sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O caso Rocinha/Vidigal/São Conrado II

A “linha do tempo” III



Fonte: O Globo, 27/08/2010


Toda vez que me vejo ante algum episódio polêmico, — abundante no noticiário policial e geralmente distorcido quando se trata da PMERJ (quando não há motivação para jorrar um lamaçal sobre a corporação alguns segmentos da mídia inventam pelo menos uns respingos de lama), — eu tento esclarecê-lo no meu blog. Claro que, atuando sobre os efeitos visíveis de algum acontecimento, os profissionais da mídia perseguem sempre “o transeunte que teria mordido a perna do cachorro”. Tudo bem, que assim seja! Mas não primam pela isenção...
O episódio da Rocinha emerge no dia de hoje (O GLOBO de 27/08/2010) destacando trecho de suspeitíssima entrevista gravada pela Rádio BandNews FM com um “refém” do Hotel Intercontinental, este que teria ouvido conversa entre criminosos dando conta de que os PMs do 23º BPM teriam recebido R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) para fazer “vista grossa” ao “bonde do tráfico e não teriam cumprido o acordo” (todos sabem que foi o contrário: a PMERJ fez “vista fina” e enfrentou os bandidos). Daí “a reação” dos bandidos... É mole? (Desculpem-me a repetição do verbo ter no futuro do pretérito. É proposital, aprendi lendo notícias de jornais...)
Pior é que a notícia estoura como bomba em página inteira, com um título bastante sugestivo e desmoralizante: “Extorsão na origem do tiroteio”. Enfim, a tal “extorsão” perseguida no caso do skatista retoma o espaço midiático ante a impossibilidade de sustentá-la para proteger o pai do atropelador de Rafael Mascarenhas. E não é difícil observar a ambiguidade da matéria, que afirma e desmente o que publica num emaranhado de informações respingadas de lama eu suas entrelinhas a formar o pretendido lamaçal...
Mais sintomático, e com forte indício de armação, é que o tal “refém” teria sido ouvido na DP e nada disso declarara. Como pode ele surgir depois, em anonimato, para plantar acusação tão surreal, mas capaz de ofuscar a realidade? Aliás, o linguajar do tal “refém” não me parece típico de “refém”, mas corriqueiro entre bandidos. Demais, ele comete “atos falhos” importantes na entrevista (“sabe demais”). Cá pra nós, em sendo apenas “refém” (é desnecessário dizer como ficam reféns diante de ferozes bandidos armados de fuzil), como é que ele “viu” mais que todo mundo e “gravou na memória” tantos detalhes? Que fenômeno!... Ele se coloca como observador privilegiado e simultâneo de traficantes, reféns e PMs. Que frieza!... Afinal, qual era a condição dele durante o episódio, já que se refere aos reféns sem se colocar como um deles?...
Estranho... Creio que já vi esse filme antes, em 1993, no transcurso das conspirações após um tenebroso crime que está para completar 17 anos sem que os autores e culpados tenham sido verdadeiramente singularizados e punidos. Enquanto isso, muitos inocentes amargam até hoje a “injustiça perfeita” da máxima socratiana: “A injustiça perfeita, tanto nos estados como nos indivíduos, tem efeitos funestos para eles.” Ah, não tem jeito! É assim desde os velhos tempos, o que sugere lembrar o estudioso Nicola Framarino Dei Malatesta (A Lógica das Provas em Matéria Criminal, Conan Ed., 1995, Vol. II, pág. 36):

“Mas se as coisas não podem ser falsas por si mesmas, podem ser falsificadas pela obra do homem, que maliciosamente é capaz de imprimir nelas uma alteração enganadora, naquelas determinações de lugar, tempo ou modo, que constituem a subjetividade formal da prova material; e o investigar se a coisa é ou não falsificada, pertence à avaliação subjetiva, enquanto tende a fixar credibilidade subjetiva da coisa probatória, isto é, a estabelecer se a coisa material se apresenta com a missão subjetiva de provar o verdadeiro que vem da natureza, ou se, ao contrário, vem da malícia humana, modificada para produzir uma falsa verificação, especialmente para enganar.”

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O caso Rocinha/Vidigal/São Conrado

