, uma ideia marota, sem necessidade, e o resultado aí está: uma das palavras que mais significam para nós, pensantes e sonhadores, viverá capenga para o resto da vida, a não ser que ouçamos o seu choro justo e a ela devolvamos, enfim, o seu direito adquirido: o acento agudo no “e”. E ela, novamente feliz, continuará a sua aventura de desvelar o devir com o ardor de antes, como uma Senhora Idéia a nos iluminar o espírito!...



domingo, 26 de setembro de 2010

O ESTIGMA DO PM

Mali principii malus exitus (Princípios ruins, desgraçados fins)

O cidadão brasileiro, ao ingressar na Polícia Militar, tem a sua cidadania reduzida (não estou autorizado a generalizar o exemplo para as demais Polícias Militares brasileiras, mas até poderia...). Este cidadão, na realidade, ao ser alçado à condição de “militar estadual”, perde boa parte de seus direitos sociais e trabalhistas enquanto era civil e se transforma num cidadão capenga. Daí, sua cidadania se torna ambígua e o preconceito desaba sobre ele como um temporal acompanhado de raios e trovões. E deste modo abrupto (o policial-militar nasce do útero da sociedade em “parto caudal”) o cidadão basicamente bom transforma-se num ser fundamentalmente mau; e assim é tratado pela imprensa e pela sociedade em consequência das más notícias que estigmatizam a profissão policial-militar (insisto no hífen, pois se trata de composto por dois substantivos).
O mais desagradável é que o militarizado sistema hierárquico-piramidal põe o discurso no topo, e, seja qual for o seu conteúdo, passa a ser verdade insofismável. Em se tratando da PMERJ, por mais que a isto ela reaja não consegue vencer as censuras maliciosamente despejadas por “inculpáveis” políticos ávidos por agradar uma imprensa ideologicamente preconceituosa contra os militares estaduais. Mas, verdade seja dita, – e para não pensarem que me refiro apenas ao presente – vivenciamos nos dias de hoje uma positiva mudança com vistas a diminuir as injustiças internas*.
Tudo bem, mas o “discurso da verdade” pertence sempre ao poder maior, e à PMERJ cabe apenas reafirmar do modo mais digno possível a versão que lhe é imposta, pois o estigma não pode ser absorvido pela corporação e deve ser rapidamente individualizado. E assim ele culmina gravado a ferro em brasa no lombo do policial-militar, geralmente praça, por representar o maior quantitativo e mais se expor às observações críticas do ambiente onde opera na proteção do cidadão sem o direito de falhar. Pesa sobre a praça a tragicômica história dos penicos superpostos no militarismo, ou seja, só o de baixo possui fundo para escorar toda a merda posta no mais alto penico, sem fundo, e ela escorre velozmente pelos demais penicos até abarrotar o último deles: o do soldado. Claro que a merda pode até subir... subir... subir... bem devagar... Porém, muito raramente transbordará por cima...
Sim, sim!... Com o foco no fiofó da ralé, toda vez que surge alguma notícia ruim (falsa ou verdadeira, não importa) a PMERJ imediatamente reage reafirmando seu indefectível rigor disciplinar: anuncia garbosamente o elevado número de policiais-militares punidos e excluídos da corporação e fim de conversa, missão cumprida, a corpopração não cuida de proteger os fundamentalmente maus policiais-militares, embora os tenha recrutado entre cidadãos brasileiros basicamente bons, selecionando-os mediante rígido concurso público e acurada investigação social, o que faz pressupor que o melhor de todos os cidadãos é aquele que consegue ingressar na corporação.
Eis a contradição: o cidadão limpo em sua vida civil torna-se imprestável intramuros dos quartéis e é jorrado de volta ao seu mundo anterior não mais como cidadão basicamente bom, mas como um ex-PM fundamentalmente mau. É com esse estigma que ele encerra sua malfadada profissão, não sem antes ser trancafiado como “bandido fardado” (tenha ou não praticado algum crime pelo qual haja sido acusado) até que prove ser inocente (raridade geralmente recebida com desconfiança pela sociedade devido à influência negativa disseminada pela mídia); e desse modo, então, ele retorna ao mundo civil marcado como gado pé-duro, magérrimo, contaminado por todos os vermes, não mais servindo nem para o abate clandestino e o consumo por famélicos miseráveis. Torna-se, na verdade, um zero à esquerda, um nada inútil, uma praga social, “banda podre” tão perene como o plástico a não servir nem de estrume: não arranja emprego decente e vê-se renegado até por criminosos quando tenta ingressar no submundo crime. Sim! Sim!... Só por ser ex-PM o seu destino é a má-vida, exceto quando amparado por bons parentes e poucos amigos, para que não digam que radicalizo...
Aguardando respostas, indago: “Onde está o erro?”... No cidadão malformado que burlou a vigilância rigorosíssima da PMERJ e nela ingressou pela porta dos fundos?... Ou no cidadão basicamente bom que cruzou o portal de entrada da PMERJ com louros de aprovação intelectual e social e foi transformado pela asceta corporação em fundamentalmente mau até ser despejado pela porta dos fundos como ex-PM?...

*A legislação reguladora do comportamento disciplinar da PMERJ (destacando-se, por relevante, o seu Estatuto) é cópia exata ou deformada de sua correspondente no Exército Brasileiro desde os idos de 1946 ou até desde antes, quiçá ainda do tempo da missão militar francesa contratada em 1919, ao findar a I Grande Guerra. Ressalve-se, porém, que o EB, do qual as Polícias Militares brasileiras são forças auxiliares, já se atualizou em função da vigência da Carta Magna de 1988. E não exige que as forças auxiliares adotem literalmente suas normas. Enfim, admite que as PPMM instituam seus próprios modelos comportamentais tendo em vista as profundas diferenças de suas missões em comparação com as daquela força federal. Mas, pensando bem, pouca coisa mudará no sistema hierárquico-piramidal do militarismo, que é apenas uma versão mais arrochada da pirâmide social cuja base é mui larga para dar estabilidade ao Estado opressor e a seus mandatários eternos que se situam no topo.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

TEXTOS LAPIDARES 2

Seguindo a lógica de raciocínio anterior, posto mais dois textos (O Globo de 22/09/2010) para observação crítica dos leitores deste blog, sublinhando que concordo com a ideia contida em ambos.


