sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sobre a liberdade de ler e escrever


Gosto de ler; leio tudo que me aparece; até bula de remédio eu leio no banheiro. Sentar no “trono” sem ler algo é, a meu ver, perder tempo. Mas não há como nos livrarmos da obrigação de expelir nossos dejetos, suores e impurezas urinárias. O corpo humano é sistema aberto, recebe insumos, processa-os e os expulsa numa dinâmica que cessa com a morte. Nem tanto assim: depois da morte, o corpo serve de alimento aos vermes, e os vermes servem de alimento a outros vermes, e os vermes alimentados que se arriscam a ver o sol são devorados por algum bicho terreno ou alado. E assim a vida segue, o tempo escorre, e nada mais se deve fazer além de aproveitá-la no seu máximo, cada um fazendo o que gosta sem prejudicar o outro. Ler não prejudica ninguém.
Gosto de escrever; escrevo tudo que me vem ao atino sem me preocupar com nada além do meu gosto. Escrevo primeiramente para mim. Jogo no lixo muita coisa que escrevo como jogo fora meus dejetos, suores e impurezas urinárias. Mas há momentos em que entendo, acertada ou erradamente, que algo que escrevi é importante, pode até salvar a humanidade etc. Sim, apaixono-me pelo que escrevo como se o texto me fosse a namorada. Ou detesto-o como se fosse um rival de mim mesmo.
Ponho o meu direito de escrever acima de tudo, não acima de todos. Uso o meu direito de escrever para concordar com o que leio ou peremptoriamente discordar de idéias alheias tornadas públicas por quem quer que seja. Não sou obrigado a gostar de muita coisa que leio. Dou-me a mim o luxo de muitas vezes “jogar fora” algum livro que imaginava bom por conta da publicidade a privilegiar seus autores. Mas não abomino nenhum autor, pois muitas vezes amo um texto de determinado autor e logo depois odeio outro texto dele mesmo. Esclareço as aspas: “jogar fora” significa doar o livro a alguém que possa talvez gostar daquilo que não me agradou.
Aceito humildemente as críticas de pessoas identificadas. Não dou bola para anônimos nem quando sou por eles eventualmente elogiado. Não vejo por que me ufanar com elogios nem me irritar com críticas anônimas. Fico com Schopenhauer quando ele diz no seu “Sobre o Ofício do Escritor”: “Nomeia-te, velhaco! Pois quem é honesto não ataca sob máscara e capuz pessoas que passeiam com a face descoberta”. Ele avança ainda mais na sua irritação, mas aqui é o que me basta.
Enfim, tenho site e blog porque gosto de escrever, e para mim é modo de não morrer. Também escrevo porque anseio me sentir útil à sociedade ou, pelo menos, a alguém, nem que seja a apenas um leitor, podendo este ser eu mesmo. Não invento isso, tento copiar Machado de Assis, que escreveu um recado ao leitor nas suas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco (...).” Ora, quem sou eu para pretender mais de um leitor a me ler depois disso?
Por essas e outras, defendo os que escrevem independentemente de gostar do que escrevem ou da pessoa que escreve, caso eu a conheça. Penso que uma boa idéia pode salvar o mundo, mas só se for divulgada. Sinto pena dos poetas quando os vejo vendendo seus folhetins nos bares da cidade desde quando eram impressos em mimeógrafo. Não sei se estão vendendo a sua arte para sobreviver ou se a vendem para disseminar nos corações alheios suas emoções. Creio que muitos estão cobrando por sua arte apenas para valorizá-la. Coisa dada leva-nos a desconfiar do seu real valor.
Bem, seja lá qual for o argumento, vamos todos ler e escrever, nem que seja uma bula de remédio ou receita de bolo. Quantas receitas boas estariam perdidas no tempo se não fossem escritas? Ah, não suporto pimentão! Quando me vejo ante um alimento temperado com pimentão, fico nervoso. Nem por isso, todavia, abomino a receita. É só substituir o pimentão ou simplesmente excluí-lo da receita. Aí sim, o alimento fica ao meu gosto e eu o consumo para processá-lo dentro de mim e ganhar saúde. É o mesmo com um escrito. O que for saudável à minha mente, permanece; o que não for, esqueço. Mas pelo menos tento ler, como alguém deve ter lido este texto que pode não lhe ter acrescentado absolutamente nada, mas para mim diz tudo.. Ou também não me diz nada, não me importo, eu o escrevi e o pus no mundo. Viva a blogosfera!!!!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sobre a liberdade

Novos tempos!... Tempos de liberdade!



