quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sobre o ambiente social hodierno



Um ambiente de consumo propício ao crime


Uma das características marcantes da era industrial, – reforçada atualmente pela indústria da informática e das comunicações, – é a disseminação do consumo material e o acirramento do egoísmo humano. Daí a indiferença permear a convivência individual e coletiva, afastando-a da mãe-natureza, tornada matéria-prima para a produção de muitas inutilidades.
Este secular comportamento destrutivo instituiu uma irreversível entropia no planeta, como se dele os viciados em consumo não mais dependessem nem tivessem nenhuma responsabilidade com as gerações vindouras.
A gravidade da situação reflete-se em qualquer segmento que se sublinhe para observação. Não importa o seu fim social, nele estará presente o consumismo como mola propulsora (“o consumidor é a eterna criança de peito berrando pela mamadeira” – Erich Fromm*).
Sim, tudo capitalizado e dependente de máquinas: saúde, educação, moradia, transportes etc. Nada é deixado de lado quando se trata de exploração dos recursos naturais em benefício do lucro desmedido.
Em nome do “progresso”, do “desenvolvimento sustentável” e quejandos, florestas urbanas não mais existem, o desmatamento desertifica regiões antes ferazes, rios e lagoas estão assoreados, e as praias não mais permitem o banho saudável.
Enfim, o mundo está a mais e mais feio e fedorento, as chuvas inundam as planícies, a lama desliza morro abaixo e arrasta a sujeira largada pelos insensíveis destruidores do ecossistema – a nossa casa. E muitos morrem.
Os desastres naturais e artificiais se confundem e produzem vítimas como se a mãe-natureza estivesse raivosa contra seus filhos ingratos. Mas a insensatez, mesmo debaixo da desgraça, funciona tal e qual cegueira coletiva. Só é vencedor quem possui bens materiais – eis a medida de valor das pessoas, que não mais “são”... apenas “têm”. E, por conta do “ter”, devastam tudo.
Ninguém se preocupa com nada. Todos se esquivam de qualquer sacrifício para evitar o caos futuro. A facilidade da comunicação em massa permite a proliferação de falácias em discursos eloquentes. A propaganda e a contrapropaganda garantem em fragmentos bem urdidos a manutenção de um status quo fundado na indiferença generalizada. Por isso, o grande desastre virá, mas não parece constar da preocupação individual nem coletiva.
Não há quem queira doar cota alguma de suor ou responsabilidade para evitar a calamidade maior: a destruição total. E basta um pequeno erro de cálculo para ocorrer uma hecatombe nuclear, ou por conta de guerra ou de algum desastrado experimento. Ah, se a humanidade não se preocupa com essas possibilidades mais gravosas e prementes, imaginem as menores e remotas!...

Fechemos o zum...

Vivenciamos no Brasil, a par das catástrofes naturais, uma calamidade social composta de várias vertentes crônicas. A pauperização da população, a mortalidade infantil, as doenças, a fome, o desemprego, a economia invisível, eis o meio ambiente, por si só calamitoso, em que prospera o multifacetado crime; porque há uma enorme variedade de delitos acobertados pelo que chamam de “injustiça social”. Iguala-se, destarte, o pobre ao criminoso; enfiam-se ambos num mesmo saco e o resultado é que experimentamos em espanto a pujança do banditismo urbano e rural, que se basta como gravíssima calamidade social.
O tráfico de drogas e de armas é a locomotiva que puxa o progresso do crime na tessitura social; este crime também é conduzido por ônibus, avião, carro de luxo, iate, navio... E pela corrupção generalizada.

E assim a violência e o crime vão bem, obrigado, e os malfeitores riem! riem! riem!...

Eis o nosso imperativo ambiental!...

Desfavorável...

Não se cumpre o Contrato Social** sugerido por Rousseau, e o primeiro a acintosamente descumpri-lo é o Estado, que, reforçado pela Igreja, oprime o povo por via de sua submissão ao poder terreno e divino.
Ainda hoje é assim: duas invencíveis hierarquias a dominar a massa ignara pelo temor da punição material e espiritual: liberdade e céu para os obedientes; prisão e inferno para os recalcitrantes; penas brandas para os malfeitores; nenhuma pena substancial para “menores infratores”.
Vivenciamos o triunfo do Mal, estímulo permanente dos delinquentes. Mas o conformismo da sociedade é recompensado pela dogmática ideia de que os pobres terão o Reino dos Céus. Porque, se todos quiserem a posse dos prazeres materiais a um só tempo, como ficarão os ricos a desfrutarem o “hedonismo radical”?
É esse o Estado que desejamos para as próximas gerações? Um Estado moral e materialmente falido?... Ou seria melhor assumir corajosamente o Contrato Social?...
Eis o que sugere Rousseau, e não me cansarei de repeti-lo aqui, embora eu reconheça que não há, neste país, como confiar no acerto da polícia e da justiça:

(...). De resto, todo malfeitor, ao atacar o direito social, torna-se, por seus delitos, rebelde e traidor da pátria; cessa de ser um de seus membros ao violar suas leis, e chega mesmo a declarar-lhe guerra. A conservação do Estado passa a ser então incompatível com a sua; faz-se preciso que um dos dois pereça, e quando se condena à morte o culpado, se o faz menos na qualidade de cidadão que de inimigo. Os processos e a sentença constituem as provas da declaração de que o criminoso rompeu o tratado social, e, por conseguinte, deixou de ser considerado membro do Estado. Ora, como ele se reconheceu como tal, ao menos pela residência, deve ser segregado pelo exílio, como infrator do pacto, ou pela morte, como inimigo público, pois o inimigo dessa espécie não é uma pessoa moral; é um homem, e manda o direito da guerra matar o vencido. (...)

