domingo, 31 de janeiro de 2010

Tributo ao herói PM

Postei o comentário no artigo referente, mas achei pouco. Um testemunho como este, gravado com lágrimas de sofrimento de quem perdeu entes queridos que vestiam a farda da corporação, honrando-a, não pode ser guardado e em escaninho tendente ao rápido esquecimento. Não conheço a autora e nem nome ela precisaria ter. O seu texto fala por si e vai à reflexão dos leitores na íntegra (sic):



"NEIDE deixou um novo comentário sobre a sua postagem "A eternidade do crime II":

Graças a Deus ainda temos o privilégio de poder contar com seres humanos realmente preocupados com a dignidade e os seus direitos sem ter que lutar por eles, por um mundo melhor onde se possa andar nas ruas, a qualquer horário sem receio do que possa nos acontecer, sabendo que hoje em dia os direitos humanos só se fazem presente para aquele que não o faz por merecer. Se um policial mata um bandido, ele ainda responde judicialmente pelo seu ato, mas, quando o fato ocorre ao contrário, nada se faz. Acham que uma simples cerimônia onde armas são disparadas ao chão, fossem apagar dos corações dos seus familiares a mancha negra da revolta e da impunidade desses indivíduos que na minha opinião não podem e não devem ser chamados de seres humanos. não é admissível que simplesmente se receba um aperto de mão de pêsames dos que fazem parte da bancada superior. E o pior de tudo, é que esse gesto se tornou um hábito onde esse superior, saindo dali, volta a sua rotina como se nada houvesse ocorrido de anormal. Mas o coração daqueles que ficam, quando muitas vezes já não é a primeira vez que esse episódio acontece em sua família, de se perder um irmão de farda, esse coração jamais terá o mesmo rítmo cardíaco. Fico pensando se vale a pena viver assim, com medo de enfrentar a realidade e partir para uma conquista a qualquer custo e uma tentativa de mudança, pois, se continuar desta maneira, haverá o dia em que só poderemos sair as ruas com a permissão dos bandidos.
Direitos humanos sim mas, para aquele que realmente lutou, fez valer o uso da farda enquanto vivo, porque a farda militar foi criada para podermos distinguir o bandido do policial. Apesar de já ter perdido dois irmãos de farda em exercício da sua profissão, continuo acreditando que existem homens de bem que não desistiram de honrá-la e o demonstram no seu dia a dia. O joio apesar de crescer no meio do trigo, ele tem de ser estirpado para que não o impeça de crescer e dar o seu fruto. Só peço que esses policiais do bem, não desistam, continuem a sua luta, pois, se desistirmos, estaremos dando a certeza a esses meliantes de que a honra já não vale mais nada e eu digo que quando se perde a honra, se perde tudo na vida. Tenho o prazer de conhecer policiais que me fazem lembrar muito do meu irmão Rodrigues que foi assassinado em 2003, próximo ao Maracanã e devo dizer que esse fato veio a acarretar o falecimento do nosso pai, 04 meses depois devido ao desgosto e ao choque que foi muito forte para o seu coração já numa idade de 85 anos e que perdera a companhia de minha mãe 02 anos antes, Em momento nenhum recebemos contato algum com os senhores responsáveis pelos tais direitos humanos que a meu ver a ao ver da maioria da população, só funciona para quem comete delitos mortais.
Sempre peço a Deus que ponha seu escudo a frente dos nossos verdadeiros defensores da lei nesse país que são os nossos POLICIAIS.
OBRIGADO A TODOS VOCES. SARGENTO CREAZOLA, QUE DEUS TE ILUMINE SEMPRE POR ONDE CAMINHARES, QUE SÃO JORGE TE PROTEJA COM SEU ESCUDO E SUA LANÇA E QUE SÃO JERÔNIMO TE AJUDE SEMPRE A FAZER JUSTIÇA POR TODOS OS DIAS DE TUA VIDA. CONTE COM A MINHA ADMIRAÇÃO, O MEU CARINHO, AGRADECIMENTO E AMIZADE.
DEUS VOS PROTEJA SEMPRE.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Eia!...Eia!... Chegou o Carnaval!

Foto do jorna EXTRA


Foto do Jornal O DIA

A sambista tenente PM Fem

Tudo é festa, menos para a PMERJ, que se enfia em regime de sobreaviso ou prontidão e trabalha duro nos dias de folia. Entra Carnaval, sai Carnaval, e a cena se repete... Não desta feita! Nesse Carnaval de 2010 há a grande novidade: uma mulher, tenente PM Fem, devidamente autorizada, segundo o noticiário, será rainha de bateria de uma Escola de Samba. E aqui está o epicentro da polêmica que sugere ser ao menos interessante: tem-se a tradicionalista e bicentenária corporação militar estadual, que outrora punia o infrator disciplinar até com pranchada – sua cultura apolínica; mas, concomitantemente, servia cachaça à tropa como complemento alimentar em dias festivos – sua cultura dionisíaca. E neste cenário confuso emerge do anonimato a moça boazuda que gosta de brincar o Carnaval e está convidada a ser rainha de bateria, propondo-se a cumprir as regras artístico-narcisistas da função, incluindo-se, talvez, tapa-sexo. Sim, como a nossa Eva do Adão. Nada de mais além do fato de ser a sambista tenente da briosa. Desta feita, porém, a farda será o seu corpo nu tremeluzindo em lantejoulas e outros brilhos carnavalescos...
A curiosa circunstância põe no foco da atenção da tropa uma inevitável situação: como será a escala de serviço dela, já que nos dias momescos a escala é tão apertada que nem oficial escapa. E se a sambista estiver escalada de serviço no dia/noite do seu desfile? A escala normal a que seria submetida será alterada ou será ela dispensada para facilitar sua empolgada pretensão? Bem, tudo isto é superável. Basta o comandante dela ajustar o tempo e... Pronto!... Lá estará a PM Fem caindo na gandaia, sendo apreciada por multidões, não mais por ser uma bela mulher, lugar-comum na nossa terrinha apinhada de mulheres lindas, mas por ser uma lídima PM Fem. Claro! Sim! Sim! Por ser PM Fem!... O que levará à mesa do café, do almoço, do jantar e dos drinques intramuros e extramuros dos quartéis a indagação: “Isto é normal ou anormal?”
Não! Sim!... Não? Sim?... Não é anormal? Nem normal?... Ora, é apenas inusitado, e talvez a corporação não esteja preparada para tanta liberalidade. Ademais, seus regulamentos decerto deixarão a moça à beira de um abismo, porque ela estará marcada para o resto do seu tempo na PMERJ, esta que, por sinal, é arraigada às suas tradições monárquicas, imperiais e republicanas e tangida por um militarismo que, por esta hora, está de nariz torcido. Por isso me vem uma ponta de dúvida quanto à normalidade do fato, mesmo que o comando-geral, – submetido aos mesmos regulamentos tacanhos, – tenha autorizado a moça a cumprir o seu “sonho de uma noite de verão”. Ah, pode ser que sim, pode ser que não, a autorização, se houve, tornou normal a pseudoanormalidade. Mas, futuramente, pode de haver cobrança e pagamento!... A sambista-tenente-pm-fem tornar-se-á devedora não se sabe de quanto, de quê ou de quem.
Quanto a mim, vejo a decisão do (a) tenente PM Fem com uma dúbia visão: a da arte que envolve a festa, – e a arte não pode e nem deve ser cerceada num país democrata, – ou de puro narcisismo; pois, enquanto a Escola de Samba conta uma história no samba-enredo, e as alas fantasiadas seguem encenando-o em fantasias múltiplas e anônimas, e a bateria cumpre sua tarefa de fazer marchar a Escola de Samba, a rainha de bateria se destaca por sua fama anterior: atrizes, modelos etc. Ou então são mulheres das comunidades referentes às Escolas de Samba, claro que possuidoras de dotes dionisíacos...
Bateria e rainha são unas; eis a conta: 1+1=1; e, deste modo uno, Fermatiano e inversamente Globalístico (o todo maior que a soma das partes: 1+1=3), ambas percorrem a pista de desfile e cumprem suas finalidades. A da bateria é garantir a harmonia do samba e a empolgação dos foliões, e espectadores, e telespectadores, e jurados, e ouvintes, e da mídia em geral. A da rainha de bateria é empolgar essa galera toda sem receber nota (grau) alguma. Quanto ao cachê... Com ou sem, – e mesmo assim, – a rainha de bateria tornou-se tradição em todas as Escolas de Samba. Isto não se discute: ela é instituição carnavalesca.
Vistos etc., a questão passa a ser moral e ética, e por esta via decorre a indagação fundamental: “É possível conciliar samba e farda?” O meu lado artista diria que sim; o meu lado militar estadual tenderia ao não, porém parcimonioso. Com efeito, um dilema traduzido por duas escolhas no mínimo polêmicas. Se a corporação proibir a moça de desfilar, acrescerá ao seu currículo mais um gesto tacanho, o que não interessa à sua já desgastada imagem pública. Por outro lado, a corporação existe bem mais para proibir que para permitir no seu dia a dia e deve fazer jus a essa imagem desagradável. Mas, se a corporação permitir, os críticos de plantão questionarão o absurdo e o final da história tende a ser desagradável. Como sempre... Aliás, cabe a indagação: “Por que a corporação tem de permitir ou proibir?” (Pergunta que ouvi do Cel Jorge da Silva em boa hora, ao trocar ideias com ele sobre o assunto deste texto ainda em construção).
Cá pra nós, seria o fato um absurdo ou apenas inusitado? Ora bem, que fique também a indagação no papel para respondê-la o prezado leitor. Porque, na minha idade, nem mais sei como opinar; para mim, mulher é quase que poste quando não me injeto testosterona (tcs, tcs, tcs). Em opinando, porém, talvez eu sucumbisse aos dogmas do militarismo, – aos quais me submeti nem tão docilmente assim, – e crucificaria a PM Fem... Ah, nem tanto assim! Parece inveja... Afinal, discordei e discordo de muitos dogmas corporativos e ignorei outros tantos nos velhos tempos. Então, numa boa, e jogando para a platéia, acharia ótimo o inusitado e aplaudiria a sambista... Não! Não! Não vou de A nem de B! Deixo com vocês...
Que dilema!... Mas meus olhos desfocados, que a terra há de comer, apreciarão vesgamente a sambista sem lembrar a PM Fem. Ou, mesmo cegueta, eu abraçarei ainda mais Dionísio enxergando em feiticismo a PM Fem sambando fardada... Hum, olha eu me entregando aí, gente!... Porque, para mim, salvo melhor juízo, o inusitado é que tem transformado o mundo. No fim de contas, inusitados e sonhadores foram Einstein, Da Vinci, Galileu e tantos outros cientistas, escritores, poetas e compositores que romperam dogmas em seus momentos fugazes da vida, nos quais a juventude e a beleza se inserem e são vencidas num átimo.
Por falar em dogmas, será a “sambista tenente PM Fem”, por seu gesto, crucificada e tornada mártir? Vale a causa um tostão?... E se ela estivesse, com fantasia politicamente correta, tocando bumbo na bateria da mesma Escola de Samba? Teria a atenção de alguém? Sim? Não?... Não é, na essência, o mesmo comportamento tão comum entre militares federais e estaduais que lá estão enfiados anonimamente? Ó folia! Que aproveitem todos! E, por mim, que a moça vá reinar e sambar! Quero ver o espetáculo, com ou sem “a” tenente-sambista-rainha-de-bateria em cena... Pior (já imaginaram?) se fosse “o” coronel (anônimo) a rebolar em frenesi no alto de um carro alegórico... Hum... Será que existe algum militar federal ou estadual com essa vontade enrustida?... Ah, deixe estar, espero que ao fim e ao cabo do espetáculo carnavalesco não haja nenhum “castigo-espetáculo”, e, por conta do Carnaval, Apolo e Dionísio se abracem e sambem deveras!...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Zará & Zorô


