quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Iniciando 2010: sobre as ocupações de favelas na Zona Sul do Rio de Janeiro...

“Tá tudo dominado!” (brado do traficante Fernandinho Beira-Mar depois de assassinar desafetos e incinerar seus corpos dentro do Presídio de Segurança Máxima Bangu I):

“ Revista Época – 12/09/2002

Beira-Mar comemora: ‘Tá dominado’
“Tá dominado, está tudo dominado”. Com um refrão do funk, sucesso do grupo do Bonde do Tigrão, o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, comemorou ontem a morte de seus arquiinimigos do tráfico durante a rebelião, comandada por ele, no presídio de segurança máxima Bangu I. A comemoração foi revelada em uma ligação de Beira-Mar para um comparsa não identificado, interceptada pelo Ministério Público, por meio de escuta telefônica autorizada pela Justiça.
Na ligação, o homem não identificado pergunta a Beira-Mar se eles (referindo-se também ao traficante Chapolim) estão bem. É possível ouvir a voz de Chapolim, braço direito do bandido e também preso em Bangu I, ao fundo. Beira-Mar repete:
– Aqui tá tudo bem – disse, soltando uma gargalhada em seguida, acompanhado de Chapolim.
O interlocutor também ri e Beira-Mar repete:
– Aqui tá tudo bem. Tá dominado, está tudo dominado – disse, encerrando a ligação às gargalhadas.”


Ocupações... Unidades de Polícia Pacificadora... Tudo bem, o assunto não pode ser outro, é o epicentro da segurança pública no RJ, locomotiva enfeitada e barulhenta a puxar muitos vagões silenciosos e invisíveis!... É compreensível o clamor positivo da mídia com as ocupações (Unidades de Polícia Pacificadora – UPP) de favelas da Zona Sul pela PMERJ. No fim de contas, é lá ou na emergente Barra da Tijuca que residem os ricaços e os formadores de opinião, não apenas do Rio de Janeiro, mas de todo o país. É bom que assim se afirme para que no futuro ninguém tente tangenciar quando o povo favelado da periferia reclamar para si igual privilégio, se isto for possível, porque os traficantes, como não podem ocupar dois lugares ao mesmo tempo e se retiraram da região ocupada, para algum novo homizio eles se dirigiram. Em Niterói e São Gonçalo já se observa a presença deles, nem é preciso serviço de inteligência para confirmar. Nos bairros que frequento as pessoas falam à surda sobre esses indesejados visitantes.
Por enquanto os traficantes que bateram em retirada têm onde se acomodar, suas facções lhes garantem acolhida provisória. Mas chegará o momento da cisão entre eles e as guerras eclodirão em muitos pontos do Grande Rio. Não é necessário ser profeta para antever o perigo que se potencializa nesse jogo de empurra. A modesta experiência que temos e a observação diária da mídia garantem-nos a razoável certeza de que o caldeirão tenderá a ferver em outros pontos e a tampa explodirá. Porque não há como encher um copo com apenas uma gota d’água. O alegórico copo representa as mais de seiscentas favelas somente na Capital; a gota d’água é a PMERJ. E ainda não inventaram nenhuma engenhoca para esticar a gota d’água...
Não posso evitar esta minha visão realista (ou pessimista). Primeiramente porque não engulo a isca da prioridade de escolha. Fosse por “índices de criminalidade”, bastaria atentar para algumas pesquisas acadêmicas (vide as promovidas ou incentivadas por Alba Zaluar) para se concluir que a Zona Norte é bem mais turbulenta que a Zona Sul em todas as modalidades de crime, sublinhando-se os crimes de tráfico e sangue, dentre outros. Portanto, resta a constatação de que a escolha da Zona Sul se deu por circunstâncias político-econômico-financeiras. Tudo bem. A causa pode ser justa, mas eu particularmente duvido dessas alardeadas boas intenções políticas. Para mim, trata-se de esperteza pura dos atuais mandatários com vistas ao atendimento de interesses tão convergentes como inconfessos: os moradores da Zona Sul são donos da mídia e serão economicamente beneficiados em seus negócios diretos ou indiretos. Tudo, com efeito, converge para o sucesso financeiro. Daí a badalação descarada das ocupações, a ponto de um grande jornal arremedar em empolgação o traficante Fernandinho Beira-Mar.
Na verdade, a única coisa que me convence, e não é de hoje, é o fato de que a PMERJ tem competência para vencer o tráfico e ocupar quaisquer favelas. No fim de contas, até as milícias provaram tal capacidade! Seria vergonhoso se um grupo aleatório conseguisse ocupar e se manter indefinidamente numa favela, expulsando os traficantes, e a PMERJ não lograsse idêntico êxito. A ação policial-militar de ocupação é nota DEZ! A questão a que me prendo, porém, é a do limite espacial do copo e da única gota d’água a tentar enchê-lo, e aí a coisa se complica porque não há de haver água (efetivo) suficiente para encher e manter cheio o copo (as favelas do RJ). Em dando certo, e há todo um contexto favorável ao êxito das ações pacificadoras num número mínimo de comunidades faveladas, as demais comunidades dominadas pelo tráfico terão o direito de exigir o mesmo. Só que não o farão: a lei do silêncio determinada pelo tráfico não lhes permitirá tão tamanhona audácia. Deste modo, haverá o conformismo, pondo-se os traficantes a serviço dos mandatários políticos, paradoxalmente lhes garantindo a resignação dos favelados esquecidos pelo programa pacificador até agora somente destinado (Claro! Claríssimo!) à elite capitalista.
O governo irá, sim, determinar a ocupação de algumas favelas periféricas. O estardalhaço midiático, de um lado, garantirá a retumbante generalização do isolado benefício, como, aliás, ocorre com aqueles prêmios televisivos e demais jogos de azar... Do outro lado estarão os traficantes silenciando os moradores de locais não ocupados. Enfim, plano perfeito, golpe de mestre, puro engodo com vistas às próximas eleições e aos bilionários eventos mundiais que estão por vir. Ora bem, de minha parte quero desde já evidenciar que não sou peixe otário para morder essa isca artificiosamente fabricada em alumínio multicolor imitando manjuba, minhoca ou sardinha... Avisando que insistirei no assunto. Nada demais. Afinal, é o tema da moda, e cabe aos integrantes da blogosfera policial comentar sobre a novidade com base em experiência acumulada, de modo que a opinião pública não se limite à falsa opinião publicada. Esta, como sempre, rende homenagens aos esforços governamentais que lhes trazem lucros, embora esses esforços sejam pagos pelos contribuintes, que ainda compram jornais, ouvem rádio e veem tevê diariamente, facilitando assim a impregnação que interessa aos manipuladores da (in)consciência coletiva.