Mas, na contramão da sugestão rousseauniana, a sociedade se submete ao irresistível comportamento de rebanho, em especial seus segmentos menos favorecidos, dentre eles os burocratas, e dentre estes a polícia. E enquanto o Estado cuida do ferrão a tanger seus burocratas contra si mesmos e contra os pés-de-chinelo, a Igreja cuida de lhes garantir a salvação como prêmio pela irrestrita obediência.
Se os burocratas se desviam de suas finalidades traçadas a ferro e fogo pelo Estado, demais da punição material há ainda o risco de se danarem, pois esses desvios são naturalmente gravados como “pecados”.
E assim caminha a humanidade...
Para o caos, única saída deste labirinto riscado por meia dúzia de poderosos de ontem, hoje e amanhã.
Afinal, a humanidade vivenciou, vivencia e parece que sempre vivenciará a arrogância das elites e a subalternidade das massas.
Nesse contexto, os criminosos quase que se tornam heróis por romperem as regras dogmáticas e legais. E, quem sabe, é por isso que eles são burgomestres em suas comunidades sitiadas? Quem sabe é por isso que eles se tornam tão poderosos, a ponto de submeterem o Estado e a Igreja ao ridículo fracasso?...
Afinal, eles, aparentemente, representam bem mais o “ser” que o “ter”, embora almejem o segundo modo de vida como prêmio pelo risco máximo e pelo acintoso desrespeito às leis.
Eis o que se vê aqui, diariamente, bem pertinho de nós...




* Fromm, Erich – Ter ou Ser – LTC Editora, 1987 – Rio de Janeiro – RJ.



** Rousseau, Jean-Jacques – Do Contrato Social – Ed. Martin Claret, 2004 – São Paulo ­– SP.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sobre a farra das passagens aéreas

Seria esta a única farra legislativa?...

De todas as esfarrapadas desculpas sobre a baderna das passagens parlamentares, a que mais me espantou foi a de um deputado federal daqui do RJ declarando ter caído de corpo e alma na gandaia alada na esteira de uma tradição de mais de 40 anos.
Seguindo a lógica dele, não seria nada demais matar alguém, já que, desde os tempos bíblicos, e do famoso fratricídio (Caim matando Abel), o crime de morte acontece. O escândalo, porém, merece reflexão por outra via, que se resume na indagação: o poder legislativo é necessário na nossa democracia?
Depois que Charles de Montesquieu inventou a tripartição do estado para funcionar como um sistema de freios e contrapesos entre os três poderes (legislativo, executivo e judiciário), a verdade é que o legislativo pátrio, nos seus três patamares (União, Estados-membros e Municípios) tornou-se historicamente subserviente ao executivo.
Sim, o legislativo não é independente; é obscuramente submisso ao executivo. A lógica é simples: o executivo detém os cargos e o capital, e o legislativo não se contenta com a sua parte, por sinal, mui grandiosa, mas pequeníssima em se tratando de alimentar tantas gargantas largas e panças rechonchudas num país em que só se vence eleições gastando muito dinheiro, salvo raríssimas exceções.
Ora, só não vê quem não quer! Como está, o legislativo não contribui para a democracia; demonstra-se inútil em suas finalidades. Daí assistirmos os parlamentares a vencerem o tempo instaurando CPIs inócuas e alardeando abobrinhas, esquivando-se assim da enxurrada de maracutaias que também lhes dizem respeito.
Tem razão o jovem deputado federal que se defendeu argüindo singelamente ser a farra antiga e generalizada, e que por isso ele mergulhou nela sem pejo. Cá pra nós, e sem necessidade de fantasia ou máscara. Foi de cara limpa, mesmo!
A fantasia, na verdade, desde muito está enfiada no corpo do povo brasileiro, e é a de palhaço com direito a guizos presos ao pano multicolorido e bolota vermelha no nariz. Sim, são milhões de palhaços da senzala em meio a poucos leões famintos da casa-grande...
Ora, por que apelar para bravatas do tipo “vão pro caralho!”? (Pra não se pensar que sou chulo, “caralho” tem origem naquele lugarzinho construído na ponta do mastro mais elevado duma antiga nau, onde é colocado um marinheiro indisciplinado a cumprir punição olhando o horizonte debaixo de sol, e chuva, e vento, e que, em tendo sorte, às vezes grita: “Terra à vista!”).
Mas aqui falamos de modernos e dourados jatos...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sobre a anomia que devasta a tessitura social do RJ