- Mais uma cevelginha, Zará?
- Não, Zorô! Olha a Lei Seca!...
- Que qui tem, Zará? Eu num tenhu carro. Andu di âmbus.
- Cê burro, Zorô! Num é âmbus, é ânibus...
- Cê viu o jorná O GLOBO di hoje, Zará?
- Como, Zorô. Num tenhu grana pra comprá jorná di rico.
- Eu vi na poltaria da segurança, Zará. Tem um moço qui pedi pro povo dá bom-dia a nóis quando passá pur nóis.
- Pô, Zorô, si mi dé bom-dia, mandu o cabra pra puta qui pariu!
-Qui é issu, Zará?
- Foi u tenenti qui mi falô, Zorô. Eli dissi que o único dia bom pro PM é o dia da merreca. Mas disse qui é como apertá apêndici supirado nu nossu buchu. Num dói nada, mas quandu sorta...
- Ah, sei, quandu discompressa...
- Qui discompressa, nada, Zorô. Cê é besta mermo! É quando discumprime. Invez di aliviá, dói paca!
-Ah, Zará, o tenenti tá celtu. Dá bom-dia pra PM é sacaniá eli na hora. Eu achu que dô uma porralda no sacano qui mi dé bom-dia.
- Eu tomem, amigão. Se dé mau-dia, tá celtu, tá respeitandu nossa disgraça, aí eu aceitu e arrespondu pra eli com um bom-dia.
- Sabe di uma coisis, Zará, vô mi candidatá a trabaiá na UPIS.
- Como, Zorô? Ocê é veiote. Na UPIS só trabaia novinho em folha. Véio tá fora. A num sê qui ocê trabaie na sua favelis. Ocê é faveladu mermo.
- Veldade, Zará! Vô trabaiá aondi eu mi escondo, lá na favelinha. A bandidagi mi respeita, é tudo criadis cum meus fios.
- Eu tomém possu trabaiá ni minha favelis, Zorô. Sô faveladis ínguá a ocê.
- Antonce vamu nóis dois pra UPIS. Trabaiá pertu di casa devi di sê bom, Zará.
- Qui nadis,Zorô. Devi di sê bom nadis. Vamo deixá comu instá. É mió assim. Tá na hora di nóis pulá du barco. Vamo reformá qui é mió.
- É, Zará, mas na favelis us faveladis é amigus i dá bom dia pra nóis...

ENTREVISTA DO COMANDANTE-GERAL NA REVISTA DA AME/RJ





quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sobre a prevenção primária na segurança pública II

PROGRAMA JOVENS PELA PAZ

Antigamente, a missão da PM como polícia administrativa (restrita à defesa pública, excluindo-se desta reflexão a defesa interna e a defesa territorial) resumia-se a prevenir e reprimir a contravenção e o crime. Ainda hoje a prevenção, – missão precípua da PM, – representa-se pela máxima frequência do policiamento nas ruas a inibir a oportunidade de ocorrência do delito. Sob esta ótica simples, – muita vez entendida como simplória, – a visualização do PM pelo potencial infrator se bastaria a si própria. E, quando não se bastasse, o PM prenderia o delinquente, lavrando-se o flagrante na DP. Esta típica ação de polícia judiciária, por sua vez, seria inibidora da vontade de o indivíduo delinquir, ação acrescida, ainda, da possibilidade de a investigação criminal alcançá-lo posteriormente. Claro que o estímulo à repressão, – principalmente sob a forma de cobranças midiáticas, demais de outros fatores endógenos e exógenos, – não permitiu que o modelo funcionasse a contento...
Atualmente, com a participação mais ativa da sociedade junto aos poderes públicos na resolução dos seus problemas, há um importante despertar dos segmentos comunitários e societários. Mas, se antes a segurança pública se restringia àquele mínimo operacional, hoje ela se desdobra em fragmentos verdadeiramente quânticos. Se tudo antes era absoluto, hoje é relativo. Mais que relativo, é incerto. Vivenciamos o “se/então”, e as surpresas que inundam o ambiente social hodierno provocam enchentes caóticas no particular mundo da contravenção e do crime, com as instituições policiais estagnadas em espanto. Ambas tentam, é verdade, desatar seus nós de ineficiência e ineficácia, mas não conseguem. Inventam e reinventam saídas miraculosas, porém tudo retorna à estaca zero. Reagem então aos acontecimentos delituosos sempre com maior potencial de violência, e essa violência tem apenas gerado mais violência, acelerando assim o círculo vicioso. Como sair dele?...

Eis o cenário em que emerge a PREVENÇÃO PRIMÁRIA como uma espécie de “terceira via” na segurança pública...

