quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sobre a morte de Rafael Mascarenhas




Hoje, 29/07/2010, O Jornal O Globo publicou artigo de Ciça Guedes, jornalista, com o título “Não culpem a vítima”. Reclama a articulista sobre alguns comentários “culpando” o jovem skatista Rafael Mascarenhas, vitimado por atropelamento num trecho de túnel interditado ao tráfego de veículos. Ciça Guedes está certa. Uma coisa é constatar que o local para a prática do skateboarding não era apropriado, porém sem apelar para extremos. Afinal, há riscos em quase tudo que é esporte e em algumas profissões, dentre elas a do militar estadual, que vai da possibilidade de ser injustamente acusado de crime ou ser morto em confronto. Também não são poucos os atropelamentos de policiais militares em locais interditados e por eles policiados. Eles morrem fardados por conta de culpa ou dolo de algum motorista, o que não faz diferença para quem morre nem minimiza a dor dos entes queridos. Enfim, fatalidades... Portanto, não se há de culpar o jovem por praticar o skateboarding num túnel interditado. Aparentemente, o local seria ideal à prática desse esporte outras opções, obrigando seus adeptos a improvisar e até se arriscar em vias de tráfego intenso, comportamento que já se integra à paisagem do Rio de Janeiro e algures. Não foi o caso de Rafael Mascarenhas. Ele buscou um local que lhe pareceu seguro e decerto não era interdito ao seu esporte favorito. Mas estava proibido ao tráfego de veículos, e, aí assim, o atropelador lá se enfiou em alta velocidade, pondo em risco a vida alheia. Risco calculado, pois, no mínimo, haveria de haver trabalhadores empenhados em algum reparo geralmente feito em horário de tráfego menos movimentado para não transtornar ainda mais o caótico trânsito do Rio.
O foco de Ciça Guedes desloca-se, então, para a irresponsabilidade do empresário Roberto Bussamra, compatível, aliás, com a do seu filho atropelador. Mais que a insensatez do pai, a jornalista lhe sublinha a “frieza” em ações posteriores, tentando rapidamente reparar as avarias do carro assassino (prova do atropelamento em alta velocidade), decerto pensando em salvar a pele do seu inconsequente filho. Daí a sucessão de ações mui bem pensadas no sentido de desfazer o dolo do atropelamento, dentre as quais a aleijada história do concerto entre a família e os PMs (ou extorsão), já atolada na lama de versões alteradas conforme o andar da carruagem... Sim, a versão desfavorável aos PMs, imediatamente adotada como verdadeira (sem qualquer contraditório por parte dos acusados), embora a sequência do comportamento paterno sugira seu enquadramento em crimes vários e não apenas na corrupção ativa, algo a ser apurado em processo administrativo e criminal.
Na sua primeira alegação, Roberto Bussamra alega ter dado mil reais aos PMs, ocultando cinco mil no outro bolso, de um total de seis mil retirados de caixa eletrônico (era madrugada). Seis mil reais retirados dum caixa eletrônico de madrugada? É possível realizar esta operação bancária? Bem, não sei, mas essa história do suborno (ou extorsão), cheia de voltas, viravoltas e reviravoltas, depende apenas de crença nas afirmações do mais interessado em tumultuá-la para aliviar o filho de indiciamento mais grave: o crime doloso. Quanto aos PMs, não se sabe ainda qual será o contraditório deles, não se podendo descartar terem sido influenciados pela eloquência do empresário. Por outro lado, isto é igualmente inaceitável em se tratando de policiais. Difícil, então, será explicar o estranho roteiro da viatura, a não ser que tenham sido convencidos a escoltar o endinheirado empresário até o lanterneiro, cujo serviço de emergência, e diante da situação, teria de ser bem remunerado e à talvez pago à vista. Só como hipótese, para não dizerem que tento acobertar os PMs (apenas defendo o direito deles à ampla defesa e ao contraditório, que só podem acontecer no decurso do devido processo legal), de madrugada, uma boa cantada, uma escolta benevolente e uma gratificação por conta disso não podem ser descartadas, desde que os PMs não soubessem o que houvera antes... Mas, com as pressões da mídia e o coro das autoridades contra a dupla, poucas lhes serão as chances de provar que não foram corrompidos (há muito “batom na cueca”), não sendo digerível, a meu ver, e apenas em tese, a versão da extorsão... Ora, como pode o pai se colocar como “vítima”, se ele com os filhos conduziram o carro ao lanterneiro?... Os PMs os obrigaram a isto?... Ora, ora!...
Creio que a reconstituição cronológica dos fatos, incluindo o socorro à vítima para se saber se houve a presença simultânea da ambulância e da patrulha no local, será vital ao esclarecimento da verdade. Também saber em que momento e por quem a patrulha foi acionada é fundamental, independentemente de versões, sendo certo que até agora tudo se resume ao interesse da mídia e das autoridades públicas que lhe são circunflexas em culpar os PMs, situação tão constrangedora e aberrante que até incomodou o jornalista Zuenir Ventura. Ah, o foco irado da mídia contra os PMs está a sugerir que algo não anda bem entre a publicidade governamental e seus beneficiados midiáticos: um problema comercial... Seria, por acaso, atraso no pagamento dos serviços publicitários governamentais? Ou a mídia espertamente aproveita o episódio para “demonstrar isenção” quando rasga elogios às UPPs. Aliás, a décima UPP foi inaugurada, perfazendo assim o atendimento, salvo erro mínimo, de 1% (um por cento) apenas do total de comunidades carentes dominadas pelo tráfico ou por milícias. Que percentual significativo, hein?...
Muito bem, a partir de hoje começa a funcionar a defesa dos PMs, pelo menos de um deles, como foi possível assistir na telinha, e o contraditório promete surpresas, o que se deduz pelas contestações iniciais de um advogado. E enquanto o embate se fixa na “corrupção policial”, a mídia finge esquecer o fato mais grave: a morte do jovem Rafael Mascarenhas, crime que deveria ser a locomotiva dessa viagem que se inicia aos trancos e barrancos. Porém, e como insinuou o jornalista Zuenir Ventura, só não cabe acusar os PMs pelo homicídio. Cá pra nós, tivesse a imprensa um fiapo de indício, já estariam os PMs sentenciados e executados em mais um “castigo-espetáculo” aplaudidíssimo por elite e povoléu estimulados como nos tempos das tenazes medievais e das confissões mediante tortura, tão irresistíveis que os acusados preferiam confessar o que não eram ou faziam para receber o prêmio da morte rápida e ganhar os céus...


quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sobre a morte de Rafael Mascarenhas








Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi


Um fato nem tão surpreendente me vem aguçando a atenção: desde o primeiro instante do acidente os personagens envolvidos na morte de Rafael Mascarenhas só se apresentam à DP, à mídia e comparecem aos locais de investigação (reconstituição) acompanhados de bons advogados. Quanto aos PMs, eles foram presos administrativamente, estão presos preventivamente, e têm sido reiteradamente ameaçados de expulsão, em antecipação de decisão administrativa, sem que qualquer advogado os tenha representado em lugar algum nem recebido espaço midiático para pelo menos tentar contraditar a acusação contra eles jorrada como tempestade pelo pai do atropelador. Nem creio que os PMs tenham constituído advogado ou que a PMERJ lhes tenha proporcionado acesso a algum defensor durante o clamor público (ou publicado). No domingo (que baita demonstração de desapreço pela PMERJ!), o foco do Programa Fantástico prendeu-se tão-somente à execração dos PMs, tendo como base a fala unívoca do pai do motorista atropelador, posta como “verdade absoluta”: a “extorsão”. No entanto, suas primeiras declarações indicavam um concerto de vontades (no âmbito jurídico-penal da corrupção ativa e passiva: crime de mão dupla). Que estranho!... PMs aceitando mil reais com promessa de receber o restante (nove mil reais) noutra oportunidade. Nada mais oportuno para se montar uma operação e flagrar os militares estaduais abocanhando a maior parte do dinheiro... Por que não foi feita?... Eis então que surge o pai do atropelador, agora devidamente conduzido por advogado, com a nova versão da “extorsão”, o que o transforma em “vítima” (parece que a autoridade policial não engoliu o artifício e está indiciando-o por crime de corrupção ativa). Demais disso, confesso está que a “vítima de extorsão” conduziu o carro avariado ao lanterneiro para desfazer a prova contundente do atropelamento em alta velocidade perpetrado por seu filho. Nota-se, talvez, até este ponto da história, um preexistente concerto de vontades envolvendo os PMs (que ainda não se manifestaram publicamente) e o pai do atropelador, supondo-se que tenha sido ele o senhor das ações a tentar resguardar o filho de um homicídio doloso. Mas aí é outro crime contra a administração da boa Justiça. Por sinal, em depoimento à polícia, conforme noticiado, o carona disse não saber de nenhuma negociação entre o pai do seu colega atropelador e os PMs. Depreende-se desta negativa favorável aos PMs um resquício de mentira para livrá-lo de arranhões judiciais futuros. Ele não servirá como testemunha de ilegalidade alguma e quiçá não será exposto em acareação para se contradizer e atrapalhar a tese da “extorsão”. Nos treinamentos militares, denominamos esse comportamento de observador privilegiado como “fora de situação” (neutro: nem amigo, nem inimigo)... Vê-se, portanto, que o trágico episódio inicia-se enodoado por manobras nitidamente jurídico-judiciais arquitetadas por especialistas. Enquanto isso, aos PMs trancafiados só cabe negar que tenham recebido propina ou tentado extorquir o pai do atropelador. Ou poderão afirmar que seguiram gentilmente o pai do atropelador e seu filho até o caixa eletrônico para evitar algum assalto (“saidinha”) e não para ajudá-los a acobertar crime grave impossível de ser acobertado... E também poderiam ter acompanhado o extremoso pai para protegê-lo de algum azar de caminho... Afinal, Reus sacra res est (“O réu é coisa sagrada”)... Deste modo o “forte indício” (GPS) contra os PMs, embora suficiente para uma punição administrativa extrema, não passará disso. Mas, sem dúvida, o GPS é “batom na cueca”... E para a corporação, salvo milagrosa guinada em vista de outros fatos que poderão emergir das trevas lançadas sobre a verdade verdadeira, a culpa administrativa dos PMs parece suficiente para que a ordem prévia do irado governante se materialize: “bandidos ao quadrado”: rua com eles e cadeia neles! Se responderem como “bandidos ao quadrado” pela corrupção passiva, aparentemente de difícil ou impossível prova direta, os desinfelizes, depois de excluídos administrativamente, vão dar com os costados na Água Santa, talvez a conviver lado a lado com alguns bandidos que prenderam. Mas nada disso é problema, o azar é deles (Ó amaldiçoados PMs!), quem os mandou “ajudar um desesperado pai” (coitadinho!), como todos (autoridades, mídia etc.) já concluíram sem que qualquer advogado tenha sequer apresentado um mínimo contraditório a favor dos amaldiçoados. Tudo lhes é desfavorável. Estão ambos os fardados fadados à danação, hereges endemoninhados pelo governante-inquisidor ao modo Tomás de Torquemada...



