segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sobre as 40 UPPs do Dr. Beltrame

Fonte: O Globo, de 31/05/2010

Com todo respeito, é pungente o otimismo do secretário Beltrame. Lembra-me Cândido, personagem de Voltaire. Talvez o revertério colombiano (as pesquisas indicavam o contrário do que houve nas urnas) sirva para alertá-lo de que o atual governo se encerra no fim deste ano. Mesmo, porém, que o atual governante vença as eleições de outubro, e ele permaneça no cargo, duas restrições nem tão simples assim, há a realidade a ferir a ilusão dele. Ele promete criar 40 UPPs até 2014. O Jornal O Globo publica a fala dele dando-a como favas contadas. Não questiona minimamente o fato de que a turbulência ambiental neste mundo quântico não garante o sucesso eterno das 40 UPPs projetadas e fracassa desde logo na globalidade ante a inegável realidade de que existem somente na Capital mais de 600 favelas dominadas por tráfico ou milícias. Se somarmos as favelas situadas nos demais Municípios, os números sugerem que estamos vendo unicamente o sol e ignorando os “quintilhões” de galáxias e estrelas existentes no cosmo. Na verdade, e ignorando a infinitude do cosmo, eis um “chute de Copa do Mundo” que dou à vontade, porque nem os mais renomados cientistas sabem quantas galáxias e estrelas existem no Universo de Deus e jamais saberão.
Ora, tratamos de futuro incerto, e a boa estratégia neste campo de incertezas sugere no mínimo cautela. Não discuto a validade das UPPs, nome que poderia ser outro (e já foi outro) para essa operação policial (ou de combate a guerrilha) muitíssimo manjado por militares (conquista e ocupação do terreno, podendo até incluir administração do território ocupado, como acontece na informalidade do tráfico e das milícias, onde traficantes e milicianos são os “administradores”). Ficamos nós, entretanto, com a conquista e a ocupação policial (sem ocupação social), resumindo ambas ao sumiço das armas e ao tráfico praticado nos escaninhos favelados pelos mesmos traficantes agora seguros de que não receberão ataques de bandos rivais. Portanto, – e como o tráfico não foi nem será erradicado aqui ou no mundo, e ainda há as milícias, e apesar desses incômodos, – as UPPs tendem ao sucesso momentâneo e espero sinceramente que definitivo. Porque não é a qualidade operacional da PMERJ que questiono. A tropa é ótima, valente e prova isso morrendo diariamente, o que lhe dá também o direito à defesa prendendo, ferindo e às vezes, sem alternativa, matando bandidos sanguinários. Até este ponto, e tão otimista como o Cândido e o Beltrame, creio piamente que tudo vai bem. No fim de contas, o problema não são as 40 UPPs, mas as mais de mil favelas com igual direito a Unidades de Polícia Pacificadora. Significa dizer que precisaríamos quase que de todo o efetivo da PMERJ e mais o da Força Nacional de Segurança e ainda será pouco...
A questão que me ocupa a mente em ansiedade incômoda é a sua solução global, ou seja, saber qual seria a fórmula mágica a garantir indefinidamente no tempo a conquista e a ocupação de todas as favelas dominadas por tráfico e milícias: a UPP globalizada e eterna... Como materializar tal ilusão?... Ora bem, esgotado o otimismo (meu), antevejo-a com a mesma impressão de que um dia, – se antes o planeta Terra não sucumbir, – os terráqueos conhecerão algum “ET”, ou indo até eles vencendo a velocidade da luz e se enfiando em algum "buraco de minhoca", ou eles vindo até nós por meio de leis físicas por nós desconhecidas. Fiquemos, pois, enquanto a vida segue em indiferença, com o “espaço absoluto” de Isaac Newton, abominando a “relatividade” de Albert Einstein e o “princípio da incerteza” de Werner Karl Heisenberg, ou seja, com o ambiente natural e social em inércia até 2014...

Sobre a perseguição a Garotinho

Mensagem de Garotinho (sic)



"Mais uma covardia contra mim



É no mínimo incompreensível a decisão tomada pelo TRE, de cassar a prefeita Rosinha Garotinho e tornar inelegíveis, por abuso dos meios de comunicação, alguns radialistas que nunca tiveram militância política, e entre eles, o alvo: eu.

Algumas explicações precisam ser dadas para tranquilizar a população e restabelecer a verdade dos fatos. A decisão do TRE do Rio modifica a decisão do juiz de Primeira Instância, em Campos, que nem aceitou analisar o mérito desta ação, porque segundo a Lei, só podem propor ações dessa natureza, o Ministério Público Eleitoral, coligações partidárias ou candidato que se sentir prejudicado.

Arnaldo Vianna, o autor da ação nunca foi candidato de fato, o seu registro de candidatura foi negado em Campos, confirmada a negativa pelo TRE, pelo TSE e até mesmo pelo Supremo Tribunal Federal. Ou seja: a decisão do TRE de hoje, é nula e iremos ingressar junto ao Tribunal Superior Eleitoral para anular esse julgamento.

É bom deixar claro, que a decisão não tem aplicação imediata, ou seja: somente após analisado e julgado o mérito pelo TSE, é que a prefeita teria que deixar o cargo. O mesmo caso se aplica mim. Interessante notar alguns aspectos da sessão.

1º Ela vai, em frontal desacordo com os últimos julgados no TSE sobre a matéria que diz para “auferir influência da mídia numa eleição é preciso prova contundente”, o que não existe no processo.

2º O placar apertado, 4 a 3 contraria uma regra do Direito: Na dúvida pró réu. O presidente só dá o voto de minerva em casos raríssimos no tribunal.

3º A sessão foi antecipada. As únicas pessoas que podiam saber disso seriam os advogados das partes interessadas, mas quem estava sentado na primeira fila, assistindo e vibrando com o julgamento era Eduardo Damian, chefe de gabinete do secretário de Governo de Cabral, e também advogado do PMDB do Rio.

O julgamento de hoje, é mais um capítulo da longa história de perseguições que venho sofrendo ao longo da minha vida política. Nos últimos dias Sérgio Cabral recebeu pesquisa apontando que a diferença, entre eu e ele havia sido reduzida para 9 pontos percentuais. Mais do que isso, vem fazendo tudo para eu não ser candidato.

Vamos anular esse julgamento que não foi jurídico, e sim político. Cabral não quer que eu diga na campanha o que ele vem tentando esconder da opinião pública gastando 495 milhões em propaganda.

Nossos advogados irão tomar todas as providências legais e nós as providências políticas para que Cabral não realize o seu grande sonho, que é ganhar a eleição sem ter adversários. Fica cada dia mais evidente um grande cerco contra a minha candidatura envolvendo, setores da mídia, do Ministério Público, da Justiça, de partidos políticos que foram comprados, para impedir a qualquer custo que o meu nome seja apresentado e julgado pela população nas urnas.

Assim como nos acusaram outras vezes e depois tudo ficou provado que era mentira, desta vez não será diferente. È uma luta desigual, de Davi contra Golias, mas o Bem sempre vence o Mal."




Atenção: Reenvie para seus amigos, a verdade tem que aparecer.



Dep. Geraldo Pudim - Coordenador Geral
Adroaldo Peixoto Garani - Secretário Geral




domingo, 30 de maio de 2010

Sobre a retórica jornalística das UPPs

É impressionante a submissão de parte da grande mídia do RJ ao poder econômico estatal. É tanto descaramento que até me enoja comentá-lo. Porém, não o posso deixar de fazer como “cidadão-PM” ou como “PM-cidadão”, tanto faz, porque o nojo é o mesmo que sinto por essa subserviência remunerada. Reflitam, caros leitores: num dia em que O Globo estampa em manchete de primeira página a notícia do julgamento do casal Garotinho, com a nítida intenção de desmoralizá-lo em benefício do concorrente que governa (ou desgoverna) o Rio de Janeiro (ele não diz que governa o “Estado” do Rio de Janeiro), emerge das entranhas fedegosas da Comunicação Social estatal uma publicidade de página inteira exaltando as UPPs. E, se não bastasse o caradurismo dos mentores da tramóia jornalística, novamente ressurge a UPP como “fator de desenvolvimento”: os imóveis em favelas com UPPs “quintuplicaram de valor”, conforme noticiaram. Claro que houve uma pitada de “isenção” para justificar a matéria dominical, segmento aparentemente gratuito da propaganda oficial anterior. No conjunto, não seria demais afirmar que os articulistas são hábeis na arte dos oximoros, são exímios construtores de paradoxismos ou de mentiras sinceras... Ora, esse pessoal finge que não sabe como estão mal instalados os PMs nos precários alojamentos das UPPs. Isto não lhes interessa, o importante é sublinhar o “belo” em meio ao terrível que jamais será denunciado por quem poderá receber no quengo a borduna do bugre regulamentar, solução rápida e eficiente para todos os problemas internos da briosa...
Sou assinante do Jornal O Globo porque, em meio a tanta subserviência, salvam-se alguns jornalistas independentes e outros tantos escritores que compensam o meu gasto. Mas, quanto às notícias, eu gostava mais do antigo estilo crítico e independente do jornal, embora ele jamais tenha deixado de ser “sistema”. Que saudade da boa imprensa! Que saudade do JB dos velhos tempos! Viva a Tribuna da Imprensa!... Porque não importa que a notícia seja cruel e até inverídica, desde que por culpa de má apuração ou de engodo saído do boquirroto estatal. Mas a notícia inverídica, escrita de propósito para enganar, é a verdadeira depravação do jornalismo, que deixa de ser jornalismo-verdade para ser jornalismo-mentira. Será que o povo é bobo?... Ou serei eu o asno da história? Ou estou louco e a ver fantasmas?... Bem, seja como for, o sucesso das UPPs pertence às autoridades de fora e de cima; quanto ao fracasso, se houver, que se prepare a PMERJ para bancar o prejuízo, porque este não será partilhado por ninguém do governo ou da mídia...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sobre "Os supostos" de Zuenir Ventura