Apraz-me deveras ver surgir a cada dia um novo blog de policial expondo idéias, criticando, elogiando etc. Claro que os companheiros mais antigos, muitos ainda em atividade e avessos à modernidade, não percebem a força da blogosfera, cuja interface une como poderoso ímã as pessoas com a mesma linha de pensamento, mesmo pertencentes a instituições diferentes e espalhadas Brasil afora. Na verdade, muitos até se comunicam com o exterior ou são observados por interessados em estudar o fenômeno policial brasileiro. Em contrário, os nativos da aldeia tupiniquim insistem em aplicar regulamentos disciplinares ou criminalizar os que manifestam seus pensamentos como nos permite a Carta Magna.
Curioso é que muitos políticos, antes situados na posição de estilingue, agora não suportam ser vidraça. Apelam para a autoridade do cargo a tentar calar à força do muque a voz dos internautas. Mas é como malhar ferro frio: a turma está indo em frente e abrindo seu espaço de fato e de direito. E não há ameaça, ferrão, espada, fuzil, grade ou outros modos de vigiar e punir que consigam deter a difusão das idéias, não que sejam boas, excelentes, formidáveis; algumas, na verdade, são até muito ruins, outras são injustas. Contudo, o que está em jogo é a liberdade de expô-las. Não importa se terão utilidade para aqueles que temporariamente estão a comandar o espetáculo político. Logo não mais estarão e os internautas lhes saberão dar o devido troco disseminando suas maldades e impedindo que retornem ao poder. Porque o poder do internauta é eterno! Como bactéria necessária à saúde social, os internautas proliferam a mais e mais. É claro que para esses temporários do poder político a proliferação é vista como praga a ser eliminada do contexto de seus interesses inconfessáveis.
Ah!...
Novos tempos!... Tempos de liberdade!
Tempos de conquista e exposição livre dos contrastes e contradições. Não é fácil ser internauta. A diferença entre o poder do burocrata e o poder do internauta é que o primeiro é apenas legal. O poder do internauta é, sobretudo, legítimo. O internauta não “tem” um blog. Ele “é” o blog. E o que “é” não morre, porque são poucos os que podem bater no peito e dizer “eu sou”, mesmo que nada “tenham”. Os que “são” não se preocupam em “ter”. Vivem a liberdade do “nada a perder”: as idéias “são”, e, por conseguinte, não se perdem jamais. Depois de gravadas, vencem os tempos e vão à eternidade. Balzac dizia que “a vida militar exige poucas idéias”. Enganou-se! A vida militar e o rigor dos regimentos policiais impedem que boas idéias sejam difundidas, mas elas existem e a prova aí está: a grandiosa blogosfera policial. A vida militar, mais até que a policial, quer “corpos dóceis”, mas o homem que veste a farda ou ostenta um distintivo é corpo e alma como qualquer homem. E sua alma finalmente encontrou o portal da liberdade: a internet.
Novos tempos!... Tempos de liberdade!
Por isso, nós, internautas, vamos em frente, abrindo picadas para os mais novos. Vamos sangrando nossas mãos, rasgando nossa pele nos espinhos das incompreensões e da sede vingança dos poderosos que detestam a liberdade, embora a apregoem como “bandeira de luta” na política. Ah, que nada! São sacripantas! Fazem gestos e feições treinadas! Como diria o mestre Machado de Assis, são “metediços e dobradiços”; vivem para si e não para o outro. Mas cá estamos nós, internautas de plantão, a observar com independência esses finórios, prontos a lhes dar uma surra nas urnas. Afinal, somos esbanjadores de idéias e também votamos; e somos chatos, sim! E estaremos sempre a policiar os maus para sugerir aos eleitores que não mais votem neles. É direito nosso! Faz parte dos novos tempos, dos tempos de liberdade, que defenderemos nem que seja a muito suor e sangue!
Ó novos tempos!... Viva a liberdade!... Alegria! Alegria!... Viva a liberdade!
Como os dias pedem, cantemo-la, pois, em ritmo de carnaval...


Hino da Proclamação da República*



Seja um pálio de luz desdobrado.
Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperança, de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, avante, da Pátria no altar!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou este audaz pavilhão!
Mensageiros de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder
Mas da guerra nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!


* Música: Leopoldo Miguez (1850/1902)
Letra: Medeiros e Albuquerque (1867/1934)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sobre a ação pacificadora da PMERJ em favelas

Temporária ou definitiva?





“... as coisas não podem ser de outro modo: pois, como tudo foi criado para uma finalidade, tudo está necessariamente destinado à melhor finalidade.” (Cândido ou o otimista – Voltaire).