sábado, 26 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO!


rio Imbé



Em tempos idos eu era dono do céu, não de todo céu, mas de um pedacinho dele que cobria Santo Antônio do Imbé, roçado situado no Município de Santa Maria Madalena, com acesso por Conceição de Macabu, Município próximo a Campos dos Goitacazes. Ali, no meio da mata virgem, o céu era meu e as estrelas que nele cintilavam estavam tão perto de mim que eu podia até tocá-las em minha fértil imaginação. Eu contava seis anos. Era o ano de 1952...
Tempos de criança, época de aventuras ilimitadas, todas vividas dentro de mim, tempos de fadas e duendes que viviam no céu, mas desciam até mim. O céu falava comigo. Eu ouvia o som das estrelas; elas pareciam morar dentro do meu peito. Algumas corriam o céu me proporcionando um espetáculo somente meu. E quando a lua brilhava, eu pensava que São Jorge acendera todos os lampiões ao mesmo tempo. E meu céu tornava-se lindo! Não havia uma só nuvem entre nós, nada me impedia de ver o espetáculo cósmico que somente me pertencia a mim e a mais ninguém.
As estrelas eram tão vivas que eu as apanhava com as mãos em concha, como quem pega água em ribeirão à luz do luar. Na beira do rio Imbé, o espelho d’água me trazia o céu inteiro, e eu brincava de pegar e soltar minhas estrelas. Também as fazia oscilar no céu agitando a água cristalina que corria diante de mim sem ocultar a alegria por ainda ser cristalina. Até havia jacarés, mas no trecho onde eu me acocorava feito índio o luar era como um poste de luz a alertá-los para algum perigo, e eles buscavam outros cantos do ribeirão. Gostavam também de paz...
Ali no roçado em que eu ficava a ver minhas estrelas, o rio Imbé era tão pequeno e raso que mais se assemelhava a um ribeirão, sim. Os banhos nele, no verão quente, povoam até hoje minhas lembranças. O ar era quente, mas a água corria gelada: o sol não a alcançava plenamente. A floresta sombreava a lâmina d’água e as grosas areias, nuns tons amarronzados, acariciavam meus pés descalços. O único transtorno, às vezes, ficava por conta dos mosquitos ou dos meus sustos ao ver passar uma cobra. Havia muitas. Mas havia os momentos mágicos da visão das pacas na beirada do Imbé. Eram muitas, gordinhas e rebolativas, prato apreciado pelos camponeses que trabalhavam com meu pai no plantio do abacaxi, do café, da mandioca, do milho, da laranja, da tangerina e da cana. Plantavam também hortaliças, mais para o sustento familiar, e mantinham um pomar apinhado de frutas, muitas das quais nunca mais tive chance de saborear, como os abios roxos e amarelos ou os sapotis deliciosos. Bons tempos!
O mundo em Santo Antônio do Imbé me parecia perfeito. Nada me faltava. Eu nem sabia que a Terra era redonda nem sonhava com os povos que a habitavam... Para mim a vida era o meu entorno e um pouco da monotonia campista. A cidade de Campos foi onde eu posteriormente morei e passei a estudar, ficando para trás e para as férias escolares o meu céu do Imbé. Ah, Imbé, a minha palhoça feita de bambus e cipós trançados e cobertos de barro era enorme. Parecia casa de fazenda. Era do pai, ele era dono das terras virgens que aos poucos desvirginava para plantar o alimento e criar os porcos e as galinhas. Claro que não faltavam ovos, nem farinha, nem fubá. Muito menos escasseava a banha de porco e seus pedaços nela conservados em galões ou fortes caixas de madeira. A cidade ali, nas brenhas do Imbé, era desnecessária. Pouca coisa vinha dela, talvez o sabão fedorento que servia para lavar panelas, roupas e corpos. Mas tudo era asseado, até mesmo a fuligem agarrada às paredes embelezava a palhoça. O fogão de lenha era enorme. Além das muitas bocas a receber panelas, havia um enorme tacho para queimar a farinha de mandioca, e outro, menor, onde a mãe fazia seus doces: de mamão, de banana, de laranja; e o forno sempre quente e a produzir bolos de fubá e de aipim e a queimar a cavaca de milho substituta do pão.
A minha vida era, naqueles roçados distantes, um conto de fadas. Alimentado, livre para correr pelas trilhas feitas por homens ou bichos, ainda gozava das delícias das noites estreladas que só me pertenciam a mim. Tanto fazia que eu visse e tocasse minhas estrelas refletidas na água do ribeirão ou as arrepanhasse diretamente dos céus. Era tudo meu: o chão, as árvores, os pássaros, os bichos diurnos e noturnos. E o medo... Porque muitos sons vindos da floresta tomada pela escuridão me amedrontavam, até que eu descobria a sua origem com a ajuda dos camponeses. O sabiá, por exemplo, emitia um som noturno tão assustador que nem parecia o pássaro a cantar maviosamente ao raiar do dia.
Também o brilho de muitos olhinhos na escuridão me dava medo. Não distinguia os bichos pelo brilho dos olhos e me assustava porque sabia estar entre eles o olhar das onças que habitavam as matas virgens de Santo Antônio do Imbé. E sabia delas porque muitos roceiros às vezes as apresentavam como troféus da caça que praticavam para eliminar as comedoras de cabritos, porcos e galinhas. Vinham junto com os cachorros do mato, mas esses eram espantados pelos cães domesticados que habitavam conosco nas cercanias das palhoças. Eram geralmente cães pastores nem tão puros de origem, mas valentes o suficiente para enfrentar até mesmo as onças mais desavisadas ou audaciosas. Elas vinham tão pertinho que quase fuçavam as gentes roceiras. E pagavam o preço da audácia com a exposição do seu couro descarnado. O tiro da espingarda as vencia facilmente, mas me garantia a existência delas, o que me deixava apavorado. Em vista do perigo, no ribeirão eu geralmente ia com o pai, que levava apenas um facão afiado e dizia de peito inchado que era o que lhe bastava para enfrentar jacarés e onças. Meu pai era o meu herói. Ele me deixava ser dono das estrelas e dos roçados. Deixava-me banhar no rio. Sinto muita saudade dele...
Meu pai morreu com 39 anos. Chamava-se também Emir, o que me garante ter sido eu a sua intenção de continuidade. Fui o primeiro dos filhos, porém o segundo da prole de cinco que ele deixou: nasceu na frente a minha irmã Enilda, nome decerto decorrente da aglutinação do “E” ao nome “Nilda”, que é o de minha saudosa mãe. Ela viveu bem mais. Viúva do pai ainda nova, lutou para criar seus cinco filhos e conseguiu vê-los vencedores. Não falhou seu compromisso com o pai, não casou novamente e se dedicou a esperar o seu encontro com o único homem de sua vida. Exemplo de mulher e mãe, hoje está passeando de mãos dadas com o pai lá no meio das minhas estrelas, tendo ainda como companhia o meu irmão caçula, Evanir, todos recepcionados por meu tio Santos (o mais alto, à direita), de geração anterior à do meu pai e cuja foto foi produzida nas terras do Imbé.