Tenho como leitura obrigatória os textos de Zuenir Ventura. Li suas obras “Cidade Partida” e sobre um dos sete pecados capitais (ele romanceou magistralmente sobre a inveja): obras-primas. A cada reflexão que ele faz, sobrelevam o tirocínio do gênio e o cidadão comprometido com a verdade antes de emergir o jornalista. Ou o contrário, tanto faz, importa a mensagem crítica que se contém em suas poucas linhas jornalísticas, porém com a densidade de um compêndio. A de hoje, que ele intitulou “Os supostos”, desde muito precisava brotar da pena de alguém com a legitimidade dele, incontestável em todos os sentidos. Realmente, para a cautelosa mídia todos são “supostos criminosos”, por mais bárbaros e comprovados tenham sido seus crimes. Talvez os processos de danos morais tenham produzido esta cultura do viés informativo ao qual se acrescentaria o verbo sempre no futuro do pretérito: “fulano teria cometido o crime”, “beltrano teria roubado o carro”, “sicrano teria envenenado a mulher”...
Porém, quando se trata de denúncia promovida pelo Ministério Público, com base nos indícios de algum Inquérito Policial deflagrado pela PCERJ, ou de algum IPM instaurado pela PMERJ, os promotores e procuradores de justiça não fazem suposições. Em contrário, acolhem os indícios e afirmam categoricamente que alguém é criminoso, mesmo não o sendo. E, ao final do processo, “lamentam” não terem provado aquilo que tenebrosamente afirmaram contra alguém, e dificilmente concluem que o acusado fora por eles levado à condição de erradamente réu, eis que erradamente denunciado como concretamente criminoso. Nada de vieses... Nesses casos, o pretérito é perfeito...
Nesta confusão de tempos verbais quem sofre é a vítima. A uma porque um inocente responde pelo crime que não cometeu, tornando-se a segunda vítima, agora do sistema; a duas porque o verdadeiro criminoso desde muito bateu pernas para longe ou permaneceu na obscuridade de uma investigação falha e de uma denúncia errada. Mas aí a culpa é do Estado, entidade impune que assume os riscos dos seus burocratas. Fosse este país lugar sério, a falsa opinião tornando réu um inocente deveria pôr na cadeia os seus autores. Mas não tratamos de país sério, falamos de um Brasil das “cidades partidas” em casa-grande e senzala, país ainda dos “senhores de engenho” e dos “escravos”, entre aspas porque, neste andar dos carros de boi, todos são apenas “supostos”, que eu cá não sou bobo...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Fui agraciado com a Medalha Joaquim Lavoura























A maior honraria do Município de São Gonçalo



No torvelinho dos meus anos idos e vividos, fui muitas vezes homenageado e outras tantas, escarnecido por uma imprensa divorciada da verdade. Tudo bem, sei que a natureza humana tende a valorizar bem mais a malícia. O olfato humano está sempre apto a mais se impressionar com o mau-cheiro e captura o perfume apenas efemeramente. O olor das rosas nos chega num átimo e nem tanto tempo permanece em nossas narinas, como sói acontecer com o miasma, este sim, insistente na arte de incomodar. E, infelizmente, a regra societária que se impõe ante a mídia é a malcheirosa, neste país em que jornalista é sinônimo de crítico e não de investigador e divulgador de verdades apuradas. Infelizmente, estou cheio de motivos para assim me manifestar antes de chegar ao cerne do assunto.
Com efeito, não se há de negar que os meios de comunicação estão interessados em noticiar que o cachorro mordeu a perna do transeunte; mas, se for o contrário, haja notícia!... E, na avidez do imediatismo, a mídia substitui a investigação jornalística pelo discurso oficial, afastando de si a responsabilidade pela difusão de inverdades impunes. Assim, ganha tempo e dinheiro e se livra de processos judiciais. Porque é sabido que ao Estado nada ocorre quando ele, por seus órgãos repressores, afronta a dignidade humana com falsas opiniões. Quando muito, em vista de alguma injustiça descarada, sacrifica uma de suas "ovelhas" e salva a "fazenda"... É como a vida segue: submetida à fedentina dos maus-caracteres abafando o perfume das boas ações, eis a superficialidade a nos afundar no lodo, fazendo o Mal triunfar do Bem. Daí, muitas vezes a maldade é apresentada em roupagem de bondade, lógica de quem pode mais desferida contra quem pode menos.
Será que um dia o mundo será mais justo e igualitário? Creio que não. A maldade humana é um sentimento relevante. No mundo prático e materialista, a bondade é a exceção e a maldade, a regra. E, ao fim e ao cabo, tudo se depositará em morte na crosta terrestre, e culminará abaixo dela em camadas superpostas ocultando o passado. A Gravidade garante que nada se solte naturalmente da Terra aos Céus. E aqui, portanto, ficaremos, sendo bons ou ruins, sepultados, gerações após gerações, sempre vivenciando ou pensado vivenciar o Bem na eterna luta contra o Mal. Atônitos, porém, ante a dificuldade de distinguir um do outro, seguimos a lógica do “rebanho” e seus “pastores”, bem mais na condição de “rebanho”... Em arremedo de algum escrito machadiano poderíamos sublinhar a alegoria: “Onde Deus constrói uma Igreja, o diabo levanta uma capela ao lado”... Com portas semelhantes nos impondo uma escolha nem sempre acertada, pois elas, – as portas do Bem e do Mal, – se refletem gêmeas, como se uma projetasse a outra num espelho...
Ao pé da letra, a vida que vivemos é de uma racionalidade cruel. E o que nos alenta é a coragem de nos entregarmos às emoções, embora entre elas estejam embutidas as raivosas e frustrantes. Sim, todas as emoções, boas ou ruins, são inevitáveis em nossa curtíssima existência. Mas, pelo menos, sabemos distinguir dentro de nós a boa emoção... Sabemos?... Malgrado algum erro, – e em otimismo, – digo que a boa emoção funciona como o sal de uma vida eterna da qual somos efêmeros depositários. E assim seguiremos, entre amores e ódios, até que o planeta Terra sucumba depois de cumprida sua finalidade universal desconhecida ou tida como “conhecida” pelas religiões, muitas delas exploradoras da boa-fé humana por conta daquela “capela do diabo”... Seria esta boa-fé nosso instinto ovino?...
Ora bem, entre alegrias e tristezas, ser objeto ou sujeito das primeiras é a melhor emoção. Quanto mais o nosso “ego” é massageado por nós mesmos ou por outrem, mais a vida dentro de nós se renova e purifica. Eis o que devemos garimpar até encontrar: o diamante perdido – a melhor emoção. Busca difícil, mas não impossível, bastando usar nossa mais aprimorada índole: o sentimento. Mas, como usar o sentimento?... Digo que sempre tentando interagir com outros seres humanos igualmente dotados de bons sentimentos, para que os nossos a eles se unam em sinergia e se transformem em realidade física e moral. Afinal, a emoção não é tão virtual assim. É concreta, sentimo-la no coração e até na “dor da alma”, que é a tristeza ou a saudade.
A homenagem de um ser humano a outro é forma de interação sentimental plena, desde que despida de intencionalidade hipócrita. Falo em prol da verdadeira e pura homenagem. Falo da homenagem decorrente do amor fraternal e do reconhecimento. Recebi uma dessas homenagens na sexta-feira próxima passada (21/05/2010), e foi tão vibrante a emoção que permanece em mim uma alegria imensa. Aconteceu em São Gonçalo...
... Minha terra natal!...
... Recebi a Medalha Joaquim Lavoura, eterno e inimitável prefeito gonçalense. Ele fez sua história política calcada numa vida ascética. Marcou-se pelo trabalho árduo e pela honestidade a toda prova. Morreu paupérrimo. Levou do mundo apenas a roupa do corpo e nada deixou de herança além do seu suor em benefício do povo gonçalense. Prova maior do seu grandioso caráter é impossível. A medalha que leva o nome dele é, portanto, a maior honraria pública que se pode receber em São Gonçalo. Fui alvo da homenagem por iniciativa do ilustre e digno vereador Augusto Senna, médico de renome e figura respeitadíssima na cidade. Ele apresentou o projeto de Resolução que recebeu a aprovação da Câmara Municipal.
Sublinho aqui no meu blog esta minha incontida alegria para compartilhá-la com meus amigos leitores, e até com alguns críticos. Pode ser que me vejam com outros olhos, não custa tentar. Também aproveito para dizer que recebi muitas medalhas e diplomas durante o exercício de minha profissão policial-militar, algumas delas por mérito em cursos exaustivos e outras em razão de ação profissional. E todas essas honrarias me serviram de escudo quando os maliciosos me tentaram enfiar porta adentro da “capela do diabo”. Não conseguiram, minha história de vida me garantiu a visão perfeita da outra porta: a da “Igreja de Deus”.
Mesmo que meus detratores tenham menoscabado muitas homenagens recebidas ao longo de minha vida, eu os venci por minhas boas ações. E creio que fui retaliado por despeito de gentes ruins jorradas contra mim da “capela do diabo”; eram muitos, vieram em missão diabólica e perderam para mim porque, aparentemente sozinho, eu estava, na verdade, acompanhado da verdade de minha vida real ao lado do Bem. E protegido por muitos amigos preciosos. Até então, talvez, a balança estivesse em desequilíbrio contra mim. Mas os promotores do desequilíbrio eram gentes sem feitos nem feitios e dobradiços à má política da época. Eu os venci. Eles perderam. E cada homenagem que recebo depois desta batalha desigual é um bálsamo a curar o meu coração gravemente ferido. Sim, esta homenagem mantém em minha boca o sabor do mel. Eis, portanto, o valor sentimental que empresto à Medalha Joaquim Lavoura. Sinto, por receber esta honraria política gonçalense, a máxima alegria de me ver como protagonista do Bem a mais uma vez triunfar do Mal.
Muito obrigado ao Dr. Augusto Senna, ilustre vereador da minha terra natal, e aos demais que com ele concordaram na aprovação desta iniciativa parlamentar!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Para refletir

Texto original: http://www.realtruth.org/articles/100510-005-crime.html

RIO DE JANEIRO: HÁ ESPERANÇA PARA ESTA CIDADE VIOLENTA?

By Scott A. Clark
May 10, 2010

ENQUANTO O SPOTLIGHT INTERNACIONAL BRILHA SOBRE O BRASIL – UMA NAÇÃO QUE EXPERIMENTA UM CRESCIMENTO ECONÔMICO CONSIDERÁVEL – NO RIO DE JANEIRO A VIOLÊNCIA DAS GANGUES AUMENTA, O TRÁFICO DE DROGAS E A EXPANSÃO FAVELAS AMEAÇAM MANCHAR O PROGRESSO DA NAÇÃO.


A segunda maior cidade do Brasil, Rio de Janeiro, vai sediar a próxima Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016, dois dos mais populares acontecimentos do mundo esportivo. Como resultado, a mídia concentrou-se no aumento da pobreza do país e nos índices de criminalidade.
A violência é uma ocorrência diária para os agentes policiais e mais de 11 milhões de habitantes em torno das favelas, áreas mais pobres do Rio, que são invadidas por quadrilhas de traficantes fortemente armados. Mais de 6.000 pessoas são mortas a cada ano, uma taxa comparável a uma zona de guerra.

"A comunidade internacional tem demonstrado sérias preocupações em matéria de segurança no Brasil antes e imediatamente após a sua proposta vencedora para sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2016. Mas o Comitê Olímpico Internacional (COI), continua confiante de que há tempo suficiente para o Brasil a resolver os seus problemas quanto ao crime em massa”, afirmou um artigo publicado pelo Conselho de Assuntos Hemisféricos.


O artigo continua: "Contudo, se o país espera ter sucesso na Copa do Mundo em 2014, o calendário, obviamente, deve ser acelerado."

Armados até os dentes: a busca da polícia militar para os traficantes de drogas na favela da Rocinha no Rio de Janeiro, Brasil (13 de abril de 2004).