Rui Gomes Chaves, emérito professor de Ciência Política da Universidade Nuno Lisboa, contratado para lecionar no Curso Superior de Polícia (CSP) do qual fui aluno no ano de 1988, lá do alto de sua admirável sapiência exemplificava muita coisa interessante por meio de alegorias. Uma delas dizia respeito aos feitos da PMERJ com divulgação geralmente inexistente ou reduzida a reações às notícias negativas por meio de defensivas institucionais que não serviam nem servem para melhorar a imagem da corporação. Dizia ele, em gracejo, que comemos ovo de galinha porque ela faz o maior estardalhaço ao terminar sua tarefa. Já a pata, que produz um ovo excelente, sai quietinha e ninguém se interessa por seu produto tão delicioso e maior que o da galinha. Enfim, resumia o mestre que não basta “saber fazer”; o importante é “fazer saber”. A PMERJ é a “pata” da alegoria...
Tenho acompanhado as bem-sucedidas ocupações pacificadoras encetadas pela PMERJ em algumas favelas, destacando-se o Morro Dona Marta e a Cidade de Deus. Anima-me o entusiasmo das autoridades policiais e dos governantes estadual e municipal, o que indica uma louvável disposição deles no sentido de ampliar o número de ocupações, assim desbaratando os traficantes homiziados nesses locais como se fossem fortalezas medievas. Mas o fato de reconquistar territórios excluídos da lei e da ordem institui um dever hercúleo da corporação no sentido de garantir paz permanente nessas localidades. Demais disso, caberá à PMERJ proporcionar igual serviço público aos favelados de todos os municípios do RJ, não apenas aos da capital dos tambores midiáticos a ressoarem mundo afora como aquela galinha da alegoria alardeando o seu único ovo do dia. Isto implica considerar a reconquista de mais de mil comunidades dominadas pelo tráfico, demais de algumas outras mantidas por grupos paramilitares armados, que, infelizmente, recebem o apodo de “milícias”, vocábulo histórico, honroso e designativo de policiais em muitas partes do mundo, mas aqui tornado tipo penal: “crime de milícia”.
Ocupação total... Mas como ficará o asfalto?... Tarefa difícil, senão impossível, se se considerar a falência do efetivo e dos meios materiais, resultado da aversão de antigos governantes ao aparelho policial, por considerá-lo “de direita”. Entretanto, só o fato de provar que o poder público é mais poderoso que o poder paralelo significa muito para a sociedade em geral e, principalmente, para os destinatários dessas ações policiais: o povo favelado. Acabar com a sensação de superioridade dos bandidos, sepultando aquela triste imagem do Fernandinho Beira-Mar gritando “tá tudo dominado!” dentro de Bangu I, depois de encetar a matança de seus rivais, é fundamental para o resgate da credibilidade do poder público. Isto está acontecendo, devemos reconhecer o fato e aplaudir.
Sei, por vivência, o quanto é importante para uma comunidade carente livrar-se do domínio de bandidos. Quando comandei o nono batalhão (abril de 1989 a abril de 1990), expulsei os traficantes da Favela Pára-Pedro (também conhecida como Vila São Jorge), situada no bairro de Colégio, Zona Norte, e lá mantive policiamento ininterrupto. Pude muitas vezes visitar a comunidade e perceber a alegria das crianças e a descontração dos jovens e adultos circulando sem temor pela favela. Isto durante as vinte e quatro horas do dia. Lá a PMERJ não era rejeitada: era querida e tinha a sua presença sempre ansiada pelos cidadãos ordeiros. Mas foi só retornar o segundo tempo do maldito brizolismo para o policiamento sumir de lá e os bandidos dominarem a comunidade ao custo do sangue de muita gente que antes desaprovara a presença deles. Este é o perigo futuro. Se amanhã ou depois essas localidades tornarem ao mando cruel dos bandidos, muita gente ordeira morrerá em represália. E a repercussão será como a da pata pondo seu ovo no silencioso mundo favelado...

Favela Pára- Pedro (Vila São Jorge) - Colégio - Zona Norte do Rio.

TCel PM Larangeira, cmt do 9º BPM e Dr. Wilson Vieira, Del. Pol. titular da 40ª DP

Não há como não temer que o desastre ocorra. Na política, tudo é temporário. Hoje o governante estimula a ação policial. Amanhã poderá haver o contrário, já vi esse filme. Não se trata de pessimismo, mas de realismo. Por isso devo deixar registrada a minha preocupação, e, no caso, trata-se de quem teve experiência nesse campo específico de restauração da ordem pública em localidades carentes dominadas pelo tráfico. Hoje o Morro Dona Marta e a Cidade de Deus comem “ovo de galinha” em barulhenta alegria. Se amanhã não estiverem a comer ovo nenhum, nem de galinha nem de pata, com certeza estarão a comer bala quente da desforra de enraivecidos bandidos, ou chumbo grosso conseqüente dos indefectíveis confrontos a tapar o sol sangrento com o telhado de vidro de sempre. E o retumbar será, no máximo, o de batida fúnebre numa caixa de fósforo...
Calma! Calma!... Não sou pessimista! Afinal, o atual governante já anunciou o aumento do efetivo da PMERJ em vinte mil homens, prometendo ainda melhores salários. Bem... Não me cabem dúvidas de que a corporação é capaz de formar esses homens em tempo recorde. Imaginemos dois anos, tempo que falta ao chefe do Poder Executivo para cumprir o anunciado. Se realmente houver empenho, não digo que a meta será alcançada, mas com dinheiro para acelerar o ânimo do pessoal, isto é possível. Torçamos, pois, para o otimismo! Façamos como o Cândido e o Pangloss de Voltaire! E que o dinheiro jorre das algibeiras federais direto aos cofres estaduais! Que também os dirigentes municipais se empenhem e invistam na segurança pública como um dever constitucional! Que a sociedade se mobilize! Deste modo, com a participação de todos, venceremos o crime organizado e a paz reinará em todas as favelas do RJ. Hum?... Sim, nem eu nem você sabemos aonde irão parar os milhares de traficantes expulsos de seus homizios. Os do Morro Dona Marta foram para a Ladeira Tabajara dividir com seus comparsas aquele apertado espaço. Os da Cidade de Deus, esses eu não sei aonde foram dar com seus costados. Mas isto é mero detalhe, eles que se virem!...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sobre a liberdade de discordar