A “linha do tempo” II

A legislação federal regulamentadora da PMERJ

Embora defasadas e mal adaptadas à defeituosa Carta Magna de 1988, permanecem vigorando as leis e os decretos-leis federais que dão conta de serem as Polícias Militares (PPMM) subordinadas ao Exército Brasileiro (EB) como forças auxiliares. Significa, em síntese, que o planejamento e as ações das PPMM devem considerar todas as modalidades de defesa focalizadas pela força militar federal, em especial as defesas territorial, interna, pública e civil, esta última destinada ao atendimento de calamidades públicas. Todavia, a missão precípua das PPMM é a defesa pública, ou seja, a prevenção e a repressão na preservação da ordem pública e/ou sua restauração, numa primeira fase de perturbação da ordem pública, com os recursos de rotina e acionamento das forças de retaguarda (BPCh, BOPE etc.), tudo com base em planejamentos globais, regionais e setoriais, respeitada a legislação referente à ordem pública e aos direitos e garantias individuais.
Conceitualmente, segurança pública é garantia da ordem pública, sendo a defesa pública seu poder instrumental concretamente representado pelo patrulhamento preventivo-repressivo das ruas e logradouros em situação de normalidade. Num outro extremo (anormalidade), as PPMM podem atuar em ações operativas (Estado de Defesa e de Sítio), incorporadas ao Exército Brasileiro (EB). Nesta hipótese, o comando das PPMM passa ao EB, e, consequentemente, à União.
Para atender a toda essa gama de funções normais e extraordinárias, as PPMM se obrigam a atualizar seus planos conforme orientação do EB, sempre priorizando a defesa pública. Existe naquela Força Terrestre uma Inspetoria Geral das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares (IGPM), de onde emanam as diretrizes de planejamento, treinamento, mobilização etc. E as leis e os decretos-leis que cuidam dessa subordinação das PPMM ao EB, embora anacrônicos em alguns aspectos, são detalhadíssimos. Também o são os planejamentos estratégicos, táticos e operacionais das PPMM, demais de atualizados de diversas formas para oferecer à sociedade o melhor serviço policial, tendo sempre como restrição os seus meios materiais e humanos.
Enveredo em digressão por esses aspectos da “linha do tempo” para refutar algumas críticas da mídia sobre o episódio de São Conrado. Elas me soam injustas e com o propósito de menoscabar as ações policiais, como se esses profissionais da mídia (alguns apenas) estivessem analisando uma partida de futebol sem saber jogar bola, sem atentar para as medidas do campo, sem a noção de quantos jogadores há em cada time e desconhecendo o tempo de jogo...
Como autoridade maior a comandar o espetáculo da ordem pública nos Estados Federados releva-se a figura do secretário de Segurança Pública. É ele o maestro de uma orquestra a seguir a partitura do governante estadual sem, porém, despregar o olho da partitura federal. Acontece que essas partituras nem sempre se afinam em seus variados arranjos, até porque os maestros e músicos não treinam em conjunto como antigamente o faziam.
Hoje, em vista de diversos fatores marcantes, sublinhando-se dentre eles a abertura democrática, os “Objetivos Nacionais Permanentes” (ONP) tornaram-se fade out... A orquestra nacional, a bem da verdade, está muda e desdenha suas partituras, deixando os músicos estaduais à mercê de maestros afinados (ou desafinados) com outras espécies de música, indo da erudita ao funk, sem aviso prévio e regendo muitas vezes “de ouvido”.
O ambiente social, que antes era “certo e sabido” por decreto ou vontade expressa de quem mandava mais, hoje é incerto e turbulento, demandando improvisações que só os bons músicos são capazes de executar. Parodiando Chico Buarque, e “trocando em miúdos”, num só governo vimos o maestro-governante determinar o “enfrentamento” aos traficantes, inclusive cobrando a ajuda do Exército Brasileiro, este que, por sua vez, se esquivou... Veio então a Força Nacional de Segurança Pública, com partitura tão improvisada que nem é inscrita na Carta Magna. Trata-se de nova orquestra composta de músicos de todos os naipes e dependentes de muitos ensaios diante de partituras ainda carentes de decisão. Ninguém sabe onde começa ou termina a ação da FNSP... Não disse ainda a que veio...
Tempos depois, e concluindo ser o “enfrentamento” um caminho perigoso e tendente ao fracasso, o governante estadual determinou a “pacificação”. Optou por aplicar de modo diametralmente oposto o aparato de defesa pública ante as incertezas e turbulências do ambiente, sendo certo que esta radical mudança conjuntural implicou alterações estruturais que às vezes não funcionam como perfeitas partituras. E se a orquestra não desafina é porque os músicos são bons e ótimos, capazes até de tocar “de ouvido”. E, queiram ou não os interessados no caos, nossos músicos da PMERJ e da PCERJ são hábeis em ler partituras e em tocar de improviso. Conseguem tirar som até de tampa de panela na falta de melhor instrumento de percussão, são policiais prontos para “enfrentar” e “pacificar”, situações intercorrentes no ambiente real do Rio de Janeiro. Com efeito, uma situação jamais excluirá a outra e a polícia deve estar preparada para atender a ambas.
Para fazer frente às incertezas e turbulências ambientais, as corporações policiais vêm apostando na inteligência policial e ampliaram em importância a atualização dos planejamentos globais, intermediários e específicos, como processos dinâmicos, para assim garantirem ações cotidianas eficientes, eficazes e efetivas, mesmo que diversas e imprevistas. Na verdade, não há como fugir do “se-então” num tempo em que tudo é relativo, nada é absoluto: o ambiente democrático atual. E para que as ações logrem êxito, o sistema de segurança pública enfatiza a inteligência policial, que é imprescindível e não pode se resumir ao “antigamente”: análise de fatos passados, como se o ambiente social fosse capaz de se manter estático e controlado por leis, decretos e opiniões jornalísticas nem sempre isentas. E com os “analistas”, abraçados ao anacronismo, sempre tentando localizar nas entrelinhas das tais análises os “inimigos internos”; ou seja, tudo se resumia à “inteligência político-ideológica” levada a efeito nos gabinetes refrigerados e seguros das instalações oficiais.
Já a inteligência policial, corretamente priorizada, deve ser feita em campo aberto e em situações de altíssimo risco que vão da observação velada dos bandidos à infiltração de policiais em quadrilhas com o aval prévio do Ministério Público e da Justiça. Manter uma inteligência policial eficiente e eficaz, portanto, não é tarefa simples. Cada caso é um caso, e as decisões são velozes como o raio, de modo a haver a antecipação necessária à ação planejada (proatividade), evitando-se ações inesperadas. Não foi o caso de São Conrado. A inteligência policial estava a postos, proativa, sendo certo que o encontro e o confronto, embora indesejado, era previsto como possibilidade, o que se deduz da quantidade de agentes e da rápida e eficiente reação cujo resultado foi eficaz e antes de tudo merece aplauso. Aproveito para fazer uma correção. Vem ocupando o senso comum a expressão “pró-ativa” em substituição conceitual errônea da correta expressão “proativa”. O que é “pró” é “a favor de”. Portanto, ser “pró-ativo” significa ser a favor da ação. Ora, é mais que óbvio que a polícia deva ser sempre “pró-ativa” (a favor da ação), senão seria omissa ante a criminalidade. Mas, em planejamento, “proatividade” significa antecipação, em oposição a reações inesperadas e geralmente desastrosas.
A inteligência policial é proativa, porém nem sempre os eventos ocorrem no ambiente social com a calmaria desejada. Por isso, são inevitáveis as escaramuças entre bandidos e homens da inteligência policial, estes em aparente desigualdade de forças, mas protegidos pelo modo velado de agir. Foi o que houve em São Conrado, com a ressalva de que os bandidos, às dezenas ou centenas, e armados para uma guerra, perderam-na ante a velocidade de mobilização da PMERJ e da PCERJ. Perderam-na, principalmente, em virtude da coragem e da destreza desses policiais da inteligência do 23º BPM, que lá estavam em número razoavelmente proporcional ao risco de enfrentamento, caso fossem revelados. Enfim, era necessário acompanhar a movimentação dos bandidos e o critério escolhido não poderia ser outro: uso da inteligência policial em trabalho de campo.
Este é o ponto principal: houve a vitória nítida da polícia contra o enorme grupo portando fuzis de última geração. E o confronto foi imprevisível apenas em tese, e quem está na chuva sabe que pode se molhar... Tanto que, segundo noticiam, o grupo da inteligência policial estava reforçado, embora não intentasse nada além de recolher informações preciosas, em tempo real, quanto ao poderio bélico dos traficantes da Rocinha e do Vidigal. Demais disso, foi possível confirmar que as quadrilhas formadas nessas duas estratégicas favelas, e que guerreavam entre si não faz tanto tempo, agora estão inegavelmente unidas, ficando conhecida a sua força bélica com provas incontestes. Nota dez para a polícia e para a inteligência policial, que existe para fazer o que fazia na área do 23º BPM e poderia fazê-lo até por ordem verbal do seu comandante.
É importante esclarecer que a imprensa confunde e desmerece injustamente o serviço de Inteligência do 23º BPM. A uma porque, por delegação prévia do comandante-geral (é assim desde que a PMERJ existe), o comandante de batalhão é a autoridade competente de manutenção da ordem pública na área que se lhe refere, tendo como base legal o Decreto-Lei nº 667, de 2 de julho de 1969, regulamentado pelo decreto nº 88.777, de 30 de setembro de 1983 (R.200), § 3º do Art. 10: “Nas missões de manutenção da ordem pública, decorrentes da orientação e do planejamento do órgão responsável pela Segurança Pública nas Unidades Federativas, são autoridades competentes, para efeito do planejamento e execução do emprego das Polícias Militares, os respectivos Comandantes-Gerais e, por delegação destes, os Comandantes de Unidades e suas frações, quando for o caso.”
É o caso da PMERJ e de todas as demais PPMM brasileiras. Por conseguinte, o comandante do 23º BPM e de qualquer BPM (exceto de unidades especiais) pode e deve acionar seus meios na manutenção da ordem pública, incluindo ordens verbais, que, no militarismo, são tão válidas quanto as escritas. Também não significa nenhuma novidade o formato do “bonde do mal”. Do modo como publicam, até parece que a PMERJ e a PCERJ desconhecem essas táticas dos bandidos, dentre outras que eles estudam e aplicam desde quando conviveram com os presos políticos na ilha Grande e assistem diariamente nos “enlatados” norte-americanos. Mas demonizar a PMERJ é preciso! Daí a maliciosa insinuação de que ex-PMs do BOPE são os “instrutores” dos bandidos, de modo a confundir a boa regra com a má exceção, se é que existem mesmo os tais ex-PMs do BOPE na quadrilha da Rocinha. E, se existem, não são mais PMs e serão tratados pelos valorosos guerreiros do BOPE e por toda a polícia como duplamente inimigos, disso ninguém pode duvidar.
A dura realidade é que o terrível quadro situacional de hoje tem, sim, tudo a ver com um passado que não pode ser mantido nas trevas do desconhecimento público: de um lado, havia os presos políticos ensinando os presos comuns a politizar seus crimes hediondos; do outro, predominava a desídia de um regime militar que não se preocupava com criminoso comum enquanto agia contra o “inimigo interno”, incluindo-se nesta paranóia as polícias brasileiras. E as leis frouxas subsistem por culpa desses mesmos presos políticos de outrora, muitos deles atuais ocupantes do poder e outros tantos autores da Constituição Federal de 1988. E o somatório dessas forças negativas e benéficas aos criminosos atinge calamitosamente uma sociedade que continua disposta a se emprenhar pelo ouvido e a se deixar manipular como ovelha correndo para a boca do lobo...
Por que toda opinião publicada passa a ser imediatamente “opinião pública”? Será que é porque alguns acadêmicos e "especialistas em segurança pública" escolhidos a dedo (famosos) endossam as manipulações jornalísticas?... Ah, até parece que o caos na segurança pública interessa a todos os envolvidos nesse imbróglio eivado de meias verdades e falsidades alicerçando a pancadaria midiática contra a polícia! Por quê?... Será que de nada valeu o bom resultado da ação policial contra os traficantes?... Ora, façamos justiça!... A expansão do crime tem de ser situada numa “linha do tempo” que não pode virar novelo fabricado no presente. No fim de contas, o grave problema de hoje é inescapável legado de ontem, e não se resolverá da noite para o dia, e muito menos ao sabor da oscilante vontade midiática. Pior que tudo é ouvir na tevê as promessas de um candidato a governador extremista de esquerda, como “desmilitarizar a PMERJ” ou “unificar a PMERJ com a PCERJ”, dentre outras mentiras deslavadas, já que lhe é legalmente impossível a façanha como governante estadual. Ainda bem que o radicalisteiro candidato, cujo discurso de segurança pública chega às raias do ridículo (não merece aqui a citação do seu nome), jamais ganhará a eleição: não passa de traço nas pesquisas...

domingo, 22 de agosto de 2010

A realidade do crime no Rio

A “linha do tempo” I

Deixando de lado as insinuações críticas da mídia contra a PMERJ, na falta de vítimas inocentes atingidas por balas perdidas no episódio Vidigal/Rocinha/São Conrado/Hotel intercontinental, fenômeno semelhante inspirou capa do meu romance Cidadela Contemporânea; ou seja, nenhuma novidade debaixo do céu, não é a primeira nem será a última vez que bandidos armados deixarão a favela e enfrentarão o sistema no asfalto. Só que, numa modesta alegoria, deixo descer a favela toda para denunciar o conformismo social e o desprezo (real) que o asfalto sente pela favela. Traduzindo: o desprezo do rico pelo pobre, do patrão pelo empregado, da madame pela doméstica, sendo a recíproca absolutamente verdadeira em todos os casos de elite versus massa.




Como sempre, a mídia alfineta a PMERJ sugerindo ação “mal planejada” ou “não autorizada”. Deste modo, além de desmerecer a coragem dos policiais militares e seu não comprometimento com a criminalidade (eles poderiam se omitir, acovardados, ou “dar um aceno comprometedor” na passagem do bonde do mal) a imprensa finge desconhecer uma rotina que concerne aos batalhões e seus comandantes. Ademais, ainda ignora o fato de os quadrilheiros paramilitares de hoje serem consequência da desídia estatal de ontem, malgrado o esforço do Estado no sentido de contê-los em alguns momentos da “linha do tempo”. Porque, na realidade, esta criminalidade se reporta à ilha Grande, ao regime militar e à sua paranóica luta contra a “subversão”, obrigando as polícias brasileiras a se esquecerem dos bandidos episódicos e isolados. Por conta desta longeva cegueira policial ante a criminalidade crescente do tráfico de drogas e de armas mundo afora e aqui, os facínoras tornaram-se organizados, sofisticados e sanguinários em seus métodos de ação urbana.
Não entro no mérito da validade ou não da intervenção militar no país. Deixo tal consideração para os ideólogos. No meu caso, como policial, penso que não importa quem o bandido está vitimando, seja “de esquerda” ou “de direita. Ele tem de ser contido pela polícia conforme mandam as leis vigentes. Ocorre que, além de uma polícia míope e defasada no tempo, as leis malfeitas representam grave causa de expansão do crime, que é inerente ao ser humano, tal como o amor e o ódio (conclusão de Manuel Lopez-Rey). E em sendo impossível erradicá-lo da convivência social, ele aumenta na proporção do aumento populacional e deve ser tratado como fenômeno sociopolítico, ou seja, a sociedade, por meio de seus representantes políticos, é que deve rotular o que seja delito e estabelecer suas penalidades em processo dinâmico. Ao policial somente cabe cumprir o determinado pelas leis com os recursos e o treinamento que receber, evitando imiscuir-se em “discursos sociais” para condenar ou justificar criminosos. À polícia compete cumprir a lei e nada mais!
Não é o que ocorre... Desde os tempos da ilha Grande que presos comuns aprenderam com presos políticos “de esquerda” os conceitos ideológicos associados a táticas de guerrilha urbana. Organizados em facções (tais como faziam e fazem as esquerdas brasileiras), os marginais vão da ação isolada e suicida (vide exemplo histórico de Zé Bigode na ilha do Governador) à ação de grupos paramilitares enfrentando o Estado e alcançando muitas vezes o terrorismo, cujos exemplos abundam aqui no RJ. E são glamourizados em livros e filmes, bastando o exemplo do prócer do Comando Vermelho, William da Silva Lima, autor do livro Quatrocentos Contra Um – Uma História do Comando Vermelho. Por amor à síntese, e como desdobrarei o assunto (“linha do tempo”) em outros artigos, prefiro postar o que registrei em outro romance (O Espião), esclarecendo que meus livros aqui citados estão disponíveis no site (www.emirlarangeira.com.br) para leitura e impressão:


48 – OS CONLUIOS

“Quando uma teoria científica não permite atingir os objetivos que os agentes políticos têm em mente, eles recorrem à trapaça, à fraude, à mentira, à demagogia, etc. Quando esses meios falham, eles usam a violência para destruir o que não sabem ou não são capazes de controlar.” (P. Martinez – Política, Ciência, Vivência e Trapaça – ed. Moderna, SP, 1992)

Eis um tema delicadíssimo. O foco inicial da perplexidade de Onayr ocorreu em 05 de abril de 1991, quando ele, por conta de seus interesses acadêmicos, participou do lançamento de um livro na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Rio de Janeiro, durante um seminário sobre criminalidade dirigido pelo Instituto de Estudos de Religião (ISER), de orientação católica. Nada demais, se o autor da “obra-prima” não fosse o prócer do CV, William da Silva Lima, na época trancafiado no presídio de segurança máxima BANGU I.
– É verdade, Onayr, lembro-me que esse livro foi lançado na ABI com pompas e circunstâncias de arte literária.
– Parece surrealismo, não é mesmo?... Foi autografado pela mulher do bandido. Depois, ele teve permissão para dar entrevista à imprensa, inclusive internacional, no Hospital Penitenciário, para onde foi levado duas semanas após o lançamento do livro.
– Que havia de importante no livro?
– Por exemplo, o texto foi copidescado por César Queiroz Benjamim, ex-militante do MR-8.
– Quer dizer que num seminário sobre criminalidade o festejado foi o criminoso? De quem foi a idéia?
– Não sei.
– Que pena! Também não atentei para esse episódio...
– Bem, amigo, o fato é que dois anos depois, em 1993, um jornalista publicou uma pesquisa sobre o Comando Vermelho e confirmou tudo. Você leu o livro de Carlos Amorim?
– Não. Que livro?
– Comando Vermelho – A História Secreta do Crime Organizado. Foi lançado pela Record.
– Puxa, que título sugestivo! Vou procurar ler. Você se lembra do título do livro do bandido?
– Quatrocentos Contra Um – Uma História do Comando Vermelho. Foi publicado pela Vozes.
– Hum... Essa editora não é a da Igreja Católica? Bem, se foi algo artístico... Há bons romances escritos em prisões.
– Realmente. Veja só, se não se considerar a exploração política que envolveu o lançamento do livro, ele, a meu ver, é um importante registro histórico.
– Histórico?... É incrível o que você está dizendo!
– Mas é verdade. Li o livro, assim como os pesquisadores também o fizeram. Há nele um sabor de literatura, demonstrando que o bandido não era bobo. Ele cita Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, e também se refere a Euclides da Cunha e Os Sertões, dentre outros escritores que afirma ter lido, como Lima Barreto, Jorge Amado etc. Enfim, não há como negar valor ao texto, que inclusive apresenta construções de estilo. Por exemplo, o bandido cita uma velha tradição na cadeia de união entre presos comuns e revolucionários: “(...) revolucionários e presos comuns, ao compartilharem o mesmo chão e o mesmo pão, cresciam juntos num mesmo ideal.” Ainda sou capaz de afirmar que talvez seja o único documento-verdade sobre o funcionamento do sistema penitenciário na época do autoritarismo. Acho até que o texto deveria ser mais estudado.
– Pelo visto, você gostou do livro.
– Gostei. Achei-o útil porque veio escrito com franqueza. O autor não se defendeu de nada. Apenas relatou sua longa experiência carcerária. E não foi obra do sistema.
– Curioso... Vejo que o livro do bandido o impressionou. E também o outro, do jornalista.
– É verdade, ambos. E não somente a mim. Os pesquisadores analisaram os dois textos e concluíram que deveriam estudados, especialmente porque são narrações de não-ficção e apontam para uma valiosa questão social.
– Seria correto dizer que o bandido escreveu suas memórias?
– De certo modo, sim, embora o texto não discorra com profundidade sobre a vida dele fora das grades. Mas não deixa de ser um livro de memórias. Afinal, quem não gostaria de escrever suas memórias? Não estamos aqui escrevendo as minhas?...
– Tudo bem, Onayr; mas, cá pra nós, não lhe soa estranho o livro do bandido ser lançado na ABI?...
– E prefaciado pelo cientista social Rubem César Fernandes. Ele aparenta temor de ser mal interpretado, mas isto não ocorreu.
– Hum... Pelo visto, o livro merece atenção. Extraída a cascata política do lançamento, pelo que você me diz houve um consenso entre os pesquisadores de que a história contada pelo bandido continua a merecer estudo. Mas, Onayr, que foi feito dele?
– Não sei. Depois de lançado o livro, ele teve direito à prisão semi-aberta e se escafedeu mundo afora. Mas foi preso assaltando um ônibus e parece que está novamente trancafiado.
– Que decadência, hein?... Que mais você soube?
– Muita coisa. Por exemplo, fervilharam maledicentes comentários sobre o badalado lançamento. Muitos estranharam a promiscuidade de personalidades e autoridades públicas e eclesiásticas com o prócer do CV. E veja só o que o bandido afirmou em determinado trecho de sua narrativa (sic): “Quando os presos políticos se beneficiaram da anistia, que marcou o fim do Estado Novo, deixaram na cadeia presos comuns politizados, questionadores das causas de delinqüência e conhecedores dos ideais do socialismo. Essas pessoas, por sua vez, de alguma forma permaneceram estudando e passando suas informações adiante. Na década de 1960 ainda se encontrava presos assim, que passavam de mão em mão, entre si, artigos e livros que falavam de revolução... O entrosamento já era grande, e 1968 batia às portas. Repercutiam fortemente na prisão os movimentos de massa contra a ditadura, e chegavam notícias da preparação da luta armada. Agora, Che Guevara e Régis Debray eram lidos. Não tardaria contatos com grupos guerrilheiros em vias de criação...”
– Tem isso no livro?
– E muito mais... Inclusive esta parte foi destacada por Carlos Amorim. Quer saber o que o jornalista Jorge Pontual grafou no prefácio da obra de Carlos Amorim? Eu lhe digo: “O Comando Vermelho pôde parodiar impunemente as organizações de esquerda da luta armada, seu jargão, suas táticas de guerrilha urbana, sua rígida linha de comando. E o que é pior: com sucesso.”
– Não acredito!... Será que você não está vendo miragem?
– Ora, amigo! Claro que não!... O mais curioso é que os governantes da época em que o livro foi lançado diziam que o CV “não existia”... Cá pra nós, qual policial ousaria desmentir essas declarações veiculadas em jornais? Como os policiais sairiam para combater algo que os altos dirigentes político-administrativos diziam “não existir”? Era a senha. Afinal, se o CV “não existia”, não cabia à polícia combater algo “inexistente”...
– Mula! Que coisa! Nem sei que dizer, mas tenho a certeza de que você está falando com base em livros publicados e em notícias veiculadas na época. Mesmo assim, não posso negar meu espanto. Apesar de que, acho que o Comando Vermelho é muito mais cultura que estrutura. Mas que existe, existe! E não sei se não será pior existir só como cultura ou ideologia. Afinal, por trás das revoluções sempre estiveram presentes as idéias estimulando-as.
– Tem razão. E você nem sabe da história o desfecho. Não é só você que está espantado. Eu também fiquei e estou até hoje, e também Carlos Amorim, que afirmou: “As palavras do Professor dão bem a idéia do quanto ele se desenvolveu nos contatos que manteve na cadeia. Dizem que, ao contrário da maioria dos militantes da esquerda, ele leu O Capital – conhecimento que ainda hoje falta a muito comunista de carreira.”
– Hum... O bandido era politizado a esse nível?
– Era. E, como você deve saber, a história costuma baralhar idéias e fatos como um quebra-cabeça cujas peças custam a encontrar seus lugares no tabuleiro, mas acabam se encaixando e formando o desenho que lhes fora predeterminado...
– É verdade. Dizem até que a história se repete...
– Tem mais, tem mais... Carlos Amorim registrou no seu livro que: “William da Silva Lima, um pernambucano de cinqüenta anos, se considera um guerrilheiro.”
– Quê?!?...
– E também anotou uma incrível entrevista do bandido, gravada pelo detetive de polícia João Pereira Neto, que na época trabalhava na Divisão Anti-seqüestro (DAS) da Polícia Civil: “William comenta que alguns intelectuais pretendiam usar o Comando Vermelho na luta política: (...). ‘Alguns deles, pequeno-burgueses, pretendiam usar nossas comunidades e nossa organização com finalidades políticas. À medida que não deixamos usar, comprovamos, sem soberba, que conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu, o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente elas serão três milhões de adolescentes que matarão vocês (a polícia) nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas? Quantos BANGU I, II, III, IV, V... terão que ser construídos para encarcerar essa massa?’...”
– Deus me livre!... Curioso, Onayr, como é que ele dizia “vou aos morros”, se estava preso?...
– Ora, é só você deduzir. Ele só poderia ir aos morros se o deixassem, não é mesmo?... Bem, pode ser que tivesse declarado isso ao detetive enquanto solto... Mas, como? Também pode ser uma questão de mau uso do tempo do verbo. Bem, deixemos isso pra lá. Anote aí outra revelação de Carlos Amorim, segundo ele, ocorrida pelos idos de 1982 a 1984, ou seja, bem antes do lançamento do livro do bandido William da Silva Lima: “Na Ilha Grande, diante de toda a imprensa, um acontecimento insólito: a autoridade pública é recebida por um dos Vermelhos, um dos novos xerifes da prisão, Rogério Lengruber, o Bagulhão. O representante do Comando Vermelho veste bermudas, camisetas e sandálias havaianas. Mete o dedo na cara do Secretário de Justiça e comunica a ele que os presos estão cansados de ouvir o blábláblá do governo.”
– Hum...
– Que intimidade, hein? Quem seria esse Secretário de Justiça? E quem estava com ele na ocasião? Não seria interessante desvelar esse mistério? – gracejou Onayr encerrando o diálogo.
– Quer saber, Onayr? Estou apavorado! Nem sei mais o que comentar! Pelo visto, depois que o brizolismo passou por aqui parece que é melhor ser bandido que policial...