A expressão é costumeira na saúde física ou pública, mas vem ganhando força no contexto da “saúde social”, ou seja, no âmbito da segurança dos cidadãos contra delitos a partir de providências multivariadas, incluindo-se as de salubridade, esta que também influencia a ordem pública. Mas não poucas vezes confundimos prevenção primária com prevenção de polícia administrativa (prevenção policial); talvez porque o vasto conceito da ordem pública – tendo na segurança pública a sua garantia – culmina abarcando a prevenção primária em todos os seus matizes e texturas, e são muitos... No fim de contas, na ordem pública incluem-se as situações de tranquilidade, salubridade, estética etc., demais de muitas outras que direta ou indiretamente interferem na paz social. Então, nada demais incluir na prevenção primária as situações aparentemente dissociadas da segurança pública, mas que, depois, poderão incidir favoravelmente na diminuição da criminalidade e da violência em geral. Ou no seu aumento, caso a prevenção primária seja ignorada no contexto policial.
Afastando-se os academicismos, os dogmas e as ideologias, e iniciando o raciocínio pelo polissistema social, pode-se concluir que ele possui uma organização (estrutura) e uma ordem (pré-requisito de funcionamento). Esta ordem mais abrangente é a ordem social (ser), da qual decorre a ordem jurídica (dever ser). Nesta sequência, – e a partir desta última (ordem jurídica), – exsurge a ordem pública também com seus vieses materiais (ser) e formais (dever ser). Deste modo, a organização e a ordem se desdobram indefinidamente em sistemas e subsistemas menores, até esbarrarem na prevenção primária como espécie de “semente do bem” a gerar comportamentos saudáveis. Portanto, quanto mais se semear o bem, mais o seu fruto será colhido, eis o ideal de paz e harmonia na convivência social...
O corpo humano reproduz um exemplo simples do que seja um sistema aberto, com sua organização (os aparelhos ou subsistemas que o compõem) e sua ordem (pré-requisito de funcionamento saudável desses aparelhos ou subsistemas). A doença é a desordem, sendo certo que existe uma desordem no organismo humano (entropia) que é restaurada por seu próprio sistema de defesa (homeostase). Daí dizer-se que a ordem pública é capaz de se restaurar sem intervenção policial. Por outro lado, existem doenças que atacam o corpo humano e determinam ações externas (anamneses, medicamentos, cirurgias etc.) para também garantir a homeostase (equilíbrio do sistema). O corpo social é semelhante ao corpo humano (sistemas abertos), embora o primeiro seja ainda mais complexo, e por isso nele se insere a prevenção primária como um sistema de defesa natural e anterior à intervenção policial, porque nesta os resultados daquela outra repercutem sempre positivamente.
Não se pode pensar em saúde nem em prosperidade de um povo em meio a desordens, sejam públicas ou privadas. Nesta última hipótese, o ordenamento jurídico pátrio prevê modos de atalhar excessos e riscos à convivência social, bastando o prejudicado se antecipar na denúncia de algum ato punível por lei antes que se configure dano à ordem pública. A pensão alimentícia é um exemplo excelente a demonstrar como a Justiça funciona primariamente para preservar a ordem pública. A pressão judicial contra o inadimplente de má-fé poderá levá-lo à prisão para assegurar a ordem pública. Já a ordem pública como objeto da segurança pública implica visualizar a intervenção de outro poder (Executivo), que age executória, discricionária e coercitivamente para garanti-la no seu primeiro momento, antecipando-se à própria coerção dos crimes tipificados. Dessa multifacetada intervenção policial para coibir desordens não tipificadas como crime ou contravenção emerge o Poder de Polícia como poder instrumental do Estado. Trata-se de fundamento (potencial) do Ato de Polícia, que deve estar juridicamente contido nos seus limites, que são as liberdades, a legalidade e as garantias individuais. Porém, em havendo o crime o sistema se movimenta até incluir a ação da polícia judiciária, tudo posto num só continuum a abarcar as duas funções que informam a atividade policial no seu todo indivisível: a de polícia administrativa (Polícia Militar) e a de polícia judiciária (Polícia Civil). Claro que, após a ação da polícia judiciária, entram em campo o Ministério Público e a Justiça respectivamente denunciando e sentenciando o autor e culpado de contravenção ou crime, o que não interessa aprofundar.
Tornando o raciocínio, pois, à atividade policial, quando se fala nas duas funções não se pode segmentá-las em partes dissociadas. Daí o continuum, o que implica considerar no mínimo estranho o exercício dessas funções por polícias distintas. É, todavia, o modelo policial pátrio engessado na Carta Magna, para desgraça da sociedade brasileira. Todavia, enquanto nada é mudado o jeito é atuar contra a desordem com os meios disponíveis e da forma estrutural e conjuntural como está posta no nosso torrão. E quanto mais se pensar em prevenção primária, melhor será para a sociedade. Para tanto, porém, as comunidades devem ser vistas como entes diferentes e dependentes de atenção específica. Por mais próximas que estejam entre si, elas demandam anseios e valores diferenciados. Se se considerar como comunidade (subsistema) um bairro, há de se pensar nos seus próprios problemas a serem diagnosticados sob a ótica da prevenção primária. Quando a comunidade, por exemplo, anseia por iluminação, o poder público deve perceber que este anseio específico se vincula à síndrome da insegurança. O seu atendimento eliminará temores individuais, repercutindo agradavelmente no estado geral de bem-estar e paz. Enfim, – e sob a ótica da prevenção primária, – todas as providências que direta ou indiretamente influam no aumento da sensação de segurança guardam, na essência, o conceito de prevenção na ordem pública.
A mudança de cultura da prevenção e da repressão restritamente policiais para a da prevenção primária inclui a ideia do policial comunitário. O policial não deve ser visto como um “ET” no seio da comunidade. Antes de tudo, ele deve ser aceito e se aceitar como um prestador de serviço público. Claro que em ambientes violentos, – num primeiro momento, – a presença policial é antipática, eis que imediatamente repressora. Nem passa pela prevenção policial; ingressa direto nas ações repressivo-operativas, que são extremamente perigosas tanto para o policial como para os cidadãos ordeiros. Ocorre, porém, que nem todos os ambientes sociais são violentos; nem todos os bairros se incluem nesse extremo; nem todos os Municípios sofrem de males idênticos, o que implica focar a prevenção primária e a atividade policial como serviços essenciais não-violentos, ou seja, apenas como interventores amenos ante conflitos (desordens) que muitas vezes se restauram naturalmente, como se afirmou aqui. Isto significa abominar a violência como regra para situá-la no seu papel de exceção, o que, efetivamente não é fácil, mas não é também impossível.
Neste ponto, muitos poderiam contestar afirmando que a violência é tão generalizada que não há como a PM cuidar de “abobrinhas”. Mas, em contrário, ela já cuida de ações não-criminosas em larga escala, bem mais até que de prevenção ou repressão ao crime, o que poucas gentes sabem. O que é preciso, em primeiro lugar, é o policial ser conscientizado de sua importância ao comunicar a algum organismo responsável pela manutenção de vias públicas assuntos como: lâmpadas queimadas ou ausência de iluminação; buracos destruindo veículos e aumentando o risco de acidentes; semáforos defeituosos; bueiros de escoamento d’água sem tampa e outras situações cujo contexto particular incide negativamente sobre ordem pública e culmina exigindo alguma intervenção policial. Os problemas são infindáveis e variam de lugar para lugar. E não cabe ao policial ignorá-los sob o pretexto de que está esperando ocorrer algum delito para agir. Trata-se, na verdade, de valorização de uma cultura de prevenção primária que geralmente passa ao largo das administrações públicas e dos usuários de serviços públicos. Afinal, os cidadãos não imaginam uma polícia-parceira exigindo junto aos organismos públicos o cumprimento de finalidades para as quais eles contribuem com pesados impostos. Infelizmente, nem a polícia se imagina assim...
A prevenção primária é vantajosa em todos os sentidos e ilimitada em suas finalidades sociais. Só como exemplo, quando o governo Garotinho lançou o projeto social “JOVENS PELA PAZ”, durante bom tempo quase dez mil jovens favelados garantiram o sustento honesto de si e de seus familiares e se afastaram dos encantamentos do crime. Esses jovens elevaram a autoestima e prestaram concomitantemente um importante serviço às suas comunidades. São iniciativas assim, de vasto e profundo alcance social, que se inserem na prevenção primária. Na verdade, a prevenção primária depende de interação entre os organismos públicos e as comunidades a que servem. A polícia, por estar presente em todas elas, não pode ficar alheia. Muito em contrário, deve ser a primeira a estimular reuniões para tratar de identificar os anseios dos cidadãos que, não atendidos, culminarão repercutindo negativamente na segurança pública. Portanto, a prevenção primária em geral, relevando a educação de qualidade em tempo integral (vital à criança e ao adolescente carentes), é um poderoso elo entre a polícia e os usuários dos seus serviços: os cidadãos. Tal liame, que anda esquecido, resume-se a duas ações permanentes e dinâmicas, porém dependentes de vontade política e do entusiasmo da polícia: articulação institucional e integração comunitária.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O fusca maldito

Aconteceu num paupérrimo bairro de São Gonçalo, em rua sem pavimentação, com valas a céu aberto escorrendo ao valão a escoar suas águas fétidas na baía de Guanabara. Nesta rua de chão batido havia uma aglomeração que parecia festa, as gentes todas saindo ao mesmo tempo das casas com o fim de participar de um ato insólito: admirar um fusca. Sim, era o primeiro fusca, ou, mais precisamente, o único que passaria a habitar naquela rua por conta de um feliz cearense: Rosemiro. Ele comprara o fusca devido à sorte que o bafejara na véspera: jogara no bicho e acertara o milhar.
Muitos dos que admiravam o fusca de Rosemiro achavam-no louco varrido. Morando de aluguel, eletricista de profissão, pobre, ele não devia ter comprado aquele fusca. Assim pensavam seus vizinhos. Esperavam que ele adquirisse a casa em que morava com a mulher – Glorinha – e o filho de dez anos – Marquinho.
A casa era simples. O dinheiro daria para comprá-la e fazer algumas reformas; talvez até ornamentá-la com mobiliário novo. Mas não, Rosemiro não fez nada disso. Entrou, sim, numa loja de automóveis, e adquiriu a preciosidade: o fusca topo de linha, o mais caro. E, não satisfeito, acrescentou todos os acessórios que lhe ofereceram, ficando o fusca um encanto: rodas de magnésio, toca-fitas, capas de couro, buzina flautim, faróis de milha, garras especiais nos para-choques; enfim, tudo que entendera ter direito, e nada mais colocara porque nada mais havia para adornar aquele carro que mais parecia gente, tal a paixão de Rosemiro.
O fusca, cor azul do céu, cintilava de novo deslumbrando os vizinhos. Rosemiro exultava. Ali, porém, nem todos compartiam seu sentimento. Além dos sinceramente alegrados com a sorte dele, havia os invejosos fingindo-se indiferentes... E alguém bastante enfurecido: Marquinho, o filho, até então a única paixão do felizardo.
Sentado à beira da calçada, Marquinho ruminava a sua ira contra o pai, que lhe negara uma bicicleta. Empolgado com o fusca Rosemiro esquecera o filho. Era só o fusca e nada mais o objeto da sua atenção e de todos os vizinhos. Foi neste momento que Marquinho, furioso, riscou o fusca de cabo a rabo com um prego. Toda a gente em volta soltou um uníssono “Oh!”, enquanto o garoto disparava pela rua, o pai atrás dele, em cólera bestial, brandindo na mão direita a peixeira.
Todos se espantaram com a cena, tornada dramática quando Glorinha partiu atrás de ambos, suplicando a Rosemiro, em brados histéricos, que não maltratasse o filho. Que nada! Quanto mais ela gritava, mais enfurecido ele ficava. E correu até alcançar o apavorado menino, de súbito estacado, olhos esbugalhados fitando o pai. Rosemiro bufava desvairadamente. Não reconhecia o filho. Via apenas o pivete que estragara sua preciosidade. O pai desferiu um golpe de peixeira decepando a mãozinha que ainda segurava o prego. Não satisfeito, arremessou-a no valão fétido. E lá se foi a mãozinha do filho, agarrada ao prego, ao sabor da correnteza, punida por arranhar o carro novo do pai.
Cena terrível! O povo partiu em socorro do menino, enquanto um grupo indignado avançava contra Rosemiro com o intuito de linchá-lo. Havia uma revolta generalizada, e, não fosse a providencial chegada da polícia, Rosemiro teria sido trucidado.
O menino foi levado ao hospital em estado de choque. Glorinha, a mãe, desesperada, foi ao fusca e ateou-lhe fogo. O fogo lambeu raivosamente o fusca e dele restou uma carcaça carbonizada e inútil. Nada de fusca; a família destroçara-se. Rosemiro, em egoísmo e insensatez, perdera o fusca, o filho e a mulher. E a liberdade... Tal como o fusca maldito, a família tornara-se cinzas...
Marquinho foi operado e posto fora de perigo. Porém, não parava de clamar pelo pai, de tal modo que os médicos, preocupados, fizeram contato com a delegacia e apelaram para que levassem Rosemiro à presença do filho.
Rosemiro caíra em si da loucura, estava arrependido, carregava uma profunda tristeza. Assim chegou ao hospital, escoltado pelos policiais, e foi ter com o filho. E viu-o sem a mãozinha direita, o pequeno punho enfaixado, olhos tristonhos, fisionomia de dor. E o menino, ao avistar o pai, disse-lhe sem rancor: – Oh, pai, me desculpe! Amo você! Eu juro que nunca mais arranho o seu fusca! Mas, por favor, devolve a minha mãozinha
!...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Alvíssaras!