Neste ponto, eu diria sem temor: já vi este filme! Sim, e muitas vezes: PMs execrados pela mídia ante a opinião publicada, acusados de bárbaras chacinas, e depois inocentados pela Justiça sem uma linha sequer da imprensa desmentindo as execrações anteriores. Eles são às centenas, ou quiçá aos milhares. Mas isto é mero detalhe, pois o que vale é a máxima latina lá do cabeçalho: “Vão as leis onde querem os reis”.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Reflexão sobre a corrupção no Brasil







A sociedade brasileira, como um sistema de convivência social, poderia, grosso modo, ser subdividida em dois subsistemas: público e privado. O primeiro, denominado Estado, funciona desdobrado em três subsistemas, “harmônicos e independentes” (Legislativo, Executivo e Judiciário), formados por burocratas efetivos, por particulares terceirizados e por políticos eleitos esporadicamente. Ocorre que, por conta do modelo de sociedade escravocrata que ainda perdura no Brasil, dissimulado em “Estado Democrático de Direito”, os políticos se eternizam nos seus cargos eletivos e enricam como “burocratas-políticos” ou “políticos-burocratas”, embora o somatório dos seus ganhos nunca explique seus altíssimos e mal declarados patrimônios. Quem sabe não esteja aí a explicação da alegoria (tal como o globalismo de um sistema: o todo maior que a soma das partes) de Caetano Veloso: “Tudo certo como dois e dois são cinco”...

Para se ter uma exata dimensão do grau de corrupção reinante nos dois subsistemas, devemos primeiramente admitir que o segmento maior (privado) sustenta o menor (público), para que este preste àquele os serviços de algum modo definidos no “Contrato Social”. Ocorre que num Estado excessivamente intervencionista a tendência da sociedade é ser exageradamente clientelista. Esse clientelismo, por sua vez, oscila num continuum: numa ponta, estão os grandes interesses econômicos e pecuniários dependentes de manobras políticas (do Executivo ou do Legislativo) ou judiciais capazes de transformar, num toque de varinha de condão, o poder público em dinheiro particular; na outra, está o assistencialismo explorador dos ignaros e pauperizados eleitores (maioria absoluta) que dependem desesperadamente de remédio, de consulta médica ou de algum benefício simples para si ou para as suas comunidades abandonadas à própria sorte: o “gado de rebanho” nietzschesiano. É assim de propósito... Pois é a ausência do Estado a necessária lacuna para a prática do assistencialismo gerador de votos de cabresto nos currais eleitorais que eternizam o círculo vicioso da classe política, prática da “casa-grande e senzala” que vem do Brasil Colônia e alcança o Brasil República nos dias de hoje.


O círculo vicioso é uma roda que não para de girar porque, formada por interesses dos três poderes estatais e pelos interesses particulares, ela é alimentada pelo combustível capitalista: dinheiro. Tendo-o, é muito fácil dissimular-lhe a origem, contando os endinheirados com os mesmos métodos que servem indistintamente a todos (corruptos e corruptores públicos e privados). Afinal, a pipa é uma só e o vinho é o mesmo. Diferenciam-se os personagens tão-somente na quantidade em que o precioso líquido é distribuído, variando de tonéis a gotículas microscópicas ou a gota nenhuma; mas é certo que os tonéis permanecem nas adegas da elite histórica do mundo capitalista e financeiro: dos nomes de família do passado, e dos novos-ricos que emergem da gotícula ao tonel: políticos que do nada se tornam milionários só pelo acúmulo de salários, mesmo gastando bastante para manter um alto padrão de vida e ainda sustentar seu assistencialismo, contradição tão surrealista que mais parece ficção literária.

É claro que não são muitos os políticos que passaram da gotícula ao tonel ou até saíram do “nada ideológico-socialista” ao “tudo pragmático-capitalista”. Somados todos que ocupam cargos eletivos na União, nos Estados e nos Municípios, o número não é tão expressivo se comparado com a totalidade da sociedade brasileira. Como são dispersos, não despertam a atenção societária a não ser em casos raros como o de Brasília, e somente porque o poder político local era oposição ao poder maior nacional. É assim porque a elite para onde eles e elas se deslocam mediante artifícios corruptos é mínima e a massa miserável é abundante...

E a “roda da fortuna” gira escapando da verdade e contrariando a lógica de Friedrich Nietzsche: “A roda do tempo pode rolar para onde quiser, nunca poderá escapar à verdade”. Escapa, sim, ou melhor, a verdade é cristalina, concreta, aberrante, mas oculta nas sombras da conivência estatal com as ilicitudes que sustentam uma economia invisível de “caixa dois” maior que a oficializada no “caixa um”. E no rodar da roda alimentada por ilicitudes há de tudo: piratarias vendidas em tabuleiros espalhados pelos grandes centros urbanos, ao lado das “vistas grossas” de guardas municipais, da polícia, de fiscais e dos demais burocratas que as deveriam coibir, mas não o fazem a medo daqueles superiores que lhes enviam ordens tácitas e/ou explícitas no sentido da omissão...

Acrescem aos tabuleiros de piratarias as maquininhas caça-níqueis, as bancas de apostas do jogo do bicho e outros jogos de azar praticados à larga sem qualquer repressão estatal. Aliás, o Estado sem-vergonha, em vez de coibir as ilicitudes, vem oficializando-as em “raspadinhas” e tantos outros jogos lotéricos nitidamente de azar, sem falar nas maracutaias televisivas dos telefonemas miraculosos e dos sorteios semelhantes aos jogos de azar que não são legalizados por desinteresse dos que exploram os jogos de azar oficiais e permitem sua exploração por particulares midiáticos e ainda recebem a “parte lhes cabe deste latifúndio”...

Em meio a essa corruptela de bilhões e bilhões de reais, inclui-se a “ordem de cima” para os subordinados "de baixo” produzirem ganhos ilícitos em seus lugares de atuação, de modo que a maior parte desses ganhos “suba”... Caso contrário, os desinfelizes burocratas “de baixo” são levados ao ostracismo e reduzidos ao mísero ganho oficial que não lhes dá sustento. Isto na melhor hipótese, porque o pior é a perda do emprego por meio de manobras disciplinares engenhosas e rápidas no sentido de excluir do sistema o já excluído pelo azar do berço de lata enferrujada (“A árvore oculta a floresta” – provérbio alemão).

Essa cultura de pressão da elite sobre a massa poderia ser traduzida pela “gorjeta” ou “esmola” que os miseráveis de flanelinha na mão tentam ganhar; ou os malabaristas de bolinhas de tênis em semáforos; ou os vendedores de balas, doces e demais produtos piratas de fora e daqui que infestam o ambiente urbano como formigas indo e vindo do ambiente ao nicho levando pequenas folhas, movimentação animal que lembra os tenebrosos tempos de exploração do ouro (e do homem pelo homem) em Serra Pelada: a procissão de miseráveis no vaivém do buraco à superfície e da superfície ao buraco com o peso da terra no lombo exaurido. Lembra também as “formiguinhas fardadas”: corpos e mentes dóceis tão bem delineados por Michel Foucault em seu clássico Vigiar e Punir... E os “corpos e mentes dóceis” lembram os PMs...

Nesta “procissão des-humana-animal” todos rezam na rigorosa cartilha de quem manda mais, desde o padre que vai à frente da charola e seus contritos carregadores, até alcançar o último da fila carregando o toco de vela... Todos rezando e cantando baixinho em busca da salvação no Reino dos Céus, porque neste reino da desigualdade eles já perderam a esperança. Ou então descambam para a revoltada ilicitude seguindo a crudelíssima e falsa lógica de que, se o grandão pode se locupletar, o pequeno também há de poder... Ledo engano... Enquanto isso, do bispo para cima, até o topo da cobertura de luxo, os mandantes se distraem com as coisas boas da vida sob os olhares invejosos ou irados da procissão enganada (Lucrum unibus est alterius damnum – “A desgraça de uns é o bem de outros”)...

Sim, sim!... Enganada e temerosa da danação, e por isso cata as moedas e jorra-as para cima a entupir as algibeiras dos poderosos que lhes assistem em conforto e lhes dão bons conselhos, dentre os quais nunca contrariar seus mandatários e sempre agasalhar as falhas do sistema que os comanda com mão de ferro... E nessa procissão de miseráveis lá estão os PMs sempre prontos a assumir erros muitas vezes decorrentes de mandos inconfessáveis, ou erros sem mando algum, mas fruto de pura revolta contra o sistema, e deste modo se habilitam ao patíbulo do “castigo-espetáculo” hodierno, que sempre consegue sublinhar em clamor os erros menores para acobertar os desastres maiores.

É o que se assiste agora em vista da tragédia causadora da morte de Rafael Mascarenhas, fato extremo e gravíssimo, porém tornado “menos-valia”, eis que superado pela corrupção (ou extorsão) supostamente praticada por dois PMs, fato menos grave tornado “mais-valia” pela mídia elitista. Também, a ação criminosa do atropelador e os ardis do seu pai sucumbem em valor ante a “corrupção policial” (“mais-valia” deflagrada pela mídia capitalista mui bem remunerada pelo sistema oficial por meio de verbas publicitárias).