Talvez seja cansativo afirmar que os crimes de fraude e sangue vêm maculando a convivência social de cariocas e fluminenses nas últimas décadas. Pior, todavia, é ignorar o assunto, porque mais cansativo é constatar que o problema se expande e aprofunda em formato de gravíssima calamidade social. Eis porque insisto em sublinhar que o crescimento da violência e do crime decorre de uma série de fatores conexos, mas é no sociopolítico que reside sua principal causa – o fiel da balança cujo peso até hoje não encontra contrapeso capaz de resgatar o equilíbrio perdido. Sim, tudo se reporta à política e suas (in)decisões, mas ela, além de inerte em relação ao grave problema, está em tão tamanhona podridão intrínseca e extrínseca que dispensa comentários...
E no Rio de Janeiro...
Nas eleições para governador, em 1982, o RJ escolheu seu destino em exagerada esperança das populações faveladas no populismo e em suas demagógicas e mirabolantes soluções sociais. Em excesso de fé, e em silêncio vulcânico, as comunidades carentes conduziram o espetáculo eleitoral, forjando o que viria posteriormente a explodir e escorrer como um magma eruptivo: o sangue derramado e secando no chão poeirento e lamacento da senzala, e grudando no asfalto da casa-grande por conta da omissão e das falácias politiqueiras a justificar os criminosos e seus crimes como se tudo fosse conseqüência da "desigualdade social".
Junto com a eleição do governante estadual, – e com a imposição de suas idiossincrasias, – floresceu o tráfico de drogas nas favelas. Tudo ocorreu na esteira da omissão policial fundada em motivações sociais que jamais ultrapassaram os discursos enganosos. Por outro lado, o narcotráfico alastrava-se mundialmente, e o RJ se comportou como nos áureos tempos dos "coronéis-fazendeiros" e da lei do mais forte. Instituiu-se aqui a figura do "coronel-traficante" dominando pelo terror das armas, – e pelo beneplácito da maquinaria governamental deliberadamente emperrada, – as comunidades carentes. Ressalte-se que pouco ou nada mudou nos governos seguintes, a não ser pelo fato de cada prato da balança tender aleatoriamente para um lado ou para outro: permissividade, truculência, permissividade, truculência... Até os dias de hoje. É o que se alardeia como “política de segurança pública”, – aos quatro ventos, – em bravatas públicas de espantados governantes.
Tornando ao passado mais longínquo, já naqueles tempos o sangue jorrava no rastro das riquezas auríferas, madeireiras, canavieiras, cafeeiras e cacaueiras. O foco da violência eclodia em cobiça desenfreada – romances de Jorge Amado (Tocaia Grande), Adonias Filho (Corpo Vivo), João Ubaldo Ribeiro (Viva o Povo Brasileiro), dentre outros, retratam mui bem essa turbulência social. Era um sangue de impunidade, e a terra virgem sugava-o, e a poeira barrenta cobria-o ao primeiro vento, e tudo se apagava no esquecimento. Hoje o asfalto mantém o sangue em mancha fotografada e arquivada; quando some, outro sangue se lhe sobrepõe em constância: pouco sangue de opressores e muito sangue de oprimidos, descontados os corpos desaparecidos em rios, lagoas, baías e pântanos, ou torrados em “microondas”... E muita cocaína para todos, e um ódio intenso e vingativo faiscando em olhares raivosos, em vontade de matar, em certeza de impunidade, em ações belicosas, em pistolagem, em chacinas!
Colonização, Império, República, Estado Novo, Ditadura, Abertura, Democracia... (democracia?). O que mudou nesta terra brasileira?... Nada!... Na contenda entre a aristocracia e a plebe, vitória certa dos herdeiros das riquezas acumuladas na contrapartida do suor dos pés-de-chinelo. Enfim, a violência é a mesma, e não mudaram os violentados – povoléu civil e fardado –, massa de manobra à disposição de figuras badaladas em revistas que circulam em glamour, como se em volta a desgraça não existisse. Esses vaidosos e famosos, – dentre os quais os políticos enaltecidos pela mídia capitalista à custa de soldos publicitários governamentais, – esses vaidosos e famosos não são atingidos a não ser pelos olhares esperançosos dos miseráveis que enfiam nos jogos de azar governamentais e particulares suas moedas mínimas (logo somadas à riqueza da elite), práticas contravencionais, aliás, com repressão estatal incidindo apenas sobre o particular.
Entretanto, nem tudo tem sido tão perfeito nos últimos andares do edifício social... O crime começa a assolar os ricos; a droga avança em aprimoradas modalidades de consumo, com destaque para o ecstasy. E pobres e ricos, indistintamente, cobram de um poder público moralmente fraco a solução, esquivando-se, porém, de suas responsabilidades. Também a União e os Municípios se comportam em descarado autismo; fazem corpo mole enquanto exigem do exaurido Estado-membro um dever constitucional que igualmente lhes cabe cumprir. A continuar assim, neste pingue-pongue, o resultado será o caos... Ou já estamos nele?...
Sim, já estamos no caos, e faz muito tempo, com todo mundo a matar todo mundo. Morre-se de tiro, tuberculose, overdose e dengue; morre-se demasiadamente no trânsito; não há fronteira nítida entre a legalidade e a ilegalidade; ninguém sabe quem está do lado de quem; vivenciamos o desvalor da vida humana; vivenciamos um tempo de corpos caídos numa só poça de sangue ou em várias poças distantes entre si, o que dá na mesma comoriência; vivenciamos uma guerra entre irmãos que alcança as raias do absurdo – todos atirando em todos: tiro amigo, tiro inimigo, bala perdida, bala achada, não importa, o resultado é o sangue no chão, é o ódio motivado pela desmotivação de viver; vivenciamos a corrupção máxima na política e a inversão de valores; vivenciamos as milícias, nas favelas e no asfalto, crescendo espantosamente; vivenciamos o Mal triunfando do Bem; vivenciamos a ANOMIA!
Diante de tamanha desgraça, como resgatar a moral, a ética e os bons costumes? Como restaurar a Família, a Escola, a Igreja, a Comunidade Livre, o Respeito Mútuo, a Liberdade e a Vida? Por onde devemos recomeçar?... Será patinando em falsas impressões divulgadas em estardalhaço por vaidosos e famosos? Será nos mantendo no continente da tragédia social maquiada em cansativos sofismas? Ou não seria melhor atacar o conteúdo em discussões e ações objetivas no sentido de fazer o Bem novamente triunfar do Mal?... Se é que o Bem algum dia triunfou...

sábado, 18 de abril de 2009

Sobre os 200 anos da PMERJ

Óleo sobre tela de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo (1845-1916)



O dia 21 de Abril de 2009


Dia 21, terça-feira, estaremos todos os policiais militares brasileiros a exaltar o nosso patrono Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Na verdade, não somos portadores únicos dessa credencial. Tiradentes representa a conquista da liberdade do povo brasileiro pelo sacrifício extremo do alferes. Significativo, ainda, o dia 21 de abril, porque neste dia, em 1960, o Distrito Federal transferiu-se para Brasília e emergiu do episódio histórico o Estado da Guanabara e sua PMEG. Deste modo, a PMEG estaria completando 49 anos em 2009, seu real tempo de existência.
Pode parecer irrelevante, mas o fato de a extinta PMEG ignorar 21 de abril como sua data aniversária, para comemorar, como se fora a PMERJ (nascida em 15 de março de 1975), neste ano, os 200 anos de uma existência que pertence de fato e de direito à PMDF (Brasília), esta que, por sinal, festeja seus 200 anos em 13 de maio, aponta-nos a raiz do divisionismo que se dissimula intramuros dos quartéis.
Vamos aos demais fatos...
Com o advento da Fusão, a extinta PMRJ foi incorporada a esse imbróglio histórico como intrusa, embora não houvesse interferido contra ou a favor do abrupto ato. A extinta PMRJ, porém, não sofreu traumas idênticos aos da coirmã (PMEG) e prosseguiu em sua quase bicentenária existência (174 anos) unida por laços corporativos comuns. Não se pode afirmar o mesmo em relação ao outro lado da baía de Guanabara...
Temos a PMDF, remanescente da Divisão Militar da Guarda Real de Polícia da Corte, criada por Dom João VI em 13 de maio de 1809, a comemorar legitimamente seus 200 anos. Temos a extinta PMEG, nascida em 21 de abril de 1960, disputando esta primazia que não lhe pertence; temos um pequeno grupo de policiais militares que seguiu para Brasília com a PMDF e retornou aos quadros da extinta PMEG e ao comando interno por acolher oficiais mais antigos; temos a extinta PMRJ nascida em 14 de abril de 1835 (Guarda Policial da Província do Rio de Janeiro); temos a atual PMERJ, nascida em 15 de março de 1975, mas que não assume sua data aniversária. Estaria, na realidade, completando 34 anos de existência. Apenas... Enfim, com base em que legitimidade histórica estamos nós, integrantes da PMERJ por força de circunstâncias alheias a nossa vontade, a comemorar 200 anos?...
Vejo que a própria história nos dá a solução para unir todos os grupos dissidentes e até antagônicos, por mais que internamente se negue o fato. E não se trata de avaliar interações pessoais ou disputas internas por um poder que deveria existir para servir e não para ser servido. Sim, vejo no dia 21 de abril uma força aglutinadora, e que por isso poderia ser a data aniversária da PMERJ. Sorte da PMEG, que nasceu nesta data à qual todos os policiais militares brasileiros orgulhosamente se rendem em louvor ao nosso mártir sacrificado em 21 de abril de 1792.
Que seja o dia 21 de abril a data aniversária da PMERJ! Que a corporação não se envergonhe e nesta data se reporte a cada fato histórico aqui relacionado, bom ou ruim, não importa, posto ser esse somatório o inegável alicerce da PMERJ! No fim de contas, não faltam mortos e feridos a provar os feitos hodiernos desta nova corporação. Milhares de oficiais e praças da PMERJ já tombaram em defesa da sociedade, talvez mais do que os valorosos milicianos que compuseram no passado os 12º e 31º de Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai.
Vamos exaltar o passado, sim! Mas é também em respeito a esses companheiros nascidos e mortos na PMERJ, e aos cidadãos vivos, que nos devemos abraçar e construir um futuro de honra e glória. Pois o que não falta à tropa atual é competência e coragem para vencer a luta contra o crime, nosso maior problema. Não podemos, portanto, ignorar a desunião e a picuinha internas; elas existem! Devemo-las então reconhecer e sepultá-las para sempre. E a PMERJ renascerá com a força do presente, e será unida, e contribuirá para o Bem triunfar do Mal.