Não sei se meu espírito está influenciado por mais um ano que se finda, embora isto não passe de convenção humana. O Universo não depende de tempo nem de espaço ou “espaço-tempo”. Ele existe independentemente de contarmos os anos, dias, meses, semanas, horas, minutos e segundos. E, dentro dele, postados num grão cósmico denominado Terra, nós envelhecemos guardando as lembranças e as informações que captamos nas conversas, nos causos e nos livros. Assim acumulamos nosso conhecimento racional e emocional. Conformados ou não com os nossos limites, seguimos com nossos sortilégios até que passemos a ser lembrança de alguém. Dependemos, porém, de amigos e familiares para construir esses elos que o tempo faz desaparecer. Ficam os mitos, estes, que vencem o tempo, como Elvis Presley e tantos outros. Mas eles e elas são somente lembranças de um tempo que passou e certeza de que o nosso tempo também passará. É o que sentimos a cada ano que finda. Que venha então o ano de 2010 e não nos enganemos com a imortalidade amiga da vaidade, do egoísmo, da arrogância e do desamor ao próximo. A imortalidade pertence aos deuses mitológicos por nós inventados para suprir o mistério da existência humana. Ou então se situa na Revelação Divina, melhor e mais segura válvula de escape de quaisquer mistérios.

FELIZ 2010!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

REFLEXÃO DE NATAL



A vida é feita de encontros e lembranças cujo ponto de partida é dependente de alguma escolha. Comecemos então com o primeiro encontro: do casal namorado. E o casamento... O segundo momento é o da mãe abraçando o filho recém-nascido. E outros encontros se vão somando aos primeiros no transcorrer da vida: dos parentes, dos amigos, dos amores, dos filhos, dos netos, dos bisnetos... E o círculo aumenta, e o mundo se enriquece de gentes e lembranças, desde a primeira delas, até que seu acúmulo nos ofusca a memória. Mas eis que algumas lembranças aparentemente esquecidas retornam num filme ou numa foto antiga. Sim, numa foto antiga ou num filme caseiro preservados por algum parente ou amigo. E a visão inesperada dos entes queridos nos inunda de emoção. É assim quando deparamos com alguma lembrança fotografada ou filmada. Nela avistamos na tenra infância os amados que se foram ou envelheceram como nós; e percebemos a efemeridade da vida, talvez a pior das lembranças, pois chega o momento da reflexão e nos vemos ante a balança do tempo a nos apontar o dilema inevitável: num prato, os vivos nascendo, e crescendo, e envelhecendo em torno de nós; no outro, a lembrança dos que partiram muitas vezes sem dizer adeus. E ficamos divididos entre a saudade dos ausentes e a alegria de estarmos presentes em meio aos que florescem a nossa volta: filhos, sobrinhos, netos, bisnetos etc. Neste ponto, a emoção nos aperta o coração e nos espeta a alma. Vem-nos a certeza do fim que se encaminha tão rapidamente como as galáxias se expandem em direção ao infinito desconhecido. Começamos a pensar quem ou o que somos neste mundo passageiro. Tentamos a visão otimista e a crença no Bem, mas nos curvamos ante a realidade do Mal que nos assola desde os primórdios dos tempos. Devemos achar o mundo bom sabendo ser ele mau?... É difícil a resposta, porque, por melhor que seja ou tenha sido a nossa vida neste mundo, o final dela será o mesmo dos que se alegraram ou sofreram: o túmulo, para onde foram as gentes queridas que vemos nos filmes e retratos em sépia. E lá também seremos depositados para a vida continuar perseguindo a luz viva das estrelas mortas: prova da eternidade cósmica...