sábado, 21 de agosto de 2010

Os papagaios do Condomínio Elisa Lake Beach



Um dos espetáculos mais lindos do Condomínio Elisa Lake Beach (Ponta Grossa – Maricá/RJ), onde resido, ocorria invariavelmente ao entardecer. Uma frondosa árvore, talvez com mais de 30 metros de altura, era alvo do revoar e do pouso de pequenos papagaios em festiva algaravia, enfeitando a mais e mais a linda copa formada por galhos firmes, sadios e apinhados de folhas verdejantes. Eram tantos os papagaios que até se confundiam com as folhas que ficavam a dançar com eles. Sem dúvida, um espetáculo raro!
Inexplicavelmente, porém, ouvi um dia, de dentro de casa, um barulho que me pareceu de motosserra a cortar alguma árvore. Distraído e viciado em ouvir o som das cortadeiras de grama, concluí que era delas. Não percebi que caía despedaçada a árvore destinada ao insubstituível pouso dos psitacídeos à beira da lagoa que banha o condomínio.
No dia seguinte, ao mirar o céu em frente da minha casa, notei um vazio. Havia céu demais e a verdejante árvore era a única a preencher aquele espaço azul com sua grimpa superando as poucas árvores que ainda insistem em enfeitar a moldura celeste. Mas fora ela, exatamente ela, a árvore dos psitacídeos, a mais altaneira, levada ao sacrifício por insensível motosserra.
Esperei o novo entardecer e tristemente constatei: os papagaios chegaram, rodopiaram estonteados e logo sumiram. E não mais voltaram ao Condomínio Elisa Lake Beach. As belas aves mudaram o habitual itinerário, e nós, moradores do condomínio, perdemos esse maravilhoso e gratuito visual proporcionado pela mãe-natureza.
Não se trata de crítica a quem decidiu cortar a árvore, provavelmente o proprietário do terreno, quiçá desconhecedor da utilidade daquela árvore. Mas a Administração do Condomínio Elisa Lake Beach decerto sabia que ela fora destinada pela mãe-natureza para o pouso de centenas de aves verdejantes, propiciando um momento ímpar de admiração e reflexão sobre a importância do ecossistema acolhedor de nossas casas e da “estação” dos papagaios!
Que pena!... Jogamos a sorte fora!... A árvore predileta dos papagaios tornou-se lenha, e eles ficaram sem a “estação” por eles marcada para descanso de meio caminho antes do esvoaçar alegre ao habitat noturno. A cortina cerrou-se no palco da mãe-natureza, o teatro encenado pelos atores-papagaios fechou-se eternamente. Onde estarão os nossos artistas verdinhos que nada nos cobravam?...
Outro dia, assistindo a um documentário na tevê sobre os segredos da natureza, ouvi de um experimentado biólogo que a árvore escolhida por papagaios para aninhar, se cortada, o casal nunca mais aninha e procria. Claro que meu desalento aumentou deveras. Se não bastasse a minha tristeza pela mudança de rota dos papagaios, mais essa desalentada informação a ela se somou. No fim de contas, sou amante da ave mais peculiar que existe na natureza, única que imita a voz humana e sofre de gota (doença humana). Não descendo dos brâmanes, mas vejo certa sacralidade na ave por eles cultuada como divina num tempo remoto.
Sou tão apreciador dos psitacídeos que até escrevi um romance infanto-juvenil (bom para todas as idades) em que meu papagaio-herói, de nome Utopia, é Anjo Mensageiro de Deus. Para quem gosta, o romance (Utopia – O papagaio pensador) está disponível no meu site (www.emirlarangeira.com.br) para leitura e impressão, já que as duas edições esgotaram mui rapidamente. Lendo-o, quem aqui me visitar poderá imaginar a minha decepção com a destruição da “estação” dos papagaios.
Espero que eles sobrevivam ao ataque mais desumano que inadvertido. Pior é que ocorrido dentro de um condomínio fechado e administrado por gentes cultas que bem poderiam ter a atração dos papagaios nos seus registros e assembleias e, atentos, jamais deveriam permitir que a frondosa árvore-estação-dos-papagaios fosse cortada como se corta um galho seco e desimportante.


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A apuração de responsabilidades no caso do jovem skatista Rafael




O Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado para apurar o comportamento de dois PMs no transcurso da ocorrência que resultou na morte do skatista Rafael não deixa dúvida quanto à vertente disciplinar: duas faltas graves no nível exclusivamente administrativo, suficientes para o aprofundamento desses aspectos em Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Quanto ao crime militar, desde o início os fatos sugerem um concerto de vontades entre as partes envolvidas (pai do atropelador e PMs), ou seja, crime de corrupção passiva praticado pelos PMs, tendo como contrapartida indispensável a presença do corruptor ativo, no caso o pai do atropelador.
A decisão desfavorável aos PMs no IPM está apoiada em indícios e provas que serão ainda reavaliadas em PAD, dando-lhes o direito à ampla defesa e ao contraditório. Demais disso, os fatos passarão por acurada avaliação do Ministério Público da Auditoria de Justiça Militar para a formulação de Denúncia e seu provável recebimento pelo Juiz Auditor Militar, cumpridas as formalidades processuais. E como os fatos criminosos envolvem um civil, isto possivelmente implicará desdobramento da Denúncia em outras esferas judiciais.
Nada há que se comentar sobre a versão do advogado do pai do atropelador, a quem interessa que os PMs sejam acusados de extorsão, para tornar “vítima” o corruptor ativo apontado no IPM e tendente a ser assim indiciado pela Polícia Judiciária e denunciado pelo Ministério Público, sem prejuízo do indiciamento e da denúncia de outros crimes na sequência de suas ações para acobertar o filho, se for assim o entendimento das autoridades competentes.
Entretanto, não é preciso ser advogado nem muito inteligente para entender a ”tese” do advogado, que se mantém inalterada pelo pai do atropelador desde as suas primeiras declarações anunciadas dois ou três dias após os fatos: em sendo ele “extorquido”, passa a ser “vítima”, aumentando a possibilidade de seu filho atropelador se livrar do crime doloso.
Nesse andar da carruagem, todavia, há de valer o significado mais corriqueiro e dicionarizado da palavra “interditado” (Aulete – Dicionário Digital): “Diz-se de via, espaço, área etc. cujo acesso e/ou circulação de pessoas foi proibido (viaduto interditado; circulação interditada)”, razão mais que suficiente para caracterizar a vontade do motorista atropelador de transgredir a ordem pública e provocar a morte estúpida do skatista.
Muito bem, esta é a minha opinião, que de nada vale no contexto abordado a não ser como meu constitucional direito à livre expressão, baseada, porém, em investigação cujo resultado foi oficialmente anunciado pela PMERJ, assim como a PCERJ já anunciou sua intenção desfavorável ao pai do atropelador, via mídia.
Tudo bem, mas, mesmo assim, continuo indignado com as declarações precipitadas do governante antes das apurações (Prudens in loquendo est tardus: “Bom saber é o calar, até ser tempo de falar”), porque o réu é sagrado até ser condenado em sentença transitada em julgado; e esta não pode ultrapassar em humilhação a pessoa do transgressor da lei e afetar moralmente seus parentes, em especial as crianças que levam o seu nome de família. É o que se observa em relação ao próprio atropelador e seu pai: o eloquente silêncio governamental à condição deles de acusados por crimes bem mais graves.
Por que não tratar assim, igualitariamente, o PM suspeito de transgressão ou crime?... Por que a diferença? Por que o governante faz questão, sempre, de ofender a corporação por meio da execração pública de seus integrantes suspeitos da prática de algum delito disciplinar ou penal antes mesmo de iniciados os respectivos processos administrativos e judiciais (devido processo legal) garantidores da ampla defesa e do contraditório?... Por quê?... Por que deixar no ar a impressão de que está ordenando à PMERJ que aja segundo a sua vontade, como o fazem os ditadores, embora a corporação sempre dê provas de rigor até por vezes excessivo nas suas conclusões e punições de faltas disciplinares? Afinal, como nos ensina o provérbio, “quem mais grita não é quem tem mais razão.” (copia sermonis non est consors rationis).

sábado, 14 de agosto de 2010

Sobre a libertação do matador de Tim Lopes

Complexo do Alemão (Fonte: O Globo)