“Pelas ruas de túmulos, fomos calados. Eu olhava vagamente aquela multidão de sepulturas, que trepavam, tocavam-se, lutavam por espaço, na estreiteza da vaga e nas encostas das colinas aos lados. Algumas pareciam se olhar com afeto, roçando-se amigavelmente; em outras, transparecia a repugnância de estarem juntas. Havia solicitações incompreensíveis e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes, imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.” (O Cemitério – Lima Barreto)



Discordar é preciso?...

O ser humano, como ente naturalmente individualizado e livre, tende a formular e emitir opiniões, porém sempre com a intenção de influenciar. Essa intenção, por sua vez, esbarra no outro para o qual a comunicação é direcionada, podendo ser aceita ou não. Se não, o debate se inicia e, dependendo do oscilar dos pratos da balança do poder a diferenciar ou igualar os interlocutores, o diálogo pode terminar em consenso, discórdia ou conformismo de uma das partes; nesta última hipótese, conforma-se a parte mais fraca: o nietzschiano “gado de rebanho”. Se, todavia, ocorrer a discórdia, e não houver a possibilidade de punição de um contra o outro para fazê-lo conformar-se, daí à inimizade é um pulo. Mas, em havendo o conformismo, o real sentimento do reprimido permanecerá no obscuro campo da dissimulação e tornar-se-á mal somático. Enfim, iniciada uma discussão entre duas ou mais pessoas, o assunto em si poderá levar ao consenso ou aos caos mental e físico.
A vida é feita de contrastes, e estes se iniciam no lar, no seio da família, fonte primeira de uma peculiar interação em que o pátrio poder se impõe sobre o descendente e dependente econômico, embora o escorrer do tempo, aliado a novas circunstâncias, possa inverter esta relação. Seja como for, é inegável que sempre haverá alguém tentando mandar e alguém resistindo a obedecer, e, quando obedece, ou é por concordância (caso raro) ou por imposição (mais comum). No ambiente familiar, na verdade, emerge a primeira socialização da criança, geralmente com predominância dos juízos de valor dos adultos, que vão impregnando a criança e assim forjando o seu caráter. Se ao fim e ao cabo de tudo o caráter for bom ou mau, isto é outra história (“O homem é naturalmente bom e afável, e a vida em sociedade o deturpa.” – Rousseau).
Na escola e na igreja a criança cumpre o seu papel social de aprender o que os “sabidos” lhe ensinam, e o fazem por meio de “sistemas educativos” bem-sucedidos e pelos velhos e usuais castigos, incluindo-se as ameaças de danação. E por aí segue a “lavagem cerebral” a forjar novas gerações obedientes e impregnadas de falsos valores. Lembra-me, quando criança, que eu só ingressava na escola pública se apresentasse a carteirinha carimbada pela paróquia a provar eu ter assistido o padre dizer a missa (em latim e de costas) aos domingos pela manhã. E lá se perdia a minha oportunidade de jogar bola com os moleques (Muitos aplausos para os índios, que respeitam suas crianças!).
Eia! Eia!... Adolescência! Rupturas! Direito à obrigatoriedade de votar! Hum!... Questionamentos no lar! Libertação dos dogmas ou aprofundamento deles! Aventuras! Irresponsabilidades! Cigarro, bebida, drogas! Acidentes automobilísticos, cadeira de roda, mutilação e morte! Enfim, a liberdade!... Liberdade?... Não! Não!... Hora de se apresentar ao serviço militar obrigatório, já o Estado interferindo no reenquadramento do rebelde aos juízos de valor esquecidos e às novidades das leis e normas. Hora do patriotismo imperativo, quando deveria sê-lo por livre-arbítrio ou pelo menos como antigamente, quando as crianças cantavam nossos belos hinos antes das aulas e os desfiles escolares eram um acontecimento marcante. E, enfim, vem a fase adulta, e com ela a imobilidade social, o pânico do jovem-adulto a se ver sem oportunidade no mercado de trabalho, com a namorada querendo noivar e casar... E acelera o problema engravidando... E o jovem-adulto com ela se embola em qualquer canto e de qualquer maneira... E, inevitavelmente, a criança nasce, e assim se inicia mais uma geração do grandioso e conformado rebanho: a boiama social favelizada.
É esse jovem-adulto, — de cultura mínima e sem chance de avançar nos estudos, — é esse jovem-adulto que engrossa o volumoso contingente a prestar prova para ser PM. A peneira é cruel: poucas vagas destinadas aos candidatos, zelo indiscutível dos selecionadores, e logo se inicia a nova fornada de recrutas que em pouco tempo estará policiando as ruas, não sem boa parte ficar pelo caminho no transcorrer do curso. Os que culminam aprovados, aí sim, se vêem ante mais um obstáculo árduo: vencer os bandidos e burlar a severidade do sistema; pois não é fácil ser policial e militar concomitantemente, e sem o direito de falhar. Como numa maratona, de cada turma formada no CEFAP não é significativo o número dos que vencem e vão em frente, vivos e saudáveis, até a inatividade: a miragem no deserto. E aqui se indaga: que condição possui um jovem-adulto, ou um velho-adulto, de discordar de alguma coisa? Que tempo ele possui para fazer valer dentro de casa seus juízos de valor agora perturbados definitivamente pelo ambiente social (piquete militarizado) no qual se lançou como gado de rebanho? O que sobrou do quê?... Discordar de quê?... Eis o servo do Estado pronto e acabado!... Ai dele!...
Toda essa divagação, leiga, diga-se de passagem, visa a demonstrar que a vida social é um processo que não se inicia nem termina na corporação militar estadual. Nós, PMs, somos resultado do sistema de formação de uma sociedade intrinsecamente opressora, calcada na cultura do senhor-escravo com os “capitães-do-mato” no meio a servirem ao “Senhor-Estado” e à “Senhora-Sociedade”, sentindo-se “senhores”, embora não sejam senhores de nada. E vão perseguindo seus iguais (os escravos fugidos) a soldo de um efêmero poder. Pois, na verdade, todos, — exceto os verdadeiros senhores da Sociedade e do Estado, — todos somos gado marcado, somos desprezíveis aos olhos dos históricos senhores, somos povoléu sem direito de ser ou ter. Mas logo aqueles que se sentem “senhores” tornarão à realidade da esquecida marca gravada a ferro que também carregam na anca; e morrerão rejeitados por ambos os lados (senhores e escravos), muitos sem conseguir reunir seis mãos a equilibrar o seu vai-volta até o cemitério mais próximo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Uma Livre Opinião