É impressionante o desprezo da verdade pela mídia e por todos que a ela se curvam sem qualquer reflexão. Há, sim, um conúbio perfeito entre o sistema estatal e a mídia particular influenciadora do povoléu. E, para fingir isenção, a mídia busca fatos congêneres e corriqueiros de corrupção policial atingindo um “humilde cidadão”, assim desviando o foco do corruptor de alto naipe providencialmente amparado por competente e articulado advogado dono do discurso do seu cliente e do filho que atropelou e matou o skatista Rafael: o fato mais tenebroso e quase esquecido.

Enfim, um discurso afinado e protetor da elite que casualmente se confrontou: o atropelador de classe média ou alta e o atropelado de classe média ou alta, tudo posto, ao fim e ao cabo, como obra infernal de dois integrantes daquela procissão: os últimos da fila com suas velas gastas pelo fogo e a parafina quente queimando-lhes as mãos: os dois PMs “extorsionários” ou “corrompidos”... Em sendo eles punidos (já estão em prisão administrativa e ficarão no xilindró), está o problema resolvido e o resto (o grave homicídio) é papelada e tempo a favor da elite: “tudo certo como dois e dois são cinco”...

Os PMs merecem o patíbulo?... Sim?... Então, que sejam logo enforcados!... E, com a sociedade vingada, o outro Rafael atropelador e seu pai serão lembrados apenas como coadjuvantes do crime de extorsão de que teriam sido “vítimas”, e, nesta oportuna condição, quase que equiparados ao jovem skatista (a verdadeira vítima) atropelado e morto numa via interditada ao tráfego, por um carro em alta velocidade, sugerindo participar de “pega societário”. E assim caminhará a sociedade brasileira, como sempre, e desde antes, e decerto depois... Ah, parece que a procissão de candidatos à carreira de soldado da PMERJ chegou perto de cem mil para disputar mil vagas. Portanto, não se há de temer duas lacunas mais lacunas no silencioso e conformado rebanho (Si corvus posset tacitus pasci, haberet plus dapis – “Ovelha que berra, bocado que perde”): as ovelhas disponíveis para abate serão sempre mais numerosas do que os lobos que delas se alimentam para fazer o círculo vicioso girar sem jamais chegar à verdade nietzschesiana...

domingo, 25 de julho de 2010

Sobre a morte de Rafael Mascarenhas

Fonte: O Globo de 25/07/2010
Antes mesmo de comprovada a corrupção em meio à trapalhada já formada, ecoa o clamor governamental no sentido de que o comportamento dos PMs é abominável e que os “bandidos ao quadrado” serão exponencialmente punidos: no contexto administrativo perderão emprego e a família deles não mais terá direito ao sistema de saúde da PMERJ para o qual eles contribuem desde o ingresso na corporação; e podem amargar pesada condenação pela Justiça Criminal. Mais abomináveis ainda foram o homicídio perpetrado por Rafael Bussamra e o intento do pai (Roberto Bussamra) em acobertar o filho atropelador por meio de artifícios ainda não apurados. Mas a nebulosa confissão (?) de Roberto Bussamra em distrital da Polícia Civil, assumida ao pé da letra pelo governante, foi o que a este bastou para execrar publicamente os PMs, omitindo-se, porém, de tecer iguais comentários quanto ao atropelador inconsequente e seu artificioso pai, este que teria espertamente corrompido os PMs ou por eles fora extorquido.
E se supormos que Roberto Bussamra mentiu na DP? E se a sua (dele) declaração posterior ao fato gravíssimo já se integrava a alguma tática de defesa do filho? Tempo para isso houve?... E que prova ele apresentará da tal extorsão? Cá pra nós, o mero saque de seis mil reais (pode?) e o engodo dele mantendo no bolso cinco mil reais e “entregando” aos PMs apenas mil sugere uma frieza tão espetacular que poderia ser traduzida como mentira. E, se o total de nove mil reais seria posteriormente entregue, por que a Polícia Civil não comunicou à PMERJ para montar uma operação e flagrar os dois PMs recebendo a maior parte?... Ora, porque é ajustado demais o cidadão brasileiro Roberto Bussamra “receber telefonema de parentes” no pleno andamento da sua tramóia e abortá-la de caminho. Tudo muito conveniente para a história ter sido como um roteiro de teatro ou cinema...
O flagrante dos PMs recebendo os nove mil reais que faltavam seria a parte mais fácil de fazer para dar veracidade absoluta à história. Em não havendo essa providência, tudo se arroja para o campo da ficção grosseira e da especulação preconceituosa e desfavorável aos PMs. Cá pra nós, prato feito para o governante que detesta PMs sem qualquer pejo de assumir isto publicamente e reiteradas vezes. A vantagem é que nós, PMs, também o detestamos...
Há, na verdade, muito que se apurar para se chegar à verdade substancial dos fatos. Tudo soa estranho em demasia e outras novidades poderão surgir. A fatalidade em si, efeito consciente de quem imprimia alta velocidade ao seu carro num local incompatível para tanto, resultou na morte de um jovem skatista que também se divertia em local inapropriado. É duro admitir, mas aí sim, a fatalidade foi chamada a intervir, tanto como em outras aventuras arriscadas em que os jovens morrem: saltando de asa delta, escalando montanhas, demais de outros esportes radicais, alguns absurdamente perigosos.
O trágico episódio sugere uma sucessão de trapalhadas mal explicadas, incluindo-se a suposta transgressão administrativa (e o suposto crime) dos PMs em vista da voluntária e decerto pensada acusação do pai para livrar o filho de comportamento doloso. É duro constatar, mas onde Deus constrói uma igreja o Diabo levanta uma capela ao lado (insinuação machadiana). E se o pai do atropelador estiver mentindo?... Por que a palavra de um “cidadão” sem temor algum de transgredir a lei penal, na escuridão dos arranjos posteriores ao atropelamento provocado por seu filho, vem à luz como mirabolante tese de extorsão que poderia facilmente ser provada com flagrante no momento do recebimento do elevado complemento pecuniário? Hum... Que a história está mal contada, ah, está mesmo!... Pior é que o suposto delito dos PMs (a ser verdadeira a estrambótica versão de Roberto Bussamra) vem se tornando mais estrondoso que o inegável crime de Rafael Bussamra: o homicídio, seja culposo (?) ou doloso.
Pelo que se vislumbra das notícias, tudo contribuiu para a tragédia, sendo mais grave o fato em si (homicídio) e a abordagem do pai supostamente subornando PMs ou por eles sendo subornado para liberar o carro e o filho. Mas se esses PMs cometeram o crime de corrupção (ativa-passiva) em concerto com o pai do homicida, este tenta transformá-lo em crime de extorsão para embuchar somente os PMs e livrar seu filho do crime doloso. E também ele próprio, claro, tenta se desvencilhar do papel de corruptor ativo para o de incauta vítima. Ora, se os PMs, nessas circunstâncias tão aberrantes, decidiram se vender, deveriam ser punidos também por burrice. Porque, diante de um atropelamento com vítima fatal, receber dinheiro para desfazer o local, bancando um jogo pesado desse, é simplesmente inverossímil.
Com efeito, foge à razão um pai de criminoso oferecer dez mil reais para acobertá-lo e os PMs se contentarem com apenas mil. Ora, ora!... Repito aqui: a ser verdadeira a versão paterna dita em DP, bastaria um contato para entregar o restante e a polícia flagraria a extorsão, crime que ficaria restrito aos PMs, ou aos “bandidos ao quadrado”, como vociferou o atônito e irascível governante em meios às cascatas políticas de sempre.
Não sei se as escandalosas declarações do governante autorizam-no a liderar a PMERJ na luta contra o crime (liderar é uma coisa, chefiar é outra...). Porque mais este premeditado clichê midiático (“bandidos ao quadrado”) pode, enfim, se resumir a mais uma injustiça por ele perpetrada contra uma corporação que vem sustentando sua “política de segurança pública de última hora” denominada “Unidade de Polícia Pacificadora”, precocemente lançada em meia dúzia de favelas e mote de promessas eleitoreiras impraticáveis em se tratando de todas as favelas do Rio de Janeiro, mesmo que ele desgoverne o RJ por mais quatro anos.
Trata-se de promessa tão surrealista que espanta qualquer mente mediana. Parodiando o próprio governante, acreditar em suas estapafúrdias declarações é o mesmo que nos reduzir à condição de “bestas quadradas”. Digo e reitero: “política de segurança pública de última hora”, sim, para lembrar, mais uma vez, que o discurso desse mesmo governante ao assumir o cargo era o do “enfrentamento”, indefectivelmente acompanhado da frase stalinista (sic) saída da boca do seu secretário de Segurança Pública depois de algumas matanças policiais em favelas: “Não se pode fazer um omelete sem quebrar ovos.”
Creio que, ante tanta trapalhada, emerge de modo lapidar a declaração oficial do ilustre presidente da OAB/RJ, diferentemente da de um governante que sempre prefere culpar a polícia para angariar votos, embora a polícia esteja sob suas ordens e comandada por pessoas de sua confiança igualmente afetadas por suas insânias autoritárias disparadas no calor de acontecimentos ainda não apurados no devido processo legal. Ao assumir para si o prejulgamento e a sentença (mandando um recado para baixo), essa totalitária autoridade pública ignora os princípios basilares da ampla defesa e do contraditório, direitos fundamentais de quaisquer cidadãos brasileiros, dentre os quais se inserem os militares estaduais, mesmo que para desgosto desses seus detratores de plantão...
Encerro torcendo para que os PMs não sejam “bandidos ao quadrado”. E, mesmo se o forem, também deveriam ser tachados de “bandidos ao quadrado” pelo governante o atropelador e seu pai, pondo todos os vinhos na mesma pipa societária de onde todas as gotas brotam à luz. Já a vítima, — o jovem Rafael Mascarenhas, cuja mãe tem a sensibilidade restrita aos bons de coração e alma, —, a vítima recebeu a pena capital por se divertir radicalmente em local impróprio à sua integridade física. Porém, para a família dele o preço foi absurdo, alto demais, e nenhum discurso proselitista governamental trará o jovem de volta ao seu mundo musical e à vida. Eis as sábias palavras do presidente da OAB (sic):

OAB-RJ defende mais capacitação da PM e repudia a corrupção
Para presidente do órgão, corrupção tem que ser combatida com seriedade.
Segundo ele, 'lógica da guerra ainda prevalece no combate à criminalidade'.