* As três últimas linhas da esquerda para a direita, que não ficaram nítidas, pela ordem:

1ª coluna: "partido radical: o reto-curvilíneo que,"; 2ª coluna: "majestoso projeto de continuidade"; 3ª coluna: " aos seus papéis, o movimento da so- (sociedade)".


terça-feira, 21 de setembro de 2010

DOIS TEXTOS LAPIDARES PARA REFLEXÃO

Todos os dias, de manhã cedinho, minha primeira providência ao me levantar da cama é correr ao portão para pegar o Jornal O Globo. Dependo dele para fazer muitas reflexões sobre os fatos imediatos do ambiente social. E muito reclamo quando noto certo exagero nas críticas (falhas de PMs) ou nos elogios (exaltação exagerada das UPPs). Devolvo as críticas assertivamente, reclamo delas, chio feito frigideira de óleo quente a receber água fria. Enfim, não posso viver sem as informações contidas no Jornal, goste ou não do seu teor, entenda-as ou não maniqueístas. Mas o que me permite a mim ativa participação (por vezes também corporativista) é a minha liberdade de expressão; do mesmo modo, é a liberdade de imprensa, da qual goza o noticioso, que lhe permite noticiar sem censura, e sem impedir aos supostamente ofendidos de ingressarem na Justiça contra os exageros do Jornal. São, portanto, situações isoladas e inevitáveis quando se exercita a crítica de algum sujeito ao objeto observado no cotidiano conturbado da convivência social. Há sempre erros e acertos. Em vista disso, não posso deixar de difundir no meu blog (o que também o farei na minha lista de e-mails) dois textos lapidares. Um se resume à OPINIÃO do próprio Jornal (LULA E A VISÃO AUTORITÁRIA DA IMPRENSA); o outro é do magnífico escritor, roteirista, cineasta e jornalista Arnaldo Jabor (LULA É UM FENÔMENO RELIGIOSO). Não o faço, porém, supondo que todos concordem com os teores destacados, mas pretendo que os conheçam e sobre eles reflitam ante suas próprias vivências.




sábado, 18 de setembro de 2010

Sobre o atentado contra PMs nesta última semana


Vou transcrever um texto do meu romance Cidadela Contemporânea, escrito em 2001 e editado em 2003. O texto completo está disponível para leitura e impressão no meu site (www.emirlarangeira.com.br). Cheguei, na época, a fazer uma referência de última hora, que depois decidi não acrescentar para não parecer demagogia, embora a minha vontade fosse a de consignar o registro histórico da morte (real) de uma criança por bala perdida, tal como ocorreu recentemente com o menino Wesley. Ou seja, interessa-me demonstrar, mais uma vez, que os problemas de hoje são os mesmos de ontem. Fiz o mesmo no meu livro de contos intitulado Bairro de Lata (também disponível no site), cuja abertura é uma crônica (ficção) narrando a morte do menino Honório no seu primeiro dia de aula.



Uma referência de última hora a Jane Tito dos Santos, 32 anos, mãe de Nicolau Yan dos Santos Xavier, criança de três anos fatalmente atingida na cabeça por bala perdida, em 05/02/2003, no Complexo do Jacarezinho, durante confronto entre policiais e traficantes. Que fique você, Jane, nesta página, como símbolo do sofrimento de todas as mães faveladas que, como você, perderam seus filhos de modo tão brutal! E que seu rosto em pranto de mãe desesperada, retratado no Jornal EXTRA de 06/02/2003, seja exemplo do quanto a sociedade é cínica.

Eis o texto extraído do romance:

– Olha aí, pessoal, num vou engolir essa dos vermes matar meus parceiros. Vou quebrar um montão deles e foda-se o resto! Porra, quem eles pensam que é Pimentinha? Sou rei de dois morros e nunca me arreguei pra polícia! E num vai ser agora! Viciado também num pode ficar esperando enquanto a gente enterra defunto. As filas tão enormes, vamos logo despachar essa turma! E você, Topete, recrute aqueles dez pivetes bons de dedo pra sair comigo hoje, numa blitz que vou fazer na cidade. Esses putos vão ver só quem é Pimentinha!
Naquela mesma noite parte do Morro do Arroz-Doce o Bonde do Mal, – dois carros roubados, cada qual com quatro cabeças insanas, – em direção às primeiras vítimas. Enquanto isso, outros dois carros igualmente roubados se posicionam em lugar adrede escolhido. Astuciosamente, Pimentinha busca um local bem distante para agir, de modo que o que irá fazer não se lhe vincule e aos morros que domina com mão de ferro, pois é certo que o Pimentinha de outrora dera lugar a outro exclusivamente sanguinário


Surge a radiopatrulha, alvo aleatório dos bandidos, e dois milicianos são barbaramente metralhados sem qualquer chance de defesa. Logo depois, os facínoras se escafedem, não dando tempo de serem vistos; em seguida, rendem dois indefesos motoristas, tomam-lhes os carros e disparam em direção aos que os esperam em local distante, com os comparsas já prontos para a partida; embarcam e retornam velozmente à favela. Nada demais, chegam e dormem tranqüilos, como se acabassem de assistir a uma sessão de cinema.
A violência das mortes surpreende e enfurece a polícia, que, entretanto, não consegue qualquer pista esclarecedora do bárbaro crime. Daí é que surgem especulações de toda ordem, fato que tumultua sobremaneira as investigações. Enfim, a polícia fica pior que cego em tiroteio, até que na semana seguinte os assassinatos se repetem: mais quatro policiais são alcançados pela ira de Pimentinha. E, na favela, seu comportamento já começa a ser discutido surdamente pelos cantos, com alguns traficantes entendendo que o líder desparafusara definitivamente os neurônios. Assim acontece o primeiro racha entre eles, porém sem o conhecimento de Pimentinha, quando então Topete é chamado pelo grande fornecedor do asfalto:

– Topete, nós vamos tirar Pimentinha de circulação, prepare-se para assumir!
– Pô, você tá me pedindo pra matar Pimentinha? – reage Topete.
– Não, não é isso! Mas, quando descobrirem tudo, vocês é que vão morrer. Ou você acha que os tiras vão escolher cara?
– Pô, amizade, já pensei nisso! Mas ninguém tá sabendo que quem mata é Pimentinha.
– Ora, Topete, você se esquece de uma coisa: nosso negócio é tráfico, não é matança. Sabemos que é tudo obra dele. Queremos resolver nós mesmos o problema ou seremos obrigados a entregar a informação à polícia e vocês todos vão pagar o pato. Aliás, até que você decida fazer o que queremos, não segue nada pra favela!... Nem adianta tentar outro fornecedor, que nós trabalhamos por território. E vocês nos pertencem!
– Tá certo, amizade, tudo bem, mas por que você fala sempre nós?
– Ora, Topete, somos tubarões e vocês, sardinhas; vocês só existem porque nós mandamos o produto. Se não for mais nada pra lá, vocês vão ter de vender picolés pra viver ou então sair pra assaltar e botar o cu na reta, sem falar em outras providências que podemos tomar... Por acaso, você já viu cardume de sardinha comer tubarão, mesmo que seja apenas um?... Ora, Topete, vá por mim, faça o que eu mando e fique liderando! A não ser que não queira... – ameaça o chefão do asfalto.