Feliz Natal!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

MENSAGEM DO PRONASCI

Recebi o assunto e divulgo-o na íntegra por considerá-lo de suma importância para os militares estaduais, cabendo-lhes, claro, sugerir outras ideias e melhorias. Vejo o fato de o PRONASCI abrir o tema para divulgação entre nós como um avanço democrático.
Um Feliz Natal para todos os leitores deste blog!

Emir Larangeira




"Olá Emir, tudo bem?

Devido a sua importância como formador de opinião o escolhemos para receber o conteúdo de um projeto super bacana que está rolando e que é de grande interesse dos seus leitores.

Obs: Você pode modificar o release de acordo com a linha editorial do seu blog, ok?
Espero que goste e qualquer dúvida, estou à diposição!

Em anexo segue o logo da PRONASCI e o SELO, para possa colocar no blog e divulgar a segurança com cidadania.

Agradeço pela atenção
Gabriela Leite
Riot
www.riot.com.br
11 2175-2943
PRONASCI


Há 40 anos, as principais estratégias de segurança pública para combater o crime são a repressão e o aparelhamento da polícia. A valorização do profissional de segurança pública sempre esteve em segundo plano, até agora!
Desenvolvido pelo Ministério da Justiça, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – PRONASCI – articula os governos federal, estadual, municipal e a população para integrar políticas de segurança pública e a ações sociais.
Os profissionais de segurança pública também têm papel de destaque no programa. Dentre os 94 projetos, estão iniciativas desenvolvidas especificamente para o setor dos profissionais da segurança pública, visando valorizar e estimular os profissionais para uma ação mais cidadã.
Conheça alguns dos projetos desenvolvidos, para você, profissional tão importante para a segurança pública nacional:
Bolsa Formação – Os profissionais receberão novos estímulos para estudar e atuar junto às comunidades. Policiais civis e militares, bombeiros, peritos e agentes penitenciários de baixa renda terão acesso a uma bolsa de até R$ 400,00.
Formação Policial - A qualificação das polícias inclui práticas de segurança-cidadã, como a utilização de tecnologias não letais, técnicas de investigação, sistema de comando de incidente, perícia balística, DNA forense, medicina legal, direitos humanos, entre outros. Os cursos serão oferecidos pela Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública (Renaesp), e ainda em tele centros para educação à distância.
Plano Nacional de Habitação para Profissionais de Segurança Pública - A categoria também poderá contar com o Plano Nacional de Habitação para Profissionais de Segurança Pública, com o apoio da Caixa Econômica Federal. Serão disponibilizadas unidades populares para servidores de baixa renda, que recebam até quatro salários mínimos e a cartas de crédito para a compra da casa própria, no valor de até R$ 50 mil, para aqueles que recebam até R$ 4,9 mil.
Lei Orgânica das Polícias Civis - A legislação vai unificar estrutura, funções e procedimentos das polícias civis de todo o país, promovendo a padronização da corporação.
Para garantir a realização das ações no país serão celebrados convênios, contratos, acordos e consórcios com estados, municípios, organizações não-governamentais e organismos internacionais.
Confira mais informações no http://www.mj.gov.br/pronasci, inclusive animações super bacanas com depoimentos de quem já vivenciou as vantagens do projeto.
Se você gosta de estar antenado por dentro do que acontece minuto a minuto siga-nos no twitter : twitter.com/pronasci. Mas se você prefere fotos: flickr.com/photos/pronascibrasil, ou gosta mesmo é de ação? http://www.youtube.com/pronasci.
Não importa, O PRONASCI criou vários canais para que você possa estar por dentro de tudo que envolve o que consideramos mais importante: Você."