Eis a História da PMERJ contada pela PMERJ no site oficial (sic):


“No início do século XIX, como conseqüência da campanha Napolêonica de conquista do continente europeu, a Família Real portuguesa, juntamente com sua corte, decidem se mudar para o Brasil. Aqui chegando, a Corte instalou-se no Rio de Janeiro iniciando a reorganização do Estado no dia 11 de março de 1808, com a nomeação de Ministros.
A segurança pública na época era executada pelos chamados "quadrilheiros", grupos formados por “bons homens do Reino”, armados de lanças e bastões, responsáveis pelo patrulhamento das vilas e cidades da metrópole portuguesa, cujo modelo foi estendido ao Brasil colonial. Eles eram responsáveis pelo policiamento das 75 ruas e alamedas da cidade do Rio. Com a chegada dessa "nova população", os quadrilheiros não eram mais suficientes para fazer a proteção da Corte, então com cerca de 60.000 pessoas, sendo mais da metade escravos.
Em 13 de maio de 1809, dia do aniversário do Príncipe Regente, D. João VI criou a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia da Corte (DMGRP), sendo esta formada por 218 guardas com armas e trajes idênticos aos da Guarda Real Portuguesa. Era composta por um Estado-Maior, 3 regimentos de Infantaria, um de Artilharia e um esquadrão de Cavalaria. Seu primeiro comandante foi José Maria Rebello de Andrade Vasconcellos e Souza, ex-capitão da Guarda de Portugal. Como seu auxiliar foi escolhido um brasileiro nato, o Major de Milícias Miguel Nunes Vidigal.
A Guarda Real de Polícia, como ficou primeiramente conhecida a PMERJ teve participação decisiva em momentos importantes da história brasileira como, por exemplo, na Independência do país. No início de 1822, com o retorno de D. João VI a Portugal, começaram as articulações para tornar o Brasil um país independente. A Guarda Real de Polícia, ao lado da princesa D. Leopoldina e o ministro José Bonifácio de Andrade e Silva, manteve a ordem pública na cidade de forma coesa e fiel ao então príncipe D. Pedro, enquanto ele viajava às terras do atual estado de São Paulo.
Com a criação do Município Neutro da Corte (atual área do município do Rio de Janeiro) através do Ato Adicional de 1834, foi criada, no ano seguinte, na província, outra força policial denominada Guarda Policial da Província do Rio de Janeiro, por ato do seu então presidente Dr. Joaquim José Rodrigues Torres com sede na cidade de Niterói (então capital fluminense), responsável pela área atual do interior e da baixada do atual Estado do Rio de Janeiro, que recebeu a alcunha de "Treme-Terra", uma alusão a força e a coragem dos membros daquela Corporação. Seu primeiro comandante foi o Capitão João Nepomuceno Castrioto.
Outro fato histórico que teve participação importante da Divisão Militar da Guarda Real de Polícia de Corte foi o conflito iniciado em 1865 contra o Paraguai. O Brasil formou com Uruguai e a Argentina a chamada Tríplice Aliança.
Na época, como o país não dispunha de um contigente militar suficiente para combater os quase 80 mil soldados paraguaios, o governo imperial se viu forçado, então, a criar os chamados "Corpos de Voluntários da Pátria". Em 10 de julho daquele ano, partiram 510 oficiais e praças do Quartel dos Barbonos da Corte, local onde hoje está o situado Quartel General da Polícia Militar. A este grupo foi dado o nome de "31º Corpo de Voluntários da Pátria", atual denominação do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da corporação.
A polícia que cuidava da então província do Rio de Janeiro, à exemplo do que aconteceu na Corte, também enviou contingente de 510 homens à Guerra do Paraguai, sob a designação de "12º Corpo de Voluntários da Pátria", sob o comando do Tenente-Coronel João José de Brito.
A participação destes grupos foi vitoriosa em todas as batalhas das quais tomou parte:Tuiuti, Humaitá, Esteiro Belaco, Estabelecimento, Sucubii, Lomas Valentinas, Itapirú, Angustura, Avaí e Cerro Corá.
Durante a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a PMERJ foi a única Corporação policial a se fazer presente naquele momento, com suas tropas estacionadas no Campo de Santana, onde ficava a residência do Marechal Deodoro da Fonseca e o Quartel General do Exército, sede do movimento insurgente.
Em toda sua história, a PMERJ já teve 12 diferentes nomes somente na área da atual cidade do Rio de Janeiro:

Guarda Policial da Província do Rio de Janeiro – 1835
Corpo de Guardas Municipais Permanentes – 1831
Corpo Municipal Permanente da Corte – 1842
Corpo Policial da Corte – 1858
Corpo Militar de Polícia da Corte – 1866
Corpo Militar de Polícia do Município Neutro – 1889
Regimento Policial da Capital Federal – 1890
Brigada Policial da Capital Federal – 1890
Força Policial do Distrito Federal – 1905
Brigada Policial do Distrito Federal – 1911
Polícia Militar do Distrito Federal – 1920
Polícia Militar do Estado do Guanabara - 1960