Faz tempo que espero uma notícia boa, nascida de iniciativa intramuros da PMERJ. Eis uma que merece aplausos, pois se trata da retomada de nossas origens comunitárias.
Como orientava Henry Ford: "O que deve ser feito deve ser bem feito!"
Por mais que inventem e reinvetem novidades, nada substitui o policiamento comunitário. É por esse caminho que a PMERJ retornará à simplicidade eficiente e eficaz da prestação de serviços policiais à população, bairro a bairro, rua a rua, cuidando primeiramente dos problemas menores, e deles partindo ao ataque dos maiores, num sistema saudável de seletividade do uso da força.
Por sinal, a força é o fim da linha da atividade de manutenção da ordem pública. O serviço é a base de sustentação da corporação e meio de resgate do melhor conceito perante a sociedade.
Quanto mais prestação de serviços, menor será a necessidade de uso da força no labor policial.

domingo, 24 de janeiro de 2010

As ocupações (UPP) e seus efeitos paralelos

Sobre a entrevista do Comandante-Geral da PMERJ (Caderno Niterói de O Globo, de 17 de janeiro), comentada neste blog.

Vasta reportagem, – com chamada de primeira capa de O Globo de hoje, 24 de janeiro de 2010, e conteúdo extenso, – confirma o que dissemos no comentário em sublinha: os traficantes expulsos das comunidades ocupadas por UPP estão realmente migrando para as circunvizinhanças da Capital e praticando alguns crimes graves como assaltos e sequestros. Também a reportagem informa que os “hóspedes” das favelas para as quais se deslocaram não estão participando dos negócios locais e buscam dinheiro por outras vias, instituindo uma nova modalidade de violência. A questão é acompanhar de perto os danos causados por essa inevitável turbulência social, de modo a atalhá-los antes que fujam do controle estatal.



Complemento da leitura acima

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sobre o acantonamento das UPP

Todo sistema há de ser dinâmico para sobreviver. A renovação é imperativa ao sistema aberto. Mesmo uma obra feita em concreto armado, se não receber manutenção continuada, tende à entropia e ao desmoronamento. Cientistas são unânimes em assegurar que a obra do homem no planeta Terra despareceria totalmente em dez mil anos de ausência humana. Parece, a princípio, um tempo absurdo. Afinal, dez mil anos são cinco vezes o tempo do nascimento de Jesus Cristo no calendário cristão. Mas imaginamos aqui os cinco bilhões de anos que o planeta tem desde que era uma bola de fogo, idade que torna os dez mil anos um átimo. Portanto, a homeostase do sistema deve ser constante e dinâmica. O ostracismo é um perigo à homeostase de qualquer sistema, em especial o sistema humano. Mesmo o corpo, se permanece em repouso, deteriora-se antes do tempo. Do mesmo modo, há de haver o equilíbrio das coisas, pois “o excesso em tudo é um defeito” (autoria desconhecida). Ou, como nos ensinou Horácio (Sátiras, I, 1, 1060): “Há uma medida nas coisas”.
Introduzo deste modo para falar das ocupações. Vejo-as, numa primeira fase, como resultado das operações do BOPE, sempre na medida certa r eficazes quanto aos seus fins imediatos. O BOPE, porém, não é tropa de permanência, mas de combate e eliminação. No caso particular das favelas ocupadas por UPP, as ações do BOPE foram eficientes (a estrutura do BOPE é compatível com os objetivos a alcançar) e eficazes (os resultados alcançados correspondem aos objetivos estabelecidos). Até este ponto, podemos nos acalmar, o BOPE é efetivamente uma tropa típica de “Comando” (“Grupo militar especializado em missões rápidas em território hostil.” – Aulete).
A tropa de ocupação, todavia, representa o contexto mais delicado dessas operações policiais. Fixada no terreno, sua missão de desdobra em duas vertentes básicas: defender a comunidade contra as prováveis investidas paramilitares do tráfico e manter a ordem pública na favela por meio de ações preventivas e repressivas constantes, por imposição do próprio ambiente favelado. No primeiro e no segundo casos há de haver seletividade do uso da força de modo a evitar as surpresas que ocorrem constantemente nas ruas e logradouros asfaltados. São inúmeros os ataques de surpresa e assassinatos de policiais fardados, em viaturas caracterizadas, perpetrados por bandidos que agem como terroristas. Como a tropa de ocupação tem de ser fracionada em escalas e percorrer pontos diferentes e distantes das favelas ocupadas, manter efetivos compatíveis com o policiamento preventivo e repressivo e, principalmente, com os riscos futuros de ataques de grandes contingentes de facínoras, é fundamental ao êxito do subsistema denominado UPP. E tarefa difícil... Eis onde mora o maior perigo, pois é certo que o improviso é marcante no processo de ocupação, a começar pelo aquartelamento disponibilizado para tal fim: contêineres.
Tenho dúvida sobre o caráter permanente das UPP. É, contudo, a proposta anunciada e efetivada até agora. Claro que, presumo, os contêineres são temporários. Não resumem o que se poderia denominar aquartelamento, embora eles existam, pré-fabricados em aço, como demonstram as imagens feitas no Afeganistão (Cabul). As fotos são reais e obra de um sobrinho meu que esteve por lá como integrante da Legião Estrangeira. É possível, pois, comparar um autêntico quartel de aço com um contêiner. O primeiro é para abrigar pessoas; o segundo é para transportar carga (“Contêiner. Receptáculo de dimensões, materiais e formas diversas destinado a acondicionar mercadorias a serem nele conservadas ou transportadas em navios, trens etc; cofre de carga.” – Aulete).
Com efeito, a dúvida faz sentido quanto à capacidade de movimentação do efetivo fracionado nas ruas e vielas das favelas, de modo a manter a ordem e ainda proteger a comunidade contra os ataques de fora, que, por sinal, podem ser direcionados primeiramente contra a guarnição fracionada quiçá aquém do imprescindível. É preciso fixar mui bem a preocupação para que não digam depois que não sabiam... Faço-o, pois, a partir do conjunto de fotos dos contêineres da UPP da Ladeira dos Tabajaras e o quartel de aço de Cabul. Que o
leitor conclua o resto!...

LADEIRA DOS TABAJARAS:





Cabul:






quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sobre o meu fim, sem querer saber quando...



Hoje, sem muito assunto, não resisto em alfinetar quem se pensa eterno. Afirmo, pois, que se morre diariamente. A morte faz parte do finito continuum da vida terrena: nascimento-crescimento-decreptitude-morte... Porque nada sabemos do antes nem do depois... Bem, nos tempos Del-rei, nem assim tão longínquo, morria-se tísico aos vinte. Aos quarenta, era-se velho. Isto, porém, é passado, e estando certo Santo Agostinho, “o passado não existe”... Mas hoje, depois das seis décadas que vivi, as notícias de falecimento de antigos companheiros e amigos se avolumam. É assim depois dos sessenta: abundam obituários de gentes boas e ruins. No fim de contas, a Dona Morte é democrática... Ah, talvez tudo isso seja uma espécie de preparo para enfrentar o fim. Mas não pensei nele, no fim, antes dos doze lustros; fui otimista, muitos nem chegam neste meu estádio temporal. Dei sorte! Na profissão policial, é luxo viver tanto. Não falo de morte por tiro ou acidente. Falo dos estresses que nos assolam a cada dia de incompreensões. Nem me refiro às extramuros da caserna, mas às intramuros que tanto nos desgastam. Por conta da disputa de um falso poder e suas indefectíveis solenidades, as desavenças são muitas; destroem-se as decenárias amizades e a saúde enquanto os peitos se enchem de medalhas e os ombros, de galões. Por isso, de uns tempos para cá me venho afastando de alguns ou afastando alguns de mim ou sendo afastado por alguns... Cônscio, portanto, de que estou caminhando lentamente para o túmulo, como todos os que gravitam a minha idade (63), o que menos desejo é presença indesejável no meu velório. É verdade, numa boa, “não quero choro nem vela” de pessoas que, no fundo, se sabem excluídas do meu coração, e também “não quero fita amarela gravada com o nome dela”... Não que essas pessoas estejam inseridas no meu descontentamento; não me sinto descontente com ninguém a não ser comigo mesmo. Nem tanto descontente de mim como um todo, mas com a minha burrice, com a leviandade no uso do meu tempo, com as minhas impaciências, com os meus defeitos morais etc. Estou descontente de mim, sim, mas espertamente me perdôo. Assim seguirei mais livre, leve e solto ao além ou ao aquém, sei lá. Sei que sou feito de átomos com funções que serão outras adiante, e que já se prestaram a ser árvores, postes ou pontes antes de mim. Ainda poderei ser concomitantemente mosca, abelha, chipanzé, elefante, ameba, ou estarei integrado a um machado perfumado do sândalo por ele tombado. Ou... ah, não me importa o que fui ou serei! Sei que agora sou... feito de átomos e sempre estarei vivo, consciente ou inconsciente disso (“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” – Lavoisier). Conforta-me pensar deste modo, incomoda-me apenas estar mal-acompanhado ao findar a existência dos meus átomos me formando humano. Por outro lado, há gentes que jamais saberão que as dispensei de mim, e que, por me amarem, estarão sinceramente chorando a minha passagem desta para qualquer outra função universal; ou rindo dela, da minha passagem, se não gostarem de mim ou se perceberam a dispensa prévia... Falo apenas das poucas gentes ruins que me sugaram o caldo, não como vampiros, não, mas das que sugaram a minha bondade ou a minha maldade por necessidade material ou espiritual. De um modo ou de outro, porém, e infelizmente, há ainda os sortílegos que me chupam como a uma laranja doce ou ácida. E sem dó nem piedade jogam o bagaço fora... Espero, todavia, que, escoado o meu tempo, o bagaço seja ao menos um bom estrume...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Bruxo

Era um ônibus comum, desconfortável, daqueles que só percorrem itinerários proletários. Eles estavam sentados no meio, num banco da fila contrária ao lugar do motorista. Pareciam dois amigos, malgrado a cabeleira de um, branquejada pelo tempo, indicar paternidade em relação ao outro. Não eram, porém, pai e filho; eram amigos: um velho e um moço. Não consegui desvelar de antemão esse primeiro mistério. Soube-o no transcurso da conversa deles e da incômoda viagem: não se tratavam como pai e filho; de onde eu estava sentado, no banco logo atrás deles, as suas vozes me chegavam clara e precisamente:

Velho: “Você pode não crer, mas exerço poder sobre a mente das pessoas.”
Moço: “Não acredito.”
Velho: “E se eu provar?”
Moço: “Hum... não sei.”
Velho: “Tá vendo aquela senhora sentada lá na frente?”
Moço: “Qual?”
Velho: “Aquela que está com uma gola rosa.”
Moço: “Vejo.”
Velho: “Vou fixar meu olhar no cangote dela. Não me distraia! Fique só observando, que ela vai começar a olhar pra trás até olhar diretamente pra mim.”
Moço: “Duvido!”
Velho: “Então olhe.”