Topete pensa rápido. Sabe que, se não aceitar o jogo, um outro o aceitará e ele não estará mais neste mundo para conhecer o sucessor de Pimentinha. Então, que seja ele próprio a assumir os negócios.

– Mas, que tenho de fazer?
– Pouca coisa, apenas me avisar quando ele sair sozinho pra namorar. Você sabe pra onde ele vai, não sabe?
– Sei. É pra encontrar mesmo com a amante. Mas muda sempre de lugar, cada vez marca com ela num novo ponto e vai pra motéis diferentes.
– Mas sai sempre na hora que você sabe e no carro que você pode detalhar pra gente. É só o que precisamos. O resto já está montado, não se preocupe.
– Vocês vão matar ele?
– Não. A idéia é ele ser preso. Junto da namorada, ele não deve reagir. Mas, se reagir, aí não tem saída...

Pimentinha está quase completando vinte e seis anos e já matou nos últimos dois meses oito policiais. E, desde que Topete fora chamado pelo chefão do asfalto, em nenhum momento Pimentinha se insinuara no sentido de rever a namorada. Mas como o destino tem mais paciência que Penélope, eis que o líder finalmente convoca Topete e lhe comunica uma escapulida. Diz, enfim, que sairá sozinho, o que é bastante para Topete: é o encontro com Lívia. De imediato, Topete telefona e dá o aviso ao chefão do asfalto, como estava combinado. E cai em profunda depressão, embora saiba que não há mais como contornar problema tão sério.



O pedaço de texto objetivou, na época, alertar para uma cultura passada, que ainda se fazia presente no ambiente social, e que se projetaria ao futuro (ao hoje), como é fácil constatar, bastando pesquisar ano a ano o fenômeno. Ora, o assassinato de policiais-militares e policiais civis da forma como vem há anos ocorrendo, nada mais é que atentado terrorista banalizado como crime comum pela mídia e por uma sociedade que, unidas no cinismo, não aceitam a morte de bandidos por policiais, questionando o tempo todos os autos de resistência e cobrando punição severa para as falhas policiais. Por outro lado, rapidamente esquecem os atentados que vitimam fatalmente policiais, que são vários e aterrorizantes, adrede estabelecendo que qualquer reação pode ser por eles (imprensa e sociedade) entendida como ato de “vingança”, como se o policial não tivesse o direito nem de se indignar como ser humano e se obrigar a enterrar seus companheiros como se fossem ovelhas devoradas pelo lobo mau.
Não me há dúvida de que a sociedade, infectada por discursos do tipo “limpar a polícia”, último dos estigmas inventado por um candidato ao Governo do RJ que nem de concordância verbal entende e dispara suas baboseiras a rodo nesta campanha. Não registro o nome dele para não ter que desinfetá-lo; mas reconheço que o neologismo “limpar a polícia” parece ter entrado em moda; e muitos devem estar gostando de ver a polícia ser “limpa” pela simples eliminação física dos seus membros por assassinos de toca ninja, comportamento típico de terrorista mundo afora: mania de totalitarismo (fanatismo fica mais bem posto) de esquerda, atraso na consolidação do Estado Democrático de Direito, pois é certo que esse revanchismo se reporta aos tempos do aprendizado na ilha Grande e na motivação dos inúmeros exemplos de atentados terroristas que ficam impunes.
A verdade é que não lidamos com bandidos comuns, mas com milhares jovens revoltados e facilmente influenciados pela impunidade e pelo anonimato, como, aliás, denunciou o prócer do Comando Vermelho William da Silva Lima. O bandido, apelidado de “Professor”, deu entrevista a um policial civil retratada no livro do jornalista Carlos Amorim (Comando Vermelho – a história secreta do crime organizado), que não é ficção, mas realidade de uma pesquisa de doze anos, como ele afirma na abertura do livro (vide Google).
Mas essa explanação me exige o retorno à obra de Carlos Amorim, um livro que precisa ser lido por todos os cidadãos que desejam construir uma democracia no Brasil de forma transparente e sem conluios desastrosos. Ao lançar o seu livro, em julho de 1993, Carlos Amorim salienta que "todos os nomes e locais são verdadeiros". E surge a primeira e grave denúncia no prefácio escrito pelo Jornalista Jorge Pontual, uma "palavra de leitor":

(...). O Comando Vermelho pôde parodiar impunemente as organizações de esquerda da luta armada, seu jargão, suas táticas de guerrilha urbana, sua rígida linha de comando. E o que é pior: com sucesso.

William da Silva Lima chegou a escrever um livro (Quatrocentos contra um- uma história do Comando Vermelho), publicado pela Ed. VOZES com o apoio da Pastoral Penal, do antropólogo Rubem Cesar Fernandes (que fez a apresentação), e da ABI, em cuja sede foi lançado com pompas de obra produzida por "gênio literário", segundo nos informa Carlos Amorim:

O livro de William da silva Lima foi lançado no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no dia 05 de abril de 1991, durante seminário sobre criminalidade dirigido pelo Instituto de Estudos de Religião, de orientação católica. O texto final foi copidescado por César Queiroz Benjamim, um ex-militante do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8), que trabalhou sobre um original de mais de quatrocentas páginas.

Carlos Amorim, diante das constatações que fez em sua pesquisa, afirma que:

As palavras do Professor dão bem a idéia do quanto ele se desenvolveu nos contatos que manteve na cadeia. Dizem que, ao contrário da maioria dos militantes da esquerda, ele leu O CAPITAL – conhecimento que ainda hoje falta a muito comunista de carreira.


Com efeito, a história costuma encaixar as idéias e os fatos delas decorrentes, como num "quebra-cabeça" cujas peças espalhadas custam a encontrar seu lugar no tabuleiro. Mas acabam se encaixando e formando o desenho final que fora anteriormente determinado:


Duas semanas após o lançamento, no dia 19 de abril, o fundador do Comando Vermelho, com autorização do DESIPE, manteve um encontro com jornalistas estrangeiros no Hospital Penitenciário. Esta foi a segunda vez na história do sistema penal brasileiro que um preso comum deu entrevista coletiva à imprensa. Na noite de autógrafos na ABI, quem assinava os livros era a mulher dele, Simone Barros Corrêa Menezes.


Somente para aguçar a curiosidade e a reflexão daqueles que tiverem acesso à leitura deste texto, informa ainda Carlos Amorim a respeito desse personagem do CV alçado à condição de "gênio literário":


William da Silva Lima, um pernambucano de cinquenta anos, se considera um guerrilheiro, (...) Hoje ele está preso em BANGU I.