E 5 diferentes nomes na área do antigo estado:

Guarda Policial da Província do Rio de Janeiro – 1835
Corpo Policial da Província do Rio de Janeiro – 1844
Corpo Policial Provisório da Província do Rio de Janeiro – 1865
Força Militar do Estado do Rio de Janeiro – 1889
Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro – 1920

Em 1960, a capital do país foi transferida para Brasília e a cidade do Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, passou a ter o nome de estado da Guanabara. Até então a instituição, que naquela cidade era denominada Polícia Militar do Distrito Federal, passou a ser chamada Polícia Militar do Estado da Guanabara (PMEG).
No restante do estado a corporação ganhou o nome de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro já no ano de 1920, porém com o acrônimo PMRJ. Em 1974, o Governo Federal decide reunir os dois estados através da Lei Complementar nº20, que determinava a fusão do Rio de Janeiro e da Guanabara em 15 de março de 1975. Ainda segundo essa lei, a nova unidade da federação receberia o nome de Estado do Rio de Janeiro e, conseqüentemente, fundir-se-iam as duas Corporações policiais-militares. Surgiu então a corporação assim como a conhecemos hoje, com seu Quartel-General no antigo Quartel dos Barbonos, no Centro da cidade do Rio de Janeiro.”

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sobre os 174 anos da PMRJ

Bela festa!




O dia 14 de abril de 2009 foi emocionante para os integrantes da antiga PMRJ; sim, para nós, treme-terras. A extinta corporação comemorou com honras especiais os 174 anos, renascendo em alegria após a morte decretada pela abrupta fusão do Estado do Rio de Janeiro com o Estado da Guanabara. A solenidade aconteceu no pátio do antigo quartel-general da PMRJ, atualmente sede do 4º Comando de Policiamento de Área (4º CPA). Mas, se antes era apenas uma desanimada rotina, esta se nos apresentou pujante e maravilhosa.

A presença maciça da oficialidade pós-fusão a assistir as homenagens aos “vigilantes obreiros” colocados em destaque (Oficiais e Praças) emprestou ao evento o respeito que faltava à corporação treme-terra. A participação do Comandante-Geral e do Chefe do Estado-Maior, respectivamente Coronel PM Gilson Pitta Lopes e Coronel PM Antônio Carlos Suarez David, elevou sobremodo a autoestima dos treme-terras que se fizeram presentes.


Foi, com efeito, surpreendentemente agradável a festa promovida pela cúpula da corporação, demonstrando lhaneza no trato de seus companheiros vencidos pelo tempo. Se a corporação encerra no seu vocábulo um “corpo”, um “coração” e uma “oração”, a “ação” dos companheiros da ativa serviu para acordar a alma dos valorosos policiais militares nascidos do útero da amada PMRJ.

Com certeza, o modo como desta vez a PMRJ foi tratada pela nova oficialidade, cujo início de carreira é posterior a 15 de março de 1975, permite supor que a história da PMERJ plantou seu primeiro alicerce. O próximo a ser plantado será em 13 de maio, data que merece igual ênfase e comemoração.

Em assim sendo, a base de uma nova história da PMERJ a ser construída poderá marcar os 200 anos da antiga PMEG como o segundo passo de uma corporação que precisa vivenciar o presente pelo somatório das duas vertentes históricas e pela união de policiais militares de todas as origens e tempos. Afinal, a tropa de hoje jamais existiria se não fosse a de ontem a existir e a sucumbir, porém se renovando até alcançar o presente.

Eis o atavismo corporativo sadio e rejuvenescedor! Eis a homeostase a vencer a entropia! Eis o caminho da harmonia e da paz! Eis o futuro!

Para isto servem as boas festas: celebrar a união. Sejamos, pois, unidos! Ainda ontem eu me desanimara ante uma incompreensível desunião que se arrasta penosamente intramuros, pondo a perder muitas iniciativas extramuros; mas depois da emoção sentida, confesso que inesperada, vejo o mundo corporativo com outros olhos e de alma lavada.

Valeu, jovens companheiros! Valeu a homenagem! Os treme-terras agradecem! Que venham então os 200 anos da coirmã! Lá estaremos, nós, “vigilantes obreiros”, a lhanamente retribuir a bela homenagem cantando a Canção do Policial Militar. E sonharemos com o tempo futuro em que uma só data marcará a verdadeira história da PMERJ da qual somos partes e cuja soma será maior que a soma dessas partes.



sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sobre a PMERJ e suas datas aniversárias









?




Eia! Eia!...


A PMERJ está em véspera de completar 200 anos... A PMERJ?... Não!... Quem completará 200 anos é a extinta Polícia Militar do Estado da Guanabara (PMEG), que antes foi Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), que antes foi... Bem, a PMERJ começa a se dividir, antes mesmo de existir, a partir da junção da PMEG com ela própria (Muitos policiais militares que foram para a PMDF, na transferência da capital para Brasília, retornaram à PMEG. E não receberam as boas-vindas...).
Em seguida, houve a adesão forçada da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMRJ), criada em 1835 e que antes foi... E que agora, dia 14 de abril, completa 174 anos. Enfim, – e de parte a parte, – nada há a comemorar, mas ambas (PMEG e PMRJ) estarão a postos enaltecendo cada qual a sua data aniversária tal e qual antes o faziam: como se a PMERJ não existisse (esta foi criada a fórceps em 15 de março de 1975).
Pior é que os jovens oficiais, gerados a partir do útero doentio da PMERJ, há 34 anos, preferem fingir que não são filhos dela e se engajam na falsa ideia de que a sua data aniversária é também 13 de maio de 1809, legitimando a mentira histórica. Mas talvez tenham razão. Afinal, como aceitar o fórceps?
Nós, – os antigos ainda vivos, a maioria na inatividade, – teimosamente nos fixamos nas datas tradicionais, ignorando a verdadeira efeméride da PMERJ. Duas datas tristes, muito mais para nós, – joões-de-barro, – e bem menos para eles, – azulões, – porém mais ainda para os híbridos de dois pássaros que não se aninham. Contudo, foram impelidos a fazê-lo artificiosamente, gerando apenas teratogenias aladas. Por via de consequência, a passarada sem identidade ou reage à dura realidade sem comemorar ou opta por gauderiar em árvore alheia, como o vem fazendo...