A libertação de um dos assassinos de Tim Lopes, facilitada pela lei de execuções penais, deve ser levada ao passado para nos fazer relembrar as pressões da mídia e as ações parlamentares na Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Por conta de variados segmentos lobistas em favor de presos comuns, a Carta Magna entupiu-se de direitos para criminosos, sob o pretexto de proteger direitos de presos políticos. Generalizaram deste modo a exceção, e agora cortam na própria carne os efeitos disso. Cá pra nós, o crime foi tão bárbaro que nenhum comportamento padrão dentro da cadeia justifica a soltura do bandido pela porta da frente. Contudo, lei é lei, e cabe à Justiça aplicá-la segundo os seus ditames. Foi o que aconteceu e o resto é consequência natural: o bandido tornou ao seu homizio com maior prestígio que antes, sem falar na periculosidade consagrada entre seus comparsas presos e soltos em vista da crueldade com que matou o jornalista.
Diante do absurdo da soltura do assassino, a mídia faz coro no sentido de que a polícia acelere o passo para prendê-lo sem considerar a dificuldade de que se reveste essa empreitada policial. Ora, quem lembra o processo de formulação da “constituição-cidadã” não pode ter esquecido as pressões apoiadas pela mídia em grande estilo “esquerdista-socialista”, confundindo autênticos direitos políticos com os de bandidos contumazes. Agora cobra da polícia uma pressa temerária, pois o coautor da morte de Tim Lopes é “cabeça” do Complexo do Alemão, lugar mais inexpugnável do banditismo do tráfico no Rio de Janeiro (por enquanto...), e que por isso depende de ação planejada com vistas a uma solução definitiva. Afinal, a última incursão policial ali havida foi abanada pela mídia como “massacre” (vide resumo dos fatos na wikipedia)...
Uma incursão policial mal planejada naquele lugar poderá, sim, ceifar a vida de cidadãos inocentes e de policiais, demais de perturbar o desenvolvimento de uma estratégia que veio para ficar: a instalação de UPPs em comunidades antes dominadas pelo tráfico, algo com que eu vinha cismando, mas hoje, depois das sucessivas e bem-sucedidas ações do BOPE, seguidas de ocupações por policiais orientados com esse fim comunitário, entendo-as perfeitamente sob o ponto de vista estratégico, tático e operacional da segurança pública. Até porque, como expus mais de uma vez em artigos no meu blog, eu me arrisquei a conquistar e ocupar uma comunidade carente da Zona Norte, e enquanto eu comandei o nono batalhão o modelo funcionou maravilhosamente. Mas, com a mudança de governo, o comando seguinte desfez o policiamento e a favela foi reconquistada pelos bandidos antes expulsos, com graves prejuízos à integridade física dos moradores que ostensivamente apoiavam a ocupação policial. Muitos foram simplesmente eliminados. Eis, com certeza, um filme que não desejo ver de novo...
Quanto ao Complexo do Alemão, este é talvez o maior desafio da polícia. A população estimada em aproximadamente 160.000 almas (dados da Wikipedia) demonstra uma densidade demográfica maior que a de muitos municípios fluminenses. Também a topografia é das mais complicadas para encetar uma ação policial nos padrões de normalidade, mesmo que com grandes efetivos e poderio bélico no mínimo compatível com a força armada representada pelos bandidos.
A primeira avaliação, portanto, não pode ser meramente policial (nada impede decretar ali um “Estado de Defesa” nos termos constitucionais), mas de natureza social, porque é certo de que se trata de conglomerado carente a merecer atenção governamental de alta envergadura. Deste modo, qualquer a ação estatal naquela localidade deve ser apenas parte de um plano maior e nacional de integração dessa população à vida normal do asfalto que a cerca e a torna uma espécie de “ilha” de pobres, indigentes e miseráveis cercada de população periférica por todos os lados.
Os riscos de um confronto total no Complexo do Alemão são indubitavelmente de guerra, e fortes são as possibilidades de vítimas inocentes engrossarem o que, decerto, será outro “massacre”. Nada mais inoportuno, por conseguinte, atender ao clamor midiático e tentar agora prender o assassino de Tim Lopes, valendo lembrar que, mesmo sendo importante jornalista, foi ele quem assumiu um risco além do seu controle e culminou torturado e morto. E não são poucos os abnegados jornalistas, como Tim Lopes, que muito se arriscaram e se arriscam como verdadeiros correspondentes de guerra em plena zona urbana do Rio de Janeiro. Dois deles merecem destaque: Albeniza Garcia e Wagner Montes. Ambos se expuseram ao risco de morte lado a lado com policiais para conquistar reportagens únicas, como o fazia Tim Lopes, que, indo além, arriscava-se também sozinho. Graças a Deus, Albeniza Garcia e Wagner Montes sobreviveram. Demais de tudo isso, muitas são as vítimas anônimas igualmente eliminadas por traficantes depois de torturadas, incluindo-se um expressivo número de policiais. Nada disso, entretanto, será capaz de legitimar alguma ação precipitada por parte dos gestores da segurança pública.
Pra começo de conversa, definir aquela comunidade chamada de “complexo” é outra enorme dificuldade; pois é certo que cada núcleo favelado guarda sua própria identidade, como se as favelas fossem “bairros contíguos”, sendo por vezes até ofensivo designar um morador de determinada favela como se fosse de outra. E embora hoje, e aparentemente, toda a região esteja sob o controle do Comando Vermelho, muitas guerras sangrentas entre facções inimigas ali ocorreram. Portanto, quem imagina a existência de homogeneidade comunitária ou de “união fraterna” entre as facções criminosas no Complexo do Alemão (inclusive as de mesma sigla) tende a incorrer num grave erro de avaliação psicossocial e de inteligência policial. Mesmo assim, se o Complexo do Alemão, – com sua população diferenciada em núcleos comunitários diversos, – é a regra, o banditismo que infesta o lugar há de ser a exceção, porém com apreciável poder de reação, o que torna a região uma fortaleza difícil de ser conquistada e ocupada. Mas não impossível, desde que a ação estatal se dê em momento certo...
Creio, salvo melhor juízo das autoridades, decerto bem mais informadas, que uma das indagações dos gestores da segurança pública sobre como agir no Complexo do Alemão deva passar pela escolha do modelo operacional a ser adotado para solucionar o problema de modo permanente. Porque provado está que as ações pontuais realizadas pela PMERJ e pela PCERJ naquela localidade não funcionaram além da apresentação de muitos mortos de lado a lado. Nem mesmo minimizaram a cruel realidade do poderio do tráfico, pujante em todos os sentidos, com características de exército paramilitar de guerrilha sem ideologia, a não ser a do crime em si e de seus lucros astronômicos: a narcoguerrilha urbana.
Na verdade, creio até que a investigação criminal deva coadjuvar a produção de informações pela inteligência policial (nacional e estadual). Porque o poder de reação dos bandidos não pode ser subestimado, e a seletividade dos meios estatais (federais, estaduais e municipais – militares e civis) deve ser de tal monta que garanta sua superioridade desde a fase de conquista à de ocupação definitiva. É certo, porém, que algumas rotas de fuga devem ser permitidas, de modo a evitar a típica reação de “feras acuadas” (desnecessária e pouco recomendável desde Sun Tzu). É melhor desarticular os quadrilheiros fora de seus homizios, muitos dos quais dominados por facções inimigas, o que lhes diminuem as possibilidades de encontrar novos e seguros esconderijos e lhes prejudicam o anonimato, facilitando a ação da polícia judiciária em aprisioná-los depois de singularizá-los. Enfim, tudo deve ser mui bem planejado, sem pressões midiáticas e demonstrações desnecessárias de “heroísmo policial”.
Com meios materiais e humanos estatais adequados, – e eles são superiores aos dos bandidos, – o Complexo do Alemão será um dia libertado dos grilhões do crime. Para tanto, porém, isto não pode ser situado como “meta eleitoral”, o que seria, no meu modesto entender, “loucura napoleônica” a reeditar a Rússia de 1812... Na verdade, e lembrando o mestre William Shakespeare, não é hora de fazer “muito barulho por nada”. Porque o ideal é a seletividade do uso da força, o que demanda muito esforço de inteligência e de investigação policial para que a ponte não seja maior nem menor que o rio: “Por que fazeres mais comprida a ponte do que a largura máxima do rio?” (William Shakespeare). Significa dizer que a ação libertadora e pacificadora do Complexo do Alemão não pode atingir inocentes, o que torna a decisão de agir uma das mais difíceis para qualquer governo de hoje ou de amanhã...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O BOPE É O BOPE!



“25 DE JANEIRO, QUINTA-FEIRA, MADRUGADA... AVENIDA BRASIL, RIO DE JANEIRO. Pneus rodam no asfalto, ruído nervoso, cinco caminhões lonados, velocidade de comboio, destino Zona Norte. É o Batalhão de Operações Especiais da PM, o temido BOPE. Homens com fisionomia fechada mantêm silêncio de túmulo. Um major comanda o grupo; é um grupo treinado para missões de altíssimo risco. Só o comandante sabe o destino e a missão. São comandos, também não são de pergunta. Apenas agem.
O comboio adentra a Brigada Paraquedista. Na pista, ao lado do campo de futebol, o comboio para. Homens descem rápido. Caminham para uma das quatro laterais. Acomodam-se 5 subgrupos, 20 homens em cada barraca. Isolamento absoluto. Total: 100 PMs forjados no aço do treinamento de guerra e no combate ao banditismo. Querem, pedem sem falar, clamam em esquisito silêncio pelo confronto. Sem peleja, morrem de tédio, descontrolam-se, enervam-se, bufam como feras. Muitos deles já passaram por aquele quartel antes de ingressar na PM. Por isso têm no sangue a lava fervente do guerreiro verde-oliva. Mas agora vestem o preto do BOPE, e são tanto de guerra como os paraquedistas que ali ainda estão. Têm, sim, duplo treinamento: no militarismo do combate em qualquer terreno e em qualquer lugar, e na ação policial de risco extremo. Repete-se o procedimento nas principais cidades brasileiras. Todos aguardam, feras enjauladas nos peitos, mantêm a pressão nas veias, querem explodir na ação.”


O texto acima foi extraído do meu romance Operação Arabesco – O tráfico no asfalto, editado no ano de 2000. Ao bolar um título para este artigo, rebusquei adjetivos para encontrar um à altura do valor do BOPE. No final das contas, e das buscas, concluí que o BOPE é substantivo que não se precisa qualificar. É também e sempre o sujeito da ação e predicativo de si mesmo, e desde muito merece verbete nos dicionários e enciclopédias porque é campeão no combate ao banditismo deste mundo real e motivo de orgulho nos corações dos PMs.
O BOPE é tropa que faz tremer o crime, do modo como o inseri no romance para expressar minha admiração (ou paixão) por esses heróis silenciosos, homens capazes de se ocultar sob uma folha de fícus como se fora o tronco centenário do jacarandá. Homens-felinos, panteras negras que desparecem de dia e se confundem com a noite quando escolhem suas presas e infalivelmente as abatem.