Como pano de fundo de cada tiroteio, policiais matando e o tráfico de drogas sendo combatido, fica o maciço do "Cristo Redentor" no pico de uma montanha nos arredores da cidade.
A nação predominantemente católica anseia pela paz para o Rio de Janeiro. Autoridades da cidade anseiam pelo sucesso da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. E muitos cidadãos esperam o cumprimento das palavras de Cristo em João 14:27 : "A paz deixo com você, a minha paz vos dou: não como o mundo dá, dá-me a vós. Não deixe seu coração ser incomodado, nem se atemorize."
Mas o Rio continua a ser vítima da violência. E como a estátua icônica silenciosamente assiste cenas de crime que acontecem todos os dias, parece não haver nenhuma resposta.
Enquanto se aproxima o início destes dois eventos internacionais, a cidade será capaz de trazer ordem às ruas?
Um ponto de vista sobre o problema
21 de agosto de 2009, 0 Conselho de Segurança Marítima dos Estados Unidos da América classificou o nível de ameaça da criminalidade no Rio de Janeiro como "crítica". O conselho adverte que "crimes violentos, como assassinato, estupro, rapto, seqüestro, assalto à mão armada e roubo são uma parte normal da vida cotidiana" na cidade.
17 de Outubro de 2009-14 pessoas morrem, oito ficam feridas em guerras de gangues rivais. Incursões armadas movem-se em território não dominados por gangues. Três policiais morrem.
27 de fevereiro de 2010 - jovens fortemente armados param o tráfego em um cruzamento do Rio de Janeiro. E outras gangues apareceram em motocicletas, também armadas. Adolescentes fumam crack à vista de todos. Esta é a realidade em um do Norte Rio de Janeiro, de muitas esquinas, uma das quais é chamada de "Esquina do Medo" (The Times).
Estes exemplos de atividades criminosas pintam o retrato de uma cidade inundada pela violência. No entanto, muitos brasileiros estão otimistas de que o Rio possa alcançar uma solução pacífica, o futuro pós-olímpico.
"Nós dissemos ao Comitê Olímpico Internacional não é fácil e eles sabem disso", disse o governador do Rio, Sergio Cabral. "Nós não queremos apenas estar preparados para dias especiais, para que possamos colocar 40 mil policiais nas ruas, eu disse a eles que queremos chegar a 2016 e ter uma solução pacífica para o Rio de Janeiro, antes, durante e depois dos Jogos" ( Time).
A Abordagem da Cidade
A estratégia atual da polícia local é de invadir as favelas mais notoriamente controladas pelas gangues antes da Copa de 2014. Ao contrário do passado, quando a polícia invadia, se infiltrava e se retirava como em batalhas urbanas, a nova abordagem é estabelecer uma presença visual contínua em 40 das favelas.
A Rocinha é uma das maiores e mais problemáticas favelas do Rio, que os peritos criminais dizem " uma grande e sangrenta batalha poderia definir os esforços da cidade para pressionar as gangues que têm assolado a cidade por três décadas" (The New York Times).
Esta nova campanha é uma expansão da polícia o "programa de pacificação", que começou no final de 2008. O programa sofreu alguns contratempos e os policiais se sentem constrangidos por alguns confrontos particularmente violentos.
Pouco depois de o Rio ganhar a candidatura olímpica, os membros de uma quadrilha derrubaram um helicóptero da polícia com armas de alto calibre, matando dois policiais. O incidente ocorreu durante um fim de semana de violência entre gangues de traficantes rivais, no qual 12 pessoas foram mortas. O corpo de um jovem foi encontrado em um carrinho de supermercado em uma rua movimentada.
Apesar do aumento do envolvimento da polícia, a violência está piorando. A nação pode esperar a contenção do problema?
O Problema Real
Cenas nuas e cruas da natureza humana, semelhantes às do Rio de Janeiro, acontecem em muitas grandes cidades do mundo, no passado e no presente.
Mas o que a maioria não percebe é que esses problemas não são apenas problemas com drogas ou gangues, as suas causas são muito mais profundas, e envolvem a natureza do homem.
Enquanto muitos longos voltam para a religião e para a paz prometida pelas palavras de Jesus, seus corações ainda estão perturbados e eles ainda estão com medo. Embora eles olhem para o que a estátua de Cristo deveria representar, eles esquecem completamente que o cerne do problema reside no Rio de Janeiro dentro do livro por Ele inspirado, a Bíblia.
O livro de Tiago no Novo Testamento revela a verdadeira razão para a violência do Rio de Janeiro: "Donde vêm as guerras e contendas entre vós? Porventura não vêm disto, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam? Você luxúria, e não: você matar, e o desejo de ter, e não pode obter: você luta e guerra, mas você não tem, porque você não perguntar. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, que você pode consumi-lo em cima de seus desejos "(TIAGO 4:1-3).
A violência do Rio vem de luxúria – um problema espiritual enraizado na natureza do homem. As soluções criadas pelo homem não irão – e não poderão - dar fim aos problemas espirituais, porque não tratam a raiz da questão.
Embora a situação da cidade possa parecer sem esperança, em breve o Cristo Vivo retornará e governará o mundo, "o governo estará sobre os Seus ombros, e seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da ETERNIDADE, PRÍNCIPE DA PAZ "(Isa. 09:06).
Os cidadãos não mais viverão com medo, forçados a acreditar em equívocos, embora frequentemente sinceros: as soluções humanas.
"E nos dias desses reis, o Deus do céu estabelecerá um reino que jamais será destruído, e o reino não deve ser deixado para outras pessoas, mas esmiuçará e consumirá todos estes reinos, e ele deve permanece eternamente "(Dan. 02:44).
A revelação do Reino de Deus levará os problemas enfrentados Rio de Janeiro e outras cidades ao redor do mundo a um ponto insustentável. Uma cidade que tem sido um terreno fértil para a violência entre gangues, e um epicentro do tráfico de drogas, em breve será transformada em uma estável e pacífica região do globo.
A mudança real será decretada, mas não pelos esforços do homem. O governo de Deus e nada mais – fará isso acontecer.
Para obter mais informações, leia “Deus criou a natureza humana?” e “Como o mundo de paz virá!”

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sobre a tragédia no Andaraí



Quem é PM e participa de constantes confrontos armados contra o tráfico sabe do perigo que isto representa. Não são poucas as vítimas fardadas devido às vezes a uma interpretação errônea dos riscos em meios aos quais se policiais civis e militares se enfiam a cumprir missões perigosíssimas. Basta a pequena distração de um deles, uma bala interrompe os seus sonhos e sua família sofre a perda definitiva ou amarga a deficiência física do patriarca, muitas vezes em humilhação inevitável. De guerreiro, o PM torna-se um “vegetal”, tudo porque subestimou o perigo num átimo apenas de falha do seu reflexo condicionado pronto a reagir em situações de perigo extremo.
Só quem se enfia em favela à caça de traficantes armados com material bélico de última geração, próprio para guerra, contendo mira a laser e lunetas infalíveis, sabe dos riscos que corre. É fácil imaginar a tensão que domina cada qual que se encontre nesta situação de risco máximo. E, por mais que o PM seja treinado e experiente, o seu direito à vida permeia suas ações. Elas devem ser cautelosas, sim, porém sem jamais se atrasar durante aquele átimo em que o perigo surge à sua frente ou, pior, à sua retaguarda ou no seu flanco, nunca se sabe o que lhe virá, é tudo surpreendente. Sempre...
Favela é sinônimo de tocaia: o bandido possui todas as vantagens da espera. Geralmente está posicionado em locais de melhor domínio do ambiente e abrigado de tiros inimigos. Um desses locais mais que sabidos são as lajes nas quais os bandidos se postam ocultos e prontos para desferir o tiro fatal contra o PM. E é com esta certeza do perigo vindo de cima, dentre outras vantagens da ampla variedade disponíveis aos que esperam em tocaia a chegada da polícia, que o policial abre o peito e avança em coragem. Muita coragem, pois, por mais que seja experiente, a principal arma que ele carrega não é o fuzil, mas a máxima atenção a tudo que o rodeia, piscando com um só olho para ver com o outro mui aberto. É terrível essa experiência operacional, e não há nenhum PM ou PC que não se afete, a não ser que seja tresloucado e abra o peito ao tiro inimigo.
Ao ler sobre o terrível acidente que provocou a morte de um trabalhador no Andaraí, no Jornal O Globo acima reproduzido, chamou-me à atenção o parágrafo abaixo:

“Quando Hélio subiu no terraço para fixar um toldo, viu os homens do Bope numa vila ao lado. Ele comentou, brincando com a mulher, que estava com medo de a furadeira ser confundida com uma arma porque havia uma operação do Bope na favela. Minutos depois, um tiro disparado pelo cabo Leonardo Albarello matou o supervisor. A bala entrou abaixo da axila e atravessou o tórax.”


A matéria está assinada por três jornalistas e, decerto, a informação divulgada foi antes confirmada por eles, como manda a regra da investigação jornalística. E, pelo que foi noticiado, não apenas o PM entendeu estar diante de uma arma nas mãos de alguém num terraço, situação sempre preocupante para qualquer policial que incursiona em favelas. As lajes, do alto, são vantajosas em demasia para quem as utiliza e desvantajosas para o policial que se enfia no perigo. Claro que, do mesmo modo que ingenuamente a vítima entendeu que a furadeira poderia ser confundida à distância com uma arma, o PM deve ter tido a certeza de que se tratava de arma com formato de submetralhadora, a que conhecemos como “Pistol Uzi”. A furadeira é indubitavelmente semelhante à submetralhadora Uzi, e a rapidez com que ela pode ser apontada e disparar rajadas não permite ao contendor esperar nem um átimo para reagir antes disso e evitar a morte certa. Não há dúvida de que foi o que houve...
Houve, sim, a tragédia, terrível para os familiares da vítima e para o PM que disparou o tiro fatal. Mas, é no mínimo estranho que a delegada de polícia, também num átimo, declare aos jornalistas que indiciará o PM por “homicídio doloso”, quando, ao que sugere a notícia, o que houve tem características de “legítima defesa putativa”. A dúvida que persistirá é se ela faria o mesmo se o atirador fosse um policial civil... Ora, livra-se ela das pressões transferindo-as ao Ministério Púbico, posição cômoda, mas que encerra uma animosidade latente (recentemente acirrada pela divergência entre um IPM e um IPC...) entre duas polícias que não se entrosam, o que é ruim para a sociedade. Ainda bem que o Ministério Público não é partidário de nenhumas das duas corporações e saberá opinar com isenção e independência...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sobre a crítica