Daí o velho trancou-se em concentração e fixou seu olhar na nuca da senhora da gola rosa. Depois de uns segundos, ela começou a se inquietar, girando o pescoço para um lado e para outro como se buscasse algo. E assim continuou, até que, repentinamente, olhou para o velho. Não fora um olhar casual. Era fixo, porém como se olhasse e nada visse. Repetiu ainda os movimentos de inquietação e os olhares fixos endereçados ao velho. Não havia como dizer que efetivamente via-o, mas olhava fixamente para ele.

Moço: “Foi coincidência!”
Velho: “Vou fazer novamente.”

Ato contínuo, o velho concentrou-se na nuca da senhora da gola rosa, esta que, de novo, começou e se remexer no banco, a olhar para os lados e para trás, até que mirou fixamente o velho, como se estivesse hipnotizada. Não parecia vê-lo, é a verdade. Era como se olhasse um nada no lugar ocupado por ele. E o moço impressionado, disse ao velho:

Moço: “Quero ver você fazer o mesmo com outra pessoa; desta vez eu escolho.”
Velho: “Pode escolher.”
Moço: “Então faça com o rapaz sentado no banco atrás do motorista.”
Velho: “Qual?”
Moço: “O cabeludo.”

Escolheu de propósito para colocar o velho numa posição enviesada em relação à nuca do escolhido. O fato, porém, não perturbou o velho. Ele se iniciou no seu hipnotismo olho-nuca e o fenômeno, para espanto do moço, não foi diferente. Ele viu o cabeludo agitar-se e depois imobilizar-se como um camundongo diante da cobra que o devora, repetindo cada gesto da senhora da gola rosa, olhos perdidamente fixos no velho.

Moço: “Puxa! Como você consegue hipnotizar pela nuca?”
Velho: “Bem, agora você crê que sou capaz disso... Mas a sua descrença anterior não me autoriza a lhe explicar como eu consigo dominar quem eu quiser desta forma.”
Moço: “Estou abobalhado! Pra mim é truque! Se você me ensinar, eu também faço. E se as pessoas já soubessem? Sei lá, algum sinal que você deu e eu não percebi?”
Velho: “Como dar sinal, se foi você quem escolheu o cabeludo?”
Moço: “Hum...”
Velho: “Escolha um outro qualquer. Espere alguém entrar numa parada adiante e se sentar na minha frente. Tá bem?”
Moço: “Vou fazer...”

Não tardou, e uma adolescente com mochila nas costas entrou e sentou dois bancos à frente deles. O velho piscou para o moço e começou o ritual. Em segundos o fenômeno se repetiu. A obediência da adolescente de mochila ao hipnotismo era evidente. Atabalhoada, ela olhava para trás, virava e revirava o pescoço para os lados, mas logo se voltava para o velho e mantinha nele um olhar fixo e vago, de quem nada vê. Aí o moço não teve mais dúvida de que o velho possuía poderes estranhos. Só poderia ser um...

Moço: “Você é bruxo?”
Velho: “Sou!”

Também não me ocorria nenhuma dúvida. Mais impressionado que o moço estava eu. O velho devia ter poderes paranormais, metafísicos, sei lá. Mas que eu vi com esses meus olhos que a terra há de comer, isto eu vi. Ele realmente fez com que três pessoas diferentes e desconhecidas obedecessem à sua vontade. E lhe bastou mirar-lhes a nuca. Ah, não posso negar, jamais me ocorreu estar diante de tal chance, única, inusitada: vi-me diante de um verdadeiro bruxo dentro de um ônibus proletário. E não pude deixar de imaginar até que estágio ia o poder dele. Seria capaz de conquistar pelo hipnotismo o coração de qualquer mulher, até a minha, ou a sua?...

Sobre a recriação do Conselho de Contas dos Municípios





Para os que não eram nascidos e outros cuja memória fraqueja ao escoar dos anos, devo relembrar que em 1991 a ALERJ votou Emenda Constitucional para extinguir o Conselho de Contas dos Municípios (CCM) aprovado entre 1987 e 1990, período de governo Moreira Franco e época em que também foi votada a Carta Estadual. Em 1991, o governador Brizola e a bancada do PDT, aliada a outras, inclusive ao PSDB, decidiram e votaram a extinção do CCM. A voz corrente: não passava de “cabide de emprego, castelo de marajás, antro de negociatas” etc. A mídia fez forte campanha contra o CCM e ele foi extinto por via de Emenda Constitucional apresentada por um deputado do PL que não lembro o nome. Sei apenas que ele perdeu as eleições seguintes. A bandeira dele era a da austeridade...
O PSDB era formado por cinco deputados: Sérgio Cabral (governante atual), Marco Antônio Alencar (hoje conselheiro do TCE), Paulo Melo (atual líder do governo Cabral), Barbosa Lemos e eu. O líder da bancada era Sérgio Cabral, que se manifestou ferrenhamente contra a permanência do CCM no mundo. Do seu lado estava o deputado Jorge Picciani (atual presidente da ALERJ) atuando pela extinção do CCM. Fora eleito pelo PDT. Do outro lado (manutenção do CCM) estavam o então presidente da ALERJ, José Nader (PDT), e seu primeiro secretário, José Graciosa (PMDB). Ambos são atualmente conselheiros do Tribunal de Contas (TCE). Por conseguinte, obedecida a lógica passada esses dois últimos deveriam ser a favor da recriação do órgão extinto, e os que agora o defendem em nova edição deveriam ser contrários. O que teria mudado de 1991 para cá? Como se comportará Sérgio Cabral em vista de seus argumentos contrários gravados nos anais da ALERJ? E o deputado Paulo Melo? De que discurso fará uso para pular a cerca e defender o CCM?
Defendo aqui o deputado Délio Leal, sempre favorável à existência do CCM. Ajudou a criá-lo e votou por sua manutenção. Tem legitimidade para votar a favor da recriação do CCM e pleitear uma vaga. Porém, muitos deputados que militaram comigo contra a manutenção do CCM estarão na minha mira. Também estarão na mira deste blog os que eram a favor da manutenção do CCM e hoje estão no TCE. Sim, porque sei o que ocorreu naqueles bastidores em que o “canto da sereia” funcionou mais que nos tempos de Ulisses. Sei até da irresistível maviosidade e da altura do canto, muito alto, por sinal, mas não posso revelar, recusei-me a continuar ouvindo a música em mar esverdeado... Pus cera nos ouvidos... Ah, que tema interessante para informar meus leitores e desdobrar em outros blogs! Afinal, falta dinheiro para remunerar condignamente a polícia e sobra para recriar um Leviatã?... Com efeito, nada mais que isto: um monstro devorador de verbas e antro de negociatas que tentam reeditar. É o que será o CCM, se recriado por aqueles que, curiosa, paradoxal ou contraditoriamente, foram favoráveis à sua extinção em 1991. O tempo dirá...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Sobre a entrevista do Comandante-Geral da PMERJ