domingo, 20 de dezembro de 2009

Sobre o panoptismo de Benthan


Desde que Jeremy Benthan concebeu o sistema panóptico* para vigiar condenados, parece que despertou nos governos de todos os naipes a ânsia de vigiar para punir cidadãos transgressores de regras inventadas segundo o princípio da desconfiança generalizada. E o que deveria ser exceção tornou-se regra. Pior ainda, transformou-se em instrumento de extorsão do Estado contra o particular, este que perdeu o direito à distração mínima ou à intimidade fora do lar e quiçá até dentro dele, como apontam as câmeras instaladas nos condomínios horizontais e verticais. Hoje o ambiente social mais parece a cela das prisões concebidas por Jeremy Benthan.
Sem dúvida, a invenção de Jeremy Benthan venceu os tempos. Complementando a nota de rodapé, o panóptico incluía a ideia da luz atravessando a cela e projetando a sombra do condenado, para ser também indiretamente vigiado pelo observador da torre central, este que, por sua vez, era fiscalizado pelos cidadãos. Deste modo, e em meio às interações sociais cada vez mais complexas, o Estado emergiu como inimigo número um da privacidade individual, tudo, claro, em prol de um discutível benefício coletivo.
Como tudo que é ruim tende a piorar, hoje não há mais privacidade em lugar algum. Sob o pretexto de vigiar o delinquente (exceção), as câmeras se espalharam por todos os lugares, instaladas por particulares contra si próprios e pelo Estado contra todos. Claro que a suposta utilidade do método justifica os excessos, do mesmo modo que a distorcida noção da ordem pública funciona como uma borduna de bugre sempre em posição de descer sobre o cocuruto de alguém que individualmente se distraia. Num semáforo desnecessário, por exemplo...


O sistema panóptico tornou-se caça-níquel estatal. Ninguém está livre de perder suas moedas além dos elevados tributos que, curiosamente, servem para comprar mais e mais caça-níqueis dissimulados em “fiscalização eletrônica”: os famigerados “pardais” (o apodo decerto tem relação com a excessiva quantidade desse pássaro urbano a incomodar o transeunte por meio de suas sujeiras em toda a cidade). O “pardal”, na verdade, é modalidade insidiosa de tocaia com o fim último e primeiro de o Estado bater a carteira do contribuinte.




*O panóptico de Jeremy Bentham é uma composição arquitetônica de cunho coercitivo e disciplinatório: possui o formato de um anel onde fica a construção à periferia, dividida em celas tendo ao centro uma torre com duas vastas janelas que se abrem ao seu interior e outra única para o exterior permitindo que a luz atravesse a cela de lado...” (Michel Foucault – Microfísica do Poder)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sobre as ocupações na zona sul





Generalizando a exceção

As ocupações, segundo a ótica interesseira do Sistema Globo, é sucesso absoluto (aplausos de pé!). Aliás, “nunca na história deste país” oficiais lotados nas ocupações receberam tantos espaços positivos na mídia, claro que jamais comparáveis ao negativo do capitão que, sozinho, superou todas as boas falas em razão das ocupações. Refiro-me ao episódio da jaqueta e do par de tênis ocorrido nas imediações da Praça Tiradentes...
Bem, que assim seja!... A novíssima afirmação operacional atende aos interesses imediatos e futuros da grande mídia residente na zona sul, e, por via de consequência, do governante, da secretaria de segurança e da PMERJ, que resolveram apostar todas as fichas políticas nas ocupações encetadas na parte chique da Cidade Maravilhosa. Agora a elite não mais vê tiros cruzados entre favelas dominadas por facções antagônicas e o povo rico tupiniquim e alienígena está feliz: garantia de votos e verbas de campanha e certeza de hotéis lotados.
Ocorre, todavia, que sob a ótica da prevenção primária as ações do governo e o trabalho operacional da polícia são iguais a zero. De repente, as ocupações passaram a ser início, meio e fim, panacéia para todos os males da violenta criminalidade instalada em centenas de favelas, ruas e vias expressas, porém tão exaltadas que parece não haver nenhuma outra favela dominada pelo tráfico, embora sejam mais de seiscentas comunidades carentes só na Capital. Enfim, como diz o ditado alemão, “a árvore impede de ver a floresta”. Porque as ocupações não passam de “árvores” em vista da “floresta” inalcançável pela medida operacional posta em prática como nos tempos medievos das conquistas e manutenção de cidadelas inimigas.
Impressionante é que a mídia tem o poder da multiplicação. Generaliza brilhantemente a exceção e os mandatários governamentais e seus dirigentes da segurança pública ficam possessos quando alguém questiona a mágica solução visando à Copa do Mundo e às Olimpíadas vindouras. Agem até jogando com a certeza de “muitas medalhas nas urnas” em 2010 e anos seguintes. Agem como se o eleitor periférico estivesse a engolir a isca do engodo esparramada pelos quatro cantos do Rio de Janeiro e não mais enxergasse com seus próprios olhos que em suas favelas vizinhas o tráfico vai bem, obrigado.

Por falar em ocupação, o próprio vocábulo não é lá tão feliz. No Aulete: “Tomada de posse ou invasão de um lugar: a ocupação da capital pelas tropas estrangeiras.” Na Enciclopédia e Dicionário Koogan-Houaiss Digital: “Ação de se apoderar militarmente de uma cidade, de um país.” Enfim, a conotação é deplorável, e tem lógica porque a tropa da PMERJ apodera-se das favelas sob o pretexto de conquistar o território do inimigo: o traficante. Tudo bem, que assim seja, mas é preciso saber com que fim, porque integrar a uma nova cultura as comunidades ocupadas lembra as invasões romanas e a imposição ao povo de sua cultura e de sua religiosidade, não sem um alto custo para os povos que resistiram à opressão romana.
Há de se questionar, até para ajustar as ocupações à realidade de todo o Estado do Rio de Janeiro, que estamos diante de exceções tornadas regras por pura conveniência política. Os discursos focados na “maravilha” chegam a ser impertinentes. Tentam pôr pele de leão em asno; impõem-nos cangalhas à larga, enquanto a violência se acirra em outros pontos (92 Municípios, todos com favelas). Ora, tratar a ocupação como tentativa de vencer o tráfico em determinadas cidadelas, mesmo que sejam para atender aos interesses econômicos da grande mídia, vá. Mas apresentar as ocupações como um “milagre” do “São Cabral”, atropelando a inteligência popular e o discernimento conceitual e prático da PMERJ como um todo, chega a ser demoníaco. Criar heróis momentâneos, como insiste o Sistema Globo (parece ser o único interessado... Por quê?), até estourar a próxima notícia ruim para exaltar o vilão-policial-militar é abusar da inteligência alheia. Mas, ao que parece, até 2016 o cardápio tende a ser o mesmo: ocupações “pra inglês ver”...