Ninguém quer ser joão-de-barro?... Todos querem ser azulões?...

Muito bem, é possível que a verdade do “sim” esteja nas duas indagações que conformam o dilema. Porém, como os azulões são maioria, desde o início instituíram uma pedante cultura de menoscabar 14 de abril e enaltecer 13 de maio. Deste modo, impregnou-se a nova passarada da PMERJ de história errada.
Ah, aos vencedores as batatas, os joões-de-barro têm mais é que cantar seu hino, sem eco, na sede do antigo QG da PMRJ, em Niterói. Sem eco, não por falta de emoção, mas por distanciamento da idade varonil. Somos hoje um bando de saudosistas caindo aos pedaços. Sim, somos, mas é certo que no dia 14 de abril arrancaremos do peito um ganido se fingindo brado a relembrar grandes conquistas em terras brasileiras e paraguaias.
Temos história própria, sim! Também os azulões têm história própria, sim! Mas até então ninguém se preocupou em juntar as duas histórias numa só, de modo a apagar essa nódoa preconceituosa que, como um vírus bem plantado, vem contaminando os oficiais da atual geração, estes que nada têm a cantar: nasceram fracos e mudos. Apelam então para uma espécie de “karaokê”; estufam o peito e embarcam em hinos e canções alheias, o que lhes acentua a mais e mais a falta de identidade com uma pincelada de servilismo, posto não defenderem sua própria história.
Ainda bem que inventaram a Canção do Policial Militar, linda, por sinal, e catalisadora das emoções de lá e de cá. No fim de contas, não é hino, é música. Mas o Hino da PMRJ jamais será calado por nenhuma canção. Enquanto existir um João-de-barro no mundo, ele estará cantarolando ou assobiando o “vigilante obreiro”. Até que, depois de todos mortos, o hino se apague da lembrança da nova PMERJ. Nova? Não seria mais apropriado dizê-la “entulho autoritário”?
Muito bem, cabe aos jovens da PMERJ implantar uma realidade diferente, de repente lançando Brasão e Hino inéditos, trocando a cor da farda e pondo a tropa a cantar simultaneamente o Hino da PMRJ e a Canção do Policial Militar antecedendo-se ao cantar do novo hino: o Hino da PMERJ! Ou que enalteçam tão-somente o novo hino, mandando os demais ao museu da corporação, bom lugar para guardar coisas idas e vividas.
Deste modo, as duas histórias serão o alicerce da reconstrução de uma nova instituição a exaltar a bravura de seus próprios feitos, que são muitos nesta atualidade do tráfico sanguissedento a produzir mais vítimas que a Guerra do Paraguai, cujas vitórias são nostalgicamente cantadas pelos 12º e 31º de Voluntários da Pátria. Sim, hoje está mui pior, e não faltará inspiração a exaltar o ferimento e a morte de muitos companheiros vitimados pelo banditismo!
Quem sabe não é o que falta para se consolidar a tão almejada mudança na PMERJ como um autêntico “Projeto 35 anos”, a iniciar 2010 com novos ares nos quartéis e nas ruas? Pois não há como fugir da verdade histórica; gostemos ou não, a PMERJ nasceu de apressada “cesariana” em 15 de março de 1975, fruto de conúbio forçado entre dois Estados independentes e autônomos. Nasceu bastarda, mas poderá ser boa filha se se assumir como tal e trabalhar unida em favor da sociedade.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Meu até breve ao valoroso Coronel PM Francisco Spargoli

Hoje tombou heroicamente o coronel PM Spargoli, como qualquer guerreiro gostaria de sucumbir. Partiu, porém, fora de hora, e paradoxalmente pelas mãos de criminosos contumazes, tais como milhares que ele cuidou de manter na cadeia durante a sua arriscada vida profissional. Quem conhecia o coronel Spargoli intimamente sabia da sua valentia. Eu sabia, era seu incondicional amigo.
O que talvez muitos não saibam é que ele iniciou sua carreira como soldado PM. Foi quando eu o conheci, na Companhia Escola de Recrutas, em Niterói, onde eu servia como tenente. Não me recordo o ano, faz longo tempo.
Ainda recruta, Spargoli se destacava por sua obstinação. Projetava ser oficial da PM e conquistou esse direito sem dever nada a ninguém. Aliás, toda a sua trajetória foi brilhante e sempre sem dever nada a ninguém.
Era um excelente profissional e, acima de tudo, um ótimo amigo. Não que para merecer tal consideração ele abrisse mão dos seus princípios. Pelo contrário, ele costumava ser irredutível e dizia não com a mesma naturalidade com que dizia sim. Não mudava a feição amável que se contrapunha a sua firmeza. Ele era rigoroso, sim! Mas primeiramente exigia um máximo rigor de si próprio. Foi assim a vida inteira.
Homem de coragem, ninguém há de duvidar! Amigo leal! Por isso o cemitério estava apinhado de velhos companheiros dele, e muitos não compareceram ao sepultamento porque foi no mesmo dia da morte. Spargoli saiu do mundo do modo como gostava que a vida fosse: tudo rápido e eficiente.
Repito aqui, lamentando a perda do amigo: ele tombou em combate, do modo que, decerto, gostaria finalizar sua vida terrena. Foi atendido pelo Criador e partiu glorificado. Ser-lhe-ia ridículo morrer inválido, sucumbindo num leito de hospital. Ele não! Jamais! Era um guerreiro! Representava o que há de melhor na corporação, um exemplo de honestidade e caráter. A sua morte é uma grande perda para nós, seus amigos fiéis, e também para a sociedade à qual serviu com bravura e destemor.
A utilidade social do coronel PM Spargoli excedeu a sua pessoa em todos os sentidos. Ele se doou bem mais que recebeu. Resta-nos lamentar a sua ausência daqui por diante, mas sempre frisando: tombou um guerreiro! E assim ele será sempre lembrado!

Até breve, amigo!

Descanse em paz!

Sobre o aumento do efetivo da PMERJ

Sim ou não?