Do G1 RJ

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro, Wadih Damous, defendeu neste sábado (24) mais capacitação da Polícia Militar e repudiou a corrupção na corporação nos casos recentes envolvendo a atuação de policiais militares. “Que a corrupção policial seja combatida e repudiada com seriedade, pouco importando a condição social das vítimas e dos favorecidos”, disse Damous em nota divulgada à imprensa.
saiba mais
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Na sexta-feira (23), Roberto Bussamra, pai do jovem que admitiu ter atropelado Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães, disse em depoimento que os policiais que liberaram seu filho pediram R$ 10 mil em propina. O depoimento durou seis horas.

O presidente da OAB-RJ também questionou a atuação do pai do jovem que admitiu ter atropelado o músico Rafael Mascarenhas. "A propina, a "cervejinha" e outros expedientes afins são de todos conhecidos, mas nunca se pergunta, quem corrompe? A sociedade, de fato, quer uma polícia republicana e incorruptível? O pai dos atropeladores de Rafael foi o primeiro a tentar corromper policiais para livrar o filho?”.
Segundo o presidente da OAB-RJ, a corrupção é uma prática frequente. “Podemos presumir que fatos como esse ocorram diariamente. Para combatê-los se faz necessária a morte de um jovem filho de pais famosos? O que esperamos é que todos os crimes, que envolvam famosos ou não, sejam elucidados com a mesma velocidade com que se apurou a trágica morte de Rafael. Que as lágrimas das mães de filhos mortos sejam lamentadas e respeitadas da Zona Sul à Zona Norte”, declarou Damous.

Para Damous, a morte do menino Wesley Andrade, que foi atingido dentro de sala de aula quando a polícia fazia uma operação perto do Ciep onde ele estudava, mostra que o investimento nas Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) pouco adiantará se não houver capacitação entre os policiais. “Tiro, formas adequadas de abordagem, etc. Mostram que a lógica de guerra ainda prevalece no combate à criminalidade”.

Por enquanto, é o que basta!!!!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sobre o relacionamento da PMERJ com a mídia


Quando o povo vê a PMERJ nas ruas não tem ideia do que acontece com ela durante as 24 horas em que seus efetivos se revezam em diversos serviços e lugares do RJ. Em São Paulo, a BAND estimula o conhecimento popular sobre a utilidade da PMSP acompanhando ocorrências e noticiando resultados geralmente positivos. Mais importante: a PMSP permite que PMs de serviço falem à imprensa sobre o que fizeram, propiciando a divulgação de suas ações em tempo real. Esta parceria, longe de ser temerária, estimula a prática do bom serviço e da permanente boa notícia, muita vez em horário nobre. Ganham a PMSP, a imprensa e a sociedade, porque, ao constatar as boas ações da PM, os cidadãos sentem-se mais seguros nas ruas independentemente da inevitável violência que assola os grandes centros urbanos. Sim, a sensação de segurança proporcionada pela saudável interação PMSP/mídia põe o crime no seu lugar devido (exceção), com o predomínio da sensação de segurança na tessitura social (regra).
Ora, no mundo inteiro o crime existe como exceção. A regra é a ordem pública como geradora da sensação de segurança. Tanto uma (ordem pública) como a outra (sensação de segurança) passa por avaliações subjetivas, de natureza psicossocial. Quando o cidadão sabe estar num ambiente policiado e ativo, vai às ruas com menor preocupação. Um ou outro cidadão pode ser vítima de crime, sim, mas é de sua difusão sensacionalista que emerge a sensação de insegurança. Daí a importância de atender prontamente aos profissionais de imprensa, deste modo contribuindo para a geração de notícias completas e transparentes. Para tanto, — e como ocorre em São Paulo, — o PM deve colaborar com a imprensa ao vivo e a cores. Não é assim na PMERJ, que parece ver essa corriqueira interação como um risco a mais.
Não sei por que temor a PMERJ impede o PM de interagir com a imprensa. Será que o PM paulista é mais preparado para dar entrevista específica sobre o resultado positivo de uma ação por ele conduzida? Quem melhor que ele pode ilustrar para a imprensa o fato a ser noticiado? Nas inúmeras vezes em que acompanho as entrevistas de patrulheiros na telinha da BAND, os PMs paulistas saem-se muito bem. São tranquilos: agem e falam profissionalmente, sem quaisquer sintomas de vaidade. Marcam pontos positivos desbaratando o crime e enaltecendo a imagem da PMSP.
Penso que, se os PMs do RJ não dão entrevistas imediatas sobre suas ocorrências, deveriam ser treinados e autorizados a fazê-lo. Porque é certo que a imagem da PMSP é positiva por conta da oportunidade que dá à imprensa de informar ao telespectador ou ao ouvinte sobre o que ocorre no ambiente em tempo real. Aqui no RJ a imagem da PM é negativa exatamente pelo inverso. Não podendo falar com a imprensa, sobra para esta a divulgação incompleta da notícia. E, por conta dessa tola desatenção, sobreleva na notícia o aspecto ruim (a falha) das ações policiais. Está certa a imprensa: recebe migalhas de quem lhe “paga mistério” e lhe dá o troco. Por isso a PMERJ perde todos os rounds de uma luta na qual poderia sagrar-se vencedora, bastando imitar a PMSP.
A PMERJ, na verdade, comporta-se como “sistema fechado” com a imprensa, abrindo-se apenas para dar explicações incômodas sobre algumas falhas ou “pedir desculpas”. Aliás, isto é mote de políticos loquazes para se livrarem de suas responsabilidades diretas, transferindo-as para baixo. E a corporação somente piora a sua imagem, e quem cuida de mais danificá-la é a mídia desinformada, enraivecida e sem alternativa senão a de divulgar notícias ruins, generalizando-as tão brilhantemente que gravam nas pessoas a má impressão de que a PMERJ somente erra e jamais acerta.
Sim, claro! Se os acertos da PMERJ não são difundidos, como elegantemente faz a PMSP ao permitir que um simples soldado informe à imprensa o seu feito positivo, gerando e mantendo uma boa imagem corporativa, a tendência da PMERJ é a de apanhar pancada midiática a torto e a direito. Cá pra nós, não está passada a hora de imitar a coirmã paulista? Porque, se os dirigentes da PMERJ (oficiais) não confiam nos seus policiais, pondo-os como autênticos surdos-mudos nas ruas, como a população confiará neles?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sobre a morte estúpida de Wesley


Há momentos em que necessito da solidão. Sem ela, eu não falaria comigo mesmo para tentar me responder a mim sobre os meus dilemas. Não vejo a solidão como distância do outro ou saudade de alguém. Para mim, o solilóquio é indispensável à compreensão do meu espírito, e ele somente é possível quando estou só. Não se trata de isolamento egoístico, mas de exercício mais aprofundado do pensar e do sentir. Gosto das vozes a minha volta, do sorriso de uma criança, e de frases que valem uma biblioteca. Como gosto! E me angustio ao ouvir o clamor que brota do sofrimento máximo de alguém, e, quanto mais natural ele for, maior o seu valor objetivo.
Agora me ponho só e angustiado. Afinal, sou pai, bem como muitos PMs que participaram da ação em Costa Barros que terminou em tragédia também o são. E decerto estão sofrendo bastante com a fatalidade que ceifou a vida de uma criança. Sublinho isto para lembrar a todos que o PM é um ser humano como qualquer outro. Sente medo, chora, ama, e se arrisca contra criminosos porque crê no que faz em benefício da sociedade e dos cidadãos. E muitas vezes ele morre, é ferido e costuma pagar caro por seus erros involuntários. Enganam-se os que imaginam que o PM é autômato dentro do invólucro estatal chamado “farda”. Há, provando o que digo, milhares de crianças órfãs de PMs mortos em serviço.
Estou, sim, vivenciando a angústia devido ao desabafo do pai do menino Wesley, pela tevê, ao vivo e a cores, no seu primeiro momento de reação. Porque ele viverá a pior solidão: a da saudade de um ar para sempre vazio do seu filho. Esse pai disse em aproximadas palavras que não lhe importava se o tiro que matou seu filho tenha saído da arma de policial ou de traficante. Tem razão, a causa não mudará o efeito. Não cuidou o pai, no seu mais profundo sofrer, de irradiar ira contra um lado ou outro do confronto. Apenas questionou a violência como o grande mal a assolar as crianças faveladas. Ele perdeu o filho; a favela perdeu a criança, o colégio perdeu o aluno; o aluno perdeu a vida. A sociedade é insegura para as crianças, em especial para as crianças faveladas.
Cá pra nós, importa ao cidadão Ricardo Freire de Andrade saber quem disparou o tiro letal ao seu filho?... Por sua fala, ficou claro que não. Mas a mídia de conveniência (pupilos de Kane instalados no O Globo) não desiste e já instituiu o “pai-herói” em contraposição ao “coronel-vilão”, como se depreende da distorção da declaração do Coronel Príncipe em entrevista ao Jornal O DIA (concorrente), cujo teor integral será postado ao fim deste texto, juntamente com a matéria publicada no Jornal EXTRA (filhote de O Globo) e reproduzida no O Globo de hoje, 19/07/2010. Mas importa sublinhar o que o Coronel Príncipe realmente disse na sequência da sua longa entrevista ao Jornal O DIA, para ser comparada com a “insinuação global” abaixo:







“MORTE DE WESLEY

Eu lamento muito, claro. Mas não fui responsável por ela, meus policiais também não. Com a minha exoneração, o comando mostra que não assume a responsabilidade de seus comandados. Não foi a primeira vez que um estudante foi atingido naquele Ciep e o poder público nunca providenciou a blindagem do prédio. Estive no local, vi o que poderia ser feito. Abomino a morte de inocentes, mas isso, eventualmente, vai acontecer.’”