Asno em pele de leão

sábado, 12 de dezembro de 2009

Sobre a tendência ao conformismo

Criar arte em determinados momentos é tão impossível como rezar para tentar salvar a alma sem crer nos santos. Vivemos nessa oscilação: ora a inspiração nos vem e a arte emerge; ora a fé nos inunda e a reza é esperançosa e forte. Ora, porém, não nos ocupam nem a inspiração ou a fé, e nos perdemos num vazio inútil e imperdoável, porque o tempo escorre como a água do rio: insensível ao nosso drama. Cumprem a sua finalidade, o tempo e a água, tal como a nossa: desconhecida.
Tudo se resume ao mistério. Pensamos na vida efêmera como matéria em viagem curta e apostamos na vida imaterial e eterna como a verdadeira vida, embora dela nada saibamos e apenas especulemos em resignação ou desespero. Ou na certeza da fé. Mas, quaisquer que sejam nossas motivações, todas cessam no túmulo, lugar democrático do qual nenhum ser humano escapa. Tudo no final é a morte ou o desaparecimento da matéria que compõe o nosso corpo, suposição talvez mais razoável: significa a aceitação da transformação do que somos em outra matéria representando o que não sabemos além do fato de que somos átomos. Será o espírito feito de átomo?...
Há os que crêem na reencarnação, no retorno do espírito noutro corpo. De certo modo, isto ocorre. Afinal, como o átomo não morre, ele simplesmente existe e pode compor muitas matérias seguintes ao se desprender de alguma forma palpável, porém nunca original: não somos os primordiais; somos consequência não se sabe de quê nem pra quê. Somos átomos. Somos pó de estrelas que remontam ao big bang, se é que houve alguma explosão nos primórdios do tempo, se é que há algum tempo.
Nada sabemos, a ciência é diminuta ao se emaranhar na infinitude macrocósmica ou microcósmica, tanto faz: não sabemos onde termina o mínimo das “cordas quânticas” nem o máximo das “galáxias inflacionadas”. E nos matamos em disputas por bens materiais que aí ficarão a rir de tudo e todos, passando de mão em mão e servindo de engodo aos que se assumem como imortais até que morram e se tornem átomos a reciclarem gentes e coisas. E o mundo segue reciclando seus átomos...
Mesmo assim, olvidando esta realidade, se é que existe realidade, não são poucos os que se imaginam “divinos” ainda hoje, embora as múmias milenares provem o contrário e sem qualquer pressa. Não sei o que move essas gentes “divinizadas” que massacram seus iguais ou enganam-nos em eloquência enquanto sugam seus suores escravizados. Não são poucos os que se fingem donos duma “divindade” por eles inventada (L'État c'est moi) e se enfeitam em roupagens solenes, em togas e turbantes imponentes, em ternos elegantes, em emblemas, plumagens e caixões deslumbrantes; e em túmulos faraônicos...


Louis XIV

Não são poucos os agentes do Mal a serviço do que instituíram como Bem. Mas, pensando realisticamente, o que seria realmente o Mal ou o Bem? Não sabemos, apenas sentimos de algum modo as dores físicas e morais produzidas contra nós por terceiros que se postam nas poderosas posições de mando e nós estupidamente os aceitamos. Olhamos para essas figuras mores esquecendo que assim elas o são por culpa nossa, porque nós fomos às urnas e lhes transferimos o nosso mínimo poder, este, que não é nosso, mas a nós é imposto como obrigação de transferi-lo em eleições inventadas (tudo é artifício, em especial o chavão: “o poder emana do povo”). E sofremos as consequências do poder que nunca gozamos, mas que doamos a alguns para que o gozem plenamente. Isto é a tal da democracia, diferentemente da ditadura, que goza das mesmas delícias, mas pelo menos não exige que votemos em encenação com o mesmo fim: a concentração de poder. No final, mandam poucos e obedecem muitos.
Que vida é essa? Que palco é esse? Que encenação generalizada é essa que fazemos e a troco de quê? Que Mal é esse que ocupa todo o planeta durante todo o tempo, desde os primórdios em que os povos nem se comunicavam entre si? Por que a tribo remota ou atual tinha e tem cacique e curandeiro? Por que os povos têm ditadores, imperadores, reis e príncipes? Por que todos e tudo têm dono? Por que somos esses todos a aceitarmos passivamente os nossos donos e seus maus-tratos? Por que não nos unimos e lhes chutamos os traseiros? Por que somente algumas vezes em que lhes chutamos os traseiros logo transferimos a seus iguais e finórios sucessores o poder de chutar os nossos? Por que lhes entregamos a nossa bunda ao chute? Por quê?...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sobre as ocupações



Pedindo desculpas pela impertinência...