“É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”
(Inc. IV do Art. 5º da CRFB)


Talvez eu seja o blogueiro mais antigo dentre os integrantes da PMERJ. Venho de longe no tempo, já mudei de provedor algumas vezes por conta de “ataques viróticos” e me obriguei a zerar o contador outras tantas. Quanto ao contador, no meu caso devo sempre considerar as indefectíveis visitas de arapongas. Essa turma não tem jeito. Não toma conhecimento da democracia e depende de fazer futricas contra terceiros para sobreviver. Eles são úteis a governantes e burocratas maliciosos, sejam estes de um extremo ideológico ou de outro. Arapongas são uns finórios sem feito nem feitio. Não vou perder tempo com eles, mas não há como não considerar a importância dessa turma da “comunidade” na contagem das visitas aos blogs que incomodam o sistema no qual esses répteis vivem a gauderiar. Alimentam-se dos dejetos da esquerda, do centro, da direita, ou das diagonais ideológicas, tanto faz como tanto fez. Deixem-nos pra lá... Afinal, mais sem-vergonha são os que a eles se submetem pensando que deles tiram proveito. No final se igualam: existem do poder para o poder e para si. Não para outrem. Não representam o eleitor: representam-se e encenam a “persona” que lhes indicam seus roteiros teatrais.
Não gosto de arapongas (com a ressalva de que nem todos os agentes públicos que atuam nos serviços de inteligência o são, e que a inteligência, como variável antecedente à distribuição do policiamento preventivo-repressivo da PMERJ e à investigação criminal da PCERJ, é a melhor arma contra o crime organizado). Também não gosto de políticos ambíguos; assim deixo claro que me reporto tão-só aos que enfiarem as referentes carapuças, neste caso, e se vestirem de penas, naquele outro. E não suporto alguns pimpões titulares de blog que fazem questão de declinar suas patentes e títulos acadêmicos como se isto significasse algo mais que tola vaidade. Sem patente ou título, eles não são nada, não conseguem viver. Quanto a esses, que são mui poucos, não creio na contagem de seus blogs fofoqueiros, pois o mais fácil que há é acelerar os números para engrupir o leitor desatento. Demais disso, seus assuntos ou são de terceiros ou se apresentam empolados e/ou facciosos em demasia, a ponto de provocar vômito no leitor sério. Enfim, se de um lado há quem defenda idéias e se arrisque a desferir críticas sérias, de outro há os que efetivamente se importam com elas, até mesmo os criticados. Afora isto, tudo é encenação afastada da prática resumida no respeito aos semelhantes, em especial aos que se encontram numa linha hierárquica ao rés do chão social ou institucional.
Neste ponto, é possível que algum leitor esteja especulando quem são, afinal, os tais pimpões. Ora, se o leitor for atento, nem os preciso nominar, é só visitar alguns blogs e concluir quem são esses pomposos personagens que vivem da ficção como se fosse realidade. Claro que cada visita que recebem poderá ser multiplicada por “x” e gerar uma progressão geométrica no contador. Não tem problema, o que importa é a qualidade da escrita e o discernimento dos visitantes. Portanto, não tomarei do leitor o direito de desvelar tão simples mistério.
Agora é hora de falar dos anônimos que comentam à larga em muitos blogs. Sobre eles, que no meu blog não sobrevivem mais que meu tempo gasto em deletá-los, basta lembrar o mestre Arthur Schopenhauer: “Nomeia-te, velhaco! Pois quem é honesto não ataca sob máscara e capuz pessoas que passeiam com a face descoberta (...). Atacar anonimamente as pessoas que não escrevem de forma anônima é evidentemente uma infâmia.” Sobre os pseudo-eruditos, que rebuscam seus textos até torná-los incompreensíveis, o mestre os bombardeia à larga, entendendo que eles em nada contribuem para melhorar a vida coletiva (“Não há nada mais fácil do que escrever de maneira que ninguém entenda.”).