É verdade: crianças morreram antes, morrem agora e morrerão no futuro vitimadas pela mesma causa: o confronto entre traficantes armados para uma guerra e a polícia igualmente armada para guerrear, ambos sem saber como travar a bala no alvo pretendido ou mesmo se o acertará em precisão; porém todos sabendo que a bala do fuzil cortará o corpo-alvo e atingirá a criança que brinca em falsa segurança num ponto distante da escaramuça.
Sim, está certo o pai do menino Wesley: não lhe importa quem matou o filho dele. Nenhuma constatação de autoria ou culpa o trará de volta. Acabou. Para ele, pai, desfez-se o sonho de ver o filho viver e sonhar em ser feliz: mínima esperança de quem já sofre com a miséria e a violência no entorno de um lar empobrecido e inseguro: o lar favelado.
Ora, o Coronel Príncipe apenas constatou genericamente uma realidade. Não aceitou como “normal” em momento algum a morte da criança. Pelo contrário, lamentou. Portanto, é incabível a má intenção do jornal defensor do governante criar, dias depois, o falso contraste para desviar a atenção do foco principal: a violência do tráfico que tende a transformar o Brasil numa espécie de sucursal do México...
A frase do pai de Wesley fugiu do lugar-comum. Mas a mídia sensacionalista intenta aprisioná-lo ao clichê maliciosamente inventado (o falseado contraste entre o “pai-herói” e o coronel-vilão), aproveitando-se da justa indignação paterna, distorcendo-a e endereçando-a ao “coronel-vilão”: o “BODE”...
Ah, Estou angustiado. Sinto-me culpado. Foge de mim a razão; sobra-me apenas o sentimento. E aqui estou tentando uma saída para o dilema apontado pelo pai sofredor, que, em vez de se contentar com as desculpas oficiais, não as aceitou e apenas lamentou que o filho fosse vitimado pela insana violência. Não se importou com nenhuma causa específica, mas com a violência que assola a todos, e a morte de uma criança se torna “estatística” superposta por outra morte de criança no dia seguinte.
Assim declarou o pai de Wesley e tem sido assim desde antes e o será depois, como apenas constatou o Coronel Príncipe. A tragédia não é problema de agora nem a desculpa padronizada por uma sociedade acovardada e cúmplice do tráfico: a demanda que lhe garante o sucesso...
Sim, importa saber quem atirou e matou o menino?... Para quê?... Por quê?...
Identificar o autor e puni-lo é solução mínima ou nenhuma. Wesley não morreu de bala perdida, mas, como seus coleguinhas a sua volta dentro da sala de aula, foi perseguido por muitas balas que conscientemente ciscaram o ar em busca de outros alvos, até que uma delas o atingiu: a bala do confronto. Poderia ter sido o colega ao lado ou a professora ou alguém sonhando acordado em outra sala de aula ao ouvir uma fábula da mestra dedicada e geralmente mãe extremosa a transferir conhecimento e esperança aos seus pequeninos ouvintes... De repente, o tiro, o sangue, o pânico e a trágica morte danificando o espírito de uma geração de crianças. Meu Deus!
De um lado, os criminosos: traficantes armados até os dentes e certos da impunidade; do outro, a polícia: protetores da sociedade armados até os dentes e transmitindo mais insegurança que segurança. E no confronto entre rotos e esfarrapados supostamente representando o Bem e o Mal o resultado foi além do Bem ou do Mal: morreu a criança, na sala de aula, sonhando com o futuro de lápis na mão.
Situou-se o fato, portanto, no campo do absurdo. Por isso, o pai de Wesley tem razão: não importa quem matou seu filho, não têm sentido as desculpas oficiais nem a tentativa midiática de inventar um “duelo” entre o “coronel-vilão e o “pai-herói”; importa-lhe o absurdo vazio deixado pelo seu menino Wesley. Para sempre... Mas o desesperado pai deixou explodir um dilema a nos martelar sem resposta, pois as alternativas (tiro saído da arma do PM ou da arma do traficante) lhe são definitivamente ruins. Também para ele de nada adiantará o castigo-espetáculo do “bode expiatório”...

Oficial que liderou a operação afirma: ‘O Ciep é irrelevante'

Coronel Príncipe afirma que não errou ao realizar a ação que resultou na morte de aluno dentro da sala. 45 fuzis de policiais são apreendidos

Rio - Responsável pela operação policial nas favelas da Quitanda e Pedreira, em Costa Barros — onde o menino Wesley Guilber de Andrade, 11 anos, morreu atingido por tiro dentro da sala de aula do Ciep Rubens Gomes, na manhã de sexta-feira — o ex-comandante do 9º BPM (Rocha Miranda), coronel Fernando Príncipe, lamenta a morte dele, mas defende que as operações sejam mantidas: “O Ciep é irrelevante. Se não houver Ciep, haverá uma casa, uma fábrica. Mas o pior é não realizar operações”.

A Delegacia de Homicídios recolheu 35 fuzis de PMs dos batalhões de Rocha Miranda, Barra da Tijuca, Bangu e Santa Cruz, que participaram da ação. As armas serão confrontadas com o projétil calibre 762 encontrado no corpo do menino, compatível com o tipo de fuzil usado por PMs. Policiais civis fizeram perícia ontem no Ciep para calcular de que ponto partiu o tiro.

Wesley foi enterrado na manhã de ontem, no Cemitério de Irajá. No sepultamento, acompanhado por 70 pessoas, amigos da vítima e professores lembraram os momentos de horror. A professora do menino, Mariza Helena, foi a primeira a prestar socorro: “Quando ouvimos os primeiros tiros saímos da sala e nos posicionamos no corredor. Ali era um lugar que considerávamos mais seguro. Mas o tiroteio parou e voltamos para a sala de aula. De repente, ouvimos novos disparos. As crianças começaram a correr para fora, mas uma bala entrou na sala”.

Mariza contou que depois de ser atingido, Wesley ainda correu até o corredor. “Ele caiu no chão do corredor e começou a sangrar. Os coleguinhas gritavam pedindo que não deixasse ele morrer. Tenho 40 anos de magistério, 17 só nesta escola. Mas, depois disso, não sei se conseguirei voltar para a sala de aula”, desabafou.
Diretora da unidade, Rejane Faria passou mal no velório. “Tudo foi embora, todo o nosso trabalho. Me perdoa pai, me perdoa mãe”, lamentou ela no velório, aos prantos. Amanhã, as aulas no Ciep Rubens Gomes estão suspensas. Psicólogos e assistentes sociais da Secretaria Municipal de Educação se reunirão com professores e alunos, que vão vestidos de branco em pedido por paz.

Pai de Wesley, o comerciante Ricardo Freire cobrou a presença de autoridades do estado no último adeus ao filho. “Eles não se preocuparam porque os filhos deles andam de carros blindados e passam longe das áreas de risco”, disparou. O governo estadual arcou com o custo do enterro. “O tudo deles não é nada pra gente”, criticou.

Governador condena ação e pede desculpas à família

O governador Sérgio Cabral criticou a ação policial e pediu desculpas à família de Wesley: “Só se faz uma operação como aquela, com um Ciep funcionando, se for absolutamente impossível evitar. Não era o caso. É preciso pedir desculpas à esta família. Sou pai de cinco filhos e posso imaginar o que essa mãe, esse pai estão sentindo. A melhor maneira de homenagear o Wesley é continuar a luta pela pacificação.

Muito emocionados, os cerca de 20 funcionários do Ciep Rubens Gomes presentes ao enterro deram as mãos e formaram uma roda após o sepultamento para rezar. “Estamos muito tristes, mas temos que ser fortes. Que Deus conforte o coraçãozinho dos pais deles”, pediu uma professora.

“Nós fizemos tudo, tudo que era possível naquela hora”, disse o professor Felipe Ribeiro, que questionou a demora do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) para o socorro.

Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil, o SAMU registrou uma ligação de socorro para Wesley, às 8h59. De acordo com a secretaria, ela cruzou com o carro que levava o menino para o hospital às 9h10, quando então conduziu a vítima até o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes.

Pai impedido de levar corpo para o Recife

Nascido em Olinda (PE), Wesley era filho único de pais separados. “Ele veio de tão longe para virar estatística no Rio”, lamentou o pai, que desejava sepultá-lo em sua cidade natal.

Familiares do menino acusaram funcionários do Instituto Médico-Legal (IML) de não deixarem o corpo permanecer lá enquanto agilizavam a transferência do cadáver para Recife. “Nem no momento de dor somos respeitados.

Cheguei do Recife às 21h de ontem, mas o governo já havia preparado tudo e os responsáveis pelo IML negaram a permanência do corpo sob ameaça de despejo”, revoltou-se Luiz Carlos Freire, 36, tio da vítima.

A Polícia Civil negou que tenha apressado a liberação corpo.

“OU É ASSIM, OU NÃO FAZ”, DEFENDE CORONEL SOBRE OPERAÇÃO POLICIAL EM FAVELAS
Afastado do comando do 9º BPM, o coronel Fernando Príncipe Martins abre fogo contra o comandante-geral da corporação, coronel Mário Sérgio Duarte, em entrevista ao DIA. “Com a minha exoneração, o comandante-geral diz para os outros comandantes que eles devem privilegiar a omissão e a covardia, devem privilegiar o não fazer”. Príncipe diz que não errou e que a perda de vidas inocentes, “eventualmente, vai acontecer”.

OPERAÇÕES EM FAVELAS

"A operação foi necessária. Empresários da Fazenda Botafogo já haviam falado comigo que não aguentavam mais. A ação começou às 8h20, havia 100 homens comandados por um major. Tínhamos como alvos a comunidade de Final Feliz e os morros da Pedreira, Lagartixa e Quitanda. O bandido é inconsequente, faz disparos em qualquer direção. Tivemos que trocar tiros. Não há outro jeito de se fazer operação. Ou é assim ou, então, não faz. A Inteligência diz que o bandido ele está lá dentro (da favela). Temos que ir lá. O que a polícia deve fazer? Não fazer nada é prevaricação. O delegado Alzir (Roberto Alzir Dias Chaves, Superintendente de Planejamento Operacional da Secretaria de Segurança) me ligou e cumprimentou pela operação.Você não tem como alvo o Ciep.
MORTE DE WESLEY

"Eu lamento muito, claro. Mas não fui responsável por ela, meus policiais também não. Com a minha exoneração, o comando mostra que não assume a responsabilidade de seus comandados. Não foi a primeira vez que um estudante foi atingido naquele Ciep e o poder público nunca providenciou a blindagem do prédio. Estive no local, vi o que poderia ser feito. Abomino a morte de inocentes, mas isso, eventualmente, vai acontecer.”