A apologia que o “Sistema Globonarmental” (ou “Governaglobal”) faz das ocupações alcança as raias do descaramento. Sem qualquer preocupação com a evolução da medida operacional, em especial com as falhas até para correção de rumo, as notícias exaltam as ocupações como um autêntico e incontestável feito policial, assim generalizando situações pontuais dependentes ainda de aferição no transcorrer do tempo. Ora, apenas algumas comunidades da Zona Sul (sabe-se o porquê da escolha) recebem esse tratamento policial que muito longe está de sua consolidação como pronto e acabado. Claro que todos nós torcemos para o modelo dar certo. Mas quem é do ramo e conhece como a PMERJ é distribuída no terreno não se engana tão facilmente. Em sobrando efetivo para concentrar em determinado ambiente, há de faltar em outro... Ademais, há centenas de favelas excluídas do benefício (será mesmo benefício?), o que caracteriza a discriminação dessas comunidades desgraçadamente situadas na periferia, locais, aliás, – e como denuncia o Coronel PM e Professor Jorge da Silva em artigo aqui reproduzido, – afetados por graves confrontos e morte de muita gente, incluindo-se policiais.
Creio que as autoridades da segurança pública deveriam expor com maior clareza as razões da preferência pelas comunidades da Zona Sul (por coincidência onde o governante e demais personalidades particulares e públicas nacionais e locais residem; ou seja, onde estão os “famosos”). Afinal, pontuar o sucesso restrito a essas ocupações é reducionismo, assim como o anúncio da ocupação de 37 favelas em bairros diversos (aí sim, incluindo alguns periféricos) tem sabor de engodo: essas ocupações exaltadas pela “infomídia” lembram um ovo podre com sua casca tremeluzindo de tão lustrada. Ah, se quebrar...
Na verdade, a segurança pública, não possui uma política nacional coesa; em contrário, é resultante de idiossincrasias fragmentadas e muita vez antagônicas, mal que tem como origem o regime militar controlador das polícias e direcionador de suas ações para a “subversão” e para o “inimigo interno”. Pior ainda é que a constituinte de 1988 cristalizou quase todas as impropriedades geradas durante o regime militar, que chegou ao cúmulo de gravar na “Carta da Ditadura” que o PM não poderia ganhar mais que o pessoal do EB. Ganhar menos podia...
Essa foi a “política de segurança pública” anterior à abertura democrática, e de lá para cá pouco ou nada mudou no contexto nacional, e, por via de consequência, nos contextos regionais e locais: as Polícias Militares (PPMM) continuam agrilhoadas ao Exército Brasileiro como “forças auxiliares reserva”. Por conta disso, elas são controladas e fiscalizadas como um possível mal a ser extirpado, e não como um bem destinado à segurança pública, preocupação menor ou nenhuma dos militares federais. Aliás, é devido a esta nenhuma preocupação que as Polícias Militares se submetem às idiotices governamentais regionais (Estados-membros), inexistindo uma política nacional capaz de integrá-las. Tratam-nas como se o crime fosse fragmentado tanto como elas o são. Claro que o resultado disso é caótico em todos os sentidos e ações, tanto aqui como algures. Quem assistiu ao jogo do Fluminense contra o Curitiba no último domingo (06/12) pode sintetizar o “preparo” das PPMM brasileiras. Ora!...
O rol de atribuições destinadas às PPMM é absurdamente extenso. As PPMM são como o “Bombril”: têm mil e uma utilidades. Usam-nas para tudo que aparece de novidade, ou não as usam para atalhar o que não interessa. Exemplo: as badernas do MST... Dentre essas PPMM está a PMERJ, talvez uma das mais afetadas por esse processo histórico de transformação política e social por que passa o Brasil. Mas o Rio de Janeiro vem do tempo do rei: foi centro do Poder Monárquico e Imperial, foi Capital da República, foi Estado da Guanabara, e agora é Capital de um Estado consequente da fusão de dois torrões sem a anuência do povo. Pior que tudo isso, porém, é aturar um governante a contratar nova-iorquinos por milhões de reais para “ensinar” o que não conhecem, enquanto se mantém a péssima remuneração dos policiais sob o falso pretexto da falta de recursos. Triste povo... A continuar o desmando e os prazeres de quem não governa absolutamente nada, iremos aos caos mesmo com ocupação de favelas nas zonas chiques. Tudo, aliás, somente para “inglês ver”...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sobre as ocupações policiais militares




Ou sobre a ameaça governamental

“Estou avisando para os traficantes irem embora” / “Sérgio Cabral manda recado para que bandidos deixem Tabajaras e Morro dos Cabritos em três semanas” (título e subtítulo extraídos do Jornal O Globo, Rio, quinta-feira, 3 de dezembro de 2009, P. 15)

Que conclusão se deve tirar da ameaça proferida pelo governante e estampada na grande imprensa? Se os bandidos medrarem, irão embora para onde? E se não obedecerem e começarem a gargalhar da bravata?... O que lhes acontecerá?... Como o policial deve entender esse recado-ameaça governamental na hora de agir?... Será a ameaça uma demonstração de valentia ou de desespero? É manifestação de coragem ou de medo? Não seria melhor a ordem estar oficializada em decreto governamental? Quem sabe assim os traficantes, como “bons cidadãos”, acolheriam a determinação e sairiam enfileirados e submissos, entregando-se às autoridades policiais sediadas na rua onde incendiaram um ônibus, dentre outras perigosas estripulias?...