Talvez até aqui alguns não tenham alcançado o real sentido deste comentário aparentemente evasivo. Mas isto não importa. Apenas desejo informar a quem interessar que não gosto de futricas nem de injustiças. Sei que me coloco na contramão da realidade e do poder, pois é só a gente ligar a tevê para deparar com programas fofoqueiros do tipo um famoso trocou sua famosa por outra, e vice-versa, como se a sociedade não mais resguardasse os valores familiares que caracterizam a imensa maioria dos brasileiros. Ou então é só a gente abrir um jornal ou uma revista para se atordoar com críticas desferidas por autoridades contra subordinados envolvidos em situações ainda não apuradas. Deste modo insólito, fazem valer na mídia suas precipitadas opiniões, danificando a imagem e a honra das pessoas, como no caso recente da lamentável desavença entre um tenente PM e um policial civil, que culminou na morte do segundo e de uma jovem em local público acessível a qualquer pessoa decente.
Sim, foi demagógica a manifestação dessas autoridades, que, embora empenhadas com vigor no combate ao crime e merecedoras de aplausos, desta vez se situaram acima das leis vigentes no país. Sim, e ao que me parece, desta feita essas pessoas não se preocuparam em separar o joio do trigo... Eu, particularmente, não vejo nelas nem em nenhuma outra autoridade pública legitimidade para tanto, em respeito ao nosso Estado Democrático de Direito. Afinal, compete a uma específica autoridade de polícia judiciária a presidência do Inquérito Policial, e esta peça inquisitorial há de ser isenta de paixões ou de pressões vindas do topo. Mais que isso, compete ao Ministério Público opinar com absoluta e intransferível exclusividade sobre delitos, e ao Poder Judiciário concluir sobre algum fato supostamente criminoso do tipo que aqui se comenta, e somente após decisão soberana do júri. A partir do juízo de absolvição ou de reprovação seguida de condenação, pode-se imaginar a legitimidade de alguma opinião desfavorável ao réu. Sem esse trâmite, parece até ditadura! E eu, como fui vítima de igual inconseqüência e irresponsabilidade no passado, vejo-me no direito de manifestar a minha indignação, o que sempre farei contra tudo e todos ante qualquer injustiça, sejam amigos ou inimigos.