TRABALHO NO 9º BPM

O 9º Batalhão, quando eu o assumi, era inoperante. Um batalhão de guerra não pode ter dois blindados baixados (fora de condições de uso), 40 fuzis inservíveis. Começamos a entrar em território em que a PM não ia. Claro que, nesses locais iríamos encontrar delinquentes bem armados. Mas era preciso fazer. Na semana passada, delinquentes da região atacaram uma cabine da PM e mataram um taxista."

EXONERAÇÃO

"Lamento que o comandante-geral tenha me exonerado antes de me ouvir. Ele tem a função de apoiar seus comandados e de ser justo. Foi como se ele dissesse que não importa se houve erro ou acerto, não importa quem tem razão, o que não pode é colocar em risco sua função. Depois da minha exoneração, como oficiais e praças vão agir? Terão segurança para pegar suas asmas sabendo que poderão ser exonerados? Pior é a desmoralização de um servidor público. Há 2 meses, ele (o comandante-geral) me apresentou um quadro crítico no 9º BPM; agora, ao me exonerar, ele diz para a sociedade que o oficial não é competente.

INDUZIDO AO ERRO

"Nunca houve orientação do comandante-geral para que eu não fizesse este tipo de operação. Ao me exonerar, me disse que sua política privilegiava as UPPs. Eu então afirmei que ele havia me induzido ao erro, não havia sido firme em sua orientação. Ao contrário: ao me empossar no 9º BPM, ele fez um discurso na linha do combate. Afinal, trata-se de uma área onde há 100 favelas. O comandante-geral não foi injusto comigo pessoa física, foi com os comandantes de batalhão.”

FUTURO NA PM

“Sob este comando, meu futuro na PM não deverá existir. Fui desmoralizado por um erro que não houve. Não acho que tenha condições de assumir novas funções”.
Por Diego Barreto, Fernando Molica e Thiago Feres
(Fonte: Jornal O DIA)

domingo, 18 de julho de 2010

Sobre o "erro" da PM e a morte do menino Wesley



O governante pediu desculpas aos pais do menino Wesley, resumindo sua conclusão com autoridade inquestionável: “A PM errou!” Questionou o horário da operação e o fato de as crianças estarem em aula, segundo ele “momento” impróprio para a ação policial, que se deu “à luz do dia”. Bem, então a PM não mais poderá agir “à luz do dia”. De agora em diante as ações operacionais devem considerar a oportunidade de agir olhando para a lua e jamais para o sol. Mas, se não agir ante o crime visível ou não cumprir disque-denúncia, prevarica...
Também a PM não deve agir quando crianças faveladas estão em trânsito para a escola, risco certa vez posto na mesa por um deputado estadual, e por isso tachado de “conivente com o tráfico”, embora a ponderação dele se baseasse numa lógica irrepreensível e oficialmente admitida pelo alto escalão da PM.
Ora bem, quando as crianças não estão em trânsito para a escola, ou se trancam em seus barracos e casarios incapazes de escorar bala de fuzil ou vão brincar nos apertados espaços disponíveis nas favelas. Se for morro, nem pensar em futebol. Portanto, as crianças faveladas, em trânsito para as escolas, brincando nas ruas, dentro de salas de aula ou trancafiadas em suas moradias, à luz do dia ou à sombra da noite, não estão livres de balas perdidas: as paredes toscas das moradias podem ser rompidas pelas balas assassinas e sem endereço certo. Daí se indaga: que “outro momento” seria propício à ação policial contra os traficantes armados de fuzil que infestam as favelas do Rio?
Se estivéssemos nos tempos medievos, seria possível “marcar hora” para começar a batalha. Mas, em se tratando de bandidos, não há como a polícia combinar antes o “outro momento” para o confronto, e muito menos um lugar mais seguro, de sorte que tiroteios não atinjam inocentes, mormente crianças. Impossível!...
O certo, então, seria não agir, mas isto é crime. Demais disso, há as cobranças de apreensões de armas e drogas como paradigmas de bons ou maus comandos. Se armas e drogas não são apreendidas em favelas, o comandante do batalhão e sua tropa são tornados suspeitos de arreglo (“ajuste, combinação, acordo” com o tráfico) ou arrego (“rendição, submissão, desistência, reconhecimento de derrota” ante o tráfico). Por conseguinte, nem pensar em recuo no combate ao narcotráfico... O jeito único, sem embargo, é correr o risco de combater, e os melhores “momentos” e locais ficam por conta da livre movimentação dos bandidos. Complicado, não?...
Ora bem, se a PM decide não enfrentar os bandidos onde eles se homiziam e de lá raramente saem (a droga e os viciados circulam nas favelas em variados “momentos”), em vista da impunidade a tendência é a da prosperidade do crime. Isto significa mais viciados, drogas, dinheiro, armas e bandidos a garantirem o maravilhoso negócio capitalista da procura infinitamente superior à oferta.
Acresce ainda a mão de obra flutuante nos “paióis de endolação” montados para atender à demanda crescente do tráfico, espaços e “momentos” ocupados exatamente por crianças sem escola de tempo integral e por adultos sem nada pra fazer e se entendem “trabalhando”. Afinal, se não podem evitar a baderna de cheiradores cambaleando pela favela como “respeitáveis clientes”, se não podem evitar que esses viciados molestem suas esposas, mães, irmãs e filhas, pelo menos se acham no direito de ajudar a matá-los embalando o veneno com gosto de vingança; e ainda recebem salário do traficante, outra forma de “vingança” contra o desemprego e a fome: eis o crime com gosto de “trabalho”.
Ora, ora, se a PM não for à favela conter o ímpeto do crime organizado do tráfico, que já se tornou “narcoguerrilha urbana”, a sociedade do asfalto e sua mídia controladora do político começam a derrubar comandos gerais, intermediários e operacionais. Se a PM recua, o tráfico cresce e se torna alvo da ambição de outros narcoguerrilheiros e a escaramuça entre eles produz o mesmo efeito: morte de inocentes. Neste caso, porém, os atingidos sepultam seus mortos no silêncio da ausência midiática e o episódio desastroso nem parece ter existido no mundo.
Ah, a polícia não pode falhar em nenhuma ação, isto é privilégio somente de bandidos... Ou melhor, a PM só pode falhar se o prejuízo lhe pertencer: o ferimento ou a morte de alguns dentre os seus incompreendidos integrantes. Eis, portanto, e em resumo, as circunstâncias em que a PM deve decidir (subjetivamente) o que fazer e em que “outro momento” (subjetivo) fazer, posto não lhe ser dado (objetivamente) o direito de não fazer.
Portanto, diante do ambíguo “outro momento” sugerido pelo governante na sua desculpa esfarrapada aos pais de Wesley, cabe somente lembrar o atualíssimo aforismo de Trasímaco: ”A justiça é o interesse do mais forte, ou seja, do governante.”

Sem mais, que se cumpra!

sábado, 17 de julho de 2010

Sobre a tragédia de Costa Barros





“Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!” (William Blake)


O título de O Globo de hoje não deveria ser “O pesadelo virou realidade”, mas “A realidade virou pesadelo”, ou seja, o inverso, porque é geralmente da realidade que nasce a ficção, no caso o “pesadelo”. O título é praticamente um aforismo, como poderia ser outro: “Se correr o bicho pega, se parar o bicho come”; ou poderia ser dito como “desfecho de uma tragédia anunciada”; ou ainda outro: ”Para os que creem uma explicação basta; para os que não creem, nenhuma explicação é possível”. Ou, ainda, rememorando o Marquês de Maricá: “A ordem pública periga onde não se castiga”. E mais tantas outras vertentes para explicar, ou justificar, ou bombardear a “tragédia anunciada” da morte de mais uma criança durante confrontos entre policiais e bandidos homiziados como “príncipes de cidadelas” nas favelas do RJ.
Aproveitando o mote literário do título global, poderíamos ilustrar com outro bastante sugestivo: “Em confronto entre cidadelas de ‘príncipes’ ungidos pelo Poder Público (9º BPM) e pelo Poder Paralelo (Complexo favelado de Costa Barros), morre o primeiro ‘príncipe’ vitimado pela política”.
Sobre a “tragédia anunciada”, há causas geradoras em ambos os lados. Sobre a morte do menino Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade (cena desgraçadamente corriqueira), vou acrescentar uma crônica por mim editada em livro (Bairro de Lata) no ano de 2001 (vide em www.emirlarangeira.com.br); nele, como abertura dos contos, eu invento a história trágica do menino Honório (o Wesley da ficção):






Sobre a morte profissional do Cel Príncipe (que compareceu ao jantar aniversário de Anthony Garotinho oferecido por seus amigos, e eu também, e orgulhosamente, lá estava), sem qualquer conotação “pessoal” (não sou amigo dele, sou apenas admirador do seu estilo guerreiro), prefiro substituir parte das minhas palavras pelo poema do mestre Salgado Maranhão, poeta brasileiro de renome internacional. O poema (sic) foi a mim dedicado por eu ser PM, o que me autoriza o seu uso:


FARDA
p/ Emir Larangeira


Melhor se se chamasse fardo,
em vez de farda, – esse travel
cheque para o sacrifício –
a defender o indefensável.


Melhor se se chamasse alvo:
mural da ira acusadora
contra os próprios personagens
que lhe julgam protetora.

São, normalmente, pretos, pardos,
Pobres, sobras de etnias:
gente fabricada em série,
que ao perder, tira se outra via.

E prossegue o ritual
desse espetáculo de horrores,
de Caim matando Abel
numa guerra sem vencedores.

E prossegue essa torrente
do sangue que não socorre,
o drama de ser ver morrer,
do lado de onde sempre morre.