Um dos exercícios psicológicos mais difíceis é a humildade em vista de alguma crítica. O fato de o criticado refutar de pronto a crítica, sem observá-la atentamente, resulta muitas vezes arrependimento futuro. Porque a crítica, mesmo injusta, é sinal de alerta indicando a necessidade de alguma correção de rumo. Ou não, pois a crítica pode ser totalmente infrutífera ou estulta, e outras decorrentes de sentimento menor, como a inveja, que é o pior dos pecados capitais. Mas o criticado, em sendo inteligente, deve primeiramente atentar para todos os reveses relacionados aos seus atos. Um ato é uma decisão. Dependendo de quem decide, a influência do ato pode afetar a vida de muitas gentes, tornado-as felizes ou infelizes. Por isso, aquele que tem poder de mando, seja temporário ou permanente, deve ser receptivo à crítica tanto como ao elogio, este que, muitas vezes, é bem mais pernicioso que a crítica.
Crítica e elogio devem ser analisados com reserva, sim; devem ser comparados aos fatos geradores para se saber se há sinceridade e coerência neles. De nada servem críticas e elogios vazios de conteúdo ou disparados com segundas intenções. Uma triagem de ambos é imprescindível, e, se algum proveito houver num ou noutro, o titular do ato deve corrigir o rumo do ato seguinte ou rever seu ato original. Seja crítica, seja elogio, o seu sentido deve ser construtivo. Se não, lata do lixo com eles, não importando se bem-intencionados. Afinal, aquele que critica, tal como quem pratica o ato criticado, não é dono de nenhuma verdade nem mesmo relativa. Trata-se a crítica de julgamento subjetivo, posição mais cômoda do que a prática do ato em si, com reflexos reais sobre coisas e pessoas. Vale o mesmo para o elogio. Mesmo assim, a subjetividade de ambos pode conter argumentos convincentes, a ponto de alterar o ato seguinte ou apontar a necessidade de revisão do ato em andamento, dentro da ideia de que nada é absoluto, tudo é relativo.
Queiramos ou não admitir, o mundo é feito de contrastes, de matéria e antimatéria, de sim e não, de luz e trevas, e é árdua a tarefa de encontrar o equilíbrio em meio ao desequilíbrio que nos rege o dia a dia. Vivenciamos a assimetria de tudo, e é nela que mergulhamos para decidir que profundidade e que tempo conseguiremos suportar sem respirar. Vivemos de oxigênio; não sobrevivemos na falta dele. Somos reféns da fotossíntese, agrilhoados ao acaso natural que nos circunda em alento ou ameaça. Não somos nada ante a realidade cósmica que segura a nossa vida por um fio. Descrer nesta verdade é ser arrogantemente cego.
Crítica não é futrica. Elogio também não pode ser dúbio; não deve conter ironias. Futricas devem ser abominadas, em especial as anônimas, e muita vez ofensivas. Isto é lixo a ser descartado sem pejo. Gostar ou não gostar de alguém não deve ser motivação de crítica. A crítica só é boa quando a despida de ódio. Se alguém deseja criticar outrem por ódio, deve fazê-lo olho no olho e receber o troco, que nem sempre será o ódio. Poderá ser o amor, de tal modo que ele amainará o ódio e o abraço pode acontecer. Por que não?... As criaturas de Deus, sem ódio, tornar-se-ão filhos de Deus, assim como nos ensina a Palavra. Amar é melhor que odiar, e a crítica não pode ser desferida como seta envenenada, mas como um bálsamo a tentar curar as feridas que o criticado desconhece ou ignora propositadamente. Não significa, porém, que a crítica não deva ser assertiva, veemente, ríspida. Pode, sim, e deve, dependendo do ato praticado a merecê-la. Mas não pode conter ódio ou inveja, maus sentimentos que salgam a crítica tornando-a intragável. A crítica há de ser leal.
Quem critica também deve estar preparado para a réplica, devendo reformular suas opiniões e desculpar-se, ou partir à tréplica para tentar impor como correta sua crítica original. Por outro lado, o crítico deve ter a humildade de rever tudo, de sair do norte ao sul, se for o caso. Isto é obrigação de quem critica, em posição sempre mais cômoda do que quem decide: o peso da caneta do autor sobre ele é sempre maior que o peso da pena do crítico sobre si próprio. Criticar é fácil, fazer é difícil, devemos ter isso em mente quando criticamos.
Bem, é óbvio que o equilíbrio entre a crítica e sua contrapartida costuma produzir assimetrias várias. Ambas possuem natureza caótica, e é dentro do caos que estará o equilíbrio nem sempre alcançado, o que torna o processo de tese e antítese um tormento. E é em meio a este tormento, verdadeiro torvelinho de emoções, suposições e especulações, que o crítico e o criticado se deverão enfiar em mergulho, sem aparelho, para pegar a verdade e trazê-la à tona: o tesouro.
Quem tiver mais ar no peito, vencerá. Porque o oxigênio manterá por mais tempo o cérebro em condições de discernimento, e o vencedor receberá a luz no retorno triunfal das trevas aquáticas. Mas parte desse oxigênio é proveniente da troca entre o crítico e o criticado, como se ambos fossem um. Significa dizer, enfim, que o crítico e o criticado se completam como a matéria e a antimatéria, tendo razão, ao fim e ao cabo, quem for matéria na contenda. Porque, nas leis da natureza, se a antimatéria possuir um bilhão de partículas, a matéria sempre terá um bilhão de partículas mais “um”. E esse “um assimétrico” fará a diferença entre o certo e o errado, e é ele que deve ser buscado sempre e sempre...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sobre o mito da estatística na segurança pública


"O mito é o nada que é tudo./ O mesmo sol que abre os céus/ É um mito brilhante e mudo - / O corpo morto de Deus,/ Vivo e desnudo." (Fernando Pessoa, "Ulisses" in Mensagem)


Toda vez que o Instituto de Segurança Pública (ISP) divulga suas estatísticas de crimes ocorridos, eu me enfio em mim, cismático. Não que eu questione a veracidade dos índices. Não creio em manipulação. Apenas discordo ao ver a estatística como um propósito a ser alcançado e me incomoda principalmente o ufanismo ou a frustração quando algumas taxas de acontecimentos criminosos baixam ou sobem em relação ao passado. Tanto faz. Porque, mesmo se subissem, minha opinião seria a mesma: estatística é meio, não é fim, é instrumento de medição dentre muitos outros que se integram à complexa ciência administrativa, que abarca também a segurança pública enquanto organização destinada a garantir a paz e a harmonia na convivência social. Transformar estatística em objetivo a ser alcançado sugere-me jogar com a sorte, ou com o azar, já que na prática nenhuma mudança se observa no cotidiano das ações policiais, ou seja, malgrado algumas variações operacionais, tudo se resume à mesmice e o resto é cascata midiática. No fim de contas, e para resumir, qual é a vantagem de saber se houve mais ou menos homicídios num período qualquer comparado a outro? Em que isso beneficia ou prejudica o sistema? Que reflexos produzem no povo que enfrenta os riscos de sempre nas ruas e em suas casas?
Ora, as estatísticas nem mesmo explicam as circunstâncias de cada crime, suas motivações, localizações etc. E, se assim o fizessem, as estatísticas não servem para nada além de instituir uma falsa impressão de sucesso ou de fracasso do sistema de segurança pública. Na verdade, esses índices estatísticos atendem mais aos anseios da mídia: os números oficiais lhe servem como luva para produzir matérias mirabolantes, com gráficos e comentários que mais prejudicam que ajudam a administrar a insegurança pública, integrante viva da assimetria que rege a convivência social. Pode parecer paradoxal afirmar que a desordem é necessária à evolução da própria ordem; mas é assim que o mundo cósmico funciona, é como o mundo das partículas funciona, e é como o mundo social funciona. Encarar, portanto, a realidade de uma insegurança a ser administrada, em vez de focar a segurança (o seu oposto) como meta sistematicamente perseguida, é fundamental ao controle da primeira (insegurança) e de sua manutenção em níveis toleráveis. Porque o crime, como nos ensina o mestre em criminologia Manuel Lopez-Rey, é inerente ao ser humano, tal como o amor e o ódio, e sempre existirá na tessitura social, gostemos ou não. Negar o crime como realidade passada, presente e futura é se enganar para enganar terceiros.
Ora, estatística é limitada medição instrumental. Não é objetivo a alcançar. Serve apenas para apurar resultados e auxiliar nos processos decisórios, assim como outros métodos mais acurados de medição como, por exemplo, a Pesquisa Operacional. Em meio a tantas alternativas oferecidas pela Teoria Matemática da Administração, dentre outras bases conceituais e práticas interessantes à evolução da organização em vista dos seus fins sociais, apontar apenas que o número de homicídios aumentou ou diminuiu em determinado período não significa absolutamente nada em termos de eficiência, eficácia ou efetividade da segurança pública enquanto organização estatal. Em qualquer sociedade, nas empresas públicas ou privadas, e também nas ciências e na arte de sobreviver e competir, a medição é imprescindível para comparar objetivos com resultados, e estes, sim, hão de ser bem-sucedidos, se vinculados a objetivos adrede traçados e passíveis de mudanças e inovações constantes. É o que se espera de qualquer organização social. Deste modo, sem objetivos previamente medidos (mesmo que instintivamente) não há como apurar resultados. Por isso, ao se fixar um objetivo deve-se ter em mente projetar uma estrutura capaz de alcançá-lo com eficiência, eficácia e efetividade, entendida a primeira (eficiência) como estrutura, a segunda (eficácia) como resultado ótimo, e a última (efetividade) como sua aceitação plena.
A característica fundamental de qualquer objetivo é a sua concretude. Claro que não falamos numa metafísica em que o objetivo da oração é ganhar os céus. Este é um campo que não importa no momento à nossa reflexão, embora saibamos que a eficiência (oração) pode alcançar resultados (salvação) em vista de objetivos meramente especulativos (alcance indireto do objetivo). Mas vamos nos prender aos objetivos organizacionais concretos, que não são poucos. Deste modo, visto o objetivo como um sistema, ele é somatório de muitos subsistemas. Mas, se o objetivo (sistema) é ou não globalizado (o todo maior que a soma das partes), isto é outra história...
Comecemos, pois, pela ideia de que qualquer objetivo deva ser concreto para que o resultado seja a sua contrapartida em igual concretude. Por exemplo, se você vai comprar um pão de dez reais, deve sair de casa à padaria com, no mínimo, dez reais. Se você levar mais dinheiro e for assaltado de caminho, em vez de perder somente o pão, perderá todo o alimento do dia. Se você levar menos de dez reais, não comprará o pão e voltará com as desculpas cabíveis, dentre elas a reclamação de que o preço subiu para onze reais, possibilidade, aliás, plausível na nossa turbulenta economia. O certo, então, é conferir antes o preço para levar o dinheiro medido e finalmente comprar o pão equivalente à medida: objetivo = resultado. Este é o mínimo exigido à transação, que, como se vê, não é um ato isolado, mas um processo decisório dinâmico.
Nem vou especular se o pão é para ser dividido por mais bocas que seu tamanho e seu peso. A suposição é a de que houve avaliação prévia para concluir que a partir do objetivo houve uma estruturação capaz de plenamente atingi-lo. Mas o comprador poderia apenas especular sobre a possibilidade de conseguir o pão gratuitamente, ou mais barato, partindo da ideia de ser ele capaz de convencer o padeiro a diminuir o preço. Ou diminuir o tamanho do pão para esticar o dinheiro. E assim partir à aventura de comprar o pão com menos de dez reais no bolso. Se ele conseguirá ou não, jamais saberemos, a não ser que aqui eu enverede pela ficção literária, já que faço uma alegoria para demonstrar que o objetivo deve ser planejado por meio de diagnóstico preciso e tão completo que possa garantir um resultado concreto. E para efetivar um diagnóstico preciso é necessário disponibilizar instrumentos vários de medição, dentre os quais a estatística.
Ora bem, quando vejo o ufanismo do sistema de segurança pública a comparar atuais índices de ocorrência de homicídio com períodos anteriores, transformando meio em fim, vejo-o como o faminto que vai à padaria sem saber o preço do pão, ou que pão comprará, ou mesmo se haverá pão; nem se importa se carrega menos ou mais dinheiro nas algibeiras. Depois volta em euforia para dizer que comprou um pão, mas não o desejado pela família. Enfim, uma aleatoriedade que funcionou à parte do seu custo/benefício: gasto de energia que poderia ser evitado se cada passo do caminho entre o comprador e o pão fosse antes medido. Deste modo, não houve eficiência, eficácia nem efetividade na decisão: o pão (objetivo) comprado não era o resultado esperado, o dinheiro em excesso poderia ter sido roubado e a família, em vez de se alegrar com o pão errado e aplaudir a compra, reclama da decisão aparentemente perfeita aos olhos de quem a concretizou a seu modo. Em termos de fixação de objetivo e de obtenção de resultado, nada funcionou, nem mesmo os mínimos anseios familiares.
Se estendido o raciocínio para a sociedade, fixar objetivos torna-se tarefa das mais complexas porque ela se desdobra em duas vertentes importantes: a) os anseios institucionais (anseios e valores da estrutura destinada ao fim colimado, somados aos anseios e valores das pessoas responsáveis pelas tarefas); b) anseios sociais (maior sensação de segurança como resultado esperado pela população-cliente). Enfim, pesquisa complicada. Não é fácil detectar simultaneamente o que anseiam os servidores públicos integrantes da estrutura (anseios e valores pessoais, familiares, profissionais etc.) em vista dos objetivos da própria estrutura com a paz social (anseios e valores sociais). Mais complexo ainda é identificar os resultados esperados por uma população cujos anseios e valores são os mais diversificados possíveis, tanto que os anseios e os valores dos moradores de uma rua podem ser diametralmente opostos aos dos moradores da rua ao lado. Como atender a tanta diversidade? Como fazer a fusão de tantos anseios e valores diferentes e por vezes conflitantes? E quando esses anseios e valores são de tal modo emergenciais que se enfiam num torvelinho tão misterioso como o intrigante buraco negro do cosmo imenso?...
Não é outro o desafio da segurança pública (estrutura) como função governamental. Ela atua dentro de uma turbulência ambiental que lembra os cataclísmicos tempos terrenos. Medir objetivos e apurar resultados numa situação de realidade tão aberrante não têm produzido mais que fracasso em meio a falseados sucessos brilhantemente generalizados por publicidade enganosa. Não vivenciamos segurança alguma, experimentamos uma insegurança descontrolada e a falsa impressão de que está tudo bem na superfície das estatísticas ufanistas apontando a queda de alguns crimes em relação a seus equivalentes ocorridos no passado.
Ora, ora!... São discutíveis esses números estatísticos e é absurda a importância que a eles é dada por uma imprensa comprometida com o sistema oficial. Não houvesse verbas publicitárias governamentais à larga, não creio que a mídia estaria acariciando tanto assim o governo. Porque é mui primário destacar estatística de simples contagem de homicídios ocorridos antes e depois, com a cautela de não divulgar quantos deles foram elucidados antes e depois, tendo seus autores e culpados singularizados com provas técnicas e entregues às barras dos tribunais.
Eis aí um objetivo concreto, capaz de apontar resultado concreto nos seus aspectos eficiência, eficácia e efetividade. Afinal o Inquérito Policial Civil, obrigatório na apuração de homicídios e de outros delitos, tem um objetivo concreto: singularizar autores e culpados de crimes e coligir provas suficientes para levá-los aos tribunais. Este é o fim da peça inquisitorial e o resultado ótimo é o seu alcance com eficiência e eficácia. Isto conquistado (eficiente e eficazmente) é só correr ao aplauso (efetividade). Por que não é feito?... Por que não se apura estatisticamente a elucidação de todos os delitos ocorridos nos ambientes geral, intermediários e específicos do território fluminense, inquérito por inquérito, mês a mês, ano a ano, órgão por órgão?... E não importa se o resultado não for favorável; importa, sim, conhecer esses dados para redirecionar o labor das duas polícias (Civil e Militar) no sentido de administrar melhor a insegurança pública, esta que, gostemos ou não, sempre subsistirá como ameaça à ordem pública e à paz social.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sobre a ação da Polícia Civil no Pavão-Pavãozinho e no Cantagalo