Venho comentando sobre as ocupações de favelas pela PMERJ no Rio de Janeiro (Capital) num misto de otimista e pessimista. Sou otimista porque entendo se tratar de medida operacional salutar para a comunidade ordeira residente em favela; e pessimista devido à carência de efetivo não somente para ocupar, mas, principalmente, para manter o sistema funcionando por longo tempo. Nem digo indefinidamente porque a realidade será a da migração dos traficantes para outros pontos da cidade e o acirramento dos conflitos em novas disputas de territórios. Tal situação demandará deslocamento de efetivo para essas novas áreas de risco (já se vê o Batalhão de Choque desviado de suas precípuas finalidades...). Já também apontei o inconveniente de a PMERJ se apresentar como “salvadora da pátria favelada” e logo depois se ver em situações desagradáveis ao ter de coibir pequenos delitos no ambiente ocupado. Torna-se ela, então, a vilã de sempre, tal como o é o bandido em suas cidadelas. Pois é certo que nenhuma população, nem aqui nem algures, vê com bons olhos a polícia. Em alguns momentos, até prefere os bandidos...


Agora se acrescem mais problemas aos conflitos já detectados entre a população favelada e o grupamento de ocupação, conforme salientei num outro artigo aqui postado (a farda do PM rasgada por favelados indignados): a reação dos bandidos (?) queimando ônibus no asfalto, explodindo bombas de fabricação caseira e mandando fechar o comércio até na rua em que está sediada uma Delegacia de Polícia. Mais arrogância que esta é impossível de se conceber. E não adianta partir para o confronto, resposta que decerto haverá, com a morte de alguns desses traficantes açodados e de policiais abanados por discursos governamentais de enfrentamento. Enfim, o problema persistirá, admitindo-se ainda a possibilidade de os que mandaram o comércio cerrar as portas, lançar bombas e incendiar ônibus nem mesmo serem bandidos, mas apenas pessoas agindo por ordem do tráfico e a medo da morte em caso de negativa.

A situação desnuda uma realidade de derrota que vem sendo ofuscada por discursos estatais otimistas e ameaçadores (última moda lançada pelo governante). Porque os bandidos conhecem as limitações da polícia, embora chovam anúncios de novas levas de policiais militares. O último deles é o da inclusão de mais quatro mil homens a engrossar o efetivo da corporação, dificultando, deste modo, a melhoria salarial da sofrida tropa. Trata-se de absurda contradição, pois o governo se nega a pagar salário digno ao PM antigo, sob a alegação de falta de verba, ao mesmo tempo em que investe em novas contratações a privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade. Inclui-se nesta qualidade o preparo, e, principalmente, a motivação da tropa existente, que hoje ocupa o penúltimo lugar no ranking da remuneração das Polícias Militares no Brasil.

É imperativo deduzir disso tudo que os dirigentes estatais nada almejam além de manipular a polícia ao bel-prazer de suas idiossincrasias políticas, todos de olho nas eleições do ano que vem e nos eventos geradores de lucro, principalmente para a mídia (Copa do Mundo e Olimpíadas). Alguém deve desde já pagar o preço da menos-valia para que a mais-valia entupa as algibeiras de muitas gentes no futuro. Para o PM, como de costume, sobrarão os restos indigestos dessa despudorada politicagem. Mas ele, o PM, como bom “ovino”, estará pronto para o abate, e, como um “bode expiatório” das falhas do sistema, animará o discurso desses dirigentes interessados tão-somente em si mesmos e não no verdadeiro interesse público.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sobre as três semanas...


– Ih, Zará, o bicho pegô!
– Pegô quem, Zorô? Que bicho?
– Ah, seu burro, é só pra dizê que a barra dos trafica pesô!
– Hum... Intendi, Zorô. Mas pru que ocê falô isso?
– Ocê num viu, Zará, o que o governadô disse pros bandidos da Ladeira dos Tabajaras e do Morro dos Cabritos?
– Não! Disse o quê, Zorô?
– Ele disse: “Estou avisando para os traficantes irem embora!”
– Mula! Que valente, hein, Zorô?
– É mesmo, Zará! O homem é cabra-macho. Encará trafica de peito aberto é coisa de herói. Inda deu prazo de três semanas... Sinão...
– Três semanas, Zorô? E si eles não saírum de lá? Quem vai lá tirá?
– Quem? Quem?... Adivinha, Zará...
– Ah, Zorô, já sei, ele vai chamá a briosa de Brasília pra fazê o serviço...
– Pru quê?
– Ora, Zorô, só eles ganham pra arriscar o rabo nessa guerra. Nós nem guentamos mais subi morro, de tanta fome.
– Mas, Zará, nós é que vamo recebê a ordi...
– Então, Zorô, ele tem qui mandá a turma gratificada, os heróis do faroeste, a turma que ganha bem. Eu num vô!
– Vai, sim, Zará! Se num fô, perdi a farda e vorta a passar fomi nu Nordesti.
– Que isso, Zorô?!... Ingora nordestinu num vai passá fomi, não! Lá vai recebê pré-sal e vai tê dindim pru povo.
– Ih, Zará, e si o governadô der três semanas pru Nordesti devolvê o dindim pra ele? Vai tê guerra. De que lado nós vai ficá? Somo nordestinus com farda de carioca...
–Ih, Zorô, acho melhó a genti se mandar pru Nordesti logo. Se a genti ficá aqui, a genti vai sê tratado como traidô e ganhá tortura im vez di salário.
–Ah, Zará, nosso salário já é tortura...
– É verdade, Zorô!... Mermo assim, em três semanas eu me mando pro Nordesti...
- Tá certo, Zará! Lá, pelo menos nós sê cabra-macho. Aqui nós é gado de corte e o homi é o dono do matadouro...