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

"Homo homini lúpus"

Thomas Hobbes







“O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.” (O Espelho – Machado de Assis)



Na cultura capitalista ocidental o idoso raramente é respeitado pelos jovens. Tanto que necessita até de leis para manter seus espaços na vida social. A decrepitude nesse nosso pedaço de mundo parece doença, e o máximo que se vê é o velho amparado por parentes mais novos, embora não seja incomum a própria família querer livrar-se de seus velhos. Os asilos e hospitais estão aí a provar, sem falar no que não se sabe sobre o maltrato a velhos dentro dos seus próprios “lares”...
Um asilo emblemático é a Casa dos Artistas. Lá se encontram pessoas cujo talento foi antes proclamado em largos espaços midiáticos. Mas lá não há glamour, e são poucos os atuais famosos que dedicam parte do seu tempo e algum dinheiro para manter um mínimo de dignidade, no final da vida, de artistas que mobilizaram multidões no passado. No mundo do futebol, o fenômeno do descaso é igualmente marcante. Quantos craques notórios morreram à míngua? Exemplos?... Basta um: Mané Garrincha. Sem comentários...
Restrita a mesma realidade às instituições públicas e particulares, é um absurdo o abandono dos idosos que nelas prestaram relevantes serviços durante toda a vida. Terminam como trastes entregues à previdência social aguardando a morte, e raros são os que vencem o passar do tempo com o respeito dos mais novos, malgrado o legado intelectual que muita vez lhes deixaram. E assim gerações se sucedem, e o desprezo dos novos pelos velhos aumenta na proporção do crescimento populacional. Pior ainda se observa nas instituições marcadas por rigorosa hierarquia e disciplina: as militares. Também não é preciso muito exemplo, basta a cruel ironia do “general de pijama”, que, em palavras mais claras, já era! Na PMERJ não é diferente...
... Na PMERJ não é diferente, e talvez seja pior que nas organizações militares de maior porte, onde normalmente as interações físicas e intelectuais entre superiores e subordinados são mais dispersas no espaço e no tempo. Sim, quanto menor for a instituição militar, maior é o contato entre seus membros e mais se notam dissensões e vinditas funcionando a pleno vapor, sem que se identifique o início de tudo numa relação de causa e efeito. Na melhor das hipóteses, há o esquecimento, e umas poucas amizades são mantidas em tempos posteriores.
Para aliviar tão crudelíssima cultura, alguns nomes são lembrados em fachadas de quartéis, mas a grande maioria desaparece do ambiente institucional e social até surgir de longe em longe o aviso de que alguém, que se supunha vivo, ao pó tornou. E numa organização como a PMERJ, onde a morte está a mais e mais banalizada, há a deslembrança quase que imediata dos ceifados no exercício da profissão. Nem existe um cemitério institucional a demonstrar à sociedade que não são poucos os militares estaduais que morrem por ela. Não os preservamos na memória pública nem institucional! Nossos heróis são anonimamente sepultados, somem da mente dos colegas de profissão e nem chegam a ser notados pela sociedade. Gado de corte! Só a família não se esquece de que existiu um herói no seu seio. Às vezes, nem isso...
Paradoxal, essa cultura do desprezo dos novos pelos velhos, considerando-se como “novos” os que ainda militam no serviço ativo. Na categoria de “velhos” poder-se-iam enquadrar os inativos e seus familiares e os descendentes e ascendentes dos mortos. Um paradoxo, sim, pois os ativos de hoje pagarão igual preço no futuro. A arrogância de seus narizes empinados lhes será cobrada em dobro, e assim sucessivamente. Resumem-se, os que vivenciam o imediatismo do poder, ao gozo efêmero de seu delicioso momento, cuidando mais de vaidades e menos do interesse geral para o qual foram destinados. Não percebem que o poder que receberam rapidamente passará. São uns tolos! Eu, que sou velho, mas me safei desse ostracismo por amar os novos, e por me insurgir de quando em quando contra os poderosos que me antecederam ou sucederam, sou exceção: possuo o corpo cansado e retalhado por bisturis, sim, abundo disfunções orgânicas, sim, mas as minhas idéias são livres como as do canário machadiano.
Vejo hoje, porém, muitos “velhos baluartes” vivenciando a doença e até o merecido desprezo daqueles novos que não souberam respeitar, e esses novos igualmente envelhecem sem respeitar os mais novos, e por isso serão futuramente ignorados, desgraça que se poderia ilustrar com a invencível alegoria de Thomas Hobbes: “O homem é lobo do homem.”








terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Novo Estatuto da PMERJ VI

Apenas uma opinião...