E emerge no livro de Carlos Amorim a mais impressionante revelação de William da Silva Lima, gravada pelo Detetive João Pereira Neto, da Divisão Anti-Seqüestro do Rio:


William comenta que alguns intelectuais pretendiam usar o Comando Vermelho na luta política. (...). Alguns deles, pequeno-burgueses, pretendiam usar nossas comunidades e nossa organização com finalidades políticas. – À medida que não deixamos usar, comprovamos, sem soberba, que conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu, o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente elas serão três milhões de adolescentes que matarão vocês (a polícia) nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas? Quantos BANGU I, II, III, IV, V... terão que ser construídos para encarcerar essa massa?”


Enfim, é o que efetivamente vem ocorrendo nesses últimos anos e alcança os dias de hoje, e toda essa poeirada tem sido enfiada debaixo de grossos tapetes governamentais e societários, até que um dia o caldo entorne, e entornará, sem dúvida. Porque desde ontem, e até então, todas as medidas de segurança publica no país são parciais, ideologizadas e tendentes ao fracasso por carência de meios e pela falta de boas leis penais que valorizem a vida do policial. Com efeito, a vida do policial está mais desvalorizada que a de pulgas (Xenopsylla cheopis) de Rattus rattus (ratos-pretos) empesteados pela bactéria Yersinia pestis. Tanto faz, portanto, que o policial morra em cada esquina da cidade e sua morte banal se superponha a outras muitas mortes esquecidas até pelos colegas que não olham para trás para contar suas baixas letais. Não percebem claramente quão perigosa e incerta é a profissão que abraçaram, demais de desmoralizada a ponto de o discurso midiático de cobrança é o de “limpar a polícia”, como se essa mídia que recebe polpudas verbas publicitárias governamentais fosse ascética e pudesse fazer de seus jornais o “papel higiênico” do dia seguinte, em vez de embrulhar peixe...




sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Quem somos nós?


A vida humana é curiosa. Corremos contra o tempo, não nos ajustamos à ideia de que ele passa muito rapidamente, e não nos sentimos velhos diante do nosso espelho e de nossa imagem. Mas, quando deparamos com fotos recentes de muitos amigos reunidos, enfrentamos a triste realidade de que o tempo passou mais rápido que a velocidade da luz. No meu caso, me indago se fiz o que deveria com o meu tempo. Também penso se meus companheiros de jornada e amizade souberam aproveitar o tempo deles com sabedoria e alegria, embora cientes de que as tristezas fazem parte da vida humana. Não podemos evitar a perda de entes queridos, não podemos prever o átimo seguinte, não somos detentores do nosso destino nem do destino alheio. Nada, nem o amor extremado é capaz de evitar a perda de quem amamos. E nos questionamos: valeu a pena viver?...
Não sei responder à indagação que me faço a não ser na superficialidade dela. Não consigo aprofundar a reflexão para alcançar lá no meu mais profundo íntimo o que eu deveria ou não deveria ter feito para viver melhor neste mundo materialista e desigual que nos faz esquecer o tempo da nossa vida e da escassez dele a cada dia que o sol nasce e se põe. Vivemos sem olhar para trás para contar o tempo e sabê-lo aproveitado ou perdido. Pensamos num futuro além de nossas possibilidades materiais e espirituais. Não fazemos nada para nós com as próprias mãos, como antigamente. Hoje a ciência e a tecnologia nos suprem as necessidades máximas e mínimas e nos tornamos preguiçosos. No meu caso particular, não encontro respostas existenciais que me atendam na filosofia e nem na teologia. E não consigo fingir não ter dúvidas existenciais ocultando-me em dogmas. Sou deísta, creio no evolucionismo apenas como um pequeníssimo detalhe do criacionismo. Não vejo nenhuma dicotomia entre uma doutrina e outra. Como creio num Deus maior que o universo ou que muitos universos, irrito-me com as abstrações que O fazem minúsculo, em especial aquelas que afirmam que somos feitos à Sua imagem e semelhança, como se fôssemos o centro do Universo, o que nem a Via-Láctea e muito menos o Sistema Solar e a Terra o são.
Não cogitamos o azar a não ser o alheio, num egocentrismo sem limites. Somos insignificantes ante o espaço e o tempo (ou espaço-tempo) e não nos damos por vencidos. Achamos o que fazemos mais importante que quaisquer coisas que outros o façam. Somos capazes de amargar a infelicidade ao volante de um carro de luxo e mesmo assim nos acharmos mais felizes do que o motorista ao lado, no semáforo, dentro de um fusca caindo aos pedaços. Não entendemos por que ele sorri para si próprio em sinal de felicidade interior. Ele nem mesmo olha para o nosso carro de luxo, não gasta o tempo dele com essa futilidade. Ficamos furiosos. Sentimos raiva dele por ignorar sua inferioridade material. E o nosso tempo passa raivosamente, enquanto o dele transcorre em felicidade tanta que dá para percebê-la. Que boa hora de humildemente indagarmos dele o que o faz feliz naquele momento de desigualdade social antes de o sinal abrir democraticamente para ambos!... Não o fazemos, temos medo da resposta, medo de ela se resumir a um sorriso feliz e ao adeus incógnito.
O tempo é o mais rápido trapeiro de nossas vidas. Ah, o tempo!... Não conseguimos travá-lo nem vivê-lo plenamente. Não temos tempo para isso e para nada além do nosso próprio egoísmo a fingir não ver ante o espelho a velhice inevitável e a proximidade do fim. Curioso é que, enquanto estamos sós com a nossa verdade única e infalível, não nos sentimos velhos. Até estranhamos quando somos chamados de vovô. Mas ao olharmos nossa imagem lado a lado com a dos nossos companheiros de jornada... Ah, que decepção! Lá se vai a doce ilusão da juventude para o buraco, e há quem evite sair na foto por vergonha de si mesmo, por não querer assumir que o tempo também passou para os fugitivos do grupo envelhecido. E há os que dissimulam uma juventude falsa por conta da mesma ciência e da tecnologia que nos tornaram preguiçosos por dentro e artificialmente rejuvenescidos por fora. E todos, ricos e pobres, produzidos ou não, poderosos ou não, terminamos no túmulo que nos iguala a todos.
O mais angustiante, também, é saber que o progresso não nos trouxe nenhuma felicidade. Em contrário, somos escravos do Estado paternalista ao qual pagamos caro por seus serviços que não nos garantem nenhuma segurança em quaisquer de seus aspectos. Somos clientes maltratados e reclamamos ao vento. Somos tratados como massa de manobra pelos mesmos detentores do poder dos tempos remotos: Estado e Igreja. Nada mudou na face da Terra, apenas o poder de antes se proliferou em novos tentáculos de controle social que, enfim, privilegiam bem mais os malfeitores do que os cidadãos ordeiros e cumpridores das leis que os políticos safados nos enfiam goela abaixo. E somos eleitores deles... A burocracia garante a eficiência e a eficácia do Estado que eles governam contra os seus administrados fingindo-se a favor. Os administrados somos nós, o povo, a platéia de um cenário teatral imutável e de mesmos atores. Revezam-se, às vezes, na encenação dos mesmos personagens nos mesmos palcos, sendo por nós aplaudidos ou vaiados, o que não muda absolutamente nada: continuamos a pagar ingresso caro para ver a mesma peça encenada pelo Estado malcriado pela sociedade. Nós somos os otários, e pagamos o preço eterno de nossa má-criação. Somos os palhaços a verem o circo passar e finalmente morremos sem conhecer o final da história. Que mais somos nós?... Ah, somos massa robotizada...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Papo de bar de Zará e Zorô