Equação das mais difíceis é o ajuste de efetivo nas Polícias Militares (PPMM). Posto que, organizadas nos moldes do Exército Brasileiro (EB) como forças auxiliares, como tais se incluem no regramento constitucional insculpido no Inciso XXI do Artigo 22 da CRFB: “Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: (...). XXI - normas gerais de organização, efetivos, material bélico, garantias, convocação e mobilização das polícias militares e corpos de bombeiros militares;” Se existe na CRFB um dispositivo “implícito como patada de elefante”, indubitavelmente é este, pois, onde se lê “União” entenda-se “Exército Brasileiro”.
Não se trata de crítica, mas de constatação. Daí é que, em sendo o EB uma Força Terrestre responsável pelas defesas externa, territorial, interna e pública, – e em sendo as PPMM suas forças auxiliares e reserva, – há de haver uma integração entre a força militar federal e as estaduais. E começa pela estruturação das PPMM em regimentos, batalhões, companhias, pelotões e grupos de combate, à semelhança do EB, demais da similitude de postos e graduações a garantir interface sem nebulosidade entre quem manda e quem deve obedecer.
Não é o caso de esmiuçar leis, decretos-leis e decretos federais a comprovarem a subordinação das PPMM ao EB. É como deve ser tratada a questão do efetivo antes mesmo de as corporações policiais militares fixarem objetivos de segurança pública. Presume-se, portanto, que, se as PPMM possuem Organizações Policiais Militares (OPM), – cada uma com sua projeção no Quadro de Fixação do Efetivo (QDE), – é condição mínima ao atendimento do imperativo federal que essas estruturas mantenham efetivos completos e renováveis. Por isso o QDE é fixado anualmente, e os claros (déficit) no efetivo devem ser preenchidos. Como afirmei, isto é condição mínima para se ter uma visão do efetivo independentemente do seu emprego contra a criminalidade. Esta, por sua vez, é a questão mais complexa nos dias atuais...
Portanto, e como as demais coirmãs, a PMERJ, – com o aval do EB, diga-se de passagem, – vem flexionando e especializando seu efetivo para combater a criminalidade crescente e multifacetada. Se não bastassem suas missões de polícia administrativa desdobradas na prevenção pela presença nas ruas e pela repressão, como polícia administrativa, aos crimes visíveis e imediatos, tem a PMERJ de responder às cobranças midiáticas nos casos que não lhe são da competência. Daí é que a mídia põe para o grande público a opinião de “especialistas em segurança pública” afirmando com espantosa precisão que, por exemplo, o casal outro dia jogado do alto da Avenida Niemayer é problema de falta de policiamento nas ruas. Ora, a PMERJ não investiga sequestro relâmpago, isto é labor da polícia judiciária, ou seja, da PCERJ. Penalizar a PMERJ em indesculpável reducionismo é absurdo!
Por outro lado, muitas vezes a PMERJ consegue perceber e evitar sequestros relâmpagos. É evidente que a maior frequência do patrulhamento nas ruas elimina a oportunidade do cometimento de muitos crimes. Mas é labor exclusivo da polícia judiciária apurar e levar aos tribunais os criminosos contumazes, para tanto dispondo de delegacias especializadas e da titularidade do Inquérito Policial Civil.
Não sei se os meios policiais civis são suficientes. Presumo que não o sejam. Mas a missão não é nossa, e muito menos se resume à solução simplista da “especialista em segurança pública” anunciada num canal televisivo de grande audiência: “mais policiamento nas ruas”. Deste modo, ficou no ar e na mente das pessoas a falsa idéia de que a PMERJ deve evitar sequestros relâmpagos por meio de policiamento ostensivo, um dano a mais à imagem da corporação.
Que a interlocutora em questão seja considerada uma estudiosa dedicada aos problemas de segurança pública, vá! Mas designá-la como “especialista” é exagero e sugere certa disposição midiática de cobrar da PMERJ até o que não lhe compete: a investigação criminal objetivando a singularização dos sequestradores com provas suficientes para apresentá-los à justiça. Ah, por mais estudiosa que ela seja, mui bem conhece os livros, mas lhe falta a vivência...
Pensar em aumento do efetivo implica, portanto, considerar a subordinação estrutural e conjuntural das PPMM ao EB. Depois, sim, emergem as questões de ordem pública, que precedem as demais (sublinhando-se a ordem interna). E a realidade a enfrentar na manutenção da ordem pública pode indicar a necessidade de a PMERJ criar mais batalhões ou núcleos de batalhões ou companhias independentes, ou, ainda, ampliar o número de companhias orgânicas de determinados batalhões para acolher novos efetivos.
Deste modo, a corporação pode manter um padrão ideal de polícia administrativa preventiva e repressiva. E não há de ser diferente, pois o princípio básico do policiamento ostensivo é o aumento de sua frequência para inibir a oportunidade do cometimento de delitos por criminosos contumazes ou potenciais. Isto, porém, não impede a especialização no âmbito da PMERJ, como hoje ocorre e faz a corporação muito bem, pois segue a tendência da modernidade: o mundo e suas organizações estatais e particulares caminham em direção à especialização. Portanto, flexionar suas estruturas em função de objetivos prementes é saudável. Mobilizar o efetivo nos moldes estruturais exigidos pelo EB é tarefa simples: é só colocar todos os policiais militares em lugares demarcados, como nos desfiles militares.
Como se vê, tratar de efetivo ideal para atuação na segurança pública não se resume a um “passe de mágica”. Por outro lado, não são digeríveis as impropriedades saídas de “especialistas” afinados com a idéia midiático-esquerdista de retaliar a PMERJ em quaisquer situações. Ora bem, é o preço que a corporação paga por sua existência militarizada e pelo que ela representa no inconsciente coletivo contrário à ditadura, embora antes a PMERJ não patrocinasse DOPS nem DOI-CODI. Mas alguém tem de pagar o preço pelos “erros” do passado. Não importa se muitos que envergam hoje a farda de PM ou das FFAA nem fossem nascidos em 1964. Importa, sim, execrar o “emblema” e enaltecer aqueles que lutaram para implantar no país o totalitarismo de esquerda, os amantes del paredón: os “heróis” de hoje.


sábado, 4 de abril de 2009

Sobre a guerrilha urbana do tráfico no RJ

É a Guerra!