O “Caveira” do BOPE é guerreiro sem medo da morte, é garantia da tropa regular e certeza do povo de que o bandido jamais vencerá os homens de bem enquanto existir, e sempre existirá. O BOPE é anjo da guarda da PMERJ e guardião do povo ordeiro. É detentor incontestável da vitória final, não importando quantas batalhas enfrentará hoje e amanhã. O BOPE é passado de treinamento árduo, é somatório de experiências fortes e de sofrimento e mortes, é presente de confronto real e letal aos facínoras, é a nossa certeza de que no futuro o BEM triunfará do MAL.
Faço esta homenagem ao BOPE depois de constatar com orgulho mais uma vitória dessa tropa de elite contra traficantes no Morro do Turano. Faço-o também porque sei que não haveria pacificação alguma sem a ação metódica do BOPE na conquista do território, uma de suas muitas especialidades como força de segurança disposta ao combate. Também esperei este momento para concluir sobre minhas preocupações com as UPPs, e a maior delas se refere avanço delas e o risco de a entropia atingir esse sistema operacional na sua retaguarda. Observei até agora o círculo sem o saber vicioso ou virtuoso. A reação dos bandidos no Morro do Turano me serviu como certeza absoluta de que não há adversário no banditismo capaz de fazer recuar o BOPE nem as UPPs, e a tática variada de incursão no acidentado terreno do Turano é prova inconteste disso. Não estou mais preocupado. O meu otimismo de antes aumentou e venceu as minhas preocupações maiores. Como explicarei adiante, rendo-me à realidade de que o círculo das UPPs há de ser a mais e mais virtuoso graças ao BOPE!...
Quanto aos marginais que buscaram a rota de fuga depois de ligeira reação na qual se deram mal, isto faz parte da arte da guerra, que o BOPE tão bem conhece. Não é hora de escorá-lo uma operação do tipo “martelo e bigorna” para massacrá-los. Porque, mesmo sendo uma guerra de guerrilha, sem ideologia, a não ser a dos benefícios do tráfico, não é uma guerra, mas ação policial contra marginais num sistema de legalidade. E aí reside a parte mais complexa da ação policial: narcoguerrilheiros são enfrentados como bandidos comuns e não o são. Esses malfeitores formam grupos paramilitares fortemente armados e organizados em estratégias e táticas de combate em zona urbanizada, o que mui bem conhecem, com a vantagem da despreocupação com quaisquer limites legais.
Analisando-se friamente a questão, é combate desigual e desfavorável às forças do BEM. Mesmo assim, a PMERJ avança e vence, e avança, e vence, e avança, e vence, e hoje grava como emblema de superioridade a conquista do famigerado morro do Turano. Serão então doze UPPs instaladas em ambientes variados, em morros e baixadas, isto não importa, o BOPE sabe avançar como a pantera negra em qualquer terreno, na selva e na cidade. Também não importa que rumo esses covardes de rabo entre as pernas estão tomando, eles são como os ratos a buscar o esgoto para se ocultar, e a movimentação acovardada deles os expõe à identificação. O anonimato, uma das armas de que fazem uso confundindo-se com os moradores decentes de suas comunidades originárias, desmorona-se na fuga. Bandido fora do seu homizio é “peixe fora d’água”.
Não vou deixar aqui de questionar alguns detalhes das UPPs, como o venho fazendo, sem, entretanto, colocar-me contra elas. Mas, confesso, meu temores diminuíram deveras, e eles se reportam ao meu passado de comandante operacional. Em 1989, tive minha própria experiência de conquista e ocupação: expulsei os traficantes da Favela Para Pedro (Comunidade da Vila São Jorge), situada em Colégio, Zona Norte do Rio, por trás da CEASA. Tratava-se de localidade que funcionava como “estica” de Acari por sua posição privilegiada: plana, com diversas entradas na beira do asfalto movimentado, portanto de fácil penetração por viciados ávidos em cocaína e maconha. Em se tratando de comércio de drogas, um local privilegiado...
Depois de conquistado o terreno, o que fiz com tropa regular do nono batalhão (justiça seja feita, a tropa regular é de altíssima qualidade, capaz de demonstrações incomuns de coragem; mas não deve agir sempre no modelo militar de ação e sim como grupamento de policiais dispostos no terreno em policiamento preventivo, prioritário na preservação da ordem pública). No caso, agi excepcionalmente como tropa e depois implantei um policiamento ostensivo durante 24 horas garantindo a paz na localidade. Toda essa história está contada em livro disponível no meu site www.emirlarangeira.com.br (Cavalos Corredores – A verdadeira história).
Mas, infelizmente, pude acompanhar o desastre posterior: retirada do policiamento, retorno dos bandidos e retaliações letais a moradores que acreditaram que a PMERJ lá ficaria permanentemente. Daí a minha preocupação com as UPPs, bem menor após da junção delas numa Unidade Especial comandada por coronel PM. Isto me deu a certeza de que as UPPs vieram para ficar. E se vieram para ficar, não importam quantas serão instaladas nem onde será a seguinte. Só fato de torná-las policiamento permanente garante a observação das falhas e as correções de rumo para evitar que qualquer processo entrópico prejudique ou até destrua esse sistema operacional denominado UPP. A diferença é que de Policiamento Complementar, sua característica intrínseca, tal como se observa em policiamento de eventos como o Carnaval e outros semelhantes, a UPP se tornou um poderoso e perene Destacamento de Policiamento Ostensivo Normal em plena cidade, e é o que basta.
Como tenho o hábito de registrar minhas ideias no papel, posso afirmar com segurança que sempre critiquei o fato de comunidades carentes só receberem do Estado repressão policial, tanto da PMERJ como da PCERJ. Da coirmã, tudo bem, ela vai com endereço certo para reprimir como polícia judiciária o criminoso por ela singularizado em investigações preliminares. Mas a PMERJ tem de ter em mente a prevenção no primeiro plano, ação operacional que não pode ser privilégio somente do asfalto. Prevenção é direito de todos.
Muitas vezes defendi que deveria haver batalhões instalados em comunidades carentes, atuando na prevenção como missão precípua e na repressão como missão excepcional. Hoje, embora me mantendo alerta em relação às UPPs (creio que falta muita coisa e há o perigo de o Estado não complementar o trabalho policial das UPPs com a inclusão social por inteiro dessas comunidades livres do terror das armas do tráfico.), não posso mais conter meu ufanismo ao me tomar a certeza de que o segredo do sucesso das UPPs está na real possibilidade de o BOPE retornar às áreas ocupadas por UPPs e reprimir quaisquer tentativas de reconquista desses territórios por bandidos perdedores. Cá pra nós, eles não são loucos, como intentou sê-lo um malandro do Turano, claro que só na teoria, ao distribuir suas ameaças num papel retratado por O Globo de 11/08/2010, p. 16: “É o Turano e o bonde do Gordão. Nós vai voltá.” Nós vai voltá nada! O BOPE, tropa maravilhosa, aplaudida por todos os PMs na ativa e na inatividade, orgulho da PMERJ como um todo, a pantera negra que não está de brincadeira, jamais permitirá!... Sabem por quê?... Ora, porque o BOPE é o BOPE!

sábado, 7 de agosto de 2010

Sobre a crítica


Muitas vezes recebo puxões de orelha por questionar sistemas e ações no âmbito da segurança pública. Claro que, ao criticar o funcionamento de algo, mesmo que não seja minha intenção, culmino desagradando a gregos e troianos que eventual ou permanentemente atuem nesse setor específico da vida pública. Contudo, não faço isso de agora nem contra ninguém especificamente. Não julgo pessoas. No máximo discordo delas, sempre respeitosamente. Trata-se de característica que carrego comigo desde que nasci e até por isso apanhei muita pancada na infância.
Sou teimoso e polêmico, sim! Não aceito nenhuma verdade absoluta. Mas não torço contra a polícia na sua árdua tarefa de conter o avanço da criminalidade, e vibro com as boas notícias do mesmo modo que abomino quaisquer desvios de conduta, desde que provados após o devido processo legal. O que não concordo é com o “castigo-espetáculo”: autoridades governamentais, (geralmente ocupantes de cargos políticos) em condenável destempero emocional, acusam, julgam e condenam seus agentes antes de qualquer apuração. A meu ver, isto é usurpação de função exclusiva das autoridades de polícia administrativa ou judiciária ou atropelamento das intransferíveis incumbências ministeriais e judiciais. Mas é como essas atônitas autoridades políticas reagem ante denúncias de desvio de conduta de policiais: lançam aos leões famintos da mídia os seus “bodes”, tais como os césares romanos jorravam cristãos nas arenas remotas, ou como os inquisidores torturavam e queimavam na estaca “hereges” e “bruxas”...
Hum... Nem comecei e já estou em digressão crítica... Que fazer?... Voltemos ao tema central... Para mim, que vivo de conceitos e comparações, hoje aposentado da prática, mas participativo por dever de ofício e juramento de honra, tudo que há no mundo é relativo e exige permanente correção de rumo ou até ruptura (destruição), desde que objetivando acertar mais à frente (reconstrução). Nem mesmo a matemática, na minha ótica, representa a verdade absoluta, opinião que mantenho em relação a qualquer outra ciência natural ou social.
Hoje, aficionado por física quântica, da qual nada entendo, porém leio muita coisa afim, posso leigamente dizer que consigo pelo menos alcançar o significado de algumas indagações fundamentais. Destaco a gravada por Brian Greene, graduado em Harvard, escritor, com doutorado em Oxford, professor de física e matemática na Universidade de Columbia, logo na primeira página de sua obra O tecido do cosmo: “O que é a realidade? Nós, seres humanos, só temos acesso às experiências internas da percepção e do pensamento. Como podemos, então, estar certos de que essas experiências internas refletem verdadeiramente o mundo exterior?”
Portanto, quando questiono algo, sei que me integro ao universo questionado e sou por ele influenciado; jamais me sinto observador distante, isento e detentor da verdade, o que não me impede de discordar das opiniões alheias ou até de mim mesmo. Sim, porque gosto do contraponto, amo contraditar e detesto os “donos da verdade” que em cargos públicos se utilizam da eloquência, mormente para enganar. Incomoda-me a máxima de Joseph Goebells: “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade.” E mais ainda me repugna o que ele fez no seu Ministério Nacional para Esclarecimento Público e Propaganda, a partir de onde criou o mito do Führer e o rígido controle da imprensa, do rádio, do teatro, dos filmes, da literatura, da música, e até das belas artes.
Com efeito, nada fugia ao ignominioso ministro da propaganda nazista, como atualmente nada escapa aos controladores dos meios de comunicação de massa (agências de publicidade e formadores de opinião), com uma única diferença: o que se fazia antigamente em razão de poderes desmedidos (prática ainda viva em muitos países totalitários), hoje se consegue por meio do dinheiro público sustentando a mídia particular. E as mentiras estatais são repetidas “mil vezes”, a ponto de efetivamente se tornarem “verdades insofismáveis”... E por aí segue a mentira a se tornar “verdade”, em sensacional propagação midiática a iludir uma coletividade afetada por mensagens subliminares de novelas voltadas “para o social”... Porque a telinha da tevê não deixa espaço pra ninguém pensar. A emoção explorada ao extremo da choradeira abrange também o noticiário não menos novelesco a influenciar o ouvinte, o telespectador e o leitor, tornando-os massa de manobra...
A imagem que se projeta para o interior de cada um (em percepções individuais sujeitas a desequilíbrios e injustiças) vem sempre de fora; e é rebuscada e fundada em técnicas de convencimento que têm na repetição sistemática um de seus magníficos segredos (Beba Coca Cola!). Para nós, pensantes, que em maioria não somos afeitos ao pensar, o mundo exterior é aquele que não vivenciamos, mas adotamos maciçamente como “moda” por via da difusão massiva do pensamento de terceiros que nos leva a ações coletivas automatizadas. Sim, somos escravos de ideologias. Tornamo-nos um exército de robôs, meros joguetes da propaganda, escravos de influências alheias muita vez inconfessáveis. Claro que, em sendo contestador incorrigível, e pelos motivos expostos, sofro na carne e no espírito as consequências de minha resistência, que são muitas e ruins ao longo da minha vida. Até me seria difícil exemplificar esse meu comportamento que já me rendeu apelidos curiosos (“Galinho Garnizé”, “Boca de Encrenca” etc.).
Tudo bem, não nego que por vez, ou muita vez, ou toda vez, eu sou um chato; até me lembra aqui uma época em que, major, eu respondia interinamente pela chefia da PM.5 (5ª Seção do Estado-Maior Geral – Relações Públicas e Assuntos Civis) e participava das inspeções do EMG nas Unidades Operacionais. O coronel chefe do EMG costumava fazer uma cansativa palestra ao final da inspeção, após o que íamos ao almoço fora de horário. Certa vez, no retorno do 14º BPM ao quartel-general (Deveria ser “quartel-coronel”, na PMERJ não há general...), o chefe do EMG me indagou sobre o que achei da fala dele, certo de que receberia de mim um afago. Respondi-lhe que não achei nada porque estava morto de fome e não lhe prestei atenção. Ele estendera a fala até 14h:30min, deixando toda a platéia faminta e visivelmente irritada. Ele ficou fulo: esperava o elogio que não lhe fiz. Claro que não fui muito longe com ele: pouco tempo depois, de pomposo chefe interino da PM.5 fui rebaixado a chefe da P.5 do 12º BPM (função de tenente); ainda retardei minha promoção a TCel no ano em questão: figurei na rabeira da lista (rsrsrs). Pior é que não me arrependi, não me arrependo, e faria tudo novamente...
Mas, voltando ao tema, quando questiono alguma coisa, penso estar colaborando com o futuro. No caso específico das UPPs, já disse e reitero que não sou contra a implantação delas. Preocupa-me, todavia, o desfecho desse programa tornado “mito” a lembrar um apoteótico encontro do velocino de ouro ... Tivesse a PMERJ um manancial de meios materiais e humanos capaz de manter indefinidamente o programa, além de ampliá-lo, eu estaria sereno, sem remorso, e ficaria em quietude. Ocorre que a realidade é outra, e efetivamente me induz a pensar num exército avançando sem preocupação com retaguarda (logística) a garantir a reposição de meios que sabemos limitados. Demais, temo ainda que a entropia afete esse sistema distanciado da realidade dos inevitáveis conflitos nas relações entre comunidades e PMs. Nada demais, no mundo inteiro o trabalho da polícia é antipático, na medida em que a coerção policial é fator corriqueiro. Cá pra nós, não há de ser diferente nas favelas, por mais que a mídia exalte os fatores positivos e ignore os negativos, tornando ilusão uma realidade que tende a aflorar independentemente dessas exageradas exaltações.
Numa visão otimista e cômoda, todavia, poderíamos nos associar à mídia e aplaudir as UPPs como importante novidade operacional e fim de conversa. Mas o assunto está longe de ser simplório. Ele demanda observação constante e exige planos alternativos, caso o fôlego da corporação se esgote de caminho, o que é, a meu ver, uma real possibilidade, embora eu não saiba exatamente o que seja real neste mundo, tal como sugere Brian Greene. Por conseguinte, minha crítica tem valor relativo e pode até ser inútil em vista de posicionamentos e decisões futuras as quais desconheço.
Contudo, infiro minhas conclusões do que leio, ouço e vejo, e me preocupa o excesso de ufanismo com as UPPs, malgrado as reiteradas explicações de falhas e afastamento sumário de PMs antes afagados como autênticos guerreiros espartanos, estes que foram valentes, salvaram Atenas do avanço persa, mas culminaram mortos na desigual Batalha das Termópilas (480 a. C). Também me ocorre lembrar o título do romance de Deonisio da Silva (Avante soldados: para trás), por conta do fiasco das tropas nacionais que avançaram para o interior do Brasil pensando ir em direção ao território inimigo na Guerra do Paraguai. Otimista, então, torço para que o sonho (ou a realidade) das UPPs não termine em derrota. Mas, caso ocorra (UPP é apenas uma modalidade de batalha dentre muitas travadas diariamente contra facínoras contumazes), que a PMERJ seja a Atenas de hoje sagrando-se vencedora do crime enquanto o último PM ainda respirar!...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Artigo do Cel PM e Professor Jorge da Silva