- Quem nasceu primeru, Zará, eu ou ocê?
- Fui eu, Zorô. Num intendi a progunta...
- É purque o pai sempri deu mais castanha ni mim, alembra?
- Alembro, Zorô. Eli dizia qui ocê veio adispois e instragô a parti da mãe qui eli mais gostava...
- Hum... Mas ocê nasceu junto...
- Mas meu boné é 57 i u seu é 60 de dimetru...
- Num é dimetru, seu burru, é diântromu...
- Adisculpa, Zorô. Mas, já qui ocê falô ni cabeção, alembra do Raimundão?...
- Alembro, Zará. Intrô na briosa cum a genti. Eli sim, qui tinha um cabeção... Era 65 de dimetro...
- Ô burro, já num falei qui é diântromu!
- Tá certu, Zará. Mas sabia qui Raimundão espichô as canela?...
- Num diga, Zorô. Morreu di quê?
- Morreu cum a cara numa poça di água...
- Afogadu numa poça di água? Comu, Zorô. Aondi foi?
- Lá na rua deli, di madrugada. Acharum eli di manhã cedinhu. Mas eli num morreu afogadu, não. Morreu di cirrosi antipática. Tava cachaçado inté u gogó e morreu di pé. Adispois caiu cum a cara na poça.
- Morreu bunitu, hem Zorô. Tô imaginandu u caixão deli, cum aqueli cabeção...
- Cabiçudo dimais, Zará. Eli sim, qui ganhava castanha du pai deli todu dia...
- Deixa pra lá, Deus u tenha e qui a alma deli tome muntas pingas lá nu céu!
- É mermo. Ocê leu o blogui do chefe Laranjera falandu de autu di resistença?
- Li, Zorô. Mas num intendi nadinha. Eli falô qui a história é convincenti. Qui será isso?
- Eu achu qui eli quis dizê qui inscreveu cum Vicenti. Devi di sê algum amigu deli...
- É, devi di sê... Mas, Zorô, alembra du pobremão do Raimundão cum aqueli autu di resistença?
- Alembru, sim. Eli entrô na favelis cum a macaca na mão e ouviu um “clic”. Quandu olhô pra trás, tava o bandidu cum um revórve apontadu pras costa deli. Tinha acabadu di atirá e u tiru falhô. O cara ia dá otru tiru, mas Raimundão, nu sustu, deu uma rajada di macaca nu manlandru.
- É mermo. U manlandru morreu iguá penera... Inda bem qui Raimudão contô tudinhu direitim pru delegadu i u delegadu mandô pra periça confilmá.
- Confilmô. Inda bem qui u Raimundão num tirô a chumbada du revórve. Tinha uma ispoleta cum marca. Sinão, tava fudidu...
- Veldadi. U promotô achô qui eli deu tiru dimais nu bandidu. Nu jugamentu, u promotô começô arrebentandu cum eli. Proguntô purqui eli deu tiru dimais di macaca i falô um monti di frasis difícis.
- Um advogadu deli defendeu eli bem, mas foi a reposta deli qui safô a onça, alembra?
- Alembru! Eli dissi qui prifiria tá ali nu tribuná sendu julgadu por seti du qui tê sido carregadu pur seis, mortinhu da silva, si u bandidu apeltasse u gatilhu di novu.
- Foi mermu. Dissi tomem qui num sabi dá um tiru só di macaca. Sai um monti di chumbu quandu apelta u gatilhu.
- É... Foi uma galgalhada só nu tribuná. Inté u homi da capa preta e u promotô riu e adispois mandô absorvê eli. Foi absorvidu pur seti a zeru..
- E veldadi, irmão! Eta prufissão danada di difícis!... Mas Deus sabi u qui faz. O Raimundão cabiçudo tinha di morrê di cachaça, qui foi mericidu. Alembra a tenenti qui mediu eli i levô um sustu com o cabeção deli? Era mais diântromu qui a cinturim dela...
- Olha u respeitu, irmão!
- Num tô disrespeitandu u difuntu, não. Eli era meu amigão!...
- Mas tá disrespeitandu a tenenti... Inda bem qui ninguém ouviu issu...