Sei agora que há uma comissão interna elaborando um novo texto de estatuto para a PMERJ. Notícia alvissareira! Bom momento para criarmos nossa própria identidade, como outras coirmãs já o fizeram. Há muito tempo eu espero por iniciativa tão importante como esta. Estou certo de que a corporação possui notáveis juristas, capazes de elaborar textos legislativos primorosos. Não sei, porém, se o mundo acadêmico, malgrado sua enorme contribuição no aperfeiçoamento dos oficiais intermediários e superiores ao longo das últimas décadas, foi capaz de vencer a cultura excessivamente militarizada que nos era imposta como autêntica “lavagem cerebral”; nem sei se os insignes professores universitários romperam nossas amarras nietzschianas da “moral de rebanho”. Sim, pois, na verdade, costumamos ser mais realistas que o rei, o nosso rigor militar de “força auxiliar reserva” costuma superar o do nosso “patrão”: o Exército Brasileiro. Posto que lá, com certeza, impera a disciplina consciente entre superiores e subordinados e o patriotismo é gravado em ouro nos corações verdes-olivas. O mesmo se pode dizer da Marinha e da Aeronáutica, compondo com o Exército Brasileiro as Forças Armadas, estas que não se imiscuem em política e se mantêm altivas ante qualquer poder político vigente. Situam-se acima das ideologias e reagiram quando a democracia pátria correu o perigo de se tornar um totalitarismo de esquerda ao modo cubano. Não se trata de julgar aqui o tempo em que os militares permaneceram no poder. Para os que gostam de totalitarismo de esquerda, foi tempo demais; para os que gostam do totalitarismo de direita, foi pouco tempo; para os verdadeiros democratas, talvez o tempo não importe; já passou, é passado. Importa o presente...
Sim, importa o presente, e com ele há a nova ordem constitucional democrática, de certo modo ainda parcialmente ignorada pela legislação original da corporação, o que resulta em indigesto aleatorismo a sua aplicação no dia-a-dia da tropa. Não me refiro somente à disciplina, que antes de tudo deve primar pela autoconsciência e amor corporativo, mas também aos subjetivos critérios de avaliação dos concorrentes à promoção, dentre outras variáveis que geram ou interferem nos resultados práticos da missão de manutenção da ordem pública, objetivo precípuo que se situa acima das razões e das paixões dos integrantes da PMERJ: um dever assumido sob juramento. Mas os óbices são vários, eis onde reside o problema a ser vencido pelos ilustres componentes da comissão de elaboração do novo estatuto...
Conciliar tantas variáveis conflitantes (políticas, constitucionais, legais, ambientais, profissionais, pessoais, familiares, tecnológicas, estruturais etc.) numa lei que se deve pretender orgânica em todos os seus matizes jurídico-administrativo-militarizados não será tarefa tão simples assim. Demais disso, o texto enfrentará o proselitismo do Poder Legislativo, sempre eloqüente e dado ao engodo do “tudo-pelo-voto-do-PM”. Tarefa complexa, sem dúvida, reescrever o estatuto (espero que em Lei Complementar, como sói ser toda Lei Orgânica das instituições de direito público). Reger orquestra tão diferenciada nos seus instrumentais e nas vozes do seu imenso coral humano não é, com efeito, tarefa simples. Há muitos instrumentos novos e enferrujados, muitas vozes afinadas e desafinadas, muitos músicos e cantores bons e ruins. O estatuto, apesar disso, há de ser uma ótima partitura, e aqui me indago...
... Aqui me indago se, antes de firmar os conceitos e definições do mundo jurídico-administrativo-militar, os fundamentos da PM como organização composta, no mínimo, por estrutura, pessoas, tarefas, tecnologia e ambiente serão avaliados à luz de outros ramos do saber humano, em especial da Teoria Geral da Administração, da Sociologia, da Medicina, da Antropologia e da Psicologia. Indago-me se haverá algum momento de participação da tropa na identificação de anseios e valores individuais para associá-los harmoniosamente aos anseios e valores sociais, como nos informa a Teoria do Planejamento Organizacional.
Creio, todavia, que nada disso pode causar estranheza aos nossos ilustres membros da comissão nem aos demais oficiais superiores da PMERJ, No fim de contas, trata-se de conhecimento que desde muitos anos se integra aos programas de concurso interno e à grade curricular dos cursos mais importantes da corporação (CSP e CAO). A questão, aliás, não é nem de saber de mais ou de menos, mas de admitir a necessidade de ajuda externa, em especial do supracitado mundo acadêmico, que poderá encetar pesquisas de campo e contribuir no diagnóstico prévio de cada dispositivo do novo estatuto para concluir sobre o seu impacto interno e externo.
Por derradeiro, e sem negar meu entusiasmo com a corajosa iniciativa das autoridades dirigentes da PMERJ, devo manifestar minha livre opinião de que o estatuto deva ser mais que uma fria lei a ser cumprida ao pé da letra; ele deve, antes de tudo, ser um norteador dinâmico de cada integrante da corporação (ativos, inativos e pensionistas): o nosso Público Interno. A isto se dá o nome de “participação”, o que implica ouvir cada segmento interno e identificar seus anseios e valores para atendê-los no que for possível, de modo que a nova lei seja, sobretudo, legitimada por seus destinatários, mesmo que não culmine perfeita e ideal. Enfim, o estatuto deve sair de um “forno PM” para a ALERJ como se fora bolo preparado com acurada receita, e não como uma pedra de gelo saída de um “freezer PM”, o que significará apenas o descongelamento do que já se eternizou nas nossas “geleiras internas”. Será que os ilustres membros da comissão pegarão na “chapa quente” do forno?... Creio que sim, pois, afinal, gelo em demasia também queima feito fogo...