CORRUPÇÃO III. PMs E A FALÁCIA PARALISANTE DAS “MAÇÃS PODRES”. DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS


Na luta contra o crime, o Estado possui um conjunto de instituições e órgãos específicos a que se costuma dar o nome de Sistema de Justiça Criminal, ou Sistema Penal, ou Sistema de Justiça e Segurança, constituído por autoridades do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia e do Subsistema prisional. Espera-se dessas autoridades, pela alta responsabilidade que o Estado e a sociedade lhes delegaram, comportamento ilibado, exemplar, o que, lamentavelmente, nem sempre acontece.
Dois casos recentes jogam luz sobre algo que, aparentemente, se constitui num contrassenso:
(1) Conforme comentado no “post” anterior, dois integrantes da Polícia Militar são acusados de corrupção no caso do atropelamento e morte de um jovem no Túnel Acústico, em que teriam pedido dinheiro para livrar de responsabilidade o atropelador. São liminarmente presos e poderão ser excluídos da Corporação, em processo administrativo-disciplinar, independentemente de condenação na Justiça, sem qualquer direito.
(2) Conforme manchete do jornal O Globo (4 de agosto), dois magistrados são acusados de corrupção: “Justiça aposenta com salários juízes que vendiam sentenças”. Trata-se de um ministro do Superior Tribunal de Justiça e de um desembargador federal, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Aposentados “compulsoriamente” com salários de R$ 25 mil e R$ 24 mil, respectivamente.
Algumas perguntas ficam no ar: por que a diferença? Seriam os pesos e as medidas realmente diferentes, em termos de hierarquia, funcional e/ou “social”? Ou os PMs não seriam autoridades? Ou estaríamos nós ainda no período monárquico? Ou seria muita pretensão querer comparar policiais a juízes?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sobre o avanço das UPPs

Estamos na décima primeira UPP (Morro do Salgueiro). Comemorações à parte, ilusões de lado, vamos à realidade: há mais de mil comunidades dependentes do mesmo privilégio, considerando-se que as UPPs vieram para ficar e não se trata de engodo com vistas à Copa do Mundo e às Olimpíadas. Sim, nas favelas, isoladas do mundo oficial e societário, que ignora suas inúmeras carências, as gentes simples vivem todas as desgraças. Apesar disso, não perdem a esperança e conseguem, ainda, esbanjar alegria em meio ao calejado sofrimento. Alegria?... Ora, a favela por si só é absurdo! Representa a desigualdade social no seu exemplo máximo. O crime que nela se instalou como mandatário pelo terror das armas e por um falso assistencialismo representa um fator a mais de desgraça. Eis, então, em síntese, o meio de cultura que desde muitos anos desafia o Estado: a miséria comandada por inegável poder paralelo, de difícil senão impossível erradicação.

Não por acaso é assim. Há uma história de conluio de criminosos comuns com presos políticos que se inicia na Ilha Grande e nunca mais parou de existir como cultura e ação de crime organizado e ideologizado: as facções. Demais disso, essa história do crime organizado ainda é glamourizada em filme (Quatrocentos contra um – uma história do Comando Vermelho, de autoria do prócer do CV William da Silva Lima)... E o primeiro erro do sistema estatal foi o de menoscabar a capacidade intelectual dos criminosos comuns (William da Silva Lima é um bom exemplo, chamado pelos comparsas do CV de Professor), considerados na época e ainda hoje como meros pés de chinelo. Não o eram; não o são... Eles aprendem “arte da guerra” com Sun-Tzu, e estudam nos compêndios de outros estrategistas a propaganda e a contrapropaganda e os métodos de controle e de aprovação das populações em territórios conquistados. E, dentre o muito que aprendem e aplicam com desenvoltura, treinam o combate com armas letais de sofisticada tecnologia. E assim estão postados na zona urbana: como conquistadores de guetos favelados transformados em cidadelas onde são autênticos soberanos. E aprenderam a recuar como tática de esgotar o moral da tropa inimiga, que, entre tantos fatores concorrentes, há inclusive a ausência do combate a frustrar homens treinados para guerrear, e não para policiar, provando-se o fato pelas armas que utilizam e pelos treinamentos que lembram os “boinas verdes” norte-americanos e outros “Comandos” mundo afora.

Curioso é que o Estado põe a arma letal nas mãos dos policiais, e uma delegada de polícia, que também utiliza a mesma arma (se não a utiliza é porque não quer), e que a sabe letal, ou seja, uma arma que existe tão-somente para matar, mesmo assim ela indicia um PM do BOPE por homicídio doloso (intenção de matar) por ter ele confundido furadeira com arma. A confusão de um objeto (furadeira) com outro (arma) foi acolhida como possibilidade pela perícia; mesmo assim, a delegada de polícia indiciou o PM no dolo, sem considerar que o dolo é do Estado que comprou e distribuiu a arma cuja finalidade única e inelutável é a de matar o oponente. Ah, que surpreendente contradição! Ou seria o maldito preconceito da coirmã materializado pela delegada de polícia?... Bem, prefiro crer que não, embora haja sempre boas razões para crer que sim...

Já o recuo dos bandidos não sugere nenhuma contradição, mas apenas a adoção de uma estratégia que lembra a napoleônica grand armée na invasão da Rússia de 1812, fiasco que custou caro à França e iniciou a derrocada do Primeiro Império Francês. Por falta de logística e ignorando a distância entre as linhas de suprimento e a tropa em avanço no território inimigo, e, principalmente, por não prever o frio mortal, o exército francês sucumbiu sozinho, enquanto os exércitos russos recuavam: bem alimentados, agasalhados e saudáveis.


A cada localidade que os franceses “conquistavam”, vinha a constatação do nada: nenhum combate, cidades e vilas vazias de gentes e de recursos materiais para reposição, aumentando deste modo as fileiras de cadáveres franceses esfarrapados e congelados. Vale sintetizar a tragédia francesa produzida pelo inteligente recuo dos russos sublinhando um pequeno texto do historiador J. Lucas-Dubreton: Nas estradas geladas, luzidias como espelhos, os cavalos tombavam, obrigando-os a abandonar as carroças que transportavam o tesouro. Do norte chegava um vento gelado, capaz de queimar; o cano do fuzil grudava nas mãos, a pele inchava, cheia de bolhas; e as extremidades dos dedos, duras e descoradas, pareciam bolas de marfim. Cobertos de andrajos, os olhos injetados, o rosto tumefato, infestados de vermes — fazia três meses que não trocavam de farda nem de roupa de baixo —, os antigos vencedores da Europa lutavam contra a agonia (...)