Sobre a ação da Polícia Civil no Pavão-Pavãozinho e no Cantagalo (Copacabana-Ipanema), e antes que alguém ponha no episódio alguma ponta de malícia, não há nada demais em assim ter ocorrido. O papel das duas corporações policiais se encaixa com perfeição no bem-sucedido episódio patrocinado pela coirmã PCERJ. A PMERJ conquistou o espaço físico e o ocupou com UPPs. Não significa, como venho reiteradamente afirmando, o fim do tráfico, mas apenas o fim da ostentação de armas pelos traficantes.
Claro que implantar UPPs sem abrir espaço ao trabalho investigativo e à ação da PCERJ significa vantagem para os traficantes, que ingressam na “forma cística” e não mais necessitam ostentar seu poderio bélico a intimidar bandos rivais. Demais disso, eles acabam intimidando os moradores e instituindo a falsa impressão de que as armas são para “combater policiais”. Na verdade, o foco primeiro deles é o ataque de facções inimigas com vistas ao domínio do lucrativo território. Mas, em avançando a polícia (civil ou militar), os traficantes tentam conter a invasão para, em expressão de Carlos Amorim no seu clássico “Comando Vermelho – a história secreta do crime organizado”, “desarmar a quitanda”. Sem dúvida, perder drogas em apreensões policiais é drástico para o tráfico, o que explica a necessidade deles de sustentar tiroteios com a polícia para ganhar tempo e ocultá-las. Nem tanto as armas.
Em todos os sentidos conceituais e operacionais, a ação da PMERJ diferencia-se da ação da PCERJ em razão da própria competência de ambas. À PMERJ compete, como polícia administrativa de manutenção da ordem pública, coibir o crime visível, o que ela de fato conseguiu e sempre consegue em incursões e/ou nas ocupações. No primeiro caso (incursões), as ações ostensivas fardadas são restritamente repressivas; no segundo caso (ocupação), o objetivo precípuo é a prevenção pela presença ostensiva e a repressão aos delitos visíveis, o que vem ocorrendo em praticamente todas as comunidades ocupadas por UPPs, fato amplamente noticiado pela mídia. Já a PCERJ deve fazer exatamente o que fez, ou seja, investigar o crime invisível, singularizar os criminosos, coligir provas e agir, aí sim, e como bem o fez, com aparato em modelo militar de ação policial, o que ocorre com as coirmãs do Brasil (Polícia Federal e demais Polícias Civis estaduais) e até em muitas organizações policiais civis mudo afora. Portanto, é fácil entender o aparato utilizado pela PCERJ. Trata-se de demonstração de força indispensável, para evitar confrontos desnecessários.
A ação da PCERJ foi perfeita; seguiu seus padrões normais e deve ser sistematicamente repetida em outras localidades ocupadas por UPPs. Este é o caminho certo para combater o que a ela (PCERJ) legalmente compete: reprimir, como polícia judiciária, o crime invisível por meio da investigação criminal, singularizando os criminosos e tornando-os visíveis no processo com vistas a condenações futuras nas barras dos tribunais. Claro que isto não impede a PMERJ de usar a inteligência policial e até repassar suas informações para a PCERJ, o que é útil ao entrosamento das coirmãs.
Venho criticando alguns aspectos das UPPs, em especial o seu indevido uso político-eleitoral e o excesso de ufanismo das autoridades em vista de um projeto que está longe de ser garantido como “permanente”. No meu artigo anterior, e pensando no tal decreto governamental visando a tornar as UPPs “permanentes”, divaguei em torno desta palavra e de outras que movem o mundo natural e social, tais como a imprecisão, a impermanência, a incerteza etc. Creio ser de fundamental importância não encarar as UPPs como diamantes já lapidados e prontos para venda pelo maior preço. Aliás, mesmo o diamante lapidado depende de adornos para destacá-lo devidamente. Significa dizer que nada é isolado no mundo; tudo é interligado, tudo é relativo, nada é absoluto, conceito que inclui as UPPs.
Vejo as UPPs com preocupação porque foi e está sendo instituída como espécie de policiamento privilegiado. Mesmo que cada UPP seja um diamante lapidado, não há adornos suficientes nem diamantes a serem equitativamente distribuídos para todos os que têm direito ao valioso presente. E não cabe mais ocultar a verdade dos fatos: as UPPs até agora instaladas atendem a interesses específicos e claramente vinculados a dois lucrativos eventos futuros (Copa do Mundo e Olimpíadas). Nada demais seria se desde o início o programa fosse assim apresentado à opinião pública e até hoje não entendo por que deram asas à especulações várias, e eu sou um dos especuladores de plantão...
Outra prova do que afirmo em idêntica especulação é a transferência do BOPE para o ambiente turbulento da Maré, que inclui a necessária garantia de segurança nas vias de acesso ao Aeroporto Tom Jobim. Eu, particularmente, preferiria que a PMERJ criasse mais um Batalhão de Operações Especiais, outro BOPE, e até mais de um, de modo que todo o RJ contasse com o concurso dessa tropa de elite. Formar efetivos para tal desiderato não é impossível. Só depende de vontade, e minha preocupação se prende também ao mito da “unidade”, a mesma defendida pelas religiões do “Deus Único” e pela mecânica quântica da “Teoria do Tudo” (“Teoria das Supercordas” ou “Teoria M”). Ora, é um perigo a mitificação do BOPE a ponto de não poder existir outros “BOPES”. Sabemos mui bem sobre os perigos do mito.
De resto, e pela primeira vez, sou abrigado a concordar com a matéria de O Globo, inspiradora deste comentário. O jornal foi elegante e isento. Enalteceu a ação da PCERJ sem desmerecer a da PMERJ. Por amor à verdade, digo que a ação da PCERJ, desta feita, seguiu um curso mais natural do que aquelas que costumam anteceder à implantação de UPPs (incursão e ocupação permanente pela PMERJ). Nestas, anteriores, geralmente a contenção por parte dos marginais resulta em ferimentos e mortes de parte a parte. Claro que as aparatosas operações das duas polícias são trabalhosas, mas é o caminho certo, pelo menos no meu particular entendimento. Aliás, não posso ser contrário ao que igualmente fiz. Digo assim com propriedade porque assim agi enquanto comandante do Nono Batalhão, pelos idos de 1989-1990.
Declarei minha preferência por ações aparatosas em livro no qual relato como elas se deram durante o meu comando (Cavalos Corredores – a verdadeira história). Acrescento, todavia, que quase todas as operações do batalhão contavam com o concurso direto da Polícia Civil (DRE), o que geralmente resultava em prisões importantes. Essa interação de caráter permanente facilitava deveras o labor policial, e não havia nenhuma disputa para se saber que tinha “as pernas mais bonitas”. Não cuidávamos de nenhum concurso de “miss”, mas de trabalho integrado e fraternal de verdadeiras coirmãs.
Deste modo, e mantendo-me fiel às minhas críticas, ressalto a minha torcida para que a PCERJ aproveite o ambiente favelado policiado por UPPs (animando os cidadãos ordeiros a denunciar os covis dos marginais) para passar seu indispensável “pente fino” e produzir resultados benéficos à sociedade como um todo, como foi o caso presente. A ação foi na favela, sim, mas os seus reflexos vão além, pois demonstra a eficiência de um trabalho que deve ser visto como “globalizado” (o todo maior que a soma das partes) da Secretaria de Segurança Pública. Mas com a ressalva: manter as atuais UPPs e ampliá-las em meia dúzia mais de favelas situadas na Capital, e depois estender o privilégio a todo o universo estadual (mais de mil favelas dominadas pelo tráfico ou por milícia) significa confirmar cientificamente a “Teoria do Tudo” e desvelar todos os segredos do Universo (com maiúscula para diferençar do outro). E isto, dadas as inúmeras circunstâncias (políticas, financeiras etc.) é impossível!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sobre o mundo em que vivemos