Embora eu não esteja residindo em Niterói, meus filhos permanecem na cidade, o que a põe na minha lista de prioridades. Também conheço razoavelmente Niterói e São Gonçalo, bem como vivenciei um período (de 1975 para trás) em que o efetivo da antiga PMRJ nessas duas cidades poria o da atual PMERJ na condição de ridículo. Inclui-se na sublinha o fato de duas Unidades Operacionais (UOp) – Batalhão de Neves, em São Gonçalo (antigo 4º BPM, depois da Fusão renomeado 11º BPM e transferido para Nova Friburgo), e Ala de Cavalaria, em Niterói – e uma Unidade Administrativa (Batalhão de Serviços Auxiliares – BSA– também sediada em Niterói) terem sido desativadas de 1975 para cá, sem falar que a formação de novos soldados ocorria igualmente em Niterói (Companhia Escola de Recrutas) e o treinamento externo se dava neste ambiente social. Também o então 1º BPM, hoje 7º BPM, sediado no bairro de Alcântara, São Gonçalo, formava seus recrutas e os treinava em ruas gonçalenses, prática que concomitantemente ocorria em Nova Friburgo, Campos, Barra do Piraí etc. Enfim, formava-se também o PM, geralmente recrutado no seu habitat, na UOp aonde ele iria posteriormente servir, o que garantia a eliminação do anonimato, mal que assola a PMERJ nos dias de hoje. Significa dizer que atualmente o PM não é conhecido pela comunidade à qual presta seus serviços. É um “estranho no ninho”, apenas um rosto na multidão de parceiros que com ele atuam onde não nasceram nem cresceram. Entretanto, há a favor do anonimato do PM o risco de ele ser reconhecido por bandidos no seu ambiente de origem, eis que criado lado a lado com esses colegas de infância que descambaram para o crime. Mas isto deveria funcionar como fator desfavorável ao bandido e não ao PM. Portanto, o modelo atual permite um anonimato também capaz de encobrir condutas desviadas, o que, a meu ver, é ruim.
Escrevo estas linhas para comentar sobre uma entrevista do ilustre Comandante-Geral da PMERJ publicada no Caderno de Niterói do Jornal O Globo de 17/01/2010. Com o respeito devido, e sabendo-o democrata, ouso discordar dele em alguns pontos. Primeiro quanto à afirmação que faz de que, para implantar uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) em Niterói ele precisaria de ordem, o que sugere não ter partido dele as anteriores ordens de ocupação. A assertiva dele é no mínimo contraditória. No fim de contas, a corporação, através do seu labor de inteligência, é capaz de determinar a utilidade e a prioridade de qualquer ocupação. Por outro lado, reforça sobremodo o que venho denunciando: não há nenhuma lógica operacional na escolha das ocupações, a não ser pelo fato de as favelas situarem-se na Zona Sul da Capital (exceto a Cidade de Deus, que, por acaso, é emblemática...), assim atendendo a objetivos político-econômico-financeiro-eleitorais. Portanto, é natural (embora anormal) que a ordem venha de cima para baixo e não resulte de alguma sugestão de baixo para cima, embora a palavra final pertença ao andar de cima, como prescreve o Decreto Federal 88.777, de 30 de setembro de 1983 (R-200), com a ressalva de que se trata de legislação draconiana e servil ao regime militar, grafada em época que secretário de Segurança Pública era cargo de general do Exército Brasileiro... Há ainda a relevar o fato de o Morro do Estado, situado em Niterói, ter sido o primeiro germe de UPP, e hoje incorre no risco de ser também a primeira prova de sua efemeridade. Não sei quais razões levaram a PMERJ a expulsar os traficantes dessa comunidade considerada das mais importantes da cidade, a não ser pelo fato de que os moradores geralmente são absorvidos como mão-de-obra de serviços gerais, incluindo o emprego doméstico, pelas elites residentes nos bairros nobres: Icaraí, Ingá, Boa Viagem, Gragoatá e Centro. Mas o insucesso da UPP do Morro do Estado (não é outra coisa que lá foi implantada) é um risco, pois servirá como constatação de um futuro infeliz para as demais UPP.
Outro aspecto da entrevista do ilustre Comandante-Geral, do qual respeitosamente discordo, é quando ele nega a migração dos bandidos do Rio de Janeiro para Niterói e São Gonçalo. A uma porque, mesmo antes das UPP serem instaladas, essa migração já ocorria. Como há o predomínio do Comando Vermelho nessas cidades vizinhas da Capital, a migração não se dá de forma violenta, a não ser em alguns casos particulares de facções rivais homiziadas na Capital tentarem conquistar territórios em Niterói. Cito o exemplo de um terrível confronto que observei e até vivenciei por estar residindo temporariamente em bairro periférico de Niterói: Santa Rosa (Morro Souza Soares). Houve a conquista e a ocupação do Morro Souza Soares por facção rival, com a expulsão dos traficantes nativos, e depois houve o contra-ataque e a reconquista do território pelos traficantes originais. Muito sangue escorreu em vista desta escaramuça assistida por centenas de moradores assustados, que se postaram na Rua Mário Viana – ao pé da favela, de onde saíram às pressas e de madrugada. Eles só retornariam às suas casas em dia claro e depois de os traficantes “amigos” retomarem o lugar. Atualmente, posso citar uma favela situada no Desvio de Dona Zizinha, São Gonçalo, com os traficantes locais acolhendo sem rusgas seus comparsas expulsos da Zona Sul do Rio de Janeiro. Há outros exemplos, mas, afinal, não sou o serviço de inteligência da PMERJ para ficar perscrutando “diásporas de bandido”. Essas informações eu as possuo porque convivo com parentes nesses lugares.
Quanto ao ocorrido na Favela Buraco do Boi, na Avenida do Contorno, Niterói, novamente me desculpe o ilustre Comandante-Geral, não há fato isolado e episódico desses moldes no mundo do crime. O tráfico, além de sistemático é sinérgico, o que torna impossível a tese do “fato episódico e isolado”. Claro que o ocorrido na favela tem a ver com a própria evolução ou involução da macrocriminalidade do tráfico. Aproveito (sem defender) a “deixa” do Dr. Mariano Beltrame no sentido de que “não se faz omelete sem quebrar ovos”; eu diria que o combate à macrocriminalidade do tráfico é essa omelete da fala dele, e o havido na Favela Buraco do Boi é um dos ovos da alegoria, que aqui se encaixa como luva. Portanto, creio que a “inteligência” se precipitou ao afirmar a inexistência de nexo com as UPP. De fato, é possível superficialmente afirmar a inexistência de nexo direto com as UPP; indiretamente, porém, há de haver algum: tudo é narcotráfico, narcoguerrilha etc. Daí a necessidade de a inteligência caprichar na visão panorâmica da criminalidade como um polissistema complexo. A visão particularizada me parece labor de investigação criminal a partir do fato ocorrido, missão da PCERJ, que ao fim e ao cabo poderá concluir ou não pelo nexo. Aí sim, a afirmação da ausência nexo estará amparada. Afinal, houve morte de civis e ferimento de militares estaduais, o que implicará instauração de inquérito policial na DP da área, para a qual a ocorrência deve ter sido encaminhada.
Quanto à troca de comando, um dos temas da entrevista, não me cabe comentar, é parte do poder-dever do comando da corporação trocar comandos. Porém, – e até já manifestei esta opinião em comentário no meu blog, – colocar coronéis nos EM dos Comandos Intermediários (CI) me parece excelente medida visando à descentralização futura da autoridade e da responsabilidade dos CI, já que existem. Apenas ressalvo que o CI deveria ser integrado à legislação federal com maior clareza, em especial ao R-200 (Decreto Federal 88.777, de 30 de setembro de 1983). Porque a noção de “autoridade competente” direcionada aos Comandos de Unidades e Frações antes da existência de CI não deixa dúvidas de que se refere às UOp (batalhões, companhias independentes e frações), já que fala em “planejamento e execução”, incumbências exercidas pelos EM e Companhias das UOp ou das Companhias Independentes e Núcleos de Batalhão. Considera-se, portanto, que o CI não “executa” e seu “planejamento” se superpõe ao das UOp subordinadas; ou então o CI apenas agrupa planejamentos dessas UOp, que, por sua vez, são vinculadas ao Estado-Maior Geral (EMG) da PMERJ, que cuida do plano global da corporação e fiscaliza a sua execução.
É sabido que CI não executa policiamento algum. Por outro lado, limita-se a planejar não sei o quê, considerando-se que os EM das UOp planejam e executam o policiamento e têm seus planos aprovados pelo EMG, que supervisiona cada UOp cotidianamente e fiscaliza seus atos administrativos e operacionais por meio de Inspeções. A criação dos CI mantém-se ainda na obscuridade da sua intenção. Foi criado para planejar o quê? Foi criado para executar o quê?... Ora, se antes havia dois EM (UOp e PMERJ), hoje há três, assim consumindo mais efetivo. Os CI, até que se definam claramente os objetivos de sua estruturação, não me parecem úteis. Não planejam senão o que já está planejado nem executam mais do que já está sendo executado pelas UOp. Claro que isto pode ser consertado. Todavia, manda a boa administração que a departamentalização evite inchaços onerosos. Fosse a PMERJ uma empresa particular, ela estaria consumindo seus lucros em estruturas dispensáveis. Mas como o dinheiro é público, isto não é problema... Por conseguinte, há de haver uma avaliação isenta da utilidade ou inutilidade dos CI. A serem os CI considerados úteis, uma legislação clara deveria estabelecer suas funções de planejamento e execução como manda a legislação federal, e, principalmente, sua competência nos termos desta legislação ainda em vigor. Mas, como adequar o planejamento e a execução referidos no decreto federal aos CI?
Há, inegavelmente, uma superposição de estruturas. Há três EM: dois (EMG e EM do CI, com o primeiro planejando e o segundo “planejando”) e um EM de UOp – planejando a execução aprovada pelo EMG e executando-a, tudo rotineiramente supervisionado e periodicamente inspecionado pelo escalão superior. Então, CI pra quê? Se pelo menos as UOp tivessem seus EM extintos, sendo suas funções concentradas no CI, aquelas ganhariam efetivos para jorrar nas ruas. Compensaria, porém, a medida? No meu modo de ver, não! Vejo, por enquanto, – e respeitando os juízos contrários, – os CI como “cemitérios de luxo para sepultar coronéis”. Parece-me que tudo tem a ver com a criação de cargos comissionados no âmbito da corporação, meio de agraciar alguns com bons ganhos em detrimento dos maus ganhos da tropa. O primeiro dos males ocorreu pós-fusão da GB com o RJ, quando criaram os dois primeiros CI: o CPI (Comando de Policiamento do Interior) e o CPC (Comando de Policiamento da Capital); mas esse desdobramento inicial para acomodar os caciques de duas Polícias Militares estranhas entre si, – agora cargo comissionado, – propagou-se como doença na era do brizolismo e governos seguintes. E foram surgindo outros CI como catalisadores de reações negativas, de dissidências e de inimizades produzidas pela própria fusão de instituições que não guardavam entre si nenhuma relação (misturaram as duas PPMM como se fosse possível misturar infante com cavalariano ou artilheiro. Até é possível, mas experimente colocar um infante comandando artilheiros, ou um cavalariano comandando infantes, ou vice-versa...). Daí é que, no início, puseram um joão-de-barro comandando o CPI (antigo RJ) e um azulão comandando o CPC (antiga GB). Mantiveram em separado a água e o vinho... O cargo comissionado entrou nessa celeuma dividindo bem mais que somando. Foi e continua sendo forma de neutralizar reações uníssonas de coronéis por melhorias salariais. E como coronel sem cargo ganha mal, e como são poucos os que hoje não gozam da regalia comissionada, a tendência é de a tropa ganhar mal. Pelo visto, a continuar assim, mais CI surgirão nesse contexto confuso, e mais cargos comissionados serão integrados como “cala-bocas” daqueles que poderiam e deveriam defender o interesse da tropa no seu todo: ativos, inativos e pensionistas.
Em 1989, comandei o 9º BPM, UOp situada na Zona Norte do Rio. Subordinava-se ao CPC. Confesso abertamente que o CPC atrapalhava mais que ajudava. Os conflitos entre a UOp e o CPC eram aberrantes. Não estivesse em missão especial (fui para lá incumbido de prender o traficante Darcy da Silva Filho, o Cy de Acari, tão famoso na época quanto o é atualmente o Fernandinho Beira-Mar), eu estaria fora em segundos. A importância da missão me punha em contato permanente com o Comando-Geral da PMERJ, que me dera carta-branca para lograr êxito na missão. Como eu disse, não fosse assim, eu estaria exonerado devido aos atritos com o CPC. Incrível é que o coronel comandante do CPC era e é meu amigo, para que não pensem que se tratava de alguma desavença pessoal. A questão era estrutural e conjuntural. Era de indefinição de onde começa e onde termina o poder-dever de cada um, ou seja, a competência para agir como autoridade administrativa de segurança pública. Na verdade, eu nem me reportava ao CPC. Tudo se relacionava com o EMG, de onde vinham as ordens, as supervisões e as inspeções. O CPC se sobrepunha ao batalhão somente para verificar a rotina do policiamento ostensivo, o que já era feito pela supervisão da UOP em três níveis hierárquicos: por graduado, por oficial subalterno e por oficial superior; mais ainda a supervisão do EMG, também exercitada por oficial superior. Demais dessas, havia a supervisão do CPC, acréscimo desnecessário, mais para ostentar poder; por acaso, retaliatório...
Muito bem, o assunto não tem fim. Não sou derrotista nem faço oposição ao atual Comando-Geral da corporação. Pelo contrário, torço pessoalmente pelo sucesso pessoal e profissional dele, assim como não questiono a gestão do atual secretário de Segurança Pública, que não é melhor nem pior que os anteriores, nem seus sucessores o suplantarão em qualidade ou defeito. Reclamo de assuntos pontuais, sim, porque sei que o sistema (político) é anacrônico e precisa ser questionado. Também sei que os CI, afinal, e mesmo que paradoxalmente, se ajustam aos conceitos da Teoria Geral da Administração, que subdivide o Ambiente em Geral, Intermediário e Específico, vinculando-os respectivamente aos Níveis Estratégico, Tático e Operacional da Organização. Daí é que os CI se deveriam integrar a um novo Planejamento Organizacional que os transformasse em estrutura útil e fortalecida, com objetivos definidos e resultados a apresentar, e assim saísse da atual subjetividade que os transforma numa espécie de “mausoléu de coronéis”.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sobre as ocupações de favelas e suas consequências