domingo, 12 de setembro de 2010

Sobre a insegurança pública em São Gonçalo


O Jornal O Globo de hoje, 13/09/2010 (2ª edição – RIO), traz extensa matéria nas páginas 22 e 23 sobre o Município de São Gonçalo e o excesso de homicídios supostamente perpetrados por PMs do 7º BPM, dissimulados em “autos de resistência” de difícil digestão pelo Ministério Público e pela Justiça Criminal locais. Mas este não é o mérito desta reflexão, os dados divulgados e as entrevistas das autoridades públicas infelizmente são convincentes. No entanto, como sou nascido em São Gonçalo e assentei praça na antiga PMRJ exatamente cursando e servindo por seis meses no antigo 1º BPM (1965), hoje 7º BPM, situado em Alcântara, populoso bairro do Município em questão, de onde saí para cursar a Escola de Formação de Oficiais (EsFO), em 1966, creio estar habilitado a ponderar sobre a segurança pública naquela localidade que é meu torrão natal. Mais ainda pesa o fato de eu ter vivido durante anos em São Gonçalo, já oficial da briosa e casado, oscilando o meu tempo de serviço entre o 12º BPM (Niterói), a Companhia Escola de Recrutas e a própria EsFO, ambas situadas também em Niterói. Portanto, preencho o requisito que o saudoso professor espanhol Manuel Garcia Morente (1886-1942), na sua obra FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA – LIÇÕES PRELIMINARES, ED. MESTRE JOU, São Paulo, 1930, citando Bergson, valoriza em importância: a “vivência”.
Enfim, não conheço São Gonçalo por nenhum mapa da cidade, mas por nascer, viver e conviver com conterrâneos e parentes e ainda hoje frequentá-la. Conheço o Município antes de ser desordenadamente ocupado por migrantes, formando favelas planas e montanhosas onde só havia a natureza exuberante. Conheço São Gonçalo antes de se tornar uma “cidade partida”, irreconhecível aos nativos anteriores à explosão demográfica. E posso comparar a segurança pública daquela época nem tão remota com o que na cidade há atualmente. Antes (1983), havia dois Batalhões de Polícia Militar (o 4º BPM, sediado em Neves, e o 1º BPM, sediado em Alcântara). Houve a Fusão e o 4º BPM tornou-se 11º BPM. Depois foi transferido para Nova Friburgo, ficando no seu local o Laboratório Industrial Farmacêutico (LIF) da nova PMERJ. Reduziu-se então a PMERJ ao 1º BPM, tornado o 7º BPM de hoje. Eis a contradição: enquanto a PMERJ encolhia sua estrutura e seu efetivo operacional, a cidade crescia exponencialmente, fazendo valer a lógica de Manuel López-Rey (O CRIME – Ed. ARTENOVA, Rio de Janeiro, 1973) do aumento da criminalidade proporcional ao aumento populacional: “... A relação entre o crime e a população é direta, no sentido que quanto maior é a população tanto maior é o número de crimes...” A afirmação se inclui a outras explicitadas pelo renomado e sempre atualíssimo autor, mas interessa aqui apenas a sublinhada.
Atualmente, o Município de São Gonçalo é caótico em matéria de desordem urbana, violência e criminalidade, mas continua sendo tratado pelo Estado como bucólica cidade interiorana, capaz de reagir à violência com uma estrutura mínima de Segurança Pública e de Justiça Criminal. A tal ponto que sobre os ombros de uma Juíza de Direito pesa um volume de crimes que a ela, em instância local, cabe atalhar, pondo-a em risco de danos físicos e imprimindo-lhe o cartaz de juíza “linha-dura” apenas porque ela age como determinam as leis e nada faz além de zelar por seu dever funcional. Designá-la como “linha-dura” (assim está no jornal), pode criar a falsa impressão de que ela se diferencia dos demais colegas dela, que, no caso, seriam então “linhas-moles”?... Na verdade, ela está é muito sozinha a cumprir a tarefa hercúlea de aplicar indistintamente a lei penal diante de inúmeros fatos criminosos que lhe chegam em processos acionados pelo Ministério Público, não lhe importando quem sejam os acusados: a lei é igual para todos.
Se atentarmos para o Sistema de Segurança Pública de São Gonçalo abarcando todos os organismos estatais que nele se incluem, a conclusão será, sem dúvida, desanimadora. E não é de agora a carência, o que me obriga a lembrar minha tese defendida no Curso Superior de Polícia, em 1988, disponível no meu site para leitura e impressão (www.emirlarangeira.com.br). Na ocasião, – tendo em vista a minha preocupação com a progressão do crime em São Gonçalo e a diminuição dos meios para controlá-lo, – pesquisei sobre a possibilidade de o aumento da população pauperizada e a incidência de acidentes de trânsito (ocorrências não-criminosas) ocuparem exageradamente a pouca estrutura operacional destinada a conter o avanço do crime. A conclusão, testada estatisticamente em ocorrências reais e registradas em Talões de Registro de Ocorrências (TRO) pelo 7º BPM no ano de 1987, foi absurda: a PMERJ não estava controlando o crime porque quase todos os seus meios se destinavam ao atendimento de ocorrências assistenciais num patamar além do tolerável. Em resumo: a radiopatrulha que deveria estar circulando na prevenção do crime ou na sua repressão passava mais tempo na porta de hospitais e afins socorrendo pessoas paupérrimas ou atendendo a ocorrências de trânsito. O Teste de Significância aplicado aos dados reais do 7º BPM está disponível no conteúdo da minha Monografia. Não se trata de aplicação de teste estatístico simplório, não. É só conferir...
Claro que a desproporção dos meios da segurança pública em São Gonçalo, – fruto de descaso governamental tão aberrante que suprimiu um batalhão na cidade, algo inédito e até inacreditável, – ocorreu na contramão do aumento populacional e da consequente extensão do crime. A esse quadro situacional desfavorável acresceram-se a evolução do tráfico de drogas e a dominação das comunidades carentes por quadrilhas fortemente armadas, enquanto o efetivo policial permaneceu e ainda permanece em queda livre. Ora, é evidente que o risco enfrentado hoje por qualquer policial civil ou militar em São Gonçalo é maior. Falo de risco de morte, o que situa o problema num tal nível de aflição cujo resultado não poderia ser outro: aumento da violência policial como forma antecipada de defesa da própria vida, ou seja, a violência gerada pelo temor da morte ante uma criminalidade inegavelmente superior em homens e armas e organizada em formato de guerrilha urbana.
Leis penais e processuais penais e rigor judicial à parte, ao policial gonçalense (mais aos PMs) restam-lhe a omissão para não morrer (omissão é crime!) ou a ação violenta e dissimulada em “autos de resistência” insustentáveis (o que também é crime!). Acontece que o acionamento das patrulhas é feita à distância por quem não possui nenhuma vivência do terreno. Entretanto, descumprir ordem de atendimento a ocorrências delituosas é transgressão grave da disciplina e crime militar pra começo de conversa. Então a radiopatrulha ou outra guarnição mais ofensiva (PATAMO) é obrigada a atender à ordem superior de “Maré 36” e se vê diante da possibilidade de ser recebida a tiros de qualquer arma, desde o fuzil AK-47 ou M-16 ao revólver de calibre .22.
A questão que se impõe categoricamente à guarnição é esperar vir o tiro, identificar o calibre, para depois responder com igual calibre desde que não seja antes atingido. Se, por exemplo, o PM portar um fuzil de igual potência de fogo ao do marginal, posto na sua mão pelo Estado, e responder com essa arma geralmente letal à agressão de um bandido portando um revólver .38, estaria ele ultrapassando os meios moderados e necessários à sua defesa? Provavelmente, sim! Mas, como ele fará? Deixará o fuzil de lado para sacar o revólver .38 ou a pistola .40 e assim equilibrar seus meios bélicos ao do bandido? Terá ele tempo e discernimento para tal empreitada? E o medo que já lhe ocupa o espírito ante a desvantagem que de antemão ele sabe que enfrentará? Como lidar com esse medo? Ou será que há quem pense que PM não tem medo de morrer?... Mas seria ele capaz de admitir ser um medroso?... Duvido! A cultura interna é diametralmente oposta ao medo até como ideia. Associam-no logo à covardia, predominando o emocional sobre a indispensável racionalidade que deve primar no exercício da atividade policial, afastando-a da ideia de “guerra” contra o crime. Ocorre, porém, que a criminalidade está a mais e mais organizada e atuando no ambiente social como guerrilha urbana, corroborando a tradição histórica dos ensinamentos político-ideológicos recebidos dos presos políticos na ilha Grande dos tempos de chumbo. Para quem não lembra, aquela incipiente “Falange Vermelha” é hoje o poderoso Comando Vermelho e isto não é ficção.
Não sei se a matéria, de inegável utilidade pública, gerará consequências agradáveis à população de São Gonçalo. Tomara que sim, e que as autoridades maiores acordem para a infeliz realidade de que a luta da polícia contra o crime em São Gonçalo está desigual e tão descontrolada que daqui a pouco bastará à Justiça Criminal local retirar do portal do 7º BPM a sua identidade de quartel e torná-lo “2º BEP”, em desdobramento do BEP (Batalhão Especial Prisional) situado na Capital e já apinhado de PMs acusados de crimes vários, não interessando aqui adentrar o mérito das acusações. Trata-se apenas de constatação.
Não nego, portanto, minha opinião no sentido de que a matéria é útil. E faz justiça ao esforço hercúleo de um Promotor de Justiça e de uma Juíza de Direito, ambos, porém, intranquilos e cercados de segurança pessoal por punir maus policiais, quando, na realidade, deveriam estar condenando marginais contumazes presos por bons policiais. Por outro lado, sinto uma ponta de ironia do jornal quando publica que a Juíza afirma não temer ameaças, embora não permita que seu rosto seja fotografado, o que sugere o contrário. Nada demais, ela deve, mesmo, se proteger e ser protegida. Ora, algo está errado nessa história de terror!... Juiz de Direito e Promotor de Justiça não podem se sentir ameaçados exatamente por quem lhes deveria escudar de ameaças. E a sociedade gonçalense, já desesperada em sua insegurança, ao ler a matéria de hoje decerto temerá sair de casa e mais desconfiará da PM, que, aliás, quase não vê circulando nas ruas do abandonado Município de São Gonçalo. Que a matéria então produza reação inversa e o povo gonçalense exija dos governantes mais segurança em todos os sentidos, a começar por garantir a indispensável proteção daqueles que, por dever de ofício, penalizam malfeitores, sejam ou não policiais, contando apenas com as leis e a caneta!