Há na história dessa guerra, — que somente contou com o enfrentamento do inimigo no terreno escolhido por Napoleão, sem qualquer declaração prévia de guerra para garantir a surpresa, mas sem considerar a hipótese do recuo dos russos para a natureza fazer o seu trabalho trapeiro, — há na história dessa guerra uma frase do veterano general Mikhail Illarionovich Kutuzov: Os franceses vieram para cá sozinhos e sozinhos voltarão. Há outra significativa frase, atribuída a Giap, que reproduzo na íntegra, salvo falha de memória: Se o inimigo ataca, recuamos; se o inimigo para, inquietamos; se o inimigo recua, atacamos. Ou seja, mais uma vez o recuo emerge não como derrota, mas como estratégia e tática aplicadas à realidade, dentre outros exemplos de exércitos que “avançam recuando”, aparente contradição, que, na verdade, é artimanha para desgastar o inimigo, que pensa estar vencendo com facilidade as batalhas simplificadas de uma guerra complexa que está a perder...

Retirada de Napoleão

A ideia de território marcado se transporta do reino animal à convivência humana, e os princípios que regem as conquistas humanas não diferem em muito do comportamento animal. Até mesmo a luta para a ampliação de território existe desde que o mundo é mundo. A diferença está na forma como a agressividade humana rende-se à violência desmedida. No reino animal, irracional, a agressividade limita-se à necessidade de sobrevivência; atendida esta necessidade, a agressividade se conterá na violência que lhe corresponde, sem excesso. No reino humano, racional, a violência é ilimitada, e nem sempre se justifica em relação a alguma necessidade. No reino humano, onde supostamente predominam o sentimento e as boas emoções, na realidade sobrelevam a maldade, a insensatez, a covardia etc. Enfim, há o predomínio do Mal sobre o Bem por meio de comportamentos artificiosos, desnecessários e, sobretudo, sanguissedentos. Mas, em vista da inteligência humana, inclui-se o recuo não como covardia, e sim como tática de desgaste do inimigo, que é obrigado a perder mobilidade ao estacionar grandes efetivos para manter sob controle os territórios conquistados. No entanto, esses territórios possuem populações enigmáticas, nunca se sabendo o que elas preferem: se os grilhões dos malfeitores nascidos entre elas ou a presença de um Estado opressor e violento a pretexto de ali impor a “ordem” e a “paz”. Qual “ordem”?... Que “paz”?... A do remédio em hora certa? A da comida na mesa?... A da moradia condigna?... Seriam estas a “ordem” e a “paz” que interessam aos favelados momentaneamente trocados de “donos”, ou as que interessam aos mentores e gestores das conquistas e ocupações (os novos “donos”): a sociedade do asfalto?

Ora, é sabido que os recursos policiais militares são escassos, e a cada avanço e empenho de efetivos imobilizados de caminho, a retaguarda se retrai em efetivos e meios. Delegado não precisa saber disso, mas militar sabe... O fato de o BOPE não enfrentar resistência ao avançar não significa nenhum recuo covarde dos criminosos, senão tática na medida certa de uma estratégia de ganhar tempo. Fosse uma partida de futebol, numa grosseira alegoria, não seria demais afirmar que os bandidos “tocam a bola” e a PM “corre atrás dela” tendendo a se cansar e perder o jogo. Claro que, em sabendo desta realidade, e não a desconsiderando, a corporação deve estar estudando suas reais possibilidades de avançar montando UPPs sem descalçar a retaguarda apinhada de crimes vários: o asfalto elegante e periférico. Trata-se de providência importantíssima, de modo que não aconteça aqui o que houve em 1812 e os traficantes, por fim, lancem uma “sinfonia rap” cantando a vitória sem gastar munição nem perder efetivos e armas. Porque, malgrado o glamouroso avanço da PMERJ com as UPPs, os marginais continuam livres, leves e soltos como os exércitos russos no recuo vitorioso de 1812...

domingo, 1 de agosto de 2010

Elogio à minha mãe



Meu pai morreu precocemente. Fui criado por mãe viúva, enérgica, porém adorável em todos os sentidos. Cobrava-me responsabilidades além da minha idade, sim, mas me viciou em mordomias caseiras tornando-me um preguiçoso incorrigível. Talvez fosse remorso por mandar ao labor um menino de dez anos que gostaria, como todos da sua idade, de brincar na folga do colégio, o que não me era possível.
Trabalhei desde a tenra idade num laboratório de análises clínicas pertencente a um médico compadre do meu pai (padrinho do meu irmão). Lá, eu fazia de tudo um pouco: lavava lâminas e lamínulas e “tratava” dos sapos que serviam para teste de gravidez. O teste consistia em injetar a urina da provável gestante sob a pele do sapo e poucos dias depois, ou no dia seguinte, não me lembro, recolher a urina do sapo e levá-la ao microscópio. Quando apareciam uns bichinhos nadando, era gravidez certa, e é só o que sei, como também sei que muitos desconhecem esse teste já superado pela tecnologia. Creio que o teste levava os nomes de seus inventores: Galli-Manini e Zondeck, sem preocupação aqui com a grafia.
De uns tempos pra cá, depois de dois divórcios e já sessentão, não perdi a mania das mordomias maternas. Só que, vivendo como um eremita de cinco da tarde até a manhã do dia seguinte, tenho de dar meu jeito para sobreviver em se tratando de cozinha. Para início de conversa, sujo tudo que é prato, copo, talher, xícara etc., e acumulo a sujeira dentro da pia, na bancada dela, em cima da mesa e na tampa do fogão, espécie de vingança contra a empregada que invariavelmente se despede cinco da tarde e me deixa na mão. Acontece que, ao amanhecer, a primeira vítima de minha baderna sou eu mesmo...
Acordo cedo, com meu estômago clamando por um café reforçado. Olho a cafeteira e me animo: a luzinha está acesa, sinal de que há café da véspera esperando-me. Entorno o conteúdo da cafeteira numa caneca, e me frustro ante a dura realidade de que deixei a cafeteira ligada sem qualquer líquido dentro dela. Torço o nariz, lavo a cafeteira com bastante má vontade, pensando repor a água para um novo café. Já irritado, vou em frente: entorno a água dentro e fora da cafeteira, e molho o chão... Lembro-me então do filtro cheio de pó da véspera; retiro-o e jogo-o na famigerada lixeirinha sobre a bancada da pia, invariavelmente lotada. Claro que sobra parte da sujeira para a bancada...
Vou ao armário, demoro procurando a caixa de filtro de papel. Logo a encontro, na minha cara, rindo de mim. Retiro dois filtros agarrados um ao outro (jamais vem um só), separo-os (não me perguntem onde pus o que sobrou...) e finalmente ponho o novo filtro na cafeteira... Aí me começa o martírio: o pó em excesso entorna junto com a água quente, passa por fora do filtro e jorra a mistura de pó e água no interior da cafeteira, o que somente percebo depois do incidente. Sem saída, jogo tudo fora e reinicio, agora com maior cautela, a feitura do café. Diminuo a quantidade de água, ponho outro filtro, ajeito-o carinhosamente (irra!), diminuo a quantidade de pó. A cafeteira é ligada, agora devidamente limpa, e a luzinha acende (ufa!)...
Vencida a primeira turbulenta fase, e enquanto o café se faz sozinho depois de vencer o seu maior obstáculo (eu), vou à mesa, separo do pacote de pão light minhas duas fatias e lanço-as nos buracos da torradeira. Tudo sob controle... Aproveito o tempo e pego a lata de leite light (faço dieta). Quando corre tudo bem até este ponto, o que é raridade, pego da caneca branca; em contrário, utilizo a caneca preta, sinalizando que tudo vai mal e terminará mal, como sugere a maldita lei de Murphy... É meu recado para a empregada: caneca preta na pia exige-lhe cautela e paciência comigo o resto do dia...
Mas, voltando ao meu traumático café da manhã, coloco o leite em pó na caneca preta e vou à cafeteira. Pego-a e entorno o café no leite. Aí é a vez de o pão sinalizar que está torrado... demais... saiu como carvão da torradeira. Ah, que desgraça!... Tenho de começar tudo de novo: outras fatias, regulagem da torradeira (sempre me esqueço do detalhe do botão) e espera nervosa. Pouca espera e as fatias estão douradas, ótimas, faltando apenas passar a manteiga, o que rapidamente faço e... outra gafe: peguei a embalagem amarela contendo a manteiga alimentadora do meu colesterol ruim. Agora já era!... Quatro fatias jogadas fora, mais duas fatias na torradeira... Prontas, lambuzo-as com a manteiga light e tenho finalmente o meu “café completo”...
Ajeito-me na cadeira (na verdade um banquinho) e abro o jornal (começo o meu dia recolhendo o jornal no portão, vício que morrerei com ele). Pode até me faltar café, mas, jornal, nem pensar. A mesa, porém, é compatível com o tamanho da cozinha: pequena. Daí é que me começo a estressar ao tentar compatibilizar a minha fome de alimento com a de leitura das futricas diárias. Em simultaneidade: jornal e café... Luto, sim, para conciliar esses divergentes interesses, mas consigo, finalmente, depois de separar o primeiro caderno, jogando o restante do jornal no chão. Ah, que satisfação! Levanto a xícara e sorvo o primeiro gole do meu líquido precioso... Ih, esqueci o adoçante... Ó mãe!
Irado, procuro me controlar. Pego o adoçante, dou aquele espirro dentro da xícara e mexo com a faca da manteiga porque não me lembrei da colher em momento algum depois de tê-la utilizado para medir o leite em pó. Não sei onde foi parar. Daí, tomo outro gole, agora perfeito, embora o café com leite já esteja meio frio e enjoativo, não o suficiente para me tirar do sério. Deposito então a xícara na mesa (minhas grandes canecas não são providas de pires) e pego a primeira fatia de pão... completamente fria. Não mais me incomoda, já acostumei e desisti de concatenar todos esses movimentos. Contudo, não consigo tomar o segundo gole, o café com leite esfriou em definitivo. Meto então a xícara no forno de micro-ondas e marco trinta segundos. Nesta etapa sempre me saio bem, quando não marco erradamente três minutos...
E, enquanto a xícara roda, engulo a outra fatia de pão... geladinha. Pego então o café com leite, agora fervendo. Vejo as notícias marretando a briosa, fico danado da vida, tomo um gole do precioso líquido sem o devido cuidado e queimo a língua... Eis como cuido de mim pela manhã, até a empregada chegar sem se espantar com a costumeira bagunça e meus palavrões militarizados. Mas saibam: não sinto nenhuma saudade de ex-mulher nem lamento tanto a ausência da empregada. Em compensação, ah, eu aqui confesso, que falta me faz a minha mãe!