SALGADO MARANHÃO



Mas... Curioso... Fosse o Cel Príncipe amigo do atual governante, é bem possível que o Dr. Beltrame novamente viesse a público com a máxima stalinista (sic): “Não se pode fazer um omelete sem quebrar ovos.” Assim defenderia o seu pupilo, fosse ele ungido pelo atual sistema político. Para quem não lembra, no episódio da Tijuca (morte do assaltante por atirador de elite do 6º BPM, comandado pelo Cel Príncipe, que se arriscava a negociar uma rendição impossível ante uma granada apta a matá-lo, bastando ao bandido largá-la ao chão quando retirava o pino, o que o fez por mais de uma vez, recolocando-o no lugar, hora do tiro preciso, necessário e fatal ao bandido), não houve um elogio sequer do governante à espetacular ação da PM. Não houve nenhum regozijo governamental em favor do Cel Príncipe. Tivesse ele morrido ali, seria, aí sim, sepultado com honras de Chefe de Estado. Ora!...
Mas bastou ser maldosamente anunciada a presença dele num jantar de natureza “pessoal” para ele se ver agrilhoado à retaliação por seu menor azar (ter comparecido ao jantar), tudo em função do seu maior azar (ser amigo de Anthony Garotinho). Gozado, eu também me considero amigo e liderado de Anthony Garotinho e me orgulho disso. Mas nem por isso sou contrário aos dirigentes da PMERJ nem costumo criticar o Dr. Beltrame; geralmente me reporto ao que ele diz... Quando muito, questiono sistemas operacionais construtivamente, torcendo para que deem certo.
Aliás, bom momento para comparar a morte do menor em Costa Barros com o ferimento de outro “inocente” por “bala perdida” numa UPP, com diversos PMs (da “elite” formada pelos “300 de Beltrame” – vide a Revista Veja Rio, de 25 de novembro de 2009*) afastados para apuração de autoria e culpa pelos disparos (segundo os PMs acusados, eles teriam reagido a uma injusta agressão a tiros promovida por traficantes ainda instalados na comunidade “protegida”).


“CASO DE POLÍCIA - EXTRA

Enviado por Guilherme Amado -
15.07.2010
11h51m

INVESTIGAÇÃO

PMs suspeitos de disparo em UPP do Cantagalo são afastados

Os quatro policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho acusados por um morador de tê-lo baleado, durante um incidente no último dia 4 de julho, foram afastados da unidade. Eles estão respondendo a um procedimento interno da Corregedoria da Polícia Militar, que, em última instância, poderá levá-los à expulsão da corporação.

— Os policiais foram retirados da UPP para que haja um procedimento apuratório interno. Se entendermos que o aspecto criminal prevalece, aí será instaurado um Inquérito Policial Militar e, ao final de todo esse processo, caso seja comprovado suas responsabilidades, eles poderão ser expulsos — explicou o coronel Robson Rodrigues da Silva, responsável pelo Comando de Polícia Pacificadora.

Na versão do morador atingido, André Luiz Gonçalves de Araújo, de 34 anos, não houve tiroteio na comunidade. Embora não tenha visto o autor do disparo que o feriu, ele acredita que tenha partido de um dos quatro policiais. Já os PMs afirmam que houve troca de tiros, quando foram checar uma denúncia de que traficantes agiam na favela.”


Desta vez, como se pode depreender do noticiado, a corda estourou apenas "do lado de onde sempre morre”, ficando o Cel comandante das UPPs blindado e dono do discurso oficial. Mas, em compensação, não se pode afirmar que instalar UPPs no Complexo de Costa Barros evitaria a morte do menor dentro de sala de aula por bala perdida. Daí, portanto, não haver “nada pessoal” na exoneração do Cel Príncipe. Realmente, como assegurou o comandante-geral em entrevista a O Globo: “A nossa medida não tem caráter pessoal...” É tudo em função de política eleitoral e de ordem superior, claro!
Curioso é que muitas vezes eu vi o atual governante, com a sua (dele) teatral cara de mau, afirmar que a sua (dele) política de segurança pública era a do “enfrentamento, mesmo”. Tal discurso geralmente vinha antes ou depois de ações sangrentas promovidas pelas duas polícias a mando do Secretário de Segurança, este que disparava a sua máxima stalinista como discurso-padrão, o que me obriga a repeti-lo: “Não se pode fazer um omelete sem quebrar ovos.”
Depois vieram as badaladas UPPs, euforia que ainda perdura, ora firme, ora claudicante, porque nem ao Sistema Globo é possível “tapar o sol com a peneira” em vista do cada vez mais elevado número de ocorrências violentas em diversas localidades “pacificadas”. No fim de contas, o “enfrentamento” é inevitável...
É, estamos em ano eleitoral... A luta pelo poder será insana. Que os "300 de Beltrame" não terminem como os 300 de Esparta!... Ah, a eterna luta pelo poder!... Na realidade (ou na ficção, tanto faz, não sabemos se existe alguma realidade no Universo), estaremos a assistir mais uma vez a reedição de cenários shakespearianos (“embora a autoridade seja um urso teimoso, muitas vezes, à vista de ouro, deixa-se conduzir pelo nariz”) que nos remetem à máxima de Cecília Meireles resumida na poesia: “Vede os pequenos tiranos/ que mandam mais do que o Rei/ Onde a fonte de ouro corre/ apodrece a flor da lei!”
E o poder que se disputa é o tão almejado “ouro” das máximas eternizadas pelos dois inegáveis mestres universais da arte literária em todas as suas vertentes.
Pensem, ó companheiros! Pensem, ó leitores e eleitores! Não sejam tolos, ó eleitores! Sejam sábios e vejam a árvore, ó eleitores!... Ó Cecília Meireles, ó William Shakespeare, façam o eleitor acordar a tempo! Porque até 03 de outubro vindouro o que veremos como realidade é a ficção trágica encenada no palco dos horrores do narcotráfico vencedor também de eleições. E se for necessário aos traficantes matar mais crianças para inibir o Poder Público desde muito tempo a eles submetido, eles o farão sem pejo. É, enfim, a ditadura dos bandidos, eis a “árvore” da máxima de William Blake a ser iluminada pela sabedoria popular na hora do voto: “O tolo não vê a árvore que o sábio vê!”





terça-feira, 13 de julho de 2010

Sobre o Dieguitinhozinho...






Os craques brasileiros nesta copa não saíram devendo aos argentinos: não jogaram nada, ambos morreram na praia... Mas a petulância de Dieguito ao informar que não cuidava de perdedores ao ser indagado sobre a derrota brasileira para a Holanda, demais de tentar insistentemente se colocar no patamar de qualidade do PELÉ, não me pode passar despercebida. Agora, coitado, com o feixe de nervos arriado, nada mais conveniente do que lhe sugerir assistir ao documentário da Copa do Mundo de 1958. Talvez ele, por fim, reconheça que não se pode comparar a PELÉ, GÉRSON, DIDI, GARRINCHA, ZICO ou ROMÁRIO, nem a muitos outros craques brasileiros que jogaram mais bola que ele em gerações anteriores e posteriores. Enumerar aqui os atletas brasileiros que o superaram em campo seria tarefa hercúlea.
Por conta de um golaço que fez, tal como os jogadores que sublinhei o fizeram aos montes, a sua fama de craque ultrapassou a realidade de um futebol apenas normal. Sim, Maradona não jogou nada de extraordinário. Extraordinários foram PELÉ e GARRINCHA, e ambos não podem ser comparados entre si, cada qual foi maravilhoso do seu modo ímpar. Se Maradona se colocasse como craque diferenciado, como muitos que jogaram como ele ou mais que ele, vá. Mas querer se igualar a PELÉ é petulância pura.
Excluindo qualquer juízo de valor sobre ambos (Edson e Diego) fora de campo, dentro das quatro linhas PELÉ permanece incomparável e eterno. Também os inimagináveis dribles de GARRINCHA superam facilmente o vôo solo de Maradona (único) numa Copa do Mundo (única). Nem é preciso demonstrar GARRINCHA senão em 1958. Porque, ser colocarmos na balança a Copa do Mundo de 1962, coitadinho do Dieguito, aí é que ele se tornaria um arco sem forças para disparar sequer uma flecha.
Claro que ele, Dieguito, não aprenderá a lição. Não faz parte do caráter dele a humildade. Falta-lhe a noção do limite de seu próprio valor. Cá pra nós, nem o direito de se dirigir a si próprio na terceira pessoa Maradona tem, como o faz legitimamente o cidadão brasileiro Edson Arantes do Nascimento com a sua marca registrada – PELÉ –, maravilha única do futebol mundial, e por isso aclamado como ATLETA DO SÉCULO!
Ah, que pretende Maradona? Ora, nada mais que aparecer como contraponto de quem ele, Dieguito, não pode nem lamber as chuteiras. Na bola, PELÉ é o herói; Maradona não passa dum vilão arqueado até a próxima chance de brilhar se enfiando na luz tremeluzente do ídolo único do futebol mundial: PELÉ. Não fazendo assim, ele se reduz a tão-somente sombra, um símbolo descarado de vaidade. Sim, Maradona não é nada a não ser mau exemplo (PELÉ nunca precisou fazer gol de mão...). Só não entendo por que a mídia brasileira ainda abre tanto espaço para as desajeitadas cabriolas desse superado jogador argentino.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sobre o “recuo” da PMERJ