Como será a realidade futura?






A Física Quântica não se arrisca a afirmar o que seja realidade. Para esta ciência a realidade é, ainda, um mistério insondável, tanto na visão microcósmica como na macrocósmica. Daí geralmente reduzir-se a realidade à subjetividade e às influências que as pessoas recebem de todas as formas, em tudo que é lugar e por todos os instrumentos capazes de ligar mentes humanas a determinado assunto.
A velocidade dos meios de comunicação e sua capacidade repetitiva fazem com que uma irrealidade se torne realidade e vice-versa. Destarte, o fenômeno da imagem torna-se delicado e efêmero, não havendo nele nenhum senso de justiça ou equilíbrio. A imagem de agora pode ser o seu inverso logo em seguida. A dinâmica dos acontecimentos e a eloquência do seu transmissor estimulam a desatenção do receptor. Cito como exemplo a narração de um jogo de futebol pelo rádio. Chega a ser impressionante a manipulação do sentimento coletivo por um exímio narrador esportivo, em muitos casos enfeitando uma realidade simples e elevando-a ao tom de irrealidade espetaculosa. O argumento é válido para outras modalidades de comunicação dinamizadas pela fala de experimentados narradores. Mas o exemplo das ondas de rádio basta.
Muito bem, os jornais recentes exaltam a ocupação policial das favelas da Zona Sul da Capital, desalojando os marginais, mas inserem uma gota de dúvida na realidade tão badalada ultimamente: falam agora da desocupação total dessas favelas com a remoção dos moradores. Deste modo, a primeira realidade, que parecia o fim colimado (ocupação e permanência do policiamento), começa a sair do seu holograma e assume outra forma: a de mera etapa em direção a outra mais interessante sob todos os aspectos político-econômico-financeiros: a destinação desses locais nobres ao reflorestamento ou ao empreendimento imobiliário. Muitos coelhos de uma só cajadada, exceto quanto aos malefícios sociais destinados aos favelados, que permanecerão nas trevas de uma história já sobejamente conhecida, eis que insistentemente repetida na mui heróica Cidade Maravilhosa acolhedora da Monarquia, do Império, da República e da desordem urbana...
Ora, há de se ver aquelas duas realidades portentosas! Qual das duas vingará, nem importa; são econômica e socialmente boas para os ricos, e péssimas para os favelados, estes que, decerto, serão deslocados à periferia, repetindo-se a história dos cortiços cujos ocupantes foram removidos a pau e corda para o Morro da Providência. Claro que o fato foi antecedido do anúncio de uma grande reforma urbana pelo engenheiro Pereira Passos. E o Morro da Providência, – na época “Morro da Favela” (1897) devido a um arbusto euforbiáceo (favela) plantado pelos soldados sobreviventes da Guerra de Canudos, – já no fim de 1910 era considerado um local violento. Também é o que basta.
Ninguém dá nó em pingo d’água nem corta fio cabelo no ar sem intenção. Quando nos vemos ante “medidas terapêuticas” no ambiente policial, desconfiamos. A pirotecnia das ações policiais representa um dos pratos da histórica balança da segurança pública contestada por Brizola para optar entre a repressão (pirotecnia) e a omissão (o outro prato). Depois de condenar o modelo de repressão policial nas favelas, a opção dele, Brizola, por motivos sociais relevantes, segundo a sua visão política do problema das favelas infestadas de bandidos, foi pelo prato da omissão policial.
Brizola assumia que a polícia aumentava a violência e punha em risco os favelados, em vez de erradicar os criminosos. Certo ou errado?... Certo. Certíssimo! A verdade é que a polícia confundia trabalhador com bandido, e o resultado das operações policiais era mais negativo (para as comunidades) que positivo (discursos oficiais). Com efeito, não se pode negar que, em parte, cabia razão ao caudilho. Por outro lado, deixar os favelados ordeiros a mercê de bandoleiros (paramilitares) não pareceu boa ideia num estado democrático de direito. Mas recuar a polícia, pura e simplesmente, como se fez naqueles tempos, produziu além de chacinas um terceiro efeito funesto: as guerras de quadrilhas atingindo o povo ordeiro do mesmo modo. Enfim, três alternativas terrivelmente ruins, mais que dilema, um labirinto em que governantes nele se enfiam como ratos de laboratório e não acham a saída: um trilema.
Em meio ao trilema, surgiram as milícias (paramilitares). E está provado que erradicar quadrilha de traficantes de favelas não se configura como o problema maior a ser vencido. A questão não é, portanto, a de vencer o bandido, mas a de evitar que ele se rearticule no ambiente conquistado. A milícia fez isso e serviu de inspiração ao modelo de ocupação policial que se vê na Zona Sul da Capital. Ou seja, a desordem paramilitar da milícia venceu a desordem paramilitar do tráfico no vácuo da anomia e ensinou o sistema oficial a cuidar de uma nova ordem pública (?) pelos mesmos caminhos.
Eis a parte mais complicada, porque, de um lado, os bandidos expulsos migram para outras favelas e tendem a se rearticular para conquistar territórios novos enfrentando quadrilhas de facções rivais e matando inocentes pelo caminho. Vão tomar a casa do inimigo para não sobrecarregar a casa do amigo. Podem também tentar a reconquista dos territórios perdidos para as milícias, estas que se encontram enfraquecidas pelo sistema situacional formal. Significa dizer, ao fim e ao cabo, que polícia combater milícia tem sido bom para o tráfico...
Todos esses fatores tendem a acirrar as turbulências. A verdade é que as centenas de traficantes expulsos da Zona Sul estão vivos e atuantes em outras áreas e sairão em busca de novos territórios. O sangue vai jorrar nas favelas, e quiçá no asfalto, porque traficante sem droga para vender precisa compensar suas perdas. Virão os assaltos, os sequestros, os roubos e furtos de carros etc.
Com efeito, a violência tende a se generalizar no ambiente social. E a polícia, gastando grandes efetivos em ocupações de favelas, não poderá impedir que novas modalidades de crime ocorram. A saída, por conseguinte, é correr com a remoção das favelas ocupadas para liberar os efetivos empenhados nas ocupações. Não há outro escape, o que implica considerar seriamente as remoções ora anunciadas.
Os primeiros balões de ensaio já foram ao ar. Em havendo dinheiro para a construção de conjuntos habitacionais, isto será feito e os favelados sairão como procissão se “arrastando que nem cobra pelo chão.” E, resignados, finalmente ficarão livres, porém longe dos seus empregos e gozando da liberdade sem opinião. E a elite saberá agradecer aos mentores e gestores desta obra cujo desfecho é ainda irreal sob o ponto de vista da segurança pública, mas bem realístico no seu aspecto econômico-político-eleitoral...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