Vivemos num mundo marcado pela imprecisão. Por mais que tudo nos pareça simétrico, a assimetria é a norma que rege o mundo, e a incerteza é imperativa no seu caminhar cósmico. No nosso ecossistema (nossa casa), nada é absoluto, tudo é relativo. Para cada “se” há um “então”... Vivemos num mundo quântico e, portanto, impermanente. O belo pode estar no feio, a verdade pode ser o seu inverso. Tudo flutua neste mundo visível e invisível. Das estrelas aos fótons, nada fica no mesmo lugar, enquanto tudo aparenta estar no mesmo lugar. A desordem comanda o espetáculo social, e a ordem é uma busca constante e impossível de se alcançar. Neste mundo, a causa nem sempre gera o efeito, e o efeito nem toda vez decorre da causa. É um mundo maluco, e nós estamos nele como “perfeitos” e “simétricos”, embora sejamos os senhores das guerras e das destruições de tudo e de nós mesmos. Agimos assim em covardia, permitindo que os maus nos destruam, e ficamos a corajosamente defender ideologias e dogmas que não alteram o viajar eterno do Cosmo nem melhoram nossas vidas terrenas em absolutamente nada. Somos frutos (verdes, maduros e podres) da imperfeita árvore cósmica, e contribuímos para esta imperfeição por ação tresloucada ou inação conformada.
Antes e agora, – e decerto depois, – as religiões continuarão intolerantes. Pregam a paz fomentando as guerras. O sectarismo é desbragado ou dissimulado, mas sempre presente; a segregação é escandalosa. Os males, enfim, subsistem como entes vitoriosos. E as religiões permanecem a pregar, em meio ao amor, bem mais a intolerância e o temor de preconceituosas perdições como fundamentos da salvação; a paz é buscada a susto do inferno e por isso é utópica; ela, a tão almejada paz, não existe em lugar algum do mundo a não ser como arremedo de boa intenção. Em todas as comunidades humanas espalhadas pela Terra a insensatez se faz mais presente e a desordem aflora, mesmo que aparentemente controlável. Mas, em contrário, está ativa e livre, garantindo a impermanência das coisas, a insegurança das pessoas, e fortalecendo as contradições resumidas na ação destrutiva, de um lado, e na tentativa de reconstrução, do outro, e não apenas no campo físico, mas também no metafísico. E o tempo, universal e eterno, escorre no seu íntimo espaço cósmico: “espaço-tempo” infinito e indiferente a esta luta terrena do Bem contra o Mal...
O ser humano vive em sua eterna fuga do “fogo do inferno”. Entope igrejas várias, reza, ora, bate cabeça, medita e mandinga, eis como tenta a transcendência de si próprio sem sucesso. No fim de suas contas do tempo, ele morre e desaparece como quaisquer outros seres desumanos que prefiram destruir coisas e pessoas durante suas vidas insensatas. São eles os malfeitores que não respeitam a prisão nem a morte. E a fertilidade humana, mais pujante que a punição dos ímpios, garante a permanência dos contrastes sintetizados na ideia do Bem em contraposição ao Mal. E nós, seres humanos, aceitamos conviver passivamente com o Mal. Ora, não combatemos o “Bom Combate” em sua plenitude, ou seja, pondo o Bem a destruir definitivamente o Mal! Abraçamos o Mal a nos assolar e acolhemos medrosamente o malfeitor como um “ser humano” que precisa ser “recuperado”, que pode ser “ressocializado” e tornar ao convívio dos bons; e perdemos nosso tempo assistindo aos bons morrendo nas mãos dos irrecuperáveis, e eles o são porque simplesmente é assim o nosso mundo caótico, invencível em sua teimosia e persistente em sua covardia individual e coletiva. Porque o ser humano (bom) não pode destruir o ser desumano (mau) sem sofrer as consequências das mesmas leis que indistintamente os protegem (bom e mau). E como os bons respeitam as leis, perdem de pronto a luta contra os maus, que não as respeitam; os maus, mesmo cônscios da punição, não se amedrontam. Os maus são vencedores enquanto permanecem vivos. Só geralmente encerram suas maldades com a morte, mas a fertilidade humana os fabrica em série, pondo-os no mundo para cumprir suas malevolências racionais, com os bons justificando-as em temor irracional dos infernos metafísicos e das punições físicas.
Ora!... Neste mundo maluco, é melhor ser réu que vítima. A esta somente cabe absorver a maldade recebida e até morrer em consequência dela. Aos réus cabem recursos e mais recursos; suas maldades prescrevem com a passagem do tempo impune; seus julgamentos são hipocritamente justos: nesta hora eles são “cidadãos bons”; e há a proteção de sua família enquanto condenado por seus comprovados e evitáveis males; gozam do direito à liberdade, e, livres, praticam novas maldades até a transição em julgado da sentença virtual; e vão à liberdade por indulto, por dias especiais (Natal, Dia das Mães etc.); e têm direito à fuga, e por aí se acumulam as vantagens dos malefícios sociais de que são protagonistas conscientes. E assim o Bem vem triunfando do Mal.
Muitos dirão, neste ponto, que enlouqueci com direito a carteirinha do INSS ou sou ateu; dirão que perdi o senso do ridículo e me tornei um monstro; e que sou “mau” somente por externar o que penso. Respondo também neste ponto: danem-se os que deste modo me categorizam! Não me importa o que pensem, tenho o direito de idealizar o meu mundo precisa ou imprecisamente, simétrica ou assimetricamente. Se sou louco, aqueles muitos (ou aquelas muitas) são covardes travestidos de “corajosos defensores do Bem para todos”, até para os que existem a praticar somente o Mal. Azar do mundo, que se comporta “cheio de dedos” ante os sectários destruidores de inocentes, como aqueles que marcaram com sangue o dia 11 de setembro de 2001...





Ruíram as majestosas torres gêmeas. Ao receber o impacto dos aviões, o World Trader Center parecia feito de frágeis cartas de baralho perigosamente equilibradas. E, de lá para cá, os atentados não pararam. Nem cessaram os crimes isolados e episódicos, estes que já ultrapassaram em muito o número de vitimados em comoriência por radicais islâmicos naquele inesquecível setembro norte-americano. Cá pra nós, só aqui no Brasil o impressionante número de mortos no atentado torna-se ridículo se comparado com o de pessoas inocentes (homens, mulheres e crianças) vitimadas por malfeitores. Mas, em morrendo separadamente, um a um, dois a dois, cinco a cinco etc., essas mortes desinfelizes não despertam nenhuma atenção. Isto sem falar nos que morrem e somem deste mundo maluco sem jamais terem nele ingressado oficialmente. Nascem sem registro público e desaparecem no anonimato da cova rasa ou das águas do planeta Água.
O crime, – discreto ou aberrante, ou ambos, – produz mais vítimas que a soma de todos os atentados e acidentes involuntários. No entanto, nós, seres humanos, por demais humanos, fingimos não saber disso. Fingimos que o malfeitor não é um ser desumano, mas um “desviado de Deus”, ou “possuído pelo demônio”, um energúmeno que poderá ser salvo do “fogo do inferno”. Preferimos morrer e sofrer nas mãos dos representantes do Mal a usar o Bem como arma mortífera contra eles. Damos poder a meia dúzia de “intocáveis” para igualar bons e maus ante as leis que descaradamente beneficiam os maus, e esses privilegiados aplicadores das leis tornam-se deuses intocáveis, podendo rodar sua borduna indistintamente contra bons e maus. O bom que se defenda! Quem mandou dar poder de mais a semideuses? Quem mandou reconstruir o Olimpo?... Ele, o bom, que se preocupe em observar as leis para não ocupar o lugar do verdadeiro mau nas prisões. Os bons que se cuidem para não se tornarem maus. Porque as leis não distinguem senão o fato em si, e não atentam para as imperfeitas relações de causa e efeito, como no recente caso do pedreiro que matou dois assaltantes em São Cristóvão, Rio, e amargou o cárcere rodeado de outros assaltantes*. Que mundo é este?...
Ora, este é o mundo que forcejamos por destruir, embora seja único e nem tão renovável assim. O mundo é o nosso planeta perdido num Universo misterioso. Dele, do Universo, pouco ou nada sabemos além dos nossos arrogantes narizes. É este o nosso mundo maluco, que fingimos defender com ardor, mas, em vez disso, destruímo-lo ou deixamos que malfeitores o destruam. É o mundo em que aceitamos passivamente a nossa vitimização por malfeitores insanos, e, a pretexto de uma falsa liberdade, partimos em sua (deles) defesa. É o mundo hipócrita dos poderes desconstituídos que transformam seres humanos em deuses desumanos a nos ofender e atacar por nossa própria procuração. É o mundo que um dia deixará de existir no transcorrer da viagem do Universo em direção ao “Nada Infinito” de onde emergiu em espantoso mistério, e talvez desapareça tão misteriosamente como nasceu. É, enfim, o nosso mundo: o planeta Terra; e, no contexto da eterna viagem do Cosmo, o nosso mundo é quase que tal e qual ele, o Cosmo, impermanente, impreciso, incompreensível e infinito. Só que, diversamente dele, do Cosmo indiferente a nós, o nosso impermanente, assimétrico, impreciso e incompreensível mundo é finito. Ah, não é nosso esse mundo em que pensamos viver ou existir em egocentrismo tresloucado e amedrontado... Somente até a morte morrida ou matada. Ó senhores, para onde vai o espírito da vítima inocente atingida por bala perdida?... Façam suas apostas!...