sábado, 11 de setembro de 2010

O velho favelado


Fazia muitos anos que a favela via o velho sentado no rústico banquinho de madeira. Era uma figura enigmática, aquele velho... Amanhecia, e lá estava ele, sentado e fumando seu cachimbo não menos rústico. Ao lado dele, na ponta do banquinho, somente o pacote de fumo e a caixa de fósforos; em frente dele, no chão, um pequeno alguidar de barro a lhe servir de cinzeiro. Negro como o azeviche, magro, não muito alto, cabelos e barba brancos e unidos entre si por suíças, o velho já fazia parte da paisagem favelada: ora alegre, ora tristonha, ora violenta e apavorante. Mas ele, silencioso, com o olhar perdido num horizonte inexistente, ali permanecia até o lusco-fusco do anoitecer, quando então se recolhia ao seu pequeníssimo barraco, tão tosco quanto seu improvisado banquinho de madeira.
A moradia, com efeito, não poderia ser mais simples: era feita de tábuas carcomidas pelo uso em antigas construções e pregadas a estacas de mesma origem. Na parte frontal, que dava para a viela, havia oito dessas tábuas, perfazendo um espaço de dois metros e quarenta centímetros. Duas delas, – presas a pedaços de couro como dobradiças, – eram a porta; numa outra tábua, um buraco de altura e largura iguais fazia a vez da janela. Um pedaço de cobertor cobria o espaço destinado à penetração do ar no pequeno ambiente interno.
Do lado de trás do barraco, e por dentro, uma tábua apenas, – também presa a pedaços de couro como dobradiças, – dava acesso a um puxadinho mínimo, que ao velho servia de banheiro. Numa caixa emborcada, um buraco arredondado era onde o velho depositava em dignidade possível os seus dejetos; dentro da “caixa sanitária”, um cano de esgoto enviava os despejos não se sabe pra onde. Um balde d’água era a descarga, e não havia nada malcheiroso: predominava o olor do fumo queimado. E a prateleira de quina, – contendo uma pequena bacia de alumínio e um pedaço de espelho, – completava a decoração do pequeno espaço destinado à higiene do velho.
Como podia o velho se safar naquele microcosmo, só ele sabia... E no espaço menos mínimo do barraco (o quarto), pregos e prateleiras de tábuas toscas serviam para acomodar as poucas peças de roupa, todas brancas, de algodão, e alguns pertences insignificantes: canivete, escova dental, sabonete numa lata de sardinha, radinho de pilha antigo, apetrechos de fumar, toalha desgastada... Enfim, era tudo que o velho possuía e parecia satisfeito, em especial porque ele só entrava uma vez, à noite, para sair no dia seguinte e sentar-se no seu banquinho até novamente anoitecer, exceto nos dias de chuva, em que ninguém o avistava do lado de fora. E quem pensa que havia goteiras no barraquinho, engana-se. Não havia. O telhado improvisado em folhas de flandres era mui bem vedado.
Por esta hora o leitor deve estar imaginando que o velho era faquir... Não! Uma birosca próxima lhe servia o alimento, regularmente, do café da manhã ao jantar, demais do pacote de fumo e dos fósforos que jamais lhe faltavam. Quem pagava a conta, não sei, mas tudo era religiosamente saldado por algum anônimo sobre o qual o velho e o birosqueiro nada comentavam. Era apenas mais um segredo: o velho não abria a boca. Acenava com a cabeça respondendo aos cumprimentos que recebia dos passantes, e para as crianças fixava um olhar brilhante e sorridente. “Abença, vô!”, elas diziam. Ele as mirava carinhosamente e balançava a cabeça aquiescendo. Respondia pelos olhos e as crianças entendiam.
Era assim o cotidiano do velho, porém nem tão calmo... Havia as escaramuças entre bandidos, ou de policiais contra eles, e o corre-corre dos apavorados favelados em meio aos estalidos fatais. Mas o velho, sentado no banco e pitando seu cachimbo, nem se amofinava; ignorava os tiros, os bandidos, a polícia, e só franzia a testa quando via alguma criança desgarrada dos responsáveis. Aí sim, ele até se levantava do banco e recolhia a criança, não sem antes amarrar a cara para quem estivesse portando arma e atirando, fosse bandido, fosse policial. Seu olhar bastava para envergonhar os belicosos. Mas, tão logo tudo se acalmava, ele sentava no seu banco e nem lhe parecia que houvera antes algum tiroteio.
Assim era o velho, e todos desconheciam a sua origem. Chegara ao barraco como se aquele pequeno espaço já soubesse que seria por ele ocupado. No chão batido e forrado de tábuas velhas – o assoalho –, encostado num dos lados, havia o colchão forrado de plástico protetor, como se fora fabricado naquele dia. O lençol, o cobertor, o travesseiro, a fronha e um segundo lençol compunham a sua cama posta sobre as tábuas. Nada estava sujo, era tudo muito limpinho, como se alguém furtivamente trocasse as peças em algum momento; do mesmo modo, as peças de roupa que usava se apresentavam invariavelmente limpas, de modo que o ensebado do banco era consequência do suor inevitável que se acumulara ao longo do seu sentar indefectível e não por descuido com a higiene.
“De onde surgira o velho?” A indagação corria o morro de ouvido em ouvido em cochichos surdos. Muitos curiosos não resistiam e indagavam a origem do velho ao birosqueiro. O máximo que ele dizia era que o alimentava e cuidava de lavar e passar seus panos de vestir e dormir; e que providenciava a água do banho e da moringa posta sempre ao lado da cama e do travesseiro, a boca da moringa protegida pelo copo de vidro, único, que lhe servia de bica nos instantes da higiene bucal e se enchia para lhe forrar de água fresca o estômago. Também o recipiente da descarga tinha a água reposta regularmente, de modo que fique claro ao leitor que o velho era sozinho, vivia sozinho, permanecia o dia inteiro sentado no seu banco fumando cachimbo e nada devia a ninguém. Nem ao birosqueiro, este que recebia régio pagamento por tudo que fazia, mas longe da favela, o que matava os favelados de curiosidade: “Quem era aquele velho?”...
A pergunta corria a favela, as crianças insistiam com os pais e os mais velhos cismavam, mas ninguém sabia ao certo que concluir e responder. Daí, todos inventavam... E as lendas se acumulavam, das mais simples às absurdas. Uns afirmavam que ele nascera na favela e dali jamais saíra. Na verdade, o tempo fez com que muitos nascessem e crescessem vendo o velho sentado no banquinho. Como favelado costuma morrer cedo, de doença ou tiro, a invenção foi se tornando verdade: o velho sempre existira, tal como muitos asseguram que o Universo sempre existiu e não houve nenhum big bang, nenhum momento primeiro, nenhum “peteleco de Deus” para movimentar o Seu brinquedo atemporal. E, claro, onde impera o mistério, se desdobram as lendas, os mitos, os dogmas e muitas mentiras. Era o que acontecia na relação do velho com a comunidade, que dele só capturava um franzir de testa ou o olhar brilhante quando se tratava de mirar as crianças, únicas que dele se aproximavam sem temor e lhe pediam a benção: “Abença, vô!”
E o tempo escorreu, crianças tornaram-se adolescentes e alcançaram a fase adulta sem que o velho apresentasse qualquer mudança no seu corpo e nos seus hábitos. Passasse por ali o filósofo Emanuel Kant, este acertaria o seu relógio crendo na precisão do comportamento do velho. Enquanto isso, a favela foi crescendo, com os barracos cada vez mais apinhados à beira de precipícios ignorados pelos que necessitavam de um teto em qualquer lugar, por mais perigoso que fosse. E em meio ao turbilhão do ir e vir dos favelados e dos cada vez mais constantes tiroteios, a única imagem que não se alterava era a do velho sentado no seu banco feito da caixa de madeira jogada fora por algum quitandeiro.
Brilhava o sol, lá estava ele: o velho sentado no banco a fumar seu cachimbo. Chovia, e ele não saía do barraquinho. Anoitecia, e ele se recolhia britanicamente... Brilhava o sol... Passava a noite... Brilhava o sol... Mas um dia o velho não saiu, não se sentou no banco, não fumou seu cachimbo, não franziu a testa em meio aos tiros nem tremeluziu seus olhos ante a gurizada alegre. E muitos deduziram: “O velho está morto!” E depois de dois dias sem ele no banco, alguns favelados arriscaram a dar uma olhada de soslaio empurrando a portinhola do barraco... E nada havia dentro... Empurraram a portinhola do banheiro... E nada mais havia dentro, nenhuma peça, nem o velho...
Ele desaparecera sem que ninguém na favela notasse, nem o birosqueiro que o servia. E até hoje o mistério do velho favelado permanece alimentando histórias e mais histórias naquela favela por ele escolhida para viver a modo bom ou ruim, feliz ou infeliz. Ah, de um modo ou de outro, e por mim, ninguém haverá de saber! Que então cada leitor pense o que quiser e escolha o seu próprio jeito de encerrar esta história que mais se assemelha à de um mundo com ou sem espaço, tempo e finalidade: o mundo do tudo ou do nada!...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Tempos de campanha