AS CEM MELHORES CRÔNICAS BRASILEIRAS




Joaquim Ferreira dos Santos, escritor, jornalista e cronista do Jornal O Globo, diz que Rubem Braga escrevia suas melhores crônicas quando estava sem assunto. Não é exagero sugerir que tal hábito se reporte aos demais cronistas que nos deliciam desde muito tempo, havendo hoje, porém, uma geração que nada deve aos mortos. Também é difícil saber de escritor que não prefira ler a escrever. Há exceções, claro, assim como há a inveja e algumas desavenças produzidas por vaidades. Ninguém está livre das vaidades, até o mestre Machado de Assis foi alvo de vaidades e invejas ferrenhas. Mas, de um modo geral, quem escreve gosta de ler o outro e cada leitura lhe traz inspiração para escrever mais e melhor.
Estou agora devorando AS CEM MELHORES CRÔNICAS BRASILEIRAS selecionadas por Joaquim Ferreira dos Santos, que, por modéstia, não selecionou muitas das suas que deveriam estar entre as cem apresentadas no livro e até na dianteira delas. Tanto é verdade que a introdução dele já é obra de arte, e não poderia ser diferente: quem acompanha a obra do selecionador sabe que ele é um dos craques contemporâneos da literatura.
Curioso é que a crônica às vezes é chamada de “coluna”, “artigo”, ou de nada. Apenas ostenta um título e se vê publicada em algum jornal ou revista... Ou blog... Graças aos céus, há vivos muitos cronistas de renome e muitos principiantes que lhes seguem os passos anotando cada frase espetacular, cada imposição à reflexão de um modo sempre peculiar. Sim, as crônicas parecem pratos com temperos exclusivos. Todas têm sua própria identidade, embora um mesmo autor faça delas um repasto completo incluindo sobremesas deliciosas.
Quem não conhece o “Zecamunista” do João Ubaldo Ribeiro?... Não vou me alongar em exemplos de frases ou personagens marcados no transcorrer da leitura, sem embargo de uma frase grafada por Carlos Drummond de Andrade em sua crônica “Garbo: novidades”: “É facílimo enganar uma cidade.” Como esta frase serve a tantos propósitos diferentes! Quantos desdobramentos permitem a frase afastada do seu contexto! Como instiga a inspiração!...
Continuarei lendo as crônicas, muitas delas em releituras de cabeceira e outras inéditas. Porque, sem dúvida, Joaquim Ferreira dos Santos garimpou legal! Daí é que estou começando a ler “O inferninho e o Gervásio”, do saudoso Stanislaw Ponte Preta, já na página 126 da coletânea. Creio que repetirei a leitura do livro até que venha outra leva de preciosidades garimpadas por quem sabe das coisas. Mas voltarei à frase de Drummond, e, inspirado nela, inventarei algum assunto. Por enquanto, estou sem assunto...

domingo, 10 de janeiro de 2010

Minha viagem num trem chamado PMERJ




Tempos de nostalgia...




Não há realidade feliz que valha a décima parte de um sonho bom.” (Humberto de Campos – A mosca azul – Carta a um frade)



Embarquei nesse TREM-PMERJ como soldado raso em 29 de junho de 1965 e requeri a inatividade em 10 de abril de 1990, com direito à contagem em dobro de licenças-prêmios e férias não gozadas. Dispensei o tempo de Previdência Social do meu labor desde os 14 anos de idade. Era em Laboratório de Análises Clínicas e eu almejava ser patologista. Por influência de tios, porém, e pelo azar de ter passado nos “testes projetivos” do exame psicotécnico e demais exames, enfiei-me na farda cáqui sonhando com a minha “mosca azul”... Escorreu-se invariavelmente o tempo... Durante a minha carreira de oficial superior, no posto de tenente-coronel, comandei apenas um batalhão, o 9º BPM, sediado na Zona Norte da Capital. A minha decisão de não mais comandar nada, pedindo o pijama em pleno exercício do comando, deveu-se a uma série de fatores que se poderiam resumir num só: incorformismo.
Vejo os batalhões da PMERJ como vagões de um só trem puxado por uma única locomotiva. Nesta se acomoda a cúpula da corporação, e nos vagões estão suas estruturas operacionais, administrativas e de saúde. Interessam-me, porém, a locomotiva com o maquinista e seus foguistas e os vagões que conduzem as unidades operacionais. Tudo vai preso ao trilho cuja bitola, pelo que dizem as más línguas, foi definida pelos ingleses depois de a locomotiva estar pronta e acabada e seus eixos de rodas britanicamente medidos. Tornou-se assim padrão mundial: para onde vai o trilho vai o trem... Segundo ainda dizem as línguas mais ferinas, a bitola se reporta aos carros de combate romanos e ao traseiro de dois cavalos, ladeados entre si, definindo a distância entre as rodas...


Seria ótimo se o nosso TREM-PMERJ tivesse à sua disposição muitos trilhos para rodar as suas rodas, indo e voltando, dobrando e desdobrando, virando, desvirando e revirando, enfim, se tivesse a flexibilidade do carro ou da moto ou do trapezista dando cabriolas no ambiente social. Mesmo assim, seria um trem e não mudaria o sentido da alegoria. No nosso TREM-PMERJ importa o modelo estrutural que coloca a locomotiva na dianteira a puxar os vagões, ou na traseira a empurrá-los. Num caso ou noutro, tudo é locomotiva com seus vagões presos ao carril enferrujado.
Nos vagões estão os policiais-militares, que grafo com hífen como se grafa a couve-flor, ou seja, para unir dois substantivos, a mais pura verdade. Entre os policiais-militares estão o comandante do batalhão, seu estado-maior, os oficiais, os graduados e as praças. A lotação do vagão, porém, não é estática. Muitos descem nas estações por tempo completado, por doença, ferimento, morte, desistência, por se tornar um passageiro indesejável, ou, por fim, pulam fora voluntariamente, como foi meu caso. Em qualquer das hipóteses, porém, a parada é rápida, não dando tempo de preencher todos os lugares vazios. Também se pode considerar um batalhão ocupando dois ou mais vagões, ampliando-se a visibilidade e os lugares vazios. Importa, porém, a ideia do vagão preso ao trilho e arrastado ou empurrado por uma só locomotiva. E assim segue o TREM-PMERJ na bicentenária viagem em busca da sua “realidade feliz”...
Havia-me um colega PM, hoje defensor público, que definia a profissão policial-militar como a “profissão do nada”. Falava isso nos tempos em que éramos aquartelados. Cabia-lhe inteira razão, o trem nem mesmo andava e a farda era a da música de Vandré... Todavia, quando o TREM-PMERJ até então estacionado foi às ruas, deu de cara com o trilho adrede fixado. E assim é hoje: o trem percorre os trilhos determinados por seus mentores ou mandatários, até que os maquinistas, foguistas e passageiros o abandonem ou sejam abandonados em algum daqueles acidentes de percurso.
É triste a profissão de maquinista, aqui equivalente ao comandante-geral: ele não pode conduzir o trem senão indo em frente ou voltando. E a decisão ir ou voltar geralmente não lhe pertence, vem de cima, de quem não sabe pilotar trem nenhum e vive tentando descarrilá-lo: o governante. É o que via e sentia antes de 1990, até que desembarquei. Hoje não vejo nada diferente, ou seja, o TREM-PMERJ aumentou o número de vagões sem, entretanto, conseguir lotar os seus bancos; viaja meio vazio ou meio cheio, dubiamente, embora a “passagem” (remuneração) seja das mais irrisórias, atualmente a penúltima mais barata do país, só perdendo para o “trem gaúcho”...
Círculo vicioso... Ou melhor, retas e sinuosidades viciosas, porque aos vagões só lhes cabem fazer o percurso determinado pelos trilhos e pelo líder da locomotiva, este que segue a ordem de cima para pegar esse ou aquele carril e ir em frente ou voltar. Só ir em frente ou voltar... Ah, libertei-me do TREM-PMERJ tão logo meu tempo me permitiu. Não me acalentava a ideia de trafegar em vagão idêntico ao meu e em trilhos direcionados ao mesmo destino. A inflexibilidade das viagens fazia-me sentir um autômato liderando robôs. Pulei fora do TREM-PMERJ e hoje estou sentado numa estação vendo-o passar. Hoje sou povo à espera de um TREM-PMERJ que me traga paz e felicidade, mesmo que eu seja o último da fila. Mas ele nada me traz. Continua a rodar nos mesmos trilhos, somente parando para embarque e desembarque dos tripulantes que se renovam na aparência, mas se mantêm indefectíveis no comportamento. Pelo que vejo, depois de tantos anos passados, o TREM-PMERJ é e sempre será o mesmo...
A posição de maquinista-mor é disputadíssima. Como estão todos embarcados, torna-se “briga de siri na lata”, até que um dos pretendentes logra a vitória, nunca por mérito, mas por sorte, já que todos são números lotéricos dentro de um mesmo saco (a meritocracia iguala como gêmeos univitelinos todos os interessados). O que for alcançado pela mão parturiente recebe a à luz do poder tão ansiado. Eis como emerge das trevas corporativas o comandante-geral, o maquinista-mor que embarcará seus foguistas e determinará o novo líder de cada vagão, este que, no entanto, jamais sairá do trilho, nem o trilho jamais sairá do lugar, de modo que o TREM-PMERJ possa ser visto pelo povo sempre e britanicamente no horário, embora nada leve ou traga para lugar algum.
Hoje, com a modernidade, o TREM-PMERJ é movido a controle remoto pelo governante, considerando-se ainda a possibilidade de ser ele, e somente ele, o detentor do poder de desativar algumas linhas férreas ou de interromper algum carril para provocar acidentes de percurso. Dura é a vida do TREM-PMERJ! Não passei de vagão em vagão, como a maioria dos colegas insistem em fazê-lo, e não os culpo, pois almejam ser os maquinistas futuros. Ah, fosse eu o maquinista, decerto tentaria rodar o TREM-PMERJ fora dos trilhos e o desastre haveria de haver!... Por conseguinte, em não podendo me livrar dos grilhões férreos nem descarrilar o TREM-PMERJ, fiz o que me era devido: desembarquei dele voluntariamente.
Hoje vejo, não sem tristeza, o TREM-PMERJ passar do mesmo modo de antanho. Nem sei se há mais ex-tripulantes nas estações e cemitérios que tripulantes dentro do TREM-PMERJ. Como eu disse, vagões são acrescentados, mas seus bancos não são totalmente preenchidos. Estica-se o TREM-PMERJ, aumenta-se a carga a ser empurrada ou puxada pela locomotiva, o povo aplaude ou vaia a sua passagem cada vez mais demorada, mas o trilho é o mesmo, tal como o é a indiferença do TREM-PMERJ às reações populares. Tudo, na verdade, objetiva agradar ao detentor do controle remoto, eis a falsa impressão de grandiosidade corporativa, a nossa “mosca azul”: mostra-se a rama da árvore para lhe ocultar um tronco apodrecido à espera do tombo. Mas, como toda árvore que a mãe-natureza quer salvar, há de haver na nossa carcomida árvore pelo menos um broto na raiz para tudo recomeçar... quem sabe desta vez fora dos trilhos?...