Confesso que relutei muito em postar estas fotos no meu blog. Mas, por amor à verdade, e como sou lido por muita gente de longe, e por isso desconhecedora da desgraça que no Rio de Janeiro acontece, decidi me arriscar a expor a tragédia como ela realmente é.
As fotos seriam de traficantes mortos nos embates travados na Zona Sul da "Cidade Maravilhosa" nos últimos dias. Não é difícil notar que todos os mortos calçam coturnos e trajam vestimentas parcialmente militares. Vestem-se e enfrentam a polícia usando táticas militares. E foram adrede treinados pelas Forças Armadas, pelas Polícias Militares e por mercenários estrangeiros vindos da África, segundo informações que jorram no noticiário. Não se tratam mais de bandos aleatórios e mal armados. A polícia do RJ encontra-se num estágio avançado de enfrentamento de guerrilha urbana.
Outras fotos servem para demonstrar uma violência sem limites. Policiais civis e militares postam-se diante de cadáveres destroçados como se fosse uma cena banal. É o Rio de hoje, reflexo de um passado de inércia e anomia. Pouco falta para que os cadáveres ganhem roupa de grife e manchem o asfalto. Aliás, nada falta, a pistolagem tem sido freqüente nas ruas da cidade.

Muitos cadáveres de policiais militares e policiais civis vêm quebrando a rotina das mortes violentas. É inaceitável ver tantos corpos de policiais dilacerados por tiro de fuzil. Demais disso, os traficantes abandonam carros apinhados de cadáveres arrebentados de todos os modos ou incinerados dentro da carruagem da morte que os transportaram. Isto quando não os incineram no interior das favelas em “fornos de microonda” feitos de pneus. A polícia, por sua vez, não pode esmorecer nem responder com menor violência. Afinal, é a guerra! Quem será capaz de duvidar?

A questão, todavia, prende-se ao rumo futuro. Qual será? Que governante estadual virá? Continuará o futuro governante a determinar o combate sem fim ou inibirá a polícia com a incriminação daqueles que sobreviverem à guerra atual?

Não sabemos... Ou será que sabemos?... Ora bem, eu sei...

Nem mesmo podemos garantir que essa “política do confronto” seja a melhor solução. Sim, malgrado o destemor da polícia e a disposição das autoridades públicas (muitas, porém, estão em perigoso silêncio e na tocaia, como no passado...), tudo indica que a “política do confronto” não está vingando, pois morrem policiais quase que diariamente. E haja contador para registrar os crimes de sangue conexos ao tráfico! O manancial da violência não se esgota, há muita gente disposta a morrer de todos os lados, há muitos desesperados atrás das migalhas residuais do capitalismo selvagem que nos assola.

Enquanto a União não cuida da violência e do crime como um grave problema nacional, o povoléu continuará a morrer esteja ele defendendo o Bem ou o Mal. E deste modo insano, num dia sorriem os policiais; no outro, gargalham os bandidos. É como nos informam veementemente as fotos que ilustram este espantado comentário, como se fora uma caminhada em terreno movediço, sem saída para lugar algum: uma caminhada em vórtice desesperado. E saiam da frente que lá vem bala!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sobre os críticos anônimos (úteis e inúteis)

O vidraceiro de ideias


Expor ideias é como fabricar vitrais para apresentá-los aos olhares críticos dos outros. Não somente aos olhos, que seria deveras bom, mas às pedras que alguns trazem e aos seus estilingues. Cada texto é um vidro, que pode ser transparente ou opaco, fino ou grosso. Se a espessura for demasiadamente fina, basta uma pedrinha a pouca velocidade e lá se vai o vidro a espatifar-se; se for grossa, exigirá pedrada mais forte, nem tão possível de ser bem-sucedida. Mas nem sempre vidros grossos e opacos permitem a visibilidade necessária. Seja o vidro grosso ou opaco, duas atitudes indistintas se podem gerar no observador: medo ou curiosidade. Em ambas, porém, a pedrada é certa. Portanto, a idéia não há de ser como vidro opaco nem grosso...
Nesta ordem de relevância, o vitral seria o texto primoroso: a obra de arte. Nem assim, contudo, estará livre de pedradas. Pode ser até que sofra mais que o vidro transparente ou opaco ou grosso. Seria o texto erudito e tão espesso que nele não se poderia facilmente penetrar e compreendê-lo; ou seria o texto empolado, com a sua superfície aparentando ser o que não é. Nos dois casos, a ininteligibilidade da idéia a faria merecer pedradas.
Escrever é fabricar vidros para proteger e ornar lugares públicos. Depois de expostos, nada os trará de volta. O máximo que se pode prever é a sua permanência como algo apreciável, ou a sua destruição em estilhaços, que são afiados e cortam. É, portanto, um risco potencial fabricar e expor vidros; também o é escrever e publicar textos. Nos dois casos, o produtor de textos ou o fabricante de vidros se poderão ferir na alma ou na carne. Ambos doem.
Ó leitores, ponham-se no mundo dos vidros e textos e enfrentem as pedradas! É o preço por abominar a falsa segurança da omissão. E vale!... E que os vidraceiros e escritores saibam: as pedradas são geralmente traiçoeiras, anônimas! Pois os que jogam pedras são aqueles que as atiraram primeiramente em si mesmos, olhando-se no único vidro que conhecem: o despeitado espelho refletindo-lhes apenas a feiúra do corpo. Das almas, lhes seria impossível enxergar a feiúra: geralmente não as têm.
Contudo, nem todo anônimo é destruidor de vidraças. Há os que criticam o vidro sem quebrá-lo. Mantêm-se no anonimato por questões diversas, não importa, mesmo assim contribuem para a evolução da ideia. Apreciam ou não o vitral e emitem suas opiniões favoráveis ou contrárias sem ofender o vidraceiro. Mas há aqueles que jogam pedras no vidraceiro antes de mirar o vidro. Tanto faz que seja grosso, fino, opaco, ou um lindo vitral, para o destruidor armado com seu estilingue interessa-lhe ferir o autor da obra. Pior é que desses – e são inúmeros – nada se pode esperar de construtivo. Mas como expor o vidro sem o risco de vê-lo estilhaçado? Como?

Só há um meio de vencer os donos de estilingues: produzir vidros mais rapidamente que a velocidade deles em quebrá-los. Abarrotar-lhes a mente com ideias até cegá-los. Jorrar a luz sobre a superfície do vidro para neles refletir algum raio perdido. Mas não lhes devemos dar espelhos. Eles que os comprem! E se mirem em insignificância ante a obra que detestam por invejar seus autores. E, diante do espelho, refletir-lhes-á a feiúra da alma, se ainda a tiverem, e a repugnância do corpo lhes apontará o rumo da modorra intelectual eterna. E dormirão sem sonhar com nada; mas terão pesadelos, postados como vitrais a receberem as pedras de seus estilingues. E continuarão cegos, e desconhecerão a alegria de estar entre os espíritos bons. Ah, são tão inúteis que nem estilhaços de vidros serão!...