Às vezes eu me antecipo em críticas que incomodam alguns mentores e gestores de ideias e projetos na segurança pública, não por minha culpa, mas pelo excesso de ufanismo deles (desculpem-me a redundância). Ufanismo é pura emoção, e emoção é um bom sentimento, sem dúvida; o seu excesso, porém, pode até matar. Aliás, os excessos não são razoáveis. Não me parece prudente defender inflexivelmente o que está indo bem ou criticar em desrazão o que vai indo mal. Não cuido de extremos. Creio que o meio-termo é aconselhável neste universo em que vivemos sobressaltados por novidades.
Bem, agora começo a ficar exultante (sem aquele exagero ufânico) com o choque de realidade por que passa a mídia em relação às UPPs. Entendo que a mídia começa a reconhecer seus próprios exageros ao cobrar explicações oficiais sobre as inevitáveis falhas de percurso nos específicos ambientes por ela (mídia) tornados “paraísos” por conta das UPPs. Esta confortável situação elogiosa, claro, foi imediatamente absorvida pelo sistema oficial como “verdade absoluta” (mote de publicidade governamental com direito a placas comemorativas e outras cascatas eleitoreiras), um perigo neste mundo de incertezas, turbulências, assimetrias, desequilíbrios e desordens que nos fogem ao controle.
Vejo hoje o principal entusiasta das UPPs (Jornal O Globo) a emitir uma opinião com roupagem crítica. Sugere ao não menos entusiasmado sistema oficial que deva “IMPEDIR RECUOS”. Ora, não há nenhum “recuo” no trabalho das UPPs; há, sim, a ampliação temerária de um projeto antigo de policiamento ostensivo comunitário que depende de constante correção de rumo e, principalmente, de complementação com investigação criminal para erradicar o máximo que puder o crime nas localidades ocupadas. Não se trata tão-somente de tráfico, mas de todos os fatos contravencionais e criminosos visíveis (típicos de reação imediata pela PMERJ) e invisíveis (típicos de investigação criminal pela PCERJ).
Como eu já afirmei, a UPP não é “milagre” nem invenção atual. É apenas adaptação de táticas exigidas por uma estratégia que, nos moldes atuais, corresponde a caminhar no arame circence em dia de ventania. Afinal, é inegável a desarmonia na convivência coletiva em localidades caracterizadas pela desordem social, fator sociopolítico por si só gerador de desordens públicas (favelas são resultantes da desordem social brasileira). Ora, num Estado Democrático de Direito a Ordem Pública decorre da Ordem Jurídica, esta que, por sua vez, decorre da Ordem Social. Se há alguma desordem social, há de haver de algum modo a desordem jurídica; e se há a desordem jurídica, há de haver a desordem pública.
O papel da PMERJ é buscar o equilíbrio restrito ao que lhe compete (polícia ostensiva de preservação ou restauração da ordem pública), e o faz através das festejadas UPPs e também por meio de outras ações operacionais arriscadas que executa em favelas sem UPPs, como nos informam diariamente os jornais. Muitas dessas operações repressivas são bem-sucedidas, mas outras culminam malsucedidas, como a ação dos policiais da UPP no Morro do Cantagalo, em Ipanema. Aliás, a alternância entre equilíbrios e desequilíbrios é como na luta universal entre a matéria e a antimatéria, com ínfima vantagem para a primeira. Não houvesse a imprecisão cósmica mínima, nem nós existiríamos. Cá pra nós, não por acaso o morador do Morro do Cantagalo baleado possui três passagens pela polícia, ou seja, não é nenhum “santo”...


O projeto das UPPs é ótimo como ideia e ação, reitero enfaticamente; porém, é complicado ou impraticável como possibilidade de expansão para todo o RJ e seus ambientes favelados nos quais impera a desordem pública como autêntica calamidade social. E onde se implanta um privilégio inacessível a outros cidadãos que têm o mesmo direito a ele, há a discriminação (condenada pela Carta Magna). Onde há UPP (o privilégio), por enquanto a ordem está aparentemente vencendo a desordem, sim, mas num processo dinâmico e variável em que, em alguns momentos e situações, a desordem se imporá à ordem, até que a intervenção estatal novamente a restaure e preserve até a próxima desordem. É um sistema de pesos e contrapesos numa balança social ora equilibrada no fiel, ora desequilibrada no excesso ou no vazio de um dos pratos.
Em vista de tanta complexidade, é impossível “impedir recuos”, como sugere o Jornal O Globo. Melhor é admitir o crime como fator constante, pondo a inteligência policial a agir no sentido de detectar os sintomas da desordem para atalhá-la. Nem sempre, todavia, isto será possível na realidade da convivência social. Portanto, não houve “recuo”. Pelo contrário, houve ação e sempre haverá em tudo que é recanto do RJ infestado de bandidos, inclusive os policiados por UPPs. É a missão da PMERJ e a corporação não recua a não ser como tática de combate para sagrar-se vitoriosa ao fim e ao cabo...

domingo, 4 de julho de 2010

Sobre as UPPs: “Uma no cravo, outra na ferradura”... (*)

Em destaque: “Cel Mário Sérgio, Cmt Geral da PM do RJ, sobre o aumento exclusivo dos delegados: ‘Temos círculos hierárquicos, mas aqui na Polícia Militar o coronel e o soldado têm a mesma importância.’" (Extra on line, 28/06/2010). Fonte: www.wanderbymedeiros.blogspot.com




Abro o Jornal O Globo de hoje, domingo, dia 04 de julho, e deparo com meia página tecendo elogios às UPPs, ou melhor, forçando uma barra danada para fazê-lo, em especial porque as matérias foram grafadas por Vera Araújo, renomada jornalista, mas nem por isso livre das “pressões globais” em favor do projeto de UPPs, pelo menos até 2014... Ocorre que a aberrante venda de drogas na Cidade de Deus poderia ser “furo” de algum concorrente, o que nenhum jornalista aceita: é a pior coisa que pode acontecer na competição entre profissionais de imprensa aqui e mundo afora.
Justiça, porém, seja feita: o “sapo” não foi facilmente “engolido” pelas jornalistas Érika dos Anjos e Vera Araújo. Pois, ao mesmo tempo em que editam a afirmação do ilustre, digno e incansável Coronel PM Robson Rodrigues da Silva, designado na nota como “coordenador das UPPs”, garantindo ele que a “comunidade está segura”, referindo-se à Cidade de Deus, elas afirmam, em contraposição, que “uma equipe do Globo” fora “desaconselhada” pelos PMs a ingressar na comunidade. Saia justa no coronel, que se obrigou a contestar os PMs (não identificados) garantindo que “os policiais deram uma informação equivocada e a comunidade está segura”.
Claro que o ilustre colega sabe que não existe no mundo nenhuma segurança absoluta, e a afirmação dele não deve ser elevada à máxima literalidade. Abrindo o raciocínio dele para o ambiente geral, a polícia (seja militar ou civil) sempre dirá que “a comunidade está segura”, deste modo afastando uma desnecessária síndrome de insegurança produzida por quem tem a obrigação de prestar segurança. Sim, seria total estupidez um dirigente policial afirmar que seu trabalho não gera segurança e, sim, insegurança, embora seja a segunda que ele administra, por ser impossível evitar a desordem pública de modo absoluto. Na verdade, a segurança é tão relativa quanto a insegurança, e a população deve ser influenciada, sempre, no sentido de que a segurança é maior que a insegurança.
Neste aspecto, louve-se a matéria das jornalistas Laura Antunes e Vera Araújo, na mesma página, pois não há nada pior para a polícia do que ver seu esforço hercúleo e seu risco de morte no exercício da profissão tornado inútil pela mídia, e, por via de consequência, pela sociedade leitora de jornais e também influenciadora de outras pessoas por deduções do que lê.
Outro ponto a merecer reflexão é a referência ao Programa Educacional de Resistência às Drogas – Proerd), com o qual inteiramente concordo, assim como acho que a descriminalização do uso de drogas deva ser corajosamente discutido pela sociedade.
Aproveito para reiterar que não sou contrário às UPPs nem aos programas sociais que deveriam emergir imediatamente à ocupação pela PMERJ dos territórios antes dominados por traficantes em terror de armas e falso assistencialismo. Mas também não nos devemos iludir com tudo isso, como se estivéssemos “descobrindo a pólvora”. Desde os meus velhos tempos de PM com a cabeça doutrinada para conquistar territórios e garantir o apoio da população contra guerrilheiros urbanos e/ou rurais, sempre se praticou a “Operação ACISO” (Ação Cívico-Social). Ela consistia exatamente na prestação de serviços públicos não militares efetuada pelos próprios militares (especialistas), para reforçar o prestígio da tropa de ocupação e aumentar a oferta de informações contra o “inimigo interno” (entenda-se hoje o narcoguerrilheiro urbano).
A tática de garantia do apoio da população em território ocupado militarmente é mais antiga que o bíblico homem da terra de Uz chamado Jó... Ou seja, nada além do velho pano remendado com retalho novo, daí ser natural haver contradições, talvez impertinentes, porém interessantes à dialética. Do mesmo modo, ouso afirmar que os oficiais da PMERJ sabem tudo da estratégia de “choque e intimidação”, restrita à ideia de desarmar o inimigo antes da batalha (demonstração prévia de força superior ao oponente, para desestabilizá-lo e induzi-lo à fuga ou à rendição). Esse conhecimento vem desde Sun Tzu, passando por Karl Von Clausewitz (“névoa, fricção e força”) convencendo o inimigo a não resistir. O anúncio prévio da ocupação, sempre com uma pitada de dúvida quanto aos detalhes, não objetiva outra coisa senão evitar mortes desnecessárias. A questão crucial, no entanto, e insisto neste ponto, é saber por informações oficiais que a meta das UPPs é de atender a apenas 165 favelas até 2014, num universo de mais de mil comunidades carentes dominadas pelo tráfico ou por milícias em todo o RJ. Acrescem ao problema as ações do tráfico e das milícias também no asfalto, realidade que não mais se pode ignorar.
Bem, aqui encerro a reflexão prestando, também, minha respeitosa continência ao ilustre, competente e digno comandante-geral da PMERJ, com a mesma motivação alinhavada pelo TCel de Polícia Militar Wanderby B. de Medeiros em seu blog www.wanderbymedeiros.blogspot.com (Gol de Placa). Não deixem de ler o excelente artigo...

(*) “Fixa-se a ferradura no casco com cravos enterrados a marteladas. A expressão traz a palavra pancada oculta pela figura de linguagem chamada elipse: uma (pancada) no cravo, outra na ferradura. Ou seja, para não assustar o animal, jamais bater só no cravo. Aplicamos a expressão a quem ora se diz favorável a uma facção, ora a outra. Em A Guerra dos Mascates (1873), José de Alencar (1829-1877) definiu assim a política de Pedro II." (Fonte: BRASIL: Almanaque de Cultura Popular)