* “(...) Trata-se do pedreiro Divino Marcos Campos Ribeiro, 37 anos, que recentemente matou um bandido que tentava roubá-lo, em São Cristóvão. Além do criminoso que foi morto, Divino baleou outro ladrão, comparsa do morrera minutos antes. (...) O empreiteiro de obras foi autuado em fragrante e levado para Delegacia de Homicídios (D.H), na Barra da Tijuca, Zona Oeste, onde o caso está sendo investigado. Segundo o delegado Edson Henrique, da D.H, apesar de ter sido em legítima defesa houve flagrante de um homicídio, e o caso será analisado pela Justiça.” (Fonte: Jornal O DIA)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sobre o circo governamental das UPPs


Mestre de Picadeiro

Toda vez que vou ao circo, – coisa rara em minha vida errante, – sento-me na plateia e lá eu fico como todo expectador do maravilhoso mundo circence; e me divirto; e ao fim e ao cabo me mando de volta ao meu cantinho chamado lar. Não vejo no circo nenhuma disputa entre os artistas. Cada qual torce pelo colega e o espetáculo continua a brilhar no picadeiro, pois o circo não pode acabar. Entretanto, por mais que o palhaço seja o ponto alto de qualquer circo, ele incorporou no imaginário popular uma faceta pejorativa, de tal modo que ninguém quer fazer “papel de palhaço”. Enfim, ninguém quer ser o “bobo da corte”. Nem eu...
As iniciais implantações de UPPs dependeram tão-somente da PMERJ. Em ações ostensivas do BOPE, apoiado pelo Batalhão de Choque, e sem grandes dificuldades, os fardados dominaram os territórios favelados antes entregues à maldade dos traficantes, estes sempre se fingindo de bons ante os moradores. São bandidos, nada mais. E nessa condição dissimulada e anônima eles foram expurgados ou se recolheram à forma cística nas comunidades ocupadas, destacando-se uma ou outra prisão dos mais conhecidos. Poucos, na verdade, mas o objetivo das incursões era e é nítido: ocupar as favelas e instalar UPPs para realizar o policiamento ostensivo diuturno. E assim as UPPs vêm sendo criadas, claro que sob exagerados aplausos globais... Por outro lado, o anúncio prévio dessas ações dá tempo de os bandidos se escafederem para outros lugares, não importando aqui desdobrar esse fato. Interessa-me ir direto ao ponto...
A coirmã PCERJ estava como eu, também sentada na plateia, porém nem tanto extasiada com a apresentação dos artistas da PMERJ. Mexia-se na arquibancada em incômodo por não ter sido convidada para festa tão badalada e apresentar seus artistas principais. E devem ter reclamado com o Mestre do Picadeiro porque foram contratados para protagonizar o primeiro ato; ou seja, “limpar a favela” para a PMERJ entrar ao “modo escoteiro” denunciado pelo convidado aniversário de Garotinho; por acaso, um ex-comandante do BOPE, que, por ter na bagagem muito treinamento estratégico (conceitual), tático e operacional, deu um irônico tiro na mosca. Na verdade, pulou da plateia ao picadeiro em cabriolas inimitáveis, arrancando aplausos até do lado de fora da lona a delimitar o circo. Hum... Mas desagradou ao Mestre do Picadeiro e a seu patrão, e, em vez de se equilibrar em alegria de volatim, caiu do arame e foi dançar em circo plebeu...
Então se introduziram no majestoso circo governamental os “Urubus-artistas”, destacando-se logo no primeiro ato: “Respeitável público, assistam agora o melhor do espetáculo circense: a Operação Limpeza!” E, no picadeiro policialesco os “Urubus” fizeram um círculo para ir aos poucos fechando até alcançar o centro. Nem tão sem graça assim... Porque os demais artistas, fantasiados de favelados e bandidos, misturaram-se no picadeiro de tal modo que se tornaram invisíveis, podendo ser uma coisa ou outra: todos identicamente vestidos e sem quaisquer sinais de que seriam favelados ou bandidos, mas todos, em princípio, apenas favelados. Enquanto isso, um grupo suspeito conseguia sair sorrateiramente do picadeiro, enfiando-se no corredor destinado à retirada dos artistas ao fim de cada ato, corredor tão famoso como a lona do circo: eram os verdadeiros bandidos travestidos de favelados... E os “Urubus”, em volúpia e debaixo de aplausos da plateia elitizada, nem perceberam os fugitivos, continuando a revista indiscriminada em todos, tapeando e pontapeando alguns e grampeando seus pulsos por “suspeita”, jogo de cena mui apreciado e aplaudido pela plateia. E assim, depois de exaustivos aplausos, se retiraram para novamente surgir no espetáculo seguinte. Estavam contratados!
Ah, e o segundo ato?... Ora, depois de tão espetaculosa apresentação, perdeu a graça! Entravam no picadeiro os artistas fantasiados de “Caveira”, mas a cena já lhes fora roubada pelos “Urubus”, indicando até a desnecessidade do segundo ato circence antes da ocupação do picadeiro pelos miraculosos artistas destinados a garantir a permanência do circo variando espetáculos, todos fantasiados de “PM”, “Favelado” e “Bandido”. Eis o circo! Deram-lhe o nome de UPP! Mas o espetáculo não pode parar e agora “Urubus” e “Caveiras” disputam o papel de estrelas principais. E assim ficarão porque o Mestre do Picadeiro e seu patrão não almejam outra coisa: a disputa ferrenha por aplauso entre os pés-de-chinelo artistas do circo itinerante que sempre houve no início dos tempos e haverá no seu fim.
Na verdade, o espetáculo do cerco (delimitação do picadeiro) é mui manjado na arte da guerra. Treina-se isto desde Zun Tzu ou até antes. Trata-se de manjada operação militar denominada “Cerco e Estrangulamento”, cujo exemplo histórico da Argélia é bastante. Essa tática de cercar e penetrar aos poucos até estrangular o alvo no centro é mais antiga que Cristo. Do mesmo modo, as “rotas de fuga” são imperiosas para não haver reação suicida de grupos acuados. Também Zun Tzu ensinou isto, o que torna a tal “Operação Urubu”, de característica nitidamente militar e conhecidíssima pela PMERJ, uma contratação desnecessária ao circo governamental.
Aliás, em sendo Mestre do Picadeiro um policial civil (federal), como deixar de fora do bem-sucedido espetáculo os seus colegas estaduais? Como admitir artistas da PMERJ, em especial os fantasiados de “Caveira”, não partilharem o sucesso de bilheteria com os coirmãos da PCERJ, deixando-os dar também suas cambalhotas no picadeiro governamental? Afinal, não são todos palhaços a serviço do Rei e sua Corte?... Ah, se fosse assim desde o início, vá! Mas que os “Urubus” esperaram o circo ter sucesso para entrar no picadeiro, isto sim, esperaram!... Só entraram depois de garantidos os aplausos midiáticos. E vieram para roubar a cena no picadeiro principal: estão a “limpar” a região para que o BOPE nela se instale em definitivo... Nada demais, ficção é assim mesmo; é cena policialesca “à clef”; é a própria e surrealista realidade do BOPE versus CORE...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Sobre a segurança pública na “democracia” brasileira

Quem milita na segurança pública necessita se policiar para não se contagiar pela desgraça que acompanha cada notícia, mesmo as que exaltam o sucesso policial, porque, ao fim e ao cabo, tudo resulta na constatação da existência de um banditismo perigoso para a sociedade. E tão volumoso e globalizado é o crime que só as pequenas partes dele são esporadicamente afetadas. Os crimes de sangue entre bandidos e a morte constante de policiais em confrontos ou tocaias perpetradas por facínoras alcançam índices alarmantes, em especial se comparados com o que acontece nos países civilizados. Isto significa que estamos longe de ser um povo civilizado, e nem precisaria citar crimes para concluir que não o somos: pecamos antes na distribuição das riquezas pátrias. Somos, sim, incivilizados, por estarmos enfiados na miserabilidade que afeta calamitosamente expressiva parcela da população brasileira.
Somos alegres e felizes, dizem os interessados nesse falso discurso. A generalização brilhante da sorte de algum favelado destacado no futebol deixa-nos a falsa impressão de que todo favelado é ou será jogador de futebol de renome e realizado na vida. Enquanto isso, a maioria dos jovens segue o modelo do traficante bem-sucedido e ingressa no crime na tenra idade. E dificilmente ultrapassa os desafios mortais da atividade criminosa pela qual optou para desfrutar de algum glamour, como costuma assistir na telinha da tevê. A facilidade de aquisição de um aparelho de tevê é primeiramente interesse de quem utiliza esta via de comunicação de massa. Porque, antes de proporcionar o lazer, ele vende produtos e projeta uma falsa esperança entre o povoléu. Daí ser comum a imagem dos barracos favelados ostentando antenas como aquele repolho de festa cravado de palitos depois de comidos os ovos de Codorna. E o repolho vai ao lixo, e é apanhado pelo miserável, e mata a sua fome...
A indústria da comunicação lembra a tática da contravenção penal explorada por particulares e pelo Estado. O jornal custa o preço de uma pequena aposta e ainda serve de “papel higiênico”. A luz da favela geralmente é “gato”. Então o consumo de energia pela tevê é, como se diz na gíria, “0800”, tanto como o “gatonet”, que, se de um lado prejudica os poderosos meios de comunicação, de outro lhe permite vender os produtos anunciados, compensando assim a perda temporária da assinatura. Fosse o custo da “gataria” mais prejuízo que benefício, o sistema já a teria transformado em tamborim, do mesmo modo descarado com que explora jogo de azar enquanto combate os bicheiros. Mas jogo de azar estatal presume “causa nobre”, e, neste caso, a lei não vale. E o policial, por outro lado, há de ser honesto mesmo passando fome, eis a insistente e hipócrita cobrança que a mass media faz para desviar a atenção pública de suas próprias incoerências enquanto influencia a sociedade ao bel-prazer de seus interesses financeiros e políticos.
O mote para tanto desvario é a liberdade de imprensa, que deve ser máxima, sim, mas com responsabilidade civil e penal dos que exageram, o que os profissionais do ramo não aceitam de modo algum. Basta um pequeno beliscão e eles explodem em ira coletiva e ai do alvo escolhido... A Justiça, por sua vez, desde muito tempo se tornou circunflexa ao “Quarto Poder”, tanto que costuma ser perda de tempo recorrer aos tribunais para reivindicar direitos e cobrar deveres em se tratando de ofensas e mentiras publicadas sob o manto da “liberdade de imprensa”. Aliás, o Poder Judiciário é também circunflexo ao Poder Executivo, de tal maneira que é perda de tempo e dinheiro recorrer ao primeiro para corrigir injustiças praticadas pelo segundo.
Num sistema totalitário dissimulado em democracia, como o nosso, o povo é apenas expectador das poderosas tramas governamentais e midiáticas. Pior é que sendo levado como gado à aceitação tácita ou explícita de absurdos inteligentemente difundidos pela mass media regada a ouro governamental decorrente dos altos tributos que passivamente pagamos. E segue o povo no seu papel de bobo ou de palhaço em cabriolas num picadeiro enodoado pela imoralidade, pela ilegalidade e pela total ausência de ética. Não nos discursos oficiais e midiáticos. Para essa turma, esses valores são as “bandeiras” que empunham em desfaçatez absurda. E o difícil é separar os verdadeiros homens públicos e profissionais de imprensa enfiados entre os falsificados e socialmente doentes. Daí o justo pagar pelo pecador, num sistema em que predomina sempre a máxima de Trasímaco: “A justiça é o interesse do mais forte, ou seja, do governante”.