Nesses tempos de campanha política toda crítica cheira a manobra eleitoral, o que não me interessa. Não quis ser candidato exatamente para não macular minhas observações. Sei que por vezes são azedas em relação a alguns mandatários políticos, mas sempre visando ao acerto do sistema de segurança pública, meu tema predileto. Critico com a intenção de contribuir na construção ou reconstrução de novos modelos estruturais ou, pelo menos, tento sublinhar algum conceito que entenda útil, mesmo não o sendo sob o crivo de terceiros. Não há problema, lixo com o conceito, que a mim não ofende!
Não sou candidato a cargo político, embora filiado ao PR apenas como eleitor e simpatizante. Creio, porém, que o meu papel social não se esgotou na política nem por causa da minha inatividade na PMERJ. Como o sistema ainda me cobra, legalmente, deveres vários, enquanto eu viver devo colaborar com a corporação como se estivesse no serviço ativo. Também como cidadão, sou responsável pela segurança pública, como assim prescreve a Carta Magna. Portanto, eu sigo em frente, agradando ou desagradando, porém sempre evitando ofender ou menoscabar as pessoas que cuidam da segurança pública por obrigação ou comissão.
Como é difícil criticar sem repercutir aqui e ali, positiva ou negativamente, passarei o mês de setembro sem abordar assuntos que possam receber dúbias interpretações, exceção que faço no caso de precisar defender a PMERJ de ataques insanos. Será, todavia, um mês em que buscarei inspiração para escrever coisas amenas ou demorarei a postar artigos, como, aliás, muitos blogueiros o fazem.
Sei que sou “rápido no gatilho” (teclado do computador), mas deixarei a “arma” (meu blog) sem munição por uns dias; depois, tornarei com sede ao pote, qualquer que seja o resultado do pleito. Afinal, o mundo não acaba nem recomeça por conta de eleições, nem aqui nem algures. Mas, por causa dos eleitos, acabará de qualquer JEITO (assim reparo o errôneo “GEITO” da charge). Não sei, todavia, quando o mundo acabará. Espero que daqui a muitos milênios ou, diferentemente da charge, — e mais otimista, — que seja pelo menos depois das Olimpíadas de 2016... Em compensação, nesse dia, — parodiando o vaticínio de Luís Fernando Verissimo numa de suas crônicas geralmente sensacionais, — ninguém precisará fechar suas portas e janelas a medo de ladrões...