Há quem defenda essa sem-vergonhice pátria, que advém de uma cultura escravocrata enraizada na mente da elite e impregnada na massa subalterna e sem vontade própria em virtude da pobreza, da indigência e da miséria (“gado de rebanho”), e a ouvir daquela elite: “É pobre, mas é honesto”. Sim, há quem dissemine este absurdo, que encerra, no fundo, o preconceito de que ser pobre é precondição para ser criminoso. Como subsistir condignamente o pobre, o indigente e o miserável nessa sociedade que não põe rico na cadeia? Ora, eu me recuso a engolir a moderníssima e maliciosa classificação dos “abaixo da linha de pobreza”, que camufla as brutais diferenças entre “pobres, indigentes e miseráveis”, cujos conceitos sociológicos nos foram mui bem ensinados pelo eminente sociólogo Pe. Fernando Bastos de Ávila e não devem ser esquecidos.


Contudo, animar é preciso; tanger a boiama a toque de berrante é crucial; ou então pô-la a andar a ponta de lança é a saída: o poder do estado dominador e cobrador de impostos, – tal como faziam os despóticos reis medievos, – o poder do estado garante a opressão dissimulada no que vivenciamos como “democracia”. Ora!... Está aí, a pleno vapor, uma ditadura de esquerda tão ou mais viciada que o Estado Novo. E nós, cidadãos, sofremos o mando cruel de dominadores e ladrões, e não de representantes legítimos, pois o voto é o do rebanho e é em sua maioria manipulado pelo vil metal. Demais, o voto é obrigatório, excrescência tão tamanhona que se bastaria a si para confirmar o óbvio: o Brasil não vivencia a liberdade democrática, mas um totalitarismo de lobos travestidos em cordeiros.

sábado, 1 de maio de 2010

Sobre a ironia do coronel Príncipe

Nova abordagem encerrando o assunto

Os atentos bajuladores midiáticos do governante entenderam o “escoteiro” do Cel Príncipe como “ironia”. Ora, a meu ver nenhuma houve na declaração dele, mas apenas uma bem-humorada impressão e não sarcasmo em relação ao desmoralizado banditismo. Por outro lado, esta desmoralização pode ser mera tática de recuo, talvez em virtude do custo-benefício da UPP em relação ao tráfico, específica equação de resultado ainda desconhecido, não se questionando aqui o ganho da população favelada em tranquilidade. Vejo assim porque creio que a razão principal da tática de contenção dos traficantes é rechaçar seus inimigos invasores igualmente traficantes. Sim, em princípio os bandidos não estão armados para guerrear contra a polícia; fazem-no porque já se encontram na defensiva e reagem quando não conseguem fugir da investida policial. Quanto mais veloz for a incursão policial, maior a possibilidade de a contenção revidar, espécie de reação, como o jornalista Carlos Amorim sublinhou, para “desarmar a quitanda” (“Comando Vermelho – a história secreta do crime organizado”).
Com efeito, há de se garantir tempo de os traficantes “desarmarem a quitanda” (pontos de venda da droga e paióis de endolação), daí conterem a entrada da polícia como se estivessem recebendo ataque de bandos rivais. Não estão ali por causa da polícia, mas para enfrentar os inimigos que intentam conquistar seus lucrativos territórios. Para tanto, é óbvio, necessitam de efetivo e poderio bélico proporcionais à população e à topografia das favelas por eles dominadas. Essa demonstração de força dos traficantes muitas vezes se torna visível pelo uso de balas a tracejar os céus ou por rajadas sistemáticas a provar que munição não lhes falta. A polícia entra como novidade nesta roda-viva e tiroteios ocorrem na medida certa da necessidade de ocultação da droga, razão, aliás, de todas as escaramuças. Não houvesse drogas a comercializar, não haveria exércitos protegendo-as de outros grupos facinorosos. Para variar, a polícia vai também atrás da droga e efetua apreensões cujos prejuízos não interessam aos bandidos. Eles reagem, alguns matam policiais ou morrem, mas a droga muitas vezes não é encontrada, os esconderijos são mui protegidos, eis como se perpetuou a briga entre polícia e bandidos, sendo certo que entre os bandidos o objetivo é sempre a conquista do território da facção rival para aumentar os lucros. E aqui entram as UPPs...
É sabido que as UPPs não eliminam totalmente o tráfico nem recolhem armas do grosso da bandidagem, é tudo com aviso prévio... Em compensação, à surda da polícia ou com o consentimento tácito (remunerado) de policiais empenhados nas ocupações (o canto da sereia é uma realidade inesgotável e admitida pela máxima autoridade da segurança pública), o tráfico vai seguindo o seu curso rumo ao infinito. Claro que aos intransigentes defensores das UPPs não interessa desmerecê-las em nenhuma hipótese. Para eles as UPPs são “miraculosas”. Daí não haver muita divulgação dos erros em contrapartida à exagerada disseminação dos acertos pela mídia interessada nos lucros da Copa do Mundo e das Olimpíadas, ou seja, toda a mídia carioca liderada pela poderosíssima Infoglobo. Isso é tão descarado que chega a doer...
Até se entende o interesse econômico-financeiro da mídia e de seus patrocinadores, mas essa avidez não consegue se ocultar nas sombras das UPPs. Menos ainda é oculta a disposição de políticos ansiando aproveitar no seu máximo o marketing gratuito a favor da brilhante ideia das UPPs. Seja lá de quem tenha sido a ideia, trata-se de um sistema de privilégios no qual se insere o traficante, este, que não mais precisa se expor para defender seu território enquanto comercializa drogas. A polícia (UPP) está direta ou indiretamente servindo-o no melhor estilo de “defensora da comunidade”...
Não discordo de que esteja bem melhor a vida nas comunidades atendidas por UPPs. Mas a questão é que o problema do tráfico, longe de ser erradicado, é apenas parcialmente afastado para outras localidades, permanecendo nestas últimas (sem UPPs) a mesmíssima cultura dos confrontos de bandidos versus bandidos versus polícia... Tal situação discriminatória torna as UPPs um deslavado privilégio de minorias. Não que essas minorias não mereçam maior tranquilidade. Mas as outras comunidades carentes (maioria absoluta) não verão suas UPPs a não ser por jornais rasgando-lhes elogios. E esta maioria continuará a sofrer riscos de morte naqueles inevitáveis confrontos de bandidos versus bandidos versus polícia... Porque a polícia, no fim de contas, precisa mostrar serviço, e mais ainda agora que a mídia só dá espaço positivo para as UPPs.
Ah, o que faz o dinheiro... Ora, ora!... Sabemos o que faz o dinheiro desde Shakespeare (“Embora a autoridade seja um urso teimoso, muitas vezes, à vista de ouro, deixa-se conduzir pelo nariz”) ou de Cecília Meireles (“Vede os pequenos tiranos/ que mandam mais do que o Rei/ Onde a fonte de ouro corre/ apodrece a flor da lei!”)... Nesse aspecto, talvez a fala do coronel PM Fernando Príncipe tenha funcionado como um pontapé na canela de quem não quer ouvir nada diferente do discurso do poder político. Menoscabar os bandidos, como ele intentou, acabou soando como “ironia”, espécie de peido fino em elevador, que todo mundo sente o cheiro e ninguém lhe sabe a origem, a não ser que o autor o assuma e seja execrado ou até apanhe pancadas. Fedeu a fala do coronel porque desmereceu a cascata midiática adrede montada. Não houvesse ele jantado onde não devia e ninguém notaria a fala dele ou então a elogiaria sem pudor...
Bem, com estas impressões despeço-me das UPPs. Creio ter registrado para o futuro uma linha completa de pensamento. Não digo que eu esteja absolutamente certo nem me arrisco a assegurar que estou errado. O assunto por si só é polêmico, está no seu início e não terá fim tão rapidamente. Daí a necessidade do descanso... Agora pretendo me enfiar em mim para produzir alguma arte literária, modesta, é verdade, mas é minha e daqueles que me prestigiam gastando o seu (deles) tempo em leitura do que produzo. A não ser que... Ora bem, é muito difícil ficar alheio aos acontecimentos do nosso cotidiano. Mostrar o lado podre das coisas é também ofício do escritor. É o que tenho feito, esperando assim construir algo novo e melhor para a sociedade, posição assumida no meu romance O Espião:

“A esse respeito lembro Nicolai Vassílievitch Gógol, – um dos imortais da literatura universal, – quando ele diz em Almas Mortas: “Feliz o escritor que, passando ao largo das personagens enfadonhas, repugnantes, que nos expelem com o seu triste realismo, aproxima-se das personagens que mostram a elevada dignidade humana (...). Todos o aplaudem e seguem em cortejo o seu carro de triunfo (...). Ninguém o iguala em seu poder – ele é um Deus! Mas diversa é a sorte, outro é o destino do escritor que se atreveu a descortinar tudo aquilo que está diuturnamente diante dos olhos, e o que não enxergam os olhos indiferentes – todo o terrível, espantoso limo de mesquinharia que enlameia a nossa vida, toda a profunda e assustadora frieza dos caracteres fragmentados e vulgares que pululam no nosso tantas vezes amargo e tedioso caminho terrestre (...). Não são para ele os aplausos populares, não lhe será dado ver as lágrimas de reconhecimento e o entusiasmo unânime das almas por ele comovidas (...); reservar-lhe-ão um recanto desprezível no rol dos escritores culpados de ofender a humanidade, atribuir-lhe-ão os vícios dos heróis por ele pintados (...).”

Teria sido intenção irônica do Cel Príncipe mostrar o lado podre das ocupações?... Prefiro crer que não, e em tendo sido ironia a esculachar os bandidos, foi deveras oportuna... Ah, devo também acrescentar que a área policiada pelo 9º BPM é a mais violenta do Rio, principalmente em crimes de sangue, segundo muitas pesquisas universitárias. Portanto, malgrado os motivos “alimentícios e festivos” da mudança, temos o profissional certo no lugar certo...